Cinema e Argumento

Roda Gigante

When it comes to love, we often turn out to be our worst enemy.

Direção: Woody Allen

Roteiro: Woody Allen

Elenco: Kate Winslet, Justin Timberlake, Jim Belushi, Juno Temple, Jack Gore, Max Casella, David Krumholtz, Tony Sirico, Steve Schirripa, Robert C. Kirk, John Doumanian, Tom Guiry

Wonder Wheel, EUA, 2017, Drama, 101 minutos

Sinopse: A atriz Ginny (Kate Winslet), casada com Humpty (James Belushi), acaba se apaixonando pelo salva-vidas Mickey (Justin Timberlake). Mas quando sua enteada, Carolina (Juno Temple), também cai de amores pelo rei da praia, as duas começam uma forte concorrência. (Adoro Cinema)

Plataforma on demand que compete diretamente com a gigante Netflix, a Amazon vem trilhando um caminho diferente de sua concorrente ao apostar em uma estratégia de auto-promoção menos expansiva e em projetos menos comerciais e assinados por realizadores conceituados do ponto de vista artístico, especialmente no âmbito cinematográfico. O mais recente êxito da Amazon foi seu voto de confiança para a distribuição de Manchester à Beira-Mar, magnífico filme de Kenneth Lonergan, indicado a seis Oscars e vencedor de dois (melhor ator para Casey Affleck e melhor roteiro para o próprio Lonergan). Mostrando que não está para brincadeira, a Amazon, ainda em 2015, também trouxe Woody Allen para o seu time, jogada que logo se revelou pouco frutífera: o desastroso seriado Crisis in Six Scenes não foi visto por ninguém e o próprio cineasta faz questão de dizer aos quatro ventos, com toda razão, que a experiência no formato foi mesmo catastrófica.

Agora, chegamos ao drama Roda Gigante, onde a Amazon se enroscou em um problema que ultrapassa as fronteiras artísticas: descortinados os casos de assédios sexuais em Hollywood, o interesse pelo filme se dissipou, e Allen, que tem um longa, nebulosa e problemática história pessoal envolvendo o tema, viu sua mais recente obra ser boicotada mundo afora, reflexo também das lamentáveis e recentes declarações onde “alertava” sobre o início de uma possível temporada de caça às bruxas contra os homens em Hollywood, como se, de repente, eles agora fossem pobres coitados na história toda. A contextualização é importante porque nos leva à acertada estratégia de promoção da Amazon para Roda Gigante na temporada de premiações: nas peças publicitárias e nos famosos screeners enviados aos votantes, o nome de Woody Allen foi excluído de qualquer item da lista “for your consideration”, onde cada estúdio elenca quais aspectos do filme merecem ser lembrados pelos votantes na hora de escolher seus favoritos do ano. A medida da Amazon é justíssima porque é uma injustiça descomunal condenar ao esquecimento centenas de pessoas envolvidas em um filme por conta de polêmicas envolvendo apenas uma delas. E, na jornada contra Roda Gigante, há, pelo menos, dois grandes injustiçados que serão pontuados mais adiante nesse texto.

Tematicamente, o drama estrelado por Kate Winslet é mais um relato requentado de Woody Allen (como se isso fosse novidade em boa parte de sua carreira), mas o diretor estabelece uma espécie de diálogo entre o longa de agora e o celebrado Blue Jasmine, que é indiscutivelmente a fonte de material para sua mais nova obra. Se, em ambos os filmes, acompanhamos protagonistas femininas à beira de um ataque de nervos e afundadas em tragédias pessoais, uma diferencia crucial as separa: enquanto a Jasmine de Cate Blanchett escolhia viver em uma realidade paralela para acreditar que o universo conspirava contra cada movimento da sua vida, a Ginny de Kate Winslet assume, inclusive verbalmente, que muitas de suas tragédias foram causadas por ela própria — e o que ela (não) faz em relação a isso é o que dá a tônica ao longa, que se sai muito melhor como um estudo de personagem do que como o relato de um quadrilátero amoroso.

É melhor encarar Roda Gigante sob o prisma de sua protagonista porque, em termos práticos, o roteiro escrito por Woody Allen não apresenta desdobramentos tão interessantes quanto a personagem que radiografa. Por sinal, surpreende como alguns artifícios tenham chegado à versão final do roteiro, com destaque para a escolha de usar Mickey (Justin Timberlake) como narrador da trama. Há gracejo na opção, mas ela liquida com uma possibilidade mais instigante: a de Mickey ser trabalhado na dubiedade, algo que traria maior consistência a sentimentos e pensamentos mastigados demais por esse contador de histórias. Sendo assim, no turbilhão em que vive Ginny – casamento infeliz, trabalho desgastante, carreira frustrada como atriz, filho problemático – conta menos o que acontece a ela e mais os detalhes de cada personagem, inclusive dos coadjuvantes, como a construção de Carolina (Juno Temple), a enteada de Ginny, que, em tantas outras obras, seria a jovem sedutora que vem para competir com a madrasta (aqui, felizmente, ela ela não passa de uma boa moça que deseja colocar a vida nos eixos).

Sem grandes criações, Roga Gigante, em contraste, se alça ao status de filme mais relevante de Woody Allen desde Blue Jasmine graças ao desempenho sensacional de Kate Winslet, que conjuga técnica e emoção ao abraçar uma riqueza de protagonismo que, ao mesmo, tempo lhe é tão merecida, mas lhe é tão negada em sua carreira recente. No quase-monólogo que norteia a cena final de Kate com Justin Timberlake (bom galã, ainda que ator irregular), ela ganha força extra, em um daqueles momentos que entram para os mais marcantes de sua filmografia. Posto isso, é injusto que escanteiem Roda Gigante ignorando um desempenho especial como esse que, em outro recorte de tempo, seria celebrado por tudo quanto é tipo de premiação, bem como a estonteante fotografia de Vittorio Storaro, que trabalha com inteligência as oscilantes luzes de um parque de diversões para registrar as transições emocionais dos personagens. Storaro e Winslet formam a dupla que não merece pagar pelo boicote ao filme (se você se importa com métricas, Roda Gigante é o filme de Woody Allen com pior avaliação no Rotten Tomatoes), inclusive porque o que mais fica com o espectador depois da sessão é a qualidade ímpar do que cada um realiza. E de tudo que você pode falar do longa, nada depreciativo deve ser relacionado a eles.

Rapidamente: “Em Ritmo de Fuga”, “Gatos”, “Madame Satã” e “Nossas Noites”

Lázaro Ramos é visceral em Madame Satã, filme de Karim Aïnouz que contempla a vida de uma marcante figura da vida boêmia carioca dos anos 1920.

EM RITMO DE FUGA (Baby Driver, 2017, de Edgar Wright): Menos maneirista e artificial do que em Scott Pilgrim Contra o Mundo, o diretor Edgar Wright alcançou o momento mais célebre da sua carreira até aqui com Em Ritmo de Fuga, aventura que rendeu ao jovem Ansel Egort uma indicação ao Globo de Ouro de melhor ator no segmento comédia/musical. Menciono Scott Pilgrim porque foi o único trabalho de Wright que conferi antes de Em Ritmo de Fuga – e, vocês precisam me perdoar, mas a lembrança não era das melhores. Continuo com a impressão de que o diretor embala demais o seu trabalho para alcançar o status de pop, cult e descolado, o que me distancia da história em si, mas Em Ritmo de Fuga é um bom entretenimento por ter um protagonista devidamente carismático e humano, um bom elenco de suporte, uma trilha bacana e sequências de ação ao mesmo tempo dinâmicas e bem coreografadas. A trajetória pessoal do protagonista ainda dá um toque especial para uma história que, na essência de seus crimes e assaltos, não chega a ser esse espetáculo todo que celebraram desde a estreia. Um dos últimos filmes em que tivemos a oportunidade de ver Kevin Spacey com naturalidade antes da sua irreversível derrocada em Hollywood, Em Ritmo de Fuga tem qualidade técnica e vontade de divertir a qualquer custo. E, considerando mais uma vez a minha relação particular com o cinema de Wright, é justamente a consciência dessa vontade que acaba me distanciando de um mergulho completo na diversão.

GATOS (Kedi, 2016, de Ceyda Torun): Como um grande apaixonado por felinos, fiquei com um sorriso aberto de ponta a ponta ao longo de toda a projeção de Gatos, documentário ambientado em Istambul, na Turquia, onde milhares dos bichanos-título circulam livremente pelas ruas. O maior mérito do filme dirigido pela estreante em longas Ceyda Torun é escapar da armadilha de fazer um registro apenas fofinho sobre os animais para de fato conferir personalidade a cada um deles, como se fossem personagens tão interessantes quanto qualquer um de nós. Percebam também a delicadeza do filme ao destacar a relação dos gatos com os seres humanos, inclusive em casos tocantes, alguns deles cercados de superstição, em que homens e mulheres relatam experiências que trazem à tona todo o afeto e o cuidado que detratores dos felinos insistem em dizer que eles não têm. Tratando-se de solidez cinematográfica, Gatos, em contrapartida, acaba se diluindo. Mesmo compactado em menos de 80 minutos, o documentário, lá pela metade, já começa a andar em círculos por não interseccionar histórias e personagens, aqui apresentados de forma independente, como em capítulos. Quando chegamos ao terceiro ou quarto animal, o longa segue mantendo a curiosidade muito mais pelo charme dos gatinhos e pela habilidade da diretora em acompanhá-los em situações curiosíssimas do que por sua habilidade em explorar novas possibilidades de narração.

MADAME SATÃ (idem, 2002, de Karim Aïnouz): Um dos trabalhos mais marcantes do diretor Karim Aïnouz, Madame Satã aborda, com notável segurança, a personalidade avassaladora de João Francisco dos Santos, que, sob o codinome que dá título ao filme, foi uma personagem marcante da noite carioca em meados dos anos 20. Pobre, analfabeto, negro, homossexual e travesti, Madame Satã tinha um temperamento dos mais fortes, o que o levou para a prisão inúmeras vezes, muitas delas por furtos, agressões e desacato à autoridade. Sobre seus encarceramentos, dizia que boa parte das brigas com os policiais era ocasionada por sua intolerância ao tratamento que eles davam às pessoas, principalmente quando elas eram negras e coincidentemente consideradas suspeitas. Dadas as linhas gerais desse personagem, é preciso aplaudir o trabalho de Karim Aïnouz ao abarcar o furacão Madame Satã sem jamais fazer com que o filme degringole em qualquer tipo de tom, seja da própria história ou da interpretação visceral de Lázaro Ramos, que está no desempenho mais desafiador e brilhante de sua carreira. Premiado em Havana, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, Madame Satã é um filme de época que, na escolha da simplicidade, captura a parte boêmia e marginalizada de um Rio de Janeiro de quase 100 anos atrás sem qualquer artificialidade. Para completar, uma força extra-fílmica: sob a luz dos dias de hoje, onde negros, gays e travestis não deixaram de seguir à margem da sociedade, Madame Satã permanece como um elegante grito de reivindicação.

NOSSAS NOITES (Our Souls at Night, 2017, de Ritesh Batra): Não vou esconder que tenho um tremendo fraco por filmes que reúnem atores veteranos, especialmente em propostas como a de Nossas Noites, que toca em questões tão camufladas na arte, como as mazelas cotidianas do envelhecimento e as pequenas alegrias que podem redimensionar essa fase da vida. Normalmente, na mesma proporção da imediata simpatia que projetos como esse me despertam, vem a decepção, pois nem sempre tais histórias são contadas com a devida dose de complexidade, carisma ou criatividade. E Nossas Noites, adaptação do romance homônimo escrito por Kent Haruf, é mais um exemplar que fica no meio do caminho. Jane Fonda e Robert Redord são ótimos, claro, especialmente juntos, mostrando que, muitas vezes, só mesmo a experiência pode trazer químicas instantâneas e naturais como a deles, mas o grande problema de Nossas Noites não é nem entregar o filme inteiro a eles para se esquecer de contar uma história, e sim tentar separá-los durante boa parte da trama. Quando se atenta demais a personagens secundários (o neto que chega para passar uma temporada na cidade, o filho problemático que passa por uma tumultuada separação, os vizinhos que morrem ou confabulam sobre a relação dos protagonistas), Nossas Noites cai em lugares-comuns, esquecendo-se que a preciosidade da experiência é acompanhar apenas aqueles duas pessoas em universo tão próprio e particular.

Sem Amor

Direção: Andrey Zvyagintsev

Roteiro: Andrey Zvyagintsev e Oleg Negin

Elenco: Maryana Spivak, Aleksey Rozin, Varvara Shmykova, Matvey Novikov, Daria Pisareva, Yanina Hope, Marina Vasilyeva, Maxim Stoianov, Andris Keiss, Aleksey Fateev

Nelyubov, Rússia/França, 2017, Drama, 127 minutos

Sinopse: Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão se divorciando. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas: ele com sua nova namorada, que está grávida, e ela com seu parceiro rico. Com tantas preocupações eles acabam não dando atenção ao filho Alyosha (Matvey Novikov), que acaba desaparecendo misteriosamente. (Adoro Cinema)

Clássica na vida e no cinema em geral, a disputa pela guarda de um filho ganha contornos assustadoramente inversos em Sem Amor, novo filme assinado pelo russo Andrey Zvyagintsev, diretor do célebre Leviatã. Nesse duríssimo novo conto assinado por ele, pai e mãe se confrontam para, pasmem, jogar um ao outro a tutela do jovem Alyosha (Matvey Novikov), renegando abertamente as suas responsabilidades como progenitores. Enquanto ela é desprovida de qualquer senso ou vocação maternal, ele argumenta, a partir de uma tese deveras machista, que toda criança depende muito mais da mãe do que do pai. E, em uma dessas peças que a vida nos prega com requintes de crueldade, o filho, um dia, desaparece sem deixar qualquer vestígio. Coincidência do destino? Castigo divino? Premonição infantil? Assombrosas, as duas horas densas de Sem Amor se movimentam a partir dessas interrogações, radiografando o que acontece quando perdemos aquilo que, lá no fundo, nós realmente queríamos perder de alguma forma.

Exibido em uma sessão única e disputadíssima na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste ano, Sem Amor preserva, em seus personagens, bastante do clima das paisagens russas: rígidos e frios, todos lidam com a vida de forma racional e pragmática. Tomem como exemplo os próprios relacionamentos que marido e mulher já nutrem fora do casamento: Boris (Alexey Rozin), que já engravidou a nova namorada, tem zero interesse em lidar com as carências e inseguranças da moça, ao mesmo tempo em que Zhenya (Maryana Spivak) parece não ser ouvida nem mesmo quando diz “eu te amo” para um namorado de idade e renda mais avançadas. A tônica das relações distantes e não tão humanas dos personagens termina por impregnar a grande jornada que o casal se vê obrigado a enfrentar antes de oficializar o término do matrimônio: na busca pelo filho desaparecido, inexiste qualquer faísca de reavaliação afetiva entre os dois, o que endossa a tese de que, se Boris e Zhenya estão juntos, é porque a situação exige ou porque, de alguma forma, também entendem que este é um calvário que, ante seu histórico de erros como pais, precisam enfrentar lado a lado.

Há justificativa e contextualização de sobra no roteiro para que os personagens sejam compreendidos por personalidades que, no geral, correriam o risco de cair na vilania. Zhenya, que só teve o filho para satisfazer convenções sociais e familiares e que vem de um ambiente familiar incrivelmente opressivo e conturbado, lança uma provocação atualíssima: afinal, por que atribuímos mais tarefas e responsabilidades às mulheres em situações familiares? Quanto ao relacionamento amoroso entre os dois protagonistas, o filme também pega pesado: em uma daquelas discussões que beiram o desrespeito emocional ao término de uma vida compartilhada, ambos remontam o passar dos anos na relação não com saudosismo por sentimentos que não voltam mais, mas sim reinterpretando cada decisão tomada ao longo do caminho como se elas já assinalassem ou fossem responsáveis pelo inevitável desmantelamento do matrimônio. Sem jamais mostrar uma luz no fim do túnel, o roteiro de Sem Amor é esperto o suficiente para compreender que o pessimismo dos personagens é matéria-prima para complexidade, sem reduzi-lo a uma mera característica que confere algum tipo de personalidade aos protagonistas.

Por ter seus principais conflitos originados de um acontecimento baseado no suspense, Sem Amor precisa inevitavelmente se debruçar sobre uma narrativa de mistério. Mesmo que transfira grande parte dos dilemas para o plano emocional, o filme não esquece de sua grande interrogação ao dedicar quase todo o seu terço final ao desaparecimento do menino, culminando em um desfecho que preza muito mais pelo drama do que por sua resolução racional e que preserva todas intenções do filme. Com grande potência, Sem Amor, que é o representante da Rússia para disputar uma vaga no Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro, reverbera pela situação inimaginável de uma criança que se descobre renegada pelos pais e pela demolição final de um relacionamento já em frangalhos. Ainda não conferi The Square, que venceu a Palma de Ouro em Cannes este ano, mas é bom que o diretor sueco Ruben Östlund tenha realizado um filmaço, pois a obra de Andrey Zvyagintsev, que também competiu no festival francês, definitivamente não fica atrás desse status.

Três atores, três filmes… com Cleber Eldridge

Existem leitores e blogueiros que nos acompanham há tanto tempo que acabam, de certa forma, tornando-se parte da nossa história e do nosso imaginário. É o caso do Cleber Eldridge, com quem compartilho opiniões sobre cinema já há alguns anos. Cinéfilo que acompanha tudo que é tipo de lançamento, além de fã da temporada de premiações, ele hoje assina o blog 21th Century Cinema, dando atenção especial a um tipo de postagem que, confesso, está em falta aqui no blog: as listas, sejam elas de desempenhos, melhores do ano, TOP 10, etc. Para a coluna, o nosso último convidado do ano selecionou três desempenhos masculinos que dizem muito sobre o tipo de cinema e personagem que Cleber tanto se afeiçoa e se identifica. Boa leitura!

Philip Seymour Hoffman (Capote)
O sempre subestimado filme Capote, de Bennett Miller, não é só um dos melhores filmes da primeira década do século 21, como conta com uma das maiores interpretações de todos os tempos – na minha humilde opinião, é claro: a de Philip Seymour Hoffman, um dos grandes atores que infelizmente nos deixou muito cedo, por conta de problemas com drogas. Ele entregou uma atuação única ao interpretar uma figura única como Truman Capote. E não foi tarefa fácil: a voz e os trejeitos são o ponto alto de uma atuação que me marcou para sempre. O sombrio – e, para muitos, frio e distante demais do espetador – filme de Miller, não é uma biografia qualquer. É o relato brilhante de um momento na vida do escritor, momento esse que rendeu um dos melhores livro de não-ficção de todos os tempos. O conjunto da obra é particularmente marcante. Um filme que eu guardo no coração como uma obra-prima.

Garreth Hedlund (Na Estrada)
Os dias, as noites, as paixões e as frustrações de Jack Kerouack sempre me marcaram. Nas minhas muitas idas até a biblioteca, peguei todos os livros e contos escritos por esse outro marco da literatura americana. Quando soube que ele seria finalmente filmado, fiquei em transe, principalmente por um diretor que sempre soube filmar estradas como poucos: o nosso grande Walter Salles. Dean Moriarty sempre foi o meu personagem favorito, em todos os muitos livros que li. Garreth Hedlund, que não é lá o melhor ator do mundo, me agraciou com uma atuação marcante, dando vida a uma personagem exatamente como eu imaginava. Ele se joga de cabeça em tudo na vida, faz tudo o que quer, na hora que quer, quando quer e não se preocupa com o amanhã — justamente como um dia eu sonho ser. Acho que nunca um personagem foi melhor posto frente às telas.

Harris Dickinson (Ratos de Praia)
O até então desconhecido Harris Dickinson é uma das marcantes estreias no circuito independente com Ratos de Praia, que, infelizmente, não deve entrar em cartaz por aqui no Brasil. Foi uma das mais agradáveis, felizes e marcantes surpresa que tive com o cinema nos últimos anos. Tem muito da minha pessoa no protagonista Frankie. Tem muito do que um dia eu já fui e felizmente não sou mais. Seus olhares, sua timidez e até mesmo sua coragem são marcantes. É o retrato de um atormentado garoto que ainda não sabe do que realmente gosta, como ele mesmo diz em um diálogo. No filme e nele estava um pequeno pedaço da minha vida.

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2018

Três Anúncios Para um Crime é o líder de indicações ao Screen Actors Guild Awards 2018. Apostas certas como The Post – A Guerra Secreta ficaram de fora da seleção.

Já que o importante é colecionar indicações na temporada de premiações para chegar ao Oscar, o Screen Actors Guild Awards derrubou a força de pelo menos três filmes com a sua lista de indicados revelada hoje (13). O primeiro é A Forma da Água, que foi o líder absoluto de indicações ao Globo de Ouro, mas que aqui ficou de fora da categoria de melhor elenco, além de ter perdido a indicação de melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer. Caminho idêntico segue Me Chame Pelo Seu Nome, também ignorado em melhor elenco e em uma lembrança para o coadjuvante Armie Hammer, que muito provavelmente teve sua indicação negada para a inclusão de outra bastante duvidosa: a de Steve Carell, por A Guerra dos Sexos, onde o ator é, na verdade, protagonista. 

No entanto, é bem provável que o mais prejudicado pela lista do SAG seja mesmo The Post – A Guerra Secreta, antes o grande favorito para despontar nessa premiação, mas que sequer conseguiu indicação a qualquer coisa (muito provavelmente pelo fato dos votantes não terem visto o filme, que ficou pronto há pouco tempo), nem mesmo para Meryl Streep ou Tom Hanks, dois dos queridinhos da América. E vale também uma observação específica, tamanha a importância da exclusão: Daniel Day-Lewis deve chegar ao Oscar com Trama Fantasma, mas, agora, parece que qualquer vitória sua está um pouco distante. Já os beneficiados pela lista de hoje são Três Anúncios Para Um Crime, Doentes de Amor e Corra!, com o primeiro liderando o número de indicações (são, ao total, quatro, incluindo melhor elenco). Dadas as devidas proporções, a temporada de premiações acaba de ficar mais interessante.

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2018 serão conhecidos no dia 21 de janeiro. Confira abaixo a lista completa de indicados:

MELHOR ELENCO
Corra!
Doentes de Amor

Lady Bird: É Hora de Voar
Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi
Três Anúncios Para um Crime

MELHOR ATRIZ
Frances McDormand (Três Anúncios Para um Crime)
Judi Dench (Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha)

Margot Robbie (Eu, Tonya)
Sally Hawkins (A Forma da Água)
Saoirse Ronan (Lady Bird: É Hora de Voar)

MELHOR ATOR
Daniel Kaluuya (Corra!)

Denzel Washington (Roman J. Israel, Esq.)
Gary Oldman (O Destino de uma Nação)
James Franco (Artista do Desastre)

Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Alisson Janney (Eu, Tonya)
Holly Hunter (Doentes de Amor)

Hong Chau (Pequena Grande Vida)
Laurie Metcalf (Lady Bird: É Hora de Voar)
Mary J. Blige (Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Richard Jenkins (A Forma da Água)
Sam Rockwell (Três Anúncios Para um Crime)
Steve Carell (A Guerra dos Sexos)
Willem Dafoe (Projeto Flórida)
Woody Harrelson (Três Anúncios Para um Crime)

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MELHOR ELENCO – SÉRIE DRAMA
Game of Thrones
Stranger Things
The Crown
The Handmaid’s Tale
This is Us

MELHOR ELENCO – SÉRIE COMÉDIA
Black-ish
Curb Your Enthusiasm

Glow
Orange is the New Black
Veep

MELHOR ATRIZ – SÉRIE DRAMA
Claire Foy (The Crown)
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Laura Linney (Ozark)
Millie Bobby Brown (Stranger Things)

Robin Wright (House of Cards)

MELHOR ATOR – SÉRIE DRAMA
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
David Harbour (Stranger Things)
Jason Bateman (Ozark)
Peter Dinklage (Game of Thrones)

Sterling K. Brown (This is Us)

MELHOR ATRIZ – SÉRIE COMÉDIA
Alison Brie (Glow)
Jane Fonda (Grace and Frankie)
Julia Louis-Dreyfus (Veep)

Lily Tomlin (Grace and Frankie)
Uzo Aduba (Orange is the New Black)

MELHOR ATOR – SÉRIE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish)
Aziz Ansari (Master of None)
Larry David (Curb Your Enthusiasm)
Marc Maron (Glow)
Sean Hayes (Will & Grace)

William H. Macy (Shameless)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME
Laura Dern (Big Little Lies)
Jessica Lange (Feud: Bette and Joan)
Nicole Kidman (Big Little Lies)
Reese Witherspoon (Big Little Lies)
Susan Sarandon (Feud: Bette and Joan)

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME
Alexander Skarsgård (Big Little Lies)
Benedict Cumberbatch (Sherlock)
Geoffrey Rush (Genius)
Jeff Daniels (Godless)

Robert DeNiro (O Mago das Mentiras)