Dez ótimos filmes que completaram dez anos de lançamento em 2018

Uma boa maneira constatar a rápida passagem do tempo é elencando quais filmes estão completando aniversário em determinado ano. E, já que entramos em dezembro, mês tradicionalmente dedicado a listas de melhores do ano e ao início da temporada de premiações, resolvi entrar nesse espírito. Em 2018, diversos filmes completaram dez anos de lançamento (aproveito para lembrar que, aqui no blog, sempre levo a estreia comercial nos cinemas brasileiros no parâmetro para definir a minha cronologia cinematográfica), entre eles, obras consagradas entre público e crítica, como Batman: O Cavaleiro das Trevas. Também tivemos o aniversário de Sangue NegroOnde os Fracos Não Têm Vez, O Escafandro e a Borboleta e Na Natureza Selvagem. Alguns chegaram a receber até uma continuação para marcar seus dez anos de lançamento, caso de Mamma Mia!, que, em 2008, considerando suas intenções e dimensões, foi um estrondoso sucesso de bilheteria. Contudo, deixo de lado esses títulos já amplamente referenciados para selecionar dez dos meus favoritos pessoais que, há exata uma década, chegavam em terras brasileiras. Quais deles também fazem parte dos queridinhos de vocês? 

•••

Philip Seymour Hoffman e Laura Linney brilham como dois irmãos em conflito no drama A Família Savage.

A FAMÍLIA SAVAGE, de Tamara Jenkins: Em 2018, a diretora e roteirista Tamara Jenkins finalmente voltou à ativa com Mais Uma Chance, seu primeiro filme desde o maravilhoso A Família Savage, lançado em 2008 e que reuniu uma dupla para ninguém colocar defeito: Laura Linney e Philip Seymour Hoffman (ela chegou a ser merecidamente indicada ao Oscar por seu desempenho). Muito mais do que um registro tradicional sobre dois filhos que precisam lidar com um pai doente, A Família Savage descortina o processo de envelhecimento sem qualquer firula ou maquiagem, mas o que torna esse trabalho tão humano e contundente é a relação entre os dois irmãos, ambos tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes — e por isso mesmo distantes do ponto de vista físico e emocional. Nas complexidades dos pequenos momentos e comportamentos tanto dos personagens quanto de todos nós, Jenkins cria uma história franca, colada à realidade e elevada a níveis tocantes por dois grandes atores em estado de graça.

CHEGA DE SAUDADE, de Laís Bodanzky: Por falar em histórias sobre envelhecimento, Chega de Saudade, da premiada diretora Laís Bodanzky, é outro título que contempla a temática da terceira idade e completa uma década de lançamento em 2018. O clima, entretanto, é totalmente diferente de A Família Savage: acompanhando cinco personagens frequentadores de um baile de dança em São Paulo, Chega de Saudade tem como cenário um animado salão que, em uma nova noite de música e dança, abre as portas para o seu público tão querido e fiel. Na pista e nos bastidores, os personagens amam, desejam, flertam, gargalham e choram, representando a inegável complexidade de longas histórias de vida. O elenco é um primor (Cássia Kis, Tônia Carrero, Clarisse Abujamra, Betty Faria, Stepan Nercessian), assim como a trilha compartilhada entre Elza Soares, Marku Ribas e a banda Luar de Prata que revive grandes sucessos dos salões de baile. Humano e simples como poucos diretores conseguiriam registrar.

APENAS UMA VEZ, de John Carney: Veio da Irlanda um dos romances comoventes dos últimos dez anos. Vencedor do Oscar de melhor canção original (“Falling Slowly”), Apenas Uma Vez é a perfeita síntese de como a simplicidade pode andar de mãos dadas com a emoção. Além disso, essa é uma produção que utiliza a música como elemento narrativo primordial, sem jamais reduzi-la a mero entretenimento ou curiosidade. É, afinal, por meio das canções que atravessamos as ruas de Dublin para conhecer um casal sem nome que muito se aproxima dos sonhos e dos anseios vividos por pessoas como eu e você. Apenas Uma Vez tem corpo, alma e uma coesão musical que muitos exemplares ambiciosos do gênero somente sonham em alcançar. Anos depois, o diretor John Carney viria a realizar outro drama romântico construído através da música, novamente na mesma batida de dramas cotidianos: o também adorável Mesmo Se Nada Der Certo.

Grandioso em escala e sentimento, Desejo e Reparação ainda é o ponto mais alto na carreira do diretor Joe Wright.

DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe Wright: São raros os filmes que conseguem ser épicos em escala e intimismo, mas Desejo e Reparação é inquestionavelmente um deles. O que Joe Wright faz aqui ainda marca o auge de sua carreira: fora o apuro estético que permanece irretocável mesmo após uma década (e que provavelmente eternizará a sua áurea de clássico contemporâneo), Desejo e Reparação avança por diferentes tempos e perspectivas para falar sobre atos, consequências e suas diferentes reverberações através da culpa. No elenco, Keira Knightley e James McAvoy formam um casal como os melhores dos clássicos norte-americanos, mas é Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Regrave que roubam a cena quando dão vida à complexa Briony Tallis em diferentes fases (e, ainda que de certa forma polêmica, a personagem é capaz de passar um turbilhão de emoções ao espectador, principalmente no desfecho avassalador). Destaque ainda para a inesquecível trilha do italiano Dario Marianelli e o impressionante plano-sequência na batalha de Dunquerque.

LONGE DELA, de Sarah Polley: Sem dirigir ou atuar desde 2012, quando realizou o documentário Histórias Que Nós Contamos, Sarah Polley provou toda sua elegância, sobriedade e delicadeza como realizadora anos antes, ao lançar, em 2008, o drama Longe Dela, sua estreia na direção de longas após quarto curtas e uma breve experiência na TV. O resultado tem consistência como se fosse assinado por uma veterana: ao adaptar o conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro, Polley registra a clássica história do marido que lida com o Mal de Alzheimer da esposa, mas o relato, centrado mais na cotidianidade emocional de seus personagens do que no sofrimento trazido pela doença, propõe olhares diferenciados para uma temática já explorada extensivamente. Ao traduzir as complexidades e as transformações de um casal que compartilhou uma vida inteira juntos, Longe Dela se torna maduro e comovente por seu respeito à vida e ao quanto nos adaptamos ao longo e ao fim dela.

WALL-E, de Andrew Stanton: Foram nada menos do que seis indicações ao Oscar (e, claro, o troféu de melhor animação daquele ano), número que já sugere um prestígio raro inclusive para hoje os dias de hoje se tratando de produções com o selo Disney/Pixar, mas a verdade é que WALL-E representa mesmo um dos mais inesquecíveis momentos na carreira de todos os envolvidos no projeto. Com um emblemático personagem-título, a animação é impactante do ponto de vista visual e envolvente ao desenvolver uma trama ambiciosa que flutua entre o planeta Terra e o espaço sideral, preservando, mesmo após dez anos, a atualidade das questões tecnológicas e ambientais levantadas na época. Em suma, é uma animação inusitada e altamente criativa, exatamente no padrão das que elevaram o nome da Pixar, estúdio que hoje já não realiza exemplares semelhantes com a mesma frequência após ter sido comprado pela Disney.

Subestimado por público e crítica, Ensaio Sobre a Cegueira teve a validação do consagrado escritor José Saramago.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de Fernando Meirelles: Da morna recepção em Cannes ao pouco apreço do público no circuito comercial, Ensaio Sobre a Cegueira teve, no entanto, a aprovação que o diretor Fernando Meirelles mais precisava: a de José Saramago, autor da obra homônima cuja adaptação era tida como impossível e que não escondeu a sua comoção ao ver seu trabalho transposto para as telas. Não concordo com as recepções medianas que Ensaio Sobre a Cegueira recebeu em seu lançamento e tenho esse filme como mais um ótimo exemplo de toda a solidez de Fernando Meirelles como realizador mesmo em terras estrangeiras. Explorando a barbárie de seres humanos que regridem para seu instinto mais primitivo após uma cegueira repentina, o relato é cru na medida exata, levando esse acertado ponto de equilíbrio dramático para a parte técnica (lembram da impactante fotografia de César Charlone?) e também para as interpretações, onde a grande Julianne Moore tem um dos desempenhos mais subestimados de toda a sua carreira.

O NEVOEIRO, de Frank Darabont: Último longa-metragem dirigido pelo prestigiado Frank Darabont (Um Sonho de LiberdadeÀ Espera de Um Milagre) até o presente momento, O Nevoeiro adapta o romance homônimo do mestre Stephen King com vigor tanto no suspense quanto nas diversas provocações suscitadas ao longo de uma história aparentemente corriqueira sobre pessoas que ficam presas em um supermercado em função de um forte nevoeiro. Para absorver o que existe de melhor do longa, é preciso compreender que o verdadeiro horror não está no que os personagens deduzem ter no lado de fora do estabelecimento, mas sim nas conturbadas e perigosas relações humanas que passam a estabelecer coletivamente em um espaço restrito. O desfecho é atordoante e a condução até lá exercita o suspense com questões cotidianas a partir de um plano mais fantástico, proporcionando momentos assustadores e que fazem emergir o pior da mente humana — e nesse sentido, a magnífica interpretação de Marcia Gay Harden dificilmente sairá da sua cabeça após a sessão.

[REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza: É o tipo de terror estrangeiro que o cinema norte-americano tentou copiar posteriormente, mas que, assim como tantos outros, não rendeu qualquer produção equivalente longe de sua terra nativa. Concebido na Espanha, [REC] acompanha uma repórter e um operador de câmera que, chamados para fazer a cobertura de uma situação de emergência em um grande prédio, acabam presos no local após acontecimentos misteriosos. A proposta de gravar tudo em primeira pessoa (o repórter, apesar de todos os acontecimentos possíveis, nunca desliga a câmera) parece batida, mas, na época e ainda hoje, [REC] a utilizou com uma visceralidade única, levando diversas plateias ao redor do mundo para os mais sombrios e angustiantes lugares que a nossa imaginação pode criar (pouco é de fato mostrado no longa, o que deixa basicamente tudo para a mente do espectador). Pela eletrizante viagem orquestrada, dá até para relevar uma certa implausibilidade do operador de câmera nunca desligar o equipamento mesmo nas situações mais desesperadoras.

VICKY CRISTINA BARCELONA, de Woody Allen: Um dos trabalhos mais inspirados de Woody Allen considerando tudo o que ele realizou desde o início dos anos 2000, Vicky Cristina Barcelona tem muito a encantar com as charmosas paisagens e locações espanholas. No entanto, o mais interessante do filme é explorar as decisões irresistivelmente tortas e inconscientes que tomamos quando não sabemos exatamente o que queremos para a vida. Assim são todos os personagens do longa: fascinantes por serem erráticos nessa busca incessante que alimentamos por um suposto caminho certo, quando, na verdade, irremediavelmente, todos não deixam de ser errados dependendo da perspectiva. Scarlett Johansson, Rebecca Hall e Javier Bardem desdobram tais reflexões com uma química impecável, mas é Penélope Cruz, em uma fase iluminada depois da merecida e positiva reviravolta trazida para a sua carreira por Volver, que rouba a cena. É, enfim, um momento inspirado na prolífera carreira de um diretor cuja trajetória no Cinema hoje está basicamente encerrada após a avassaladora onda do movimento #MeToo.

Um comentário em “Dez ótimos filmes que completaram dez anos de lançamento em 2018

  1. Da sua lista, só não assisti a “Chega de Saudade”. Curioso você listar “A Família Savage”, pois a Tamara Jenkins, depois de 10 anos ausente do cinema, lançou este ano o excelente “Mais uma Chance”, que está disponível na Netflix. Você já assistiu? Recomendo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: