Cinema e Argumento

O som das trilhas

É APENAS O FIM DO MUNDO, por Gabriel Yared: Conhecido pela compilação de músicas  para seus filmes (Mommy era irresistível com uma coletânea que ia de Beck a Lana Del Rey, passando por Vivaldi, Andrea Bocelli e Simple Plan), o diretor Xavier Dolan preferiu seguir um caminho diferente em É Apenas o Fim do Mundo: dessa vez, a atmosfera musical fica muito mais a cargo de uma trilha instrumental do que de canções selecionadas especialmente para o filme. Quem recebe a missão é o experiente compositor libanês Gabriel Yared (O Talentoso RipleyA Vida dos OutrosCold Mountain), que entrega, como de costume, um trabalho elegante e funcional. Por outro lado, curiosamente, Yared procura o minimalismo musical em uma história quase sempre contada de forma hiperbólica pela direção e pelas atuações. Não deixe de ouvirAprès Toutes Ces Années-làLouis et Catherine e Louis et Antoine.
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ELLE, por Anne Dudley: Reflexo de uma deficiência que atinge o cinema como um todo, a ausência de mulheres na assinatura de trilhas sonoras é realmente lamentável. Entretanto, se dermos um pulinho na Europa, de vez em quando encontramos talentos como Anne Dudley, que já acumula mais de 20 trilhas no currículo e que recentemente apresentou um de seus momentos mais marcantes no excelente Elle. Com 17 faixas que exploram basicamente diferentes variações de instrumentos de corda, Dudley cria uma perfeita atmosfera de thriller, transitando entre a discrição e o alto som do suspense. É um resultado envolvente para um gênero que não costuma ser muito criativo nesse quesito e que aqui ganha excelente roupagem em mãos femininas. Não deixe de ouvirMain TitlesPrimal ScreamIt Was Necessary.
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FEUD: BETTE AND JOAN, por Mac Quayle: Frequente colaborador de Ryan Murphy em programas como American Horror Story e The People v. O.J. Simpson: American Crime Story, Mac Quayle volta a unir forças com o realizador na antologia Feud: Bette and Joan. Em 2016, Quayle levou o Emmy pela inventiva trilha da primeira temporada de Mr. Robot e é uma pena que não tenha levado este ano uma segunda estatueta por Feud. De melodias marcantes que contemplam tanto a era de ouro de Hollywood como o próprio drama pessoal de duas atrizes do calibre Bette Davis e Joan Crawford, a trilha de Feud é uma pérola por homenagear um período marcante da indústria hollywoodiana sem cair no comodismo da mera reprodução de estilo. Não deixem de ouvirThis Awful Silence, Feud: Bette and Joan (Main Titles) e Feud: Bette and Joan (Epilogue).
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FRAGMENTADO, por West Dylan Thordson: O desafio parecia impossível – não sentir falta de James Newton Howard, compositor que permaneceu firme e forte com o cineasta indiano M. Night Shyamalan mesmo nos tempos difíceis de A Dama na ÁguaO Último Mestre do ArDepois da Terra -, mas West Dylan Thordson, em seu primeiro grande momento no cinema, compensou a ausência. Elemento fundamental para a inegável tensão de Fragmentado, longa que pontua a recuperação de Shyamalan após uma sucessão de desastres, a trilha sonora idealizada por Thordson tem um ritmo invejável, além de uma personalidade marcante, alcançando o feito de nos remontar aos primeiros filmes do diretor, onde a música exercia pleno destaque na construção do suspense. Não deixe de ouvirA Way OutI Know You Want to Tell Me SomethingRejoice.
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JACKIE, por Mica Levi: Pode até ser que minha relação com Jackie seja extremamente problemática, mas não reconhecer a excelência da parte técnica é realmente coisa de maluco. E a trilha sonora de Mica Levi – ou simplesmente Micachu – imediatamente se destaca como um dos elementos que mais contribuem para a narrativa proposta pelo chileno Pablo Larraín em parceria  com o roteirista Noah Oppenheim. Anteriormente festejada pela crítica por seu trabalho em Sob a Pele, Mica ignora caminhos fáceis para criar uma trilha sonora devidamente atípica e incômoda, o que vai diretamente ao encontro da complicada situação vivida pela protagonista. É um álbum relativamente curto, mas que carrega uma qualidade rara: a de ser sempre imprevisível. Não deixe de ouvir: ChildrenVanityBurial.
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LION: UMA JORNADA PARA CASA, por Dustin O’Halloran & Hauschka: Se Lion frequentemente escorrega no melodrama, o mesmo não pode ser dito sobre a trilha sonora. Na verdade, é até tocante e admirável como a dupla Dustin O’Halloran e Hauschka traduz e complementa todo o drama verídico em que o longa é baseado. Segura, a trilha acerta mesmo no constante uso do piano, escolha que costuma simplificar as emoções de histórias motivacionais como a contada no filme de Garth Davis. Nada no conjunto musical de Lion resulta genérico ou enjoativo, muito pelo contrário: você não estará sozinho se perceber que a trilha terminou em um piscar de olhos e que, aqui ou ali, a emoção bateu. De quebra, ainda tem Sia com a ótima Never Give Up, escrita especialmente para o longa. Não deixe de ouvirLion Theme, TrainLayers Expanding Time.
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MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR, por Nicholas Britell: Moonlight é um filme incompleto em função de um terceiro ato altamente frustrante, mas o mesmo não pode ser dito da trilha sonora de Nicholas Britell, que exerce um efeito hipnotizante do início ao fim. Isso acontece porque Britell compreende perfeitamente o poder dos instrumentos tanto para faixas inegavelmente ambiciosas quanto para melodias que surgem cortantes não pela imponência, mas pela extrema delicadeza. Existe uma unidade muito sólida aqui, onde muitas das faixas se parecem, mas jamais soam redundantes ou repetitivas. É trilha de gente grande porque se dedica a construir um arco também através da música, como se ela tivesse o seu próprio ciclo. Não deixe de ouvir: Little’s ThemeThe Middle of the World The Culmination.
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THE LEFTOVERS (SEASONS 2 & 3), por Max Richter: Mais do que um grande drama, The Leftovers entra para a história como uma das séries mais transgressoras e afiadas, o que certamente se estende ao trabalho técnico. E Max Richter, que sempre foi grande compositor (é dele a dolorosa composição On the Nature of Daylight, que abre e encerra A Chegada), embarcou no alto nível do programa criado por Damon Lindelof e Tom Perrotta. Enquanto a primeira temporada serviu como terreno para a criação de temas que pontuariam personagens e situações, os dois anos seguintes exploraram, com criatividade, emoção e sensibilidade, as variações dos temas criados lá no início da série. É o caso raríssimo de uma trilha que esmiúça, em cada composição, o poder potente dessa ferramenta em uma narrativa seriada. Simplesmente inesquecível. Não deixe de ouvirThe Quality of MercyAnd Know the Place for the First TimeThat Solitary Moment Together.
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THE YOUNG POPE, por Lele Marchitelli: É inacreditável como todas as premiações conseguiram ignorar The Young Pope, facilmente uma das melhores séries exibidas nos últimos anos. Era obrigação do Emmy deveria ter dado, ao menos, uma enxurrada de indicações para a embasbacante parte técnica, que, sem dúvida, inclui a excelente trilha sonora assinada por Lele Marchitelli. Fugindo do óbvio ao ignorar as esperadas melodias religiosas, as criações musicais de The Young Pope marcam pela sutileza e pela total atenção aos personagens, apostando muito mais em traduzir universos particulares do que na grandiosidade de uma história passada no imponente mundo católico do Vaticano. Fora isso, o álbum traz ainda uma empolgante coletânea com músicas mundialmente famosas mas que aqui ganham novos tons ou sentidos, como I’m Sexy and I Know It, do grupo LMFAO, e Halo, da Beyoncé. Não deixe de ouvirCardinalsDussolierSister Mary.

10 razões para amar o World Soundtrack Awards (ou a lucidez admirável de um prêmio)

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Desbancando um blockbuster da dimensão de Star Wars: O Despertar da Força, Carol foi a melhor trilha sonora pelo voto popular no World Soundtrack Awards. Carter Burwell ainda foi eleito o compositor do ano.

Não é segredo para ninguém que o BAFTA sempre foi a minha premiação favorita por uma série de razões que inclusive elenquei na parte 1 e na parte 2 dos posts que fiz aqui no blog sobre o prêmio outorgado pelos britânicos. Não escondo, por outro lado, a minha frustração de vê-los tão sem autenticidade de uns anos para cá em suas escolhas dos melhores do cinema. Claro que premiações têm seus altos e baixos, mas é bem provável que hoje, depois de investigar um pouco a história do World Soundtrack Awards, o BAFTA venha a perder o seu lugar prioritário no meu coração. Fora o histórico, o que impulsionou minha paixão à primeira vista por esse prêmio dedicado à celebração de trilhas sonoras para o cinema foi ele ter reparado, na cerimônia realizada na última quarta-feira (19), uma das maiores injustiças da temporada de premiações desse ano: a infinidade de prêmios para Ennio Morricone por Os Oito Odiados.

Digo e repito: óbvio que tenho o maior respeito e admiração por Morricone, mas os troféus que ele levou para casa pelo filme de Quentin Tarantino foram por sua carreira e não pelo trabalho específico na obra. Sempre me chateio com prêmios assim, especialmente quando outros concorrentes são significativamente superiores. E, na varredura de vitórias feita pelo compositor italiano, o grande injustiçado foi Carter Burwell por seu trabalho espetacular em Carol. Entretanto, o World Soundtrack Awards fez justiça ao excelente momento da carreira de Burwell ao lhe conceder o prêmio de compositor do ano pelo júri oficial e pelo voto popular, desbancando nomes como Thomas Newman (outro eterno injustiçado), Daniel Pemberton (que faz um trabalho revelador e subestimado em Steve Jobs), John Williams e o próprio Morricone. Burwell ainda faturou a categoria de composição do ano (“None of Them Are You”, para Anomalisa), o que também corrige outro grande equívoco desse ano: os prêmios de canção recebidos por Sam Smith, por “Writing’s on the Wall”, para 007 Contra Spectre. Não deixe de conferir no site oficial da premiação a lista completa de vencedores.

A consagração tripla para o compositor vem no momento certo, já que Carol é o auge de sua carreira cada vez mais prolífera (lembrando que prêmio de compositor do ano também é por filmes como Ave, César! Anomalisa). No filme de Todd Haynes, Burwell dá uma verdadeira aula sobre como uma trilha sonora deve ser narrativa para uma história, entregando ainda um tema inesquecível para o romance de Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara). Em um mundo coerente, não haveria nem discussão sobre Carol ter a melhor trilha da temporada – e talvez até do ano (abaixo compartilho um vídeo sobre a criação de Burwell para a parte musical do filme). Mas não é de hoje que o compositor já dá sinais de excelência: vale bisbilhotar o que ele realizou para a minissérie Mildred Pierce, estrelada por Kate Winslet em 2011, cujo resultado é muito semelhante com o de Carol. Contudo, a excelência de Burwell não se restringe aos dramas de época, uma vez que também vale a busca por algumas de suas trilhas mais ecléticas e desafiadoras, como para Adaptação, de Spike Jonze, ou Queime Depois de Ler, dos irmãos Coen. Isso mesmo, faz horas que Carter Burwell está entre nós. Pena que só agora ele está recebendo a devida (e merecida) atenção.

Tudo isso nos leva ao início do post, quando confessei que é bem provável que o World Soundtrack Awards venha a se tornar minha premiação favorita envolvendo cinema. Bem como fiz com o BAFTA, abaixo cito dez razões para justificar:

  • Enquanto o Oscar só foi reconhecer Alexandre Desplat com O Grande Hotel Budapeste, o World Soundtrack Awards já havia premiado o francês com os prêmios de trilha por O Curioso Caso de Benjamin ButtonO Fantástico Sr. Raposo, além de ter dado cinco vezes o título de compositor do ano para o francês (a primeira delas pelo lindo trabalho para A Rainha).
  • Não é sempre que júri popular acerta em premiações, mas é definitivamente o caso aqui, onde o polonês Abel Korzeniowski foi reconhecido duas vezes pelo público com suas trilhas para Direito de AmarW.E. – O Romance do Século.
  • “Come What May”, de Moulin Rouge! – Amor em Vermelho, foi eleita a melhor canção escrita para o cinema em 2001. Dispensa comentários.
  • Ainda nas canções escritas para o cinema, o World Soundtrack Awards corrigiu outro grande esquecimento: não só indicou como premiou “You Know My Name”, de Chris Cornell, para 007 – Cassino Royale.
  • Sequer indicada ao Oscar, a inesquecível e emblemática trilha de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain foi eleita a melhor do ano de 2001.
  • Indiscutivelmente o maior compositor brasileiro, Antonio Pinto recebeu o prêmio de revelação do ano por Cidade de Deus em 2003.
  • Esse foi o mesmo prêmio recebido por outros compositores de outras trilhas subestimadíssimas, como Nico Muhly (O Leitor, em 2009) e a dupla Dan Romer e Benh Zeitlin (Indomável Sonhadora, em 2013).
  • É importante reconhecer o cinema comercial e de blockbuster. Por isso o prêmio de compositor do ano para Michael Giacchino (Planeta dos Macacos: O ConfrontoDivertida MenteTomorrowlandO Destino de Júpiter) em 2015 foi tão especial.
  • Nomes renomados e inexplicavelmente sem um mísero Oscar em casa já se consagraram com os prêmios de compositor ou trilha do ano, entre eles Alberto Iglesias, James Newton Howard e Thomas Newman.
  • E até quem já se consagrou no passado com trilhas clássicas mas não no presente mesmo trabalhando a todo vapor foi reconhecido por obras contemporâneas, caso do mestre Hans Zimmer com A Origem e John Williams com Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.

O som das trilhas

nightcrawlerscoreO ABUTRE, por James Newton Howard: Repetindo parceria com a família Gilroy, James Newton Howard, que anteriormente havia trabalhado com Tony em Conduta de Risco, recentemente se juntou a Dan para fazer O Abutre. É curioso como Howard parece ter criado uma sonoridade bastante característica para os Gilroy, já que seus trabalhos nos dois filmes se assemelham bastante. Ambos, no entanto, são dotados de características próprias, e O Abutre, apesar de ser um álbum de extensa duração (são quase 30 faixas!), consegue ficar na lembrança principalmente por seu tema inventivo e que faz marcantes usos de guitarra para trazer tensão e contemporaneidade à história do problemático protagonista vivido por Jake Gyllenhaal. Não deixe de ouvirNightcrawlerIf it Bleeds, It LeadsMoving the Body.

insideoutscoreDIVERTIDA MENTE, por Michael Giacchino: Vencedor do Oscar por Up – Altas Aventuras, Michael Giacchino deve novamente voltar à corrida pela estatueta com Divertida Mente. A animação, desde já uma das mais geniais e marcantes da Pixar, tem seu embalo devidamente pontuado pelo álbum do compositor, que acompanha com perfeição toda a imaginação, a comédia, a aventura e também o drama da trama incrivelmente criativa. Com delicadeza e bom humor, a trilha de Divertida Mente está à altura do filme e, por mais que não tenha melodias necessariamente inesquecíveis como Stuff We Did, de Up, cumpre com louvour a sua missão de ser um complemento narrativo de inteligência para a animação. Não deixe de ouvirBundle of Joy, Joy Returns to Sadness/A Growing PersonalityFirst Day of School.

imitationscoreO JOGO DA IMITAÇÃO, por Alexandre Desplat: Tenha certeza: se Alexandre Desplat não tivesse faturado o Oscar 2015 por O Grande Hotel Budapeste, é bem provável que, apesar do favoritismo de A Teoria de Tudo, o francês ganhasse a estatueta por O Jogo da Imitação. E não é porque esta é a trilha de um filme que tem a cara da Academia, mas sim porque realmente o compositor está em plena forma. São 21 faixas que trazem a devida sofisticação para o clima de longa de época e a delicadeza necessária para que compreendamos os importantes dilemas internos do protagonista. Da mais recente safra de Desplat, O Jogo da Imitação está entre os melhores álbuns. Não deixe de ouvir: The Imitation Game, CrosswordsAlone With Numbers.   

leftoverscoreTHE LEFTOVERS (SEASON 1), por Max Richter: Não há qualquer exagero em dizer que Max Richter marca época na TV com a sua trilha para The Leftovers. É ambicioso o seu trabalho para este drama complexo de inúmeras passagens inesquecíveis graças à trilha sonora, que encontra o ponto certo entre grandiosidades e delicadezas. Richter, além de criar um inesquecível tema de abertura pontuado por um magnífico uso de violinos, consegue apresentar uma melodia super melancólica dividida em inúmeras variações que são sempre tocantes e nunca repetitivas (Departure é emocionante tanto em LullabyHomeReflection). Assim como a própria série, o trabalho de Richter merecia muito mais reconhecimento. Não deixe de ouvirThe Leftovers (Main Title Theme), Dona Nobis Pacem I & IIShe Remembers.

rickisoundRICKI AND THE FLASH, por Vários Artistas: Já comentei na crítica do filme e vale repetir aqui: é um absurdo que as sessões brasileiras de Ricki and the Flash não tenham legendado as canções. O filme de Jonathan Demme não é apenas uma mera coletânea de sucessos como Bad RomanceGet the Party Started ou I Still Haven’t Found What I’m Looking For. Muitas das canções têm algo a dizer sobre a história de Ricki Rendazzo (Meryl Streep), e o fato da atriz não impressionar tando vocalmente em um álbum ouvido separadamente quanto em outros como Mamma Mia!Into the Woods tem muito a ver com a própria história de sua personagem: uma mulher que tentou ser uma estrela do rock a todo custo mas que, na melhor das hipóteses, consegue animar apenas uma dezena de pessoas em um pub qualquer. Não deixe de ouvirDrift AwayI Still Haven’t Found What I’m Looking ForMy Love Will Never Let You Down.

sensescoreSENTIDOS DO AMOR, por Max Richter: Por puro acaso conferi Sentidos do Amor sem saber que o compositor do filme em questão era Max Richter, que recentemente havia me impressionado na primeira temporada de The Leftovers. E não é que ele me levou às lágrimas de novo? A combinação de violino e piano talvez seja a razão mais óbvia para isso (não existe melhor química que um compositor possa encontrar para me emocionar), mas também existe um diálogo perfeito entre os tipos de melodias criadas por Richter e o clima desesperançoso do filme de David Mackenzie. Nada piegas, mas sim sóbrio e com as elevações exatas de tom para comover o espectador. Luminous, que encerra o filme, merece menção à parte tamanha a sua beleza. Não deixe de ouvirLuminousOn a Turning WorldThings Left Behind.

O som das trilhas

birdmanscoreBIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA), por Antonio Sánchez: Desclassificada para o Oscar 2015 por, segundo a Academia,  usar composições de outros músicos como Tchaikovsky e Rachmaninov, a trilha de Birdman é uma das mais interessantes do ano até aqui. Composto e executado pelo bateirista de jazz mexicano Antonio Sánchez, o álbum utiliza basicamente apenas bateria para construir a atmosfera do filme de Alejandro González Iñárritu. O resultado é imersivo e a trilha, frequentemente surpreendente, torna a já completa experiência de se assistir ao filme ainda mais instigante. Não deixe de ouvirDirty Walk, Internal WarThe Anxious Battle for Sanity

breakingtwoscoreBREAKING BAD (Volume 2), por Dave Porter: A TV faz um magnífico trabalho em trilhas sonoras atualmente, mas nem todas as emissoras parecem dispostas a valorizar este setor devidamente. São poucos os programas que têm suas trilhas lançadas, e Breaking Bad felizmente é um deles. Nada mais justo, já que, neste segundo e último volume, Dave Porter se supera nas criações que embalam o universo do emblemático protagonista Walter White. Assim como a própria série, não espere escolhas fáceis aqui, já que as composições dedicadas aos momentos de suspense se tornam frenéticas ou nervosas não pelo mero básico bem feito, mas pela novidade de combinações e uso de diferentes instrumentos. Não deixe de ouvirFolliclesDead FreightThe Final Hat.

shadesgscoreCINQUENTA TONS DE CINZA, por Vários Artistas: Ainda vai levar um tempo para que este filme errado e tedioso seja superado, mas igualmente difícil vai ser deixar de dar play na ótima coletânea que embala a “história de amor” entre Anastasia (Dakota Johnson) e James Gray (Jamie Dorman). Começando com Annie Lennox dando voz à charmosa I Put a Spell On You, a trilha ainda traz relevantes nomes da música contemporânea para novas canções e releituras, como Beyoncé, que surpreende com uma Crazy in Love inteiramente nova e tão marcante quanto a original. Ellie Goulding e Sia também estão listadas aqui ao lado de Frank Sinatra e Rolling Stones. Um álbum para ninguém colocar defeito e que merecia estar a serviço de um filme infinitamente melhor. Não deixe de ouvirI Put a Spell On YouCrazy in LoveLove Me Like You Do

homesmanscoreDÍVIDA DE HONRA, por Marco Beltrami: É um dos trabalhos mais inspirados do ano até agora para um filme que inclusive pode ser considerado incompreendido. Marco Beltrami, indicado duas vezes ao Oscar (por Guerra ao Terror ao lado do amigo Buck Sanders e Os Indomáveis) nunca foi grande compositor, mas neste álbum apresenta composições tão originais e condizentes com o próprio filme que já pode ser considerado um profissional de nova grandeza. Com algumas gravações realizadas ao ar livre nas paisagens onde o filme se desenvolve para capturar o próprio espírito deste western diferenciado, a trilha de Dívida de Honra entrega desde um tema marcante para o gênero a composições super melancólicas. Todos deveriam descobrir. Não deixe de ouvirMain TitleEntering TownOnto the Ferry.

empirescoreEMPIRE, por Vários Artistas: A música de Empire tem influência direta no sucesso estrondoso de audiência da série. Não se engane, contudo, ao pensar que a trilha estreou em primeiro lugar na Billboard só por preencher a lacuna do hip hop existente na TV estadunidense: o disco pensado e produzido por Timbaland é mesmo cheio de canções interessantes. Fácil ficar com Keep Your Money na cabeça ou então curtir um som mais calmo mas igualmente envolvente como Conqueror. É o hip hop em sua essência (as letras são, por vezes, nada inteligentes, por exemplo), mas você pode muito bem se surpreender e até mesmo se empolgar com o que Empire criou musicalmente. Não deixe de ouvirKeep Your MoneyConquerorDrip Drop.

maxfuryscoreMAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA, por Junkie XL: Não é o tipo de trilha para necessariamente ser apreciada fora do filme. Sim, Junkie XL fez um trabalho espetacular para este filme que é um dos maiores espetáculos cinematográficos do ano, mas o álbum funciona muito mais como uma ferramenta narrativa para impulsionar e imergir o espectador em toda a ação deliciosamente frenética do longa dirigido por George Miller. Por acompanhar basicamente todos os momentos de Mad Max, a trilha ultrapassa duas horas de duração e eventualmente empolga tanto quanto o filme, mas se engrandece somente com ele, onde realmente é fundamental para criar a atmosfera da insana fuga protagonizada por Max (Tom Hardy) e Furiosa (Charlize Theron). Não deixe de ouvirBrothers in ArmsSpikey CarsLet Them Up.

O som das trilhas

soundbudapestSegunda colaboração do francês Alexandre Desplat com o diretor Wes Anderson, O Grande Hotel Budapeste também marca uma das mais interessantes trilhas do compositor em anos. Prolífero, Desplat vem realizando uma infinidade de trabalhos nos últimos anos, mas nem todos chegam a ser excepcionais como esse. Capturando perfeitamente o estilo do diretor e, principalmente, toda a inventividade deste filme que reúne o melhor de Anderson sem parecer reciclagem, a trilha de O Grande Hotel Budapeste é uma das melhores do ano – e, nas premiações, deve ser preterida em função de outro trabalho de Desplat: O Jogo da Imitação, que tem muito mais gás na corrida aos prêmios do que Budapeste. Não deixe de ouvirMr. MoustafaTraditional Arrangement MoonshineThird Class Carriage.

soundinterstellarO filme de Christopher Nolan é, sem dúvida, o mais pretensioso e irregular que ele já realizou em toda a sua carreira, mas é bom ver que a parceria com o grande Hans Zimmer não foi abalada. Pelo contrário. É até um salto esta trilha de Interestelar se comparada a de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Conseguindo criar um tema marcante para o longa de Nolan, Zimmer foi certeiro na escolha de basear praticamente todas as suas composições em tradicionais órgãos sem tornar o filme fúnebre ou parecido com algo religioso. O resultado casa perfeitamente com o clima espacial e de viagens em diferentes tempos mostrado em Interestelar, que tem, na trilha sonora, um dos seus pontos mais interessantes. Não deixe de ouvirWhere We’re GoingS.T.A.Y.Dreaming of the Crash.

soundwoodsQuem espera uma trilha sonora animada e com canções repletas de refrões animados já pode mudar de ideia: Caminhos da Floresta faz um exerício musical completamente oposto a essa ideia. O álbum é um legítimo Stephen Sondheim (cujo último musical levado ao cinema foi Sweeney Todd), ou seja, tudo se resume a muitas canções dialogadas e sem refrão que servem exclusivamente ao propósito de conduzir a trama do filme. Esta lógica é certeira e, pensando assim, Caminhos da Floresta tem um ótimo resultado quando ouvida separadamente. A parte instrumental de Sondheim traz excelentes momentos e os atores dão conta do recado quando soltam a voz (em especial as mulheres). Meryl Streep, que começou sua carreira artística com aulas de ópera, mais uma vez é o destaque. Não deixe de ouvirLast MidnightStay With Me e Moments in the Woods.

soundwifeÉ notável como o compositor David Buckley foi se aperfeiçoando ao longo das temporadas do premiado seriado The Good Wife. Especialmente a partir da quinta temporada, Buckley, que, no cinema, já trabalhou com Ben Affleck em Atração Perigosa, conseguia se reinventar a cada episódio – e o resultado foi abraçado pela própria emissora, que resolveu lançar a trilha comercialmente (algo que, infelizmente, segue não sendo uma prática muito comum na TV, em especial a aberta). Foi um grande acerto, pois a trilha de The Good Wife (neste álbum resumida apenas ao quinto ano) é uma das mais inspiradas para qualquer tipo de seriado da atualidade. Impressiona particularmente o constante uso de violinos no álbum, criando uma atmosfera muito clássica para uma série que já marca época na TV aberta. Não deixe de ouvirHitting the FanThe Good Wife (Theme) e Plaintiff’s Partita.

soundtheoryFamoso compositor em terras islandesas, Jóhann Jóhannsson já vem fazendo trabalhos no cinema – especialmente no seu país – desde 2000, mas em 2013 começou a ganhar o mundo com o excelente trabalho que realizou para Os Suspeitos. Agora, já até concorre em premiações com A Teoria de Tudo. É certo que Jóhansson se beneficia por estar em uma biografia que parece ter a fórmula infalível para prêmios, mas seu trabalho não deve ser diminuído em função disso. Nem bem três canções são executadas e já dá para perceber que a trilha de A Teoria de Tudo é encantadora, inventiva e, principalmente, longe de repetir negativamente características de seu compositor. Um belo álbum. Não deixe de ouvirCambridge, 1963, Rowing Domestic Pressures.

soundpennyO intercâmbio entre cinema e TV está cada vez mais intenso não só no que se refere a atores e diretores, mas também a outros setores técnicos. Um exemplo é a trilha sonora. No caso de Penny Dreadful, ninguém menos que Abel Korzeniowski assina o álbum do programa. O polonês, responsável pela épica trilha do longa Direito de Amar, traz todas as características que lhe revelaram no cinema agora para a TV. Isso mesmo, o álbum de Penny Dreadful, transitando entre o drama e o terror, é um legítimo Korzeniowski, com uma sonoridade clássica claramente escrita para uma orquestra sinfônica. As “grandiosidades” são plenamente controlados pelo polonês que, mais uma vez, entrega uma trilha coesa com tudo que já realizou sem cair na repetição. Não deixe de ouvirModern Age, Welcome to the Grand Guignol e Street, Horse, Smell, Candle.

soundgoneA dupla Trent Rezznor e Atticus Ross já é marca registrada dos mais recentes longas do diretor David Fincher. A parceria, inclusive, já rendeu um Oscar de melhor trilha sonora para A Rede Social, mas a melhor colaboração de Rezznor, Ross e Fincher está mesmo no recente Garota Exemplar. Esta é uma trilha completa, que acompanha com perfeição todos os estágios da envolvente história, dos momentos românticos envolvendo os primeiros momentos do casal protagonista ao suspense dos dias em que Amy (Rosamund Pike) passa a estar desaparecida. Não existe, atualmente, parceria que melhor use elementos musicais contemporâneos para, além de fugir das sonoridades mais clássicas, criar obras realmente imersivas e envolventes. Não deixe de ouvirSugar StormLike HomeTechnically, Missing.

O som das trilhas (e as melhores composições de 2013)

No último post de 2013 aqui do blog, comentei que estava um tanto afastado do tempo que considero essencial para ver um filme e escrever sobre ele. Pois no ano que passou também me distanciei – por razões mencionadas naquele post – de outra grande paixão minha: as trilhas sonoras. Não deixei de ouvi-las, mas nunca mais tinha dado o devido destaque a elas aqui no blog (a última postagem sobre trilhas foi em abril!). Pois, então, chegou a hora de começar a reparar esse erro. Mãos à obra!

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scoreprisoners

Composta pelo islandês Jóhann Jóhannsson, esta trilha sonora é mais um dos tantos fatores exemplares de Os Suspeitos. Impressionante como Jóhansson cria um álbum extremamente discreto mas eficiente para envolver o espectador no suspense do filme de Denis Villeneuve. A transição entre melodias dramáticas e nervosas dá o tom certo para o longa, que, sem dúvida, se torna muito mais intrigante com o trabalho de Jóhannsson. É realmente um álbum imersivo e diferente do que estamos acostumados a ouvir em produções do gênero – o que também vai ao encontro da própria discografia do compositor, reconhecida por essa mistura de melancolia e assombramento. Desde já, um nome para se atentar sempre.

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scorerushRush – No Limite da Emoção não teria a mesma adrenalina e a mesma dinâmica sem a excelente trilha sonora do mestre Hans Zimmer. Bastante contemporânea mas nunca abandonando sonoridades marcantes do compositor, é o caso onde o álbum consegue dar conta de todos os momentos da trama roteirizada por Peter Morgan e ainda deixar um tema ecoando na mente do espectador. A composição Lost but Won é o ponto alto do álbum, sintetizando muito bem o tom do filme de Ron Howard. Seu trabalho mais recente para o oscarizável 12 Anos de Escravidão deve receber mais confetes, mas Hans Zimmer também merece créditos por Rush.
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scoregravityMais uma trilha do ano passado que preza pela sutileza para imergir o espectador em um determinado universo. Sim, Gravidade é um filme grandioso, mas o trabalho de Steven Price (em sua primeira grande trilha depois de anos como editor musical de filmes a trilogia O Senhor dos Anéis) não tem nada de explosivo ou megalomaníaco. Ótimas composições como Shenzou precisam subir (maravilhosamente bem) o tom para acompanhar as consequências da história, mas, no geral, a trilha de Gravidade ganha pela simplicidade. Merecidamente, tem tudo para figurar em todas as listas de melhores trilhas da temporada de premiações.
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scorebeastsÉ do diretor Benh Zeitlin, em parceria com Dan Romer, a trilha de Indomável Sonhadora. Não sou entusiasta do filme, mas certamente o trabalho realizado pela dupla é um dos melhores destaques do projeto (junto, claro, com a presença da pequena Quvenzhané Wallis). O álbum chama a atenção pela inventividade e pela diversidade de sonoridades. Impossível não se entusiasmar ao ouvir e reconhecer a força do resultado, que tem tudo a ver com o universo realista mas também fantasioso do filme de Zeitlin. Infelizmente, poucos prestaram atenção nesta rilha, que, ao longo de 14 composições originais, nunca perde o fôlego e a capacidade de surpreender.
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scoremidnightFoi acertada a decisão do diretor Richard Linklater de tornar a trilha sonora um aspecto mais presente na história de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy). Em Antes da Meia-Noite, o piano de Graham Reynolds traz uma melancolia totalmente necessária para o último (?) capítulo deste drama romântico. Chama a atenção a forma como até mesmo composições mais “alegres” possuem algo de agridoce, o que só comprova a total compreensão do compositor em relação ao que Jesse e Celine se tornaram depois de tantos anos. Mesmo que breve e, por algumas vezes, repetitiva, a trilha funciona justamente por ser mais um ingrediente emocional deste que é um dos romances mais marcantes dos últimos anos.
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scoremasterÉ novamente bem sucedida a parceria do diretor Paul Thomas Anderson com Jonny Greeenwood, o guitarrista da banda Radiohead. Se, em Sangue Negro, Greenwood já havia se firmado como um compositor inovador, em O Mestre ele reafirma esse seu talento para realizar trilhas que não são nada convencionais. Mas é muito claro: esse álbum, assim como o próprio filme de Anderson, é estupendo, mas difícil. O adjetivo “assombroso” também cabe a essa trilha, que, sim, chega a ser incômoda (não em um mau sentido), mas também quase hipnotizante. Destaque para Overtones, faixa de abertura e que é o tema desse subestimado longa-metragem.
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scorerarasEspero que todos fiquem de olho na trilha de Flores Raras, que, sem dúvida, é uma das mais marcantes do ano – e, possivelmente, a melhor já realizada pelo brasileiro Marcelo Zarvos. Sensível e sutil, casa perfeitamente com a narrativa do filme de Bruno Barreto, pontuando perfeitamente todas as transições e evoluções do relacionamento de Lota (Glória) e Elizabeth Bishop (Miranda Otto). Composições como The Art of Losing mostram que Flores Raras ganha um charme extra com essa trilha surpreendente, que ainda é uma prova de como a música, em qualquer obra audiovisual, pode – e deve – ser decisiva na cadência de uma história.

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Ainda em tempo, as melhores composições de 2013:

Alexandre Desplat – “Le Lac” (Ferrugem e Osso)

Behn Zeitlin & Dan Romer – “Once There Was a Hushpuppy” (Indomável Sonhadora)

Clint Mansell – “Happy Birthday (A Death in the Family)” (Segredos de Sangue)

Clint Mansell – “Becoming…” (Segredos de Sangue)

Dario Marianelli – “Dance With Me” (Anna Karenina)

Graham Reynolds – “The Best Summer of My Life” (Antes da Meia-Noite)

Hans Zimmer – “Lost but Won” (Rush – No Limite da Emoção)

Hans Zimmer – “What Are You Going to Do When You’re Not Saving the World?” (O Homem de Aço)

Jonny Greenwood – “Overtones” (O Mestre)

Marcelo Zarvos – “The Art of Losing” (Flores Raras)

Mike Patton – “The Snow Angel” (O Lugar Onde Tudo Termina)

Philip Glass – “Duet” (Segredos de Sangue)

Steven Price – “Shenzou” (Gravidade)

O som das trilhas

scoregatsbyMegalomanias à parte, o diretor Baz Luhrmann, quando decide ter tino para trilhas sonoras, simplesmente arrasa. Não à toa, muito do status de clássico de Moulin Rouge! se deve ao trabalho musical de Luhrmann. Ainda não sabemos como é O Grande Gatsby, mas já podemos dizer que ele acertou mais uma vez nesse quesito. Trazendo algumas das mais belas vozes da atualidade, a trilha já tem canções para se ouvir repetidamente, como Kill and Run (da sempre impressionante Sia) e Young and Beautiful (que traz todos os elementos que fizeram de Lana del Rey um sucesso). Tem seus excessos e outras inventividades que cabe a cada um decidir até que ponto funcionam, mas, no geral, é um resultado digno de elogios.
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scorewarrior

Subestimado por seu trabalho em Crash – No Limite que, assim como o filme, divide opiniões, Mark Isham realizou em Guerreiro mais uma trilha que pontua muito bem os dramas e a contemporaneidade de uma história. Reinventando Beethoven e trazendo um ótimo ritmo musical para esse filme que por si só já é eletrizante, Isham aqui também reproduz várias de suas marcas. É um trabalho mais discreto e que não chega a ser necessariamente marcante, mas que está em sintonia com as propostas do diretor Gavin O’Connor. O uso da bela About Today, do The National, em uma versão estendida e instrumentalizada ainda foi responsável pelo ponto alto do longa.
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scoreoblivionJoseph Kosinski sabe fazer filmes de ficção. Só que ele precisa de roteiros infinitamente melhores. É o caso de Oblivion, que, mesmo quase sonolento, é outra investida sua que constrói um universo interessante do ponto de vista estético e que traz mais uma boa escolha na trilha sonora. Sai Daft Punk de Tron: O Legado para a entrada de M83. Álbum cercado de expectativas (afinal a banda é irresistível), basta uma primeira ouvida para constatar que, apesar de cheio de excelentes referências (Hans Zimmer e o próprio Daft Punk), a mistura não é tão interessante quanto os seus ingredientes. Funciona no filme, tem ritmo e é bem realizada, mas, estranhamente, nunca chega a impressionar.
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scoretronre

Ainda no universo de Joseph Kosinski, vale sempre lembrar o quanto Daft Punk acertou na trilha de Tron: O Legado. Injustamente preterido, o álbum do duo francês já pode muito bem se firmar como referência no gênero. No entanto, essa versão remixada é completamente desnecessária. Na tentativa de transformar o filme de Kosinski em uma experiência dançante e moderninha para as pistas, Tron: Legacy – Reconfigured cai em excessos, nada acrescenta à trilha original e não é mais do que um caça-níquel que, claro, não deu certo. O álbum original de Daft Punk já marcava por si só. Nada mais precisava existir, especialmente um remix quase irritante como esse.
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scorerustMesmo com o número infinito de trilhas por ano, Alexandre Desplat sempre dá um jeito de voltar a suas origens e realizar algum projeto na sua terra natal. Dessa vez, ele está novamente em território francês, repetindo a parceria com o diretor Jacques Audiard. Em Ferrugem e Osso, Desplat apresenta uma trilha muito sutil, indo totalmente de encontro com o que Audiard desenvolve na relação de Stéphanie (Marion Cotillard) e Ali (Matthias Schoenaerts). Composições como Le LacLa Plage são uma prova da ótima ambientação construída pela trilha do francês. Nada revolucionário, mas de grande competência, como grande parte do currículo do compositor.
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scoretomorrow

Escape From Tomorrow só foi exibido no Festival de Sundance até o momento e sua equipe composta praticamente por desconhecidos não deve lhe dar muita repercussão em circuito comercial. Porém, em termos de trilha, é bom ficar atento: aqui, temos mais um excelente trabalho do polonês Abel Korzeniowski. Sempre com um estilo inconfundível, o compositor apresenta uma trilha repleta de momentos inspirados, onde algumas composições beiram o épico, como The Grand Finale. É, até agora, o menor projeto do polonês, mas ainda assim um notável adendo para sua admirável carreira.

A trilha sonora de… Segredos de Sangue

stokerscore

Segredos de Sangue marca a estreia do sul-coreano Chan Wook-Park no cinema estadunidense. Reconhecido mundialmente por obras como Oldboy, o diretor resolveu fazer sua estreia com um suspense estrelado por Nicole Kidman e pela jovem Mia Wasikowska. E, julgando pelo trailer, Wook-Park não parece ter perdido sua veia autoral em outras terras. Segredos de Sangue entrou em cartaz discretamente no início de março nos Estados Unidos, enquanto o Brasil só poderá conferir o resultado em maio. De qualquer forma, apesar de não ter reverberado de forma entusiasmada lá fora, ainda é um dos filmes que mais aguardo em 2013.

E o que dizer, então, quando se descobre que a trilha sonora é do lendário Clint Mansell? Aos 50 anos, ele não tem um Oscar ou sequer um Globo de Ouro em casa (como a maioria dos melhores compositores), mas tem em seu currículo trilhas memoráveis, como Réquiem Para Um Sonho e, mais recentemente, Cisne Negro. Mesmo em produções menores, Mansell não deixa de impressionar, como é o caso da ficção Lunar, repleta de composições impressionantes. E, ao ouvir isoladamente a trilha de Segredos de Sangue, já podemos constatar que, mais uma vez, o compositor acertou em cheio – e ainda conseguiu despertar uma positiva curiosidade: onde as composições tão diferenciadas vão se encaixar na história do filme de Chan Wook-Park?

Além do trabalho individual de Clint Mansell, o álbum ainda conta com alguns diálogos do longa, uma música original (Becomes the Color, apenas ok) e uma composição adicional de Philip Glass (a ótima Duet, feita especialmente para a trilha). Mas é mesmo Mansell o verdadeiro destaque, conseguindo fazer uma excelente mistura de drama e suspense em um resultado muito sensitivo, que nos coloca dentro do filme – ainda que não o tenhamos visto. De todo o nervosismo passado por The Hunter Plays the Game a outras faixas mais ritmadas como Happy Birthday (A Death in the Family), o compositor já nos deu o primeiro presente de Segredos de Sangue. Que o filme esteja à altura! 

1. I’m Not Formed By Things That Are of Myself Alone – Mia Wasikowska
2. Becomes the Color – Emily Wells
3. Happy Birthday (A Death in the Family) – Clint Mansell
4. Uncle Charlie – Clint Mansell
5. A Whistling Tune from a Lonely Man – Hudson Thames
6. The Hunter & the Game – Clint Mansell
7. Blossoming – Clint Mansell
8. Summer Wine – Nancy Sinatra & Lee Hazelwood
9. A Family Affair – Clint Mansell
10. Becoming… – Clint Mansell
11. Duet – Philip Glass
12. Crawford Institute (Family Secrets) – Clint Mansell
13. Stride La Vampa (Verdi) – Victoria Cortez
14. The Hunter Plays the Game – Clint Mansell
15. In Full Bloom – Clint Mansell
16. The Hunter Becomes The Game – Clint Mansell
17. We Are Not Responsible For Who We Come to Be (Free) – Clint Mansell
18. If I Ever Had a Heart – Clint Mansell & Emily Wells

A trilha sonora de… Anna Karenina

Sempre fui fã de Dario Marianelli e, depois de trilhas memoráveis como Desejo e Reparação, não esperava outros grandes trabalhos dele. Não esperava no sentido de que ele não precisa provar mais nada a ninguém e qualquer investida menos brilhante não afetaria em nada o seu status. Mas eis que, em suas mais recentes trilhas, o italiano resolve mostrar que não existe momento certo para deixar de impressionar. Não bastasse Jane Eyre, que chegou por aqui em DVD no início do ano e que tem uma trilha cheia de momentos sublimes, Marianelli ainda nos presenteia com Anna Karenina (previsto para entrar em cartaz nos cinemas brasileiros apenas em fevereiro de 2013).

Apesar da distante data, já podemos ter um gosto do novo filme de Joe Wright com a incrível trilha de Marianelli. Se em Jane Eyre ele apostou basicamente em violinos, aqui ele utiliza vários instrumentos para criar um trabalho grandioso e que casa muito bem com o imponente visual que podemos conferir nos cartazes e no próprio trailer de Anna Karenina. Caso Joe Wright tenha realizado um filme de quinta grandeza, a trilha transmite isso muito bem. De um singelo piano até ao uso da sonoridade de valsas impecáveis, o italiano apresenta composições menores e outras de ritmo crescente, além de faixas com óperas, can can e vocais femininos. Contar mais do que isso é estragar a surpresa que é ouvir a trilha de Anna Karenina. Não deixem de procurar!

1. Overture
2. Clerks
3. She is of the Heavens
4. Anna Marches into A Waltz
5. Beyond the Stage
6. Kitty’s Debut
7. Dance With Me
8. The Girl and the Birch
9. Unavoidable
10. Can-Can
11. I Don’t Want You to Go
12. Time for Bed
13. Too Late
14. Someone is Watching
15. Lost in a Maze
16. Leaving Home, Coming Home
17. Masha’s Song
18. A Birthday Present
19. At the Opera
20. I Know How to Make You Sleep
21. Anna’s Last Train
22. I Understood Something
23. Curtain
24. Seriously

O som das trilhas

Foi uma interessante iniciativa do Oscar lançar oficialmente as composições feitas originalmente para a 84ª edição. A festa em si foi pura monotonia e a parte musical presente nesse álbum aparecia de forma muito tímida, mas basta ouvir o trabalho separadamente para encontrar resultados bem interessantes. The 84th Academy Awards: Celebrate the Music reúne compositores como Hans Zimmer e A.R. Rahman, além de uma bela versão de Esperanza Spalding para What a Wonderful World. O auge do álbum, porém, é Celebrate the Oscars, inspirada e eclética composição de Zimmer.

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A elegante série Downton Abbey não teria o mesmo charme sem a eficiente trilha criada por John Lunn. Além da ótima composição-tema, ele emprega sempre o tom correto para a história da família Crawley e seus subalternos: as melodias dramáticas nunca são apelativas e as de “comédia” possuem o tom certo de, digamos, excentricidade. Trilhas instrumentais de TV não são lançadas com tanta frequências, mas a de Dowton Abbey fez por merecer. Assim como toda a parte técnica do programa criado pelo roteirista Julian Fellowes, é exemplar e superior a de muitos filmes por aí.

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Com o lançamento de Drive, quase ninguém valorizou o trabalho que Cliff Martinez já havia realizado anteriormente para Contágio. Só com a faixa de abertura, They’re Calling My Flight (que é a mais marcante do longa) já conseguimos perceber a versatilidade do compositor. E, ao longo da trilha, faixa a faixa, isso só se confirma: a variedade está não apenas entre batidas eletrônicas e sonoridades mais convencionais, mas também no próprio tom das composições. Um trabalho muito completo que está a serviço desse filme que é o mais relevante realizado por Soderbergh em muitos anos.

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Excepcional drama televisivo da HBO, In Treatment também tem a seu favor a excelente trilha sonora de Richard Marvin. O compositor, que já tem em seu currículo um marco da televisão (Six Feet Under), aplica na série estrelada por Gabriel Byrne toda a sua sutileza com o piano. Capaz de criar melodias incrivelmente melancólicas, Marvin consegue se reciclar sem nunca soar cansativo. Pena que é um álbum muito difícil de se encontrar… Destaque para Oliver – Week 4 – Season 2, que, mesmo sendo tema de um personagem desinteressante, captura toda a dramaticidade da série.

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O compositor Marc Streitenfeld tem uma sólida parceria com o diretor Ridley Scott. Juntos, já realizaram Robin HoodO GângsterRede de Mentiras, entre outros. Agora, eles voltam a trabalhar juntos em Prometheus. Assim como nas outras trilhas que realizou para os trabalhos de Scott, Streitenfeld apresenta, novamente, um álbum totalmente condizente com o longa-metragem em questão. O problema é que se a trilha dele para Prometheus funciona muito bem junto com o filme, separadamente soa convencional, sem grandes momentos. Definitivamente, não é para se ouvir repetidas vezes.

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Deve ser uma instrução do próprio diretor Christopher Nolan: todas as trilhas que Hans Zimmer faz para os filmes dele têm exatamente o mesmo estilo. Por isso, até mesmo para quem não presta muita atenção em trilhas, esse álbum de The Dark Knight Rises pode parecer bastante familiar. Com ou sem Nolan, Zimmer é sempre bom e aqui, novamente, ele não desaponta. Só faltou o fator novidade, já que em faixas como Rise identificamos facilmente ecos das composições A Origem, por exemplo. Talvez com o filme deva ser mais impactante. Mas, assim como a de Prometheus, não tem grande impacto se analisada separadamente.

A trilha sonora de… Tão Forte e Tão Perto

Só existe uma razão para Alexandre Desplat não ter emplacado uma indicação sequer ao Oscar 2012: a enorme quantidade de trilhas que apresentou. Tudo Pelo Poder, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2A Árvore da Vida são apenas alguns exemplos. Mas, sejamos sinceros, se John Williams conseguiu dupla indicação (o que podemos considerar um exagero), por que não fizeram o mesmo com Desplat? Seria muito mais justo. De todas as trilhas apresentadas pelo francês que eram elegíveis ao Oscar, a melhor, sem dúvida, é a de Tão Forte e Tão Perto, que, facilmente, entra para as melhores já feitas por ele.

Não importa se o longa de Stephen Daldry dividiu opiniões. Independente de ser bom ou não (o que será discutido posteriormente aqui no blog), a trilha de Desplat consegue se destacar. Se dentro do filme ela funciona, fora consegue deixar uma impressão ainda mais positiva. O que temos no álbum de Tão Forte e Tão Perto é um momento raro na carreira do francês: aqui, ele realiza uma trilha quase que inteiramente baseada em piano. Jean-Yves Thibauted (que já trabalhou com o premiado Dario Marianelli) interpreta com perfeição as composições de Desplat, que fazem um magnífico trabalho com o instrumento.

A composição-tema, que abre o álbum, é apenas uma prévia do maravilhoso trabalho que Desplat apresenta ao longo de 18 faixas – onde até mesmo as mais compridas, como The Swings of Central ParkThe Worst DayThe Sixth Borough nunca perdem o ritmo. Inicialmente, a trilha de Tão Forte e Tão Perto estava a cargo do jovem Nico Muhly, que já havia feito parceria com o diretor Stephen Daldry em O Leitor. Muhly, no entanto, abandonou o projeto (chegou a deixar um trabalho inacabado), abrindo espaço de última hora para Desplat. Não sei se ele estava fazendo um trabalho decepcionante, mas, ao ouvir o álbum de Tão Forte e Tão Perto, dá para ficar feliz com a saída de Muhly, uma vez que Desplat conseguiu um resultado digno de aplausos.

1. Extremely Loud & Incredibly Close

2. The Sixth Borough

3. Piano Lesson With Grandma

4. The Very Best Plan

5. The Worst Day

6. Mother and Son

7. Visiting the Blacks

8. The Phone Call

9. Oskar’s Monologue

10. Oxymorons

11. The Renter’s Story

12. The Key

13. Nothing Fits

14. Listening to the Messages

15. The Renter Leaves

16. William Black’s Story

17. Reconciliation

18. The Swings of Central Park

A trilha sonora de… W.E.

Direito de Amar, além de ser um filme impressionante, revelou um grande compositor. No trabalho de estreia do estilista Tom Ford atrás das câmeras, o polonês Abel Korzeniowski, junto com as composições adicionais de Shimgeru Umbayashi, entregou uma trilha digna de figurar entre as melhores do cinema contemporâneo. O que Abel, absurdamente ignorado pelo Oscar, realizou em Direito de Amar era de cair o queixo. Por isso, as expectativas para seu próximo trabalho eram imensas. Uma surpresa, portanto, vê-lo envolvido em W.E., o fracassado filme de Madonna que, até agora, só foi bombardeado pela crítica. É maravilhoso constatar, no entanto, que os erros da cantora pop na direção não afetaram em nada o trabalho de Korzeniowski, que realiza mais um trabalho excepcional – recentemente agraciado com uma merecidíssima indicação ao Globo de Ouro (a segunda do compositor).

W.E. vem para confirmar Abel Korzeniowski como um grande talento. Na trilha sonora, temos uma sonoridade com jeito de clássica, bem ao estilo de Direito de Amar. Fácil, inclusive, constatar a semelhança entre algumas faixas – aqui, Fight (possivelmente, a melhor do álbum) lembra bastante Swimming. Apesar de parecidas em vários aspectos, cada trilha tem sua personalidade. Por isso mesmo, belas composições como Six Hours e Duchess of Windsor nunca parecem cópias. Korzeniowski, ainda que crie passagens desnecessárias (são cinco faixas com menos de um minuto que pouco acrescentam), realiza mais um trabalho que vale a pena sempre ser ouvido. W.E., como já dito, pode até ser o desastre que muitos apontam – mas, em nenhum momento, devem dizer que a trilha teve qualquer parcela de culpa nisso. Korzeniowski, mais uma vez, foi estupendo.

1. Six Hours
2. Duchess of Windsor
3. Umbrellas
4. Drive to Belvedere
5. Revolving Door
6. Impotency
7. Security Office 1
8. Charm/Cartier Montage
9. Diner
10. I Will Follow You – Part 1
11. I Will Follow You – Part 2
12. Security Office/Kilt
13. Evgeni Date 1
14. Evgeni Date 2
15. Auction 1
16. Auction 2
17. Fight
18. Abdication
19. Evgeni Runs
20. Apartment
21. Brooklyn Faces
22. Typewriter
23. Satin Birds – Part 1
24. Satin Birds – Part 2
25. Letters
25. Paris Walk
26. Park

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