“Let Them All Talk” pulveriza o encontro de três grandes atrizes para insistir na excessiva presença de Lucas Hedges

Trying is all.

Direção: Steven Soderbergh

Roteiro: Deborah Eisenberg

Elenco: Meryl Streep, Lucas Hedges, Gemma Chan, Candice Bergen, Dianne Wiest, Daniel Algrant, John Douglas Thompson, Christopher Fitzgerald, Samia Finnerty, Fred Hechinger, David Siegel, Mike Doyle

EUA, 2020, Drama, 113 minutos

Sinopse: Uma célebre autora (Meryl Streep) faz uma viagem com algumas velhas amigas (Candice Bergen e Dianne Wiest) para se divertir e curar feridas antigas. O seu sobrinho (Lucas Hedges) junta-se a elas, bem como a sua nova agente literária (Gemma Chan), que está ansiosa para saber mais sobre o seu próximo livro.

Aos 57 anos, Steven Soderbergh já ultrapassa, segundo o IMDB, a marca de 40 títulos como diretor. É impressionante o seu vigor ao se manter na ativa porque, ao contrário de tantos outros cineastas acomodados a fórmulas, Soderbergh tem uma mente inquieta e está sempre pronto para propor e experimentar novas ideias, mesmo que grande parte de suas ousadias não se converta em bons filmes. Para fazer Let Them All Talk, seu mais novo longa-metragem disponibilizado diretamente na HBO Max, ele apostou outra vez na busca por aquilo que não é óbvio. Dessa vez, temos o diretor a bordo de um transatlântico, acompanhado de três grandes atrizes e munido de um roteiro onde o elenco recebeu a liberdade de improvisar diálogos para lapidar as ideias de um texto bastante enxuto sobre determinados conflitos. O que Soderbergh e a diretora Deborah Eisenberg queriam era fazer de Let Them All Talk uma experiência em que os intérpretes construíssem os seus personagens de forma mais intuitiva, imaginando o que poderia estar por trás das páginas do roteiro. É uma ideia ótima em função dos grandes nomes envolvidos, mas infelizmente não é o caso de um grande filme, e por uma razão difícil de acreditar: ao invés de extrair todas as possibilidades de um encontro entre Meryl Streep, Dianne Wiest e Candice Bergen, a trama insiste em desperdiçar esse trio para dar um inexplicável e excessivo destaque a outro personagem bem menos interessante interpretado pelo jovem Lucas Hedges.

A gênese dramática de Let Them All Talk está em uma atribulada amizade: Alice (Streep), Susan (Wiest) e Roberta (Bergen) se reúnem depois de muitos anos porque a primeira, uma escritora de sucesso às voltas com a finalização de um novo livro, está para receber uma homenagem e opta por viajar à Europa levando as amigas. No entanto, há um certo estranhamento entre elas, e a viagem se dará mais como uma discreta tentativa de reconciliação por parte de Alice do que como as férias dos sonhos entre três mulheres que dividiram uma vida inteira como confidentes. Let Them All Talk é muito discreto sobre a distância e o estranhamento entre essas mulheres, inclusive porque elas são quase formais umas com as outras. Também parte da tripulação, o sobrinho de Alice (Hedges) não deixa de, em tese, representar o espectador na observação dessas personagens: tanto ele quanto quem assiste ao filme tenta entender os enroscos dessa amizade de longa data e as razões quem levam Alice a manter a produção do novo livro a sete chaves. Tudo isso significa que o roteiro de Eisenberg, ao colocar uma barreira entre as protagonistas e ao se dedicar a um personagem que, assim como nós, é um estranho em meio a esse convívio, não dará a Streep, Wiest e Bergen a chance de um encontro caloroso e de deliciosa comunhão, já abalando as animadas expectativas criadas para a reunião de um elenco de tamanho talento.

As afinidades cinematográficas de cada espectador dirão se esse ponto de partida de Let Them All Talk reverbera como um banho de água fria ou como uma interessante ruptura do óbvio. Vejo como um problema, pois a proposta não é refletir sobre os meandros dos conflitos velados, e sim tentar criar alguma curiosidade, levantando questionamentos como se a relação entre as personagens fosse uma equação a ser resolvida. São muitas as perguntas feitas pelo filme, e buscar alguma resposta para elas sem de fato conheceremos as personagens acentua a frustração. Quem é o homem que Alice observa todos os dias na piscina? Por que Roberta evita tanto a amiga que tenta se reconectar com ela? Qual é, afinal, o teor do livro que Alice esconde até mesmo da própria editora? O roteiro perde um tempo precioso com as voltas dadas para construir esses pequenos mistérios, e o terço final corrobora essa sensação, quando todas as questões são respondidas com afeto, surpresa e a certeza de que Let Them All Talk só teria a ganhar se tivesse descortinado as razões de seus conflitos com antecedência. Ao colocar os pingos nos is, o roteiro proporciona, por exemplo, um belo e sincero momento entre as personagens de Meryl Streep e Candice Bergen, aí sim aproveitando suas atrizes com a devida reverência. E mais: sem muito a dizer na maior parte da projeção, o elenco parece não ter tirado grande proveito da possibilidade do improviso, o que acaba sendo um problema exclusivo de como o filme desenvolve as personagens.

Na onda do desperdício, entra o fator Lucas Hedges, um ator do qual gosto muito e que, contudo, precisa de papeis densos como os de Manchester à Beira-Mar ou Boy Erased: Uma Verdade Anulada para funcionar com substância. Sejamos justos ao concordar que é tarefa desafiadora se sobressair ao lado de atrizes como as reunidas aqui porque elas são capazes de preencher a tela apenas com suas ilustres presenças, mas Hedges realmente rema com um papel cuja presença poderia ser eliminada sem qualquer prejuízo à trama. A ideia de Let Them All Talk ter esse personagem que emula o olhar do espectador não se sustenta, pois, inclusive, descobrimos detalhes fundamentais sobre as personagens antes mesmo dele. Ou seja, tanto pela interpretação de Hedges quanto pela função do personagem dentro da narrativa, é injustificado o tempo dedicado ao garoto, que protagoniza subtramas insípidas, como os encontros repetitivos com a personagem de Gemma Chan. Para um relato essencialmente feminino, a presença de Hedges é anticlimática, nos privando de explorar melhor o íntimo das mulheres que deveriam ser as estrelas absolutas do projeto.

A decepção em não vermos ainda mais de Meryl, Candice e Diane também vem da constatação de que Let Them All Talk tem sim protagonistas com um grande repertório de camadas a ser explorado, começando pela Alice de Meryl Streep. Ela é a clássica autora angustiada por um bloqueio criativo, algo que o roteiro não torna um clichê. Primeiro porque é palpável a sua angústia, especialmente a partir do momento em que ela conhece um autor admirado pelas amigas e que está com a carreira indo de vento em poupa. E segundo porque o processo de escrita é retratado com uma abordagem muito realista, onde uma autora se vê encurralada diante de prazos e expectativas, entendendo que uma dita genialidade literária pode levar um escritor até certo ponto, mas que, como em qualquer profissão, muito depende do acaso, das circunstâncias e do estado espírito de quem executa um projeto. Não por coincidência, Alice escolheu a literatura, uma atividade solitária, como seu ganha-pão, visto que é palpável a inabilidade da personagem em administrar relações, sejam elas pessoais ou profissionais. Vale mencionar que estamos diante de um papel oferecido com pouca frequência para Meryl Streep: despida de distrações (especificamente das transformações biográficas que marcam a sua filmografia), Meryl é vista aqui em plena essência, sem caracterizações. Nesta aparição mais cristalina e cotidiana, ela possivelmente terá um dos desempenhos menos apreciados de sua carreira recente, injustiça que também a acometeu, por exemplo, em As Horas, outro papel em que dava vida a uma mulher comum.

A Alice de Meryl tem importância central, e ela está muito bem acompanhada de outras duas atrizes que, cada uma a sua maneira, contribuem para o que Let Them All Talk tem a nos oferecer de melhor: a possibilidade de vê-las juntas em cena. Quem acabou conquistando a crítica estadunidense foi Candice Bergen, dona do papel, digamos, mais chamativo do filme. Indicada ao Oscar apenas nos anos 1980 com Encontros e Desencontros, Bergen voltou a receber atenções no cinema depois de décadas confinada a papeis pequenos em comédias comerciais como Miss SimpatiaDoce LarVoando AltoNoivas em Guerra. Seu excelente repertório como atriz está bem explorado em um papel que transita entre o drama e a comédia. Infeliz no emprego e ávida por conseguir uma vida financeiramente melhor, a Roberta de Bergen tem ressentimentos de longa data com a Alice de Meryl, e é essa tônica que tira a personagem do mero alívio cômico para colocá-la como uma peça importante das melhores discussões do longa. Já Dianne Wiest abraça um papel de menos destaque em todos os sentidos, mas se junta de forma orgânica às colegas porque sua doçura habitual é perfeita para uma personagem que se vê no meio de duas amigas mal resolvidas. Toda vez que Let Them All Talk permite que as três se encontrem, a experiência sobe de patamar. É fácil perceber isso. Talvez não para Soderbergh e Eisenberg, que misteriosamente seguiram firmes com excessos de Lucas Hedges do roteiro até o corte final. Perderam, enfim, a belíssima oportunidade de festejar três grandes atrizes com a plena atenção que elas merecem. 

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