Cinema e Argumento

Beira-Mar

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Direção: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Elenco: Mateus Almada, Maurício Barcellos, Irene Brietzke, Elisa Brittes, Maitê Felistoffa, Francisco Gick, Fernando Hart, Danuta Zaguetto, Ariel Artur

Brasil, 2015, Drama, 83 minutos

Sinopse: Martin e Tomaz passam um fim de semana imersos em um universo próprio. Alternando entre distrações corriqueiras e reflexões sobre suas vidas e sua amizade, os garotos se abrigam em uma casa de vidro, à beira de um mar frio e revolto.

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Os anos 2000 têm sido riquíssimos para o mundo jovem no cinema. Desde a virada do milênio, a temática foi contemplada com longas mais descontraídos (Antes Que o Mundo AcabeAs Melhores Coisas do Mundo), experiências complexas (Os Famosos e os Duendes da Morte), quase-fábulas irresistíveis (Hoje Eu Quero Voltar Sozinho) e até mesmo documentários assinados por grandes mestres (Eduardo Coutinho e seu Últimas Conversas). Por outro lado, mais recentemente, a safra direcionou um carinho especial aos jovens repletos de questionamentos, de famílias desestruturadas e de transições complicadas para a vida adulta.  O apelo colou, e os festivais de cinema passaram a celebrar filmes assim: o delicado Ausência começou sua trajetória no Festival do Rio e chegou à Toulouse, enquanto o arrebatador Ponto Zero fez sua estreia em Gramado em 2015 sendo considerado o grande injustiçado da premiação. Arrisco a dizer, por outro lado, que nenhum outro filme com estilo mais contemplativo sobre a adolescência tenha sido tão aguardado quanto o gaúcho Beira-Mar, exibido no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Com estreia programada para 5 de novembro, o filme da dupla Felipe Matzembacher e Marcio Reolon é, entretanto, a experiência menos interessante entre as destacadas aqui.

Matzembacher e Reolon, que entrevistei algumas vezes e que já participaram de matérias e colunas aqui do blog, vão ter de me desculpar, mas, mesmo sendo admirador de vários projetos deles dentro e fora das telas (em 2012, por exemplo, Um Diálogo de Ballet era o meu curta favorito em competição no Festival de Cinema de Gramado), não cheguei a me envolver emocionalmente ou até tecnicamente com Beira-Mar. Nele está representada uma gama de reflexos da vida de seus realizadores, conforme eles próprios assumem: o filme é um resgate do que a dupla viveu, de uma forma ou outra, na adolescência, e também mais um exercício audiovisual dos diretores sobre o tema juventude e identidade sexual. Neste sentido, ponto para Beira-Mar, que é uma produção legitimamente Matzembacher-Reolon (sempre acho admirável quando diretores conseguem ter uma assinatura facilmente reconhecível desde que não caiam em repetições, como é o caso deles). Já quanto à execução, encontrei pouco do que considero como os maiores diferenciais da dupla. O estilo da narrativa é bom: nada é mastigado ou expositivo demais, inclusive porque os diretores preferem trilhar o caminho das entrelinhas. Entretanto, mesmo após alguns dias da minha sessão, o peso dos aspectos que considero ruins continua a me incomodar infinitamente mais.

Já começo tendo problemas com a escalação da dupla principal. Fora o óbvio fato de Maurício Barcellos, por exemplo, não ter nenhuma experiência prévia em atuação (e isso está evidente ao longo de todas as suas cenas no filme), falta uma energia de amizade entre ele e Mateus Almada – e isso é um grande problema, pois a conexão estabelecida pelos dois personagens seria o mote de Beira-Mar. Não é necessariamente culpa deles, vale dizer. O que acontece é que nem bem o filme completa meia hora, e Martin (Almada), que convenceu o introspectivo Tomaz (Barcellos) a deixar a família “puta” por deixar de ir a um casamento para acompanhá-lo em uma viagem à praia, não hesita ao entrar sozinho em um bar mesmo sabendo que o amigo, que viajou justamente para lhe fazer companhia, está impossibilitado – e claramente sem vontade – de entrar no local. É, no mínimo, um abandono um tanto inusitado para dois jovens que seriam supostamente tão amigos. Mais à frente, Beira-Mar já flerta com a homoerotização da relação em uma cena explícita nesse sentido: a dupla de diretores, ao colocar os dois personagens jogando videogame, os enquadra de forma com que pareça que os dois estão se masturbando lado a lado compulsivamente. A homoerotização não é o problema, mas sim a prematuridade dela, já que, pelo menos para mim, ainda não estava consolidada a ideia de forte amizade entre os personagens. Neste ponto, é mais fácil ver Martin e Tomáz como inevitáveis e futuros amantes do que como amigos incondicionais.

Não parece existir grande intimidade entre os dois protagonistas, e vários momentos do filme corroboram isso, como quando descobrimos que um esconde do outro seus desenhos em um caderno ou quando as relações estabelecidas verdadeiramente por eles no plano amoroso só são verbalizadas após algum conflito envolvendo o assunto aos 45 do segundo tempo. Falta em Beira-Mar o que Alfonso Cuarón conseguiu desenvolver com maestria em E Sua Mãe Também: no filme estrelado por Diego Luna e Gael García Bernal (também sobre dois amigos passando uma temporada longe de casa e coincidentemente no litoral), não demorava muito para que sentíssemos naturalmente a longa amizade cultivada com calor e intimidade pelos personagens – e, detalhe, ela também envolvia uma masturbação (literal!) entre eles. Assim, se já é difícil embarcar no sentimento de amizade de Martin e Tomaz, o que dizer, então, dos dramas familiares sem maiores aprofundamentos e das aventuras sexuais e etílicas vivenciadas pelos dois neste tempo que passam juntos? O principal, pelo menos para mim, não funciona, o que termina minando consequentemente todo o resto.

Um dos aspectos mais instigantes na proposta de Beira-Mar é a ambientação invernal em uma casa no litoral. A cidade está vazia (quase não vemos outras pessoas habitando este local não especificado) e o cenário parece perfeito para reproduzir o que se passa no interior dos protagonistas. Só que o mar frio e revolto indicado pela sinopse só é visto no desfecho do longa e a geografia não é fator tão influente no que se desenvolve emocionalmente, o que faz com que se torne indiferente a ideia de Beira-Mar se passar na praia (se fosse feito em uma cidade do interior da Alemanha não faria diferença alguma). É impossível não lembrar de como Woody Allen, nos anos 1970, fez justamente o oposto ao encenar um intenso drama familiar à beira da praia com Interiores. Lá sim o contexto do mar se desenhava como fator decisivo nas lembranças e no próprio destino dos personagens confinados no litoral. Em Beira-Mar, a ambientação funciona esteticamente, mas desaponta como ferramenta narrativa deste longa já necessitado de diálogos mais inspirados.

Por falar em narrativa, este é um filme que pode ser interpretado de diversas maneiras: uma viagem transformadora, um confronto com nossas raízes familiares ou um retrato das angústias adolescentes, por exemplo. Nenhuma é particularmente imperativa ou marcante, principalmente a familiar, que sempre deixa questões muito no ar e que simplifica dramas que mereciam mais atenção (é indesculpável que a figura do pai, lembrado apenas como o sujeito responsável por deixar más lembranças ao filho e que só quer passar perna na família, seja tão mal explicada). Ainda é um tanto confusa a virada que Beira-Mar dá em seus últimos momentos, quando finalmente coloca na tela algo esperado e até mesmo insinuado ao longo de toda a história. O novo sentido que o roteiro dá à relação de Martin e Tomaz surge abrupto e questionável, pois o filme acaba justamente quando deveria esmiuçar o que um momento tão decisivo como aquele de fato significa para os personagens – e isso não tem nada a ver com o que ambos farão com aquilo dali em diante, mas sim com as verdadeiras razões que os levaram até este ponto. Nós não sabemos muito bem o porquê dessa mudança na relação deles. Queria muito ter gostado do filme tanto quanto gosto de outros projetos dos diretores, mas, assim como uma tarde fria e chuvosa na praia, Beira-Mar decepciona por entregar justamente o oposto do esperado.

Na coleção… Amor Sem Escalas

UP IN THE AIR

Amor Sem Escalas tem uma premissa das mais trágicas, mas prefere seguir um caminho que demonstra a total maturidade de seu diretor: o da leveza. E está errado quem pensa que essa escolha amortece ou anula a força emocional do filme. Pelo contrário. Assim como Transamérica, por exemplo, Amor Sem Escalas se torna ainda mais agridoce em função de olhar para a tragédia a partir de pequenas felicidades e de momentos corriqueiros. A missão não é fácil: afinal, como não pesar a mão na história de Ryan Bingham (George Clooney), sujeito cujo emprego é demitir pessoas em todos os cantos dos Estados Unidos? Mais do que isso: como resistir à tentação de tornar depressivo este homem que viaja o ano inteiro, não tem qualquer raiz com família, amigos ou romances e ainda dá palestras que dizem que as relações são os componentes mais sufocantes da vida? Pois o diretor Jason Reitman, em parceria com Sheldon Turner no roteiro, realmente escolhe outras direções e entrega um trabalho que, ainda hoje, é o mais maduro de sua carreira.

Quando realizou Amor Sem Escalas, Jason Reitman recém havia saído de uma repentina (e superestimada) consagração por Juno, uma comédia adolescente sobre uma garota que enfrentava uma inesperada gravidez em circunstâncias atípicas (o filho era do menino mais “loser” da escola, e os pais não entraram em pânico com a notícia), o que poderia nos deixar em dúvida quanto às chances do diretor saltar com êxito para um projeto completamente oposto, sobre pessoas de meia-idade, casadas com a carreira e independentes. Seria Reitman um diretor apenas das angústias jovens? Ou também das reflexões maduras? Felizmente de ambas. E uma cena específica de Amor Sem Escalas sintetiza com perfeição não apenas o talento eclético do diretor como também todos os temas abordados no filme: aquela em que a jovem Natalie (Anna Kendrick), devastada por uma recente separação, tenta encontrar algum conforto nos conselhos de Ryan e Alex (Vera Farmiga). No impecável diálogo, estão as expectativas de diferentes gerações quanto aos relacionamentos e ao sucesso profissional – e o filme, apesar de ter como pano de fundo as demissões em massa que assolaram os Estados Unidos anos atrás (o que foi seu maior atrativo quando lançado), é exatamente sobre o que procuramos ou evitamos nessa transição entre a casa (onde quer que ela seja) e o trabalho.

Delicado e carinhoso, Amor Sem Escalas consegue desenhar o desabrochar de um homem distante de todos com uma precisão cirúrgica mas nada acadêmica. Não existe nada mais clichê do que um filme derrubar todas as verdades de um personagem quando ele encontra um relacionamento marcante, e o que Amor Sem Escalas faz é basicamente isso, com a diferença de ter um conjunto de acertos simples e discretos que pouco percebemos conscientemente a mudança deste homem, até porque Reitman prefere arquitetar a história de Ryan não com grandes acontecimentos, mas sim com uma conversa de bar ou com um breve encontro em um aeroporto. Clooney, em um de seus melhores momentos como ator, acha o ponto ideal entre seu charme marcante (é difícil vê-lo como um personagem e não como George Clooney) e a criação dramática do protagonista, melhorando em grande escala quando contracena com a igualmente ótima Vera Farmiga. Ambos foram indicados ao Oscar e formam um dos casais mais críveis e marcantes dos últimos anos. Dá gosto vê-los junto porque acreditamos que Ryan e Alex são de fato a versão do outro – só que de sexo oposto. Maturidade, sucesso profissional e independência estão estampados no comportamento dos dois, mas, quando estão juntos, surge também a discreta carência, o carinho nunca mostrado – e é aí que Amor Sem Escalas alcança seus momentos mais especiais.

Ao contrário do que o título brasileiro indica e até mesmo estes comentários avaliam, Amor Sem Escalas não é, porém, uma mera descoberta do amor em tempos de desconexão ou a escalada romântica de um homem solitário e convicto disso. Apesar de viverem belos momentos juntos e o filme pontuá-los com emoção (as conversas são inteligentes, a trilha é nostálgica), Ryan e Alex agem como se estivessem alheios tudo isso, como que seus êxitos profissionais – esses sim – fossem o bem mais precioso. O que conta mais para eles é quem tem o maior número de cartões ou qual o próximo destino de suas agendas profissionais. Eles se aproximam, mas parecem negar tal aproximação porque, novamente, a profissão e a independência estão acima de tudo – como se o fato de se acomodar com alguém fosse sinônimo de fracasso. E isso não é verdade, conforme eles próprios passam a perceber silenciosamente mesmo sem admitir. É no nascimento deste sentimento tão renegado por pessoas orgulhosas de não o terem que Amor Sem Escalas se torna tão agridoce, e a escolha de cercar a história com bom humor (muito dele centrado na personagem de Anna Kendrick) torna tudo um tantinho mais triste. Atual, já que estamos cada vez mais centrados em profissões do que relações, Amor Sem Escalas tem, assim, um coração muito grande, mas é o contraste com os pés bem firmes no chão que torna o resultado tão especial.

Diário das minhas artes #1

Todas as artes se complementam. O cinema se torna mais imersivo com a música. Uma peça de teatro pode ficar ainda mais brilhante se você leu o material de origem e pensa na adaptação do espetáculo. Coisas assim. O Cinema e Argumento carrega a sétima arte no título, mas sempre senti a necessidade de falar sobre tudo o que me encanta nas outras. É este o propósito dessa nova coluna que inauguro agora: fora o cinema e eventualmente as séries que comento aqui, decidi inaugurar este espaço mais democrático e informal para falar sobre música, teatro, literatura ou o que der na telha. E, já para a estreia, temos muito o que comentar… Vamos lá!

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ensina-me a viverTerminou neste domingo a nova temporada de Ensina-me a Viver, cuja última parada foi aqui em Porto Alegre. É o oitavo ano do espetáculo na estrada (o sucesso está em números: mais de 500 mil pessoas já viram essa adaptação estrelada por Glória Menezes e Arlindo Lopes), e o retorno dela à capital gaúcha tem um gostinho muito especial para mim. Conferi o espetáculo quando ele debutou anos atrás e, agora em 2015, fiz o trabalho de divulgação da peça na empresa onde trabalho como assessor de imprensa. Adoro essas coincidências da vida.

Na revisão, feita novamente no lindo teatro que é o São Pedro, passei a compreender melhor o espetáculo. E, quando digo compreender, é em termos de sentimentos mesmo, passando pelas vivências e aprendizados que tive desde os meus 17 anos até este novo encontro com a peça. Não gosto de dizer que Ensina-me a Viver é uma história de amor, mas sim uma homenagem à liberdade proporcionada pelas descobertas. Já dizia Six Feet Under que nessa vida não existem regras ou julgamentos, apenas aqueles que criamos e aceitamos para nós mesmos. É exatamente para isso que Harold (Arlindo Lopes) abrirá os olhos em seu encontro com Maude (Glória Menezes), que, antes de se tornar um interesse amoroso, é uma pessoa que lhe encanta pela falta de amarras com qualquer coisa. Não contive minhas lágrimas com essa mensagem da peça, principalmente porque a Rhineheart, canção do Beirut que toca no final, é de arrepiar – e João Falcão, em uma direção pra lá de carinhosa e criativa, a utiliza em momentos cruciais. O teaser abaixo usa essa linda música como trilha.

Ainda refletindo sobre a vida, terminei de ler recentemente o livro Tomo Conta do Mundo – Conficções de Uma Psicanalista, da gaúcha Diana Corso. Tenho um fraco pelo lance da psicanálise, pela liquidez de Zygmunt Baumant, pelas análises do dr. Paul Weston em In Treatment. Por isso era inevitável eu me apaixonar pelos escritos de Diana. O livro, que é uma coletânea de crônicas publicadas por ela ao longo de sua carreira como colunista, faz reflexões inteligentes mas comum a todos nós sobre pequenas coisas da vida, além de se utilizar das mais variadas fontes artísticas para propor discussões. Toy Story? Harry PotterA Bússola de Ouro? Tudo é material para Diana Corso pensar um pouquinho sobre o cotidiano. Irresistível.

Entre as séries, minha disciplina começou boa com as estreias, mas acompanhar cinco séries por semana deve logo se tornar um malabarismo, tenho certeza. Passado o badalo da vitória no Emmy, Viola Davis voltou em alto nível com How to Get Away With Murder, que não perdeu tempo ao já resolver um mistério da temporada passada no primeiro episódio e ao derrubar mil forninhos quando subverteu ainda mais a maravilhosa Annalise Keating em uma cena com Famke Janssen. O resto do elenco continua horrendo, mas Viola é tão sensacional que permanece como um motivo suficiente para manter a série na minha lista de prioridades. E perceberam como o programa está cada vez mais próximo de Damages no sentido de trabalhar mais afundo um caso jurídico que norteia acontecimentos futuros dos personagens? No mesmo balaio de atrizes maravilhosas está Taraji P. Henson, sempre impecável com sua Cookie Lyon, em Empire. Não tenho dúvidas de que a personagem é repetitiva, mas a persona criada por Henson é das mais marcantes – o que está totalmente de acordo com o tom novelão da série, que, apesar de continuar com um protagonista detestável e um roteiro cercado de previsibilidades, já estreou quebrando novos recordes: foi o programa que mais incrementou a sua audiência de uma primeira para uma segunda premiere (o recorde era de House).


Leftovers-2Enquanto isso, The Affair teve uma boa estreia de segundo ano, agora com novos personagens mostrando a sua percepção da história de traição do título. Gosto da série, e o retorno dela manteve o bom nível, mas o conflito principal já terminou e, como é de praxe na maioria dos projetos da Showtime, parece que o assunto acabou também. Tomara que surpreenda, especialmente agora com essa nova arquitetura de roteiro que pode dar certo (ou errado na mesma proporção). Em termos de ter que surpreender, o mesmo pode ser dito de The Good Wife, uma das melhores opções da TV aberta, que começou seu sétimo ano tendo como ponto alto um nome bastante inusitado: o coadjuvante Alan Cumming, que promete ter ótimos momentos ao lado da convidada Margo Martindale. Ao que tudo indica, a trama deve seguir o caminho da reciclagem… Afinal, alguém ainda se motiva com eleições e criações de novas empresas de advocacia? E o que dizer da nova personagem que é uma substituição descarada da Khalinda? Os roteiristas que me desculpem, mas a investigadora de Archie Panjabi é insubstituível. Não forcem a barra.

Deixo o melhor para o final: a nova temporada de The Leftovers. É bem possível que este seja o meu seriado favorito em exibição, e ainda tento aceitar o fato de que ele não é devidamente reconhecido (ficando apenas na parte técnica: Max Richter não ter sequer sido indicado ao Emmy por sua magnífica trilha sonora é um dos maiores absurdos em décadas!). Por outro lado, entendo a aversão, pois The Leftovers é drama dos mais desafiadores, seja no tema complexo (o luto de pessoas que perderam conhecidos em um repentino e inexplicável desaparecimento de 2% da população mundial), no flerte com a religião e o sobrenatural e na própria condução, que, no início deste segundo ano sofreu mudanças drásticas. É ousada a atitude da HBO de seguir contando uma história que já utilizou todo o seu material de origem (o livro homônimo de Tom Perrotta), colocando os personagens em novos cenários e situações – e com uma mistura que se assemelha cada vez mais a Lost (tomara que não!). E que coragem retomar os protagonistas só no terço final de Axis Mundi, o capítulo de estreia. O retorno do programa mexeu muito comigo, seja pela construção episódio em si ou pela beleza que é ver uma série arriscando e saindo do lugar comum em todos os sentidos, começando por uma bela introdução ambientada na pré-história. Assistam!

Perdido em Marte

Fuck you, Mars!

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Direção: Ridley Scott

Roteiro: Drew Goddard, baseado no livro “The Martian”, de Andy Weir

Elenco: Matt Damon, Jeff Daniels, Chiwetel Ejiofor, Kate Mara, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Michael Peña, Sean Bean, Mackenzie Davis, Donald Glover, Sebastian Stan, Aksel Hennie

The Martian, EUA, 2015, Ficção, 141 minutos

Sinopse: O astronauta Mark Watney (Matt Damon) é enviado a uma missão em Marte. Após uma severa tempestade ele é dado como morto, abandonado pelos colegas e acorda sozinho no misterioso planeta com escassos suprimentos, sem saber como reencontrar os companheiros ou retornar à Terra. (Adoro Cinema)

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Por coincidência ou inteligência, Ridley Scott está em plena sintonia com o espaço sideral dentro e fora das telas. Chegou a se especular, inclusive, que a recente descoberta de água em Marte já existia há tempos, mas que só agora teria vindo a público em função do lançamento do filme. Bobagem. A discussão mais importante em relação ao novo trabalho do diretor está na questão cinematográfica mesmo, uma vez que Perdido em Marte é um claro reflexo das fortes influências deixadas por Gravidade dois anos atrás. Assim como dezenas de filmes de ação calcados no realismo passaram a ser produzidos depois da trilogia Bourne, testemunhamos agora a mesma situação com projetos ambientados em outros planetas: depois do longa de Alfonso Cuarón, assistimos a pelo menos um filme por ano protagonizado por astronautas em situações extraordinárias. Entretanto, se Interestelar se perdia em pretensões, Perdido em Marte ganha pontos por, justamente, ser apenas um entretenimento de primeira pontuado pelo bom humor e pela descontração.

Não estou no time dos que implicam com Prometheus, mas é verdade que Perdido em Marte deve ser o filme mais bem sucedido de Ridley Scott, em termos de bilheteria e crítica, desde Gladiador. Entre projetos menos ambiciosos que terminaram na inexpressividade ou no esquecimento (Um Bom AnoOs Vigaristas) e épicos que não corresponderam à ambição (Robin HoodÊxodo: Deuses e Reis), o diretor encontrou agora um bom ponto de equilíbrio. Ele segue um ótimo contador de histórias por meio da tecnologia, e certamente não podemos acusá-lo, pelo menos com Perdido em Marte, de ser um mero criador de blockbusters. Nesta ficção estrelada por Matt Damon, Scott sabe novamente usar as tecnologias a favor da imersão de sua história, seja na forma como ambienta a vida de uma tripulação que gravita no espaço ou em como constrói inúmeros sets em um deserto da Jordânia para imaginar a vida em Marte. É uma experiência tecnicamente irrepreensível que reaviva esse tino do diretor um tanto esquecido em seus últimos trabalhos.

Perdido em Marte não deixa de ser um Náufrago no planeta em questão, usando uma definição mais óbvia. O que tira o filme desta mera comparação é o fato de Ridley Scott, juntamente com o roteiro de Drew Goddard, baseado no livro The Martian, escrito por Andy Weir, não apostar naquele clima desesperador de Gravidade ou nas tediosas explicações científicas de Interestelar. A história do astronauta Mark Watney (Damon) é, na realidade, pontuada por um senso cômico muito descontraído – o que não quer dizer que Perdido em Parte seja desprovido de seriedade em função disso. Seja nos dias de sobrevivência de Watney em Marte ou nas reuniões realizadas na NASA, Scott sempre arranja uma maneira de atribuir algum tipo de humor aos personagens e às próprias situações vividas por eles. E, ao contrário do que se possa pensar, as investidas cômicas em nada se assemelham às piadas forçadas e tão comuns nos filmes de super herois que vemos atualmente. Um dos exemplos mais interessantes é a escolha do diretor, por exemplo, para a trilha sonora dos créditos finais: a clássica I Will Survive, eternizada na voz de Gloria Gaynor.

Se não fosse pela descontração, Perdido em Marte poderia muito bem ser uma produção indiferente sobre a vida no espaço. É complicado fazer filmes desta temática (especialmente quando ela envolve sobrevivência em circunstâncias extraordinárias) depois que Gravidade elevou tanto o padrão – o que nos leva a valorizar o fato de Ridley Scott ter colocado personalidade em seu novo filme para distanciá-lo desta inevitável comparação. Caso o espectador realmente não ache que isso seja suficiente, Perdido em Marte tem tudo para uma experiência um tanto decepcionante, pois nada mais é do que um relato sem grandes novidades sobre um homem procurando dar continuidade a sua vida em um ambiente completamente desconhecido. Com um elenco estelar (mas não necessariamente brilhante ou bem aproveitado, como Kristen Wiig pode bem comentar), Perdido em Marte não significa muito em termos de inovação para o gênero. O que conta aqui é o entretenimento bem acabado – e, neste sentido, temos muito o que comemorar.

O som das trilhas

nightcrawlerscoreO ABUTRE, por James Newton Howard: Repetindo parceria com a família Gilroy, James Newton Howard, que anteriormente havia trabalhado com Tony em Conduta de Risco, recentemente se juntou a Dan para fazer O Abutre. É curioso como Howard parece ter criado uma sonoridade bastante característica para os Gilroy, já que seus trabalhos nos dois filmes se assemelham bastante. Ambos, no entanto, são dotados de características próprias, e O Abutre, apesar de ser um álbum de extensa duração (são quase 30 faixas!), consegue ficar na lembrança principalmente por seu tema inventivo e que faz marcantes usos de guitarra para trazer tensão e contemporaneidade à história do problemático protagonista vivido por Jake Gyllenhaal. Não deixe de ouvirNightcrawlerIf it Bleeds, It LeadsMoving the Body.

insideoutscoreDIVERTIDA MENTE, por Michael Giacchino: Vencedor do Oscar por Up – Altas Aventuras, Michael Giacchino deve novamente voltar à corrida pela estatueta com Divertida Mente. A animação, desde já uma das mais geniais e marcantes da Pixar, tem seu embalo devidamente pontuado pelo álbum do compositor, que acompanha com perfeição toda a imaginação, a comédia, a aventura e também o drama da trama incrivelmente criativa. Com delicadeza e bom humor, a trilha de Divertida Mente está à altura do filme e, por mais que não tenha melodias necessariamente inesquecíveis como Stuff We Did, de Up, cumpre com louvour a sua missão de ser um complemento narrativo de inteligência para a animação. Não deixe de ouvirBundle of Joy, Joy Returns to Sadness/A Growing PersonalityFirst Day of School.

imitationscoreO JOGO DA IMITAÇÃO, por Alexandre Desplat: Tenha certeza: se Alexandre Desplat não tivesse faturado o Oscar 2015 por O Grande Hotel Budapeste, é bem provável que, apesar do favoritismo de A Teoria de Tudo, o francês ganhasse a estatueta por O Jogo da Imitação. E não é porque esta é a trilha de um filme que tem a cara da Academia, mas sim porque realmente o compositor está em plena forma. São 21 faixas que trazem a devida sofisticação para o clima de longa de época e a delicadeza necessária para que compreendamos os importantes dilemas internos do protagonista. Da mais recente safra de Desplat, O Jogo da Imitação está entre os melhores álbuns. Não deixe de ouvir: The Imitation Game, CrosswordsAlone With Numbers.   

leftoverscoreTHE LEFTOVERS (SEASON 1), por Max Richter: Não há qualquer exagero em dizer que Max Richter marca época na TV com a sua trilha para The Leftovers. É ambicioso o seu trabalho para este drama complexo de inúmeras passagens inesquecíveis graças à trilha sonora, que encontra o ponto certo entre grandiosidades e delicadezas. Richter, além de criar um inesquecível tema de abertura pontuado por um magnífico uso de violinos, consegue apresentar uma melodia super melancólica dividida em inúmeras variações que são sempre tocantes e nunca repetitivas (Departure é emocionante tanto em LullabyHomeReflection). Assim como a própria série, o trabalho de Richter merecia muito mais reconhecimento. Não deixe de ouvirThe Leftovers (Main Title Theme), Dona Nobis Pacem I & IIShe Remembers.

rickisoundRICKI AND THE FLASH, por Vários Artistas: Já comentei na crítica do filme e vale repetir aqui: é um absurdo que as sessões brasileiras de Ricki and the Flash não tenham legendado as canções. O filme de Jonathan Demme não é apenas uma mera coletânea de sucessos como Bad RomanceGet the Party Started ou I Still Haven’t Found What I’m Looking For. Muitas das canções têm algo a dizer sobre a história de Ricki Rendazzo (Meryl Streep), e o fato da atriz não impressionar tando vocalmente em um álbum ouvido separadamente quanto em outros como Mamma Mia!Into the Woods tem muito a ver com a própria história de sua personagem: uma mulher que tentou ser uma estrela do rock a todo custo mas que, na melhor das hipóteses, consegue animar apenas uma dezena de pessoas em um pub qualquer. Não deixe de ouvirDrift AwayI Still Haven’t Found What I’m Looking ForMy Love Will Never Let You Down.

sensescoreSENTIDOS DO AMOR, por Max Richter: Por puro acaso conferi Sentidos do Amor sem saber que o compositor do filme em questão era Max Richter, que recentemente havia me impressionado na primeira temporada de The Leftovers. E não é que ele me levou às lágrimas de novo? A combinação de violino e piano talvez seja a razão mais óbvia para isso (não existe melhor química que um compositor possa encontrar para me emocionar), mas também existe um diálogo perfeito entre os tipos de melodias criadas por Richter e o clima desesperançoso do filme de David Mackenzie. Nada piegas, mas sim sóbrio e com as elevações exatas de tom para comover o espectador. Luminous, que encerra o filme, merece menção à parte tamanha a sua beleza. Não deixe de ouvirLuminousOn a Turning WorldThings Left Behind.