Bingo – O Rei das Manhãs

Você só pensa em pequenos prazeres.

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Luiz Bolognesi

Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Ana Lucia Torre, Cauã Martins, Augusto Madeira, Tainá Müller, Emanuelle Araújo, Soren Hellerup, Pedro Bial, Raul Barreto, Domingos Montagner, Ricardo Ciciliano

Brasil, 2017, Drama/Comédia, 113 minutos

Sinopse: Cinebiografia de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo no programa matinal homônimo exibido pelo SBT durante a década de 1980. Barreto alcançou a fama graças ao personagem, apesar de jamais ser reconhecido pelas pessoas por sempre estar fantasiado. Esta frustração o levou a se envolver com drogas, chegando a utilizar cocaína e crack nos bastidores do programa. (Adoro Cinema)

Quantas cinebiografias realmente se livraram das amarras do gênero – ou pelo menos as deixaram em segundo plano – para abraçar de forma livre e autêntica a verdadeira essência de seu respectivo biografado? Não foram poucas, mas sim pouquíssimas. Do que adianta atravessar décadas, centenas de acontecimentos e um punhado de músicas se, por exemplo, Elis não conseguia traduzir na tela a personalidade avassaladora da mítica Elis Regina? Idem para A Dama de Ferro, que, refém desse mesmo defeito, ignorava as controvérsias envolvendo a britânica Margaret Thatcher com o objetivo de humanizá-la, como se não fosse possível tornar complexa uma figura a partir de suas próprias contradições. Não é necessariamente questão de formato, já que Cazuza – O Tempo Não Para percorre, de forma linear, dezenas de anos sem nunca soar datado ou inexpressivo, o que é reflexo de um projeto que compreende a importância de contemplar todo comportamento e temperamento de um personagem icônico. Mais um longa que comprova essa tese é o recente Bingo – O Rei das Manhãs, que, além de ter sido escolhido para representar o Brasil em uma possível vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro, contribui para a linda carreira de filmes imperdíveis que o cinema brasileiro vem apresentando este ano (Corpo ElétricoAs Duas IrenesComo Nossos Pais).

Primeiro filme de Daniel Rezende como diretor (ele ficou mundialmente conhecido por assinar a montagem de longas como Cidade de DeusDiários de MotocicletaEnsaio Sobre a Cegueira A Árvore da Vida), Bingo incorpora a malandragem, o talento, a ambição e o carisma de Arlindo Barreto, que interpretava anonimamente o inesquecível palhaço Bozo, aqui chamado de Bingo, sucesso estrondoso na tela do SBT durante os anos 1980. Rezende conduz o filme com um ritmo invejável, subsidiado pela excelente mistura entre drama e comédia do roteiro escrito por Luiz Bolognesi, que não tem medo de abraçar toda a subversão tão característica de Bozo, personagem que não tinha papas na língua para tentar conquistar a aprovação e posteriormente o afeto da religiosa diretora do programa e que mudava, ao vivo e sem aprovação, o roteiro da atração simplesmente por não concordar com as orientações exibidas no teleprompter. No meio disso tudo, coloque algumas carreiras de cocaína, muito whisky e palavrões, mas também uma relação carinhosíssima do protagonista com o filho e a mãe, a vontade de vencer na vida apesar das recusas profissionais e, claro, o inegável talento de um homem que ficou nacionalmente famoso sem sequer mostrar o rosto de verdade (o contrato não permitia que Arlindo revelasse sua identidade enquanto interpretasse o palhaço).

Mesmo que o roteiro do experiente Bolognesi, atualmente também em cartaz com Como Nossos Pais, diminua consideravelmente a marcha em um terço final que se entrega às convencionalidades do gênero com o clássico arco envolvendo todas as etapas de ascensão e queda de uma celebridade, Bingo chega lá já tendo conquistado o espectador com seu personagem e principalmente com a sua personalidade, tornando fácil o processo de relevar a conclusão apressada e abreviada. Afinal, o que ficará mesmo com o espectador é a diversão proporcionada por um filme que alcança momentos extasiantes, como quando introduz a cantora Gretchen (Emanuelle Araújo) com a famosa Conga, La Conga, e que proporciona ao carismático e desenvolto Vladmir Brichta, em ótima parceria com Leandra Leal, o melhor desempenho de sua prolífera carreira no cinema até aqui. Abraçando seu protagonista de corpo e alma, Bingo se torna especial por lembrar que o melhor cinema é realmente aquele que confia em seu espectador, sem redimensionar histórias ou omitir fatos para se tornar, digamos, mais palatável. Em termos de cinebiografias, se todas realizadas por aqui seguissem o exemplo, nosso padrão realmente seria outro.

Um comentário em “Bingo – O Rei das Manhãs

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