“Men: Faces do Medo” tem pouco a dizer sobre a estrutura opressora do machismo

You hide. I’ll seek.

men24

Direção: Alex Garland

Roteiro: Alex Garland

Elenco: Jessie Buckley, Rory Kinnear, Paapa Essiedu, Gayle Rankin, Sarah Twomey,
Zak Rothera-Oxley, Sonoya Mizuno

Reino Unido, 2022, Terror, 100 minutos

Sinopse: Após uma tragédia pessoal, Harper (Jessie Buckley) decide ir sozinha para um retiro no meio de um belo campo inglês, na esperança de encontrar um lugar para se curar. Mas alguém ou algo da floresta ao redor parece estar perseguindo ela. O que começa como um pavor fervente se torna um pesadelo, habitado por suas memórias e medos mais sombrios. (Adoro Cinema)

menscene

Com o sucesso dos cineastas Ari Aster (Hereditário, Midsommar) e Robert Eggers (A Bruxa, O Farol), o gênero de terror viu surgir uma nova demanda de produções menos caça-níqueis e mais voltadas a símbolos, camadas e comentários sociais. Isso, invariavelmente, abre visibilidade para a realização de bons títulos com essa toada, mas também acaba, vez ou outra, tendo um efeito colateral: o do mero mimetismo. É de se espantar, no entanto, que um roteirista e, eventualmente, diretor experiente como Alex Garland (Extermínio, Não Me Abandone Jamais, Ex-Machina) tenha se inclinado à mera reprodução de estilo com Men: Faces do Medo, um terror que pretende versar sobre a estrutura do machismo e seu impacto no universo feminino.

O problema não é um homem falar sobre o assunto, pois a autocrítica é sempre bem-vinda e porque realizadores do sexo masculino já foram muito felizes em adentrar a alma feminina — que o diga o chileno Sebastián Lelio, sucessivamente vitorioso em filmes como Gloria, Uma Mulher Fantástica e Desobediência —, mas sim quando fica evidente que as ideias são ralas para levar em frente uma trama que menos embasada do que acredita ser. Penso que, por exemplo, o recente (e nada pretensioso) O Homem Invisível, estrelado por Elisabeth Moss, transita com mais autenticidade entre as micro e macro agressões direcionadas diariamente às mulheres.

A frustração se acentua quando voltamos ao início do filme, que é tecnicamente impecável. O primeiro ato, inclusive, com Harper (Jessie Buckley) desbravando a região em que está hospedada, é um primor de atmosfera, especialmente porque desenvolve uma gama de sugestões sobre a personagem com o mínimo de palavras possível. Algumas cenas são genuinamente angustiantes, como aquela em que a protagonista fica em frente ao túnel embaixo de uma ponte para brincar com os ecos da própria voz e, logo em seguida, enxergar uma figura ao fundo que não consegue identificar. Isso sem falar que ajuda o fato de Jessie Buckley ser uma atriz fabulosa.

Parte da expectativa criada por Men no primeiro ato também está no diagnóstico de que Garland evita buracos comumente encontrados nesse tipo de longa. Ou já não é clichê dos mais antigos o ponto de partida em que uma personagem se isola em uma casa distante de tudo e de todos para superar um trauma? E o que dizer das desculpas esfarrapadas que roteiristas costumam inventar para que suas protagonistas continuem em um mesmo local apesar de todos os perigos e absurdos vividos ali? Pois Men contorna implausibilidades sendo capaz de fazer com que o espectador compreenda os medos e angústias de uma mulher diante de estranhas figuras masculinas.

A decepção começa a se instalar quando o longa deixa de lado o fortalecimento dessa atmosfera e aposta em uma série de contorcionismos e subtextos para fazer observações sobre uma tema que, até então, era o pano de fundo da trama. Chamo de contorcionismos porque Men tem menos a dizer do que tenta convencer o espectador. Simbologias óbvias como o homem nu e as maçãs que insistem em se mostrar presentes pouco acrescentam à discussão e, principalmente, aos sentidos do filme, o que descortina a já mencionada percepção de que certos projetos nascem da vontade de replicar o que está dando certo e não necessariamente do desejo genuíno de dizer algo novo.

Há passagens distantes das metáforas e das ambições que acabam por sintetizar melhor os objetivos de Men, incluindo diálogos simples, mas carregados de incômodas mensagens. Um deles é o que Harper encontra o padre da região e abre o coração sobre traumas passados. Falando sobre ter sido agredida pelo ex-namorado, ela recebe a resposta de que isso “acontece” e que, apesar de ser errado, não se trata de um pecado mortal. O efeito da cena é para lá de incômodo porque capitaliza a força da agressão através das palavras, algo que, para a protagonista, talvez seja até mesmo uma espécie de extensão da agressão física sofrida por ela.

Nessa passagem específica, Men consegue dar vislumbres de uma eventual vocação para criar o terror de camadas que tenta replicar. Entretanto, Garland opta pela confiança no impacto visual, esquecendo-se de que variações, quando não refinadas ou criativas, terminam por se tornar redundantes. Men, portanto, anda em círculos na ideia de mostrar o horror na forma como homens tratam mulheres, e sua falta de sutilezas não seria um problema caso estivéssemos diante de um filme sobre a estrutura opressa do machismo que tivesse algo realmente de diferente a dizer.

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