Cinema e Argumento

47º Festival de Cinema de Gramado #3: “O Homem Cordial”, de Iberê Carvalho

Paulo Mikos em O Homem Cordial: ex-Titã tem no filme de Iberê Carvalho a melhor interpretação de sua carreira.

Se tomássemos como parâmetro somente o afetuoso O Último Cine Drive-In, seria um tanto difícil prever que o diretor Iberê Carvalho tivesse um repertório tão vertiginoso quanto o apresentado agora em O Homem Cordial, filme que faz sua estreia nacional na competição do 47º Festival de Cinema de Gramado. À parte o problema do título, que causa imediata confusão com o recente O Animal Cordial, dirigido por Gabriela Amaral Almeida, o novo longa-metragem de Iberê arrasta o espectador noite adentro em uma odisseia que descortina nossas cicatrizes político-sociais e cria um verdadeiro redemoinho a partir de todas nossas intolerâncias, preconceitos e negligências. Como uma investigação sensorial desse cenário, O Homem Cordial é uma experiência angustiante que usa a trajetória pontual de um personagem para trazer uma perspectiva inevitavelmente pessimista do que temos nos tornado de uns anos para cá.

Seguindo os modelos de todo filme ambientado à noite, quase em tempo real e com um personagem enfrentando uma conturbada jornada pelas ruas de uma cidade, O Homem Cordial será eternamente associado a Depois de Horas, de Martin Scorsese. Entretanto, o filme de Iberê Carvalho é mesmo sobre o Brasil, e essa sua especificidade lhe confere personalidade diante dos títulos que apenas tentam emular uma fórmula. O roteiro, escrito pelo diretor em parceria com o uruguaio Pablo Stoll, acompanha a noite de retorno aos palcos de uma famosa banda de rock do anos 80, quando viraliza na internet um vídeo que envolve Aurélio Sá (Paulo Miklos), vocalista e líder da banda, na morte de um policial militar. Miklos, que de fato foi vocalista de uma icônica banda de rock brasileira (os Titãs), tem trilhado carreira no cinema, e seu trabalho aqui talvez possa ser considerado o ponto alto dessa trajetória: com vitalidade e naturalidade, ele segura muito bem um protagonista que tem a câmera grudada em seu rosto praticamente a projeção inteira, o que é um desafio e tanto até para o melhor dos atores.

Inclusive, a técnica de O Homem Cordial tem grande contribuição nos sentimentos claustrofóbicos e eletrizantes trazidos pelo filme. Dessa mistura, é possível tirar dois destaques: a fotografia de Pablo Baião e a montagem de Nina Galanternick, fundamentais para a construção da atmosfera de um filme praticamente todo ambientado à noite. A vertigem de violência, seja ela física, verbal ou emocional, combina com o tom soturno da obra, que, a partir da superexposição nas redes sociais e da compulsão de uma sociedade que precisa registrar e denunciar tudo pela câmera de um celular, fala sobre como muitas vezes ela acaba distorcendo situações e desviando as discussões que realmente importam. O mosaico é completo: racismo, política, abuso de poder, direitos humanos, violência policial, diferença de classes… Não há o que escape de O Homem Cordial em uma radiografia muitas vezes incômoda de se acompanhar e que é desenvolvida a cada esquina dobrada pelo protagonista.

A firmeza de Iberê em não deixar que O Homem Cordial se torne um filme disperso em tantas leituras é grande, ainda que isso não livre o resultado de certos prejuízos, especialmente estruturais: na medida em que abre demais o leque da jornada de seu protagonista, o longa de certa forma o perde de vista para se dedicar a cenas que pesam a mão mais no discurso do que propriamente na construção da história. Exemplo disso é a longa sequência envolvendo Aurélio e um grupo de policiais, onde o comandante da operação representa, com certa caricatura, toda a violência de um sistema preconceituoso, intolerante e racista que já estava sendo contemplado pontualmente por várias passagens do filme. O Homem Cordial retoma as rédeas perto de seu encerramento, quando retrocede para encenar um fato crucial da história, e aí sim volta a abraçar sua força maior de ver o mundo através de um recorte específico. Quando busca sua voz por esse meio, Iberê Carvalho sempre faz o seu filme subir um degrau, mexendo com o espectador sem recorrer à mera explanação.

47º Festival de Cinema de Gramado #2: “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Prremiado em Cannes, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles tem protagonismo coletivo.

Laureado com o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes, Bacurau marca a volta do cinema brasileiro ao hall de vencedores do prestigiado evento francês, quebrando um jejum de 12 anos desde que Linha de Passe rendeu à Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz na Croisette. Com estreia programada no circuito comercial para o dia 29 de agosto, o longa-metragem dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fez sua estreia nacional na noite de abertura do 47º Festival de Cinema de Gramado, fora de competição, e a reação do público, que aplaudiu o filme em cena aberta, reforça a tese de que toda a catarse trazida por momentos cruciais e impactantes da obra diz muito sobre um país que tem sofrido um tremendo desmonte cultural e que, cada vez mais, precisa ter a sua resiliência retratada e impulsionada nas telas.

Não à toa, Bacurau faz questão de registrar em seus créditos finais que é uma produção responsável por mais de 800 empregos diretos e indiretos e também o registro de um país e de sua identidade. Tematicamente, podemos associar o filme a Aquarius, longa anterior de Kleber, no sentido de que ambos são sobre o poder da resistência e sobre como de fato agimos ao invés de apenas levantar uma bandeira com discursos fáceis. Contudo, se Aquarius seguia a escala de O Som ao Redor ao fazer o Brasil se olhar no espelho por meio de um forte realismo social, Bacurau parte para o plano da mistura de gêneros, o que pode tanto deliciar quem gosta de mergulhar em suspense, sangue e mistério como metáfora da nossa realidade quanto incomodar aqueles que preferem um quadro muito mais claro e descritivo.

Já colocando uma pitada de suspense em sua abertura com o letreiro “daqui a alguns anos…”, sem identificar exatamente quando a história acontece, Bacurau é, em uma leitura mais simplista, um filme sobre o futuro, quando, na verdade, está intimamente ligado às mazelas políticas e sociais que já foram e ainda são vividas pelo povo brasileiro. Kleber e Juliano, também autores do roteiro, constroem toda atmosfera de Bacurau a partir de uma incômoda sensação de instabilidade social que, ao longo e ao final da obra, será responsável por um crescente quadro de selvageria. Há sangue, morte, tiros e outras barbáries no filme, o que, curiosamente, é capaz de misturar náusea e um macabro conforto no espectador: se a primeira reação é de baque com tamanha violência, logo ela é amortecida pela ideia de que, de alguma forma, ela evoca a força de um povo esquecido pelo mundo e maltratado pela vida, mas que decide assumir seu protagonismo em uma importante linha de batalha.

Ambientado em um futuro não exatamente especificado, Bacurau é, na verdade, sobre o nosso presente.

Garimpando referências, Kleber diz que é possível encontrar em Bacurau ecos de Sam Peckinpah e até de Alfred Hitchcock, mas que esse filme, na realidade, reflete sua paixão por um cinema brasileiro eternizado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e outros mestres, assim como a grande admiração que ele e Juliano nutrem pelo chamado cinema de gênero. Em sua passagem pelo Festival de Cinema de Gramado, o diretor, por outro lado, salientou que refuta a ideia de usar referências como estandarte de um filme e que, apesar das críticas iniciais em Cannes terem gerado uma série de leituras em cima disso, ele dispensa a necessidade de ter que explicá-las ou iluminá-las. Nada mais justo, principalmente se tratando de um filme de difícil classificação e que precisa ser consumido pelo espectador com o mínimo possível de informações, de forma que cada um o preencha a partir de seu próprio repertório cinéfilo.

Como o próprio título já sugere, Bacurau é um longa sobre esse lugar específico e, por isso mesmo, é natural que Kleber e Juliano tenham tomado a decisão de não definir um protagonista específico para a trama. O coletivo é a força-motriz do longa, e a construção dos personagens é um mérito à parte: o roteiro consegue nos apresentar cada um dos moradores do local sem pressa ou atropelo, além de atribuir a eles características e personalidades pontuais de maneira orgânica. “Quem nasce em Bacurau é o quê”, pergunta um forasteiro a certo ponto, recebendo uma resposta curta e simbólica: “É gente!”. Tal momento retoma o posicionamento do filme de colocar diversos rostos do Brasil na tela, compondo um mosaico de personagens interessantíssimos e de bons atores, onde até mesmo uma musa como Sonia Braga abraça com ferocidade um papel tão “pequeno” quanto o dos seus demais colegas.

Saindo das fronteiras que passamos a conhecer desse lugar chamado Bacurau, temos também um outro núcleo, encabeçado pelo ator alemão Udo Kier. Nele, o desenvolvimento dos personagens e das atuações soa mais artificial. Pode ser que essa seja uma escolha consciente de Bacurau: a de fazer dos estrangeiros figuras mais caricatas e de pouca identificação, algo que, entretanto, não diminui a ligeira frustração com o distanciamento que temos com as motivações (ou ao menos o mistério) daqueles personagens. Também são um tanto diluídos os discursos reiterativos que Bacurau toma em seu terço final, sublinhando muitos pontos sobre a vilania ou sobre o desdobramento de certas figuras que, de um modo ou de outro, já estavam claros até ali. 

Em comparação aos outros dois longas assinados por Kleber, Bacurau é mais específico do que O Som ao Redor e Aquarius, mas isso não é motivo para alarde ou depreciação: ao longo de muitos anos o cineasta vem gestando esse projeto assumidamente de gênero com Juliano Dornelles e não aceitá-lo como tal é perder boa parte de sua essência e de tudo aquilo que a dupla diz com tanta propriedade. Em uma cidade fictícia onde a figura mais querida do local “gerou michê e puta, mas nenhum ladrão” e onde as pessoas buscam refúgio em escolas e museus para enfrentar ameaças mortais, Kleber e Juliano caminham por essa linha hoje tão tênue entre a ficção e a realidade para entregar o tipo de catarse que pode muito bem nos dar algum tipo de fôlego em meio à loucura e ao ódio que logo voltam a cair sobre as nossas cabeças quando voltamos à vida real após a sessão. 

Rapidamente: “Dumbo”, “Se a Rua Beale Falasse”, “Vice” e “WiFi Ralph”

Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James): uma paixão interrompida pelo destino e pela intolerância, contada com grande apuro sensorial pelo diretor Barry Jenkins em Se a Rua Beale Falasse.

DUMBO (idem, 2019, de Tim Burton): Há muitos anos já falta calibragem na filmografia de Tim Burton, cineasta que, muito provavelmente, não realiza um trabalho live action interessante desde o musical Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, lançado em 2008. E Dumbo, por melhor que seja em comparação a filmes desastrosos como Sombras da Noite e Alice no País das Maravilhas, também padece da falta de inspiração de um diretor outrora icônico e hoje incapaz de assinalar qualquer retorno a uma era de ouro marcada por títulos como Edward Mãos-de-Tesoura, A Lenda do Cavaleiro Sem CabeçasPeixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas. Bastante amarrado no formato imposto pela Disney para produções live action baseadas em animações clássicas com o selo do estúdio, Burton cria um elefantinho incrivelmente real e empático (é fácil se comover com o pequeno animal e torcer por ele), mas os personagens humanos são monótonos, especialmente o vilão vivido por Michael Keaton, que segue todo o previsível arco do homem rico e ganancioso que corromperá os negócios de humildades profissionais em um circo decadente. Podemos prever cada passo do filme, que, sem frescor, peca, inclusive, por dar pouca atenção a uma perspectiva que poderia trazer fascínio e afeto ao longa: a do animal indefeso e desarmado que colide com um mundo cruel tão precocemente. Mais uma vez, ainda estamos por ver um novo trabalho de Tim Burton à altura da grife que seu nome um dia foi.

SE A RUA BEALE FALASSE (If Beale Street Could Talk, 2018, de Barry Jenkins): O Oscar de melhor atriz coadjuvante recebido pela grande Regina King não foi o suficiente para impulsionar a distribuição de Se a Rua Bela Falasse no Brasil. Aliás, é curioso como nem mesmo a assinatura de Barry Jenkins, que recebeu o prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood em 2017 com Moonlight: Sob a Luz do Luar, garantiu, inclusive nos Estados Unidos, a devida valorização desse filme tão belo, sutil e humano. Baseado no romance homônimo de James Baldwin, Se a Rua Beale Falasse seria um enjoativo melodrama caso fosse comandado por um diretor menos sensível e virtuoso do que Barry Jenkins, que novamente apresenta um esmero técnico fascinante, um raro apuro sensorial e um admirável cuidado com abordagens que escapam de estereótipos. O amor é puro e verdadeiro no longa, mas jamais tolo ou ingênuo; o preconceito é capaz de causar traumas e separações, mas se torna, na medida do possível, um tantinho menos doloroso com as pessoas certas ao nosso lado; e a vida pode nos testar das mais diversas maneiras, mas é possível enfrentá-la com certa garra quando existe um propósito, por menor que ele possa aparecer. Jenkins conduz a história com total propriedade técnica e temática, discutindo uma série de questões íntimas e sociais que, embaladas por uma trilha inebriante de Nicholas Britell e uma lindíssima fotografia de James Laxton, só poderiam ser contadas dessa maneira por ele.

VICE (idem, 2018, de Adam McKay): Quando passou a ser levado a sério com A Grande Aposta, longa de 2015 que chegou a lhe render um Oscar de melhor roteiro original, o diretor Adam McKay deve ter se atentado para uma fórmula que volta a ser reproduzida em Vice. Em ambos os títulos, temos assuntos difíceis, por vezes desinteressantes, que ganham nova roupagem com um humor ágil e crítico. Talvez a leitura cômica não seja o suficiente para prospectar os espectadores pouco inclinados a criar alguma conexão com o filme, mas é uma ferramenta interessante para não contemplar temas tão específicos de maneira óbvia. Mais uma vez autor do roteiro, McKay aborda, em Vice, a história de Dick Chaney (Christian Bale), ex-vice-presidente da administração George W. Bush que acumulou imenso poder nos bastidores da política estadunidense. Para os afeitos ao tema, é um prato cheio: detalhista, brinca com o cenário político norte-americano sob a perspectiva de um personagem curioso e que dificilmente ganharia as telas como protagonista absoluta. É importante você saber se faz parte desse grupo porque Vice funciona melhor quando conferido de peito aberto, sendo apreciado por aspectos que se sobressaem na experiência, como o ótimo trabalho de elenco, que traz Christian Bale em mais uma transformação impressionante, Amy Adams equilibrando com esperteza um papel menos óbvio do que o esperado e Sam Rockwell imitando George W. Bush à perfeição. Como uma variação do que já foi visto em A Grande ApostaVice se repete, mas, ao mesmo tempo, preserva vários elementos que deram certo no filme anterior.

WIFI RALPH: QUEBRANDO A INTERNET (Ralph Breaks the Internet, 2018, de Phil Johnston e Rich Moore): Transferindo as referências do universo dos games para a era da internet, WiFi Ralph é a continuação do adorável Detona Ralph, de 2012. Como entusiasta do primeiro filme, conferi a sequência com certo receio, e fui surpreendido positivamente, inclusive pelo ponto de vista emocional: em meio a tantas brincadeiras envolvendo ferramentas, plataformas e memes da internet, o filme de Phil Johnston e Rich Moore decide falar sobre como amizades podem se tornar tão tóxicas quanto romances abusivos, onde uma das partes passa a depositar na outra toda a responsabilidade de suprir desejos, vontades e vaidades sem perceber que interações humanas são feitas de trocas e não de monólogos. Dessa maneira, WiFi Ralph é mais adulto do que seu humor internetês sugere, eliminando qualquer possibilidade de ser uma mera versão gourmet de Emoji: O Filme. Pelo contrário, é até corajoso como o longa abre margem para interpretarmos seu protagonista até mesmo como um vilão dentro do contexto emotivo da história. WiFi Ralph é o tipo de continuação que se justifica, mesmo que boa parte da fórmula cômica se apoie na mesma estruturação do filme anterior e corra o risco de soar datada daqui alguns anos visto as referências do mundo online que, sabemos, muda da água para o vinho com uma velocidade assustadoramente rápida nos dias de hoje. Apesar disso, o coração dessa animação bate expressivamente, e suas mensagens funcionam tanto para as crianças quanto para os adultos.

“Dor e Glória”: Almodóvar recorre à “autoficção” para abandonar a sua recente estagnação criativa

Direção: Pedro Almodóvar

Roteiro: Pedro Almodóvar

Elenco: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Leonardo Sbaraglia, Asier Etxeandia, Julieta Serrano, Cecilia Roth, Nora Navas, Pedro Casablanc, Raúl Arévalo, César Vicente, Susi Sánchez

Dolor Y Gloria, Espanha, 2019, Drama, 113 minutos

Sinopse: Salvador Mallo (Antonio Banderas) é um melancólico cineasta em declínio que se vê obrigado a pensar sobre as escolhas que fez na vida quando seu passado retorna. Entre lembranças e reencontros, ele reflete sobre sua infância na década de 1960, seu processo de imigração para a Espanha, seu primeiro amor maduro e sua relação com a escrita e com o cinema. (Adoro Cinema)

É algo que nós fazemos com frequência, mas que deveria ser banido de qualquer comportamento cinéfilo porque se revela tão injusto quanto contraprodutivo: analisar cada novo filme de um diretor a partir daquilo que um dia ele já fez de melhor. O dano é duplo, uma vez que isso impulsiona a possibilidade do espectador se decepcionar e abre margem para cineastas se tornarem reféns de um determinado status que eles podem não alcançar novamente. Nos últimos anos, entre Abraços Partidos, Os Amantes PassageirosJulieta, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar foi vítima dessa pressão, mergulhando em uma crise artística que chegou a diluir sua marcante identidade como realizador. Excetuando A Pele Que Habito, drama excepcional e disruptivo concebido nesse meio tempo, a trajetória recente do espanhol trazia um brilhante diretor andando em círculos e preso à tentativa de emular elementos que ele mesmo consagrou em Tudo Sobre Minha Mãe, Fale Com Ela e Volver, três de suas obras mais (re)conhecidas desde o final dos anos 1990.

E, então, chegamos a Dor e Glória, um projeto que, ironicamente, só poderia ser realizado por esse Almodóvar que tropeçou e aproveitou a oportunidade para repensar o que não deu certo até aqui. Não é palpite: em entrevista à revista Variety, o diretor assumiu que Dor e Glória marca o início de uma nova fase da sua carreira. As cores e os melodramas (não no sentido pejorativo) seguem em voga, agora para moldar uma narrativa mais contida, o que não deixa de ser um desafio para um realizador sempre tão vibrante em forma e conteúdo. Para tanto, ele não abandona suas bagagens pessoais e as traz mais uma vez para a fibra emocional de Dor e Glória. Entretanto, não se trata necessariamente de uma autobiografia. Seria mais justo usar um termo mencionado pelo próprio filme: “autoficção”, no sentido de que muitos dos sentimentos e momentos vividos pelo protagonista são semelhantes a vários que o próprio Almodóvar viveu. A diferença é que, para fins cinematográficos, tais sentimentos e momentos são adaptados conforme as necessidades dramáticas da história e de seu protagonista. É uma tônica fascinante para um longa tão meticuloso e trabalhado em detalhes.

Dor e Glória apresenta um diretor renascido e sem qualquer intenção de conscientemente imprimir sua digital na tela, equívoco que afundou Julieta, onde Almodóvar parecia não compreender as reais necessidades de um longa que precisava preservar toda a delicadeza de uma escritora como Alice Munro, cujos contos davam origem à trama. Mais contido, Dor e Glória lança um olhar sobre a fadiga física e emocional do envelhecimento. O protagonista, um diretor de cinema que já não filma mais porque está soterrado por dores na coluna, abre muitas discussões e reflexões sobre essa fase da vida que coloca a nossa existência sob uma perspectiva bastante diferente, onde renascimento e desistência parecem sempre faces de uma mesma moeda. Antonio Banderas, que nunca foi um ator excepcional seja em inglês ou espanhol, recebeu um merecido prêmio de melhor ator no Festival de Cannes por incorporar, com humanidade e sobriedade, o tumulto interior desse homem que não sabe muito bem para onde ir e que, por obra do destino, revisita sua vida profissional e pessoal para finalmente entender se ainda consegue ver alguma beleza no ato de seguir em frente. É o tipo de desempenho que marca uma carreira.

Utilizando-se do cinema e pontualmente do teatro para reacender queridas e dolorosas memórias de seu personagem principal, o filme traz o DNA de Almodóvar com extrema organicidade: a influência materna, a descoberta da homossexualidade, os amores que marcam uma vida e os conflitos artísticos estão na tela com toda paixão que é habitual ao diretor. Nessa mistura, há economia e sinceridade para fazer com que, por exemplo, uma coadjuvante como Penélope Cruz surja iluminada a cada cena ou para que uma breve sequência entre Banderas e o galã argentino Leonardo Sbaraglia remonte, a partir de uma mera noite de conversa entre os dois, uma gama de histórias e sentimentos que marcaram todo um universo particular. Simplíssimo (e, por isso mesmo, tão assertivo), Dor e Glória termina com uma pequena grande revelação que é ao mesmo tempo inteligente, afetiva e simbólica. Ela aponta para a ideia de que, talvez pela primeira vez em sua trajetória recente, Almodóvar esteja finalmente em sintonia com ele mesmo. A preocupação não está mais em imitar uma era de ouro e sim em seguir a sua própria intuição, sem compromisso com qualquer expectativa. Não sei quanto a vocês, mas acredito que é dessa lógica que saem as experiências cinematográficas mais interessantes.

“Turma da Mônica: Laços” é a adaptação live action que o público tanto merecia

Tem coisa mais chata do que ser normal?

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Thiago Dottori, baseado na obra de Mauricio de Sousa e inspirado na graphic novel “Laços”, de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi

Elenco: Kevin Vechiatto, Giulia Benite, Gabriel Moreira, Laura Rauseo, Paulo Vilhena, Monica Iozzi, Fafá Rennó, Ravel Cabral, Rodrigo Santoro

Brasil, 2019, Aventura, 97 minutos

Sinopse: Floquinho, o cachorro do Cebolinha (Kevin Vechiatto), desapareceu. O menino desenvolve então um plano infalível para resgatar o cãozinho, mas para isso vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos Mônica (Giulia Benite), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira). Juntos, eles irão enfrentar grandes desafios e viver aventuras para levar o cão de volta para casa.  

A Disney vem tentando desde os anos 1990, mas é o Brasil que agora mostra como se faz: com imensa graça, carisma e nostalgia, Turma da Mônica: Laços chega às salas de cinema ostentando, com folga, o título de melhor adaptação live action de um universo consagrado no plano dos quadrinhos infantis e das animações. Desde 1994, quando lançou 101 Dálmatas até mais recentemente com DumboAladdin e um estratégico calendário de dominação mundial, a Disney produziu diversas adaptações com pessoas em carne e osso que, no máximo, poderiam ser encaradas como uma boa diversão. Raríssimos foram os títulos do estúdio que deixaram de ser uma mera cópia da animação original para reverenciar o material de origem com qualidades próprias (A Bela e a Fera dividiu opiniões, mas, por se assumir orgulhosamente como musical, ganhou de todas as outras adaptações em autenticidade). Pois Turma da Mônica: Laços, que celebra os icônicos personagens da obra de Mauricio de Sousa a partir da graphic novel de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi, faz tudo isso e mais um pouco, encantando adultos e crianças com a mesma facilidade.

Elogiado em 2017 por sua enérgica estreia como diretor em Bingo – O Rei das Manhãs, Daniel Rezende, antes montador de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta, Tropa de Elite e A Árvore da Vida, segue despontando como um dos realizadores mais interessantes dos últimos anos. Sua versatilidade é tão notável quanto revigorante: se o álcool, as drogas e o politicamente incorreto compuseram o centro cômico e dramático de Bingo, a inocência, a delicadeza e a nostalgia tomam conta de Turma da Mônica: Laços com grande frescor cinematográfico. Para início de conversa, há de se celebrar a bela homenagem que o filme faz a uma infância que não existe mais, com personagens que correm pelas ruas, andam de bicicleta, visitam uns aos outros e conhecem até o dono da única banca de revistas da vizinhança. Tudo isso é simplesmente impensável nos dias de hoje, quando a infância passou a ter outras atribuições. E, ao encenar uma aventura a partir dessa perspectiva, Turma da Mônica: Laços brilha, sem parecer antiquado ou fake: tanta inocência termina por reforçar todo o caráter saudoso e afetuoso de um universo desenvolvido com incansável criatividade por Mauricio de Sousa desde os anos 1960.

Reconstituído com uma parte técnica por vezes surpreendente (entre outros aspectos, não é sempre que o cinema brasileiro mais “comercial” consegue usar tão bem uma trilha sonora instrumental como aqui), o Bairro do Limoeiro, vizanhança onde vivem Mônica (Giulia Benite), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Cascão (Gabriel Moreira) e Magali (Laura Rauseo), pode parecer limpo e perfeitinho demais, sensação que se dissipa na medida em que adentramos a vida dos personagens e compreendemos o tipo de homenagem que o filme presta a tempos que deixam saudades. A pegada lúdica de Turma da Mônica: Laços tem origem no próprio roteiro, que não se preocupa em desenvolver aventuras mirabolantes, reflexões profundas ou plot twists para uma história de mistério. Na verdade, a simplicidade da história é cristalina, ainda que isso, em determinado momento, custe alguns pontos ao filme: o terceiro ato é a parcela menos interessante da trama justamente porque busca criar maior suspense e expectativa pela resolução do conflito envolvendo um resgate.

Para chegar ao quarteto de atores mirins que dá vida a personagens amados por incontáveis gerações, Turma da Mônica: Laços realizou aproximadamente dois mil testes em dez cidades brasileiras. A criteriosa seleção resultou em um acerto dos mais preciosos: tanto os atores selecionados são uma simpatia só quanto demonstram ser realmente bons intérpretes. Essa combinação é importante porque o roteiro de Thiago Dottori exige mais do que somente crianças carismáticas em cena. Além de incorporar as características que eternizaram seus respectivos personagens, os atores precisam abraçar certos desafios dramáticos quando o filme, também ciente da esperteza de seu público, coloca Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão em conflito com suas próprias diferenças. Turma da Mônica: Laços mostra que conviver não é fácil, mesmo com as nossas pessoas favoritas, mas que são justamente essas relações que nos salvam de muita coisa no mundo. Entre a celebração da obra de Mauricio de Sousa e a preocupação em realizar um longa com vida própria, Daniel Rezende acerta triplamente, entregando uma excelente adaptação live action, uma divertida aventura para os pequenos e uma sessão que também será aproveitada pelos adultos. Turma da Mônica: Laços é, enfim, uma experiência para guardar no coração.