Cinema e Argumento

Melhores de 2023: “Monster”, “O Peso da Dor” e o fenômeno Barbenheimer são destaques na lista de vencedores

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Monster, longa japonês de Hirokazu Koreeda, é o melhor filme de 2023, conquistando também as categorias de melhor roteiro original e melhor montagem.

Sou o tipo de espectador com o qual a emoção fala muito mais alto do que a razão. Revisitando o histórico dos meus filmes favoritos ano a ano aqui no blog, percebi que a métrica das minhas escolhas tem sido exatamente essa. Não é diferente agora, quando Aftersun, o meu favorito de 2022, passa o bastão para Monster, o filme que mais me arrebatou em 2023. Surpreendente, muito bem estruturado, com ótimas interpretações e um desfecho tão emocionante quanto poético, o longa do japonês Hirokazu Koreeda leva as categorias de melhor filme, roteiro original e montagem entre os títulos lançados comercialmente no Brasil durante o ano passado.

Em um balanço numérico, há outros três títulos que vencem em três categorias da lista de melhores de 2023: O Peso da Dor, Oppenheimer e Barbie. O primeiro fica com melhor elenco, atriz coadjuvante (uma dobradinha para Ann Dowd e Martha Plimpton) e ator coadjuvante (também uma dupla, dessa vez, formada por Jason Isaacs e Reed Birney). Com essa trinca, reforço que se trata de um filme obrigatório para quem gosta de filmes emoldurados por grandes e profundas interpretações. Já Oppenheimer (melhor trilha sonora, fotografia e som) e Barbie (design de produção, figurino e canção original para “What Was I Made For?”) ficam com categorias técnicas que refletem algumas das razões responsáveis pelo fenômeno Barbenheimer.

No mais, há espaço para o ótimo Assassinos da Lua das Flores em melhor direção e roteiro adaptado, e para duas interpretações que me marcaram instantaneamente: a de Vera Holtz em Tia Virgínia e a do jovem Eden Dambrine em Close. De um lado, Holtz vem com um protagonismo nunca lhe dado antes no cinema, enquanto Dambrine, aos 15 anos de idade, apresentou em Close uma potência que, às vezes, muita gente grande não alcança em toda uma carreira. Por fim, fechando a conta, temos A Baleia em melhor maquiagem e penteados, e Godzilla Minus One em melhores efeitos visuais.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Monster
MELHOR DIREÇÃO: Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR ATRIZ: Vera Holtz (Tia Virgínia)
MELHOR ATOR: Eden Dambrine (Close)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ann Dowd e Martha Plimpton (O Peso da Dor)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Jason Isaacs e Reed Birney (O Peso da Dor)
MELHOR ELENCO: O Peso da Dor
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Monster
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Assassinos da Lua das Flores
MELHOR MONTAGEM: Monster
MELHOR FOTOGRAFIA: Oppenheimer
MELHOR TRILHA SONORA: Oppenheimer
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Barbie
MELHOR FIGURINO: Barbie
MELHOR SOM: Oppenheimer
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “What Was I Made For?” (Barbie)

MELHORES EFEITOS VISUAIS: Godzilla Minus One
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: A Baleia

52º Festival de Cinema de Gramado #1: longas brasileiros prometem disputa acirrada pelo Kikito

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Pasárgada é a estreia de Dira Paes na direção de longas-metragens.

Faltando exatamente um mês para a realização de sua 52ª edição, o Festival de Cinema de Gramado revelou quais títulos disputarão os Kikitos — e a expectativa com a lista divulgada é das melhores. Desde 2009, quando comecei a acompanhar o evento de forma ininterrupta, não lembro de ter visto uma seleção de longas brasileiros tão promissora, a começar pela predominância de olhares femininos, com quatro dos sete filmes sendo dirigido por mulheres. Todas elas são ímpares, de Dira Paes, que chega ao Festival com Pasárgada, sua estreia na direção de longas-metragens, a Anna Muylaert, Eliane Caffé e Juliana Rojas, que desembarcam na cidade serrana para apresentar trabalhos ainda inéditos no Brasil.

O time masculino também é instigante: o premiado Aly Muritiba volta a Gramado com Barba Ensopada de Sangue, adaptação do best-seller de Daniel Galera; Marcos Jorge apresenta Estômago 2: O Poderoso Chef, continuação do filme de 2007; e Erico Rassi, diretor de Comeback, o último longa do saudoso Nelson Xavier, entra na disputa com Oeste Outra Vez, representando Goiás. Juntos, todos os concorrentes da mostra brasileira representam seis estados, o que sempre constrói, independentemente do gosto por cada filme, um panorama interessantíssimo dos diferentes tipos de cinema realizados atualmente no nosso país.

Além das mostras competitivas, que também se desdobram em longas e curtas gaúchos, longas documentais e curtas brasileiros (esses dois últimos ainda por serem divulgados), o Festival exibirá, fora de competição, Motel Destino, longa Karim Aïnouz apresentado recentemente em Cannes, e Virgínia e Adelaide, novo filme de Jorge Furtado, dirigido em parceria com Yasmin Thayná. Furtado, aliás, terá sua carreira celebrada com o Troféu Eduardo Abelin, assim como Matheus Nachtergaele, homenageado com o tradicional Troféu Oscarito. A programação já pode ser conferida no site do Festival, onde também o público pode adquirir os ingressos para as sessões.

Confira abaixo os filmes selecionados até agora para competição e suas respectivas mostras:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Barba Ensopada de Sangue
 (SP), de Aly Muritiba

Cidade; Campo (MS/SP), de Juliana Rojas
O Clube das Mulheres de Negócios (SP), de Anna Muylaert
Estômago 2: O Poderoso Chef (PR), de Marcos Jorge
Filhos do Mangue (RN), de Eliane Caffé
Oeste Outra Vez (GO), de Erico Rassi
Pasárgada (RJ), de Dira Paes

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
Até Que a Música Pare (Antônio Prado/Nova Roma do Sul/Nova Bassano/Veranópolis), de Cristiane Oliveira
Um Corpo Só (Porto Alegre), de Cacá Nazário
Infinimundo (Lajeado/Santa Cruz do Sul/Sinimbu), de Bruno Martins e Diego Müller
Memórias de Um Esclerosado (Porto Alegre), de Thais Fernandes e Rafael Corrêa
A Transformação de Canuto (São Miguel das Missões), de Ariel Kuaray Ortega e Ernesto de Carvalho

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
A Um Gole da Eternidade (Novo Hamburgo), de Camila de Moraes e Paulo Ricardo de Moraes
Cassino (Rio Grande), de Gianluca Cozza
Chibo (Tiradentes do Sul), de Gabriela Poester e Henrique Lahude
Correnteza (Porto Alegre), de Diego Müller e Pablo Müller
Entrega (Porto Alegre), de Luiz Azambuja e Pedro Presser
Envergo Mas Não Quebro (Porto Alegre), de Tatiana Sager
Está Tudo Bem (Porto Alegre), de Rodrigo Herzog
Flor (Esteio), de Joana Bernardes
Janeiro (Porto Alegre), de Boca Migotto
Não Tem Mar Nessa Cidade (Pelotas), de Manu Zilveti
Natal (Santa Maria), de Alan Orlando
Noz Pecã (Itaqui/Porto Alegre), de Aline Gutierres)
Pastrana (Novo Hamburgo), de Melissa Brogni e Gabriel Motta
Posso Contar nos Dedos (Pelotas), de Victória Kaminski
Viagem Para Salvador (São Leopoldo e Porto Alegre), de João Pedro Fiuza
Zagêro (Bagé/Porto Alegre), de Victor Di Marco e Márcio Picoli

Três atores, três filmes… com Bruna Berlitz

tresbrunaberlitzDesde que se conhece por gente, a Bruna Berlitz sempre foi apaixonada por audiovisual. “Minha mente estava constantemente em outro lugar, em histórias que criava na minha cabeça, e nos filmes e desenhos que assistia”, conta. Foi a comunicação, no entanto, que trouxe algumas das suas maiores realizações: atuando na área há mais de seis anos, a Bruna já atuou como cinegrafista, editora de vídeo, produtora de conteúdo e gestora de redes sociais. Ela tem um perfil no Instagram em que fala sobre cinema, e a minha dica é acompanhar, pois tem dica pra todo mundo, dos filmes cults aos filmes pro provão. As escolhas da Bruna para a coluna traduzem, claro, essa proposta plural, com menções tanto a ícones como Audrey Hepburn e Anthony Hopkins quanto a um nome da nova geração, no caso, Lupita Nyong’o. Boa leitura!

Anthony Hopkins (Meu Pai)
Um ator que dispensa apresentações. Mesmo sendo uma escolha óbvia, achei necessário pontuar. Principalmente nesse filme, que me fez chorar, e sentir toda a dor e confusão que o personagem tem de lidar. Um dos retratos mais tristes, e mesmo assim verdadeiros, sobre o alzheimer e a velhice. No qual Anthony retrata de forma muito digna e respeitosa. Toda a teimosia, raiva, tristeza, solidão, e outros sentimentos dão vazão nessa interpretação, que busca nos colocar no lugar de quem não se sente em casa, nem mesmo em sua própria moradia. Um filme que lida com o tempo-espaço de uma maneira muito interessante, e mostra o quanto é desesperador não poder confiar nem mesmo na sua própria mente.

Audrey Hepburn (Um Clarão nas Trevas)
Eu não poderia começar essa lista sem citar a minha queridinha, Audrey Hepburn, que além de ter sido um ser humano incrível, foi uma atriz fenomenal. Que marcou a minha entrada aos filmes clássicos, pois o primeiro que assisti foi um dos seus filmes mais famosos e icônicos, Bonequinha de Luxo. Mas a atuação que destaco de toda sua filmografia, e que considero no meu top 3 aqui, é do filme Um Clarão nas Trevas (1968). Nele, Audrey interpreta uma mulher cega que tem sua casa invadida por criminosos. Entregando uma atuação digna de uma de suas 5 indicações ao Oscar, que foi bem marcada pela complexidade do papel. Sendo um filme que trabalha muito a questão da emoção de cada personagem, e das situações caóticas em cena, ainda mais pelo fato de se passar em um único ambiente. O nervosismo que sentimos está completamente ligado à entrega de Hepburn, que se compromete em retratar o desespero da situação. De uma das formas mais impressionantes que já vi, trazendo com sua atuação o sentimento de claustrofobia e determinação em sobreviver. Suas emoções vão das mais calmas, até as mais horripilantes. Transmitindo um misto de insegurança e ferocidade de uma forma sem igual.

Lupita Nyong’o (Nós)
Lupita é uma força da natureza que eu poderia exaltar pra sempre, mas a sua atuação em Nós (2019) é algo que me apavorou por um bom tempo. Em um filme de um dos meus diretores preferidos, ela brilha com uma atuação visceral, através de uma narrativa complexa e profunda. Atingindo a essência do terror em vários nuances, pois cada vez que penso sobre esse longa percebo diferentes camadas. Lupita consegue transitar por extremos: da felicidade em ser uma mãe de férias com a família; do pavor de ter sua casa ameçada por estranhos; da bizarra e expressiva doppelganger de uma mulher; do absoluto caos e crítica social que se esconde nesse suspense, no qual ela interpreta maravilhosamente a dualidade. Em um estudo sobre como nós nos comportamos em sociedade, diante de privilégios e injustiças, Lupita se destaca como o veículo e símbolo humano nessa disputa.

“The Great Lillian Hall”: Jessica Lange tem muito a dizer, o filme nem tanto

Life’s gone on as if I had never lived at all.

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Direção: Michael Cristofer

Roteiro: Elisabeth Seldes Annacone

Elenco: Jessica Lange, Kathy Bates, Lily Rabe, Pierce Brosnan,  Jesse Williams, Michael Rose, Cindy Hogan, Keith Arthur Bolden, Jonathan Horne, Clayton Landey, Allison Mackie

EUA, 2024, Drama, 110 minutos

Sinopse: À medida que dedica seu coração, alma e tempo na preparação para seu próximo grande papel, a querida estrela da Broadway Lillian Hall (Jessica Lange) se vê surpreendida pela confusão e pelo esquecimento. Lutando contra todas as adversidades para chegar à noite de estreia, enquanto tenta manter suas memórias e identidade que estão desaparecendo, ela enfrenta uma tumultuosa jornada emocional: equilibrar seu desejo pelos holofotes com a dura realidade de sua doença recém-diagnosticada.

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Como fazer um filme sobre demência depois de Meu Pai? Vez ou outra, acontece isso: uma obra eleva tanto a régua para certos temas que as expectativas títulos subsequentes se tornam quase ingratas. The Great Lillian Hall, telefilme que a HBO estreou no último 31 de maio, não deixa de padecer dessa comparação. Enquanto Meu Pai rompia formalidades narrativas e inovava no modo com que colocava o espectador no lugar de seu protagonista, o recente lançamento da HBO cai na vala comum de filmes sobre demência, tanto em forma quanto em discurso.

No centro da história está Lillian Hall (Jessica Lange), consagrada atriz da Broadway que, prestes a estrear um novo espetáculo, começa a vivenciar esquecimentos e alucinações. Em pouco tempo, descobre ter uma doença análoga à demência que lhe tirará a memória e as palavras, pontos cruciais para o exercício da arte de interpretar. O lugar-comum começa por aí: filmes sobre a perda da memória sempre buscam protagonistas cujas profissões dependem da palavra, a exemplo da escritora Iris Murdoch vivida por Judi Dench em Iris e da professora interpretada por Julianne Moore em Para Sempre Alice, papel que lhe valeu o Oscar de melhor atriz.

Os conflitos imaginados pela roteirista Elisabeth Seldes Annacone, em seu primeiro roteiro de longa-metragem são muito protocolares. Da filha ressentida pela ausência de uma mãe ocupada com o trabalho estelar aos esquecimentos que a atriz tenta a esconder a todo custo para provar que pode, sim, seguir como protagonista de seu mais novo espetáculo, The Great Lillian Hall pouco avança na construção da angústia que é ver uma pessoa percebendo seu próprio desaparecimento. A saída encontrada pela roteirista é colocar os esquecimentos convenientemente em momentos cruciais para dosar a urgência da situação — ainda que o fato de Lilian estar com frequência nos palcos seja um bom elemento de tensão, pois, neles, ela se vê socialmente exposta e vulnerável.

Contrastando com o filme em si, Jessica Lange, em papel que quase foi de Meryl Streep, tem muito a dizer no papel da protagonista. A escalação vem em boa hora, uma vez que Lange, a um passo de se tornar EGOT (falta apenas o Grammy), tem tido oportunidades muito melhores em séries e minisséries nos últimos anos (American Horror Story, Feud: Bette and Joan) do que em longas-metragens. A última vez que ela protagonizou um filme foi, salvo engano, em Grey Gardens, curiosamente outro telefilme da HBO, ao lado de Drew Barrymore. Quinze anos sem uma oportunidade dessa dimensão é muito para uma atriz como Lange. Ela reconhece a oportunidade e imprime toda emoção e a dimensão à personagem principal.

A atriz dribla obstáculos que poderiam dificultar o trabalho de intérpretes menos talentosas. Um deles é, além dos já citados, a falta de elementos suficientes para sentirmos que Lillian é, de fato, uma lenda da Broadway, seja por seu background ou pelas próprias referências a seu nome,. Aliás, o próprio showbusiness ganha traços rasteiros, com citações a quotes óbvias (Uma Rua Chamada Pecado, A Malvada, etc.) e até algumas situações que exigem suspensão de crença, como o fato da produtora do espetáculo ter tantas opiniões sobre o estado debilitado de Lillian, mas nunca realmente tomar uma atitude drástica sobre isso. Pois Lange tira de letra e expõe, com emoção e humanidade, todo o talento que o filme diz que sua protagonista tem, assim como suas fragilidades, dúvidas e angústias diante de um inevitável deterioramento. É a interpretação que faz poderia muito bem adaptar o título para The Great Jessica Lange.

“Hacks”, terceira temporada: libertação e egoísmo andam de mãos dadas no ato de se reinventar?

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De personalidades e gerações muito distintas, Deborah Vance (Jean Smart) e Ava Daniels (Hannah Einbeinder) encontram um denominador comum na comédia. A primeira é uma veterana do standup comedy adorada em todo o país, enquanto a segunda tenta dar um novo sentido ao seu dom cômico após um momento de baixa na vida profissional. Hacks, exibida desde 2021 pelo Max, parte do inusitado encontro entre as duas, quando Ava aceita a missão de se tornar roteirista de Deborah, mas, aos poucos, revela outras camadas que vão além de uma mera brincadeira acerca do fazer comédia. E, se há uma que chama atenção, especialmente agora no terceiro ano da série, arrisco dizer que é a da discussão sobre os desafios de se reinventar.

A série criada por Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky é, por definição, o relato de uma jornada de reinvenção — afinal, Deborah contrata Ava justamente porque precisa de novas ideias e perspectivas para se manter revelante em um showbusiness nada generoso com o envelhecimento, muito menos com o das mulheres —, e as duas primeiras temporadas foram exitosas no desenho das personagens e na interação entre elas, que sempre navegaram por altos e baixos em uma relação de amor e ódio no bastidores. Com a ajuda de Ava, Deborah conseguiu se reinventar: subiu mais uma vez aos palcos, reviveu a glória de outrora, voltou a ser sucesso comercial país afora e reposicionou a força de seu nome em um mercado cada vez mais refém de cifras e redes sociais.

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De volta ao topo, o que resta para Deborah e, mais especificamente, para Hacks? A terceira temporada, cujo último episódio foi exibido no dia 30 de maio começa morna, sugerindo que, talvez, a série corra o risco de cair na repetição. A sensação de déjà vu se dá por mais uma vez termos a personagem de Jean Smart atrás de um objetivo aparentemente difícil que, ao final, será contornado — no caso, a cadeira de apresentadora do talk show Late Night, cargo que, segundo Deborah, sempre foi o seu maior sonho profissional. Também há a reaproximação com Ava para manter aquecido aquele que é um dos maiores atrativos da série: o convívio entre as duas.

Mais do mesmo, no final das contas? Não exatamente. A terceira temporada encontrou, ela própria, o seu caminho para uma espécie de reinvenção. Diante de um desafio muito mais difícil do que os anteriores, Deborah deixa aflorar novos medos e inseguranças, além de se deparar com algumas urgências e decisões inerentes ao envelhecimento. É o caso do reencontro com Kathy (J. Smith-Cameron), irmã por quem nutre um irremediável desafeto há décadas e que não faz mais parte da sua vida. Como bem diz Deborah, há certas coisas que, com o passar da idade, já não podem ser deixadas de lado, pois pode ser que não haja mais tempo em vida para que sejam resolvidas.

Só que Hacks também é sobre as travessias de Ava — e, nesta terceira temporada, ela tem uma das mais importantes. Ainda que o seriado tenha seus maiores holofotes na figura de Deborah, é sempre importante prestar atenção em Ava, pois ela, de um jeito ou de outro, representa o olhar do espectador diante de todo enredo. Ora, assim como ela, também temos sentimentos contraditórios em relação a Deborah, uma figura deveras egoísta, autocentrada, sem escrúpulos, entre outras coisas. Como poderíamos ter algum tipo de simpatia ou diversão por ela se não fosse pelos olhos de Ava, que busca sempre encontrar o brilhantismo, a humanidade e a verdade em uma mulher deveras detestável?

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A epítome desses sentimentos contraditórios está em Bulletproof, último episódio da terceira temporada, quando Ava se depara com uma traição de Deborah. O momento é doído porque, estando na posição de Ava, nós também sempre quisemos acreditar que há uma Deborah diferente por trás do esnobismo rico, privilegiado e arrogante de uma comediante famosa. Assim como ela, caímos na lábia da personagem e, por diversos momentos, esquecemos de que Deborah, ao fim e ao cabo, não consegue se colocar no lugar do outro. “É preciso ser egoísta”, afirma a veterana em um dos melhores momentos do episódio, escancarando o lado mesquinho que torcíamos para não fazer mais parte de sua personalidade, o que não deixa de ser uma ilusão, pois, uma vez que Deborah faz tudo o que faz para a filha, por exemplo, como haveria de ser diferente com Ava?

Ao longo dos nove episódios dessa temporada, os roteiristas nos levaram, sim, a crer que a personagem estava em uma rota de transformação. O episódio em que Deborah enfrenta a retaliação de estudantes por suas antigas piadas racistas faz com que a comediante revise muita coisa, bem como quando ela, tomando bons drinks com alguns de seus contemporâneos da profissão, percebe a agressividade de certas piadas destinadas a grupos minoritários, constatação possível apenas pelo convivío próximo com a bissexualidade de Ava. Acontece que Deborah muda bastante, mas, quando o dia chega ao fim, ela continua a mesma em inúmeros aspectos.

Com um texto aparentemente “simples”, Hacks encapsula questões mais afiadas em uma terceira temporada que termina com o melhor gancho da série. Como um todo, a nova leva de episódios nem sempre acertou — Deborah nos palcos faz muita falta, coadjuvantes como o Marcus de Carl Clemons-Hopkins decaíram em aproveitamento e a participação de Helen Hunt foi frustrante —, mas esse componente que enxerga como uma reinvenção particular pode, na verdade, descambar para um ato de egoísmo em que qualquer preço deve ser pago para se alcançar um objetivo particular deu sentido a tudo mostrado na trama até aqui. É tanto sobre showbusiness quanto sobre qualquer mundo corporativo por aí. Hacks, assim como Deborah Vance, conseguiu se reinventar nesse terceiro ano, com a diferença de não apelar ao egoísmo. Pelo contrário: sua cena final é um clímax maduro e esperto para que nós, espectadores, esperemos o quarto ano com a melhor das expectativas.