Cinema e Argumento

Melhores de 2013 – Direção

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O que o mexicano Alfonso Cuarón faz em Gravidade é algo sobrenatural. Muito mais do que provar que filmes de orçamentos estratosféricos podem sim alcançar as mais variadas plateias com a devida dose de inteligência e boa realização, o diretor também revolucionou a técnica aplicada neste filme. Difícil lembrar a última vez que o espaço foi tão crível e com uma história tão cheia de fluidez e emoção. Cuarón anos atrás já dava dicas de que sabia lidar com a ficção (Filhos da Esperança, mesmo não sendo um filme propriamente sonhador quanto ao futuro do planeta, subvertia muito neste sentido) e não é surpresa que um trabalho de direção tão inteligente como o de Gravidade venha justamente dele. A perfeita sintonia entre todos os setores do filme (da ótima trilha de Steven Price ao desempenho de Sandra Bullock) é responsável por imergir a plateia em uma viagem que certamente não veremos repetida com a mesma excelência  tão cedo. Cuarón definitivamente, depois de tantos trabalhos exemplares, alcançou a indefectibilidade atrás das câmeras.

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OUTROS INDICADOS:

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DENIS VILLENEUVE (Os Suspeitos)

Derrubando a tão corriqueira decepção que se instala em diretores estrangeiros que vão filmar nos Estados Unidos, Denis Villeneuve manteve a sua tradicional disciplina e intensidade ao realizar Os Suspeitos. Equilibrando com a devida inteligência uma história tensa e realista, ele surpreende com uma história que nunca subestima a inteligência do espectador ou que tenta parecer mais complexa do que realmente é. Pena que o filme não recebeu a atenção que merecia.

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PAUL THOMAS ANDERSON (O Mestre)

Realizando aquele que é possivelmente o filme menos acessível de sua carreira, Paul Thomas Anderson novamente mostra o porquê é um dos realizadores mais interessantes de sua geração. Não existem concessões em O Mestre, e isto é uma grande qualidade que deve ser creditada inteiramente a Anderson. Fora o elenco excepcional, o diretor fala com firme segurança sobre assuntos complicadíssimos sem escancarar críticas ou tornar o filme didático ao fazer alusões à criação da Cientologia.

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DEREK CIANFRANCE (O Lugar Onde Tudo Termina)

Não é muito complicado encontrar quem critique as transições e os saltos temporais de O Lugar Onde Tudo Termina, mas acho particularmente corajosa a direção de Derek Ciafrance ao contar uma história tão cheia de mudanças e longe de fáceis definições. Ele já havia provado ser um excelente diretor de elenco em Namorados Para Sempre – talento que se repete aqui – mas aqui ainda administra bem uma ambição narrativa que está totalmente de acordo com sua excelência como realizador.

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JACQUES AUDIARD (Ferrugem e Osso)

Jacques Audiard seguiu o caminho contrário ao que muitos diretores escolheriam se tivessem o texto de Ferrugem e Osso em mãos.Nada de choros incontroláveis, melodramas ou uso exagerado de trilha. Ao narrar o relacionamento de um homem bruto que cria sozinho o filho com uma mulher que acaba de perder as pernas em um acidente, o diretor prezou pela sutileza e acertou ao inteligentemente adotar a lógica de que menos é mais.

EM ANOS ANTERIORES: 2012 – Leos Carax (Holy Motors) | 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro) | 2010 – Christopher Nolan (A Origem) | 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?) | 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro) | 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)

Três atores, três filmes… com Wallysson Soares

wallytresDizem que qualquer amizade que dure sete anos tem tudo para se tornar eterna. Se isso for mesmo verdade, já posso afirmar que tenho o Wally como um amigo para a vida toda. Possivelmente uma das minhas primeiras amizades realmente verdadeiras – mesmo morando a quilômetros de distância -, ele, além de ser uma das pessoas mais especiais que já conheci, também compartilha muitas preferências cinematográficas comigo. Indispensável, portanto, a presença dele aqui nesta seção, por motivos pessoais e cinematográficos. Como esperado, concordo com todas as escolhas, que trazem desempenhos simplesmente inesquecíveis. De Tom Hanks em Filadélfia (que também é a minha atuação favorita do ator) a Kate Winslet em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (excepcional, mas um tanto subestimada) sem falar da unanimidade chamada Daniel Day-Lewis em Sangue Negro, a lista do Wally contempla, sem exageros, três dos desempenhos mais completos, complexos e especiais das últimas décadas. Confiram!

Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)
Da mesma forma que o filme do Paul Thomas Anderson está destinado a ser lembrado anos a fio, a atuação que é a alma dessa obra sempre será relembrada perto dos grandes – seja o Jake LaMotta de Robert De Niro ou o Michael Corleone de Al Pacino. Não é por menos. Day-Lewis vai além do mise-en-scène ao encarnar Daniel Plainview, permanecendo contigo longo após o término da metragem. Day-Lewis é soberbo seja nos momentos mais intimistas de silêncio ou nas catárticas sequências que exprimem ira, remorso, ganância ou ódio. Devidos méritos merecem ir ao roteiro, meticulosamente articulado para conferir ao personagem a verossimilhança devida, embebido ainda por diálogos poderosos. A direção, sensível aos ângulos certos e à dimensão característica na qual submerge Plainview, também merece o reconhecimento. Existem muitas oportunidades para Day-Lewis brilhar aqui – e ele arrebata em todas. Assombra e não sai da sua cabeça.

Kate Winslet (Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças)
É fascinante rever esse filme maravilhoso do Michel Gondry, pois a cada revisão algum elemento se sobressai ou uma nova interpretação emerge. Culpa de um roteiro brilhante e uma visão imaginativa. Um dos elementos que sempre hipnotiza e emociona é a performance especial de Winslet como Clementine Kruczynski. As idiossincrasias de Clementine ganham cores maravilhosas com o retrato inspirado da atriz inglesa, talvez a melhor de sua geração. Seu papel aqui é tão divertido quanto desolador. A Clementine de Winslet nos inspira os mesmos sentimentos mistos que leva ao seu relacionamento com Joel Barish (um Jim Carrey igualmente fantástico). É uma oscilação constante entre o sorriso estampado no rosto e o despedaçar de nossos corações. Impossível não se apaixonar por Clementine (e Winslet) a cada revisão, como se fosse a primeira vez.

Tom Hanks (Filadélfia)
Alguns filmes carregam consigo uma importância ímpar que vai muito além de quesitos cinematográficos propriamente ditos. Filadélfia é o caso de uma obra sob certo ponto de vista convencional em abordagem e técnica. Por outro lado, narra uma história forte e no epicentro desse retrato está Tom Hanks e sua performance singular como Andrew Beckett, um advogado bem sucedido que passa por um exaustivo processo judicial após ser diagnosticado com o vírus da AIDS. O filme é conduzido com simplicidade e sensibilidade, enquanto as sutilezas da atuação de Hanks empoderam a história de tal maneira que se torna impossível fugir de seu enlace. Hanks vai muito além da perda de peso para o papel. Talvez o auge da carreira do ator – e uma das mais emocionantes cenas do cinema – seja o momento no qual descreve a ópera “La Mamma Morta” para o personagem de Denzel Washington, enquanto esta toca ao fundo. Um trabalho incrível de nuances e sutilezas.

Melhores de 2013 – Elenco

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O cinema está cheio de filmes com elencos excepcionais mas que não sabem explorar o melhor de seus atores. Tomem como exemplo o recente e pavoroso O Mordomo da Casa Branca, que sequer conseguia dar um momento especial para qualquer um dos grandes profissionais que conseguiu reunir. E é justamente o oposto o que acontece com Álbum de Família. Poucas vezes – pelo menos nos últimos anos -, tivemos a oportunidade de ver tantos atores talentosos em perfeita sintonia e com as devidas chances. Este é o maior trunfo do filme de John Wells: proporcionar ao menos uma cena de destaque para que cada personagem tenha seu brilho e sua contribuição para a construção dramática da história. Ninguém fica de fora neste resultado. Dos celebrados desempenhos de Meryl Streep e Julia Roberts – ambas excepcionais – às breves mas muito sentimentais passagens de Benedict Cumberbatch e até mesmo Sam Shepard, o elenco de Álbum de Família é um modelo a ser seguido.

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OUTROS INDICADOS:

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O MESTRE

Os desempenhos mais viscerais de 2013 estão em O Mestre. Se Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman estão explosivos em cena com personagens fortes e memoráveis, também não dá para esquecer Amy Adams, com um papel que pouco a pouco desconstrói a sua já reconhecida fama de mocinha ingênua. O trio impressiona a todo minuto e, sob o comando de Paul Thomas Anderson, dá total conta da história complexa e difícil. Impossível ficar diferente aos desempenhos dos atores, todos entregando um dos melhores momentos de suas respectivas carreiras.

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O QUE SE MOVE

Desde o magnífico As Horas, de 2002, um trio de atrizes não comovia tanto como em O Que Se Move. É bem verdade que o filme do capixaba Caetano Gotardo está longe de ser uma experiência acessível, mas para quem compra a ideia desta história de perdas que atinge seu ápice emocional em sequências musicais (com as atrizes cantando ao vivo em estúdio) certamente se emocionará bastante. Andrea Marquee, Cida Moreira e Fernanda Vianna mergulharam de corpo em alma em suas sofridas personagens – todas mães que precisam lidar com algum tipo de perda – e o resultado não é menos que excepcional.

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OS SUSPEITOS

Um grande filme que sabe-se lá por quê também foi um dos mais subestimados do ano que passou, Os Suspeitos, muito além de sua contundente história e do seu preciso trabalho de direção, também tem nos atores uma de suas principais forças. Enquanto Hugh Jackman outra vez adiciona um marcante desempenho para seu currículo, Jake Gyllenhaal prova que deveria dar uma atenção maior a papeis consistentes e minuciosos como o que tem neste filme. Ainda no suporte, Maria Bello, Viola Davis, Jeffrey Wright e, principalmente, Melissa Leo completam o time com louvor.

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TATUAGEM

É contagiante a alegria e irreverência passada por toda a trupe do grupo Chão de Estrelas em Tatuagem. Mas também é igualmente envolvente os dramas individuais dos personagens. Enquanto Rodrigo García praticamente rouba a cena ao equilibrar magnificamente bem os exageros de sua Paulete, o jovem Jesuíta Barbosa desponta como uma das grandes promessas de sua geração e Irandhir Santos mais uma vez prova estar na lista dos melhores intérpretes atuais do cinema nacional. Outro exemplar trabalho de elenco vindo desta que é a melhor safra cinematográfica do Brasil nos últimos anos.

EM ANOS ANTERIORES: 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

42º Festival de Cinema de Gramado apresenta filmes concorrentes

Com o falecimento de José Wilker, a diretora e produtora argentina Eva Piwowarski agora integra a nova curadoria ao lado de Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Com o falecimento de José Wilker, a diretora e produtora argentina Eva Piwowarski agora integra a nova curadoria ao lado de Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Foram revelados na manhã desta quarta-feira (02), os concorrentes do 42º Festival de Cinema de Gramado, que será realizado entre os dias 8 e 16 de agosto. A lista contempla oito longas brasileiros, cinco longas latinos, 17 curtas gaúchos (Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema) e 15 curtas brasileiros. Pela primeira vez na história, o evento distribuirá prêmios em dinheiro para os vencedores, com a distribuição de 275 mil reais.

Mais dois ineditismos marcam esta edição. O primeiro é a presença de uma estrangeira entre os curadores. Com o falecimento de José Wilker, a curadoria foi repensada e agora quem completa o trio ao lado de Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho é a diretora e produtora argentina Eva Piwowarski, fortalecendo a presença latina do Festival. A segunda novidade inédita é uma programação exclusiva para os moradores de Gramado, que, durante os três dias que antecedem a abertura oficial do evento, assistirão a longas consagrados no Festival.

Em Infância, de Domingos Oliveira, Fernanda Montengro é a matriarca de uma nobre família carioca dos anos 1950.

Em Infância, de Domingos Oliveira, Fernanda Montengro é a matriarca de uma nobre família carioca dos anos 1950.

Rubens Ewald Filho afirma que esta é a melhor seleção de longas do Festival de Cinema de Gramado em anos. Alguns filmes certamente despontam como promessas. Infância é um deles. Não tanto por ser de Domingos Oliveira – que deve um grande trabalho há anos -, mas por trazer a unânime Fernanda Montenegro como a matriarca de uma nobre família carioca dos anos 1950. Segundo o próprio curador, é bom ficar de olho: o papel da veterana está longe de ser apenas uma pequena participação afetuosa.

Sinfonia da Necrópole, primeiro longa de Juliana Rojas, também se destaca. Além de ser um musical com história bastante atípica (um aprendiz de coveiro que não sabe lidar com a morte!), vem desta promissora cineasta, que já fez trabalho muito interessante em curtas, como o recente e quase macabro O Duplo, que dirigiu em parceria com Marco Dutra. Por falar em musical (de ficção, não documental), outro integra a lista: A Luneta do Tempo, trabalho de estreia do músico Alceu Valença. Passado no sertão, o filme traz Irandhir Santos em uma ciranda de encontros e desencontros, traições e amores, crimes e castigos.

Ainda completam a listas filmes de cineastas como Marcelo Galvão (celebrado em Gramado com Colegas), Tabajara Ruas e Helvécio Ratton. O ator Caco Ciocler debuta atrás das câmeras com Esse Viver Ninguém Me Tira e Vicente Ferraz concorre com A Estrada 47. Já entre os latinos, a lista foi dos tradicionais seis para cinco concorrentes. Mas a curadora Eva Piwowarski justifica, alegando que a lista não é maior porque os outros concorrentes não se equipariam à grande qualidade destes cinco – o que certamente, segundo ela, traria uma perceptível discrepância entre os filmes. Mais informações no site http://www.festivaldegramado.net

Confira a lista completa de filmes concorrentes:

LONGAS BRASILEIROS
A Despedida (SP)
A Estrada 47 (RJ)
A Luneta do Tempo (RJ)
Esse Viver Ninguém Me Tira (DF)
Infância (RJ)
O Segredo dos Diamantes (MG)
Os Senhores da Guerra (RS)
Sinfonia da Necrópole (SP)

LONGAS ESTRANGEIROS
Algunos Dias Sin Musica (Argentina/Brasil)
El Critico (Argentina)
El Lugar Del Hijo (Uruguai)
Esclavo de Dios (Venezuela)
Las Analfabetas (Chile)

CURTAS BRASILEIROS
O Que Fica (SP)
História Natural (PE)
Carranca (BA)
La Llamada (SP)
A Pequena Vendedora de Fósforos (RS)
Max Uber (MG)
Sem Título #1: Dance of Leitfossil (SP)
Compêndio (SP)
Carta a Uma Jovem Cineasta (SC)
O Clube (RJ)
Contínuo (PB)
Castillo y el Armado (RS)
Brasil (PR)
Se Essa Lua Fosse Minha (RS)
O Coração do Príncipe (SP)

CURTAS GAÚCHOS (Prêmio Assembleia Legislativa)
A Pequena Vendedora de Fósforos
Bacon ou Rúcula
Caçador
Casa de Pompas
Castillo y el Armado
Descompasso
Domingo de Marta
Espelhos
Gildíssima
Hotel Farrapos
Linda, uma história horrível
O Encontro
O que ficou Para Trás
O Relâmpago e a Febre
Os Meninos Perdidos
Servido com Candura
Sioma – O Papel da Fotografia

Malévola

Oh, dear! What an awkward situation…

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Direção: Robert Stromberg

Roteiro: Linda Woolverton, baseado nas histórias La Belle au Bois Dormant, de Charles Perrault, e Little Briar Rose, de Jacob Grimm e Wilhelm Grimm, e no filme A Bela Adormecida, de  Clyde Geronimi

Elenco: Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley, Brenton Thwaites, Kenneth Cranham, Sarah Flind, Hannah New, Isobelle Molloy, Michael Higgins

Maleficent, EUA, 2014, Aventura, 97 minutos

Sinopse: Baseado no conto da Bela Adormecida, o filme conta a história de Malévola (Angelina Jolie), a protetora do reino dos Moors. Desde pequena, esta garota com chifres e asas mantém a paz entre dois reinos diferentes, até se apaixonar pelo garoto Stefan (Sharlto Copley). Os dois iniciam um romance, mas Stefan tem a ambição de se tornar líder do reino vizinho, e abandona Malévola para conquistar seus planos. A garota torna-se uma mulher vingativa e amarga, que decide amaldiçoar a filha recém-nascida de Stefan, Aurora (Elle Fanning). Aos poucos, no entanto, Malévola começa a desenvolver sentimentos de amizade em relação à jovem e pura Aurora. (Adoro Cinema)

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Antes de Malévola se tornar a exceção, esta nova onda de adaptações live action de clássicos infantis nunca havia chegado perto de se justificar – nem mesmo em termos de entretenimento. Filmes como o pavoroso A Garota da Capa Vermelha (releitura de Chapeuzinho Vermelho) e outros tantos como João e Maria: Caçadores de Bruxas e Branca de Neve e o Caçador não foram levados a sério por ninguém, o que não criava boas expectativas para este novo filme estrelado por Angelina Jolie. Mas Malévola se revelou um interessante acerto dentro deste mar de produções que variavam do pavoroso ao irregular. Não que o trabalho de estreia de Robert Stromberg como diretor seja um arraso – longe disso -, mas pelo menos vem para provar que é possível sim revirar o baú de histórias infantis já consagradas com uma boa dose de entretenimento e novidades.

O primeiro acerto de Malévola é escolher contar a clássica história de A Bela Adormecida a partir de um outro ponto de vista: o da vilã Malévola. Normalmente, vilões são retratados de forma caricata e unilateral em histórias infantis, mas a verdade é que eles são os personagens mais ricos e interessantes em qualquer circunstância. É grande o número de personagens que ficam na memória por suas maldades e de atores que marcaram época ao abraçar a vilania. Só que também é verdade que são poucos os antagonistas que têm sua “maldade” justificada ou pelo menos colocada em discussão. Desta forma, Malévola surge se destacando logo na concepção:  sinceramente, Elle Fanning está realmente uma graça como a doce Aurora, mas acompanhar 90 minutos de uma história com ela seria insuportável com uma Jolie vilã tão inspirada em cena.

Que bom que tiveram a consciência de colocar a princesinha de escanteio (cuja história não é nem contada paralelamente, sendo mero detalhe mesmo) e entregar o filme todo a Angelina, que raramente tem a história fora de seu alcance. Sem dúvida, é o grande momento da atriz em muito tempo, especialmente quando ela estava afastada das delas desde O Turista, realizado em 2010. Poucas vezes ela esteve tão imponente e marcante em cena, tanto em termos de beleza quanto de interpretação. Jolie convence e hipnotiza durante todo o arco da personagem, que começa como uma fada comum, depois tem as razões de sua vilania explicada e aos poucos vai se humanizando – mas sem nunca perder a necessária acidez. Sem dúvida é um novo êxito recente da Disney, muito esperta ao dar boas chances para Jolie, trazendo-lhe ainda bons figurinos, maquiagem eficiente e momentos realmente de rainha.

Dizem que a protagonista carrega Malévola nas costas – o que não deixa de ser compreensível para quem esperava mais do resultado -, mas o filme tem acertos inegáveis, o que inclui a parte técnica com ótimos efeitos visuais e uma concepção visual bastante satisfatória. Funciona ver a história de um outro lado, fazendo com que nada pareça repetição ou reciclagem, e sim algo novo e original. O roteiro uma vez ou outra carece de algo mais consistente que vá além do poder de sua protagonista, mas a proposta está sempre a favor do filme. Somente dois aspectos são realmente incômodos. O primeiro deles é o trio de fadas formado por Imelda Staunton, Juno Temple e Lesley Manville. É evidente que elas estão ali para divertir, mas o filme as subutiliza com piadas que se limitam a situações de assoprar farinha – algo que o Chaves já fazia com o Kiko décadas atrás!

Porém, o erro mais grave de Malévola é errar conceitualmente naquilo que se propõe a subverter com a protagonista: a vilania. Para mostrar que Malévola não é a vilã radical que pintaram durante décadas e que ela tem suas razões para ser o que é, o roteiro ironicamente transfere toda a maldade unidimensional para o personagem vivido por Sharlto Copley. Ora, se o filme de Stromberg tem como diferencial mostrar que nem todo vilão carrega tal título sem razão, não há sentido em colocar Copley justamente como uma figura má sem explicações ou aprofundamentos. Subverte de um lado, mas repete o erro de outro. Por isso, este é um problema que simplesmente não poderia existir em um filme que tem um conceito tão definido para sua protagonista.

A diversão e a sensação de acerto não são, no entanto, prejudicadas por estes tropeços, nem mesmo quando eles são embalados por uma trilha surpreendentemente sem inspiração do veterano James Newton Howard. A história felizmente sobrevive, provando que histórias live action derivadas de clássicos infantis podem sim render para crianças e adultos. Malévola é mais um acerto da Disney, estúdio que parece retomar uma excelente fase (recentemente Frozen revitalizou o gênero das animações e ainda chegou entre as cinco maiores bilheterias da história!), e, principalmente, uma ótima oportunidade para Angelina Jolie voltar a brilhar. E o melhor de tudo: o filme está ciente que precisa dar todas as chances para ela aproveitar cada momento.