Cinema e Argumento

Os vencedores do Globo de Ouro 2018

Ator camaleônico com uma carreira marcada por projetos independentes, Sam Rockwell foi o melhor ator coadjuvante, marcando a primeira das quatro vitórias de Três Anúncios Para Um Crime.

Uma grande reviravolta marcou a corrida rumo ao Oscar com o anúncio dos vencedores do Globo de Ouro 2018. Antes pouco cotado frente a filmes como A Forma da Água e The Post – A Guerra Secreta, Três Anúncios Para Um Crime agora ganha considerável atenção ao sair da cerimônia com os prêmios de melhor filme e atriz drama (Frances McDormand), ator coadjuvante (Sam Rockwell, em uma vitória surpreendente) e roteiro. Allison Janney, que nunca havia levado um Globo de Ouro para casa, também passa a pavimentar seu caminho ao superar, com seu desempenho em Eu, Tonya, a grande favorita Laurie Metcalf, que vinha colecionando distinções por seu desempenho coadjuvante em Lady Bird: É Hora de Voar.

Como sempre gosto de lembrar, premiações televisionadas são muito diferentes daquelas outorgadas por associações de críticos, e o resultado está aí no resultado do Globo de Ouro, onde pelo menos três nomes não repetiram o favoritismo de antes: Laurie Metcalf por Lady Bird, Willem Dafoe (coadjuvante por Projeto Flórida) e Timothée Chalamet (ator por Me Chame Pelo Seu Nome, filme queridinho da crítica que também saiu sem um prêmio sequer). No segmento de narrativas seriadas e televisivas, pouquíssimas surpresas com mais uma enxurrada de prêmios para Big Little Lies. De inesperada mesmo, só a vitória de Ewan McGregor como melhor ator em minissérie por Fargo.

A próxima parada dessa temporada de premiações é o BAFTA, que revela seus indicados na próxima terça-feira (09) e o Critics’ Choice Awards, que anuncia seus vencedores na quinta-feira (11). Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME DRAMA: Três Anúncios Para Um Crime
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Lady Bird: É Hora de Voar

MELHOR DIREÇÃO: Guillermo Del Toro (A Forma da Água)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ATOR – DRAMA: Gary Oldman (O Destino de Uma Nação)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Saoirse Ronan (Lady Bird: É Hora de Voar)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: James Franco (O Artista do Desastre)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Allison Janney (Eu, Tonya)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ROTEIRO: Três Anúncios Para Um Crime
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “This is Me” (O Rei do Show)
MELHOR TRILHA SONORA: A Forma da Água
MELHOR ANIMAÇÃO: Viva – A Vida é Uma Festa
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Em Pedaços (Alemanha/França)
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SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DRAMA: The Handmaid’s Tale
MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Big Little Lies
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Rachel Brosnahan
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Nicole Kidman (Big Little Lies)
MELHOR ATOR – DRAMA: Sterling K. Brown (This is Us)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Aziz Ansari (Master of None)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Ewan McGregor (Fargo)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Alexander Skarsgård (Big Little Lies)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SERIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Laura Dern (Big Little Lies)

Apostas para o Globo de Ouro 2018

Hoje, a partir das 23h (horário de Brasília), o Globo de Ouro, prêmio outorgado pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, revelará os vencedores da sua edição comemorativa de 75 anos. Trazendo uma disputa super pulverizada, o prêmio é o primeiro indicativo para a corrida rumo ao Oscar que começa de verdade a corrida rumo ao Oscar (algumas associações de críticos já celebraram seus favoritos, mas vale lembrar que crítico não vota no Oscar). A cerimônia será transmitida no Brasil pela TNT. Pelo Twitter, comentarei em tempo real os resultados da premiação. E, para quem gosta de apostas, abaixo compartilho os meus palpites:

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA: The Post – A Guerra Secreta / alt: A Forma da Água
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Lady Bird: É Hora de Voar / alt: Corra

MELHOR DIREÇÃO: Guillermo Del Toro (A Forma da Água) / alt: Steven Spielberg (The Post – A Guerra Secreta)
MELHOR ANIMAÇÃO: Viva – A Vida é Uma Festa / alt: O Touro Ferdinando
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Desamor (Rússia) / alt: First They Killed My Father (Camboja)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Meryl Streep (The Post – A Guerra Secreta) / alt: Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ATOR – DRAMA: Gary Oldman (O Destino de Uma Nação) / alt: Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Saoirse Ronan (Lady Bird: É Hora de Voar) / alt: Margot Robbie (Eu, Tonya)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Daniel Kaluuya (Corra) / alt: James Franco (O Artista do Desastre)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laurie Metcalf (Lady Bird: É Hora de Voar) / alt: Allison Janney (Eu, Tonya)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Willem Dafoe (Projeto Flórida) / alt: Armie Hammer (Me Chame Pelo Seu Nome)
MELHOR ROTEIRO: Três Anúncios Para Um Crime / alt: A Grande Jogada
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “This is Me” (O Rei do Show) / alt: “Mighty River” (Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi)
MELHOR TRILHA SONORA: Dunkirk / alt: A Forma da Água

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SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DRAMA: The Handmaid’s Tale / alt: Stranger Things
MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL: Will & Grace / alt: SMILF
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Big Little Lies / alt: Feud: Bette and Joan
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale) / alt: Maggie Gyllenhaal (The Deuce)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Alison Brie (Glow) / alt: Frankie Shaw (SMILF)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Nicole Kidman (Big Little Lies) / alt: Susan Sarandon (Feud: Bette and Joan)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SERIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Laura Dern (Big Little Lies) / alt: Ann Dowd (The Handmaid’s Tale)
MELHOR ATOR – DRAMA: Jason Bateman (Ozark) / alt: Sterling K. Brown (This is Us)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Kevin Bacon (I Love Dick) / alt: Eric McCormack (Will & Grace) 
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Jude Law (The Young Pope) / alt: Robert De Niro (O Mago das Mentiras)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: David Harbour (Stranger Things) / alt: Alexander Skarsgård (Big Little Lies)

 

O Rei do Show

You clearly have a flair for show business.

Direção: Michael Gracey

Roteiro: Bill Condon e Jenny Bicks

Elenco: Hugh Jackman, Zac Efron, Michelle Williams, Zendaya, Rebecca Ferguson, Austyn Johnson, Cameron Seely, Keala Settle, Sam Humphrey, Yahya Abdul-Mateen II, Eric Anderson, Ellis Rubin

The Greatest Showman, EUA, 2017, Musical, 105 minutos

Sinopse: De origem humilde e desde a infância sonhando com um mundo mágico, P.T. Barnum (Hugh Jackman) desafia as barreiras sociais se casando com a filha do patrão do pai e dá o pontapé inicial na realização de seu maior desejo abrindo uma espécie de museu de curiosidades. O empreendimento fracassa, mas ele logo vislumbra uma ousada saída: produzir um grande show estrelado por freaks, fraudes, bizarrices e rejeitados de todos os tipos. (Adoro Cinema)

Uma das coisas mais fascinantes de ser cinéfilo nas primeiras décadas do século XXI é ver como o cinema deu um salto sem precedentes em termos de possibilidades estéticas e narrativas. Das evoluções técnicas resultantes de descobertas tecnológicas às narrativas cada vez mais livres que descortinam histórias e personagens antes renegados ou preteridos pelas artes, a chamada sétima arte nunca produziu tanto, de forma tão plural e, dadas as proporções, com tamanha destreza. O curioso é que, na contramão, filmes como O Rei do Show nos lembram que, em certos casos, a evolução não é um processo geral e que, em tratando-se da solidez e dos conceitos de um filme, a sala de cinema ainda pode proporcionar espetáculos vazios e artificiais.

Indicado sem surpresa alguma a três categorias do Globo de Ouro no segmento comédia/musical (melhor filme, melhor ator para Hugh Jackman e melhor canção para “This is Me”), O Rei do Show idealiza e distorce a história verídica de P.T. Barnum, empresário norte-americano que, logo no início do século XIX, tornou-se o primeiro milionário do ramo do entretenimento ao comandar um circo. Só que fazer ajustes em uma adaptação é uma coisa, trapacear é outra: O Rei do Show idealiza Barnum como um pai de família caridoso e filantrópico, quando, na verdade, uma rápida pesquisa virtual ou bibliográfica já dá conta de revelar que ele nada mais era do que um verdadeiro “príncipe das falcatruas”, capaz de inventar todo tipo de mentira sobre suas atrações apenas para atrair público e encher o bolso.

A intenção do desonesto reajuste tem um propósito muito claro no roteiro assinado por Bill Condon e Jenny Bricks: criar uma história emocionante e edificante para guiar um musical colorido, alegre, movimentado e muito mais comercial do que artístico, considerando o sentido pejorativo que essa expressão carrega. Ainda assim, nem no reajuste a história é firme, pois O Rei do Show é o tipo de filme que prioriza fatos e surpresas acima de qualquer construção dramática, o que faz com que mudanças repentinas (e mal explicadas) de personalidade dos personagens sirvam de base para conflitos rasteiros, como quando o protagonista impede que seus amigos “estranhos” do circo participem de uma importante festa na cidade.

Criando e resolvendo problemas com a maior facilidade e agilidade do mundo, O Rei do Show não expande qualquer dimensão de outro personagem além de Barnum, que, ainda assim, sequer chega perto da dubiedade e das oscilações entre bondade e mau caratismo de Elsa Mars, protagonista da quarta temporada de American Horror Story: Freak Show que, vivida brilhantemente por Jessica Lange, também era uma entertainer cujo ganha-pão era explorar “aberrações” em um circo. Nada mais do que um homem bondoso que vence na vida, Barnum ganha energia nas mãos de Hugh Jackman, ator que não precisa mais provar sua desenvoltura como cantor e dançarino, mas, que, no geral, tem pouquíssimo material dramático para trabalhar, restringindo-se a olhar tudo com cara de maravilhamento ou tristeza.

Quando o próprio protagonista não tem estofo, o que resta para os coadjuvantes e para a infinidade de figurantes? A talentosa Michelle Williams, por exemplo, até causa certa vergonha alheia por ser apenas a esposa sorridente que acompanha o marido para todos os lados com as duas filhas embaixo dos braços. Aliás, o universo feminino é pobremente retratado: além de Williams, não deixem escapar o problema que é ver Zendaya apenas como a moça bonita que precisa ser conquistada pelo galã Zac Efron ou como o musical perpetua, por meio de outra figura feminina, a tese de que mulheres não aceitam ser renegadas romanticamente pelos homens sem logo em seguida arquitetar uma pequena vingança contra eles.

Sem entrar em detalhes do que de fato é feito o tal show criado pelo protagonista (as apresentações são apenas o clímax hiperbólico de números musicais iniciados em outro cenário mas concluídos no circo), o longa ganha certa graça e empolgação graças às ótimas canções, todas muito bem ritmadas, pontuadas e corretas no sentido ser componente de uma construção narrativa. E qual não é a surpresa em vê-las desperdiçadas por números tão artificiais, muitos deles carregados em efeitos visuais e quase todos sem qualquer sincronia entre a expressão facial do ator e a versão infinitamente mais potente gravada por ele próprio em estúdio para dublagem?

Musicais plastificados, repletos de otimismo e carregados em dublagem já foram feitos aos montes, assim como outros indiscutivelmente mal dirigidos que se tornaram hits hoje lembrados com carinho (nesse caso, cito Mamma Mia! como um favorito particular), mas, em todos os casos, se existe um punhadinho de alma, a situação já ganha algum tipo de frescor. O Rei do Show, que marca o trabalho de estreia do diretor Michael Gracey, não se encaixa nessa perspectiva. Por isso, para quem, por razões já citadas, não entra na batida e sequer compra a obra como um guilty pleasure, a experiência deve somente gerar um grande aborrecimento, ficando positivamente para a posteridade apenas com sua divertida trilha que, essa sim, vale ser revisitada.

Cinco fatos que podem fazer a diferença nos prêmios de 2018

Dezenas de associações de críticos dos Estados Unidos já divulgaram seus vencedores, assim como grandes premiações televisionadas como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards também já revelaram seus indicados, mas a temporada de premiações mal começou de verdade e, fora a matemática do que cada filme colecionou até aqui, ainda há muito a ser considerado. E, tratando-se do Globo de Ouro e do SAG, que realizarão suas cerimônias nessa primeira quinzena de janeira, algumas estatísticas devem ser levadas em conta na hora de prever os vencedores. Abaixo, elenco algumas delas e explico como ignorá-las pode ser decisivo para não perder pontos nas primeiras de muitos apostas que pipocam durante essa temporada.
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1. ATÉ ONDE VAI O REINO DE ALLISON JANNEY? 
Da comédia ao drama, Allison Janney é uma das atrizes mais premiadas na história do Emmy, com sete
 estatuetas conquistadas desde a sua primeira indicação em 2000 (quatro por The West Wing, duas por Mom e uma por Masters of Sex). No SAG, também tem prêmio de sobra, com seis vitórias, incluindo duas estatuetas de elenco em cinema com Histórias Cruzadas e Beleza Americana. Quanto ao Globo de Ouro, a situação é bem diferente: até aqui, são cinco indicações sem consagração. Pelo longa-metragem Eu, Tonya, Janney está mais uma vez na disputa, inaugurando sua primeira lembrança no segmento de cinema. Amplamente reconhecida por seu trabalho na TV, será que Janney tem força para transferir todo o seu prestígio também para o cinema e conquistar sua primeira vitória individual no SAG e o primeiro Globo de Ouro de toda a carreira? Teoricamente falando, dado o vitorioso histórico, a longa carreira e o forte reconhecimento do colegiado televisivo, seria uma das apostas mais fáceis da temporada. Isso se não concorresse com Laurie Metcalf, uma colega com trajetória bastante semelhante, mas de carreira mais, digamos, “alternativa”.
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2. LAURIE METCALF E A TRÍPLICE COROA DA ATUAÇÃO
Premiada três vezes no Emmy por seu desempenho na sitcom Roseanne, Laurie Metcalf não foi reconhecida pelo Globo de Ouro por seu trabalho no seriado. Foram duas indicações sem vitória, e a terceira vem agora com Lady Bird: É Hora de Voar, que, estatisticamente, tem colocado a atriz como a franca favorita no segmento das coadjuvantes se considerarmos as listas das associações de críticos dos Estados Unidos. É importante frisar que crítico de cinema não vota em Oscar e tampouco tem influência nas premiações verdadeiramente decisivas da temporada, mas é bom não subestimar o poder dessa atriz aparentemente desconhecida, mas que vem trilhando um caminho brilhante nos últimos anos: você pode lembrar de Metcalf como a mulher ensandecida que faz várias pessoas de reféns em um supermercado naquele que é um dos episódios mais explosivos do seriado Desperate Housewives (Bang!), o que é um tanto injusto com uma carreira que, recentemente, foi coroada pelo Tony (melhor atriz, em 2017, por A Doll’s House: Part 2) e novamente iluminada pelo Emmy (em 2016, recebeu indicação tripla ao prêmio, concorrendo em drama e comédia com Getting On, The Big Bang Theory e Horace and Pete). Ou seja, Laurie tem sido vista por todo tipo de indústria nos últimos anos. Não são todas as atrizes que têm esse tipo de prestígio.
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3. NICOLE KIDMAN NUNCA VENCEU O SAG (…)
Quem vê uma atriz amplamente premiada como Nicole Kidman e relembra seu riquíssimo repertório pode muito bem cair na pegadinha de que, claro, ela tem todos os prêmios da vida em casa. Errado. Se a vitória de Kidman como melhor atriz em minissérie por Big Little Lies já se consolidou como uma das maiores certezas da temporada, a situação ganha ainda mais força no SAG, uma vez que a atriz nunca foi vitoriosa no prêmio, tanto nas categorias de TV quanto nas de cinema. No ano de As Horas, filme que lhe rendeu o Oscar, Kidman viu o prêmio de melhor atriz parar nas mãos de Renée Zellweger, por Chicago. Desde então, colecionou mais sete indicações em categorias individuais e de elenco, sem nunca levar a estatueta para casa. E o SAG, que é um prêmio relativamente recente (foi criado em 1995) e que adora celebrar quem historicamente nunca pôde ser celebrado (Meryl Streep vencendo pela primeira vez por Dúvida, assim como Denzel Washington ano passado com Um Limite Entre Nós), certamente não tem oportunidade melhor para acertar os ponteiros com Kidman do que na edição de 2018.
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4. (…) E SUSAN SARANDON O GLOBO DE OURO (…)
Comentei acima que a vitória de Nicole Kidman na categoria de melhor atriz em minissérie por Big Little Lies no SAG é aposta fácil, mas, no Globo de Ouro, não jogo todas as fichas na atriz. Isso porque Susan Sarandon, uma veterana que dispensa comentários, inacreditavelmente nunca levou o prêmio para a casa, enquanto Nicole Kidman já tem três em casa. Não seria surpresa se Sarandon, solenemente ignorada pelo Critics’ Choice, surgisse como azarona e finalmente tivesse o seu momento no prêmio outorgado pela Hollywood Foreign Press Association com seu milagroso desempenho como a lendária Bette Davis na minissérie Feud: Bette and Joan. Sarandon, que venceu o Oscar por Os Últimos Passos de Um Homem, mas perdeu o Globo de Ouro para Sharon Stone (Cassino), concorre desde 1989 com menções no cinema e na TV, seja por obras mais célebres como O Óleo de Lorenzo e Thelma e Louise ou por trabalhos menos ambiciosos como Lado a Lado e o telefilme Bernard e Doris. Quem sabe a premiação finalmente lhe faz justiça? Eu não reclamaria, seja pela carreira ou pelo próprio desempenho em Feud.
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5. (…) ASSIM COMO FRANCES MCDORMAND
Ainda na listinha de atrizes que nunca faturaram determinados prêmios, a grande Frances McDormand também entra para a conta. Há quem aposte em um segundo Oscar para a atriz por Três Anúncios Por Um Crime, e o Globo de Ouro pode dar um empurrãozinho: mesmo que pareça irresistível o prêmio novamente dar os holofotes para Meryl Streep depois de seu discurso emblemático na homenagem do ano passado e de suas confusões com Trump (recemente foi descoberto que os cartazes em Los Angeles acusando a atriz de saber dos assédios de Harvey Weinstein foram espalhados por apoiadores do presidente), McDormand, que só levou uma menção honrosa e coletiva junto ao elenco de Short Cuts, não saiu vitoriosa na premiação com o longa Fargo – Uma Comédia de Erros e a minissérie Olive Kitteridge, citando dois de seus trabalhos mais célebres. Se Frances realmente é um estouro em Três Anúncios Para Um Crime e se o prêmio quiser tirar o atraso, pode ser a oportunidade perfeita, já não é loucura dizer que o jogo da categoria de atriz dramática está aberto.

Adeus, 2017! (e as melhores cenas do ano)

Em mais um ano que chega ao fim, novamente vou deixar minha lista de favoritos para depois da virada. O motivo simples e perfeitamente compreensível: como ainda estou em dívida com muitos títulos, prefiro dar mais um tempinho para conferi-los e, assim, não cometer nenhum crime que possa me trazer remorso mais adiante. Certamente, por uma série de razões, tanto fora quanto ao meu alcance, não conferi — nem vou conferir — centenas de títulos como boa parte dos meus colegas blogueiros, mas, dentro do meu singelo escopo, quero ter o devido tempo para ficar plenamente satisfeito com as minhas escolhas.

Por isso, mantenho ao menos uma tradição aqui do blog: a de elencar os meus momentos favoritos no cinema ao longo do ano, considerando, como sempre, os títulos lançados comercialmente e via streaming no Brasil. Não deixem de opinar quanto aos selecionados abaixo (atenção, alguns deles podem trazer spoilers em suas justificativas), pois sempre gosto de ouvir o que vocês, leitores, têm a dizer. Afinal, vem muito mais por aí em 2018! Feliz ano novo e um abraço carinhoso para cada um de vocês!

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#10 – Harry (Ralph Fiennes) dança “Emotional Rescue”, dos Rolling Stones, em Um Mergulho no Passado

Ralph Fiennes é um verdadeiro estouro em Um Mergulho no Passado, filme pouco reconhecido do italiano Luca Guadagnino, cineasta que agora é celebrado mundo afora com Me Chame Pelo Seu Nome. Com um personagem desafiador, Fiennes se esbalda nas sutilezas e nos atordoamentos de um homem que grita, fala, canta e dança o tempo inteiro, mas que, no fundo, é estridente por não conseguir lidar com as reflexões trazidas pelos momentos de silêncio. Há também algo de muito autêntico e libertador nesse homem que sempre faz e fala o que bem entende, sem medir palavras ou atitudes para agradar aos outros. E quando ele dança ao som de “Emotional Rescue”, dos Rolling Stones, é puro fascínio, tanto pelo personagem quanto por Ralph Fiennes.

#9 – Gretchen (Emanuelle Araújo) brilha em Bingo – O Rei das Manhãs

Poucas cinebiografias têm toda a energia e o pique ostentados por Bingo – O Rei das Manhãs, trabalho de estreia do montador Daniel Rezende na direção de longas. E se tratando da trajetória ascendente de ritmo do filme, não existe sequência mais empolgante do que a breve aparição da cantora e dançarina Gretchen, interpretada com graça e carisma por Emanuelle Araújo. Emulando acertadamente os trejeitos e o modo de dançar da Rainha do Bumbum, Emanuelle injeta uma nova dose de ânimo a um filme já empolgante até ali. Mais do que toda a animação vinda de Conga, Conga, Conga, a cena conquista por reforçar toda a personalidade que fez de Bingo um verdadeiro (e merecido) sucesso nacional.

#8 – Rose (Viola Davis) confronta Troy (Denzel Washington) em Um Limite Entre Nós

Clássico caso de filme onde os atores são muito maiores do que o resultado como um todo, Um Limite Entre Nós sai perdendo em ritmo e em relevância cinematográfica com a sua falta de criatividade e seu zelo excessivo ao adaptar uma célebre peça de teatro. Por outro lado, quem ganha são os atores, que, com o texto na ponta da língua (foram centenas de apresentações nos palcos dos Estados Unidos), têm naturalidade de sobra para arrasar com o material. Denzel Washington e, especialmente, Viola Davis merecem uma nota à parte pelo que fazem durante o maior momento do filme, quando um segredo vêm à tona e Rose (Viola) precisa confrontar o marido com todas as suas dores e frustrações reprimidas durante anos. Quem não se arrepiou?

#7 – Diana (Gal Gadot) nas trincheiras em Mulher-Maravilha

Na prática, Mulher-Maravilha é menos criativo e autêntico do que as pessoas estão dispostas a admitir, mas ter uma personagem feminina como protagonista faz mesmo a diferença em várias passagens dessa aventura dirigida por Patty Jenkins. Não é sempre que vemos uma mulher derrotando, no corpo a corpo e na inteligência, uma quantidade significativa de marmanjos, e muito menos uma que vá a campo em uma grande guerra e, sozinha, enfrente incontáveis disparos do outro lado da trincheira com uma coragem de dar inveja. Diana encarando tudo aquilo sozinho é muito representativo, além de ser o auge estético e de adrenalina do blockbuster.

#6 – A cena do vestido em Roda Gigante

Aos 45 do segundo tempo, Kate Winslet veio repleta de talento em inspiração em Roda Gigante, a ponto de figurar entre as performances mais marcantes do ano. Uma cena específica justifica o festejo em torno da interpretação, e essa é quando Ginny (Kate Winslet), incorporando a carreira de atriz que deixou para trás junto com o seu passado de erros, chega ao limite de suas frustrações e insatisfações ao ser confrontada por Mickey (Justin Timberlake). Em seu devaneio repentino, ela se caracteriza e se maquia como se de fato estivesse em cena, evocando os romances e as tragédias gregas que volta e meia referencia ao longo da história e que, ironicamente, quase sempre terminam em um (quase) monólogo como o seu. Tem metalinguagem, tem a linda fotografia de Vittorio Storaro e tem, claro, Kate Winslet afiadíssima como não víamos há muitos anos.

#5 – Confronto em meio às águas em Blade Runner 2049

Desconfie de quem lhe disser que não achou Blade Runner 2049 um arraso do ponto de vista estético. No geral, não sou fã do filme como um todo, que, em contraste, proporciona sequências épicas ao conjugar som e imagem. Uma delas, em particular, consegue me pegar em cheio: aquela em que K (Ryan Gosling), dentro de um veículo prestes a ser engolido pela água, precisa vencer um combate corpo a corpo que salvará não apenas a sua vida, mas também a de outro personagem. O confronto em um espaço minúsculo e pouco a pouco tomado pela água é eletrizante, sem falar dos toques mais do que especiais da fotografia do mestre Roger Deakins e da trilha sonora assinada pela dupla Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer.

#4 – Doloroso reencontro em Manchester à Beira-Mar

Longa-metragem mais carregado na dor que passou pelos cinemas brasileiros ao longo de 2017, Manchester à Beira-Mar, em uma das tantas costuras perfeitas de seu roteiro irrepreensível, arrebenta de vez o nosso coração quando promove um cotidiano e inesperado reencontro entre Lee (Casey Affleck) e Randi (Michelle Williams), tempos depois de um doloroso acontecimento. A cena, imersa no exímio controle dramático que o diretor Kenneth Lonergan trabalha ao longo de toda a projeção, tem sentimentos arrasadores porque mostra o quanto a dor faz com que o ser humano coloque a emoção frente à razão, despejando tudo o que estava represado e conferindo inclusive conotações tristes e atrapalhadas para um “eu te amo” que outrora seria cercado de otimismo.

#3 – Noite na praia em Moonlight: Sob a Luz do Luar

Calcado no naturalismo, Moonlight: Sob a Luz do Luar é um filme de estrutura problemática (sigo considerando o terceiro e último capítulo uma falha imperdoável em uma história contada com grande excelência até ali), o que não amortece a lembrança de passagens como aquela em que Chiron (Ashton Sanders), já adolescente, tem o seu primeiro contato íntimo de natureza homossexual, algo que lhe era negado e reprimido até então. O registro é de arrepiar porque, com a beleza estética inerente ao longa, acerta na potência com que mistura a aventura, o perigo e a emoção de um momento divisor de águas para um garoto que já tem a consciência de que a vida quase nunca lhe sorrirá de volta.

#2 – A última noite na casa de Mãe!

Do amor ao ódio, Mãe! ostentou seguramente o título de filme mais polêmico do ano. Tenho certeza que essa era a intenção do diretor Darren Aronofsky, que, com um roteiro repleto de interpretações (bíblicas, sociais, ambientais), entregou cenas para ferver a mente de todo o tipo de público. E o ato final, encenado na última noite na casa da protagonista, usa e abusa de todas as possibilidades, sejam elas dramáticas e técnicas, de seu universo próprio, desafiando as fronteiras das formalidades, das previsibilidades e — o mais importante — daquilo tudo que o espectador gosta de ter ao seu controle quando assiste a um filme. Não é todo dia que vemos um atrevimento delicioso como esse.

#1 – Uma vida passada a limpo em La La Land: Cantando Estações

A vida, ao contrário do que secretamente desejamos, é feita de pequenos momentos e, principalmente, de pequenas escolhas. Mais do que isso: na maioria dos casos, mudamos drasticamente o rumo da nossa existência sem perceber que ele foi transformado pela mais corriqueira das nossas decisões. E La La Land, um musical repleto de momentos emblemáticos, chega ao máximo de sua beleza e emoção ao passar a vida inteira de um casal a limpo em um epílogo de cortar o coração. Fora a trilha instrumental hipnotizante de Justin Hurwitz e toda a parte visual que é um show à parte, a sequência se eterniza por nos lembrar, através da melancolia, de que a vida pode nos pregar peças e obstáculos a todo momento, mas que, no final das contas, apenas nós somos os senhores dos nossos próprios destinos.