Viola Davis define “A Mulher Rei” como a sua magnum opus — e é fácil entender o motivo
We have a weapon that they are not prepared for.

Direção: Gina Prince-Bythewood
Roteiro: Dana Stevens e Maria Bello
Elenco: Viola Davis, Lashana Lynch, John Boyega, Hero Fiennes Tiffin, Sheila Atim,
Shaina West, Jordan Bolger, Jayme Lawson, Jimmy Odukoya, Masali Baduza, Thando Dlomo, Angélique Kidjo, Chioma Antoinette Umeala, Sivuyile Ngesi
The Woman King, EUA/Canadá, Ação, 135 minutos
Sinopse: Um épico histórico inspirado em fatos reais ocorridos no Reino do Daomé, um dos estados mais poderosos da África nos séculos XVIII e XIX. A história segue Nanisca (Viola Davis), general da unidade militar feminina, e Nawi (Thuso Mbedu), uma recruta ambiciosa, que juntas lutaram contra os franceses e tribos vizinhas que violaram sua honra, escravizaram seu povo e ameaçaram destruir tudo pelo que viveram.

Tidas como mulheres altas, musculosas, de pele clara e cabelos compridos e negros, as Amazonas sempre habitaram o imaginário de Viola Davis como a representação máxima da presença feminina em campos de batalha. Seu ponto de referência, entretanto, passou a ser outro quando Viola recebeu o convite para fazer A Mulher Rei. A atriz ficou tão estupefata com a descoberta das Agojies, guerreiras negras que formavam o exército feminino do reino de Daomé na África, que o aceite para embarcar no projeto veio em um piscar de olhos, abrindo portas para uma viagem transformadora que hoje Viola diz ser a sua magnum opus — ou seja, a sua obra-prima, a sua grande arte de valor excepcional até aqui.
Bastam poucos minutos de projeção para entendermos as razões que levaram Viola a fazer uma afirmação tão contundente em uma carreira já repleta de trabalhos excepcionais. Isso porque é muito potente a imagem de Nanisca (Viola) se revelando para uma batalha junto ao seu exército de Agojies. Elas — não apenas mulheres altas ou fortes, mas de todos os portes e personalidades — partem para a luta com imensa garra, em uma sequência de ação devidamente calibrada em realismo e visceralidade. Mais do que isso, esse momento que abre A Mulher Rei já deixa muito claro que, para além do entretenimento, o filme chega aos cinemas para reescrever a história e redesenhar incontáveis imaginários.
A sequência de ação, no entanto, não é um sinal de que o longa Gina Prince-Bythewood será o típico blockbuster abarrotado de adrenalina e fórmulas fáceis. Vários elementos do gênero estão ali — a jornada de transformação da protagonista, a construção de uma nova heroína, um plot twist no meio disso tudo para ressignificar sentimentos —, só que A Mulher Rei é bem mais espirituoso do que a expressiva parcela de superproduções que povoam as salas de cinema de maneira desproporcional, começando pela ideia de apresentar as Agojies como mulheres que entendem o seu próprio valor e força em uma sociedade que lhe dá status por serem exatamente aquilo que elas são.
A autoestima das Agojies é contagiante nesta história de narrativa reversa para o ponto de vista hollywoodiano. Em A Mulher Rei, o povo africano é o detentor da narrativa, enquanto os colonizadores estão apenas de passagem por Dahome, que, por sinal, é retratado como um reino comprometido com o progresso e novas ideias. Para povoar esta terra, o roteiro de Dana Stevens coloca em cena personagens muito maiores do que a definição de “protagonistas fortes”. Da Nanisca de Viola Davis até a Izogie de Lashana Lynch, as Agojies são todas mulheres com nuances e camadas emocionais. Humanas antes de qualquer coisa, capazes de redefinir o que significa ser forte. Essa é uma diferença brutal em comparação aos blockbusters com personagens prontos e nivelados entre si.
Quem tiver a sensibilidade para apreciar detalhes como esses certamente será capaz de relevar, por exemplo, a forma superficial com que A Mulher Rei estabelece os conflitos políticos da trama, cometendo inclusive o equívoco de transformar a mulher do rei em uma figura unidimensional e antagonista em sua vaidade. Tal tratamento não condiz com o propósito do roteiro de dar dimensão a personagens que nunca parecem iguais. É nas pequenas fragilidades do texto que Gina Prince-Bythewood também sugere não ser necessariamente uma diretora de grandes ideias, constatação atenuada pelo fato de que, apesar disso, o filme como um todo é conduzido com bom pulso por ela.
Curiosamente, mesmo os pecadilhos de A Mulher Rei acabam por servir ao propósito de um filme que, com essa dimensão, deseja alcançar um número grande de espectadores. Talvez seja o lado mais “acessível” de um projeto autêntico da técnica à essência, mas que, com frequência, encontra uma maneira de fazer coisas diferentes, como a de não pesar a mão na quantidade de cenas de ação e a de transformar até mesmo uma reviravolta novelesca em um comovente elemento de redenção e reparação histórica. Viola, que está na dianteira, fortalece tudo isso, e traz ao projeto o simbolismo que ela própria vem cultivando para si nos últimos anos como atriz — o de ser uma agente da transformação através da arte, nada menos do que um papel simplesmente imbatível.
Envolto em rumores, “Não Se Preocupe, Querida” carece de personalidade e ideias próprias
Everyone’s acting like I’m crazy.

Direção: Olivia Wilde
Roteiro: Carey Van Dyke, Katie Silberman e Shane Van Dyke
Elenco: Florence Pugh, Harry Styles, Chris Pine, Gemma Chan, Olivia Wilde, Kate Berlant, Nick Kroll, Timothy Simmons, Sydney Chandler, Douglas Smith, Dita Von Teese, KiKi Layne, Kaleigh Krause, Asif Ali, Monroe Cline, Wylie Anderson
Don’t Worry, Darling, EUA, 2022, Drama/Suspense, 122 minutos
Sinopse: Uma dona de casa (Florence Pugh) que vive em uma comunidade experimental começa a suspeitar que a empresa de seu marido (Harry Styles) está escondendo segredos perturbadores.

A máxima de que nunca é um bom sinal quando fofocas repercutem mais do que o filme em si volta a se confirmar com Não Se Preocupe, Querida, que foi alvo até mesmo de especulações sobre uma possível cuspida do astro Harry Styles em seu colega de elenco Chris Pine no último Festival de Veneza. Vem ainda da época de filmagens as confusões tão alimentadas pela internet e pela imprensa, mas, como sempre, o que resta a ser avaliado é a obra em si — e, neste caso, Não Se Preocupe, Querida tem quase nada a dizer.
Com um argumento pífio e descaradamente plagiado de As Esposas de Stepford, de 1975 e refilmado em 2004 com Nicole Kidman sob o novo título de Mulheres Perfeitas, o roteiro assinado a seis mãos por Carey Van Dyke, Katie Silberman e Shane Van Dyke sequer consegue tirar proveito da eventual leitura crítica que poderia fazer sobre um mundo artificial em que mulheres vivem para servir seus maridos. Ao contrário, o conflito aqui é apenas o de uma protagonista às voltas com a suspeita de que algo está sendo escondido, seja lá o que for.
Sem entender o potencial das simbologias presentes em seu próprio projeto, Não Se Preocupe, Querida termina por descambar para o clichê da mulher em busca da verdade para provar que não está louca. Para tanto, repete alucinações de forma exaustiva e inventa desculpas medíocres para a história evoluir minimamente. Afinal, como levar a sério a ideia de que uma mulher, por exemplo, percorreria sozinha uma escaldante estrada de chão batido e infinito apenas porque ficou preocupada ao ver um avião caindo no outro lado da montanha?
É um tanto chocante que, sendo uma mulher, Olivia Wilde tenha deixado o longa resvalar em uma leitura deveras antiquada de gênero. E não há recompensa no looping de paranoia da protagonista, pois, ao longo de quase duas horas, Não Se Preocupe, Querida não entrega novos elementos para que o espectador possa se envolver na construção de descobertas ou soluções. Tudo é somente um interminável cacoete para que, faltando 15 ou 20 minutos, o roteiro despeje de uma vez só respostas e reviravoltas.
Chamo de cacoete e não de exercício porque Wilde pouco cria em cima dos destacados trabalhos de design de produção e fotografia. Assumidamente inspirada em filmes como O Show de Truman e A Origem, ela tem alcance estético e conceitual limitado apenas a um ponto de partida que não vai a lugar algum e que é constantemente preenchido por distrações, a exemplo de uma sequência cansativa e dispensável em que Harry Styles faz uma apresentação de dança. Fica evidente que suas ideias fluem muito melhor quando as intenções são mais genuínas e o orçamento é três ou vezes menor como em Fora de Série, seu longa-metragem de estreia como diretora.
O único vislumbre real de dedicação e do mínimo de nuances está no desempenho de Florence Pugh, atriz que já provou ser boa o suficiente para sair ilesa de enrascadas como essa. Deslumbrante sem fazer esforço, Pugh mostra que só sai de casa para mergulhar de verdade em suas personagens, mesmo quando a água é rasa. São mil e um os malabarismos feitos por ela para vencer o roteiro vazio, a falta de atmosfera e a química inexistente com Harry Styles, que substituiu Shia Labeouf e nem chega a ser tão prejudicial na bagunça maior que é Não Se Preocupe, Querida como um todo.
Quando revela as peças finais do quebra-cabeça, o filme chuta de vez o balde e perde qualquer ambição de entregar algo consistente. Não estou falando da previsível frustração envolvendo a resolução principal, mas sim da pequena ação desenfreada que tenta encenar e, principalmente, das micro reviravoltas envolvendo personagens que, de uma hora para outra, descortinam ambições e motivações nunca antes sugeridas ou, então, dramas pessoais apresentados de última hora para inocentar personagens passíveis de julgamentos por suas atitudes.
Se Não Se Preocupe, Querida foi impulsionado até aqui por fofocas de bastidores, é bem provável que, chegando aos cinemas, caia no esquecimento, pois sua falta de entrega em termos de entretenimento, mistério e envolvimento é das mais alarmantes. Hoje aparentemente evitada por Florence Pugh como o diabo foge da cruz, Olivia Wilde sai do filme como a mais prejudicada. Além da imagem como diretora conturbada nos bastidores, ela aqui tem a proeza de fazer com que o espectador fique em dúvida se os elogios colecionados por Fora de Série talvez não se tratem de uma sortuda exceção.
Homenageando David Bowie, “Moonage Daydream” captura a essência de um personagem como poucos documentários conseguem
The greatest adventure that only one person could ever have.

Direção: Brett Morgen
Roteiro: Brett Morgen
Alemanha/EUA, Documentário, 135 minutos
Sinopse: Moonage Daydream é um documentário-concerto que segue a vida e a carreira musical de David Bowie. O filme explora a jornada criativa, musical e espiritual do artista icônico e ilumina não apenas a vida, mas também a personalidade de Bowie, que além de atuar em música e cinema, explorou outras formas de arte ao longo de sua vida, incluindo dança, pintura, escultura, colagem, audiovisual, roteiro, atuação e teatro. Para criar uma experiência artística, a obra apresenta faixas musicais e arquivos pessoais de Bowie, além de registros inéditos.

Guardados os méritos e afetos envolvendo documentários sobre músicos contemporâneos, nada consegue competir com produções desse mesmo gênero que tomam o devido tempo e a devida perspectiva para fazer reverência a uma obra. É óbvio que o tão digitalizado século 21 clama pela instantaneidade de registrar o íntimo de astros em ascensão, mas há grandiosidades que só nascem e são observadas com o passar do tempo, algo que Moonage Daydream exemplifica gloriosamente.
Talvez só o tempo mesmo seja capaz de dar conta de uma figura como David Bowie para além do sucesso estrondoso que já podia ser observado ao longo de sua carreira. Olhar para o homem e para o legado se torna uma tarefa ainda mais difícil se tratando de Bowie, que sempre jogou para o alto quaisquer regras e nunca teve medo de se arriscar, seja no plano profissional ou pessoal. Pior ainda: como definir um artista que sempre rejeitou definições?
Somente na sala de edição, o diretor Brett Morgen ficou quatro anos debruçado sobre incontáveis imagens e entrevistas de Bowie. Sua paixão pela ideia de realizar Moonage Daydream foi tanta que, pela primeira vez, o David Bowie Estate, instituto responsável pela preservação oficial da obra do música, concedeu acesso sem precedentes à extensa coleção, um privilégio raríssimo.
Brett canalizou toda a sua admiração por Bowie em criar um documentário que fosse, principalmente, uma ode à essência de um artista sempre em plena metamorfose. Esse posicionamento faz de Moonage Daydream uma obra que, portanto, dispensa cartilhas e propõe uma experiência. Ou seja, esqueça depoimentos de amigos e familiares, cronologias de álbuns, registros da infância ou ferramentas mais alinhadas a uma reportagem televisiva.
Em 135 minutos, o documentário traz David Bowie por David Bowie, como se ele estivesse narrando a sua própria história conforme ela passa. Entre depoimentos e entrevistas históricas, como aquela concedida em 1973 para Russell Harty, a sua primeira inteiramente televisionada, a montagem se propõe a emular o imaginário de seu personagem com trechos de shows, animações, efeitos visuais e muitas referências, jamais recorrendo ao óbvio.
A efervescência de referências apresentadas em Moonage Daydream vão de Georges Méliès a Philip Glass, de F. W. Murnau a Jack Kerouac, e são diversão garantida para quem aceitar o desafio de tentar identificá-las no ritmo assumidamente frenético do documentário, que revela, no final das contas, uma visão muito particular sobre a vida, inclusive provocando o espectador a reavaliar questões existenciais e a questionar os tempos atuais.
Brett Morgen é habilidoso ao falar sobre a vida através de um legado, muito em função de Bowie sempre ter sido uma pessoa que, mesmo reconhecendo sua inabilidade social, tinha reflexões e provocações de sobra para compartilhar sobre o estado das coisas. Em certo ponto, Bowie diz que sempre gostou de se colocar em riscos para, a partir daí, ver a arte e o mundo fora de sua zona de conforto. Essa visão em constante mudança do mundo — literalmente, pois ele se desafiou a morar em realidades diferentes da sua, seja nos Estados Unidos ou no Japão — é o que dá combustível ao lado existencial da obra.
Tão importante quanto as subversões do cantor que a mídia, desde sempre fascinada e desconfortável com o novo, tentava enquadrar em frases prontas ou colocar em caixinhas é o respeito de Moonage Daydream pelo David Bowie que, mais além, decidiu abraçar o amor romântico que um dia chamou de doença e abraçou uma fase cuja maior pretensão era “apenas” agradar o público. O que os jornalistas taxaram de domesticação, para ele, era uma nova compreensão de si mesmo e de como as coisas mudam ao longo da vida.
A trilha sonora inevitavelmente primorosa — Heroes!, Life on Mars!, Let’s Dance! — pavimenta essa viagem caleidoscópica, para não escapar do termo já definitivo para falar sobre o filme. Ela é tão enérgica que impulsiona Moonage Daydream mesmo quando o filme se prolonga e corre o risco de pesar a mão no frenesi ao quase não dar espaço para silêncios e respiros. Para além disso, casa perfeitamente com o vistoso e dedicado trabalho estético de um diretor que consegue equilibrar fan service com novas ideias. Mais artistas mereciam homenagens como essa.
“Men: Faces do Medo” tem pouco a dizer sobre a estrutura opressora do machismo
You hide. I’ll seek.

Direção: Alex Garland
Roteiro: Alex Garland
Elenco: Jessie Buckley, Rory Kinnear, Paapa Essiedu, Gayle Rankin, Sarah Twomey,
Zak Rothera-Oxley, Sonoya Mizuno
Reino Unido, 2022, Terror, 100 minutos
Sinopse: Após uma tragédia pessoal, Harper (Jessie Buckley) decide ir sozinha para um retiro no meio de um belo campo inglês, na esperança de encontrar um lugar para se curar. Mas alguém ou algo da floresta ao redor parece estar perseguindo ela. O que começa como um pavor fervente se torna um pesadelo, habitado por suas memórias e medos mais sombrios. (Adoro Cinema)

Com o sucesso dos cineastas Ari Aster (Hereditário, Midsommar) e Robert Eggers (A Bruxa, O Farol), o gênero de terror viu surgir uma nova demanda de produções menos caça-níqueis e mais voltadas a símbolos, camadas e comentários sociais. Isso, invariavelmente, abre visibilidade para a realização de bons títulos com essa toada, mas também acaba, vez ou outra, tendo um efeito colateral: o do mero mimetismo. É de se espantar, no entanto, que um roteirista e, eventualmente, diretor experiente como Alex Garland (Extermínio, Não Me Abandone Jamais, Ex-Machina) tenha se inclinado à mera reprodução de estilo com Men: Faces do Medo, um terror que pretende versar sobre a estrutura do machismo e seu impacto no universo feminino.
O problema não é um homem falar sobre o assunto, pois a autocrítica é sempre bem-vinda e porque realizadores do sexo masculino já foram muito felizes em adentrar a alma feminina — que o diga o chileno Sebastián Lelio, sucessivamente vitorioso em filmes como Gloria, Uma Mulher Fantástica e Desobediência —, mas sim quando fica evidente que as ideias são ralas para levar em frente uma trama que menos embasada do que acredita ser. Penso que, por exemplo, o recente (e nada pretensioso) O Homem Invisível, estrelado por Elisabeth Moss, transita com mais autenticidade entre as micro e macro agressões direcionadas diariamente às mulheres.
A frustração se acentua quando voltamos ao início do filme, que é tecnicamente impecável. O primeiro ato, inclusive, com Harper (Jessie Buckley) desbravando a região em que está hospedada, é um primor de atmosfera, especialmente porque desenvolve uma gama de sugestões sobre a personagem com o mínimo de palavras possível. Algumas cenas são genuinamente angustiantes, como aquela em que a protagonista fica em frente ao túnel embaixo de uma ponte para brincar com os ecos da própria voz e, logo em seguida, enxergar uma figura ao fundo que não consegue identificar. Isso sem falar que ajuda o fato de Jessie Buckley ser uma atriz fabulosa.
Parte da expectativa criada por Men no primeiro ato também está no diagnóstico de que Garland evita buracos comumente encontrados nesse tipo de longa. Ou já não é clichê dos mais antigos o ponto de partida em que uma personagem se isola em uma casa distante de tudo e de todos para superar um trauma? E o que dizer das desculpas esfarrapadas que roteiristas costumam inventar para que suas protagonistas continuem em um mesmo local apesar de todos os perigos e absurdos vividos ali? Pois Men contorna implausibilidades sendo capaz de fazer com que o espectador compreenda os medos e angústias de uma mulher diante de estranhas figuras masculinas.
A decepção começa a se instalar quando o longa deixa de lado o fortalecimento dessa atmosfera e aposta em uma série de contorcionismos e subtextos para fazer observações sobre uma tema que, até então, era o pano de fundo da trama. Chamo de contorcionismos porque Men tem menos a dizer do que tenta convencer o espectador. Simbologias óbvias como o homem nu e as maçãs que insistem em se mostrar presentes pouco acrescentam à discussão e, principalmente, aos sentidos do filme, o que descortina a já mencionada percepção de que certos projetos nascem da vontade de replicar o que está dando certo e não necessariamente do desejo genuíno de dizer algo novo.
Há passagens distantes das metáforas e das ambições que acabam por sintetizar melhor os objetivos de Men, incluindo diálogos simples, mas carregados de incômodas mensagens. Um deles é o que Harper encontra o padre da região e abre o coração sobre traumas passados. Falando sobre ter sido agredida pelo ex-namorado, ela recebe a resposta de que isso “acontece” e que, apesar de ser errado, não se trata de um pecado mortal. O efeito da cena é para lá de incômodo porque capitaliza a força da agressão através das palavras, algo que, para a protagonista, talvez seja até mesmo uma espécie de extensão da agressão física sofrida por ela.
Nessa passagem específica, Men consegue dar vislumbres de uma eventual vocação para criar o terror de camadas que tenta replicar. Entretanto, Garland opta pela confiança no impacto visual, esquecendo-se de que variações, quando não refinadas ou criativas, terminam por se tornar redundantes. Men, portanto, anda em círculos na ideia de mostrar o horror na forma como homens tratam mulheres, e sua falta de sutilezas não seria um problema caso estivéssemos diante de um filme sobre a estrutura opressa do machismo que tivesse algo realmente de diferente a dizer.
Rapidamente: “Os Primeiros Soldados”, “O Telefone Preto”, “A Viagem de Pedro” e “Uncharted”

A Viagem de Pedro está entre os filmes pré-selecionados pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na categoria de melhor filme internacional do Oscar 2023.
OS PRIMEIROS SOLDADOS (idem, 2021, de Rodrigo de Oliveira): Até onde alcança a minha memória, não lembro de outro longa-metragem nacional que tenha refletido com tamanha atenção a questão da chegada do HIV no Brasil. Os Primeiros Soldados preenche essa lacuna com emoção e intensidade, munido de um bom elenco e de um terceiro ato reverberante. Para tanto, abraça a perspectiva muito pessoal de três personagens, deixando de lado didatismos para fazer contextualizações. Por meio das histórias individuais de Suzano (Johnny Massaro), Rose (Renata Carvalho) e Humberto (Victor Camilo), o roteiro escrito pelo diretor Rodrigo de Oliveira começa narrando as angústias paralelas de personagens infectados pelo vírus HIV para, no melhor recorte do filme, juntá-los em um convívio tão bonito quanto trágico. É bonito ao prestar homenagem à união e ao companheirismo de uma parcela da sociedade desassistida pela ignorância frente à descoberta de uma nova doença. E é trágico por mostrar a desumanidade com que pessoas foram largadas à morte sem qualquer amparo. Se há irregularidades na construção das narrativas paralelas, a impressão é dissipada quando Os Primeiros Soldados une Suzano, Rose e Humberto. À parte a emoção trazida pela situação dos três, o filme se engrandece pela excelente sintonia entre os atores e por ser capaz de trazer delicadeza e dignidade ao encenar uma situação tão difícil. Rodrigo de Oliveira é muito feliz em, sim, relembrar um momento da nossa história que ainda é uma lacuna no audiovisual brasileiro, mas também em terminar o filme com uma nota melancólica de esperança da qual sempre precisaremos.
O TELEFONE PRETO (The Black Phone, 2021, de Scott Derrickson): Quase 20 anos atrás, Scott Derrickson estreou como diretor com um filme de terror eficiente como poucos. O Exorcismo de Emily Rose, além do elenco excepcional — Laura Linney, Tom Wilkinson, Shoreh Aghdashloo —, dispensava obviedades para entregar uma atmosfera madura e que lançava Derrickson como uma verdadeira promessa. Desde então, ele seguiu prolífero no gênero, chegando a esse O Telefone Preto, que reafirma o seu tino para terrores com substância e sem modismos. Enquanto, em O Exorcismo de Emily Rose, o pano de fundo era o pragmatismo de uma advogada e seu imenso ceticismo quanto a fatos inexplicáveis, O Telefone Preto tem como tônica o afetuoso relacionamento entre dois irmãos que, acostumados com o desolamento da vida, enfrentam o maior medo de todos quando um deles é raptado sem deixar vestígios. Eles são interpretados por duas ótimas revelações – Mason Thorne e Madeleine McGraw – que seguram muito bem tanto o drama familiar quanto o ritmo de tensão. Thorne, aliás, tem a missão mais difícil porque, primeiro, está enclausurado em único ambiente durante boa parte do filme e, segundo, porque está diante da presença mascarada e intimidante do sequestrador vivido por Ethan Hawke. Tendo escrito o roteiro em parceria com C. Robert Cargill, Derrickson é objetivo em todos os arcos, tirando da equação sustos fáceis ou voltas e mais voltas para chegar à resolução. Tamanho pragmatismo é extremamente bem-vindo para um gênero que, por vezes, dedica-se mais a distrações do que ao que tem propriamente a dizer.
UNCHARTED: FORA DO MAPA (Uncharted, 2022, de Ruben Fleischer): Entre filmes como Cherry e O Diabo de Cada Dia, Tom Holland reserva um espacinho na agenda para participar de produções como Uncharted: Fora do Mapa, garantindo que seu estrelato como protagonista de blockbusters se mantenha aquecido com ou sem Homem-Aranha. É preciso, contudo, que Holland não faça isso de maneira protocolar, como acontece neste filme de Ruben Fleischer baseado na série de videogames homônima produzida para a PlayStation. Holland, na verdade, marca presença com seu carisma de sempre e com uma visível dedicação física para dar conta de todas as cenas de ação. Acontece que Uncharted é uma aventura empoeirada e genérica. Falta à direção de Fleischer a habilidade de produzir diversão com a proposta clássica de caça ao tesouro como Jon Turteltaub fez, por exemplo, em A Lenda do Tesouro Perdido, de 2004. Tudo parece estar no piloto-automático com a fórmula de uma pista levar a outra, e cabe ao ator tentar trazer certa graça, inclusive porque o elenco de suporte é dos mais fracos, quando não estereotipado, caso do vilão latino interpretado, claro, por Antonio Banderas em uma composição previsível dos padrões hollywoodianos. Inevitavelmente, Uncharted se assemelha muito a um videogame, mas apenas no que se refere à estrutura. Ao passar de uma fase para a outra, o protagonista Nathan Drake (Holland) avança em história, enquanto o espectador nunca chega a ser convidado para participar da mesma diversão. É essa a virada de chave que teria sido feita em um piscar de olhos por um diretor mais imaginativo.
A VIAGEM DE PEDRO (idem, 2022, de Laís Bodanzky): Em seu quinto longa-metragem para os cinemas, a diretora Laís Bodanzky sai de núcleos mais familiares e intimistas como os de As Melhores Coisas do Mundo e Como Nossos Pais para realizar o seu filme mais ambicioso até aqui, ainda que A Viagem de Pedro também seja, em última instância, uma reflexão sobre os sentimentos muito particulares de um homem sempre visto pela História como um grande emblema. A mudança de ares tem impacto, visto que longa não deve nada às superproduções estadunidenses em termos técnicos. É mesmo surpreendente o rigor com que Bodanzky orquestra um filme grandioso e que, em momento algum, soa artificial em sua ambientação. A cota de desequilíbrio acaba ficando com o roteiro, que abraça um momento específico do ano de 1831, quando Dom Pedro I (Cauã Reymond) embarca em uma fragata inglesa para enfrentar o irmão que usurpou seu reino em Portugal. No que chama de uma babel de línguas e posições sociais em que se misturam membros da corte, oficiais, serviçais e escravizados, Bodanzky imagina dias críticos na vida de um Dom Pedro I em crise física e emocional. Para isso, ela apresenta um roteiro cuja toada é revisitar símbolos históricos que tomamos como certos e que clamam por reavaliações. Trazendo um protagonista impotente sexualmente e atormentado por pesadelos e visões, A Viagem de Pedro não transita muito bem, entretanto, entra as fronteiras da ficcionalização crítica e da humanização do personagem. E, com Cauã Reymond, um ator não exatamente versátil, esse certo sentimento de confusão deixado pelo filme é pouco resolvido.