“Parasita”: fascinante mistura de gêneros ilustra questões sociais marcantes dos nossos tempos

Direção: Bong Joon-ho
Roteiro: Bong Joon-ho e Han Jin Won
Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Ji-so Jung, Ji-hye Lee, JaeWook Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park, Keun-rok Park
Gisaengchung, Coréia do Sul, 2019, Drama/Comédia/Suspense, 132 minutos
Sinopse: Toda a família de Ki-taek está desempregada, vivendo num porão sujo e apertado. Uma obra do acaso faz com que o filho adolescente da família comece a dar aulas de inglês à garota de uma família rica. Fascinados com a vida luxuosa destas pessoas, pai, mãe, filho e filha bolam um plano para se infiltrarem também na família burguesa, um a um. No entanto, os segredos e mentiras necessários à ascensão social custarão caro a todos. (Adoro Cinema)

A possibilidade de viajar o mundo é um dos maiores fascínios proporcionados pelos filmes que assistimos. Navegando por obras de diversas nacionalidades, podemos desbravar novas culturas, conhecer diferentes linguagens e descobrir a maneira como cada lugar registra, através do cinema, a sua própria existência. Tão maravilhoso quanto isso é perceber como, uma vez que outra, apesar dos idiomas, dos quilômetros e das vivências que nos separam, compartilhamos muitas coisas, até mesmo angústias e conflitos. Nesse sentido, poucas ferramentas conseguem ser tão poderosas quanto a sétima arte, algo que é possível constatar em uma involuntária quadrilogia de filmes recentes que, em língua não-inglesa, evidencia problemas equivalentes em diversos cantos do mundo, como as brutais diferenças entre classes, a reivindicação por algum tipo de humanidade e as dores dos desassistidos pela vida, pela sociedade e pelos governantes.
Vem do Brasil, aliás, um dos exemplares dessa quadrilogia tão representativa: Bacurau, que levou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes e versa sobre uma cidade nordestina diante da ameaça de sumir do mapa. Antes disso, o Japão e o Líbano nos entregaram, respectivamente, Assunto de Família e Cafarnaum, dois longas que, entre a delicadeza e a visceralidade, lançaram luz sobre a duríssima jornada de pessoas sem perspectivas de vida. E, agora, chegamos ao impactante Parasita, da Coreia do Sul, que ganhou a Palma de Ouro do último Festival de Cannes em uma escolha unânime do júri presidido pelo cineasta Alejandro González-Iñárritu. Acumulando elogios por onde passa, tornando-se, inclusive, um grande sucesso de público nos Estados Unidos, onde obras de língua não-inglesa raramente performam com certa popularidade, Parasita ostenta um consenso justíssimo ao observar as disparidades no convívio entre famílias de classes distintas, saltando de um gênero a outro com maestria e elevando a já reconhecida carreira de Bong Joon-Ho (Mother, O Hospedeiro, Okja, Expresso do Amanhã) a um novo (e emblemático) patamar de excelência.
São claras e inteligentes as fronteiras de gênero entrelaçadas por Parasita. Desconhecendo a trama, é possível supor que, a partir do primeiro terço, trata-se de uma curiosa e instigante comédia. Passada a apresentação dos personagens e a conclusão do conflito inicial, Bong Joon-ho, que assina o roteiro ao lado de Han Jin Won, leva o espectador para um eufórico suspense de becos aparentemente sem saída. Por fim, o ciclo se completa com um peso dramático que ressignifica a comédia e o suspense trabalhados até ali. O caldeirão de gêneros apresentado em Parasita funciona porque Bong Joon-ho, claro, é um expert nessa mistura (para quem ainda não conferiu qualquer outro filme assinado por ele, vale a busca para constatar tal talento), e o diretor se esbalda em cada abordagem: a comédia é esperta e apropriada para a fase introdutória do filme, o suspense não é nada óbvio e consegue promover uma grande virada na trama, e o drama amarra todas as pontas com um misto de delicadeza e profundidade. Tudo sem fazer com que Parasita pareça ter vários filmes dentro de um.
A matéria-prima para qualquer um dos gêneros trabalhados por Bon Joon-ho é, sem dúvida, a contemporânea sequência de reflexões sociais que atravessa o filme do início ao fim. Interpretando a família pobre como animais que precisam se esconder ou ser exterminados (a casa sendo dedetizada logo no início, a família embaixo da mesa da sala, a forma como a mãe fala que todos devem se esconder como baratas quando a família rica chegar), Parasita ilustra contrastes sociais com um roteiro impecável. Toda ação tem uma consequência, cada detalhe ganha um significado posterior e até mesmo algumas das revelações da trama são plantadas muito discretamente entre um diálogo e outro, sem que o espectador perceba. E não é pouca coisa, uma vez que temos quase uma dezena de personagens interagindo em um mesmo ambiente, o que gera um considerável número de dinâmicas diferentes.
A imensa casa onde a ação do longa se desdobra é também um personagem à parte. Tanto o casarão pode representar a ascensão financeira e social que uma família pobre tanto almeja quanto pode ser desprovida de qualquer idealização material para se tornar o secreto reduto de uma dolorosa distância familiar. Bong Joon-ho distribui acontecimentos e personagens por uma quantidade infinita quantidade de cômodos com um elegante trabalho de mise-en-scène que define praticamente toda a ação do filme, assim como o comportamento e as decisões tomadas pelos personagens (vale também registrar, claro, o excepcional trabalho de elenco, onde há unidade e destaques pontuais). Com cada elemento orquestrado no devido esmero, Parasita agrega as mais distintas plateias, tornando-se grandioso no detalhe, e hiper relevante em tudo aquilo que, assim como tantos outros filmes recentes, acaba registrando sobre cicatrizes sociais e universais.
“A Vida Invisível”: refinado melodrama de Karim Aïnouz traz uma perspectiva íntima e feminina para a labiríntica jornada de duas irmãs
Você não sabe a falta que você me faz…

Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Inés Bortagaray, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, baseado no romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha
Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, Gregório Duvivier, Maria Manoella, António Fonseca, Nikolas Antunes, Fernanda Montenegro, Gillray Coutinho, Cristina Pereira, Bárbara Santos
Brasil/Alemanha, 2019, Drama, 139 minutos
Sinopse: Rio de Janeiro, década de 1940. Eurídice (Carol Duarte) é uma jovem talentosa, mas bastante introvertida. Guida (Julia Stockler) é sua irmã mais velha, e o oposto de seu temperamento em relação ao convívio social. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal, o que faz com que trilhem caminhos distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento sem amor com Antenor (Gregório Duvivier). (Adoro Cinema)

Em vários materiais promocionais, A Vida Invisível se define como “um melodrama tropical de Karim Aïnouz”. É sensacional que a obra se (re)conheça de tal maneira e que já deixe muito claro para o espectador qual a tônica trabalhada na tela, pois os conflitos são desfiados a partir de situações muito clássicas, quase novelescas, o que pode ser interpretado de maneira pejorativa porque quem prima pela criatividade e não vê beleza na simplicidade. Criar um melodrama consistente e de elementos refinados é um trabalho dificílimo que o cineasta Karim Aïnouz, munido de toda a experiência acumulada em projetos como Madame Satã, O Céu de Suely e Praia do Futuro, domina com destreza. Através dessa perspectiva, A Vida Invisível se apresenta como uma obra delicada e universal que, marcada pela passagem do tempo, conduz o espectador a um labirinto de desencontros entre duas irmãs no Rio de Janeiro dos anos 1940.
Grande vencedor da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2019, o longa tem como núcleo dramático a relação entre personagens de personalidades muito distintas. Eurídice (Carol Duarte) é uma aspirante a pianista que, retraída, segue as regras da família e das tradições da época, tentando encontrar algum propósito de vida em meio a tantas repressões. Já Guida (Julia Stockler), a irmã mais velha, busca a autorrealização fazendo o que quer, mesmo que isso lhe custe a relação com a família e especialmente com o pai, um padeiro português que comanda as mulheres de sua vida (incluindo a esposa) com as doses de machismo e autoritarismo tão comuns à época. De tudo isso, A Vida Invisível poderia extrair uma linguagem televisiva e previsível, mas o roteiro escrito por Inés Bortagaray, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, com base no romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, deixa de lado a afetação para buscar a sutileza.
Um exemplo desse acerto é o emocionante ponto de equilíbrio que o filme encontra ao lidar com a questão da passagem do tempo. Narrando paralelamente a vida das duas irmãs, a história envolve o espectador com reflexões inerentes a todos nós, como as relações que não remendamos, as palavras que não dizemos, as oportunidades que nos são tiradas, os erros que não consertamos e como, inevitavelmente, o tempo passa e acaba nos cobrando tudo isso. Karim, que sempre foi um diretor de relatos difíceis, talvez pela primeira vez se veja na posição de encontrar o belo em personagens e situações mais “comuns”. E o faz inspirado pela delicadeza: com duas excelentes protagonistas em cena e um Rio de Janeiro que está longe de flertar com sua versão cartão-postal, o diretor promove uma viagem muito íntima, feminina e familiar rumo a sentimentos e circunstâncias que não são extraordinários, mas que são palpáveis a todo ser humano.
A odisseia intimista de A Vida Invisível ganha brilho extra ao abordar tão bem o universo feminino e ao questionar as condições da mulher na sociedade. Tanto Eurídice quanto Guida buscam o domínio de seus próprios destinos ou pelo menos de alguma parcela daquilo que pode trazer alguma felicidade, mesmo enfrentando figuras masculinas que, no filme, são propositalmente caricatas — e a comédia é sempre uma excelente ferramenta para tecer críticas ou ridicularizar determinadas leituras, como acontece com o patético marido de Eurídice, vivido por Gregório Duvivier. Como um retrato específico, mas também muito amplo das angústias femininas, A Vida Invisível é um refinado melodrama que faz bonito com as mais simples ferramentas do cinema, e ainda nos brinda com uma comovente participação de Fernanda Montenegro, que, como sempre, preenche a tela apenas com um gesto ou olhar. Não há como duvidar: apesar das adversidades, a nossa produção audiovisual tem realmente vivido tempos preciosos.
“Greta”: com grande interpretação de Marco Nanini, longa investiga as complexas intimidades de um personagem gay na terceira idade
A felicidade nem sempre é divertida.

Direção: Armando Praça
Roteiro: Armando Praça, baseado no espetáculo “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá”, de Fernando Mello
Elenco: Marco Nanini, Démick Lopes, Denise Weinberg, Gretta Sttar
Brasil, 2019, Drama, 97 minutos
Sinopse: Pedro (Marco Nanini) é um enfermeiro de 70 anos que trabalha em um hospital público de Fortaleza. Sua melhor amiga é Daniela (Denise Weinberg), artista transexual que enfrenta graves problemas de saúde. Quando ela precisa ser internada, mas não encontra leito disponível, Pedro sequestra um paciente recém-chegado, Jean (Démick Lopes), e o abriga em sua casa. Inicialmente, o enfermeiro tem medo do rapaz agressivo, que se esconde da polícia por ter assassinado um homem a facadas. Depois, nasce entre eles uma relação de cumplicidade e afeto. (Adoro Cinema)

Lançado pela primeira vez como um espetáculo teatral em 1974, o texto Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá era uma comédia escrachada que fazia o público rir de personagens cujas tragédias carregavam um quê de mediocridade. Cerca de 35 anos depois, mais especificamente em 2008, a situação mudou de cenário quando o diretor Armando Praça entrou em contato com o trabalho do dramaturgo Fernando Mello: em tempos mais livres, democráticos e tolerantes, Praça, decidido a realizar seu primeiro longa-metragem, já não via mais lugar para que a história de Pedro, um enfermeiro homossexual de 70 anos apaixonado por um criminoso, fosse motivo de risada. Não que exista algo de errado com o gênero da comédia, que pode sim ser poderoso em inúmeras leituras e circunstâncias, mas, para ele, o caso era diferente: as piadas envolvendo a encenação do texto haviam envelhecido mal, tornando urgente a necessidade de uma releitura para uma história tão íntima. O que importava para o diretor era que o protagonista fosse enfim visto como um homossexual repleto de facetas e que busca ser reconhecido como… um ser humano.
De comédia teatral a drama cinematográfico, o texto, agora com o título abreviado de Greta, ganha uma perspectiva bastante realista ao narrar os anseios de Pedro, um homem imerso em solidão e invisível perante a sociedade. Por si só, o retrato já é raro: além de mostrar um personagem na terceira idade com as devidas complexidades e transformações, Greta discute o tabu da homossexualidade na velhice, fase da vida em que muitos gays voltam ao armário para escapar de uma nova rodada de preconceitos e cobranças impostas pela sociedade. A situação é ainda mais delicada, uma vez que ele, um trabalhador de classe média baixa apaixonado pela atriz Greta Garbo, está imerso em solidão e invisibilidade (sua única amiga é uma transexual que passa por sérios problemas de saúde). A partir desse isolamento social que, por tabela, é responsável por reprimir muitos dos seus desejos ainda pulsantes, Pedro tem relações sexuais tortas e tortuosas em saunas da cidade e até mesmo com alguns de seus pacientes, o que rompe qualquer traço ético que ele deveria estabelecer com uma profissão que, nessa altura da vida, exerce sem motivação alguma.
Ambientado em pouquíssimos cenários e com um número de coadjuvantes que não enchem uma mão, Greta bebe, inevitavelmente, de sua origem teatral ao fazer tanto com tão pouco. O olhar que lança para a vida de seu protagonista é desesperançoso, inclusive porque o único feixe de luz na vida de Pedro está na paixão impossível com um fugitivo da polícia que ele conhece no hospital e passa a abrigar na sua própria casa. Não há moralismo ou o mínimo resquício de pudor em Greta: ao passo que Marco Nanini se despe de qualquer vaidade em um papel que já foi do saudoso Raul Cortez nos palcos, o filme em si não alivia para o espectador, adotando uma fotografia de poucas cores e planos fechados para despertar uma sensação de claustrofobia, antes já ensaiada pela quantidade limitada de cenários (vale notar como o apartamento do protagonista é um aperto e como a câmera insiste, de forma acertada, em se aproximar dos personagens mesmo em ambientes onde eles próprios parecem não caber).
Greta não comete o erro de fazer de seu protagonista uma figura palatável. Pedro erra (com convicção) e frequentemente toma atitudes questionáveis. Ele também se entrega a relações mesmo sabendo que elas estão fadadas a incontáveis problemas, não procura justificar a substituição do seu vazio emocional por sexo casual (muitas vezes, aliás, em condições deprimentes) e parece não ter filtro para distinguir até que ponto de fato está fazendo o que bem entende ou se está apenas se humilhando. Há um ar patético, talvez preservado da origem teatral, e uma decadência inerente ao personagem que Marco Nanini captura com profundidade e sem nenhuma maquiagem, em uma entrega impressionante. Com o vasto repertório acumulado como um intérprete capaz de transitar com facilidade entre o drama e a comédia, Nanini brilha em cena, mais ainda quando navega pelo descontrole emocional de um homem que talvez já não saiba mais quantos traumas consegue aguentar antes de enlouquecer de vez (ou de enfim retomar forças para se reconstruir).
É importante entrar no universo particular de Greta sem cobrar certas verossimilhanças. Não há muita explicação, por exemplo, para o fato da polícia jamais procurar Pedro ou visitar sua casa para saber sobre o paradeiro do criminoso que ajudou a escapar do hospital e por quem se apaixonou. As evidências são claríssimas, mas o filme não se preocupa muito com essa lacuna, o que contribui para para o esvaziamento dessa situação impossível, onde o protagonista se relaciona com um homem acusado de homicídio. Dispensando esse tipo de fragilidade, Greta é tanto incômodo quanto delicado porque coloca a totalidade do que somos como dois lados da mesma moeda. Nossos ímpetos, sonhos e desejos nos identificam como seres humanos, mas, vejam que ironia, também nos separam. Muito do que tomamos como certo ao longo da vida é negado a Pedro simplesmente pela combinação entre a sua idade e a sua natureza sexual. E é no epicentro dessa rejeição que o filme, buscando conexão e sentido para um protagonista errante, evidencia muitas de nossas falhas. Armando Praça está certo: no caso de Greta, faz mesmo todo o sentido deixar as velhas piadas de lado.
“Midsommar: O Mal Não Espera a Noite”: apático e sem ritmo, novo terror de Ari Aster não cumpre as expectativas em torno do diretor
Do you feel held by him? Does he feel like home to you?

Direção: Ari Aster
Roteiro: Ari Aster
Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren, William Jackson Harper, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill, Julia Ragnarsson
Midsommar, EUA/Suécia, 2019, Terror/Drama, 137 minutos
Sinopse: Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani (Florence Pugh) vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, o grupo vai se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã. (Adoro Cinema)

Se há uma vertente do terror que reagrupou força e relevância nos últimos anos, essa foi a que investiga o ser humano em seus sentimentos mais nebulosos, sofridos e atordoantes. De natureza antropológica e nada comercial, A Bruxa, por exemplo, mostrou as fraquezas morais, religiosas e sociais de uma família que, entre outras coisas, não sabe sequer lidar com o crescimento de uma filha que já começa a amadurecer e a entrar na vida adulta. Já aqui no Brasil, produções maravilhosas como O Animal Cordial, As Boas Maneiras e Mormaço lançaram um olhar muito crítico para as profundas feridas de um país ainda assolado pelo preconceito, pela intolerância e pela desigualdade. E também existe Ari Aster que, nos Estados Unidos, exorcizou os dramas de uma família em profundo luto com o cultuado Hereditário e que agora é mais uma vez aclamado com Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, onde encena a deterioração de um relacionamento amoroso marcado pelo individualismo, pela incomunicabilidade e pela falta de empatia.
Individualismo, incomunicabilidade e falta de empatia são definições até generosas para o que Christian (Jack Reynor) faz com Dani (Florence Pugh). Forçando-se a cuidar da namorada que não ama mais apenas por pena ou por não conseguir terminar com ela, Christian ilude emocionalmente uma garota marcada por uma recente tragédia familiar. Sem saber dispensar a namorada, Christian convida Dani para uma viagem que ele faria com seus amigos homens para a Suécia, o que desperta uma imediata frustração no grupo que já esquematizava a frequência com que fariam sexo em terras estrangeiras. Chegando na Suécia, eles ficam hospedados em uma pequena comunidade que vive um festival de verão muito particular, onde todos são convidados a testemunhar e até mesmo participar de determinados rituais. E isso é tudo o que você precisa saber sobre a tônica de Midsommar, que passa a colocar as suas cartas na mesa a partir daí. Antes disso, Ari Aster claramente bebia da fonte do que Hereditário tinha de melhor: o luto como matéria-prima para o desatino mental e para sentimentos desencontrados que despertam a imprevisibilidade nas ações humanas.
Vale lembrar que Aster despontou como uma verdadeira promessa ao lançar Hereditário. Ainda que irregular (e até um tanto desonesto) ao jogar fora a promessa de um terror psicológico para sucumbir a várias explicações e vícios tão comuns do gênero, o diretor mostrava grande personalidade atrás das câmeras. Tecendo comparações entre um filme e outro, Midsommar tem mais unidade do que Hereditário, sem grandes incompatibilidades narrativas ou estéticas. Por outro lado, Hereditário tinha potência quando acertava, algo que não podemos afirmar sobre Midsommar. Longa demais, a trama carece de atmosfera. Pessoas e rituais estranhos existem aos montes (e a decisão de tentar criar tensão em um ambiente idílico, ensolarado e florido é interessante), mas fazer personagens sumirem aqui ou ali por motivos misteriosos não é necessariamente sinônimo de tensão. Tampouco instiga os desdobramentos que Aster, também autor do roteiro, faz das peculiaridades daquela comunidade: no máximo, ele desperta estranhamento quando registra um ritual que coloca em xeque os valores pré-concebidos que temos sobre suicídio e o fim da vida (e também sobre como somos intolerantes a culturas diferentes das nossas).
Entre a apatia do terror e a fragilidade das discussões dramáticas diante disso, Midsommar não é superlativo em nenhuma abordagem. Há um ponto digno de nota: o clímax, que mistura orgasmo, destruição e violência como uma recompensa direta da tomada de consciência de uma personagem que, diante do estranho, passa a se (re)conhecer. É nesse momento que o filme encorpa a vitalidade que lhe faltava até ali e que existia de sobra na primeira metade de Hereditário. Contudo, a frustração maior é mesmo a oportunidade perdida de fazer terror com as nossas angústias e com as nossas fraquezas mais íntimas. Outro ponto fraco que contribui para tal percepção é a irregularidade do elenco, que varia entre momentos bons (a maior parte deles entregues a Florence Pugh) e inexpressivos, para não dizer perfeitamente dispensáveis (Will Poulter, como o homem mais desprezível do grupo de amigos, é a perfeita representação do personagem que deveria ter sido eliminado no primeiro tratamento de roteiro). Portanto, quando é impossível se importar com os personagens, não há mesmo escapatória: sem atmosfera, empatia, ritmo ou até mesmo Toni Collette, Midsommar fica à deriva, sem jamais cumprir as expectativas criadas tanto pela ascensão recente Ari Aster quanto por tudo aquilo que o filme, em vão, tenta sinalizar.
