Cinema e Argumento

Assassinato no Expresso do Oriente

I see evil on this train.

Direção: Kenneth Branagh

Roteiro: Michael Green, baseado no livro homônimo de Agatha Christie

Elenco: Kenneth Branagh, Michelle Pfeiffer, Judi Dench, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Josh Gad, Daisy Ridley, Leslie Odom Jr.,  Johnny Depp, Tom Bateman, Olivia Colman

Murder on the Orient Express, EUA/Malta, Drama/Suspense, 104 minutos

Sinopse: O detetive Hercule Poirot (Kenneth Branagh) embarca de última hora no trem Expresso do Oriente, graças à amizade que possui com Bouc (Tom Bateman), que coordena a viagem. Já a bordo, ele conhece os demais passageiros e resiste à insistente aproximação de Edward Ratchett (Johnny Depp), que deseja contratá-lo para ser seu segurança particular. Na noite seguinte, Ratchett é morto em seu vagão. Com a viagem momentaneamente interrompida devido a uma nevasca que fez com que o trem descarrilhasse, Bouc convence Poirot para que use suas habilidades dedutivas de forma a desvendar o crime cometido. (Adoro Cinema)

Haja topete para enfrentar a mitologia dupla que cerca O Assassinato no Expresso do Oriente. A primeira delas é, claro, o popular livro homônimo lançado por Agatha Christie em 1934. A segunda é a adaptação dirigida por ninguém menos do que o saudoso Sidney Lumet em 1974 com um elenco que reunia nomes como Albert Finney, Lauren Bacall, Vanessa Redgrave, Sean Connery e Ingrid Bergman (vencedora de seu terceiro e último Oscar pelo desempenho apresentado na obra). Para começo de conversa, que fique, então, anotado: a bagagem que a nova versão de O Assassinato no Expresso do Oriente precisa carregar é das mais pesadas.

O novo projeto, no entanto, não se intimida, pois as ambições não param por aqui: já está confirmada a produção de uma franquia estrelada pelo excêntrico detetive Hercule Poirot, protagonista de Expresso do Oriente, dessa vez interpretado por Branagh. O ator, que também dirige o filme, repetirá a dobradinha em Morte no Nilo, que está na fila de espera como a nova transposição dos universos de Agatha Christie para o cinema. Até lá, fica a torcida para que Nilo tenha mais clima do que a nova versão de Oriente, uma vez que, mesmo com um elenco à altura do filme de 1974 em termos de prestígio, esse remake em cartaz nos cinemas brasileiros não chega perto de causar qualquer comoção.

Verborrágico, O Assassinato do Expresso do Oriente se atrapalha com o zelo excessivo ao material literário. Branagh, de vez em quando, tenta trazer criatividade e fluidez como diretor ao, entre outras jogadas, posicionar a câmera em pontos inusitados, mas não é o suficiente para disfarçar a vocação literária da trama. Escrito por Michael Green (Blade Runner 2049, Logan), o roteiro reforça a sensação com a total falta de profundidade dos personagens, que, sem maiores embasamentos dramáticos, desfilam como se tivessem apenas que destacar suas características mais básicas e pontuais. Assim, a tarefa de Penélope Cruz, por exemplo, é somente carregar o sotaque como uma religiosa espanhola tratada como mero alívio cômico.

O que sobra como diversão para O Assassinato no Expresso do Oriente é de fato tentar descobrir quem cometeu o tal homicídio nesse cenário extraordinário, o que, já vale avisar, é uma tarefa impossível (e talvez seja isso que mantenha o espectador interessado em meio a uma condução tão morna). Se Branagh acerta na personificação de Poirot sem transformá-lo em um mero palhaço inteligente, seu trabalho como diretor carece de tração: tanto nas revelações quanto nas pistas falsas que planta, Branagh não cria fascínio pelo senso de surpresa ou esperteza. O resultado é uma conclusão criativa em essência, mas amortecida por um filme que não acompanha sua invenção.

Morno e sem vida, O Assassinato no Expresso do Oriente perde a belíssima chance de ser uma viagem inesquecível: imaginem o tanto que poderia ser feito para os sentidos com uma trama cuja principal circunstância por si só já causa certo pavor. Não sei quanto a vocês, mas, para me angustiar, basta a ideia de estar preso em um trem encalhado por uma avalanche. E o que dirá, então, com um assassino sem identidade à solta! Pois não há essa tensão, e a moral da história, pela milésima vez, é a de que certos ícones devem permanecer intocados. Será que um dia vão aprender?

Os indicados ao Globo de Ouro 2018

Sally Hawkins em A Forma da Água: o filme do mexicano Guillermo Del Toro lidera a lista do Globo de Ouro com indicações em sete categorias.

Com pequenas reviravoltas para um início de temporada pulverizado nas premiações, o Globo de Ouro revelou, na manhã de hoje (11), os indicados de sua edição comemorativa de 75 anos. A maior surpresa é, sem dúvida, a boa atenção dada ao drama Todo o Dinheiro do Mundo, indicado a direção, atriz (Michelle Williams) e ator coadjuvante (Christopher Plummer). Fica a incógnita até o lançamento do filme: será que é mesmo um estouro ou apenas efeito do escândalo Kevin Spacey? Vamos acompanhar! Ainda entre as reviravoltas, Greta Gerwig não conseguiu chegar entre os finalistas de direção com Lady Bird: É Hora de Voar (mais uma vez nenhuma mulher compete na categoria!), assim como outro querido das associações de críticos: o italiano Luca Guadagnino com Me Chame Pelo Seu Nome, que ainda ficou de fora nas listas de roteiro e canção original, onde parecia aposta certa. Mais uma vez fica a lição para que se não acredite tanto nas listas de associações de críticos. Premiações televisionadas são um assunto completamente diferente.

Quem ganha força aqui? Primeiro A Forma da Água, do mexicano Guillermo Del Toro. Se parece um tanto improvável o Oscar comprar com tanta paixão um longa de fantasia (lembram que O Labirinto do Fauno, também assinado pelo cineasta, não se consagrou em filme estrangeiro no prêmio da Academia?), o Globo de Ouro provou mais uma vez não ser careta com gêneros, indicado a produção em sete categorias, como líder absoluto. E The Post – A Guerra Secreta, que deve ser a alternativa real para um ano estranhamente específico e indie, realmente vingou: o novo trabalho de Steven Spielberg coleciona indicações em filme, direção, ator (Tom Hanks), atriz (Meryl Streep), roteiro e trilha sonora. Entre as comédias, forçaram a barra com a lembrança de Ansel Egort como melhor ator por Em Ritmo de Fuga, mas compensaram dando a devida atenção aos desempenhos de Emma Stone e Steve Carell em A Guerra dos Sexos. Também não faltaram interpretações surgindo do nada no segmento de cinema: Denzel Washington, como melhor ator por Roman J. Israel, Esq., Helen Mirren como melhor atriz por The Leisure Seeker e Hong Chau como coadjuvante por Pequena Grande Vida.

Com o Brasil novamente de fora, a lista de filmes estrangeiros contempla tanto filmes já repercutidos no Festival de Cannes (Loveless e Em Pedaços) quanto outros que não pareciam destinados a realmente ter algum buzz, como Uma Mulher Fantástica, do Chile, e First They Killed My Father, do Camboja, dirigido por Angelina Jolie. Mas há Brasil sim na edição comemorativa do Globo de Ouro: o carioca Carlos Saldanha dirige O Touro Ferdinando, indicado na categoria de melhor animação. Por fim, considerando as indicações dos seriados, surpreende que o elenco inteiro de Game of Thrones tenha deixado de conseguir indicações por seus desempenhos individuais. Famoso por festejar tudo que é série novata (incluindo aquelas que quase nem sabíamos da existência), o Globo de Ouro, ao menos, acertou em uma indicação particular: a de Jude Law como melhor ator em minissérie/telefilme por The Young Pope, quebrando o jejum da belíssima produção nas listas até aqui.

A premiação do Globo de Ouro acontece no dia 7 de janeiro. Confira abaixo a lista completa de indicados em cinema:

MELHOR FILME DRAMA
Me Chame Pelo Seu Nome
Dunkirk
The Post – A Guerra Secreta
A Forma da Água
Três Anúncios para um Crime

MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL
Artista do Desastre
Corra!
I, Tonya
Lady Bird: É Hora de Voar
O Rei do Show

MELHOR DIREÇÃO
Christopher Nolan (Dunkirk)

Guillermo del Toro (A forma da Água)
Martin McDonagh (Três Anúncios para um Crime)
Ridley Scott (Todo o Dinheiro do Mundo)
Steven Spielberg (The Post – A Guerra Secreta)

MELHOR ATRIZ DRAMA
Frances McDormand (Três Anúncios para um Crime)
Jessica Chastain (A Grande Jogada)
Sally Hawkins (A Forma da Água)
Meryl Streep (The Post – A Guerra Secreta)
Michelle Williams (Todo o Dinheiro do Mundo)

MELHOR ATOR DRAMA
Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Denzel Washington (Roman J. Israel, Esq.)
Gary Oldman (O Destino de Uma Nação)
Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)
Tom Hanks (The Post – A Guerra Secreta)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL
Emma Stone (A Guerra dos Sexos)
Helen Mirren (The Leisure Seeker)
Judi Dench (Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha)
Margot Robbie (I, Tonya)
Saoirse Ronan (Lady Bird: É Hora de Voar)

MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL
Ansel Elgort (Em Ritmo de Fuga)
Daniel Kaluuya (Corra!)
Hugh Jackman (O Rei do Show)
James Franco (Artista do Desastre)
Steve Carell (A Guerra dos Sexos)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Allison Janney (I, Tonya)
Hong Chou (Pequena Grande Vida)
Laurie Metcalf (Lady Bird: É Hora de Voar)
Mary J. Blige (Mudbound)
Octavia Spencer (A Forma da Água)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Armie Hammer (Me Chame Pelo Seu Nome)
Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo)
Richard Jenkins (A Forma da Água)
Sam Rockwell (Três Anúncios para um Crime)
Willem Dafoe (Projeto Flórida)

MELHOR ANIMAÇÃO
The Breadwinner
Com Amor, Van Gogh
O Poderoso Chefinho
O Touro Ferdinando
Viva: A Vida é uma Festa

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Home” (O Touro Ferdinando)
“Mighty River” (Mudbound)
“Remember Me” (Viva: A Vida é uma Festa)
“The Star” (A Estrela de Belém)
“This is Me” (O Rei do Show)

MELHOR TRILHA SONORA
Dunkirk
A Forma da Água
The Post – A Guerra Secreta
Trama Fantasma
Três Anúncios para um Crime

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Uma Mulher Fantástica (Chile)
First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers (Camboja)
Em Pedaços (Alemanha)
Loveless (Rússia)
The Square (Suécia)

MELHOR ROTEIRO
A Forma da Água
A Grande Jogada

Lady Bird: É Hora de Voar

The Post – A Guerra Secreta
Três Anúncios para um Crime

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MELHOR SÉRIE DRAMA
Game of Thrones
The Handmaid’s Tale
Stranger Things
The Crown
This Is Us

MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Black-ish
Master of None
SMILF
The Marvelous Mrs. Maisel
Will & Grace

MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME
Big Little Lies
Fargo
Feud: Bette and Joan
The Sinner
Top of the Lake

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DRAMA
Caitriona Balfe (Outlander)
Claire Foy (The Crown)
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Katherine Langford (13 Reasons Why)
Maggie Gyllenhaal (The Deuce)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Alison Brie (GLOW)
Frankie Shaw (SMILF)
Issa Rae (Insecure)
Pamela Adlon (Better Things)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Jessica Biel (The Sinner)
Jessica Lange (Feud: Bette and Joan)
Nicole Kidman (Big Little Lies)
Reese Witherspoon (Big Little Lies)
Susan Sarandon (Feud: Bette and Joan)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DRAMA
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Freddie Highmore (The Good Doctor)
Jason Bateman (Ozark)
Liev Schreiber (Ray Donovan)
Sterling K. Brown (This is Us)

MELHOR ATOR EM SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Anthony Anderson (Black-ish)
Aziz Ansari (Master of None)
Eric McCormack (Will & Grace)
Kevin Bacon (I Love Dick)
William H. Macy (Shameless)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Ewan McGregor (Fargo)
Geoffrey Rush (Genius)
Jude Law (The Young Pope)
Kyle MacLachlan (Twin Peaks)
Robert De Niro (O Mago das Mentiras)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Ann Dowd (The Handmaid’s Tale)
Chrissy Metz (This is Us)
Laura Dern (Big Little Lies)
Michelle Pfeiffer (O Mago das Mentiras)
Shailene Woodley (Big Little Lies)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Alexander Skarsgård (Big Little Lies)
Alfred Molina (Feud: Bette and Joan)
Christian Slater (Mr. Robot)
David Harbour (Stranger Things)
David Thewlis (Fargo)

As cinco melhores séries de 2017

Com a trajetória ascendente das plataformas on demand, tem se tornado cada vez mais árdua a tarefa de escolher quais séries assistir ao longo do ano, pois há programas para todos os gostos, em todos os formatos com todos os tipos de atrativos. Claro que, em contramão, isso se assemelha aos tempos cada vez mais distantes em que perdíamos horas buscando algo realmente interessante para assistir nas centenas de canais disponibilizados pela TV a cabo, mas aí é questão de novamente aplicar os filtros corretos: afinal, o que não falta atualmente é opção boa entre as narrativas seriadas. E, para quem quiser tirar o atraso de 2017, resolvi selecionar as minhas cinco séries favoritas do ano, contemplando, em uma única lista, os dramas, as comédias e até as minisséries, formato que acertadamente se populariza com novo fôlego e prestígio em produções de altíssimo nível.

5º – OZARK (Netflix)

“Dinheiro é, em sua essência, a medida das nossas escolhas”.

A pior coisa que você pode fazer para Ozark é tentar igualá-la ao ícone Breaking Bad. Sim, os dois programas são sobre dois pais de família envolvidos em negócios escusos e que colocam vidas em perigo, mas, conforme comentei no texto sobre a primeira temporada, toda e qualquer semelhança termina por aí. Ozark tem personalidade própria, optando por renegar arcos clássicos de histórias dessa natureza, como a própria incursão gradativa do protagonista no mundo da ilegalidade, onde descobre possibilidades e aptidões até então camufladas. Quando Ozark começa, tudo isso já aconteceu. Desviando-se ainda da necessidade de apresentar algum tipo de catarse, o que é sempre muito cobrado pelo público, o seriado caminha com uma batida mais comedida, mas sem ser morno por conta disso. E o que dizer da coesão do elenco? Fora Jason Bateman e Laura Linney, que são ótimos protagonistas, existe Julia Garner, ótima como a jovem Ruth, um pequeno furacão que jamais passa despercebido quando está em cena.

4º – THE HANDMAID’S TALE (Hulu)

“Agora eu acordei para o mundo. Antes, estava adormecida. E foi assim que nós deixamos tudo acontecer. Nós não acordamos quando eles dilaceraram o Congresso. Nós não acordamos quando eles culparam os terroristas e suspenderam a Constituição. Nada muda de uma hora para outra. Em uma banheira que se aquece gradativamente, você seria cozinhada viva antes que pudesse perceber”.

Seria necessário um tipo muito especial de incompetência para fazer um programa como The Handmaid’s Tale dar errado, mas a verdade é que poucos conseguiriam conferir a essa adaptação do livro de Margaret Atwood tanta potência técnica e dramática. Assustadoramente atual, a série produzida pela Hulu – e que volta para uma segunda temporada em abril de 2018 – chega a causar extremo desconforto pela veracidade com que encena de forma ficcional as atrocidades cometidas contra as mulheres. Atrocidades que, na verdade, são mais comuns na vida real do que gostaríamos de constatar. Elisabeth Moss, em mais um desempenho poderoso, ganhou o seu tão aguardado Emmy de melhor atriz pelo trabalho realizado aqui, acompanhada da também premiada e sempre extraordinária Ann Dowd, impecável como a cruel tia Lydia, que intensifica a ditadura machista dessa distopia capturada com uma linguagem técnica lindíssima e inteligente, mas ao mesmo tempo profundamente aterradora em sua perspectiva dramática. 

3º – FEUD: BETTE AND JOAN (FX)

“Tudo dá certo no final, Joanie. Sabe, nós do mundo do entretenimento… Toda a raiva que sentimos por não sermos amados – que é o primeiro motivo pelo qual entramos nesse negócio – todas as lágrimas, os gritos, o ódio… Isso tudo desaparece. E o público, o que eles lembram, na maior parte do tempo, é das coisas boas, do trabalho e de toda a alegria que nós trouxemos a eles. Acredite. Todo o sofrimento terá valido a pena”.

Prato farto para os cinéfilos – como não se deliciar com as inúmeras referências registradas a cada episódio? -, Feud: Bette and Joan, por outro lado, prefere não se limitar a um relato estritamente de nicho. O que esse primeiro capítulo da antologia criada pelo prolífero Ryan Murphy quer é trazer uma perspectiva humana e ampla ao universo feminino a partir do envelhecimento, com foco na indústria Hollywoodiana, onde as mulheres historicamente precisam batalhar dia a dia para conquistar o mínimo de respeito e reconhecimento. Jessica Lange e Susan Sarandon são um arraso como Joan Crawford e Bette Davis, fortalecendo um contraste difícil de antever: se a história começa como um relato divertido sobre o embate entre duas estrelas, logo Feud: Bette and Joan questiona o porquê de tanto fascínio com a disputa para, ao final, entregar o desfecho mais desolador do ano. Não é sempre que equilíbrio entre reflexão e entretenimento se mostram tão afiados em minisséries.

2º – THE YOUNG POPE (Sky/HBO/Canal+)

“Renunciei o homem em mim porque não quero sofrer ou ter que suportar o coração que o amor quebra. Seria maravilhoso amá-la do jeito que você quer que eu a ame, mas eu não sou um homem. Sou um covarde. Assim como todos os padres”.

É bem provável que você não tenha ouvido falar em The Young Pope, uma produção de alto requinte dirigida pelo prestigiado cineasta italiano Paolo Sorrentino, mas faça a sua parte e ajude a compensar o descaso da mídia e dos prêmios ao dar uma chance para essa primeira temporada de oito episódios (um segundo ano já foi confirmado, mas talvez a história e os personagens sejam outros). Nela, Jude Law tem, com folga, o melhor desempenho de sua carreira como o fictício Pio XIII, o primeiro papa norte-americano e o pontífice mais jovem da história do Vaticano. Ele é um sujeito complexo, evocando, logo de cara, a ideia que juventude pode não trazer qualquer garantia de inovação, nem mesmo na igreja católica. Com profundidade e acidez, The Young Pope contempla as mais diversas facetas da fé e do catolicismo, inclusive e especialmente as suas incongruências. É programa de consistência invejável e encenada por um elenco de primeiríssima qualidade, além de não se assemelhar a nada que você já tenha visto na TV (ou nas plataformas on demand).

1º – THE LEFTOVERS (HBO)

“Ela já desconfiava, mas agora sabia sabia que ele era um covarde. Um covarde com uniforme de homem valente. Valente para cruzar dois oceanos e um continente para achá-la e lutar contra inúmeros inimigos, mas, ao final, descobrir que ficou com muito medo. Medo de se deitar ao lado dela, de ser consolado enquanto chorava, de mostrar o quão pequeno ele era, de compreender tudo isso quando ela tocasse o seu rosto e sussurrasse palavras em seu ouvido. Era um pesadelo, e só o que ele sabia fazer era fugir. Respirou fundo, sentiu o gosto do sal na língua e fechou os olhos, enquanto o barco Misterioso acelerava em direção ao horizonte. Ele estava sozinho. E tudo estava bem”

Seguindo a linha do descaso, como não falar sobre The Leftovers, uma série reconhecida apenas pela crítica ao longo de suas três brilhantes temporadas? Mais do que o programa do ano, o drama criado pela dupla Damon Lindelof e Tom Perrotta para a HBO, com base no livro homônimo de Perrotta, é inquestionavelmente um dos mais marcantes desse início de século. Partindo do desaparecimento inexplicável de 3% da população mundial, The Leftovers registra o que acontece com as pessoas que precisam lidar com a imensa interrogação que é sofrer uma perda sem saber a sua real razão. É com esse assombro que os personagens tentam (ou não) continuar suas vidas: enquanto uns apenas esperam com convicção o retorno dos que partiram, outros buscam incansavelmente – através da ciência, da fé ou do quer que seja – uma forma de reencontrá-los.

O seriado tem drama, suspense, bastante imaginação, interpretações superlativas, humor e ruptura com qualquer convencionalidade ou com o que as narrativas seriadas já pré-estabelecem como parâmetro aos espectadores. Em sua terceira e última temporada, The Leftovers seguiu arrebatando na técnica (boa parte das imagens mais lindas desse ano você encontra aqui) e, mais importante de tudo, manteve-se atenta à precisão de sua história: aqui, o ciclo da série se encerra talvez não dando as respostas que tanto procurávamos no início da série, mas sim aquelas que descobrimos, ao longo da trama, serem as mais importantes e necessárias sob a perspectiva dramática. O tempo deve fazer justiça ao universo poderoso que The Leftovers apresentou durante três anos breves, mas  indiscutivelmente inesquecíveis.

Três atores, três filmes… com Tanira Lebedeff

Credenciais não faltam para a minha colega jornalista Tanira Lebedeff, que tenho o prazer de ter como convidada aqui na coluna. Ela, que já ganhou o Candango de melhor roteiro no Festival de Brasília pelo curta-metragem A Vida do Outro, viveu oportunidades de ouro em sua carreira como jornalista, entre elas a de ser correspondente da Globo News em Los Angeles durante a época do Oscar! Aliás, fica a dica: Tanira conta um pouco de seus bastidores em reportagens e de seus diários de viagens de produção no livro A Velhinha Que Entrevistou George Clooney, lançado pela editora Catarse, em 2016. Hoje, ela compartilha toda a sua experiência como repórter com os futuros jornalistas do mercado ao integrar o corpo docente da ESPM Sul. Além de ser uma querida, Tanira traz ao blog escolhas indefectíveis, de intérpretes talentosíssimos, incluindo Vladimir Brichta, que vem se revelando há anos, mas que tem, em Bingo – O Rei das Manhãs, um momento realmente especial. O resto eu deixo para ela contar nos comentários abaixo!

Frances McDormand (Fargo – Uma Comédia de Erros)
Nessa comédia de erros – aliás, subtítulo que o filme ganhou no Brasil – Frances McDormand é uma policial gravidíssima investigando uma série de assassinatos desencadeados pelo plano muito infeliz do vendedor de automóveis vivido por William H. Macy. Com uma personalidade simples e um sotaque carregado, típicos de uma pequena cidade interiorana, não seria improvável duvidar de sua capacidade de desvendar um crime. Mas Marge Gunderson é astuta, determinada, não se intimida nem por bandidos brutamontes, nem pelo peso da barriga ou pela neve que em certas ocasiões é praticamente coadjuvante do filme. A policial Marge Gunderson rendeu a Frances McDormand o Oscar de Melhor Atriz em 1997. Ela foi ovacionada ao subir palco para receber estatueta imitando o caminhar desengonçado da personagem. Um clássico que merece ser revisto (inspirou série na TV americana), Fargo foi dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen. Frances é casada com Joel e trabalhou com a dupla em vários filmes, incluindo Queime Depois de Ler, em que tira uma lasquinha de George Clooney e inventa uma intriga internacional para financiar uma cirurgia plástica. Outra atuação primorosa numa obra tão imprevisível quanto Fargo.

Viggo Mortensen (em qualquer filme)
Sim, para mim seu nome nos créditos é atestado de qualidade da obra. O entrevistei numa coletiva quando era correspondente em Los Angeles. Viggo, um gentleman, nos presenteou com seus livros de fotografia e escreveu um agradecimento no idioma de cada um dos jornalistas. Naqueles tempos de protestos contra as guerras no Iraque e no Afeganistão era comum vê-lo nas ruas de Los Angeles entre os manifestantes. Tudo isso transcende a tela e deixa Viggo e seus personagens ainda mais instigantes e encantadores. Aragorn, por exemplo, é o motor da trilogia Senhor dos Anéis, a personificação da nobreza. Mais recentemente Viggo encarnou o teimoso Capitão Fantástico, que conduz sua filharada hippie num road movie rumo à realidade de uma vida convencional. Mas como tenho que indicar um filme… Escolho Senhores do Crime, de David Cronenberg. Nele Viggo Mortensen é Nikolai Luzhin (SPOILER!), um agente secreto resignado que entrega sua existência para investigar a máfia russa em Londres. A cena de luta na sauna é uma das melhores de ação que já vi.

Vladimir Brichta (Bingo – O Rei das Manhãs)
O reino do politicamente incorreto tem um soberano incontestável: o Bingo de Vladimir Brichta. Inspirado na vida surreal de Arlindo Barreto, um dos atores que viveram o palhaço Bozo na TV, o filme tem altas doses de humor, drama e escracho. Vamos do ápice do sucesso ao fundo da garrafa em que o Augusto de Brichta mergulha por não poder mostrar a cara – afinal quem tem que fazer sucesso é o palhaço, não o ator. Bingo é recheado de sexo, drogas e o bom rock n’roll dos anos 80, tem fotografia e uma produção cênica primorosas. Mas quem rouba o picadeiro é Vladimir Brichta, com uma atuação intensa e honesta, sem exageros. Brichta, que era uma das pérolas no elenco da série televisiva em que trocava tapas e beijos com Fernanda Torres, ganhou um baita presente com esse filme. E honra cada palavra do roteiro (SPOILER! a participação de Domingos Montagner, como o palhaço que foi, beira o sobrenatural.)  E o melhor da piada: num ano em que arte e cultura viraram saco de pancadas, Bingo, The King of Mornings foi a produção indicada para representar o Brasil no Oscar de 2018. Bravo!

Extraordinário

Because I’m your mom, it counts the most.

Direção: Stephen Chbosky

Roteiro: Jack Thorne, Stephen Chbosky e Steve Conrad, baseado no livro homônimo de R.J. Palacio

Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Noah Jupe, Mandy Patinkin, Danielle Rose Russell, Bryce Gheisar, Elle McKinnon, Daveed Diggs, Nadji Jeter, Millie Davis

Wonder, EUA/Hong Kong, 2017, Drama, 113 minutos

Sinopse: Auggie Pullman (Jacob Tremblay) é um garoto que nasceu com uma deformação facial, o que fez com que passasse por 27 cirurgias plásticas. Aos 10 anos, ele pela primeira vez frequentará uma escola regular, como qualquer outra criança. Lá, precisa lidar com a sensação constante de ser sempre observado e avaliado por todos à sua volta. (Adoro Cinema)

Desde que nasceu com uma deformação facial, o pequeno Auggie Pullman (Jacob Tremblay) passou por mais de 20 cirurgias plásticas. Os procedimentos repararam vários de seus sentidos prejudicados, como a visão e a audição, mas jamais lhe conferiram qualquer estética aceitável aos olhos da sociedade. Por isso, se o nosso rosto é o registro mais explícito de tudo aquilo que já vivemos através dos anos, Auggie, com apenas dez, tem história até demais para exibir ao mundo e principalmente ao amedrontador universo escolar que agora lhe aguarda. Eis a verdadeira tragédia que impulsiona a emoção de Extraordinário: não a deformidade física, e sim o fato de um garoto tão jovem e doce precisar compreender, logo cedo na vida, que nem sempre as pessoas conseguem ser generosas com aquilo que consideram remotamente “diferente”.

Sucesso estrondoso de bilheteria nos Estados Unidos, Extraordinário deve repetir sua trajetória bem sucedida com as plateias do Brasil e de todos os cantos do mundo, pontuando mais um grande êxito na carreira do diretor Stephen Chbosky, que, em 2012, escreveu e dirigiu o adorado As Vantagens de Ser Invisível. O efeito é semelhante: tanto Extraordinário quanto As Vantagens de Ser Invisível foram abraçados por público e crítica, mas o diálogo entre os dois filmes é muito mais interessante no sentido de tentar entender o porquê de ambos conseguirem juntar com tanta facilidade dois públicos normalmente distintos. Afinal, como adaptar com excelência um best seller emotivo, motivacional, mais palatável e de viés comercial de modo que ele também agrade uma plateia à espera de narrativas acima da média?

Entre tantos aspectos, é preciso, claro, procurar diferentes ângulos daquilo que já conhecemos. É o que faz Extraordinário, que, baseado no livro homônimo de R.J. Palacio, coloca outros personagens no centro da narrativa para levantar diferentes percepções quanto ao protagonista, como a da irmã mais velha, que nunca teve qualquer protagonismo em casa frente aos tantos cuidados físicos e emocionais com o caçula, ou a do colega de escola que, aos poucos, passa a compreender Auggie a ponto de se tornar seu melhor amigo. Dessa forma, Extraordinário deixa de ser um monólogo de seu protagonista para se tornar um filme que, sim, sempre converge para sua discussão central, mas a partir de múltiplos caminhos. Essa estrutura traz dinâmica e curiosidade para um relato que que poderia apenas se acomodar nas difíceis circunstâncias de um personagem dramático por si só.  

Chbosky, que escreve a adaptação ao lado de Jack Thorne e Steve Conrad, traça um paralelo estimulante em Extraordinário: de um lado, toda a graça de uma infância cercada de imaginação (Auggie é fã de Star Wars e encontra conforto ao sonhar que é popular na escola por levar o icônico Chewbacca ao pátio da escola!); de outro, a dura realidade de uma sociedade que, quando não comete bullying, dificilmente esconde o olhar torto e assustado para um garoto que, lá no fundo, todos preferem que tome certa distância. Chbosky cumpre os rituais para um filme de natureza assumidamente comercial (há, claro, a trilha do brasileiro Marcelo Zarvos para sublinhar emoções e eventos que surgem apenas para estender um pouquinho mais as lágrimas), mas a leveza e a tristeza são muito bem comandadas por uma direção graciosa e que, no geral, está atenta ao quanto deve açucarar a jornada emocional do longa.

Com o carisma do elenco, ainda há como incrementar o resultado: compensando o fato do talentoso Jacob Tremblay (lembram como ele era magnífico em O Quarto de Jack?) estar embaixo de uma pesada maquiagem que praticamente impossibilita uma composição mais minuciosa do ator, todo o elenco de suporte é consistente em talento, de Julia Roberts, uma atriz que gosto demais em papéis dramáticos, a outros jovens atores, como Noah Jupe, que interpreta o amigo Jack Will, e Izabela Vidovic, que dá vida à irmã de Auggie. Misturando drama e otimismo (uma combinação praticamente infalível para obras dessa natureza), Extraordinário revela mais do que um sucesso de bilheteria que remonta à boa e velha definição do filme-família: tomando certa perspectiva, é mais do que clara a consolidação de um cineasta que tem tudo para consolidar uma carreira com filmes populares e, de quebra, ainda comover novas plateias.