Envolto em rumores, “Não Se Preocupe, Querida” carece de personalidade e ideias próprias

Everyone’s acting like I’m crazy.

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Direção: Olivia Wilde

Roteiro: Carey Van Dyke, Katie Silberman e Shane Van Dyke

Elenco: Florence Pugh, Harry Styles, Chris Pine, Gemma Chan, Olivia Wilde, Kate Berlant, Nick Kroll, Timothy Simmons, Sydney Chandler, Douglas Smith, Dita Von Teese, KiKi Layne, Kaleigh Krause, Asif Ali, Monroe Cline, Wylie Anderson

Don’t Worry, Darling, EUA, 2022, Drama/Suspense, 122 minutos

Sinopse: Uma dona de casa (Florence Pugh) que vive em uma comunidade experimental começa a suspeitar que a empresa de seu marido (Harry Styles) está escondendo segredos perturbadores.

DON'T WORRY DARLING

A máxima de que nunca é um bom sinal quando fofocas repercutem mais do que o filme em si volta a se confirmar com Não Se Preocupe, Querida, que foi alvo até mesmo de especulações sobre uma possível cuspida do astro Harry Styles em seu colega de elenco Chris Pine no último Festival de Veneza. Vem ainda da época de filmagens as confusões tão alimentadas pela internet e pela imprensa, mas, como sempre, o que resta a ser avaliado é a obra em si — e, neste caso, Não Se Preocupe, Querida tem quase nada a dizer.

Com um argumento pífio e descaradamente plagiado de As Esposas de Stepford, de 1975 e refilmado em 2004 com Nicole Kidman sob o novo título de Mulheres Perfeitas, o roteiro assinado a seis mãos por Carey Van Dyke, Katie Silberman e Shane Van Dyke sequer consegue tirar proveito da eventual leitura crítica que poderia fazer sobre um mundo artificial em que mulheres vivem para servir seus maridos. Ao contrário, o conflito aqui é apenas o de uma protagonista às voltas com a suspeita de que algo está sendo escondido, seja lá o que for.

Sem entender o potencial das simbologias presentes em seu próprio projeto, Não Se Preocupe, Querida termina por descambar para o clichê da mulher em busca da verdade para provar que não está louca. Para tanto, repete alucinações de forma exaustiva e inventa desculpas medíocres para a história evoluir minimamente. Afinal, como levar a sério a ideia de que uma mulher, por exemplo, percorreria sozinha uma escaldante estrada de chão batido e infinito apenas porque ficou preocupada ao ver um avião caindo no outro lado da montanha?

É um tanto chocante que, sendo uma mulher, Olivia Wilde tenha deixado o longa resvalar em uma leitura deveras antiquada de gênero. E não há recompensa no looping de paranoia da protagonista, pois, ao longo de quase duas horas, Não Se Preocupe, Querida não entrega novos elementos para que o espectador possa se envolver na construção de descobertas ou soluções. Tudo é somente um interminável cacoete para que, faltando 15 ou 20 minutos, o roteiro despeje de uma vez só respostas e reviravoltas.  

Chamo de cacoete e não de exercício porque Wilde pouco cria em cima dos destacados trabalhos de design de produção e fotografia. Assumidamente inspirada em filmes como O Show de Truman e A Origem, ela tem alcance estético e conceitual limitado apenas a um ponto de partida que não vai a lugar algum e que é constantemente preenchido por distrações, a exemplo de uma sequência cansativa e dispensável em que Harry Styles faz uma apresentação de dança. Fica evidente que suas ideias fluem muito melhor quando as intenções são mais genuínas e o orçamento é três ou vezes menor como em Fora de Série, seu longa-metragem de estreia como diretora.

O único vislumbre real de dedicação e do mínimo de nuances está no desempenho de Florence Pugh, atriz que já provou ser boa o suficiente para sair ilesa de enrascadas como essa. Deslumbrante sem fazer esforço, Pugh mostra que só sai de casa para mergulhar de verdade em suas personagens, mesmo quando a água é rasa. São mil e um os malabarismos feitos por ela para vencer o roteiro vazio, a falta de atmosfera e a química inexistente com Harry Styles, que substituiu Shia Labeouf e nem chega a ser tão prejudicial na bagunça maior que é Não Se Preocupe, Querida como um todo.

Quando revela as peças finais do quebra-cabeça, o filme chuta de vez o balde e perde qualquer ambição de entregar algo consistente. Não estou falando da previsível frustração envolvendo a resolução principal, mas sim da pequena ação desenfreada que tenta encenar e, principalmente, das micro reviravoltas envolvendo personagens que, de uma hora para outra, descortinam ambições e motivações nunca antes sugeridas ou, então, dramas pessoais apresentados de última hora para inocentar personagens passíveis de julgamentos por suas atitudes.

Se Não Se Preocupe, Querida foi impulsionado até aqui por fofocas de bastidores, é bem provável que, chegando aos cinemas, caia no esquecimento, pois sua falta de entrega em termos de entretenimento, mistério e envolvimento é das mais alarmantes. Hoje aparentemente evitada por Florence Pugh como o diabo foge da cruz, Olivia Wilde sai do filme como a mais prejudicada. Além da imagem como diretora conturbada nos bastidores, ela aqui tem a proeza de fazer com que o espectador fique em dúvida se os elogios colecionados por Fora de Série talvez não se tratem de uma sortuda exceção.

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