Cinema e Argumento

Melhores de 2015: indicados

madmaxmelhores

Mad Max: Estrada da Fúria se iguala a O Grande Hotel Budapeste e é o recordista de indicações entre todas as listas de melhores do ano já divulgadas pelo blog

Para não ter atraso, já começamos o ano divulgando a nossa lista com os melhores filmes de 2015. Realizada desde 2009, a premiação anual aqui do blog mais uma vez tem outro recordista de indicações: Mad Max: Estrada da Fúria, que, lembrado em 10 categorias, se iguala a O Grande Hotel Budapeste como o longa com o maior número de indicações entre todas as nossas listas já divulgadas. O filme de George Miller é seguido de pertinho por Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), que concorre em nove categorias.

Tanto Mad Max quanto Birdman disputam o título de melhor filme acompanhados de 45 Anos, Divertida Mente e Que Horas Ela Volta?. Neste ano, um fato inédito: pela primeira vez uma categoria da lista traz seis indicados. No caso, a de melhor atriz. O ano foi tão expressivo para as intérpretes protagonistas que resolvemos abrir uma exceção. A partir de agora, fiquem ligados aqui para conhecer os vencedores! No final do post vocês ainda podem conferir a lista de filmes que assistimos ao longo de 2015 e que consideramos elegíveis à lista (com link para as respectivas críticas publicadas)!

MELHOR FILME
45 Anos
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Divertida Mente

Mad Max: Estrada da Fúria
Que Horas Ela Volta?

MELHOR DIREÇÃO
Alejandro González Iñárritu (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Andrew Haigh (45 Anos)
Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta?)
Bennett Miller (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)
George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria)

MELHOR ATRIZ
Camila Márdila (Que Horas Ela Volta?)
Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria)
Charlotte Rampling (45 Anos)
Juliette Binoche (Acima das Nuvens)
Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite)
Regina Casé (Que Horas Ela Volta?)

MELHOR ATOR
David Oyelowo (Selma: Uma Luta Pela Igualdade)
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
J.K. Simmons (Whiplash: Em Busca da Perfeição)
Steve Carell (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)
Tom Courtenay (45 Anos)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Karine Telles (Que Horas Ela Volta?)
Kristen Stewart (Acima das Nuvens)
Laura Dern (Livre)
Naomi Watts (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Tilda Swinton (Expresso do Amanhã)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Sicario: Terra de Ninguém)
Edward Norton (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Irandhir Santos (Ausência)
Lourenço Mutarelli (Que Horas Ela Volta?)
Mark Ruffalo (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)

MELHOR ELENCO
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo
Mapas Para as Estrelas
Que Horas Ela Volta?
Sicario: Terra de Ninguém

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Acima das Nuvens
Ausência
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Divertida Mente
Que Horas Ela Volta?

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
45 Anos
Dívida de Honra
Expresso do Amanhã
Macbeth: Ambição e Guerra
Whiplash: Em Busca da Perfeição

MELHOR MONTAGEM
Cássia Eller
Livre
Mad Max: Estrada da Fúria
Sicario: Terra de Ninguém

Whiplash: Em Busca da Perfeição

MELHOR FOTOGRAFIA
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Macbeth: Ambição e Guerra
Mad Max: Estrada da Fúria
Sicario: Terra de Ninguém
Sr. Turner

MELHOR TRILHA SONORA
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Dívida de Honra

Mad Max: Estrada da Fúria
Sicario: Terra de Ninguém
A Teoria de Tudo

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Expresso do Amanhã
Macbeth: Ambição e Guerra
Mad Max: Estrada da Fúria
Sr. Turner
Star Wars: O Despertar da Força

MELHOR FIGURINO
Caminhos da Floresta
Cinderela
Macbeth: Ambição e Guerra
Sr. Turner

As Sufragistas

MELHOR EDIÇÃO/MIXAGEM DE SOM
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Mad Max: Estrada da Fúria
Sniper Americano
Star Wars: O Despertar da Força
Whiplash: Em Busca da Perfeição

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Big Eyes” (Grandes Olhos)
“Cold One” (Ricki and the Flash: De Volta Pra Casa)
“Glory” (Selma: Uma Luta Pela Igualdade)
“Love Me Like You Do” (Cinquenta Tons de Cinza)
“Opportunity” (Annie)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Mad Max: Estrada da Fúria
No Coração do Mar
Star Wars: O Despertar da Força

MELHOR MAQUIAGEM
Expresso do Amanhã
Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo
Mad Max: Estrada da Fúria Ler mais

Adeus, 2015! (e as melhores cenas do ano)

Como já é tradição aqui no blog, encerro 2015 escolhendo as melhores cenas do ano. O que muitas delas têm em comum? A simplicidade. Boa parte do que vi de melhor no cinema este ano me pegou muito mais pela emoção do que por ambições estéticas ou narrativas. Já a lista de melhores do ano fica para quando voltarmos em 2016, pois muito ainda deve ser visto para compensar o ano menos acelerado que tive no cinema. Seria injusto finalizá-la agora. Por enquanto, ficamos com a lista das nossas cenas favoritas (todas elencadas aleatoriamente) enquanto fazemos uma breve pausa para recarregar as baterias e colocar os filmes em dia. Logo voltamos a nos encontrar por aqui, combinado? Um bom final de ano a todos e obrigado pela companhia em 2015!

•••

scene45years

Kate e Geoff dançam Smoke Gets in Your Eyes em 45 Anos

O maior testamento do grande desempenho de Charlotte Rampling em 45 Anos está na cena derradeira deste filme escrito e dirigido por Andrew Haigh (do ótimo Weekend). Sem uma palavra sequer, a veterana, muito bem acompanhada por Tom Courtenay, transmite um universo de angústias ao espectador quando dança Smoke Gets in Your Eyes com o marido- e poucas vezes os exatos últimos cinco segundos de um filme foram tão assombrosamente dolorosos.

scenefuryroad

Qualquer perseguição de Mad Max: Estrada da Fúria

Cheio de adrenalina do início ao fim, Mad Max: Estrada da Fúria é um filme de ação simplesmente impecável. Por ser impossível escolher apenas um momento da longa, insana e criativa fuga dos protagonistas em pleno deserto escaldante, nada mais justo do que nomear todas elas. Afinal, vai dizer que teve alguma que não deixou você sem fôlego?

scenewhiplash

Os minutos finais de Whiplash: Em Busca da Perfeição

Em poucos minutos, o diretor Damian Chazelle dá um baile em muitos colegas que passam anos sem chegar a um momento magistral como o que encerra Whiplash: Em Busca da Perfeição. Difícil não suar com os personagens neste clímax que une tudo o que o cinema pode fazer pelos sentidos e encerra com perfeição um longa já repleto de som e fúria.

scenehoras

Val e a piscina em Que Horas Ela Volta?

Quando bem conduzidos, momentos de libertação podem emocionar mais do que qualquer lágrima. No caso específico de Val (Regina Casé), uma mulher que nega a si mesma o livre arbítrio e até o devido extravasamento de sentimentos, o ápice do seu adeus às amarras acontece em uma piscina – e a diretora Anna Muylaert conseguiu extrair o melhor do talento de Regina Casé e do seu próprio como realizadora.

cassiaellerfilme

Maria Eugênia ganha a guarda de Chicão, e Cássia Eller se encerra com O Segundo Sol

O Brasil é referência na produção de documentários, mas Cássia Eller está mesmo entre os mais emocionantes dos últimos anos. Ao longo de tantas passagens tocantes do filme, aquela em que Maria Eugênia ganha a guarda de Chicão na justiça traz o auge da beleza do legado da cantora. E tinha maneira mais bonita de encerrar o filme logo após com depoimentos de amigos e familiares ao som de O Segundo Sol? 

scenebirdman

O voo de Riggan em Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Trabalho mais completo da carreira do mexicano Alejandro González Iñárritu, Birdman está cheio de cenas inovadoras e marcantes, mas o voo de Riggan Thomson (Michael Keaton) pelas ruas de Nova York rumo ao teatro que abriga seu mais novo espetáculo é aquela que você vê e já sabe instantaneamente que é emblemática. Executado com o devido realismo e encantamento, o momento é também pra lá de simbólico na vida do protagonista.

scenewild

Qualquer lembrança envolvendo Bobbi em Livre

É fruto de uma montagem impecável toda a emoção causada pelas lembranças que Cheryl (Reese Witherspoon) tem de sua mãe Bobbi (Laura Dern). Introduzindo com precisão importantes fatos e revelações sobre o passado das duas, as breves memórias aparecem no filme como na própria vida: aqui ou ali, sem razão aparente, onde colocamos uma nova luz sob momentos que antes nos pareciam tão corriqueiros. Em função desse imenso carinho com a importância da figura materna, qualquer lembrança envolvendo a personagem de Laura Dern parte o nosso coração – e, de brinde, você nunca mais sairá ileso da bela El Condor Pasa, de Simon & Garfunkel.

snowpiercer

O primeiro discurso de Mason em Expresso do Amanhã

Com óculos de Margaret Thatcher, pose de tirana e transformada por uma ótima maquiagem, Tilda Swinton é o centro das atenções toda vez que aparece no criativo Expresso do Amanhã. A primeira aparição de Tilda, entretanto, é a mais emblemática porque já nos mostra o quão tosca mas perigosa pode ser uma ditadora como a sua Mason. Qualquer semelhança com tantas figuras reais dessa mesma natureza que já habitaram a história mundial não é mera coincidência.

sceneinsideout

Riley volta para casa em Divertida Mente

Há quem chore horrores com o desfecho do elefante rosa, mas o momento que me derruba mesmo em Divertida Mente é aquele em que a protagonista Riley volta para casa. Consegue me derrubar porque fala, em poucas palavras, sobre milhares de questões de forma muito delicada: o amadurecimento, o valor da família, a importância de sentirmos a tristeza uma vez ou outra, e por aí vai… De cortar o coração! 

scenesicario

O último encontro de Alejandro e Kate em Sicario: Terra de Ninguém

Sicario: Terra de Ninguém é aquele tipo de filme que deixa um peso nas costas do espectador após o fim da sessão. A história contada pelo canadense Dennis Villeneuve é densa por si só, mas o último encontro de Alejandro (Benicio Del Toro) e Kate (Emily Blunt) perturba particularmente por sua veracidade e intensidade ao sintetizar até que ponto o ser humano vai para fazer o que julga ser certo em um ambiente que “possibilita” a justiça pelas próprias mãos.  E o mais angustiante: tudo sem um tom elevado, com uma discrição afiadíssima.

Rapidamente

womangoldmovie

Helen Mirren é sempre ótima, mas A Dama Dourada é um filme sem emoção e que ainda faz com que a atriz tenha que contracenar com um inexpressivo Ryan Reynolds.

BEM CASADOS (idem, 2015, de Aluízio Abranches): Não tem sido bem recebido nem pelo público esta comédia brasileira que, comparada a tantos outros desastres comerciais que tomam as salas de cinema no final de ano, pode até ser considerada uma diversão leve e descompromissada. É bem verdade que a história se esgota muito cedo e que seus rumos são perfeitamente previsíveis, mas o elenco segura bem as pontas, em especial Camila Morgado, que, devidamente bem dirigida, usa os exageros certos para compôr uma personagem deliciosamente maluca. Aluízio Abranches, dirigindo a primeira comédia de sua carreira (para quem não lembra, ele é o responsável pelos “polêmicos” dramas Um Copo de Cólera e Do Começo ao Fim), não consegue esconder que este é um produto sem fins criativos e meramente financiado pelas Lojas Americanas e outras marcas, o que faz com que a história frequentemente ganhe um tom de novela com a escancarada aparição das marcas e situações avulsas criadas apenas para evidenciar os patrocinadores. É novelesco também o modo com que Abranches amarra seu filme nos momentos finais, esquecendo-se que é com o carisma do elenco (que ainda tem Alexandre Borges como um bom canastrão e Bianca Comparato sendo uma graça como a estagiária que se acha subvalorizada) que Bem Casados tem seus momentos mais divertidos.

A DAMA DOURADA (Woman in Gold, 2015, de Simon Curtis): Só foi pela paixão do Screen Actors Guild Awards por Helen Mirren que a veterana conseguiu uma indicação a melhor atriz na lista do prêmio este ano. Ora, é claro que Mirren é sempre ótima, mas é preciso um pouco mais de bom senso na hora de julgar quando ela está de fato superlativa. Em A Dama Dourada ela faz o tema de casa como uma judia que tenta recuperar uma obra de arte que foi tirada de sua família pelos nazistas. Por outro lado, o filme simplesmente não coopera com ela: todos os momentos bons da atriz são méritos exclusivamente de Mirren, e não do roteiro previsível de Alexi Kaye Campbell ou da direção no piloto-automático de Simon Curtis. É meio imperdoável A Dama Dourada ser um filme sem emoção e maior sensibilidade justamente quando conta a história de uma mulher que busca na arte a preservação de seu passado e até mesmo a reparação de seus erros. Agravando a situação, atrapalha a presença de Ryan Reynolds, que nunca foi bom ator e que aqui está naquelas clássicas situações constrangedoras onde um ator veterano dá um baile no principiante. Os flashbacks funcionam porque Tatiana Maslany é ótima atriz e a reconstituição de época está à altura, mas, mesmo falando sobre o nazismo a partir de um ponto de vista diferenciado, A Dama Dourada não acerta na construção dos dramas contemporâneos dos protagonistas, que, conforme manda o roteiro, tentam a todo custo emular a jornada do esse sim caloroso Philomena.

DESCOMPENSADA (Trainwreck, 2015, de Judd Apatow): O gênero que mais tenho dificuldade em discutir e encontrar afinidades com outras pessoas é a comédia. Tomo como maior exemplo Judd Apatow, que tem uma legião de fãs conquistada depois de filmes como O Virgem de 40 Anos e Ligeiramente Grávidos. Humor cada um tem o seu e é por isso que me parece tão difícil falar sobre comédia e dizer que considero Apatow um sujeito pra lá de superestimado. A impressão que sempre tive dele foi reforçada nesse tedioso Descompensada, onde o diretor une forças com Amy Schumer, atriz que agora é a moda do momento e parece tão supervalorizada quanto ele. Schumer, inclusive, é a autora desse roteiro egocêntrico (a protagonista nada mais é do que uma versão dela própria e ainda recebe o nome de… Amy!) sobre uma mulher supostamente orgulhosa de seu status de solteira que transa com quem bem entende. Só que Descompensada tem clichês dos grandes e, como uma história de romance, é extremamente entediante. Fora questões altamente discutíveis sobre o que certos personagens passam a simbolizar (a própria protagonista tem uma virada inadmissível quando, em certo ponto, passa a criticar a poligamia que tanto defendia), o filme se utiliza das saídas mais fáceis para unir um casal que em momento algum parece realmente apaixonado. Haja paciência. Felizmente, Descompensada ainda não tem previsão de lançamento no Brasil.  

A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS (Spy, 2015, de Paul Feig): Paul Feig é um ótimo diretor de comédias, e só não é um dos mais importantes porque não é um contador de histórias objetivo. Na TV, tem um currículo dos mais respeitáveis em comédias (dirigiu The Office, Nurse Jackie, Parks and Recreation e Weeds), enquanto no cinema alçou voo somente em 2011 quando fez o divertidíssimo Missão Madrinha de Casamento. Assim como o filme estrelado por Kristen Wiig, A Espiã Que Sabia de Menos deixa de ser uma experiência mais marcante por ter um roteiro repleto de excessos. Sempre é complicado sustentar uma comédia por mais de duas horas, especialmente essa mais recente com a assinatura do diretor, já que, além das piadas, o roteiro se desenvolve a partir de uma história de investigação. Caso fosse um pouco mais conciso, A Espiã Que Sabia de Menos seria uma comédia imperdível, já que os personagens cativam, as situações são divertidas, as referências funcionamem e até Melissa McCarthy, que ainda não me convenceu de verdade, está em um de seus melhores momentos. E o maior elogio de todos: o filme de Paul Feig consegue, inclusive, ser um entretenimento mais envolvente do que o recente 007 Contra Spectre.

Na TV… a ascensão dramática da segunda temporada de “The Affair”

affairstwo

Seres humanos repletos de falhas, os personagens de The Affair chegam ao segundo ano com suas angústias exploradas com mais complexidade por um roteiro em constante amadurecimento.

Ninguém mais parece se importar com The Affair. O próprio Globo de Ouro que, no ano passado, celebrou o programa criado pela dupla Hagai Levi e Sarah Treem com os troféus de melhor série e atriz dramática não deu muita importância para a temporada que estreou este ano, conferindo-lhe apenas uma merecida indicação para Maura Tierney como atriz coadjuvante. O público também já não acompanha mais a trama com fervor e é difícil encontrar quem tenha assistido religiosamente ao segundo ano do relacionamento entre Alison (Ruth Wilson) e Noah (Dominic West). O esquecimento é crime dos grandes porque The Affair consegue, em sua nova temporada, abraçar muito mais a complexidade dos personagens e dos sentimentos ao invés de se focar na engenhosidade dos fatos – e o resultado é uma bela ascensão dramática para um programa que merecia mais atenção por sua maturidade ao falar sobre relacionamentos complicados e seres humanos repletos de falhas.

Nunca escondi os meus receios com os rumos de The Affair (afinal, até onde dura uma série cujo plot se sustenta a partir um caso extraconjugal?) e muito menos com o suspense capenga que os criadores colocaram em flashforwards na trama e ainda estenderam para o segundo ano, mas é bom ver uma maior maturidade na nova temporada, que coloca nos holofotes discussões muito mais adultas acerca de casamentos, traições e relacionamentos. Há muito a ser dito sobre esses temas e a leitura deve parar por aqui para quem não quer pegar spoilers, mesmo que os próximos parágrafos tentem dizer o mínimo possível sobre os acontecimentos da segunda temporada, cujo último episódio foi exibido no dia 20 de dezembro.

Apesar de consistente na criação de seus personagens e no desenvolvimento de seus dramas pessoais, a primeira temporada de The Affair não deixava de ser uma fase introdutória que eventualmente ganhava tons de novela mexicana (impossível esquecer um encontro decisivo na estação de trem ou uma arma apontada para que determinado personagem finalmente tomasse uma decisão). No segundo ano, parece não existir mais tanto tempo para dramas simplistas envolvendo descobertas de traição ou sucessões de mentiras – e, se eles existem aqui, estão todos bem arquitetados e com ótimos propósitos. De brinde, os roteiristas ainda retornaram com uma nova aposta para a estrutura do programa: se antes The Affair se construía a partir da percepção isolada dos protagonistas Noah e Alison, agora a história também ganha o ponto de vista de Helen (Maura Tierney) e Cole (Joshua Jackson), os cônjuges traídos.

Tem quem saia ganhando muito com a multiplicidade mais ampla de olhares, como Helen, a esposa abandonada que, insegura e sempre vivendo à sombra do dinheiro dos pais, tenta reconstruir sua vida como mãe e mulher. Já outros saem perdendo, como Cole, dono do arco dramático menos interessante e que parece viver uma história paralela, já que seu personagem está distante do centro dos acontecimentos (ele vive em outra cidade e inicia um relacionamento previsível com uma estrangeira vivida pela atriz Catalina Sandino Moreno, indicada ao Oscar em 2005 por Maria Cheia de Graça). Os quatro pontos de vista organizados de forma aleatória estagnam, em princípio, o andamento de The Affair (principalmente nos episódios iniciais, quando a história demora a engrenar), mas é questão de tempo para que comecem a enriquecer a história como um todo.

affairstwos

Um dos destaques da segunda temporada, Maura Tierney representa The Affair no Globo de Ouro com uma indicação na categoria de melhor atriz coadjuvante.

É particularmente eficiente como os roteiristas lançam diferente olhares para o divórcio entre Noah e Helen, por exemplo. A separação está sendo mais amigável ou mais agressiva? Helen é uma figura magoada ou indiferente? E Noah? Seria ele o pai realmente devotado ou o homem que está interpretando tal papel para ganhar a guarda dos filhos? Se em termos de conflitos o divórcio tem bobeiras dramáticoa quase imperdoáveis (sério mesmo que precisava Helen se descuidar com drogas para a situação começar a se resolver?), em análises The Affair se compensa – e é importante perceber como a percepção muda discretamente de um capítulo para outro até mesmo nos figurinos e na fotografia para cada um dos personagens.

Quando o divórcio finalmente se resolve, The Affair passa a lapidar seus dramas com uma maturidade invejável, lançando questões mais do que pertinentes não apenas para os personagens mas para os próprios espectadores. Afinal, como se configura a confiança em um relacionamento que nasceu justamente a partir da quebra dela em um outro casamento? Como construir uma nova família depois de você ter abandonado a sua? E a mais intrigante: o que acontece quando um caso extraconjugal vira um romance oficial? Afinal, não seria justamente a impossibilidade do amor o afrodisíaco daquela relação? Noah e Alison não imaginavam que o novo caminho que trilhariam juntos seria tão difícil, especialmente quando ambos se dão conta de que, no final das contas, viraram um casal normal como qualquer outro. A traição, na realidade, pode ter sido apenas um intervalo de suas vidas individuais tão cheias de dúvidas – e dúvidas que, vale refletir, não têm necessariamente a ver com a vida compartilhada, e sim com o que cada um quer para o seu próprio destino, independente de relações.

As interpretações sobre a traição em si ganham ainda mais facetas na segunda temporada. Para Alison, pode ser um problema emocional, uma compulsão ou o resultado de uma vida em constante insatisfação. Já Noah chega a questionar que, para um artista como ele (hoje um escritor finalmente famoso e reconhecido pela crítica), pode ser uma forma de conhecer o máximo de pessoas possíveis, viver o maior numero de experiências e apurar cada vez mais os sentidos. O que Noah considera é que o descompromisso com a monogamia talvez seja algo antropológico e não necessariamente desleal ou meramente sexual. Mas ele seria um cretino por querer isso e uma vida estável ao mesmo tempo?

affairstwot

Joshua Jackson tem um bom personagem, mas rivaliza com um roteiro que o coloca longe do centro dos acontecimentos principais da trama.

Sujeito facilmente odiável em um primeiro momento, Noah, na realidade, tem todas suas falhas justificadas ou pelo menos discutidas. Autor celebrado e com o sucesso cada vez mais inflando seu ego, ele parece novamente não saber o que fazer da vida até mesmo com toda a inesperada repercussão de Descent, seu romance secretamente autobiográfico baseado no relacionamento extraconjugal com Alison. Sua nova esposa, por sinal, agora lhe parece quase um estorvo durante a turnê de promoção do livro pelos Estados Unidos. Noah, é verdade, continua uma figura das mais complicadas de se torcer, mas agora está muito mais humano, complexo e defendido com extrema dignidade por Dominic West (que já revelou ter tremendas dificuldades com o papel por justamente odiar o ser humano que seu personagem é).

West, aliás, tem momentos bastante inspirados nesta temporada, muitos deles em um episódio ambientado em uma consulta com sua terapeuta (Cynthia Nixon), e outros na season finale, onde admite que, apesar dos pesares, não se arrepende de ter traído sua ex-exposa com Alison, já que assumir essa relação o livrou de uma vida de comodismos, insatisfações e arrependimentos. Também são belos os momentos que o ator compartilha com Maura Tierney, principalmente aqueles em que ambos já percebem que viraram a página e conseguem falar sobre passado, presente e futuro como duas pessoas que se conhecem há muito tempo e já viveram muitas coisas juntos. A moral da história é que todos os personagens de The Affair são pessoas profundamente falhas e que, cedo ou tarde, e isso é o mais bonito, admitem seus erros com a vontade de repará-los, mesmo que muitos deles sejam eternos.

O calcanhar de aquiles desse apanhado de discussões adultas segue sendo a pífia tentativa de The Affair criar algum suspense com um assassinato e, dessa vez, um julgamento no tribunal. Não funciona porque: a) o clima de suspense já não condiz mais com a trama contemplativa, b) entrega cedo demais revelações que seriam mais impactantes em ordem cronológica, c) a morte em questão envolve um personagem secundário e desinteressantíssimo, e d) como toda novela que inventa de última hora o mistério de um assassinato só para instigar a audiência, cria-se a expectativa e a resolução termina sendo um tanto forçada só para surpreender. Não sei quem colocou na cabeça dos roteiristas que esse mistério deveria durar duas temporadas para ser resolvido e muito menos quem achou essa uma boa jogada para uma história que, neste segundo ano, só cresceu dramaticamente. Dados os acontecimentos do último episódio, tudo indica que, no terceiro ano, as coisas devem ser bem diferentes – e The Affair só tem a ganhar com isso.

Macbeth: Ambição e Guerra

So foul and fair a day I have not seen.

macbethposter

Direção: Justin Kurzel

Roteiro: Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso, baseado na peça “Macbeth”, de William Shakespeare

Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard,  Paddy Considine, David Thewlis, David Hayman, Jack Reynor, Lochlann Harris, Sean Harris, Ross Anderson,  James Harkness,  Maurice Roëves

Macbeth, Reino Unido/França/EUA, 2015, Drama, 113 minutos

Sinopse: Macbeth (Michael Fassbender) é um general do exército escocês que trai seu rei após ouvir um presságio de três bruxas que dizem que ele será o novo monarca. Ele é altamente influenciado pela esposa Lady Macbeth (Marion Cotillard), uma figura manipuladora que sofre por não poder lhe dar filhos. (Adoro Cinema)

macbethmovie

Somente no IMBb, a pesquisa por Macbeth rende quase 200 resultados entre episódios de TV, telefilmes, curtas e longas-metragens, o que nos leva a pensar se ainda existe algo de novo a ser mostrado no cinema em relação a este que é um dos textos mais consagrados de William Shakespeare. Em contrapartida, não deixa de ser injusto exigir inovação desta nova versão estrelada por Michael Fassbender e Marion Cotillard já que existe essa infinita quantidade de leituras já produzidas pelo cinema e pela TV. Afinal, é possível um realizador conferir esse montante monstruoso de adaptações e ainda pensar algo realmente inédito? Do lado de cá, como espectador, também me abstenho de falar sobre Macbeth considerando a falta de conhecimento em relação a outras de suas literais centenas de adaptações. Já em uma avaliação isolada, o filme de Justin Kurzel – que, reza a lenda, foi aplaudido durante dez minutos no Festival de Cannes deste ano -, é uma das experiências mais interessantes de 2015 por transmitir com a devida densidade e apuro estético a obscura viagem de poder e corrompimento de um general do exército escocês assombrado por profecias sombrias e, principalmente, por uma esposa altamente manipuladora.

Não é só por ser tão sombrio e pesado que Macbeth se torna um filme de nicho. O que não populariza esta adaptação – e o que obviamente fará com que o longa fique pouquíssimo tempo em cartaz – é a ideia do roteiro escrito a seis mãos por Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso adaptar o texto de Shakespeare mantendo seu estilo original. Tomar a decisão de preservar a linguagem de Shakespeare é arriscado também para o próprio tom do filme, uma vez que exige muita disciplina de um diretor não transformar a experiência em um mero teatro filmado. Por sorte, o australiano Justin Kurzel, em seu segundo longa-metragem, conduz Macbeth com destreza e, junto a um notável trabalho técnico, dá a dimensão necessária para que o filme realmente seja… um filme! É assombrosa, por exemplo, a trilha sonora de Jed Kurzel, que intensifica o lado já sombrio da história do protagonista, ao passo que a fotografia de Adam Arkapaw, uma das mais belas do ano, negrita as sensações dos personagens com uma intensidade expressiva de cores, criando cenas ao mesmo tempo lindas e angustiantes de serem vistas (o último plano submerso em um vermelho amedrontador é impressionante nesse sentido).

Fora a parte técnica, que em momento algum nos remete aos clichês dos filmes de época com figurinos esdrúxulos e locações megalomaníacas, Macbeth é um filme envolvente em sua dramaticidade com um roteiro que sabe arquitetar a suja ascensão do protagonista e a eventual paranoia que toma conta de sua vida após a conquista do poder. É mais instigante ainda o arco da esposa de Macbeth, vivida por Marion Cotillard (ela diz sempre ter sonhado interpretar esse papel), que manipula facilmente o protagonista para que ele se torne uma figura poderosa e relevante, custe o o que custar. A culpa por não poder lhe dar filhos está ali, e, ao mesmo tempo em que Macbeth chega a boa parte de suas conquistas graças a esposa, também é nítida a angústia da esposa ao vê-lo se tornar uma figura gradativamente perigosa e até fora de seu controle durante a escalada. A proposta é encenada até os dias de hoje (Claire Underwood não seria uma espécie de lady Macbeth no seriado House of Cards?), mas nunca deixa de ser densa essa viagem sem escrúpulos rumo ao poder e incômodo o pavor ao constatarmos o quanto o ser humano é suscetível a se transformar quando passa a ser expressivamente dominante. Uma história como essa já teria impacto por si só, imagine, então, com o peso do texto de William Shakespeare!

Vícios teatrais, entretanto, ainda deixam seus resquícios no filme de Justin Kurzel. Frequentemente Macbeth entrega aos atores longos monólogos em lindas paisagens, flertando, então, com esse problema de remeter demais aos palcos, seja na câmera estática no corpo dos atores ou na própria formalidade com que eles interpretam cada palavra. Certamente é um belo presente para que Fassbender e Cotillard tirem o máximo de proveito, mas se torna um tropeço para o filme em si. Deixando de lado o deslize, dá gosto, por outro lado, ver atores tão talentosos quanto eles brilhando nesses momentos (e abençoado seja quem teve a ideia de juntá-los em um filme!). Enquanto Fassbender capta com precisão as oscilações entre insegurança e ganância de um homem inicialmente comum que aos poucos se corrompe, Cotillard surge inofensiva e perigosa na espreita dos bastidores como a mulher que, na realidade, é a grande responsável pelo marido ser quem realmente é. O diretor e os atores se reunirão futuramente em um projeto inusitado: Assassin’s Creed, a adaptação do videogame homônimo lançado em 2007. Julgando pela ideia, não é bem difícil criar expectativas, mas, considerando esse ótimo resultado de Macbeth, quem sabe?