Cinema e Argumento

“Mrs. Fletcher”: partindo de mais um texto crítico e sem amarras de Tom Perrotta, nova série da HBO é uma pérola a ser descoberta

Kathryn Hahn como Eve, a protagonista de Mrs. Fletcher: nova série da HBO criada por Tom Perrotta aborda com delicadeza as transformações internas e sexuais de uma mãe na faixa dos 40 anos.

Exímio observador das vidas comuns, o escritor Tom Perrotta faz questão de colocar em xeque todos os padrões, atrasos e preconceitos das relações urbanas. Em suas obras mais célebres adaptadas para o cinema e para a TV, ele expôs uma gama de comportamentos conflituosos a partir de uma disputa colegial (Eleição, dirigido por Alexander Payne em 1999), lançou luz sobre as hipocrisias matrimoniais e sobre os nossos tortuosos instintos sexuais (Pecados Íntimos, levado para as telas em 2006 por Todd Field) e ilustrou como a sociedade lida de diferentes maneiras com o luto, seja ele qual for (The Leftovers, série magistral da HBO exibida entre 2014 e 2017).

Perrotta não precisa de nada muito extraordinário. O que lhe interessa é o fascínio do detalhe, as complexidades do corriqueiro e a profundidade humana de quem vive ao nosso lado. Ainda assim, talvez nenhum de seus trabalhos adaptados até aqui tenha um plot tão trivial quanto o de Mrs. Fletcher, série cuja primeira temporada acaba de ser exibida pela HBO e que, mesmo transmitida aos domingos (um dia privilegiado na grade da emissora), passou quase despercebida entre público e crítica. Dessa vez, o escritor, atuando pela primeira vez como showrunner de um seriado, registra o momento em que Eve (Kathryn Hahn), uma mulher solteira e na faixa de seus 40 anos, lida com o fato do seu único filho ter saído de casa para finalmente cursar uma faculdade.

As coisas, entretanto, não são tão simples quanto parecem, pois Mrs. Fletcher deixa o conflito do adeus ao filho em segundo plano, centrando sua discussão em como essa mãe reconstrói sua vida e passa a fazer o que bem entender, inclusive do ponto de vista sexual. Na mesma proporção, os roteiristas desfiam uma outra descoberta: a do filho de Eve, antes um dos garotos mais desejados do colégio e que agora se vê deslocado em uma vida acadêmica que o obriga a firmar os pés no chão. Essa inversão de clichês (a mãe aproveitando a liberdade, enquanto o garoto administra uma imensa frustração) dá um tom cativante ao seriado e é impulsionada por uma delicadeza cultivada já atrás das câmeras, onde todos os episódios são dirigidos somente por mulheres.

Quando sai de casa, Brendan (Jackson White) se depara com uma vida frustrante na universidade. Enquanto isso, quem passa a se redescobrir através da liberdade é a sua própria mãe.

Na internet e na vida real, Eve renasce sexualmente com novos encontros, transas casuais e até mesmo interesse por experiências homossexuais, impulsionada por toda a independência que, ela sim, passou a cultivar com a ausência do filho. Em diferentes níveis, a personagem, que ainda é estimulada pela repentina paixão que um garoto de 19 anos passa a nutrir por ela, abraça a vibração de tudo isso, reconstruindo a sua ideia de mundo e de seu papel como mãe e mulher. Não há qualquer humor pastelão ou construções simplistas em Mrs. Fletcher, pois os roteiristas desenvolvem as transformações da protagonista sem alardes, focando nos detalhes corriqueiros que contribuem para a nova roupagem assumida por essa mãe em pleno redesenho de sua intimidade.

Já Brendan (Jackson White) chega à faculdade com a mesma pose de garoto desejado que sempre cultivou no colégio, até encontrar colegas com propósitos muito diferentes dos seus. A vida já não é mais uma festa, e essa é uma frustração que ele, agora sem o amparo da mãe, tem dificuldade em enfrentar. Pode parecer uma proposta genérica, mas novamente Mrs. Fletcher olha para uma situação específica de modo crítico: cheio de si e imaturo, Brendan é a perfeita representação do jovem branco, heterossexual e mimado que trata mulheres como objetos, sem muita noção do sentimento alheio, comportamento responsável por vários de seus ruídos de comunicação. Ao contrário do que sua saída de casa sugeria, quem precisa superar os desafios de uma transição como essa é ele próprio.

Entre Eve e Brendan, Mrs. Fletcher recheia a história com excelentes coadjuvantes. É calorosa, por exemplo, qualquer aparição de Jen Richards como Margo, a professora transexual do grupo de redação em que Eve se matricula. Isso porque o roteiro jamais se utiliza da transexualidade de Margo para definir os conflitos da personagem. Bem pelo contrário: é muito bonito ver como a série cria relações tão íntimas e esperançosas para uma figura que, conforme descobrimos entre um diálogo e outro, já se frustrou o suficiente na vida. A dinâmica que Eve estabelece com Julius (Owen Teague) também é outro ponto de destaque, especialmente porque a assumida paixão do garoto desperta na protagonista uma boa dose de sentimentos tão conflituosos quanto excitantes.

Mesmo assim não há brilho maior em Mrs. Fletcher do que o de Kathryn Hahn. Atriz de vasto talento, Hahn já foi coadjuvante de destaque em seriados como Transparent e fez um grande trabalho junto a Paul Giamatti no longa-metragem Mais Uma Chance, mas o seriado criado por Tom Perrotta é, até o momento, o projeto que lhe coloca no centro definitivo das atenções. Navegando em um oceano de emoções sem precisar de um monólogo ou de uma hipérbole qualquer para comunicar ao espectador todas as transições da personagem, ela prova novamente ser uma das atrizes mais interessantes de sua geração. E que gratificante é vê-la trabalhando tamanho repertório em uma série como Mrs. Fletcher, que, entre produções de larga escala produzidas pela HBO como Game of Thrones, Watchmen e His Dark Materials, silenciosamente surgiu como uma pérola a ser descoberta no catálogo da emissora.

“Years and Years”: minissérie imagina as ramificações de um futuro assombroso que está mais próximo do que gostaríamos de constatar

Uma coprodução entre a HBO e a BBC, a minissérie Years and Years parte da vida íntima de uma família britânica para falar sobre um futuro assustador que já está entre nós.

Uma das grandes produções de 2019 que o público ainda precisa descobrir, a minissérie Years and Years atravessa um período de 15 anos na vida da família Lyons, adotando como pano de fundo transformações políticas e sociais que, frente ao que estamos vivendo hoje, já não soam mais improváveis ou absurdas, como uma possível reeleição de Donald Trump ou a evolução assustadora de um trans-humanismo que transfere a nossa consciência para códigos armazenados em uma nuvem digital. Todavia, a grande sacada dessa coprodução entre a HBO e a BBC é a de colar as suas duas perspectivas — a intimidade dos Lyons e as notícias que movimentam o mundo — com uma proximidade quase perturbadora. Isso faz com que o espectador frequentemente se coloque no lugar dos personagens, evidenciando um tipo de empatia que costuma definir o nosso fascínio pelo audiovisual.

Não há jeito: quer você goste ou não de política, ela define as nossas vidas, e tudo o que acontece lá fora nos afeta diretamente. É essa a tônica de Years and Years, que, durante seis episódios, faz seus personagens sentirem as consequências de um mundo descontrolado e que aplaude políticos medíocres e despreparados, a exemplo da fictícia Vivienne Rook, vivida à perfeição por Emma Thomspon em um papel de aparições mínimas, mas emblemáticas para o desencadeamento da trama. Ela representa tudo aquilo que passamos a sentir na pele: a ascensão do ultraconservadorismo, a irresponsabilidade de discursos desinformados, o incentivo a ideias retrógradas e a priorização de pautas tolas em detrimento das reais necessidades do povo. Vivienne acha, entre outras opiniões estapafúrdias, que todo cidadão britânico precisa passar por um teste de QI para poder votar, uma vez que nem todos seriam devidamente qualificados para opinar sobre o destino de sua própria nação.

Inicialmente uma figurante que é apenas motivo de piada e incredulidade por dizer tantos absurdos em rede nacional, Vivienne logo ganha amplitude junto ao povo britânico com a bandeira de que, ao contrário dos outros políticos, ela dá voz (com direito a palavrões, inclusive) a tudo aquilo que uma parcela da população dita reprimida pelo politicamente correto deseja secretamente dizer. Sua sorrateira evolução passa a trazer incontáveis consequências para vida dos Lyons: paixões serão afetadas por uma avassaladora crise nas políticas migratórias e poupanças se desestabilizarão graças a um repentino colapso financeiro dos bancos, além de outros tantos acontecimentos imprevisíveis que não devem ser listados para não corrermos o risco de revelar algum spoiler.

Emma Thomspon e os pronunciamentos estapafúrdios de Vivienne Rook: mesmo com papel mínimo, atriz rouba a cena toda vez que aparece, influenciando a vida de todos os demais personagens.

Partindo do íntimo de uma família para ilustrar angústias compartilhadas de maneira universal, Years and Years domina o passar do tempo com uma maestria fascinante. São tão hipnóticas quanto angustiantes as caóticas sequências em que, através de telejornais e da própria percepção dos personagens, testemunhamos com absoluta clareza os momentos que, dentro da trama, serão responsáveis por alterar drasticamente os rumos do Reino Unido e da família Lyons. Cada salto temporal é inesperado (e pontuado com grandiosidade pela marcante trilha sonora de Murray Gold), acelerando a trama com novos recortes que garantem um ótimo fluxo de ritmo para o programa e um instigante clima de instabilidade para os personagens.

Aliás, tratando-se deles, a minissérie trabalha um punhado considerável de vidas com notável equilíbrio. Claro que temos figuras mais interessantes do que outras (a matriarca sem papas na língua interpretada por Anne Reid) e outros que são menos empáticos do que o roteiro supõe, a exemplo do Stephen Lyons de Rory Kinnear. Ainda assim, o programa aproxima o espectador de todos eles, munido de uma importante representatividade: gays, negros e pessoas com deficiência são, ao menos dentro da família, tratados em pé de igualdade, sem que sua dramaticidade se resuma a conflitos de raça ou sexualidade. Ao torná-los como próximos de quem os assiste, Years and Years acaba, inevitavelmente, comovendo com euforia ou pesar, dependendo dos vislumbres de esperança (que, sim, existem) ou desalentos.

Nos 15 anos contemplados pelo programa, o criador Russel T. Davies (Doctor Who, A Very English Scandal) também lança uma interessante (e necessária) provocação: a de fazer o público refletir sobre a sua parcela de responsabilidade perante tudo que aí está. A reflexão vem em um corriqueiro jantar de família, onde determinada figura levanta a ideia de que todos que sentam à mesa são coautores da loucura que acontece no mundo. Ora, ao nos acostumarmos com a tecnologia substituindo processos humanos ou a nos limitarmos a postar textões nas redes sociais ao invés de tomar alguma iniciativa de fato efetiva diante do que nos incomoda, passamos a ser coniventes com o caos. Convocando para a ação ao invés de simplesmente encenar um futuro problemático e sem perspectivas, Years and Years, portanto, ainda se torna grande por re(tomar) consciência do papel da arte como uma importante ferramenta de reflexão e transformação. Na companhia de programas como esse, talvez o futuro possa parecer menos aterrorizante.

“Transparent Musicale Finale”: sem Jeffrey Tambor, série da Amazon acerta ao se transformar em algo inteiramente novo para dizer adeus

Após a demissão de Jeffrey Tambor, Transparent não tenta remendar a ausência do ator: para seu desfecho, o seriado criado por Jill Solloway se transforma em algo inteiramente novo.

Primeiro grande sucesso produzido originalmente pela Amazon, Transparent discutiu, ao longo de quatro temporadas, uma série de temas hiper relevantes para a consciência humana e social de seus espectadores. Entretanto, seria fácil resumir o seriado criado por Jill Solloway a um drama familiar onde o protagonista resolve assumir para família que agora deixa de ser o pai como conheceram a vida inteira para se apresentar como a mulher que sempre sonhou ser. A revelação de Moira Pfefferman (Jeffrey Tambor), agora identificada como Maura, é o ponto de partida para uma sequência de conflitos e reflexões que, aí sim, encorpam a identidade do programa: entre crises familiares, conjugais e sexuais, cada membro desse clã passa a questionar a sua própria identidade e o seu verdadeiro lugar no mundo. Como na própria vida, os Pfeffermans trilham, durante toda a série, caminhos tortuosos e pedregosos para encontrar respostas muito íntimas. E o programa alcançou um notável nível de maturidade porque nunca tentou amenizar ou justificar até mesmo certos personagens que, submersos em imperfeições, muitas vezes se tornavam intragáveis.

Nas três primeiras temporadas de Transparent, Jill Solloway, que teve ampla participação nos bastidores do icônico seriado Six Feet Under como produtora e roteirista, criou uma verdadeira pérola, sempre impulsionada por um excelente elenco e pela inesquecível interpretação de Jeffrey Tambor como Maura, facilmente uma das melhores dessa década. Já no quarto ano, a série misteriosamente sai dos eixos com um conjunto de episódios desfocados, dispersos e que mais pareciam um filme pouco interessante dividido em dez episódios. A frustração maior ainda estava por vir: em fevereiro de 2018, Tambor foi demitido pela Amazon após uma acusação de assédio sexual feita por sua colega de elenco Trace Lysette. Ele negou — e segue negando até hoje —, mas a Amazon se manteve firme, cortando o ator desse projeto que chegou a lhe render dois Emmys e um Globo de Ouro de melhor ator em série de comédia (a classificação do gênero é altamente duvidosa, diga-se de passagem). 

Subitamente sem protagonista, Transparent se viu na mesma situação de House of Cards, que também perdeu Kevin Spacey durante a enxurrada de acusações de assédio sexual que se tornaram públicas graças ao movimento #MeToo. Enquanto House of Cards resolveu remendar a situação, realizando uma temporada inteiramente nova e entregando o protagonismo absoluto à atriz Robin Wright, Transparent adotou uma estratégia diferente: pensar o desfecho em forma de filme, sem prolongar uma história que, apesar dos pesares, não teria muitas chances de sobreviver com o mesmo vigor após tamanho desfalque. Mais do que isso, a série resolveu chutar o balde com a decisão de rodar o desfecho como um musical. Há um lindo momento de Judith Light cantando Hands in My Pocket ao final da terceira temporada, mas, dado o histórico geral do programa, tal transformação era realmente impossível de antecipar como uma tendência para os momentos derradeiros da trama.

Ainda que em novo formato, Transparent Musicale Finale segue levantando as bandeiras que sempre levantou e não perde de vista as lembranças deixadas por Maura Pfefferman (Jeffrey Tambor) nas temporadas anteriores.

Como acontece com basicamente todos os musicais, Transparent Musicale Finale, já disponível na plataforma de streaming da Amazon, não agradará gregos e troianos. É justa a indignação de quem se incomoda, afinal, como é possível um programa fazer tamanha inovação justamente em seu ato final? Jill Solloway enlouqueceu? Contudo, é possível enxergar a decisão sob outro prisma. Fazendo jus às suas reflexões sobre as mais diversas formas de transições (emocionais, físicas e de identidade), Transparent acaba, em um momento de divisão de águas, sendo ela própria sobre transformação. É importante constatar que o surgimento dessa natureza musical nos leva à ideia de que Solloway sabia o quanto seria complicado fazer um desfecho sem Jeffrey Tambor e seguindo a mesma batida dos anos anteriores. A ausência do ator seria sentida, e transformar Transparent em algo novo talvez fosse a saída perfeita para amenizar um problema irremediável.

Não se trata de fuga, mas sim de estratégia e, por que não, de posicionamento: mesmo que nem sempre assertivo ao adaptar situações cotidianas para o plano musical, Transparent Musicale Finale é um sopro de valentia em meio a seriados que, tão preocupados em agradar os espectadores, acabam se tornando reféns do próprio público, em sua maioria intolerante a conceitos que fujam das fórmulas e dos terrenos já conhecidos em uma atração. Ao mesmo tempo, o musical que encerra a jornada dos Pfeffermans não nega o legado da protagonista vivida por Jeffrey Tambor: o roteiro respira Maura por todos os lados, seja nas músicas, nos diálogos ou na própria atmosfera de luto que permeia toda a projeção. Transparent Musicale Finale assume a falta que a personagem faz e presta sua homenagem a tudo o que ela deixou em forma de reverberação emocional para os membros da família. É bonito, agridoce e com soluções dignas para contemplar a lembrança de Maura mesmo sem a presença de Jeffrey Tambor.

Não há um novo protagonista nesse desfecho, o que é justo com um elenco que assume tempos equivalentes em cena, como um coral. Duas atrizes, porém, têm brilho extra. Uma delas é Gaby Hoffman, que da vida à Ali (agora Ari), a filha mais abalada pela ausência de Maura justamente por ela própria, agora em plena transição de identidade de gênero, ser a pessoa que melhor compreendia os turbilhões íntimos de uma figura que agora não está mais presente para lhe propôr certas respostas e interrogações. A outra é Judith Light, que sempre teve um dos papeis mais difícil do programa: como a histriônica matriarca Shelly, a atriz transita entre as delicadezas de uma personagem cercada de situações complicadíssimas (abuso na infância, falta de conexão com os filhos, a verdade sobre o marido que assume uma identidade feminina) e o seu modus operandi agitado, hiperativo e não muito empático com as pessoas a sua volta. Pois agora nesse musical, Shelly passa por transformações internas importantes em relação a isso, todas capturadas com talento pela excelente atriz que é Judith Light.

Judith Light solta a voz mais uma vez: junto a Gaby Hoffman, atriz é um dos pontos altos desse desfecho que pode ser acusado de tudo, menos de preguiça ou comodismo.

Sobre a parte musical, o filme tanto acerta quanto deixa um certo gostinho de frustração. Há números que exaltam toda faceta empolgante e alegre do gênero (Joyocaust, o excelente número de encerramento), enquanto outros iluminam a natureza dialogada dessas produções, como Your Boundary is My Trigger, que, menos ritmado e sem necessariamente um refrão marcante, expõe os sentimentos e as frustrações de duas personagens a partir de uma discussão. O que corta uma parte do barato é o visível playback para disfarçar a falta de experiência de alguns atores com a cantoria. São dominantes as passagens em que o tom alcançado pelas músicas (e pelos ajustes de pós-produção delas) não condiz com as expressões em cena. Isso acontece com frequência no gênero, o que tira um pouco da veracidade que algumas sequências tentam imprimir. Transparent Musicale Finale ainda aposta em números imaginários em um único palco. Às vezes funciona, e em outras é mais do mesmo, como Rob Marshall já fez aos montes em títulos como Chicago e Nine. Como um representante do gênero, o filme é divertido e ocasionalmente tocante, ainda que nem sempre sofisticado em suas concepções.

Em uma jornada do luto ao renascimento, Transparent Musicale Finale não abre novas histórias para o filme de encerramento. Acontece o oposto: em sua despedida, a série busca amarrar todas as pontas soltas, e em 102 minutos consegue fazer isso com folga. Para a alegria de muitos, o musical, ao se aproximar do final, não resiste ao tom novelesco. Há finais felizes um tanto abruptos, assim como o resgate de personagens que poderiam muito bem ter permanecido intocados (a rabina Raquel, interpretada por Kathryn Hahn) e uma fila de outros tantos que, entre pequenas participações e figurações, ressurgem porque, claro, fizeram parte da série e não poderiam ficar de fora da festa (Cherry Jones, Bradley Whitford). Permeado por acertos e fragilidades, Transparent, enfim, despede-se como um programa inteiramente novo, e o público precisa entender isso para embarcar na versão musical. A atração não é mais a mesma, e é claro que não poderia ser. Não sem Jeffrey Tambor. Sendo assim, gostando ou não de uma cantoria, você pode acusar Transparent Musicale Finale de tudo, exceto de preguiça ou comodismo — e já não seria esse um excelente argumento de convencimento?

“Big Little Lies”, segunda temporada: como a dificuldade em aceitar o conceito de minissérie é capaz de arruinar um projeto

Após adaptar por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, Big Little Lies avança na vida das Cinco de Monterey sem o refinamento narrativo e estrutural que o seu incomparável elenco merecia.

Quando o conceito de minissérie deixa de ser respeitado, chegamos a experiências vazias como a da segunda temporada de Big Little Lies. Por definição, minisséries deveriam durar um único ciclo, e a decisão de prolongá-las carrega um risco muito grande, pois significa que determinada emissora ou plataforma poderá esticar além da conta uma história inicialmente idealizada para ter início, meio e fim. No caso de Big Little Lies a situação é ainda mais complicada, uma vez que a primeira temporada adaptava por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, material que deu origem à atração. São raríssimos os projetos que conseguem avançar com excelência em uma história já transposta por completo para as telas (The Leftovers, que durou três temporadas, foi impecável nesse sentido). Praticamente todos os casos, como a segunda temporada de The Handmaid’s Tale, citando outro programa recente, atestam que, mesmo com as melhores munições, tornar-se exceção à regra é missão quase impossível. Ainda assim, poucas frustrações são tão grandes como a trazida por Big Little Lies, que, neste segundo ano, ultrapassa o mero problema da expansão irregular de um universo para, em todos os aspectos, deixar um irremediável gosto amargo na boca.

A HBO nega, assim como as protagonistas/produtoras Nicole Kidman e Reese Witherspoon, mas não é necessário um olhar muito clínico para perceber que faz total sentido a notícia de que a diretora Andrea Arnold teria tido sua visão criativa mutilada na pós-produção para que Big Little Lies voltasse a se parecer com o que Jean-Marc Vallée fez na primeira temporada. Aliás, Arnold, que aqui não imprime marca alguma de seu estilo, dificilmente teria topado embarcar em um projeto que nada faz além de tentar emular os tiques da primeira temporada e do próprio Vallée. A incômoda insistência em duplicar o extenso número de flashbacks e em instalar algum tipo de suspense ou engenhosidade derruba Big Little Lies de uma maneira amadora, onde a montagem entrecorta tudo o que passa pela frente e deixa o conjunto (ou até mesmo um único episódio) sem muita sequência, unidade ou conexão.

Laura Dern como Renata Klein: a atriz segue arrasando, mas a personagem tem pouca conexão e proximidade com as demais mulheres do seriado.

Se nas telas e nos bastidores o seriado se transformou em uma colcha de retalhos, o mesmo se aplica ao centro dramático da trama (ou mais precisamente à falta dele). São sete episódios que jamais se justificam, uma vez que nada descobrimos de novo sobre essas mulheres cuja amizade deveria ter uma gama extra de nuances após os acontecimentos da última temporada. Ao invés disso, os roteiristas colocam uma em cada canto, sob a justificativa de que as Cinco de Monterey, movidas pelo trauma, entraram em uma crise coletiva. A partir daí, Big Little Lies imagina um conflito qualquer para as trajetórias individuais das personagens, de modo que todas se sustentem com seus próprios arcos. Ora, verdade seja dita: por mais que Laura Dern continue um arraso como Renata Klein, os dilemas envolvendo a falência dessa mulher que não cabe dentro de si própria sequer se conectam com o ano anterior, onde ela era vista como uma semi-antagonista nada receptiva com as demais personagens. Algo não se encaixa: Renata finalmente se integrou ao círculo de mães, porém, sua presença, agora avulsa em termos dramáticos, parece irrelevante para suas companheiras.

Entre as protagonistas, Celeste (Nicole Kidman) anda em círculos ao ainda nutrir sentimentos contraditórios pelo marido — e as sessões com a terapeuta, antes tão reverenciadas pela crítica e pelo público, agora beiram a bobagem tamanha a forma irresponsável como a psicóloga tenta ditar os rumos da vida de sua paciente. Já Madeline (Reese Witherspoon) se vê enroscada em um erro do passado capaz de ameaçar seu casamento e a própria paciência do espectador, que precisa testemunhar o desperdício de uma personagem tão interessante e o desenvolvimento de um conflito que se prolonga de maneira inexplicável. Há pouco para se falar de Jane (Shailene Woodley), agora reduzida a um romance que parece cilada e mal aprofundada em relação ao que sempre foi a sua maior força como mãe solteira: a relação de cumplicidade e delicadeza com o filho pequeno. No mais, a tentativa de dar nova amplitude a Bonnie (Zoë Kravitz) é pífia e duvidosa, já que ela traz estereótipos de misticismo e abusos familiares para o plot da única personagem negra da trama.

Vivida por Meryl Streep, Mary Louise é a nova personagem de Big Little Lies que nem mesmo os próprios roteiristas compreenderam.

Deixo para citar por último a personagem Mary Louise não por ela ser vivida por Meryl Streep, em uma de suas raras aparições em seriados, mas porque talvez esse seja o maior pecado de Big Little Lies. Promovida como um grande acontecimento tanto para o programa quando para o universo televisivo em si, a participação de Meryl está muito aquém do que poderia se esperar para alguém de seu calibre, e pior: a personagem sequer foi compreendida pelos próprios roteiristas. Relatos dão conta de que Meryl recebia orientações para interpretar Mary Louise, a mãe de Perry (Alexander Skarsgård), como uma espécie de vilã, definição imediatamente rejeitada pela atriz. E ela estava corretíssima: por mais que o seriado insista em explorar o lado passivo-agressivo da personagem e decida colocá-la em colisão com todas as outras mães da vizinhança, pouco foi abordado sobre a trágica e tortuosa negação que ela compartilha com Celeste em relação a Perry e sobre como isso é tanto o que une quanto o que separa essas duas mulheres. Se há bons momentos para a personagem, é por causa de Meryl e não por méritos da série, que equivocadamente induziu o público a detestar Mary Louise e não a entendê-la.

Para arrematar o ciclo e conferir uma tração de suspense/mistério como na temporada anterior, Big Little Lies, em seus capítulos derradeiros, recorreu ao drama de tribunal. Por mais que o artifício traga os melhores momentos de Nicole Kidman e Meryl Streep neste segundo ano, tudo é muito frágil, quando não implausível: a juíza que conduz o tribunal parece estar em seu primeiro dia de profissão, deixando que advogados, testemunhas e réus tomem conta da sessão, assim como determinadas reviravoltas, a exemplo de um vídeo descoberto de forma milagrosa e conveniente demais, reforçam a percepção de um roteiro escrito com displicência. Para quem gosta de novela, a conclusão da segunda temporada também traz todo tipo de resposta com reconciliações, explicações e até uma cerimônia de casamento. A única porta que fica aberta é, vejam só, a mais preocupante: aquela que, a partir da decisão de uma personagem na última cena, deixa a ligeira sensação de que Big Little Lies poderá ter uma terceira temporada. A HBO e os produtores não confirmam — e tampouco descartam oficialmente a possibilidade, para a completa angústia de quem sofreu com o total vazio de uma segunda temporada que definitivamente não precisava existir.

Com “Escape at Dannemora” e “The Act”, Patricia Arquette vive a era de ouro da sua carreira

Patricia Arquette nunca foi uma atriz particularmente impressionante, mas começou a ser vista de outra maneira após vencer o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Boyhood com uma fala que viria a impulsionar os movimentos em busca de igualdade e justiça para as mulheres na indústria hollywoodiana. À época, em uma entrevista concedida ao The Guardian, ela falou justamente sobre como, em termos culturais, o “cinema” deixou de ser “cinema” para ser referenciado como “indústria”, levantando uma interessante provocação: a de que hoje, por exemplo, Vivien Leigh, uma atriz quase desconhecida antes de realizar …E o Vento Levou, jamais seria escalada para uma produção dessa ambição e magnitude. Para Arquette, quando o “cinema” deixa de ser “cinema” (arte) para ser chamado de “indústria” (negócio), ganha quem é a maior estrela ou a figura mais pop para determinado papel, e não a melhor atriz.

Curiosamente, a carreira de Patricia Arquette não deixa de estar associada a essa afirmação. Se pouco ela impressionou ao longo de uma carreira resumida a papeis pequenos e pouco memoráveis, muito se deve à falta de oportunidades para quem não é uma estrela. Ela, que atua desde os anos 1980, demorou a dar uma guinada na carreira mesmo após o Oscar por Boyhood. Aliás, foi somente cinco anos após a consagração pelo filme de Linklater que Patricia se viu envolvida em dois projetos consecutivos que, lançados entre novembro de 2018 e março 2019, vieram para marcar a era de ouro da sua carreira: Escape at DannemoraThe Act, onde ela finalmente tem os papeis fascinantes que toda atriz deveria receber com a devida dose de frequência para reforçar a tese de que uma escalação certeira é muito mais importante do que qualquer estrelato.

“ESCAPE AT DANNEMORA” (Showtime)

Na temporada de premiações em que todos esperavam que Amy Adams se consagrasse com a minissérie Sharp Objects, da HBO, Patricia Arquette chegou de mansinho e terminou faturando o Globo de Ouro, o Screen Actors Guild Awards e o Critics’ Choice Awards por essa minissérie dirigida pelo ator Ben Stiller para a Showtime. Baseada em uma história real, Escape at Dannemora dramatiza a fuga de dois dois detentos da Clinton Correctional Facility, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 2015. A dupla de presidiários interpretada por Benicio Del Toro e Paul Dano escapa da instituição com a ajuda de Joyce “Tilly” Mitchell, uma das funcionárias que, logo se descobre, cultivava uma relação instável e sexual com os dois detentos. A verdadeira Joyce Mitchell não falava publicamente desde 2015, quando foi presa por ajudar a orquestrar a fuga de David Sweat e Richard Matt, mas quebrou o silêncio em 2018 para comentar a minissérie, alegando que jamais teve qualquer relação sexual com a dupla e que Ben Stiller não passa de um oportunista querendo faturar dinheiro com a sua dramática história.

Julgando pelo que vemos em Escape at Dannemora, Tilly Mitchell é uma mulher mentalmente instável que toma decisões motivada por surtos de carência e impulsos sexuais. Ao mergulhar na mente dessa figura feminina conturbadíssima, Arquette trabalha uma série de complexidades para, ao longo de sete episódios com duração de praticamente uma hora cada, criar uma personagem fascinante em sua instabilidade, sem permitir que ela vire uma caricatura. Sob um trabalho impressionante de maquiagem, ela se transforma em cena como nunca antes em sua carreira, e o faz com uma busca minuciosa pelas razões que, para além da questão psíquica, levaram essa mulher a infringir tanto a lei quanto a confiança de seus próprios colegas e familiares para libertar dois presidiários. A transformação da atriz foi tamanha que, antes do início das filmagens, ela encontrou Benicio Del Toro já devidamente maquiada e não foi reconhecida pelo colega, que pensou ter esbarrado em uma senhora maluca no set. Sua caracterização, contudo, jamais serve como muleta, e sim como uma ferramenta para potencializar os tantos conflitos internos que também se manifestam corporalmente na personagem.

Por outro lado, Escape at Dannemora é menos fascinante do que se poderia esperar, e a causa disso está no fato da minissérie criada pela dupla Brett Johnson e Michael Tolkin não ser majoritariamente sobre Tilly Mitchell, que, a certa altura, passa a ser uma coadjuvante na história centrada em David Sweat e Richard Matt, dois personagens de personalidades opostas e bem defendidas por Benicio Del Toro e Paul Dano. A trama dos dois não é tão interessante quanto a de Tilly, ainda que a minissérie acerte ao demorar a revelar as razões que fizeram com que David e Richard fossem parar atrás das grades (é uma decisão importante porque nos aproxima dos personagens e não os tacha logo de cara como bandidos indignos de empatia). Fora isso, toda a preparação para a fuga dos detentos é longa demais e o desenrolar é menos surpreendente do que a minissérie nos prepara a crer. Tanto essa sensação é verdadeira que os últimos episódios, centrados ora no passado dos personagens, ora no detalhado desfecho de cada um, só nos chamam de volta para a Tilly Mitchell de Patricia Arquette, que, cada vez que está em cena, resgata Escape at Dannemora de toda e qualquer redundância.

“THE ACT” (Hulu)

Interpretando outra figura da vida real, Patricia Arquette chega aos serviços de streaming com The Act, nova antologia criada pela Hulu, a mesma plataforma que lançou a multipremiada The Handmaid’s Tale. A cada temporada, um novo (e bizarro) crime verídico será encenado, e o primeiro ano não poderia ter dado o pontapé inicial com uma história mais macabra: durante quase duas décadas, Dee Dee Blanchard (Arquette) fez com que sua filha Gypsy acreditasse ser uma menina extremamente doente, dependendo da mãe para qualquer mínima tarefa do dia a dia. Gypsy, que tomava incontáveis remédios, andava com a ajuda de uma carreira de rodas e não sabia nem ao certo a sua data de nascimento, eventualmente descobriu toda a verdade e arquitetou o assassinato da própria mãe. Dee Dee, na verdade, sofria de um distúrbio chamado Síndrome de Münchausen por Procuração, que nada mais é do que uma forma de abuso infantil onde cuidadores provocam/imaginam de forma deliberada a existência de doenças em crianças como forma de chamarem atenção para si. Ou seja, The Act é duplamente perturbadora: primeiro pelo transtorno de uma mãe que faz sua filha passar desnecessariamente por pesadelos inimagináveis e segundo pelo fato da garota, uma jovem criada basicamente em cativeiro, ter orquestrado a morte de sua própria progenitora.

Ao longo de oito episódios, The Act não é o que podemos chamar de dramaturgia sofisticada e complexa. Há muita dramatização e ajuste dos fatos para que o programa consiga assumidamente chocar o espectador. Não há firulas quanto a essa opção, uma vez que todo capítulo termina com letreiros que reforçam o quanto a série manipula determinados fatos para alcançar efeitos dramáticos. Em paz com isso, o espectador tem tudo para se abismar com os absurdos que Dee Dee impunha à filha, que chegava a comer uma pizza batida em liquidificador por sonda e era privada de ingerir qualquer tipo de açúcar em função de uma diabetes que só existia na cabeça da mãe. The Act tem grandes méritos ao construir a percepção conflituosa que Gypsy nutria por quem lhe deu a vida: na medida em que a garota começa a perceber que, como o próprio título da série indica, sua vida não passava de uma encenação, a revolta não é suficientemente grande para que Gypsy despreze por completo a sua mãe, inclusive porque a única vida que ela conhece é aquela entre quatro paredes com essa mulher. Gradativamente, claro, a situação começa a mudar de cenário, e a desconstrução de um mundo antes visto como inocente e infantil pelos olhos de uma criança começa a ganhar contornos sombrios e urgentes.

Como a garotinha Gypsy, Joey King oscila entre sentimentos de ingenuidade e corrompimento, despertando reações mistas na plateia: afinal, como dimensionar os pensamentos e as atitudes de uma criança que nunca viu o mundo como ele realmente é e que foi criada em um ambiente incrivelmente doentio? Ao passo que The Act desperdiça a chance de versar com mais atenção sobre questões éticas e morais da sociedade (todas elas muitas vezes reduzidas à dinâmica das protagonistas com as vizinhas não muito interessantes vividas por Chloë Sevigny e AnnaSophia Robb), King e, claro, Patricia Arquette dão conta de tornar todo o contexto tão incômodo quanto assombroso. Há outras participações no elenco como as de Calum Worthy e Margo Martindale que impulsionam a estranheza desse conjunto de relações tortuosas e problemáticas, mas King e Arquette dominam a cena. A segunda, por sinal, impressiona um degrau acima visto a dobradinha com Escape at Dannemora: em ambas as séries, Arquette interpreta mulheres desequilibradas e envolvidas em situações extremas. Porém, Tilly Mitchell e Dee Dee Blanchard são, nas mãos da atriz, pessoas indiscutivelmente distintas em qualquer tipo de comparação, o que é o atestado definitivo da era de ouro de uma atriz antes subaproveitada e que agora, graças às chances certas oferecidas, coloca nas telas uma versatilidade digna de Meryl Streep.

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