Cinema e Argumento

Em Gramado #3: extremos de cinema

Nelson Xavier e Juliana Paes são os protagonistas de A Despedida, desde já o filme a ser batido no 42º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Nelson Xavier e Juliana Paes são os protagonistas de A Despedida, desde já o filme a ser batido no 42º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

A primeira noite do 42º Festival de Cinema de Gramado começou com diversos extremos, especialmente dentro da sala de cinema. Se Bruno Gagliasso e Regiane Alves não foram páreos para o furacão de beleza e simpatia de Juliana Paes no tapete vermelho, o mesmo pode ser dito sobre seus respectivos filmes. Isolados, o longa de abertura, não é o que podemos considerar um desastre, mas é o exemplar que reúne as maiores obviedades de um filme do gênero. A premissa por si só já é repleta de clichês: o psiquiatra que se apaixona pela paciente e que, tentando curá-la, resolve passar uma temporada em uma casa no meio do mato onde vem acontecendo uma série de assassinatos.

Os problemas de Isolados estão por todos os cantos. Tomás Portella, que já foi assistente de direção de nomes como Fernando Meirelles e Guel Arraes, apresenta uma direção que frequentemente cai nas armadilhas mais tradicionais deste estilo de história. Fora os sustos fáceis, os flashbacks para mastigar as peças se encaixando e a forçada reviravolta final (que até seria interessante 15 anos atrás), o longa também exagera na trilha sonora – um problema mais do que corriqueiro no cinema brasileiro -, e em momento algum é ajudado pelo fraquíssimo roteiro de Mariana Vielmond, filha de José Wilker. O saudoso ator, por sinal, tem apenas uma ponta no filme – o que impossibilita até que Isolados seja um filme afetuoso no sentido de despedida.

Por falar em despedida, o evento já teve o seu primeiro grande filme. Dirigido por Marcelo Galvão, A Despedida é simplesmente superlativo e, desde já, o título a ser batido pelos próximos concorrentes. Muito mais do que a total entrega de Nelson Xavier (aqui perfeito e em sua melhor forma) e a total desglamourização de Juliana Paes (em desempenho surpreendente), o filme de Galvão é tristíssimo ao mostrar as verdades do envelhecimento, mas ao mesmo tempo revigorante sem forçar a barra. E o melhor de tudo: se, nos primeiros momentos, a relação de Almirante (Xavier) com Fátima (Paes) dava indícios de que poderia soar implausível devido a diferença de 55 anos de idade entre eles, logo tudo vai por água abaixo quando os dois contracenam. É impossível questionar o relacionamento dos dois tamanha a sintonia dos atores.

Ou seja, se muitos torceram o nariz para Colegas, o último trabalho do diretor, não há como se distanciar de A Despedida. É impressionante a forma como o filme é ao mesmo tempo simples e inventivo em seus mínimos detalhes. Os momentos iniciais são um assombro em termos de direção. Nada aqui se sobrepõe e A Despedida é, de fato, um filme de equipe. Há tempo para se impressionar separadamente com Xavier e Paes, para se divertir e se emocionar com as inúmeras passagens genuinamente reflexivas (“se a aparência explicasse a essência, o sabor não era necessário”) e para, ao final de tudo, refletir sobre a nossa impotência perante a finitude que a vida nos impõe dia a dia. Bravo!

Em Gramado #2: os futuros cineastas de Gramado

Gustavo Dutra e Bruno Rafael dos Santos com suas credenciais antes da exibição dos curtas no Palácio dos Festivais. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Gustavo Dutra e Bruno Rafael dos Santos com suas credenciais antes da exibição dos curtas no Palácio dos Festivais. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

A segunda e última noite da avant première para a comunidade Gramadense chegou a ser emocionante. As estrelas da noite? Os alunos do projeto Educavídeo, realizado em escolas da cidade e responsável por ensinar dezenas de crianças a fazer cinema. A iniciativa é, sem dúvida, uma herança do evento, provando que Gramado, mesmo não sendo um polo cinematográfico ou uma cidade acadêmica neste sentido, já planta suas sementes em relação ao cinema na comunidade.

É a primeira vez que os alunos assistem aos seus curtas em uma sala de cinema. Antes nervosos, eles, após entrarem no Palácio, foram tomados pela naturalidade típica das crianças, já que foram várias as risadas e os aplausos realmente genuínos para aqueles singelos mas afetivos curtas. Uma recepção muito mais calorosa e desprovida de preconceitos, diga-se de passagem, do que as habituais plateias do evento, sempre tão econômicas em palmas e até mesmo gélidas em suas recepções aos longas em competição.

Antes da sessão, tive a oportunidade de conversar com dois alunos entusiasmados com os resultados do projeto: os jovens Gustavo Dutra e Bruno Rafael dos Santos. Dutra, diretor do curta Cybervingança, diz que passou a assistir filmes de outra maneira depois de fazer parte do Educavídeo. “Fazer um filme é muito mais difícil do que eu pensava”, contou o garoto, que também revelou que a montagem é a sua etapa favorita na hora da realização de um longa. “E de quebra ainda tenho o apoio dos meus pais, que dizem que não estou na rua fazendo bobagem”, brincou o garoto.

Com a exibição no Palácio dos Festivais, onde todos os participantes do projeto ganharam um Kikito de chocolate, o 42º Festival de Cinema de Gramado ainda contou com uma boa nova para o Educavídeo: a doação de uma câmera da Nikon, apoiadora do Festival. A sessão fechou com chave de ouro esta simbólica programação especial para os gramadenses, que, daqui em diante, podem ter a certeza, desde a mais tenra idade, de que eles, como moradores e aspirantes a cineastas, também são responsáveis pela história do Festival.

Em Gramado #1: Festival para gramadenses

Toda infraestrutura do evento já está disponível para os moradores de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Toda infraestrutura do evento já está disponível para os moradores de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Este ano o Festival de Cinema de Gramado começou mais cedo. E com programação especial para a comunidade gramadense. Aproximar os moradores da cidade deste evento que colocou a cidade no mapa do Brasil é um dos objetivos da Gramadotur, autarquia que agora responde pela realização de todos os eventos público de Gramado. Mesmo com ingresso a preço popular (20 reais), a cidade ainda não participa ativamente do evento – até porque o Palácio dos Festivais tem uma programação limitadíssima ao longo ano, o que não cultiva o hábito de ir ao cinema nos moradores – e esta sensação de que o tapete vermelho e as sessões são elitizados deve ser quebrada pela iniciativa da autarquia.

A adesão na noite desta quarta-feira (06), a primeira do evento, foi bastante positiva, com uma sala de cinema bem sucedida em termos de ocupação para o público-alvo – que ainda pôde passar pelo tapete vermelho e já se sentir no clima do Festival com toda a decoração da cidade. O longa escolhido para abrir esta avant première foi Colegas, de Marcelo Galvão, eleito o melhor filme na edição de 2012. Na época, quando a produção se saiu vitoriosa no Festival, a polêmica foi grande. Existe a desculpa de que O Som ao Redor era mais merecedor – e de fato era -, mas muito torcem o nariz para o longa de Galvão simplesmente por ele ser uma comédia popular, e não algo complexo ou inovador em termos cinematográficos. Só que ninguém admite este “preconceito”, claro.

Gosto bastante de Colegas, que, sem dúvida, foi uma das sessões mais marcantes da minha (curta) vida de cinéfilo até agora. Ainda lembro das infinitas risadas e das diversas palmas ao longo do filme na exibição do Festival em 2012. As referências são jogadas na tela de maneira óbvia, o filme tem suas bobeiras e o roteiro é extremamente frágil, mas existe um calor humano e uma espiritualidade tão forte nesta história protagonizada por três atores com síndrome de down que é difícil não ser contagiado. Despretensioso, alegre e até mesmo contagiante, Colegas foi a escolha certa para abrir a prévia do Festival de Cinema de Gramado para a cidade. O evento abre oficialmente na sexta-feira, com Isolados, último filme do saudoso José Wilker, que, durante dois anos, foi curador do Festival.

Fiquem ligados que, a partir de hoje, trago aqui de Gramado as novidades do evento! =)

Rapidamente

O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve, é, desde já, um dos filmes mais provocativos do ano.

O Homem Duplicado, do canadense Denis Villeneuve, é, desde já, um dos filmes mais provocadores do ano.

ERA UMA VEZ EM NOVA YORK (The Immigrant, 2013, de James Gray): Exibido no último Festival de Paulínia, é um longa cercado de superlativos, já que o próprio diretor James Gray declarou que este é o seu melhor filme e que Marion Cotillard foi a melhor atriz com quem trabalhou até hoje. A crítica também caiu de amores por este longa, e até agora tento entender o porquê de tanta comoção. É fato que Cotillard (que só se aperfeiçoa com o tempo) é o ponto alto da história, mas a trama novelesca não ajuda: a Ewa Cybulska da atriz é basicamente a injustiçada imigrante que apenas quer uma vida melhor, cujo todos os atos “repreensíveis” (como um roubo, por exemplo), são justificados. Além disso, ela é disputada por dois homens completamente diferentes (Joaquin Phoenix e Jeremy Renner) e não consegue escolher entre eles. Um triângulo amoroso, claro, para completar o melodrama. Todo Era Uma Vez Em Nova York é assim: previsível com uma atriz maravilhosa carregando a história nas costas. Não é pela ausência de grandes resoluções ou por reviravoltas que o filme decepciona, mas por simplesmente ser óbvio demais para um diretor que, no seu filme anterior (o belo Amantes), tinha sido tão profundo e contrário a emoções fáceis.

O HOMEM DUPLICADO (Enemy, 2013, de Denis Villeneuve): Foram somente Ensaio Sobre a Cegueira e O Homem Duplicado as obras que José Saramago liberou para adaptação enquanto ainda estava vivo. Se o primeiro, levado às telas com bastante dignidade por Fernando Meirelles, mexeu com várias plateias, O Homem Duplicado repete o feito, mas, dessa vez, sendo muito mais provocativo em diferentes níveis. Dirigido pelo talentoso Denis Villeneuve, é um filme complicado por induzir o espectador a acreditar que é meramente uma história investigativa mas que, na realidade, é sobre uma outra temática só percebida com um olhar extremamente clínico. Por isso, quando o O Homem Duplicado chega ao fim, escancarando uma metáfora que obriga o espectador a procurar significados, a irritação vem à tona – e parte de cada um descobrir até que ponto as discussões levantadas pela tal metáfora são geniais. Mas isso não é razão para depreciar o resto do filme, que tem uma constante atmosfera da angústia, tanto em função da estética (a fotografia amarelada é quase sufocante) quanto da própria condução em termos de direção e roteiro. Um trabalho provocativo – e até bastante diferente de tudo realizado por Villeneuve anteriormente – e que escapa de qualquer indiferença, para o bem ou para o mal.

MUPPETS 2: PROCURADOS E AMADOS (Muppets Most Wanted, 2014, de James Bobin): O primeiro tinha suas fragilidades, mas era um irresistível e ingênuo encontro com os adoráveis personagens, além de ser ajudado por uma trilha sonora contagiante e por vezes emocionante (Pictures in My Head permanece inesquecível neste sentido). Mas o segundo volume não tem o mesmo encanto e talvez seja por isso que as falhas fiquem bem mais evidentes. A sátira ganha maior espaço e o elenco continua nobre (Ricky Gervais! Tina Fey!), com pontas de luxo de estrelas musicais como Lady Gaga e Céline Dion. Só que falta novidade e as piadas estão menos originais, o que faz com que os personagens não segurem a trama sozinhos. Muppets 2: Procurados e Amados, dessa forma, se torna completamente esquecível, em uma uma sessão quase arrastada. É uma sequência desnecessária e que deve selar a trajetória contemporânea de Kermit e sua turma (pelo menos aqui no Brasil, o filme passou muito discretamente pelas salas, ao contrário do antecessor).

PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO (Dawn of the Planet of the Apes, 2014, de Matt Reeves): Em uma primeira análise, pode parecer que a continuação deu um (grande) salto apenas na parte técnica, mas basta prestar a atenção conceitualmente em Planeta dos Macacos: O Confronto para perceber que este é também um longa muito mais maduro em suas ideias. Com a saída de Rupert Wyatt e a entrada de Matt Reeves na direção, não existe mais o extremo de que os humanos são exclusivamente a representação do mal enquanto os macacos são retratados como apenas as vítimas. Nada disso, pelo contrário: a sequência faz questão de mostrar que nenhuma espécime está isenta do corrompimento e da maldade. Com isso, Planeta dos Macacos: O Confronto, mesmo sendo demorado para começar sua história, se torna bastante tenso: é impossível definir definitivamente em quem confiar, principalmente porque os conflitos entre humanos e macacos são bem conduzidos, resultando em consequências bastante sérias e plausíveis. A intensa adrenalina das cenas de ação  ainda ajudam a dar o tom trabalhando com uma parte técnica simplesmente exemplar (efeitos, som e trilha sonora são dignos de aplausos).

A Culpa é das Estrelas

I cannot tell you how thankful I am for our little infinity.

ourstarsposter

Direção: Josh Boone

Roteiro: Michael H. Weber e Scott Neustadter, baseado no romance homônimo de John Green

Elenco: Shailene Woodley, Ansel Elgort, Laura Dern, Sam Trammell, Willem Dafoe, Nat Wolff, Lotte Verbeek, Ana Dela Cruz, Randy Kovitz, David Whalen, Milica Govich, Emily Peachey, Tim Hartman, Jean Brassard

The Fault in Our Stars, EUA, 2014, Drama, 126 minutos

Sinopse: Diagnosticada com câncer, a adolescente Hazel Grace Lancaster (Shailene Woodley) se mantém viva graças a uma droga experimental. Após passar anos lutando com a doença, ela é forçada pelos pais a participar de um grupo de apoio cristão. Lá, conhece Augustus Waters (Ansel Elgort), um rapaz que também sofre com câncer. Os dois possuem visões muito diferentes de suas doenças: Hazel preocupa-se apenas com a dor que poderá causar aos outros, já Augustus sonha em deixar a sua própria marca no mundo. Apesar das diferenças, eles se apaixonam. Juntos, atravessam os principais conflitos da adolescência e do primeiro amor, enquanto lutam para se manter otimistas e fortes um para o outro. (Adoro Cinema)

ourstarsmovie

Logo no primeiro momento de A Culpa é das Estrelas, a protagonista Hazel Grace (Shailene Woodley) afirma que existem várias maneiras de contar uma história triste – e que, na maioria das vezes, o esquema é sempre o mesmo: pessoas bonitas aprendendo lições de vida. Hazel, no entanto, faz questão de se desculpar e avisa que a sua história não será óbvia assim. Pouco eu sabia do bestseller que deu origem ao filme, a não ser que a história era um romance teen e que a menina tinha câncer. Por isso, fui fisgado por essa promessa inicial do filme que apontava para algo diferente e franco – o que muito me interessa. Mas, infelizmente, não é o que ocorre: A Culpa das Estrelas não cumpre a sua promessa e, mesmo sendo um sucesso literário e cinematográfico perfeitamente compreensível, fica bem perto de só entregar banalidades.

Não existe nada de muito novo nesse segundo longa-metragem de Josh Boone, especialmente porque a produção é um filme de viés mais comercial e em parte dirigido a adolescentes, o que faz com que diminuam as chances do diretor fazer algo realmente ousado. Também é por isso que, neste sentido, A Culpa é das Estrelas tem uma repercussão aceitável: existe emoção no filme; simplista, mas existe – e isto é o suficiente para agradar o grande público. Outro problema é que a história fala de câncer, mas o usa apenas como o grande empecilho na vida do casal. A doença não traz reflexões individuais ou sofrimentos relativos à vida em si, por exemplo; é unica e exclusivamente o que impede que o casal fique junto.

Voltando à promessa feita pela protagonista do filme, a teoria de que histórias tristes sempre são encenadas por pessoas bonitas é contraditoriamente aplicada aqui. Vejam o Gus de Ansel Elgort, que, se não é é o clássico galã teen de romances colegiais da Disney, é pelo menos o namorado idealizado, educado, romântico e de frases prontas. Já a Hazel Grace de Shailene Woodley de fato escapa de belezas fáceis, mas, novamente, é quase uma personagem sem defeitos, cujo único olhar dramático que paira em sua personalidade é o fato de não ser feliz com o seu mais novo amor em função do câncer. São pessoas gentis e sonhadoras, que não chegam nem a ter personalidades mais complexas ou difíceis, sendo ainda questionavelmente jovens demais para palavras e reflexões tão “bonitas”.

Todos têm suas vontades realizadas em A Culpa é das Estrelas (até mesmo uma viagem internacional em tempos de dificuldades financeiras na família!), os pais não têm outra função a não ser cuidar dos filhos (e que desperdício de Laura Dern!) e até mesmo o esconderijo que simboliza o horror nazista da vida de Anne Frank vira palco de um beijo romântico misteriosamente aplaudido por todos os visitantes do local. A trilha indie ajuda a dar o clima, e algumas coisas realmente se sobressaem, com destaque para Shailene Woodley, a atriz mais interessante de sua geração, que se diferencia totalmente do papel que desempenhou em Os Descendentes, tirando tudo de letra. Só que no geral A Culpa das Estrelas é mais do mesmo. Não é que o romance tivesse que ser a depressão de Uma Lição de Vida (estrelado por Emma Thompson e possivelmente o filme mais doloroso já realizado sobre câncer), mas que então fosse pelo menos franco e não prometesse logo na abertura algo que não seria capaz de cumprir. É feio mentir – ou simplesmente não conseguir julgar de longe a sua própria história.