Cinema e Argumento

Os indicados ao Globo de Ouro 2021

Mank, de David Fincher, lidera a lista do Globo de Ouro 2021 com seis indicações.

Fazia certo tempo que o Globo de Ouro não era tão Globo de Ouro. Ou seja, o que vimos na lista de indicados revelada hoje para a edição 2021 do prêmio entregue pela Hollywood Foreign Press Association oscilou entre o lugar-comum e a bizarrice. Para não ser injusto, faço uma correção: é de lavar a alma ver nada menos do que três mulheres concorrendo na categoria de direção, algo importantíssimo e simbólico em inúmeros sentidos. E fica por aí. Na própria categoria de direção, por exemplo, a decepção já se faz presente com as indicações de David Fincher (Mank) e Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago). Ambos são profissionais talentosos, mas, dessa vez, entregam trabalhos sem inspiração. Não deixa de ser reflexo de um grupo de votantes acomodado com os lançamentos da Netflix, que lidera a lista com 22 indicações, seguida muito de longe pela Amazon Studios com apenas sete.

Há outros fatos inexplicáveis, como James Corden concorrendo como melhor ator em comédia/musical pelo pavoroso A Festa de Formatura, enquanto sua colega Meryl Streep ficou de fora em uma categoria basicamente sem concorrência, onde ela também poderia ter emplacado por Let Them All Talk. Aliás, o segmento das comédias poucas vezes esteve tão fraco: para efeitos de projeção ao Oscar, é provável que nenhum dos indicados, sejam eles filmes ou atores, caiam nas graças da Academia. A ausência total do ótimo Destacamento Blood, de Spike Lee, também deixa um inegável gosto amargo por múltiplas razões, começando pelo fato de que a lista não incluiu filmes protagonizados por negros na categoria principal e sequer indicou Delroy Lindo como protagonista ou o próprio Spike Lee a diretor em um ano que, como já comentado, David Fincher e Aaron Sorkin são lembrados por trabalhos nada marcantes.

Ainda assim, o vexame maior fica com as indicações de melhor série e melhor atriz em comédia/musical para Emily in Paris, uma produção da Netflix repleta de clichês, tolas ingenuidades, fórmulas ultrapassadas e sem o mínimo de inspiração ou capacidade de dizer algo que já não tenha sido dito por outros programas. Seguindo linha semelhante, não há como defender a presença de Ratched em melhor série dramática, atriz e atriz coadjuvante. A série é, sem dúvidas algo exagerado e desconjuntado até mesmo para os padrões de Ryan Murphy. Tão inaceitável quanto tudo isso é o fato de I May Destroy You, da HBO, ter sido completamente ignorada, quando, na verdade, é uma minissérie que compreende como poucas os sentimentos, as relações, os traumas e as dinâmicas da juventude atual. 

Para um ano que tanto nos exigiu garimpar filmes e séries diferentes devido aos efeitos da pandemia, o Globo de Ouro se limitou a fazer mais do mesmo. E com direito a ideias bastante indigestas. Os vencedores serão revelados no dia 28 de fevereiro. Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA
Os 7 de Chicago
Bela Vingança
Mank
Meu Pai
Nomadland

MELHOR FILME – COMÉDIA/MUSICAL
Borat: Fita de Cinema Seguinte
A Festa de Formatura
Hamilton
Music
Palm Springs

MELHOR DIREÇÃO
Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
Chloé Zhao (Nomadland)
David Fincher (Mank)
Emerald Fennell (Bela Vingança)
Regina King (Uma Noite em Miami…)

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Andra Day (The United States vs. Billie Holiday)
Carey Mulligan (Bela Vingança)
Frances McDormand (Nomadland)
Vanessa Kirby (Pieces of a Woman)
Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)

MELHOR ATOR – DRAMA
Anthony Hopkins (Meu Pai)
Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
Gary Oldman (Mank)
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Tahar Rahim (The Mauritanian)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Anya Taylor-Joy (Emma.)
Kate Hudson (Music)
Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte)
Michelle Pfeiffer (French Exit)
Rosamund Pike (Eu Me Importo)

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Andy Samberg (Palm Springs)
Dev Patel (A História Pessoal de David Copperfield)
James Corden (A Festa de Formatura)
Lin-Manuel Miranda (Hamilton)
Sacha Baron Cohen (Borat: Fita de Cinema Seguinte)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amanda Seyfried (Mank)
Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho)
Helena Zengel (Relatos do Mundo)
Jodie Foster (The Mauritanian)
Olivia Colman (Meu Pai)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Bill Murray (On the Rocks)
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
Jared Leto (Os Pequenos Vestígios)
Leslie Odom Jr. (Uma Noite em Miami…)
Sacha Baron Cohen (Os 7 de Chicago)

MELHOR ROTEIRO
Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
Chloé Zhao (Nomadland)
Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
Emerald Fennell (Bela Vingança)
Jack Fincher (Mank)

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
La Llorona (Guatemala/França)
Minari (Estados Unidos)
Nós Duas (França/Estados Unidos)
Rosa e Momo (Itália)

MELHOR ANIMAÇÃO
A Caminho da Lua
Os Croods 2: Uma Nova Era

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica
Soul
Wolfwalkers

MELHOR TRILHA SONORA
Alexandre Desplat (O Céu da Meia-Noite)
James Newton Howard (News of the World)
Ludwig Göransson (Tenet)
Trent Reznor e Atticus Ross (Mank)
Trenz Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste (Soul)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
Música de Dernst Emile II e H.E.R.
Letra de H.E.R. e Tiara Thomas

“Hear My Voice” (Os 7 de Chicago)
Música de Daniel Pemberton
Letra de Celeste Waite e Daniel Pemberton

“Io Sí” (Rosa e Momo)
Música de Diane Warren
Letra de Diane Warren, Laura Pausini e Niccolò Agliardi

“Speak Now” (Uma Noite em Miami…)
Música e Letra de Leslie Odom Jr. e Sam Ashworth

“Tigrees & Tweed” (The United States vs. Billie Holiday)
Música e Letra de Andra Day e Raphael Saadiq

SÉRIES, MINISSÉRIES, ANTOLOGIAS E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMA
The Crown

Lovecraft Country
The Mandalorian
Ozark
Ratched

MELHOR SÉRIE – COMÉDIA/MUSICAL
Emily in Paris

The Flight Attendant
The Great
Schitt’s Creek
Ted Lasso

MELHOR MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
O Gambito da Rainha

Nada Ortodoxa
Normal People
Small Axe
The Undoing

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Emma Corrin (The Crown)
Olivia Colman (The Crown)
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Sarah Paulson (Ratched)

MELHOR ATOR – DRAMA
Al Pacino (Hunters)

Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Jason Bateman (Ozark)
Josh O’Connor (The Crown)
Matthew Rhys (Perry Mason)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)

Elle Fanning (The Great)
Jane Levy (Zoey’s Extraordinary Playlist)
Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
Lily Collins (Emily in Paris)

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Don Cheadle (Black Monday)
Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Nicholas Hoult (The Great)
Ramy Youssef (Ramy)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Cate Blanchett (Mrs. America)

Daisy Edgar-Jones (Normal People)
Shira Haas (Nada Ortodoxa)
Nicole Kidman (The Undoing)
Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha)

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Bryan Cranston (Your Honor)

Ethan Hawke (The Good Lord Bird)
Hugh Grant (The Undoing)
Jeff Daniels (The Comey Rule)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Annie Murphy (Schitt’s Creek)

Cynthia Nixon (Ratched)
Gillian Anderson (The Crown)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Julia Garner (Ozark)

MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Brendan Gleeson (The Comey Rule)

Daniel Levy (Schitt’s Creek)
Donald Sutherland (The Undoing)
Jim Parsons (Hollywood)
John Boyega (Small Axe)

Rapidamente: “Os 7 de Chicago”, “Era Uma Vez Um Sonho”, “Mank” e “Soul”

Aguardado como o filme que finalmente poderia dar o Oscar para Amy Adams e Glenn Close, Era Uma Vez um Sonho acabou como uma das grandes frustrações de 2020 segundo a crítica norte-americana. E com razão.

OS 7 DE CHICAGO (The Trial of the Chicago 7, 2020, de Aaron Sorkin): Ben Stiller, Paul Greengrass e Steven Spielberg chegaram a se envolver com o projeto, mas quem acabou assumindo Os 7 de Chicago como diretor foi o premiado roteirista Aaron Sorkin (A Rede Social, Steve Jobs, entre outros). Seu primeiro longa na cadeira de direção foi A Grande Jogada, em 2017, e é impressionante como, depois de dois trabalhos, fica evidente o quanto Sorkin é infinitamente melhor roteirista do que diretor. Para falar bem a verdade, no caso de Os 7 de Chicago, há até uma apatia inesperada no texto, que é formulaico em estrutura e não se esmera muito para propor novos olhares a uma história maior do que o próprio filme. Trata-se de um roteiro que lida bem com a multidão de personagens em cena (são sete apenas no título!) e que consegue tornar minimamente interessante um drama de tribunal com mais de duas horas de duração. Entretanto, todas as emoções que Os 7 de Chicago tenta transmitir são pasteurizadas e didáticas, com aquele clima empoeirado de homenagear injustiçadas figuras da vida real mais para aliviar a consciência do público norte-americano do que para cutucar a ferida de incontáveis problemas dos sistemas políticos, sociais e jurídicos do país que, do ponto de vista de construção dramática, são retratados basicamente como obstáculos a serem ultrapassados pelos personagens. Nada na direção de Os 7 de Chicago aponta para a ideia de que Sorkin, após anos vendo seus roteiros tomarem forma nas mãos de grandes cineastas como Mike Nichols e David Fincher, tenha descoberto algum tipo de vocação genuína para esse ofício. É um bom entretenimento para quem se dá por satisfeito com o básico, e frustrante para quem, como este que vos fala, está sempre em busca do que existe de novo a ser dito. De qualquer maneira, em ambos os casos, dá para aproveitar a presença do excelente elenco, onde todos estão em sólida sinergia, algo no mínimo difícil para um longa construído em cima de personagens com personalidades tão distintas e interpretados por atores de diferentes naturezas e intuições.

ERA UMA VEZ UM SONHO (Hillbilly Elegy, 2020, de Ron Howard): O filme que renderia, de uma vez só, os tão aguardados Oscars de Amy Adams e Glenn Close se revelou um dos maiores desastres de 2020 junto à crítica internacional. E, de fato, razões não faltam para classificar Era Uma Vez Um Sonho como ao menos um projeto problemático, a começar pelos caminhos tortuosos tomados pelo roteiro de Vanessa Taylor (A Forma da Água) para representar a questão da saúde mental, vista aqui com descaso e ao estilo mais reducionista possível. É complicado, em pleno século XXI, ver um filme embasado na tese de que pessoas com distúrbios mentais/emocionais se “descontrolam” ou algo parecido simplesmente por não terem força de vontade, consciência ou disciplina. O problema se intensifica quando Era Uma Vez Um Sonho nunca observa de forma crítica a situação de uma família pobre, disfuncional e desassistida pelo sistema de saúde dos Estados Unidos, conhecido por seus problemas e pela falta de programas públicos. Quando tenta dar gravidade ao tema, o diretor Ron Howard, em mais um trabalho nada inventivo, usa as mais óbvias das muletas: a de criar conflitos através de discussões que levam o elenco a berrar, discutir e se confrontar, como se isso fosse garantia de intensidade ou profundidade. Estruturada a partir de uma montagem desprovida de critério, onde o longa vai e volta no tempo sem justificar a ordem, a relevância ou a razão dos saltos temporais, a trama se concentra no personagem vivido por Gabriel Basso, jovem que deixou a família para tentar a sorte na cidade grande e que volta ao lar quando a mãe mais uma vez enfrenta problemas de longa data. Basso tenta se articular em um personagem de pouca energia, mas é jogo perdido porque, além de tudo, ele contracena com Amy Adams e Glenn Close, duas atrizes que, por serem quem são, já se destacam naturalmente. Deixo registrada uma certa defesa a elas porque, apesar das críticas pesadas também dirigidas a suas performances desde o lançamento, a dupla é dos males o menor: Amy tem coerência com uma personagem que, em função da natureza de seus distúrbios, não poderia agir ou se expressar de outra maneira, e Glenn busca conferir dimensão a uma mulher quase estereotipada em sua rispidez. Não salvam o filme ou fazem algo marcante. Apenas aliviam um pouco a frustração trazida por um folhetim desconjuntado.

MANK (idem, 2020, de David Fincher): Depois de Ryan Murphy e Aaron Sorkin, agora David Fincher se soma à lista dos diretores que se banalizaram com projetos originais para a Netflix. No caso de Fincher, o trabalho em questão é Mank, seu aguardado projeto sobre os dias em que Herman J. Mankiewicz escreveu o célebre roteiro do clássico Cidadão Kane. De início, seria possível afirmar que, na realidade, esta é uma obra específica e isolada demais em si mesma, claramente circunscrita ao público cinéfilo interessado pela Hollywood dos anos 1930 e 1940, e que, por isso mesmo, não se trata de um trabalho banal. Seria verdade se não houvesse o fator David Fincher na jogada. Para um diretor de fibra e imaginação como ele, o que se vê Mank é muito óbvio, inclusive porque Herman era um homem fora da curva, marcado por seu temperamento difícil e por sua genialidade, o que não se converte em substância dramática. Do início ao fim, a partir de um punhado expressivo de flashbacks, o filme é um estilizado desfile de curiosidades e referências cinematográficas, apresentando-se como um perfeito exemplo do lado problemático de fazer aquilo que chamamos de fan service, ou seja, algo pensado para agradar fãs (no caso, os de um específico recorte Hollywoodiano). Divertido para quem gosta. Tedioso para quem espera outro tipo de envolvimento. Lamento ter saído de Mank sabendo tão pouco sobre o personagem-título e seu processo de escrita como roteirista, pois Fincher, tão determinado a fazer um filme de cinéfilo para cinéfilos, prefere explorar, em grande escala, diversos locais, bastidores e jantares característicos do período retratado, sem jamais criar uma experiência robusta em ideias e em vida própria. Eventualmente, ele ilumina o roteiro assinado por seu pai Jack Fincher ao dirigir, por exemplo, uma radiante Amanda Seyfried e também ao explorar com inteligência a fascinante parte técnica (o trabalho de som que emula os filmes daquela época e a trilha sonora da dupla Trent Reznor e Atticus Ross são um achado), mas é dominante a atmosfera de mais do mesmo, até mesmo no que se refere a Gary Oldman como Mankiewicz, em uma interpretação acomodada e nada camaleônica. 

SOUL (idem, 2020, de Pete Docter e Kemp Powers): Boas ou ruins, as animações do selo Disney/Pixar sempre conquistam uma legião de fãs porque todas reverberam na plateia com mensagens bonitas, afetivas e, por vezes, adultas e complexas, conjugando a diversão dos pequenos e as reflexões existenciais endereçadas à vida adulta. Dos casos mais completos e recentes que acertam em cheio nessa fórmula, tenho Divertida MenteViva: A Vida é Uma Festa entre os meus títulos favoritos. Já considerando aqueles onde a mensagem se sobrepõe ao todo, evidenciando a infalibilidade e, em alguns casos, as motivações puramente comerciais, estão quase todas as continuações realizadas até aqui (Os Incríveis 2Procurando DoryToy Story 4) e outros trabalhos pontuais como ValenteSoul, o novo lançamento da Disney/Pixar, talvez esteja no segundo grupo, pela simples razão de que, excluída a bonita mensagem sobre encontrar nosso propósito, enxergar a beleza das pequenas coisas da vida e entender a dimensão dos nossos verdadeiros sonhos, o que sobra é uma dobradinha de reciclagens. A primeira é a que introduz um universo mais abstrato e detalhado em conceitos, onde os personagens observam e refletem sobre a vida tomando certa distância, exatamente como aconteceu em Divertida Mente. A segunda faz graça com a eterna brincadeira da troca de corpos, uma saída fácil demais para compensar a ausência quase total de elementos lúdicos para o público infantil. A combinação desses dois aspectos torna Soul um filme menos interessante do que a comoção causada pelas mensagens sugere, até porque elas próprias são imperfeitas. Afinal, por que a vida de professor precisa ser tratada como algo inglório ou como uma profissão que só ganha sentido se passarmos por determinadas transformações e aprendizados? É uma animação que, assim como todas da Disney/Pixar, terá um público amplo e apaixonado, ainda que esteja distante de simbolizar o pacote completo de acertos dessa parceria tão frutífera em encantamentos.

“Let Them All Talk” pulveriza o encontro de três grandes atrizes para insistir na excessiva presença de Lucas Hedges

Trying is all.

Direção: Steven Soderbergh

Roteiro: Deborah Eisenberg

Elenco: Meryl Streep, Lucas Hedges, Gemma Chan, Candice Bergen, Dianne Wiest, Daniel Algrant, John Douglas Thompson, Christopher Fitzgerald, Samia Finnerty, Fred Hechinger, David Siegel, Mike Doyle

EUA, 2020, Drama, 113 minutos

Sinopse: Uma célebre autora (Meryl Streep) faz uma viagem com algumas velhas amigas (Candice Bergen e Dianne Wiest) para se divertir e curar feridas antigas. O seu sobrinho (Lucas Hedges) junta-se a elas, bem como a sua nova agente literária (Gemma Chan), que está ansiosa para saber mais sobre o seu próximo livro.

Aos 57 anos, Steven Soderbergh já ultrapassa, segundo o IMDB, a marca de 40 títulos como diretor. É impressionante o seu vigor ao se manter na ativa porque, ao contrário de tantos outros cineastas acomodados a fórmulas, Soderbergh tem uma mente inquieta e está sempre pronto para propor e experimentar novas ideias, mesmo que grande parte de suas ousadias não se converta em bons filmes. Para fazer Let Them All Talk, seu mais novo longa-metragem disponibilizado diretamente na HBO Max, ele apostou outra vez na busca por aquilo que não é óbvio. Dessa vez, temos o diretor a bordo de um transatlântico, acompanhado de três grandes atrizes e munido de um roteiro onde o elenco recebeu a liberdade de improvisar diálogos para lapidar as ideias de um texto bastante enxuto sobre determinados conflitos. O que Soderbergh e a diretora Deborah Eisenberg queriam era fazer de Let Them All Talk uma experiência em que os intérpretes construíssem os seus personagens de forma mais intuitiva, imaginando o que poderia estar por trás das páginas do roteiro. É uma ideia ótima em função dos grandes nomes envolvidos, mas infelizmente não é o caso de um grande filme, e por uma razão difícil de acreditar: ao invés de extrair todas as possibilidades de um encontro entre Meryl Streep, Dianne Wiest e Candice Bergen, a trama insiste em desperdiçar esse trio para dar um inexplicável e excessivo destaque a outro personagem bem menos interessante interpretado pelo jovem Lucas Hedges.

A gênese dramática de Let Them All Talk está em uma atribulada amizade: Alice (Streep), Susan (Wiest) e Roberta (Bergen) se reúnem depois de muitos anos porque a primeira, uma escritora de sucesso às voltas com a finalização de um novo livro, está para receber uma homenagem e opta por viajar à Europa levando as amigas. No entanto, há um certo estranhamento entre elas, e a viagem se dará mais como uma discreta tentativa de reconciliação por parte de Alice do que como as férias dos sonhos entre três mulheres que dividiram uma vida inteira como confidentes. Let Them All Talk é muito discreto sobre a distância e o estranhamento entre essas mulheres, inclusive porque elas são quase formais umas com as outras. Também parte da tripulação, o sobrinho de Alice (Hedges) não deixa de, em tese, representar o espectador na observação dessas personagens: tanto ele quanto quem assiste ao filme tenta entender os enroscos dessa amizade de longa data e as razões quem levam Alice a manter a produção do novo livro a sete chaves. Tudo isso significa que o roteiro de Eisenberg, ao colocar uma barreira entre as protagonistas e ao se dedicar a um personagem que, assim como nós, é um estranho em meio a esse convívio, não dará a Streep, Wiest e Bergen a chance de um encontro caloroso e de deliciosa comunhão, já abalando as animadas expectativas criadas para a reunião de um elenco de tamanho talento.

As afinidades cinematográficas de cada espectador dirão se esse ponto de partida de Let Them All Talk reverbera como um banho de água fria ou como uma interessante ruptura do óbvio. Vejo como um problema, pois a proposta não é refletir sobre os meandros dos conflitos velados, e sim tentar criar alguma curiosidade, levantando questionamentos como se a relação entre as personagens fosse uma equação a ser resolvida. São muitas as perguntas feitas pelo filme, e buscar alguma resposta para elas sem de fato conheceremos as personagens acentua a frustração. Quem é o homem que Alice observa todos os dias na piscina? Por que Roberta evita tanto a amiga que tenta se reconectar com ela? Qual é, afinal, o teor do livro que Alice esconde até mesmo da própria editora? O roteiro perde um tempo precioso com as voltas dadas para construir esses pequenos mistérios, e o terço final corrobora essa sensação, quando todas as questões são respondidas com afeto, surpresa e a certeza de que Let Them All Talk só teria a ganhar se tivesse descortinado as razões de seus conflitos com antecedência. Ao colocar os pingos nos is, o roteiro proporciona, por exemplo, um belo e sincero momento entre as personagens de Meryl Streep e Candice Bergen, aí sim aproveitando suas atrizes com a devida reverência. E mais: sem muito a dizer na maior parte da projeção, o elenco parece não ter tirado grande proveito da possibilidade do improviso, o que acaba sendo um problema exclusivo de como o filme desenvolve as personagens.

Na onda do desperdício, entra o fator Lucas Hedges, um ator do qual gosto muito e que, contudo, precisa de papeis densos como os de Manchester à Beira-Mar ou Boy Erased: Uma Verdade Anulada para funcionar com substância. Sejamos justos ao concordar que é tarefa desafiadora se sobressair ao lado de atrizes como as reunidas aqui porque elas são capazes de preencher a tela apenas com suas ilustres presenças, mas Hedges realmente rema com um papel cuja presença poderia ser eliminada sem qualquer prejuízo à trama. A ideia de Let Them All Talk ter esse personagem que emula o olhar do espectador não se sustenta, pois, inclusive, descobrimos detalhes fundamentais sobre as personagens antes mesmo dele. Ou seja, tanto pela interpretação de Hedges quanto pela função do personagem dentro da narrativa, é injustificado o tempo dedicado ao garoto, que protagoniza subtramas insípidas, como os encontros repetitivos com a personagem de Gemma Chan. Para um relato essencialmente feminino, a presença de Hedges é anticlimática, nos privando de explorar melhor o íntimo das mulheres que deveriam ser as estrelas absolutas do projeto.

A decepção em não vermos ainda mais de Meryl, Candice e Diane também vem da constatação de que Let Them All Talk tem sim protagonistas com um grande repertório de camadas a ser explorado, começando pela Alice de Meryl Streep. Ela é a clássica autora angustiada por um bloqueio criativo, algo que o roteiro não torna um clichê. Primeiro porque é palpável a sua angústia, especialmente a partir do momento em que ela conhece um autor admirado pelas amigas e que está com a carreira indo de vento em poupa. E segundo porque o processo de escrita é retratado com uma abordagem muito realista, onde uma autora se vê encurralada diante de prazos e expectativas, entendendo que uma dita genialidade literária pode levar um escritor até certo ponto, mas que, como em qualquer profissão, muito depende do acaso, das circunstâncias e do estado espírito de quem executa um projeto. Não por coincidência, Alice escolheu a literatura, uma atividade solitária, como seu ganha-pão, visto que é palpável a inabilidade da personagem em administrar relações, sejam elas pessoais ou profissionais. Vale mencionar que estamos diante de um papel oferecido com pouca frequência para Meryl Streep: despida de distrações (especificamente das transformações biográficas que marcam a sua filmografia), Meryl é vista aqui em plena essência, sem caracterizações. Nesta aparição mais cristalina e cotidiana, ela possivelmente terá um dos desempenhos menos apreciados de sua carreira recente, injustiça que também a acometeu, por exemplo, em As Horas, outro papel em que dava vida a uma mulher comum.

A Alice de Meryl tem importância central, e ela está muito bem acompanhada de outras duas atrizes que, cada uma a sua maneira, contribuem para o que Let Them All Talk tem a nos oferecer de melhor: a possibilidade de vê-las juntas em cena. Quem acabou conquistando a crítica estadunidense foi Candice Bergen, dona do papel, digamos, mais chamativo do filme. Indicada ao Oscar apenas nos anos 1980 com Encontros e Desencontros, Bergen voltou a receber atenções no cinema depois de décadas confinada a papeis pequenos em comédias comerciais como Miss SimpatiaDoce LarVoando AltoNoivas em Guerra. Seu excelente repertório como atriz está bem explorado em um papel que transita entre o drama e a comédia. Infeliz no emprego e ávida por conseguir uma vida financeiramente melhor, a Roberta de Bergen tem ressentimentos de longa data com a Alice de Meryl, e é essa tônica que tira a personagem do mero alívio cômico para colocá-la como uma peça importante das melhores discussões do longa. Já Dianne Wiest abraça um papel de menos destaque em todos os sentidos, mas se junta de forma orgânica às colegas porque sua doçura habitual é perfeita para uma personagem que se vê no meio de duas amigas mal resolvidas. Toda vez que Let Them All Talk permite que as três se encontrem, a experiência sobe de patamar. É fácil perceber isso. Talvez não para Soderbergh e Eisenberg, que misteriosamente seguiram firmes com excessos de Lucas Hedges do roteiro até o corte final. Perderam, enfim, a belíssima oportunidade de festejar três grandes atrizes com a plena atenção que elas merecem. 

“A Festa de Formatura”: construindo uma trajetória inexpressiva na Netflix, Ryan Murphy realiza o pior musical dos últimos anos

One thing’s universal: life’s no dress rehearsal.

Direção: Ryan Murphy

Roteiro: Bob Martin e Chad Beguelin, baseado no conceito original de Jack Viertel e nas canções de Bob Martin, Chad Beguelin e Matthew Sklar

Elenco: Jo Ellen Pellman, Meryl Streep, James Corden, Nicole Kidman, Keegan-Michael Key, Kerry Washington, Andrew Rannells, Ariana DeBose, Tracey Ullman, Mary Kay Place, Logan Riley, Sofia Deler, Nico Greetham, Nathaniel J. Potvin

The Prom, Estados Unidos, 2020, Musical, 132 minutos

Sinopse: Dee Dee Allen (Meryl Streep) e Barry Glickman (James Corden) são estrelas do teatro em meio a uma crise: seu novo espetáculo da Broadway é um completo desastre, arruinando suas carreiras. Enquanto isso, em uma cidadezinha de Indiana, a jovem Emma Nolan (Jo Ellen Pellman) também tem seus problemas: apesar do apoio do diretor de sua escola (Keegan-Michael Key), a presidente da associação de pais (Kerry Washington) a proibiu de participar da festa de formatura com sua namorada, Alyssa (Ariana DeBose). Considerando a situação de Emma a oportunidade perfeita para reconstruir sua imagem pública, Dee Dee e Barry decidem abraçar a causa ao lado de Angie (Nicole Kidman) e Trent (Andrew Rannells), outros dois atores cínicos em busca de promoção, mas o falso ativismo acaba tomando um rumo inesperado, e a vida dos quatro vira de cabeça para baixo enquanto tentam oferecer a Emma uma noite em que ela poderá celebrar quem realmente é. (Adoro Cinema)

Em termos criativos, o diretor, roteirista e produtor Ryan Murphy talvez não tenha tomado decisão pior do que a de migrar Netflix. Antes de trocar de casa, ele havia construído um verdadeiro império na FX, onde despontou com produções ousadas como Nip/Tuck, virou sucesso de audiência com Glee, fisgou público e crítica com a antologia American Horror Story, tornou-se unanimidade ao apresentar trabalhos inspiradíssimos como The Pople v. O.J. Simpson: American Crime Story e até realizou pérolas que não foram devidamente celebradas, a exemplo da minissérie Feud: Bette and Joan. Mesmo assim, Murphy não é unanimidade e passou a ser admirado e detestado nas mesmas proporções por público e crítica. Gostos de cada espectador à parte, o que ninguém pode colocar em xeque é o seu toque de Midas na era FX, emissora que lhe catapultou como um dos produtores mais requisitados e poderosos dos Estados Unidos. Com esse histórico em vista, a Netflix investiu pesado na ideia de roubar Ryan Murphy. E pesado não é força de expressão: estima-se que o contrato assinado por ele tenha ficado na casa dos 300 milhões de dólares. A má notícia é que, até agora, o raio não caiu duas vezes no mesmo lugar: apesar da Netflix ter tomado Murphy para si, os inúmeros projetos assinados por ele nessa nova fase oscilam entre o mediano e o medíocre — e as premiações, antes tão afeitas a ele, também estão aí para concordar com esse balanço.

De The Politician a Ratched, Murphy dá a impressão de estar tirando sempre as mesmas séries do forno em tom e escala, onde até as paletas de cores se assemelham (algo recorrente na Netflix como um todo, que adora padronizar a linguagem estética dos seus maiores sucessos). A Festa de Formatura, portanto, parecia a esperança de alguma oxigenação diante desse cenário desestimulante. Um musical cômico e colorido da Broadway indicado a sete Tonys e adaptado em formato de longa-metragem com Meryl Streep e Nicole Kidman? Difícil não ser minimamente divertido ou deliciosamente cafona. E a verdade é que o resultado não é nem uma coisa, nem outra. Sem personalidade, A Festa de Formatura é um musical interminável até mesmo para os fãs do gênero, que costumam ter mais tolerância ao relevar deslizes para poder mergulhar em um universo de cinema e música por duas horas. Como admirador assumido de musicais, devo dizer: nem com muita boa vontade dá para curtir. Boa parte dos problemas vem, claro, do material original. Não assisti ao espetáculo no qual o filme é baseado, mas, julgando pela adaptação, a história em si é rasa, com dois núcleos fora de sintonia e povoada por personagens desinteressantes ou limitados a estereótipos. Ainda que se dê todos os descontos possíveis em função das liberdades criativas do gênero, a conta não fecha, pois as motivações dos protagonistas são fragilíssimas, e os conflitos descambam para discursos vazios ou para números musicais que tentam fazer graça com um timing cômico desregulado.

Autores das canções originais do espetáculo, Bob Martin e Chad Beguelin assinam o roteiro mostrando não ter aptidão para uma narrativa audiovisual, o que está evidente na (falta de) estrutura apresentada aqui: A Festa de Formatura parece terminar e recomeçar várias vezes, tornando-se quase uma tortura de tão maçante (a sensação desse vai e vem da história surge por volta da metade, quando tudo já parece estar encaminhado para o desfecho). Os problemas são elevados a uma nova potência quando descobrimos o quanto o filme é mal resolvido musicalmente, algo raro em um gênero que costuma pelo menos compensar problemas e frustrações com trilhas deliciosas. É possível encontrar boas coreografias e até atores se esforçando ao máximo para criar uma boa energia em cena, mas as músicas ilustram momentos óbvios com ainda mais obviedades, quando não interrompem o ritmo com melodias enjoativas (Just Breathe) ou com canções que são mero artifício para pontuar alguma virada na trama sem o mínimo de construção (Love Thy Neighbor). E não há economia: das letras abarrotadas de referências (EvitaO Milagre de Anne Sullivan! Broadway! As críticas do The Post!) aos números musicais protagonizados por pessoas que simplesmente não nos interessam (é de chorar de cansaço quando Andrew Rannels mobiliza todo o elenco de figurantes para cantar e dançar em um shopping center para marcar a transformação preguiçosa de vários personagens), A Festa de Formatura nos faz até esquecer que Nicole Kidman, completamente deslocada no número de Zazz, já interpretou com imenso vigor a eterna Satine de Moulin Rouge!.

Já que chegamos aos atores, são incompreensíveis as razões que levaram esse elenco a ler o roteiro e a acreditar que algo de bom poderia sair dele. Ora, não há explicação para uma atriz talentosa como Tracey Ullman aparecer de última hora com um manjadíssimo e mal construído arco de reconciliação. E o que dizer de Kerry Washington, cuja personagem muda de ideia em relação a um conflito central de um minuto para o outro, colocando toda a motivação dramática da trama na lata do lixo? Entretanto, é difícil ter participação mais constrangedora do que a de Nicole Kidman. Uma intérprete dessa estatura não deveria estar minimizada à posição de quase-figurante, onde a temos literalmente batendo latinhas para Meryl Streep dançar. Sua presença no musical jamais se justifica. Em contrapartida, não acho tão procedentes as críticas devastadoras feitas ao desempenho de James Corden, que apenas se escora na afetação e nas caricaturas encomendadas por Ryan Murphy. Muito se falou sobre a forma desrespeitosa com que ele representa o universo LGBTQIA+, mas há sim gays iguais ao que Corden interpreta, algo que afirmo por experiência própria. O problema é outro: aqui temos um comediante de talk show e não um ator, distinção inexistente para Corden. Tomara que, após Caminhos da FlorestaCats e agora A Festa de Formatura, percebam que ele é uma figura inventada e sem muita afinidade com o cinema. Finalmente, Meryl Streep, o inegável destaque do filme como a vaidosíssima Dee Dee Allen, nos lembra que, às vezes, nem ela consegue salvar uma experiência tão desconjuntada e equivocada, o que é, aliás, um ótimo parâmetro para dimensionar a ressaca provocada pelo musical.

Ao tentar levantar a bandeira da diversidade, A Festa de Formatura se enfraquece até diante da lembrança de Glee, seriado cujo primeiro episódio foi exibido há mais de uma década e que, mesmo depois de tanto tempo, consegue ser mais arejado e contemporâneo em suas discussões. Ryan Murphy nunca se preocupou em fazer o chamado “filme-família”, e por isso mesmo a timidez com que trata todas as causas é assustadora. Um casal de lésbicas desfilando de mãos dadas embaixo de árvores coloridas e dando beijos tímidos enquanto as pétalas caem? Mais uma vez a história do filho adulto que se vê obrigado a procurar os pais que não aceitaram sua sexualidade? E tudo em meio à caretice colegial inerente à imensa parte dos longas norte-americanos sobre as tradições dos bailes de formatura? São dilemas e passagens arcaicas, temperadas por um roteiro que acredita ser representativo a partir de meia dúzia de palavras motivacionais, por uma direção cujo único brilho está no glitter aplicado no figurino dos personagens e por uma protagonista interpretada com total inexpressividade pela estreante Jo Ellen Pellman. Onde foi parar o Ryan Murphy que, como diretor de cinema, havia estreado com originalidade em Correndo Com Tesouras e comovido meio mundo com The Normal Heart? Mesmo com o sonolento Comer, Rezar, Amar, lançado em 2010 e adaptado do best-seller de Elizabeth Gilbert, Murphy foi capaz de registrar um sucesso de público estrelado Julia Roberts e emoldurado pelas paisagens de diversos cartões-postais. Já o que sobra para A Festa de Formatura é apenas dor de cabeça, inclusive quando, neste exato momento, sento para escrever o texto que você acompanhou até aqui. O veredito é dos mais fáceis: não há nada que consiga salvar minimamente o pior musical dos últimos anos.

Adeus, 2020! (e as melhores cenas do ano)

O que dizer de 2020 que todo mundo já não saiba ou tenha sentido na pele? Que foi um ano confuso, difícil e onde tudo fugiu à regra? Isso mesmo. Acho que todos concordamos. E não vou negar: fui tomado por um esgotamento físico e mental diante de tantas avalanches que, na maior parte dos dias, só consegui cumprir o básico das tarefas minimamente obrigatórias do dia a dia. O resto acabou ficando um pouco de lado, incluindo o cinema, como vocês podem ter percebido aqui pelo blog. Certamente queria ter visto mais filmes e, principalmente, ter escrito sobre eles. Não consegui. E acho que tudo bem não dar conta de abraçar o mundo.

Ainda assim, vi grande parte daquilo que quis ver em 2020. Também tive algumas aventuras de grande felicidade, como o convite para ser jurado do Festival de Cinema de Gramado e a reativação do canal do blog no Youtube. E vivi, claro, uma das maiores revoluções cinematográficas do ano: a de ficar sem ir a uma sala de cinema desde que a pandemia começou, tendo que garimpar os mais variados filmes em diferentes plataformas de streaming (lembrem-se: há um universo imenso a ser descoberto fora da Netflix e do Prime Video). Dentro do possível, portanto, meu aproveitamento cinéfilo foi razoável em 2020, e compartilho com vocês, como já é tradição aqui no blog, as minhas cenas favoritas do ano para encerrar esse ciclo. Vale reforçar: são consideradas aqui apenas as obras lançadas comercialmente no Brasil, seja nas salas de cinema ou em streaming. Até 2021, queridos leitores!

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Os minutos finais de Clemency

O que Alfre Woodard faz no encerramento de Clemency coloca todas as indicadas ao último Oscar de melhor atriz no bolso. Sufocante e hipnotizante também em aspectos de direção, trilha e som, é o tipo de momento que transforma uma personagem através do não-dito, sem precisar de uma palavra sequer. Como a atriz superlativa que é, Alfre compreende a potência das revoluções internas, e tem aqui um dos recortes mais marcantes da sua carreira.

A dança na escola em Estou Pensando em Acabar Com Tudo

Não estou no time daqueles que embarcaram em Estou Pensando em Acabar com Tudo, mas a forma poética com que Charlie Kaufman captura esta sequência isolada de dança em um filme já inusitado é de arrepiar. Não se trata apenas da inegável beleza estética audiovisual e dos movimentos corporais dos atores: nela, está concentrada uma narrativa ao mesmo tempo isolada e parte da história como um todo. É bela, trágica e melancólica.

Judy Garland canta “Somewhere Over the Rainbown” em Judy: Muito Além do Arco-Íris.

Cinebiografia que recebeu menos apreço inclusive de quem costuma gostar dos filmes deste gênero, Judy me tocou por não querer fazer de seu relato uma jornada de redenção para a vida de uma mulher cujos últimos dias foram carregados de problemas, tristeza e esquecimento. E, quando canta Somewhere Over the Rainbown, Judy Garland comove não porque vê sua voz falhar, mas porque justamente ainda tenta encontrar nos palcos todo o amor que um dia recebeu.

Corrida no campo de batalha em 1917

Inegável espetáculo técnico, 1917 pode não ter me envolvido dramaticamente, o que não foi impeditivo para o meu maravilhamento em cenas como esta, onde o soldado Schofield (George McKay), literalmente correndo contra o tempo para cumprir o prazo da missão que lhe foi dada, atravessa um campo de batalha a plenos pulmões em meio a confrontos, ataques e bombardeios. É um colosso pelos efeitos práticos, pelo plano-sequência, pela trilha de Thomas Newman e por toda a produção de escala envolvida. 

Héloïse assiste ao concerto em Retrato de Uma Jovem em Chamas

É aparentemente a cena mais simples do mundo: do alto da plateia, Héloïse, uma das protagonistas de Retrato de Uma Jovem em Chamas, acompanha um concerto de música clássica. Entretanto, conforme a música evolui e a câmera se aproxima da personagem sem cortes, tudo se agiganta. Ali está um mundo íntimo e secreto, povoado de lembranças, sentimentos e saudades. A potência emocional da cena é imensa, e Adèle Haenel dá um show ao transmitir o turbilhão de sentimentos que sua personagem vive internamente.

O ballet de Pacarrete

A arte como forma de expressão e libertação ganha contornos poéticos como poucas vezes vimos no cinema brasileiro recente por meio do ballet de Pacarrete (Marcélia Cartaxo). No filme de Allan Deberton que leva o nome da personagem, Cartaxo dá vida a uma bailarina incompreendida por sua cidade, e que grita para ser vista e ouvida de alguma forma. O norte da trama é a luta da protagonista pela chance de apresentar seu ballet na festa de aniversário da cidade, e Deberton subverte as expectativas para fazer Pacarrete dançar com uma beleza e um simbolismo ímpares.

A libertação de Cecilia em O Homem Invisível

No melhor estilo Supercine, O Homem Invisível utiliza o gênero de suspense para falar sobre um tema seríssimo: o dos relacionamentos abusivos onde homens tornam a vida das mulheres um verdadeiro filme de terror. Por sentirmos o peso que a protagonista Cecilia carrega, qualquer libertação vivida por ela é uma pequena alegria. E a maior marca ápice do filme, onde Cecilia sente o vento bater de leve no rosto com uma serenidade que há muito tempo lhe era desconhecida. Até mesmo a trilha de altas notas assinada por Benjamin Wallfisch cai como uma luva para o momento.

O comercial de Madá em Três Verões

Afirmar que Regina Casé repete a val de Que Horas Ela Volta? em Três Verões é uma grande heresia, principalmente se levarmos em consideração esta sequência em que a personagem vivida por ela no filme de Sandra Kogut participa de um comercial de TV e acaba contando um triste acontecimento do seu passado. A transição da comédia para o drama é fantástica, coisa que Regina Casé, como a grande intérprete que é, domina com a maior naturalidade do mundo, e o relato só nos ajuda a entender de onde vem a resistência aparentemente inabalável da personagem.

“Nunca. Raramente. Às Vezes. Sempre.” em… Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

Ao vermos Sidney Flanigan em qualquer cena de Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, é difícil acreditar que esse seja somente o seu primeiro filme. A força, a complexidade e a sobriedade que ela trabalha no longa de Eliza Hittman é fruto de um talento nato, frequentemente impulsionado por intensas passagens do roteiro como esta que explica o título do longa. Munida basicamente apenas de quatro palavras, Sidney revela para o espectador muito do que vem guardando e represando até ali. Com extrema simplicidade, a cena ganha em realismo. E, com Sidney, em emoção na medida certa.

O monólogo de Paul em Destacamento Blood

Em seu mais novo filme, Spike Lee traz um pouco de tudo para o espectador: drama, guerra, pitadas cômicas, conflitos familiares, reflexões sobre o racismo, críticas políticas e até um monólogo onde Paul (Delroy Lindo) conversa diretamente com a câmera em um monólogo que faz uma síntese das discussões mais marcantes de Destacamento Blood. É uma passagem onde o filme intersecciona elementos da vida pessoal de um personagem com tudo aquilo que ele, um homem negro, representa para o mundo e para a sociedade. Entre outras coisas, Paul diz que o governo americano não foi capaz de matá-lo nas três vezes que lhe enviaram à Guerra do Vietnã — e que, se sobreviveu a isso, somente e ele e mais ninguém poderá decidir sobre a sua própria morte. Não tem como confundir: é Spike Lee na veia.