“As Herdeiras”: drama paraguaio mergulha nos delicados significados de uma autodescoberta feminina após os 60 anos

Direção: Marcelo Martinessi

Roteiro: Marcelo Martinessi

Elenco: Ana Brun, Margarita Irun, Ana Ivanova, María Martins, Nilda Gonzalez, Alicia Guerra, Mecha Armele, Ana Banks, Beto Barsotti, Regina Duarte, Norma Codas, Natalia Calcena, Clotilde Cabral

Las Herederas, Paraguai/Alemanha/Uruguai/Brasil/Noruega/França, 2018, Drama, 98 minutos

Sinopse: Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de famílias abastadas do Paraguai, vivem da venda de seus bens. Quando Chiquita acaba presa por dívidas jamais acertadas, a até então submissa e reclusa Chela precisa se virar e começa por acaso a prestar serviço para um grupo de senhoras ricas como motorista. Logo a nova realidade, e especialmente a exuberante Angy (Ana Ivanova), a quem conhece durante o trabalho, afetam os interesses, prioridades e atitudes da taxista amadora. (Adoro Cinema)

Considerando que um Kikito esculpido em bronze pesa em torno de 3,5 kg, as atrizes Margarita Irun e Ana Ivanova, representantes do filme paraguaio As Herdeiras na cerimônia de premiação do 46º Festival de Cinema de Gramado, devem ter saído do Brasil pagando excesso de bagagem no aeroporto, pois foram nada menos do que seis categorias conquistadas pelo longa no evento serrano, entre elas a raríssima tríplice coroa de melhor filme pelo júris oficial, popular e da crítica. Aliás, um dos Kikitos ainda se transformou em três, já que o prêmio de melhor atriz foi divido entre as três intérpretes principais do filme. Tudo bem que a seleção de longas estrangeiros não foi lá muito elogiada este ano em Gramado, mas, conferindo As Herdeiras, dá para entender o porquê de tanto carinho por essa obra que tem muitas chances de, pela primeira vez e com muita justiça, levar o Paraguai para o quinteto de finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Centrado exclusivamente em figuras femininas (os homens mal são vistos em cena e, quando o são, estão desfocados ou fora de quadro), As Herdeiras registra a temporada em que Chela (Ana Brun) precisa lidar com a ausência de sua companheira que acaba de ir para a prisão por ter acumulado dívidas jamais acertadas. O longa parte de um encarceramento, mas, no fundo, é sobre libertação: quando passa a ter que encarar a vida com as próprias pernas, a protagonista, antes tão dependente da mulher com quem viveu por mais de 30 anos, começa a se abrir para um mundo que ela nunca se permitiu conhecer. A pegada é menos óbvia do que pode parecer, pois As Herdeiras é o tipo de filme que explora aqueles pequenos acontecimentos do cotidiano que, isoladamente, não parecem significar muita coisa, mas que, quando vistos com certa perspectiva, traduzem toda uma vida. O cinema brasileiro, inclusive, produziu uma obra de conceito semelhante: o tocante Pela Janela, de Caroline Leone, que pode muito bem ser considerado um filme-irmão de As Herdeiras.

As mais delicadas significações começam quando Chela decide fazer bicos como uma espécie de taxista, transportando diversas senhoras de sua vizinhança para hospitais ou jogos de carteado. Para uma mulher que nunca conduziu a sua própria vida, é altamente simbólico que ela vença o seu receio de dirigir, como se estivesse finalmente assumindo a direção de sua existência. Chela também resiste em receber presentes de suas clientes e, mesmo com os problemas financeiros que enfrenta, também parece não se importar tanto com o dinheiro que recebe pelos serviços, situações que refletem o quanto ela inconscientemente faz aquilo pela nova vida que descobriu na ausência de sua companheira e não exatamente pela necessidade de alguns trocados. A transformação da personagem é minuciosa e silenciosa, bem ao estilo do filme com um todo, o que entrega um tremendo desafio para Ana Brun, uma atriz que, pasmem, está em seu primeiro trabalho no cinema! Brun é grandiosa no minimalismo, e por isso é tamanha a surpresa de sua estreia: tal força, em boa parte dos casos, só emana de quem já tem vasta experiência na dramaturgia, mas ela é um ponto fora da curva, dona de um talento nato.

Com a mesmíssima surpresa se descobre que o diretor e roteirista Marcelo Martinessi também está em seu primeiro longa-metragem. Martinessi havia feito três curtas anteriormente, informação que não chega a nos preparar para a expressiva maturidade que vemos em As Herdeiras. Sua direção lapida com firmeza um roteiro que desenvolve com consistência três universos muito particulares e suscetíveis a estereótipos ou superficialidades: o feminino, o homossexual e o da terceira idade, todos representados com sutileza nas passagens onde a protagonista, que sempre teve dificuldade em assumir e verbalizar a sua orientação sexual, de repente se vê desejando uma de suas clientes e percebendo que, mesmo solitária e depois dos 60, uma mulher ainda tem sim muito a descobrir sobre si própria. Premiado também no Festival de Berlim, onde levou os prêmios de melhor atriz para Ana Brun e de melhor filme pelo júri da crítica, As Herdeiras é mais uma merecida viagem repleta de consagrações que o cinema de língua latina faz pelo mundo. E o melhor: levando para diferentes telas a sua indiscutível vocação para pequenas grandes histórias que empoderam as vidas de uma parcela da sociedade que ainda não é tão representada na ficção quanto deveria.

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