Cinema e Argumento

“Ozark”, uma pérola escondida no catálogo da Netflix

Evocando Breaking Bad apenas na questão temática, Ozark caminha com suas próprias pernas e dá o pontapé inicial para uma trajetória promissora na Netflix.

Há razão nas comparações feitas entre OzarkBreaking Bad, ambas séries sobre pais de família envolvidos em negócios ilegais e que precisam fazer mil malabarismos para administrar tanto as aparências quanto a vida como ela realmente é. O problema dessa comparação é que ela coloca Ozark em uma missão incrivelmente desleal: a de tentar sair das sombras de Breaking Bad, uma das séries mais mitológicas lançadas na última década. Fora isso, a comparação é equivocada porque o programa lançado em julho deste ano pela Netflix herda apenas a temática de Breaking Bad e porque ele jamais tem a pretensão de tentar se equiparar ao seriado de Vince Gilligan em estilo, ritmo ou visual. Dessa maneira, se você só consegue saborear Ozark tecendo comparações com Breaking Bad é porque está deixando escapar o mundo de qualidades que a autêntica série estrelada por Jason Bateman e Laura Linney tem a oferecer.

Atendo-se somente à superfície já é possível constatar o quanto Ozark é diferente de Breaking Bad: rejeitando firulas introdutórias, a série logo nos mostra um protagonista envolvido com o cartel mexicano em um grande esquema de lavagem de dinheiro. Isso quer dizer que seus negócios escusos não passarão pelo clássico arco da descoberta, pois é questão de pouquíssimo tempo para que a história revele o quanto a esposa é cúmplice do marido e o quanto ambos não nutrem prazer ou fascínio por aquilo que fazem, ao contrário do icônico Walter White de Bryan Cranston. Mas também sejamos justos: Quando bem trabalhadas, as introduções de jornadas facilmente reconhecíveis podem ser envolventes, mas, levando em consideração que Ozark é equivocadamente cobrada a partir de comparações com Breaking Bad, a objetividade se revela um ponto positivo para uma série que, passada a sua premissa mais básica, caminhará muito bem com as próprias pernas.

De estética coesa e narrativa disciplinada, o seriado alcança solidez com uma trama que não se preocupa em entregar momentos de catarse.

Partindo de um universo onde todos não são o que parecem ser, Ozark se debruça em um protagonista extremamente pragmático, que soluciona crises e desata nós de forma clínica, mesmo que, muitas vezes, lá no fundo, ele claramente esteja em desespero, como quando, já no episódio-piloto, descobre o caso extraconjugal de sua esposa, assunto que é tratado com economia e maturidade pela série. Por sinal, é na dinâmica de Martyn Byrde (Bateman) com a esposa Wendy (Linney) que Ozark defende as suas melhores qualidades: ao utilizar a traição como mecanismo para que Martyn e Byrde passem a ver um ao outro como meros sócios na gestão de um lar e parceiros no crime, Ozark, a partir dessa escolha, mais uma vez renega caminhos fáceis, o que não quer dizer que a traição deixe de despertar nos personagens os sentimentos conflituosos que eles acabam escanteando diante das decisões cada vez mais rápidas e instantâneas que são exigidas por seus negócios perigosos. 

Ao definir com verossimilhança seu universo particular, Ozark prefere agir com discrição, acertando na fervura branda que dá aos acontecimentos. Desprovido de momentos enérgicos em termos de suspense, mas extremamente sólido na consistência do estilo que adota, o seriado preserva a economia inclusive quando chega ao extremo de determinados conflitos, sem desqualificar a tensão inerentes a eles. A baixa fervura se reflete em uma parte técnica ao mesmo tempo simples e refinada: a nebulosa fotografia do trio Ben Kutchins, Michael Grady e Pepe Avila del Pino traz personalidade para a geografia física e emocional do seriado, assim como a trilha sonora assinada por Danny Bensi e Saunder Jurriaans acerta pelo minimalismo em que se mostra presente na trama, sem cometer o tão frequente equívoco de composições que pesam a mão na hora de sublinhar momentos que já falam por si só.  

Laura Linney e Jason Bateman: protagonistas no ponto perfeito de papeis que demandam o olhar comum e pragmático para situações que clamam pelo instinto.

O elenco ajuda a encenar esse american way of life que Ozark radiografa mais pelo cotidiano do que pelas reviravoltas, com destaque para pelo menos três atores: Jason Bateman, que, além de dirigir quatro episódios (boa parte deles entre os melhores da temporada), escapa da marca cômica registrada de sua carreira para criar um homem perfeitamente comum e cercado de dramas; Laura Linney, que sempre dispensou comentários, prova mais uma vez que serve para qualquer papel; e a jovem Julia Garner, que, como a geniosa Ruth, consegue criar uma personagem que aprendemos a temer pela imprevisibilidade e pelos impulsos, mesmo se tratando de uma simples adolescente criada em um ambiente essencialmente adulto e masculino (aliás, sua trajetória de autodescoberta é a mais interessante desenhada pelo roteiro).

Já renovada para uma segunda temporada, Ozark tem descompassos para ajustar até seu retorno, como as fragilidades resultantes de momentos em que os personagens partem do plano pragmático para as decisões tomadas em nome da emoção. Várias passagens desse primeiro ano soam um tanto artificiais quando os personagens dão guinadas menos racionais, em particular nos episódios derradeiros, onde, por exemplo, Ruth toma uma drástica decisão envolvendo sua família para beneficiar Martyn. A própria temporada se encerra com um nível até açucarado em sua lição familiar! Por outro lado, não é nada que abale as expectativas para o segundo ano, que, caso mantenha o nível desse primeiro, pode muito bem tornar Ozark uma das melhores séries que poucos descobrem no catálogo da Netflix.  

Quem serão os vencedores do Emmy 2017?

Com exceções aqui ou ali, o Emmy é sempre uma loteria. Mesmo com aparentes favoritos, o radar para possíveis surpresas não deve ser desligado. Esse ano, em especial, a cerimônia promete dar uma guinada para esse lado, já que, depois de duas edições consecutivas, Game of Thrones não pode reinar, já que não exibiu seus novos episódios a tempo para concorrer ao Emmy. Com a ausência do fenômeno da HBO, três hits despontam na corrida pelo título de melhor série dramática: Stranger ThingsWestworldThis is Us. Elogiadíssima, a requintada e corajosa The Handmaid’s Tale também é uma possibilidade real, ainda que destoe de uma seleção dominada majoritariamente por grandes sucesso de público. Estaria o Emmy disposto a ignorá-los para abraçar uma série mais de nicho?

Entre as comédias, não há estreia que possa derrubar Veep, sempre tão atual em um conturbado momento político que não deixa de impulsionar o programa estrelado por Julia-Louis Dreyfus. Contudo, a disputa mais acirrada está mesmo entre as minisséries, onde Big Little Lies desponta na corrida ao mesmo tempo em que parece muito estranho a recordista de indicações Feud: Bette and Joan sair de mãos abanando. Vá saber também o que acontecerá na categoria de melhor atriz desse segmento, que promove uma batalha de gigantes de resultado praticamente imprevisível. Nela, assim como em várias outras categorias do Emmy, nenhuma aposta é maluca. Confira abaixo a nossa lista de palpites e não deixe de conferir a cerimônia, que será transmitida neste domingo, 17 de setembro, a partir das 21h, na TNT (o canal também fará cobertura do Tapete Vermelho a partir das 20h).

MELHOR SÉRIE DRAMA: Stranger Things / alt: The Handmaid’s Tale
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Veep / alt: Atlanta
MELHOR MINISSÉRIE: Big Little Lies / alt: Feud: Bette and Joan
MELHOR TELEFILME: Black Mirror: San Junipero / alt: The Wizard of Lies
MELHOR ATRIZ DRAMA: Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale) / alt: Claire Foy (The Crown)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep) / alt: Allison Janney (Mom)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jessica Lange (Feud: Bette and Joan) / alt: Carrie Coon (Fargo)

MELHOR ATOR DRAMA: Sterling K. Brown (This is Us) / alt: Anthony Hopkins (Westworld)
MELHOR ATOR COMÉDIA: Jeffrey Tambor (Transparent) / alt: Donald Glover (Atlanta)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Robert De Niro (The Wizard of Lies) / alt: Ewan McGregor (Fargo)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE DRAMA: Ann Dowd (The Handmaid’s Tale) / alt: Chrissy Metz (This is Us)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE COMÉDIA: Anna Chlumsky (Veep) / alt: Judith Light (Transparent)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Laura Dern (Big Little Lies) / alt: Judy Davis (Feud: Bette and Joan)
MELHOR ATOR COADJUVANTE DRAMA: John Lithgow (The Crown) / alt: Ron Cephas Jones (This is Us)
MELHOR ATOR COADJUVANTE COMÉDIA: Alec Baldwin (Saturday Night Live) / alt: Louie Anderson (Baskets)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Alfred Molina (Feud: Bette and Joan) / alt: David Thewlis (Fargo)

A partida memorável e nada repentina de “The Leftovers”

Coragem estética, temática e narrativa: em seu terceiro e último ano, The Leftovers se eterniza como referência na forma de contar histórias na TV.

São muitos os aspectos que tornam The Leftovers uma série memorável (e discutimos vários deles na crítica da segunda temporada), mas um é particularmente decisivo: o do programa ter plena consciência de que nem toda pergunta precisa de resposta. Em contrapartida, isso não significa que a narrativa de The Leftovers possa ser rotulada como incompleta ou frustrante. Para falar bem a verdade, só faz tal afirmação quem realmente não compreende a proposta da série criada pela dupla Damon Lindelof e Tom Perrotta. Para The Leftovers, que exibiu o último episódio da sua curta jornada de três temporadas no último domingo (04), pouco importa o que fez 2% da população desaparecer misteriosamente no episódio-piloto e sim a forma como todos os que ficaram para trás reagem a um acontecimento que, ao contrário da morte, não oferece qualquer tipo de conclusão para quem precisa superá-lo. Se nem o livro homônimo de Tom Perrota no qual a série é baseada se preocupa em explicar a chamada Partida Repentina, por que a versão audiovisual haveria de se preocupar? Mais do que isso, não há necessidade alguma de explicação, pois não é a espera por uma eventual solução que cimenta o drama dos personagens ao longo da trama. Ciente disso, o programa, ao introduzir ainda a possibilidade de um novo evento apocalíptico em sua temporada derradeira, não deixa de brincar com a situação ao sugerir possibilidades: tudo estaria resolvido se finalmente reencontrássemos aqueles que partiram? Nem de perto. E é por esse tipo de maturidade que The Leftovers já faz falta.

Respeitando o ciclo narrativo do programa, a HBO, após anunciar o cancelamento de The Leftovers na segunda temporada, rapidamente garantiu o terceiro ano para que os roteiristas dessem o devido fechamento à história. Que sorte tremenda esses escritores têm de trabalhar em uma emissora que permita tal planejamento e muito mais: afinal, se uma espécie de revolução de storytelling começava a se desenhar na temporada passada, aqui ela de fato se concretiza. Escapa à memória a última vez que um programa ousou tanto na forma e no conteúdo, propondo uma construção dramática que foge de qualquer padrão. Percebam, por exemplo, como pelo menos quatro dos oito episódios dessa temporada se concentram somente em um personagem para narrar uma trajetória individual em um determinado recorte de tempo. É uma jogada inevitavelmente arriscada, especialmente se tratando de uma temporada com poucos capítulos, mas The Leftovers tira tudo de letra. Se, quando os roteiristas adotam esse formato, a história como um todo parece truncada em termos de acontecimentos, emocionalmente tudo está muito bem resolvido com o olhar ainda mais clínico que o texto lança aos personagens, o que faz ainda mais sentido do ponto de vista afetivo, considerando que essa é uma temporada de despedida.

Realidade e fantasia não se anulam em The Leftovers. Mesmo em passagens mais malucas, a série está com os pés bem firmados no chão para explorar os dilemas de seus personagens.

Transferindo diversos personagens dos Estados Unidos para a Austrália de maneira muito orgânica, o programa frequentemente mistura fantasia e realidade, mas sempre para fazer reflexões com os pés no chão. Isso, aliado ao fato da história responder tudo sem responder nada, só revigora a esperança de que há sim espaço para experimentação de qualidade na TV. Já entre os aspectos mais básicos, a refinação se faz presente quando The Leftovers sabe até que ponto certos personagens devem ficar em cena (por mais maravilhosa que fosse Regina King, sua Erika Murphy não tinha mais espaço na trama, o que não impediu que a série arquitetasse uma última aparição para que ela não simplesmente desaparecesse com displicência). Enquanto isso, os que ficam e são introduzidos, como a Grace Playford de Lindsay Duncan, que tem um momento memorável nos minutos finais do episódio Crazy Whitefella Thinking, seguem sendo beneficiados por escolhas inteligentíssimas dos roteiristas, como a de entregar monólogos aos atores ao invés de optar pelo caminho fácil de encenar flashbacks para ilustrar acontecimentos passados. De fato não é exagero afirmar que The Leftovers revoluciona o modo de contar histórias ao não fazer concessões, o que só contribui para uma trama poderosa por si só em sua proposta e que aqui, inclusive, tem sua estética incrementada (são particularmente memoráveis os planos da água escorrendo pelo rosto de Carrie Coon em G’Day Melbourne e do ataque nuclear contemplado por Justin Theroux e Ann Down em The Most Powerful Man in the World (And His Identical Twin Brother)).

Carrie Coon é impecável como Nora Durst, e o final da série concentra quase todas as perguntas, respostas e reflexões na sua comovente personagem.

Tematicamente falando, a última temporada de The Leftovers abre um espaço muito maior para discussões relacionadas à fé. Antes, o assunto já era frequentemente pontuado pelas questões envolvendo o reverendo Matt (Christopher Eccleston) e a chegada dos personagens ao município de Miracle, onde nenhuma pessoa desapareceu durante a Partida Repentina. Agora, as discussões são muito mais simbólicas, já que Kevin (Justin Theroux) passa a ser encarado como um novo Jesus Cristo, com direito até a um Novo Testamento escrito pelo próprio Matt. A possível chegada de um dilúvio que varrerá a humanidade do mundo também amplia o caráter bíblico da temporada que, apesar da abordagem, jamais trata esses assuntos apenas como brincadeiras temáticas. Novamente, The Leftovers puxa tudo para o plano da realidade e se utiliza das leituras para falar sobre dilemas inerentes a boa parte do seres humanos. É especialmente impactante a conversa que o reverendo Matt tem com um homem que diz ser Deus. Ao ser questionado sobre as punições divinas que lança aos homens da Terra por seus pecados, “Deus” diz não ter inventado qualquer mandamento e que tudo o que as pessoas fazem em vida são escolhas delas próprias. Nesse momento, Matt fica sem palavras, e do lado de cá da tela uma série de valores e certezas também são colocados em reflexão. 

Ao encenar situações realmente “malucas”, The Leftovers, por outro lado, nunca faz com que seus personagens questionem a maluquice do que estão vivendo. Na verdade, toda e qualquer resposta procurada pelas figuras em cena está puramente no plano emocional. Em três temporadas, o programa de Damon Lindelof e Tom Perrotta foi um profundo relato sobre o luto, sobre a nossa eterna busca por algum tipo de reconciliação e sobre como, muitas vezes, o mundo acaba dentro de nós mesmos antes da chegada de qualquer dilúvio apocalíptico. A prova real dessa abordagem é The Book of Nora, o episódio final que se revela uma verdadeira crônica sobre as dores que permanecem ano após ano, mesmo quando encontramos as respostas que precisamos e que julgávamos ser a solução para todo mal que nos aflige. Diferente do esperado e talvez um tanto desleal com o espectador em relação a certas decisões (é imperdoável o retorno de uma personagem que a série nos fez acreditar ter se despedido dois episódios antes), The Book of Nora compensa estranhamentos e tropeços com uma pegada melancólica que encerra a série com um alento há muito tempo esperado. De elenco coeso (destaque absoluto para Carrie Coon, em desempenho impecável no episódio final) e coragem estética, temática e narrativa, The Leftovers, uma série sobre perdas, termina, curiosamente, como uma homenagem à força que inevitavelmente precisamos encontrar em quem está ao nosso lado, aqui e agora, para finalmente seguir em frente. Inesquecível.

Por que “The Good Fight” é o programa mais atual em exibição (mas não entende o que é um spin-off)?

O que prometia ser o grande voo solo de Christine Baranski acaba decepcionado: em The Good Fight, a atriz é tão coadjuvante (ou, muitas vezes, até mais) quanto em The Good Wife.

Quando surge pela primeira vez em The Good Fight, a advogada Diane Lockhart (Christine Baranski) está incrédula. E não é por menos: sentada frente à TV, ela acompanha a cerimônia de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, algo que, para quem acompanhou The Good Wife ao longo de sete temporadas, é um momento deliciosamente divertido devido às marcantes posições políticas da personagem. No entanto, não há motivos para os leigos se preocuparem, pois, mesmo sendo um spin-off da premiada série estrelada por Julianna Margulies, o episódio-piloto de The Good Fight é exemplar na forma como arquiteta a extensão de um universo já extinto, preservando o excelente tino cômico de seu material de origem, criando uma personalidade própria e, principalmente, trazendo importantes discussões do mundo real para a narrativa ficcional.

Se a política é tão importante para a democrata Diane Lockhart, é fácil deduzir que The Good Fight, ao longo dos dez episódios de sua primeira temporada, não poupará esforços para discutir questões relacionadas ao tema. Enquanto Wife se passava na era Obama, Fight é encenada na era Trump, o que é prato cheio para os criadores extraírem muitas de suas ideias e provocações dos conceitos defendidos pelo novo presidente norte-americano. A partir desse cenário, Lockhart enfrentará situações que, entre outras, discutem a falência da reputação dos poderosos (e o quão incongruente é ter Trump como presidente nesse sentido), a batalha diária que é ser mulher em um ambiente de trabalho essencialmente masculino, o quanto a idade e a experiência às vezes podem ser pontos negativos em uma carreira profissional e o que significa se dedicar a certas coisas na vida para, no fim das contas, elas não valerem nada.

Com questões atuais e provocações inteligentes, The Good Fight compensa a falta de criatividade em termos de execução com a contemporaneidade dos temas que levanta.

Atualíssima e representativa como poucos programas conseguem ser, The Good Fight se dedica a dar voz à diversidade, colocando três mulheres no centro de sua história: Maia Rindell (Rose Leslie), Luca Quinn (Cush Jumbo) e, claro, Diane Lockhart. Detalhes ainda mais importantes sobre elas: a primeira é lésbica, a segunda é negra e a terceira já passou dos cinquenta anos, todos nichos normalmente relegados a papeis coadjuvantes, seja em filmes ou seriados. Se a protagonista vivida por Christine Baranski já sabia que ser mulher em um universo jurídico de homens brancos e engravatados era difícil, logo ela descobre também que envelhecer pode acrescentar um sabor ainda mais azedo a um cotidiano desafiador. Esse é o pontapé inicial de The Good Fight: após anunciar sua aposentadoria, Lockhart se vê com a corda no pescoço quando, após um escândalo de corrupção, descobre que todo o seu dinheiro foi congelado. Não há outra escolha para se sustentar a não ser continuar trabalhando, mas a empresa da qual era sócia não aceita o retorno, lançando a veterana de volta à vida de bater de porta em porta para conseguir um emprego. E qual não é a surpresa dela ao descobrir que o mercado, por uma série de razões, não quer contratar uma mulher experiente em idade e profissão?

O que torna The Good Fight o programa mais atual em exibição e um relato conceitualmente forte é a decisão de centrar sua trama em mulheres que se reinventam, que levantam a cabeça frente a adversidades e que enxergam os obstáculos da vida como porta de entrada para algo muito maior e necessário. Algo que, na realidade, precisam provar não para elas próprias, mas para uma sociedade que insiste em diminuí-las. A série começa com o pé direito, devendo nada a sua série antecessora, mas, pouco a pouco, mostra que não consegue ir muito além de seus posicionamentos políticos afiadíssimos quando Diane Lockhart finalmente se estabelece em uma empresa administrada em sua maioria por advogados negros. A situação muda de cenário porque a história precisa sair dos conceitos que envolvem seus personagens e contextos para construir uma trama. Na prática, o spin-off volta a repetir vícios de The Good Wife e até a lembrar o porquê do programa estrelado por Julianna Margulies ter sido cancelado após tantos episódios estagnados em forma e conteúdo.

Rose Leslie como Maia Rindell: a sensação de dèjá vu é grande, já que a personagem repete a fórmula da advogada que começa a entender como funcionam os bastidores da profissão.

Aliás, há vários aspectos que remontam a The Good Wife, o que só reforça a impressão de que The Good Fight conduz a sua história no piloto-automático. Ou não é puro comodismo novamente termos uma personagem que está chegando ao mundo da advocacia e que precisa aprender tudo sobre os trâmites da profissão? Não é que, na prática, a novata Maia Rindell se pareça com a Alicia Florrick de Julianna Margulies, mas tudo é muito familiar, repetindo desnecessariamente passagens que seriam evitáveis com um pouco mais de criatividade na hora de elaborar um personagem. O déjà vu relacionado a esses problemas também se encontra na construção dos casos jurídicos, que evocam antigos coadjuvantes sem reinventá-los em qualquer aspecto (por mais divertida que seja a Elsbeth Tascioni de Carrie Preston, fica claro que ela só está ali para fazer graça) e conflitos que servem somente disfarçar a falta de assunto, a exemplo do episódio em que Maia busca a real identidade de quem está espalhando falsos tweets em seu nome. Com exceção dos casos que endossam o inegável talento de The Good Fight em discutir temas atuais (sempre há espaço para cutucar Donald Trump sem qualquer medo, e isso é ótimo!), não há surpresa alguma no spin-off.

Ok, digamos que, como fã incondicional do universo de The Good Wife, seja possível perdoar tudo isso para ter um pedacinho do programa de volta. O que não dá mesmo para deixar passar é The Good Fight ter claros problemas em compreender quem é a sua real protagonista. Ora, um spin-off serve para dar protagonismo e trajetória própria a um personagem que, em outro seriado, estava longe de concentrar o protagonismo de uma história. Não é o que acontece com a Diane Lockhart de Christine Baranski: misteriosamente, ela é coadjuvante tanto quanto era em The Good Wife, com dilemas pessoais que são esquecidos com a mesma displicência que são retomados e passagens que soam como mero suporte para enaltecer outra figura em cena: no caso, Maia Rindell, a real protagonista do spin-off. Isso é de certa maneira imperdoável por muitas razões, entre elas, a de trair as promessas de dar a devida dimensão a uma personagem interessantíssima e a de proporcionar uma chance de ouro a Christine Baranski, uma excelente atriz que merecia oportunidades muito melhores tanto no cinema quanto na TV. Eterna coadjuvante de musicais nas telonas (Mamma Mia!ChicagoCaminhos da Floresta), ela sempre brilhou como a elegante advogada que guarda com orgulho um retrato ao lado de Hillary Clinton em seu escritório. Por isso, The Good Fight parecia ser o seu grande momento. Não foi. E isso é algo que precisa ser urgentemente reparado.

As mulheres imbatíveis e eternas de “Feud: Bette and Joan”

Bette Davis (Susan Sarandon) e Joan Crawford (Jessica Lange) em Feud: Bette and Joan: o que poderia ser uma mera diversão envolvendo a rivalidade entre duas mulheres se revela um profundo estudo sobre o machismo em Hollywood.

As atrizes Bette Davis e Joan Crawford faziam questão de afirmar que eram mulheres e profissionais bastante diferentes quando, na verdade, compartilhavam mais semelhanças do que estavam dispostas a admitir. Ambas abandonadas por seus respectivos pais, Bette e Joan vieram de famílias pobres, tornaram-se famosas entre os anos 1920 e 1930, ganharam Oscar de melhor atriz, eram democratas e feministas, casaram quatro vezes, adotaram crianças e tiveram filhos que, posteriormente, ficariam famosos por escrever biografias que exploravam as complicadas relações que tiveram com suas mães. Isso só comprova como, no fundo, as duas estrelas de Hollywood sabiam que a lendária inimizade entre elas era uma situação criada por uma indústria machista e avessa ao envelhecimento das atrizes. No entanto, também compreendiam que, infelizmente, tal dinâmica era uma ferramenta de sobrevivência na indústria: sem essa tônica, faltavam manchetes em jornais, aparições em colunas sociais e até mesmo papeis em filmes que já não vinham mais naturalmente. 

O que Bette Davis e Joan Croawford não sabiam é que, além das mazelas profissionais, a situação acarretaria profundas cicatrizes pessoais. E é com esse olhar que Feud: Bette and Joan, antologia criada por Ryan Murphy junto à dupla Jaffe Cohen e Michael Zam, procura abordar a tortuosa relação entre as atrizes, cuja inimizade foi muito além das gravações de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, filme que marcou o primeiro e único encontro entre as duas imortalizado nas telas do cinema. Ao longo de oito episódios, o primeiro ano da série que, em temporadas posteriores, retratará outras rixas mundialmente famosas, tem o mérito de se esquivar da mera curiosidade cinéfila (esse poderia muito bem ser um relato cheio de referências e brincadeiras endereçado aos fãs da sétima arte) para se tornar um registro universal e, claro, profundamente atual, visto que, hoje, muita gente ainda lucra e se diverte com a inimizade entre mulheres, especialmente na indústria fonográfica, onde parece impossível enaltecer uma diva pop como Madonna ou Lady Gaga sem depreciar alguma outra na mesma intensidade.  

Susan Sarandon é um milagre como Bette Davis. Além das semelhanças físicas, a atriz ressuscita toda a personalidade forte e o temperamento difícil de uma das intérpretes mais celebradas de todos os tempos.

Feud: Bette and Joan termina de forma bem diferente do que começou, transformando uma certa frustração em algo extremamente recompensador. Inicialmente vendido como a reprodução dos bastidores de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, o projeto, já no quarto episódio, encerra as gravações do célebre filme para, aos poucos, ter sua trama cada vez mais concentrada na vida de Joan Crawford (Jessica Lange), cultivando no espectador a frustração de ver Bette Davis (Susan Sarandon) escanteada em cena. Afinal, como não lamentar o fato de Feud: Bette and Joan negar igual protagonismo a essa mulher forte e de trajetória vitoriosa que, entre tantas coisas, foi a primeira mulher presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a atriz com o salário mais alto de sua época quando realizou A Malvada e, até hoje, a única intérprete, ao lado de Greer Garson, a alcançar o recorde de cinco indicações consecutivas ao Oscar de melhor atriz? Só que não demora muito para a série nos atentar ao fato de que Bette, por uma série de razões, sempre será a grande protagonista da famosa relação com Joan Crawford, e que existe muito mais a ser contado por trás dessa história. Feud não deixa de fazer uma reparação ao apostar em uma abordagem bastante diferenciada: aqui, a maior parte do protagonismo está finalmente entregue a Crawford, que, riquíssima em conflitos, é dramaticamente mais interessante por, ao contrário de Bette, ser insegura, emocionalmente instável, secretamente desesperada pela aprovação da colega e incapaz de lidar com rejeições.

Tamanha é a conscientização da série acerca do danoso incentivo ao confronto entre mulheres que toda a diversão de ver Bette e Joan se sabotando nas gravações de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? se transforma em puro mal estar, mais especificamente no episódio And the Winner is… (The Oscars of 1963), onde o diretor Ryan Murphy delicia os fãs do cinema com inúmeras recriações e referências (o plano-sequência de Crawford transitando entre os bastidores do Oscar é impecável) ao mesmo tempo em que usa tudo isso como munição para potencializar os conflitos internos das protagonistas. Enquanto uma vê seu sonho de ganhar um terceiro Oscar ser destruído pela colega (Crawford fez uma ampla e reconhecida campanha contra Bette após não receber uma indicação pelo mesmo filme), a outra encontra um falso e doentio conforto ao receber o Oscar de melhor atriz em nome de Anne Bancroft (O Milagre de Anne Sullivan), que superou o nome de Bette na disputa pela estatueta e não pôde comparecer à cerimônia devido a outros compromissos profissionais. A partir daí, é um soco no estômago atrás do outro, pois Feud: Bette and Joan não poupa esforços para mostrar o quanto envelhecer em Hollywood é algo extremamente doloroso para as mulheres em função da oferta quase inexistente de papeis e das humilhações que a indústria faz com que elas se submetam só para continuar trabalhando.

Vindo de uma trajetória vitoriosa na TV com American Horror Story, Jessica Lange brilha novamente como Joan Crawford. É pelo seu olhar que se desenvolve a trama de Feud: Bette and Joan.

Retratados como frouxos ou medíocres, mas devidamente explorados em suas dimensões, os homens da série tem papel fundamental nessa degradação. Se Jack Warner (Stanley Tucci), o magnata da Warner Bros., é inescrupuloso ao conscientemente jogar lenha na fogueira de Bette e Joan para conseguir promover mais um sucesso de bilheteria, Robert Aldrich (Alfred Molina), o diretor de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, prefere se enxergar como um homem inseguro e injustiçado ao ter que administrar tantas disputas no set e não como peça decisiva para acelerar ou frear a maliciosa engrenagem que coloca as atrizes em confronto. Ainda que muito do que as protagonistas colheram fosse fruto do que elas próprias plantaram (Joan especialmente tem um longo histórico de decisões destrutivas tomadas por pura vaidade e orgulho, como ter se recusado a promover Baby Jane junto a Bette, o que certamente influenciou sua não-indicação ao Oscar pelo filme), Feud: Bette and Joan jamais deixa de reforçar o fato de que elas são resultado inegável de um entorno que nunca foi generoso com qualquer uma das duas. É por isso que um episódio como Abandoned! dói tanto: o diálogo em que as duas atrizes, após uma discussão, baixam a guarda e se (re)conhecem na mesma situação de vida ao lembrar o quão prazeroso era sentirem-se as intérpretes mais talentosas e bonitas de sua geração é de partir o coração — e, claro, um show de duas grandes intérpretes.

Por sinal, enfim chegamos a elas: Jessica Lange e Susan Sarandon. Dando orgulho a Bette e Joan não só pelas representações humanas e respeitosas dessas figuras, mas também por já passarem dos 60 anos com carreiras bastante ativas, Lange e Sarandon brilham em cena e são dignas de notas particulares. A primeira, que vem de um recente histórico vitorioso na TV com American Horror Story (foram dois Emmys pela antologia também criada por Ryan Murphy), abraça todas as imperfeições de Joan Crawford e torna a personagem crível mesmo quando fica difícil defendê-la em seus ataques de vaidade. Ela dá conta total da minissérie quando a trama se volta muito mais para sua percepção ao mesmo tempo em que estabelece um dinâmica sempre cercada de generosidade com Sarandon. Como Bette Davis, a colega de Lange é um milagre: além da semelhança física ao reproduzir filmes como A MalvadaPérfida, Sarandon capta a atriz de dentro para fora, trazendo à tona, com plena fidelidade e sensibilidade, a intensa personalidade que lhe era tão caraterística. Ao contrário do que a imprensa quis criar (Murphy diz ter sido procurado diversas vezes sobre uma possível inimizade entre Jessica e Susan), estamos falando de uma dupla com pura sinergia. Juntas, elas são imbatíveis.

De forma mais racional, Feud: Bette and Joan tem lá suas fragilidades, como a artificialidade de encenar a gravação de um documentário onde atrizes como Olivia de Havilland (Catherine Zeta-Jones) e Joan Blondell (Kathy Bates) comentam a rivalidade do título da minissérie. O formato é artificial porque, além de subutilizar Kathy Bates (não há razão alguma para sua inclusão, já que ela sequer é introduzida de fato na história), está ali apenas para fazer contextualizações (cinéfilas, na maioria das vezes), simplificar passagens do tempo e explicar determinadas situações que não são recriadas. Por outro lado, há de se entender que essa é uma ferramenta identificável e até necessária para os padrões da TV aberta, bem como o ajuste de fatos e datas para maior impacto dramático. Errado? De forma alguma. A obrigação com a fidelidade cirúrgica dos fatos pode ficar para os documentários, até porque Feud: Bette and Joan tem pleno domínio de suas emoções ao arquitetar os ajustes honestos que faz. No embate entre as protagonistas, faz pensar. Já em qualquer momento de generosidade entre elas, consegue cortar até o coração mais pedregoso. Afinal, como o próprio título do episódio derradeiro indica ao relembrar uma frase clássica de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, elas realmente poderiam ter sido amigas durante todo aquele tempo.

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