Cinema e Argumento

Road To The Oscars – Brasil, o País do Carnaval (definitivamente!)

De vez em quando, o Brasil (mais necessariamente a emissora Globo) inventa que tem cultura – faz umas minisséries de caráter teatral (Hoje é Dia de Maria e, mais recentemente, Capitu), aposta em estrangeirismos nas suas novelas (a recente Caminho das Índias) e até inventa nas suas dramaturgias que curtas brasileiros, como A Batalha da Portelinha, vencem o Oscar.

O problema é que a Globo não sabe mostrar que o nosso país tem cultura quando consegue a oportunidade de mostrar isso. Fato que comprova essa idéia é o total descaso da emissora com a maior festa do cinema. Respeito a opinião de darem cobertura total ao Carnaval – já que é o grande evento que nos representa no exterior – mas não consigo entender o egoísmo da emissora de simplesmente comprar os direitos do Oscar, não transmitir a festa e estarem completamente alheios ao público que aguardam ansiosamente a produção.

Já não é de hoje que a Globo faz isso. Em anos anteriores, cortavam um belo pedaço da festa para transmitir o milésimo Big Brother Brasil que estava em andamento. Não deixavam de exibir nenhum programa e todo o domingo acontecia como se nada estivesse acontecendo. O Oscar é, para eles, algo idiota. O que eles gostam é de encher o peito e dizer que somente eles têm os direitos de transmissão na TV aberta.

Nós, cinéfilos de TV aberta, saimos perdendo. Vamos ver a Beija-Flor ser campeã pela centésima vez (e sendo a última escola a desfilar, como sempre), muito samba e famosos inuteis abanando para o público em cima de um carro alegórico que corre o risco de empacar ou pegar fogo antes de entrar na Sapucaí. A cultura do Brasil é essa, a do carnaval. Cultura que nunca me conquistou e que sempre achei fútil. Culpa de quem? Da Globo, egoísta e indiferente na hora de tomar suas decisões.

# Antes que alguém me acuse de plágio, aviso que já tinha esse post pronto antes do Pablo Villaça, do Cinema em Cena, publicar o dele. O assunto é o mesmo e a opinião também.

O Lutador

Direção: Darren Aronofsky

Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis, Todd Barry, Wass Stevens, Judah Friedlander

The Wrestler, EUA, 2008, Drama, 109 minutos, 16 anos.

Sinopse: Randy “The Ram” Robinson (Mickey Rourke) é um bem-sucedido lutador nos anos 80 que é impedido de lutar depois de sofrer um ataque cardíaco. Assim, ele consegue um emprego, tenta se tornar amigo de sua filha (Evan Rachel Wood) e tem um relacionamento com uma stripper (Marisa Tomei), mas não consegue resistir a vontade de retornar à antiga carreira, mesmo sabendo que isso oferece riscos a sua saúde.

O Lutador é uma boa história sobre como os principais machucados podem ser aqueles que nos afetam por dentro. Dramático em sua essência, o filme não chega a ser muito emocional, mas é realizado com competência.”

Randy (Mickey Rourke) está prestes a entrar no ringue novamente, mesmo que o seu médico tenha dito que isso pode lhe trazer sérios problemas de saúde. Ao constatar a decisão do amigo, Cassidy (Marisa Tomei) pergunta o porquê de ele estar se arriscando assim. “Aqui dentro todos me amam, é lá fora que eu me machuco”. Essa passagem resume muito bem O Lutador, que não é um longa sobre lutas insanas ou sobre violência; estamos diante de um trabalho que nos ensina que a maior das dores é aquela que afeta nossos corações.

Vendido de forma um pouco errada,  O Lutador pode afastar aqueles que esperam ver um produto com um forte tom masculino. Darren Aronofsky não se importou muito em mostrar as minúcias da luta livre, deixando-a apenas como pano de fundo para uma boa história dramática. É certo que o longa começa bem focalizado nesse tema, mas pouco a pouco o protagonista fica cada vez mais humanizado, assim como sua jornada interior. Tudo contido, regulado e aplicado da maneira correta. Até demais. É justamente a direção de Darren Aronofsky que fez com que eu não me conectasse completamente com a história. O drama é um tanto silencioso demais.

Sorte que os atores conseguiram dar vida de forma excelente para seus personagens. Mickey Rourke é mesmo um freak, como disse Rubens Ewald Filho – desculpem-me, eu precisava falar desse comentário engraçado dele. Porém, isso não afeta em nada a sua personificação, totalmente adequada. Ele divide a cena com outras duas belas atrizes. A primeira é Marisa Tomei. A segunda, Evan Rachel Wood. Ambas trabalham bem o espaço curto em cena e tiram bom proveito de suas aparições. O elenco de O Lutador não desaponta é um dos melhores pontos do filme. Mas, ao meu ver, nada muito digno de premiação. O espectador pode até não se comover com a história do protagonista – afinal, o filme não tem grande poder de emoção – mas é bem provável que compartilhe alguns dos seus dramas. E esse é um dos maiores acertos. Aronofsky, então, realizou um bom filme. Gostando ou não do resultado, é impossível ficar indiferente com o bom drama e, principalmente, com a bela música The Wrestler, de Bruce Springsteen que toca nos créditos finais.

FILME: 8.0

35

Melhores de 2008 – Atriz

art01

Meryl Streep já podia muito bem estar aposentada. Sério, a mulher tem uma carreira impecável, milhões de prêmios, é uma unânimidade e já fez tudo que é tipo de filme. Se não bastasse um grande sucesso chamado O Diabo Veste Prada (que, convenhamos, tem quase todo seu encanto na figura da atriz) que lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar, ela inventou de soltar a voz em um musical. Em Mamma Mia! surpreendeu mais uma vez – parece ter ficado dez anos mais jovem, canta de forma exemplar e sabe os tons certos de sua atuação. Presente maravilhoso dessa grande atriz. Normalmente não costumo dar muito destaque para interpretações comédia/musical, mas fui completamente conquistado por essa sua aparição, onde novamente conseguiu ser a grande estrela de um filme totalmente simples e descontraído. É por momentos como em que canta The Winner Takes It All, que a escolho como a melhor atriz de 2008. E, sim, podem criticar a minha escolha! Hahaha. VITÓRIAS ANTERIORES: Melhor Atriz Coadjuvante em 2006 por O Diabo Veste Prada. INDICAÇÕES ANTERIORES: Melhor Atriz Coadjuvante em 2006 por A Última Noite e Melhor Atriz Coadjuvante em 2007 por Leões e Cordeiros.

Julianne Moore, como a “Mulher do Médico”, em Ensaio Sobre a Cegueira

juliannemooreA bela Julianne Moore teve um grande retorno com Ensaio Sobre a Cegueira. O que justamente me conquistou em seu trabalho foi que a abordagem que atriz deu ao papel foi totalmente diferente da que eu imaginava. Ela não se aproveita de cenas mais intensas para demonstrar seu talento (e poderia muito bem fazer isso), conquista com baixos tons de voz e olhares significativos. Como a única pessoa que enxerga no meio de um manicômio cheio de cegos, Julianne conseguiu segurar o filme durante o tempo inteiro. Considero sua atuação até um pouco subestimada, já que outros aspectos do longa foram mais destacados e pouco se falou dela. Ela pode até não ter uma carreira exemplar nos últimos tempos, mas sabe acertar muito bem quando quer. O seu trabalho aqui é um exemplo disso.

Laura Linney, como Wendy Savage, em A Família Savage

lauralinneyLaura Linney faz parte daquele grupo de atores que “um dia vai ganhar Oscar”, composto também por Kate Winslet e Johnny Depp. Extremamente versátil, Linney achou em A Família Savage o melhor desempenho de sua carreira. Certamente é o papel mais complexo que ela já enfrentou, e também o mais dramático. Por mais que ela atue ao lado de outro grande ator do mesmo calibre que ela (Philip Seymour Hoffman, de Capote), não se intimidou, e até levou Hoffman para o escanteio. Pena que o filme não teve a repercussão que merecia e que muita gente enxergue o trabalho de Linney nesse filme como “convencional”. O papel não tem nada de muito “difícil” se comparada aos outros desempenhos desse ano, mas é por fazer muito com pouco que Linney teve marcante atuação.

Julie Christie, como Fiona Anderson, em Longe Dela

juliechristieÉ certo que Longe Dela é um dos melhores filmes já feitos sobre o mal de Alzheimer, mas Christie fica um pouco aquém das concorrentes da lista justamente por não possuir a “emoção” da trama – que está concentrada na real figura protagonista do longa, o marido Grant, interpretado por Gordon Pinsent. Contudo, é praticamente impossível resistir ao charme da atriz. Envelheceu lindamente, mantendo grande elegância. Na realidade ela não consegue maiores momentos no filme e molda sua personagem de forma muito singela, mas por isso mesmo sincera. Sua interpretação é cheia de méritos sim, especialmente por causa da presença de Christie, que hipnotiza com sua naturalidade ao proferir palavras e encanta com suas expressões de uma grande veterana.

Cate Blanchett, como rainha Elizabeth I, em Elizabeth – A Era de Ouro

cateblanchettMuita gente vai me apedrejar por acrescentar a Cate Blanchett nessa lista, especialmente porque quase ninguém gostou de A Era de Ouro. Mas como bem a minha crítica disse, sou um defensor do filme e especialmente de Blanchett. Óbvio que não posso negar que a rainha Elizabeth dela é calcada em imitações visíveis e até em alguns exageros; porém, por alguma razão misteriosa, Blanchett encanta toda vez que entra em cena e cada minuto dela é um sopro de frescor a um longa um pouco sem vida. O que também vale ressaltar é que Blanchett se beneficiou bastante por causa do roteiro, que dessa vez preferiu dar um tom mais humano para a personagem. INDICAÇÕES ANTERIORES: Melhor Atriz Coadjuvante em 2007 por Notas Sobre Um Escândalo.

Os visitantes concordaram com a escolha do Cinema e Argumento e também elegeram Mamma Mia! como o melhor na categoria. Abaixo, a opinião dos votantes na pesquisa realizada.

1. Meryl Streep – Mamma Mia! (8 votos, 32%)

2. Julianne Moore – Ensaio Sobre a Cegueira (6 votos, 24%)

3. Laura Linney – A Família Savage (6 votos, 24%)

4. Julie Christie – Longe Dela (5 votos, 20%)

5. Cate Blanchett – Elizabeth: A Era de Ouro (0 votos, 0%)

Últimas Trilhas Sonoras

Slumdog Millionaire, por A. R. Rahman

É estranho como a trilha sonora de Quem Quer Ser Um Milionário? soa mais como uma coletânea do que como uma composição original. Talvez por ter um grande número de canções cantadas e não apenas instrumentais. Confesso que tenho um pouco de relutância com trilhas desse tipo, mas não conseguir se cativar com o trabalho de A.R. Rahman é impossível. Todo o trabalho tem um clima animador, até mesmo aquelas canções que são puramente de instrumentos. Ainda que pareça mais um produto musical do que cinematográfico, a trilha de Quem Quer Ser Um Milionário? é uma das mais originais que surgiram nos últimos tempos. Agora, se merece Oscar é uma história completamente diferente… Destaque, claro, para Jai Ho.

The Reader, por Nico Mulhy

Essa é a trilha mais injustiçada da temporada 2009 de prêmios. Nico Muhly realizou um grande trabalho no álbum de The Reader. O resultado funciona muito bem dentro do filme do Stephen Daldry e também fora dele. Assemelhando-se um pouco com o trabalho de Philip Glass, a trilha do longa é díficil de definir – não é triste nem contundente. Tem uma característica própria, talvez sutileza. Nenhuma faixa cai no exagero e todas são bem interessantes do ponto de vista auditivo. Merecia mais reconhecimento por não ser um simples trabalho. É Muhly dando um tom muito competente para o longa e realizando um trabalho bem satisfatório para os ouvidos dos espectadores.

https://i0.wp.com/www.soundtrack.net/img/album/5446.jpg

The Curious Case Of Benjamin Button, por Alexandre Desplat

Eu já estava começando a desconfiar que Alexandre Desplat era uma enganação. Depois de ter aparecido no Oscar, nunca mais realizou um trabalho sequer interessante. Contudo, voltou a me conquistar com essa bela trilha de O Curioso Caso de Benjamin Button – que, possivelmente, é a minha favorita na corrida para o Oscar. O mais interessante dess álbum é que, além de apresentar as maravilhosas técnicas do compositor, cria faixas muito memoráveis. A melancolia é algo constantemente presente, especialmente em passagens como Benjamin And Daisy e Some Things Last. Desplat entendeu a sutileza dramática da jornada do curioso Benjamin Button e realizou um produto à altura da qualidade técnica do filme de Fincher.

Doubt, por Howard Shore

Não sou grande fã do compositor Howard Shore, mas acho seu trabalho como compositor satisfatório. É o caso dessa trilha de Dúvida, que pode até não ser grandiosa e original, mas ao menos não peca em cometer exageros. O problema é que nada é exatamente marcante, nem a música-tema. Tudo correto e satisfatório – não impressiona nem incomoda. As faixas são relativamente curtas e não ficam mais compridas do que deveriam. Sem dúvida é um trabalho satisfatório de Shore, mas que poderia ter recebido uma cotação bem maior se o compositor não tivesse medo de ousar.

Burn After Reading, por Carter Burwell

Carter Burwell é um compositor muito interessante. Desde que fez uma bela trrilha para A Pele, venho acompanhando atentamente os seus trabalhos. Em Queime Depois de Ler, ele realiza um álbum inusitado e que funciona por causa dessa característica. Algumas canções são propositalmente exageradas (condizendo com alguns tons narrativos do longa) – como Earth Zoom In e Earth Zoom Out – enquanto outras tentam achar um tom mais sério (mas ainda assim bizarro), a exemplo de Linda Looks For Love. Burwell segue o mesmo caminho dos irmãos Coen no longa – o resultado tem algumas falhas, mas é divertido.

Changeling, por Clint Eastwood

Sempre gosto das composições de Clint para seus filmes. Acho que elas se tornam memoráveis em alguns casos, por causa das lindas melodias. O problema é quando eu vou ouvir o cd separadamente. Não consigo ficar tão satisfeito e as faixas me parecem repetitivas demais, sem inspiração. O mesmo aconteceu em Menina de Ouro, que era um lindo trabalho mas que em disco era uma enrolação sem fim. A trilha de A Troca tem momentos bem interessantes, mas resulta previsível como todos os outros trabalhos do diretor nas trilhas.

BAFTA – Apostas

Hoje à noite temos mais uma premiação importante. É a vez do BAFTA divulgar os seus vencedores. É um prêmio que sempre tem uma seleção muito estranha – esse ano, por exemplo, temos a inclusão de Tilda Swinton por Queime Depois de Ler na categoria de coadjuvante enquanto a ótima Viola Davis foi esquecida por Dúvida. O que vale lembrar é que normalmente acerta alguns vencedores do Oscar. Ano passado, todos os atores que venceram o BAFTA, venceram o Oscar também. Abaixo, então, a minha lista de apostas nas categorias principais. Para conferir os indicados, clique aqui:

Melhor Filme

O LEITOR

alt: Quem Quer Ser Um Milionário?

Melhor Filme Britânico

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

alt: Mamma Mia!

Melhor Atriz

MERYL STREEP (Dúvida)

alt: Kate Winslet (O Leitor)

Melhor Ator

SEAN PENN (Milk – A Voz da Igualdade)

alt: Mickey Rourke (O Lutador)

Melhor Atriz Coadjuvante

PENÉLOPE CRUZ (Vicky Cristina Barcelona)

alt: Marisa Tomei (O Lutador)

Melhor Ator Coadjuvante

HEATH LEDGER (Batman – O Cavaleiro das Trevas)

alt: Philip Seymour Hoffman (Dúvida)

Melhor Diretor:

DANNY BOYLE (Quem Quer Ser Um Milionário?)

alt: Stephen Daldry (O Leitor)

Melhor Roteiro Original:

NA MIRA DO CHEFE

alt: Milk – A Voz da Igualdade

Melhor Roteiro Adaptado:

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

alt: O Leitor