Cinema e Argumento

“Dor e Glória”: Almodóvar recorre à “autoficção” para abandonar a sua recente estagnação criativa

Direção: Pedro Almodóvar

Roteiro: Pedro Almodóvar

Elenco: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Leonardo Sbaraglia, Asier Etxeandia, Julieta Serrano, Cecilia Roth, Nora Navas, Pedro Casablanc, Raúl Arévalo, César Vicente, Susi Sánchez

Dolor Y Gloria, Espanha, 2019, Drama, 113 minutos

Sinopse: Salvador Mallo (Antonio Banderas) é um melancólico cineasta em declínio que se vê obrigado a pensar sobre as escolhas que fez na vida quando seu passado retorna. Entre lembranças e reencontros, ele reflete sobre sua infância na década de 1960, seu processo de imigração para a Espanha, seu primeiro amor maduro e sua relação com a escrita e com o cinema. (Adoro Cinema)

É algo que nós fazemos com frequência, mas que deveria ser banido de qualquer comportamento cinéfilo porque se revela tão injusto quanto contraprodutivo: analisar cada novo filme de um diretor a partir daquilo que um dia ele já fez de melhor. O dano é duplo, uma vez que isso impulsiona a possibilidade do espectador se decepcionar e abre margem para cineastas se tornarem reféns de um determinado status que eles podem não alcançar novamente. Nos últimos anos, entre Abraços Partidos, Os Amantes PassageirosJulieta, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar foi vítima dessa pressão, mergulhando em uma crise artística que chegou a diluir sua marcante identidade como realizador. Excetuando A Pele Que Habito, drama excepcional e disruptivo concebido nesse meio tempo, a trajetória recente do espanhol trazia um brilhante diretor andando em círculos e preso à tentativa de emular elementos que ele mesmo consagrou em Tudo Sobre Minha Mãe, Fale Com Ela e Volver, três de suas obras mais (re)conhecidas desde o final dos anos 1990.

E, então, chegamos a Dor e Glória, um projeto que, ironicamente, só poderia ser realizado por esse Almodóvar que tropeçou e aproveitou a oportunidade para repensar o que não deu certo até aqui. Não é palpite: em entrevista à revista Variety, o diretor assumiu que Dor e Glória marca o início de uma nova fase da sua carreira. As cores e os melodramas (não no sentido pejorativo) seguem em voga, agora para moldar uma narrativa mais contida, o que não deixa de ser um desafio para um realizador sempre tão vibrante em forma e conteúdo. Para tanto, ele não abandona suas bagagens pessoais e as traz mais uma vez para a fibra emocional de Dor e Glória. Entretanto, não se trata necessariamente de uma autobiografia. Seria mais justo usar um termo mencionado pelo próprio filme: “autoficção”, no sentido de que muitos dos sentimentos e momentos vividos pelo protagonista são semelhantes a vários que o próprio Almodóvar viveu. A diferença é que, para fins cinematográficos, tais sentimentos e momentos são adaptados conforme as necessidades dramáticas da história e de seu protagonista. É uma tônica fascinante para um longa tão meticuloso e trabalhado em detalhes.

Dor e Glória apresenta um diretor renascido e sem qualquer intenção de conscientemente imprimir sua digital na tela, equívoco que afundou Julieta, onde Almodóvar parecia não compreender as reais necessidades de um longa que precisava preservar toda a delicadeza de uma escritora como Alice Munro, cujos contos davam origem à trama. Mais contido, Dor e Glória lança um olhar sobre a fadiga física e emocional do envelhecimento. O protagonista, um diretor de cinema que já não filma mais porque está soterrado por dores na coluna, abre muitas discussões e reflexões sobre essa fase da vida que coloca a nossa existência sob uma perspectiva bastante diferente, onde renascimento e desistência parecem sempre faces de uma mesma moeda. Antonio Banderas, que nunca foi um ator excepcional seja em inglês ou espanhol, recebeu um merecido prêmio de melhor ator no Festival de Cannes por incorporar, com humanidade e sobriedade, o tumulto interior desse homem que não sabe muito bem para onde ir e que, por obra do destino, revisita sua vida profissional e pessoal para finalmente entender se ainda consegue ver alguma beleza no ato de seguir em frente. É o tipo de desempenho que marca uma carreira.

Utilizando-se do cinema e pontualmente do teatro para reacender queridas e dolorosas memórias de seu personagem principal, o filme traz o DNA de Almodóvar com extrema organicidade: a influência materna, a descoberta da homossexualidade, os amores que marcam uma vida e os conflitos artísticos estão na tela com toda paixão que é habitual ao diretor. Nessa mistura, há economia e sinceridade para fazer com que, por exemplo, uma coadjuvante como Penélope Cruz surja iluminada a cada cena ou para que uma breve sequência entre Banderas e o galã argentino Leonardo Sbaraglia remonte, a partir de uma mera noite de conversa entre os dois, uma gama de histórias e sentimentos que marcaram todo um universo particular. Simplíssimo (e, por isso mesmo, tão assertivo), Dor e Glória termina com uma pequena grande revelação que é ao mesmo tempo inteligente, afetiva e simbólica. Ela aponta para a ideia de que, talvez pela primeira vez em sua trajetória recente, Almodóvar esteja finalmente em sintonia com ele mesmo. A preocupação não está mais em imitar uma era de ouro e sim em seguir a sua própria intuição, sem compromisso com qualquer expectativa. Não sei quanto a vocês, mas acredito que é dessa lógica que saem as experiências cinematográficas mais interessantes.

47º Festival de Cinema de Gramado #1: conhecendo os filmes em competição e as homenagens de 2019

Com estreia programada inicialmente para agosto, Hebe – A Estrela do Brasil agora integra a competição do Festival de Cinema de Gramado e chegará às salas brasileiras no dia 23 de setembro.

Chegando aos 47 anos, o Festival de Cinema de Gramado anunciou hoje (09), em coletiva de imprensa realizada na Cinemateca Capitólio, de Porto Alegre, os filmes que disputam o Kikito e o quarteto de homenageados que receberá as cobiçadas distinções da mais nova edição do evento. Gramado, que vem de uma recente temporada de perdas (faleceram, desde 2018, o apresentador Leonardo Machado e os curadores Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho), segue levando para o Palácio dos Festivais uma competição formada inteiramente por títulos inéditos em território nacional. Segundo o curador Marcos Santuario, a seleção já havia sido bem desenhada ainda quando Rubens estava vivo. Ou seja, uma boa parcela dos longas escolhidos para o evento ainda leva a chancela do saudoso crítico de cinema que perdemos no último mês de junho.

Entre o popular e o autoral, os filmes selecionados representam cinco estados diferentes e reúnem novos nomes da produção recente, assim como cineastas já celebrados inclusive recentemente pelo evento serrano. Da cinebiografia Hebe – A Estrela do Brasil, passando pelo novo filme de Miguel Falabella (Veneza, com ninguém menos que Carmen Maura!), até o retorno de nomes como Iberê Carvalho (O Homem Cordial) e a dupla Andradina Azevedo e Dida Andrade (30 Anos Blues), o Festival peca, entretanto, ao não contemplar qualquer obra dirigida por mulheres, fazendo um amargo contraponto à edição de dois anos atrás, quando quatro dos sete títulos selecionados eram comandados por nomes femininas. Nunca se sabe o que chegou aos curadores, mas é um tanto implausível imaginar que nenhuma cineasta tenha realizado uma obra à altura do evento entre as 195 inscritas no segmento nacional.

Gramado também aposta no ineditismo em território nacional quando os títulos estrangeiros entram em pauta. Ainda assim, é uma mostra que segue à sombra dos tempos em que ela própria já premiou Pedro Almodóvar com De Salto Alto, Javier Bardem com Segunda-Feira ao Sol, César Charlone com O Banheiro do Papa e Gustavo Taretto com o irresistível Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual. São sete países contemplados na mostra ibero-americana, mas é consenso que, nos últimos anos, esta não tem sido a vocação cinematográfica mais expressiva do evento. Para completar, 34 curtas-metragens, entre produções gaúchas e nacionais, estão em competição. O filme que abre a maratona de projeções no Palácio dos Festivais em caráter hors-concours é o aguardadíssimo Bacurau, longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles laureado com o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes.

Atração à parte para o público que lota o entorno do Tapete Vermelho na cidade gaúcha, as homenagens são possivelmente o ponto alto da edição deste ano, pois quebram uma questão cultural bastante antiquada e perpetuada por prêmios e festivais ao redor do mundo: a de que atores e cineastas só devem ter carreiras celebradas quando chegam à terceira idade. É saudável sim premiar gerações mais novas, inclusive porque elas estão aí trabalhando, muitas vezes no auge de suas respectivas carreiras. Homenagens não devem simbolizar o fim de uma trajetória ou o saudosismo por tempos que não voltam mais, mas sim o aplauso para carreiras exemplares, artistas inspiradores e contribuições que desde hoje já provam o seu lugar na indústria, independentemente da idade.

Dito isso, Gramado acerta em cheio ao entregar o Troféu Oscarito para Lázaro Ramos e o Kikito de Cristal para Leonardo Sbaraglia (visto recentemente como uma pulsante paixão de Antonio Banderas em Dor e Glória), atores com 40 e 49 anos, respectivamente. A diretora e atriz Carla Camurati, aos 58, receberá o Troféu Eduardo Abelin. O único ponto inexplicável das homenagens deste ano é Mauricio de Sousa: ainda que se reconheça o legado do cartunista e o fato do Troféu Cidade de Gramado ser um prêmio do município para figuras que contribuíram para a divulgação do evento e da cidade, não deixa de ser estranho ver alguém com laços cinematográficos quase inexistentes recebendo a mesma distinção que já foi parar nas mãos de nomes como Wagner Moura, Lima Duarte, Eva Wilma e Rodrigo Santoro.

O 47º Festival de Cinema de Gramado acontece entre os dias 16 e 24 de agosto de 2019. Confira abaixo a lista completa de filmes selecionados:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
30 Anos Blues (SP), de Andradina Azevedo e Dida Andrade
Hebe – A Estrela do Brasil (SP), de Maurício Farias

O Homem Cordial (DF), de Iberê Carvalho
Pacarrete (CE), de Allan Deberton
Raia 4 (RS), de Emiliano Cunha
Veneza (RJ), de Miguel Falabella
Vou Nadar Até Você (SP), de Klaus Mitteldorf

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
A Son of Man – La Maldición del Tesoro de Atahualpa (Equador), de Jamaicanoproblem
Dos Fridas (México e Costa Rica), de Ishtar Yasin
El Despertar de las Hormigas (Costa Rica), de Antonella Sudasassi Furnis
En el Pozo (Uruguai), de Bernardo e Rafael Antonaccio
La Forma de las Horas (Argentina), de Paula de Luque
Muralla (Bolívia), de Rodrigo Alfredo Alejandro Patiño Sanjines
Perro Bomba (Chile), Juan Caceres

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Amor aos Vinte Anos (SP), de Felipe Arrojo Poroger e Toti Loureiro
Apneia (PR), de Carol Sakura e Walkir Fernandes
O Balido Interno (PE), de Eder Deó
E o Que a Gente Faz Agora? (BA), de Marina Pontes
A Ética das Hienas (PB), de Rodolpho de Barros
Invasão Espacial (DF), de Thiago Foresti
Marie (PE), de Leo Tabosa
Menino Pássaro (SP), de Diogo Leite
A Mulher Que Sou (PR), de Nathália Tereza
A Pedra (RS), de Iuli Gerbase
Sangro (SP), de Tiago Minamisawa, Bruno H Castro e Guto BR
Um Tempo Só (SP), de Lane Alves
Teoria Sobre um Planeta Estranho (MG), de Marco Antônio Pereira
O Véu de Amani (DF), de Renata Diniz

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Budapest_v4_final2 (Porto Alegre), de Gabriel Motta
buitenlanders/estrangeiros (Porto Alegre), de Cassio Tolpolar
O Carnaval de Gregor (Caxias do Sul), de Kiwi Bertola
Dia de Mudança (Porto Alegre), de Boca Migotto
É Assim que Você Parece (São Leopoldo), de Pedro Valadão
Êles (Porto Alegre), de Roberto Burd
Endotermia (Porto Alegre), de Emiliano Cunha
Kerexu (Porto Alegre), de Denis Rodriguez e Leonardo Remor
Linha Travessão (Porto Alegre), de Douglas Roehrs
A Maior Locadora do Mundo (Porto Alegre), de Matheus Mombelli
O Menino da Terra do Sol (Bento Gonçalves), de Michel Marchetti
A Pedra (Porto Alegre), de Iuli Gerbase
Quero ir para Los Angeles (Porto Alegre), de Juh Balhego
Só Sei Que Foi Assim (Pelotas), de Giovanna Muzel
Sonata (Porto Alegre), de Felipe Diniz
Stardust (Porto Alegre), de P.Zaracla
Tempestade e a Janela de Papel (Porto Alegre), de Viviane Locatelli
Tesourinho (Pelotas), de Bruna Dreyer Nery
Veraneio (Porto Alegre), de Nelson Diniz
Who’s That Man Inside My House? (Sapucaia do Sul), de Lucas Reis

“Turma da Mônica: Laços” é a adaptação live action que o público tanto merecia

Tem coisa mais chata do que ser normal?

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Thiago Dottori, baseado na obra de Mauricio de Sousa e inspirado na graphic novel “Laços”, de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi

Elenco: Kevin Vechiatto, Giulia Benite, Gabriel Moreira, Laura Rauseo, Paulo Vilhena, Monica Iozzi, Fafá Rennó, Ravel Cabral, Rodrigo Santoro

Brasil, 2019, Aventura, 97 minutos

Sinopse: Floquinho, o cachorro do Cebolinha (Kevin Vechiatto), desapareceu. O menino desenvolve então um plano infalível para resgatar o cãozinho, mas para isso vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos Mônica (Giulia Benite), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira). Juntos, eles irão enfrentar grandes desafios e viver aventuras para levar o cão de volta para casa.  

A Disney vem tentando desde os anos 1990, mas é o Brasil que agora mostra como se faz: com imensa graça, carisma e nostalgia, Turma da Mônica: Laços chega às salas de cinema ostentando, com folga, o título de melhor adaptação live action de um universo consagrado no plano dos quadrinhos infantis e das animações. Desde 1994, quando lançou 101 Dálmatas até mais recentemente com DumboAladdin e um estratégico calendário de dominação mundial, a Disney produziu diversas adaptações com pessoas em carne e osso que, no máximo, poderiam ser encaradas como uma boa diversão. Raríssimos foram os títulos do estúdio que deixaram de ser uma mera cópia da animação original para reverenciar o material de origem com qualidades próprias (A Bela e a Fera dividiu opiniões, mas, por se assumir orgulhosamente como musical, ganhou de todas as outras adaptações em autenticidade). Pois Turma da Mônica: Laços, que celebra os icônicos personagens da obra de Mauricio de Sousa a partir da graphic novel de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi, faz tudo isso e mais um pouco, encantando adultos e crianças com a mesma facilidade.

Elogiado em 2017 por sua enérgica estreia como diretor em Bingo – O Rei das Manhãs, Daniel Rezende, antes montador de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta, Tropa de Elite e A Árvore da Vida, segue despontando como um dos realizadores mais interessantes dos últimos anos. Sua versatilidade é tão notável quanto revigorante: se o álcool, as drogas e o politicamente incorreto compuseram o centro cômico e dramático de Bingo, a inocência, a delicadeza e a nostalgia tomam conta de Turma da Mônica: Laços com grande frescor cinematográfico. Para início de conversa, há de se celebrar a bela homenagem que o filme faz a uma infância que não existe mais, com personagens que correm pelas ruas, andam de bicicleta, visitam uns aos outros e conhecem até o dono da única banca de revistas da vizinhança. Tudo isso é simplesmente impensável nos dias de hoje, quando a infância passou a ter outras atribuições. E, ao encenar uma aventura a partir dessa perspectiva, Turma da Mônica: Laços brilha, sem parecer antiquado ou fake: tanta inocência termina por reforçar todo o caráter saudoso e afetuoso de um universo desenvolvido com incansável criatividade por Mauricio de Sousa desde os anos 1960.

Reconstituído com uma parte técnica por vezes surpreendente (entre outros aspectos, não é sempre que o cinema brasileiro mais “comercial” consegue usar tão bem uma trilha sonora instrumental como aqui), o Bairro do Limoeiro, vizanhança onde vivem Mônica (Giulia Benite), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Cascão (Gabriel Moreira) e Magali (Laura Rauseo), pode parecer limpo e perfeitinho demais, sensação que se dissipa na medida em que adentramos a vida dos personagens e compreendemos o tipo de homenagem que o filme presta a tempos que deixam saudades. A pegada lúdica de Turma da Mônica: Laços tem origem no próprio roteiro, que não se preocupa em desenvolver aventuras mirabolantes, reflexões profundas ou plot twists para uma história de mistério. Na verdade, a simplicidade da história é cristalina, ainda que isso, em determinado momento, custe alguns pontos ao filme: o terceiro ato é a parcela menos interessante da trama justamente porque busca criar maior suspense e expectativa pela resolução do conflito envolvendo um resgate.

Para chegar ao quarteto de atores mirins que dá vida a personagens amados por incontáveis gerações, Turma da Mônica: Laços realizou aproximadamente dois mil testes em dez cidades brasileiras. A criteriosa seleção resultou em um acerto dos mais preciosos: tanto os atores selecionados são uma simpatia só quanto demonstram ser realmente bons intérpretes. Essa combinação é importante porque o roteiro de Thiago Dottori exige mais do que somente crianças carismáticas em cena. Além de incorporar as características que eternizaram seus respectivos personagens, os atores precisam abraçar certos desafios dramáticos quando o filme, também ciente da esperteza de seu público, coloca Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão em conflito com suas próprias diferenças. Turma da Mônica: Laços mostra que conviver não é fácil, mesmo com as nossas pessoas favoritas, mas que são justamente essas relações que nos salvam de muita coisa no mundo. Entre a celebração da obra de Mauricio de Sousa e a preocupação em realizar um longa com vida própria, Daniel Rezende acerta triplamente, entregando uma excelente adaptação live action, uma divertida aventura para os pequenos e uma sessão que também será aproveitada pelos adultos. Turma da Mônica: Laços é, enfim, uma experiência para guardar no coração.

O cinema e os nossos amigos (adeus, querido Rubens!)

O crítico de cinema Rubens Ewald Filho em foto de Rafael Roncato

“O cinema é um grande companheiro, todo dia trazendo uma surpresa nova. Revejo os filmes como quem reencontra velhos amigos.” – Rubens Ewald Filho

Hoje perdemos Rubens Ewald Filho.

No mesmo dia em que é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro.

No mesmo dia que marca o centenário do nascimento de Pauline Kael, uma das maiores críticas de cinema que já passaram pelo nosso plano.

Tudo o que Rubens representou para a popularização da crítica de cinema, para a reverberação midiática da cultura e para o cinema brasileiro está aí nas inúmeras homenagens que, com imensa justiça, já estão sendo feitas a ele. No que me toca, posso falar sobre um outro Rubens: aquele que conheci há quase dez anos, no meu primeiro Festival de Cinema de Gramado, e também aquele que, durante todo esse tempo em que convivemos e trabalhamos juntos no evento, sempre me tratou com extrema generosidade e humanidade.

Ao receber a fatídica notícia da sua despedida, imediatamente tentei puxar à memória o último momento em que estive com ele. E — que sorte a minha! — é um momento que lembro de maneira muito viva. Foi logo após a entrega dos Kikitos do Festival de Cinema de Gramado em 2018, quando esbarrei com Rubens na entrada de um hotel da cidade. Com a curiosidade e a preocupação com o trabalho que lhe eram característicos, me perguntou se eu havia considerado coerentes os prêmios daquela noite e se havíamos feito uma boa edição do evento. Concordamos em basicamente tudo, com o que era justo e com o que não era. E ele ouvia. Com atenção e interesse. Algo cada vez mais raro nos dias de hoje.

Ao fim da conversa, Rubens me fez duas cobranças. A primeira por tê-lo convidado a participar apenas uma vez aqui do blog. Ele disse que escreveria sobre o que eu quisesse e que estaria sempre disposto a contribuir para a minha trajetória como crítico de cinema. A segunda foi por eu não ter prometido seguir a sua sugestão de que, com os anos que trabalhei em Gramado, um dia escreveria um livro falando, de forma bem humorada, ficcional e curiosa, sobre tudo o que vemos e vivemos com personalidades e jornalistas nos bastidores de um evento de cinema. O prefácio seria escrito por Rubens Ewald Filho, ele garantiu.

Confesso que, mais uma vez, não prometi que escreveria o tal livro. E registro essa pequena lembrança que hoje me bate de forma tão emocionante como uma forma de reparação, realizando pelo menos um tantinho do que ele queria que eu fizesse. Ou seja, ainda que no blog e em poucas palavras, eu deixo eternizada ao menos uma lembrança de um evento de cinema. E com ninguém menos que Rubens Ewald Filho.

Após a nossa última conversa, abracei Rubens, e prometemos que nos veríamos no próximo Festival. Separei, nesse meio tempo, todos os guias de DVD que ele escreveu ao longo da carreira e que tanto despertaram a cinefilia que hoje existe em mim para que ele autografasse da próxima vez que nos víssemos. Era um absurdo termos trabalhado juntos durante quase dez anos e eu nunca ter levado nenhum livro para que ele pudesse escrever uma dedicatória (malditos tempos digitais!).

Isso, no entanto, não deixa de ser uma bobagem: o tanto que Rubens me incentivou e fez parte da minha história como uma “pessoa de cinema” (termo que ele próprio gostava de usar) não cabe em uma dúzia de palavras assinadas em um papel. O Rubens que fica comigo é aquele que leu meus textos, incentivou minha escrita, deu conselhos quando eu estava nervoso antes de entrevistar uma atriz e que se revelou, de fato, a pessoa querida e generosa que, desde muito jovem, eu imaginava que ele pudesse ser ao ler seus comentários sobre cinema.

Na vez em que escreveu para o Cinema e Argumento em 2013, Rubens falou sobre algumas das interpretações do cinema que mais lhe marcaram, citando, entre as atrizes, Debbie Reynolds. À época, um trecho em particular me comoveu, e agora ganha outro sentido: “Debbie até hoje trabalha (fez há pouco Behind the Candelabra, para a HBO, com Michael Douglas), tem um estúdio de ensaios e faz shows para se sustentar. Vai morrer em cena, sempre gosta de dizer. Como eu também gostaria que fosse comigo”.

Que bom que o destino atendeu a esse seu pedido.

Obrigado por tudo, Rubens!

“Obsessão”: suspense insípido e antiquado desperdiça até mesmo a presença de Isabelle Huppert

I’m like chewing gum.

Direção: Neil Jordan

Roteiro: Neil Jordan e Ray Wright, baseado em história de Ray Wright

Elenco: Chloë Grace Moretz, Isabelle Huppert, Maika Monroe, Colm Feore, Stephen Rea, Zawe Ashton, Thaddeus Daniels, Jane Perry, Jeff Hiller, Parker Sawyers, Raven Dauda, Jessica Preddy

Sinopse: Frances (Chloë Grace Moretz) é uma jovem cuja mãe acabou de falecer. Acabando de se mudar para Manhattan e cheia de problemas com o pai, ela forma uma amizade improvável com Greta (Isabelle Huppert), uma viúva bem mais velha que ela. Porém, conforme as duas se tornam melhores amigas, as atenções da viúva se mostram muito mais sinistras do que ela imaginava. (Adoro Cinema)

Ícone do cinema francês, Isabelle Huppert é uma workaholic nata. Aos 66 anos, a protagonista de Elle e A Professora de Piano, citando os títulos que lhe renderam maior repercussão mundo afora, registra segundo o IMDb, mais de 130 títulos na carreira entre filmes, séries e minisséries até a data desse texto. É um feito e tanto, algo que Huppert aproveitou como ninguém: trabalhando com inúmeros mestres do cinema europeu e mundial, ela conjugou talento e oportunidade como poucas intérpretes, mesmo que, de vez em quando, o resultado de muitos dos filmes com sua presença como protagonista estejam longe de qualquer ideal de excelência. Raramente qualidade acompanha quantidade, principalmente com quem nunca desacelera, mas, em certos casos, é difícil crer como uma atriz do calibre de Huppert pode se envolver com pequenas bombas como esse Obsessão, um suspense que, antiquado e repetitivo, sequer alcança o status de guilty pleasure.

Na teoria, vale um desconto e um voto de confiança: Obsessão é dirigido por Neil Jordan, que realizou Traídos Pelo DesejoEntrevista Com o Vampiro, Fim de Caso e Café da Manhã em Plutão. Na prática, entretanto, é difícil nutrir qualquer interesse por um roteiro escrito no piloto-automático a partir de um amontoado de clichês envolvendo a clássica história da mocinha ingênua e machucada pela vida que passa a se relacionar com uma secreta maluca. Não há clima em Obsessão, que, além da previsibilidade e da superficialidade com que constrói conflitos, tenta criar envolvimento com personagens que frequentemente tomam decisões inexplicáveis, como entrar em um beco escuro e vazio durante uma perseguição ou resolver situações com suas próprias mãos quando isso claramente era caso de polícia (e o filme se utiliza de desculpas pouco convincentes para descartar a ajuda de autoridades). Toda essa combinação é muito antiquada e, quando não há um quê de homenagem ou esperteza, chegamos a resultados aborrecidos como esse.

No papel da viúva carente e descontrolada que faz da vida da protagonista um verdadeiro inferno, Isabelle Huppert, claro, é o que existe de melhor em Obsessão. Toda sua seriedade como intérprete é mais uma vez perceptível aqui porque sua personagem é extremamente mal trabalhada. Ou seja, se o roteiro não traz o mínimo de curiosidade, sutileza ou complexidade para uma mulher que é obsessiva e perigosa simplesmente por ser (os traços do passado que tentam esclarecer seu comportamento são rasteiros), Huppert se empenha ao máximo para ao menos conferir um tom macabro à figura que interpreta. Em um mundo ideal, ela travaria um delicioso duelo físico e psicológico com uma atriz interessante, mas Chloë Grace Moretz, que, um dia despontou como uma boa promessa (Kick-Ass!), é insossa como em tantas outras oportunidades em seu currículo até agora. Sendo assim, o que temos é uma mocinha cansativa e uma vilã bem incorporada por uma grande veterana, mas mal aproveitada por um roteiro vazio.

Como diretor, Neil Jordan dá pouquíssima tração a um texto oco e que depende demais de uma boa condução para se tornar minimamente envolvente. Sem uma mão mais firme ou criativa, Obsessão se mostra frágil por todos os lados, com coadjuvantes unidimensionais e caminhos já esperados para uma obra dessa natureza, incluindo o clímax regado a perucas, sedativos, seringas e revólveres. Se não fosse para ser um suspense de primeira linha, Obsessão poderia ter sido ao menos um passatempo divertido ou uma refinada brincadeira com elementos que, nos anos 1980 e 1990, chegaram a proporcionaram momentos inesquecíveis para grandes atrizes (como esquecer a marcante Alex Forrest de Glenn Close em Atração Fatal ou a Annie Wilkes de Kathy Bates em Louca Obsessão, por exemplo?). Não sendo nem uma coisa nem outra, o filme de Neil Jordan, cai no limbo e potencializa o maior dos seus pecados: o de desperdiçar uma atriz como Isabelle Huppert, que assume qualquer trabalho com o mesmo nível de envolvimento e dedicação. Isso não é coisa que se faça, Neil Jordan!