Cinema e Argumento

A trilha sonora de… Julie & Julia

Alexandre Desplat não pára. Além de apresentar um resultado maravilhoso na trilha de Coco Antes de Chanel, ele também alcança notável resultado no seu trabalho para Julie & Julia. Não podemos nos esquecer, claro, que Desplat ainda fez a trilha para o aguardado Chéri, de Stephen Frears.

Eu, que em certa época achei que o compositor era uma enganação (principalmente na época depois do Oscar, quando lançou a monótona trilha de A Bússola de Ouro e o banal álbum de Desejo e Perigo), volto a ser completamente conquistado por ele.

A trilha de Julie & Julia é, com o perdão do trocadilho, deliciosa! E Desplat não se limitou em apenas criar melodias francesas para ilustrar a vida da chef Julia Child. Ele utilizou toda a sua já conhecida técnica e seus típicos arranjos para criar um resultado muito interessante.

Desplat, portanto, segue como o principal candidato ao Oscar do ano que vem. Já é a segunda trilha desse ano em que ele demonstra total vivacidade e estupenda habilidade. Vale a pena conhecer o álbum de Julie & Julia. Abaixo, segue as músicas da trilha e o link para download.

1. Julia’s Theme
2. Julie’s Theme
3. Great Big Good Fairy
4. The Original French Chef Theme
5. Starting Out
6. What Should I Do?
7. Eggs
8. Psycho Killer – Talking Heads
9. A String Of Pearls
10. Mes Emmerdes – Charles Aznavour
11. Time After Time
12. Burning The Stew
13. Leaving Paris
14. My Husband Left Me
15. Stop The Train – Henry Wolfe
16. A Bushel And A Peck – Doris Day
17. The New York Times
18. Bouef Bourguignon
19. Julia Hates Me
20. Last Supper
21. Time After Time – Margaret Whiting

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Duplicidade

Direção: Tony Gilroy

Elenco: Clive Owen, Julia Roberts, Paul Giamatti, Tom Wilkinson

Duplicity, EUA, 2009, Comédia, 120 minutos

Sinopse: CIA e ele do MI6, que deixaram seus antigos empregos para lucrar com a guerra fria existente entre duas corporações rivais. O objetivo de ambos é encontrar a fórmula de um produto, que renderá uma fortuna a quem patenteá-lo antes. Para tanto eles buscam sempre enganar o outro, usando todos os truques possíveis.

Uma pena que Julia Roberts esteja envolvida nesse projeto. Ela vende o filme de forma errada. Quem pensa que Duplicidade vai trazer romance e comédia no estilo dos filmes que deram sucesso para Julia, vai se decepcionar. O longa de Tony Gilroy (um diretor difícil de engolir) não é simples: tem narrativa fragmentada, trama levemente complexa e inúmeras complicações para os personagens na história. Gilroy segue o mesmo estilo de Conduta de Risco e obtem um resultado bem parecido, só que dessa vez com um tom divertido – e até mesmo irônico.

O problema é que Duplicidade demora a engrenar. O enredo só começa a ter momentos de maior significância depois da metade. Até ali, o vai-e-vem narrativo incomoda e os personagens não trazem empatia. Porém, de uma hora pra outra, as coisas melhoram e o espectador pode perceber um roteiro mais dinâmico. O diretor e roteirista Gilroy parece ter se especializado nesse tipo de trama, onde acompanha-se os problemas internos e as falcatruas dentro de grandes empresas. Não é algo que necessariamente me atraia, mas aqui até que tem certo efeito.

Julia, mal fotografada e com a idade já marcando o seu rosto (meu momento Rubens Ewald Filho esse, não?!), Clive Owen, Paul Giamatti e Tom Wilkinson estão regulares. Falta, porém, um maior aprofundamento das figuras, que nunca são bem exploradas. Ora, fica difícil se envolver com personagens que não possuem maiores dimensões. Mais difícil ainda é torcer por eles. Portanto, Duplicidade peca ao não trazer um maior embasamento para as figuras que trabalham em cena. Centrou-se demais na narrativa truncada do que no desenvolvimento dos personagens.

O que se conclui, portanto, é que o filme é dirigido para o público que já conhece Tony Gilroy. Principalmente para aqueles que apreciam o estilo dele. Duplicidade não é nenhuma pérola e muito menos justifica todo o buzz envolvendo o diretor (que, por alguma razão, foi ovacionado por seu trabalho de estreia), mas diverte e tem bons momentos. Especialmente quando funciona, já que consegue alcançar passagens de puro entretenimento.

FILME: 7.5

3

Orações Para Bobby

Direção: Russell Mulcahy

Elenco: Sigourney Weaver, Ryan Kelley, Henry Czerny, Dan Butler, Austin Nichols, Carly Schroeder, Shannon Eagen

Prayers for Bobby, EUA, 2009, Drama, 88 minutos, 14 anos

Sinopse: Mary (Sigourney Weaver) é uma religiosa que segue à risca todas as palavras da bíblia. Quando seu filho Bobby (Ryan Kelley) revela ser gay, ela imediatamente leva o filho para terapias e cultos religiosos com o intuito de “curá-lo”. No entanto, Bobby não suporta a pressão e se atira de uma ponte, encerrando sua vida aos 20 anos de idade. Depois desse fato, Mary descobre um diário do garoto e passa a conhecer melhor o mundo dos homossexuais, tornando-se, logo, uma ativista em prol dos diretos gays. Baseado em uma história real.

“Eu não vou ter um filho gay”. Essa é a última frase que Mary (Sigourney Weaver) disse para o seu filho, Bobby (Ryan Kelley). Ele pulou de uma ponte e acabou com sua jovem vida de 20 anos de idade. A mãe do garoto acredita que gays são pessoas que fazem sexo em banheiros públicos, depravados suscetíveis a qualquer tentação carnal e que são assim porque escolheram. Esse é o pensamento dela e também o de muitas pessoas. O cinema, ao meu ver, nunca conseguiu realizar um filme sobre esse tema com a devida sensibilidade. E nisso incluo, também, o cultuado O Segredo de Brokeback Mountain (pra mim, mais uma história de atração do que de amor) e o recente Milk – A Voz da Igualdade. Orações Para Bobby vem mudar esse cenário.

Pena que o filme de Russell Mulcahy tenha sido feito para TV – ou seja, destinado a não ter grande repercussão. É um trabalho que, certamente, merecia um reconhecimento mais amplo. Encontramos nele uma abordagem diferente sobre o mundo homossexual: trata puramente sobre as emoções, deixando de lado o tão explorado lado sexual. Aí que está o maior mérito de Orações Para Bobby; ele traz jornadas sentimentais muito interessantes. Tanto do garoto quanto da sua mãe. A primeira metade do filme é sobre como o garoto procura se aceitar e se inserir na família preconceituosa, sofrendo com discriminações e com o fato de ser “diferente”. Na segunda metade, acompanhamos o arrependimento da mãe, que começa a descobrir toda a sensibilidade que seu filho tinha ou como os gays são seres humanos providos de sentimentos como qualquer pessoa.

Todas as histórias, além de terem um cunho emocional fantástico, são representadas com grande excelência pelos atores. O jovem Ryan Kelley está excelente como Bobby e cumpre com precisão o papel do personagem. Mas, sem dúvida alguma, o show fica com Sigourney Weaver. Ela, que apareceu pouco nos últimos anos, tem aqui uma grande interpretação. É aquele tipo de personagem que vai evoluindo em cena, passando por uma grande transformação. Primeiro, a mãe de uma família perfeita. Depois, religiosa fervorosa tentando curar o filho. Por fim, mulher arrependida e tentando se redimir de sua ignorância perante a homossexualidade do filho. É uma atuação sublime, que vai desde minúcias até momentos de choros emocionantes.

Orações Para Bobby tem seus defeitos. A direção, por exemplo, é simplista, sem ousadias – com alguns maneirismos estéticos estranhos, principalmente em alguns enquadramentos. Com certeza, se esse aspecto fosse mais contundente e menos convencional, o longa teria ainda mais impacto. Todavia, o que se conclui é que os defeitos ficam pequenos perto de uma história tão certeira em suas emoções. Um filme essencial para quem é ou conhece alguém homossexual. Mas, é dirigido mais especificamente para as mães, especialmente aquelas que não aceitam seus filhos como eles são. Que elas tenham, ao final do filme, o mesmo pensamento de Mary: “Eu sei porque Deus não ‘curou’ o meu filho. Ele não o curou porque não havia nada de errado para ser curado”.

FILME: 9.0

45

Filmes em DVD

milliondollar

Menina de Ouro, de Clint Eastwood (revisto)

Com Clint Eastwood, Hilary Swank e Morgan Freeman

45

Não era o meu favorito dos indicados ao Oscar, mas não reclamo nem um pouco de sua vitória. Menina de Ouro é um filme singelo, mas que prima por ser extremamente verdadeiro em suas emoções e nas transições comportamentais que cada personagem sofre durante a história. É fácil entrar no clima e admirar a trágica jornada da corajosa boxeadora Maggie (Hilary Swank), que conseguiu conquistar a amizade do frio Frankie Dunn (Clint Eastwood, no seu típico papel rabugento mas também em um de seus melhores momentos como ator). Emocionante e conduzido com visível segurança, Menina de Ouro é uma experiência marcante e, no final, ao som da música-tema, fica fácil apontar o drama como um dos melhores da carreira de Clint.

FILME: 9.0

lapianiste

A Professora de Piano, de Michael Haneke

Com Isabelle Hupert, Benoît Magimel, Annie Girardot

4

A Professora de Piano tem tudo aquilo que fez o cinema francês alcançar notoriedade mundial. É um filme difícil, pesado, denso e que exala complexidade. Narrado de forma muito lenta, o diretor Haneke apóia a força da história no extraordinário desempenho de Isabelle Hupert – que, inclusive, ganhou a Palma de Ouro em Cannes por sua atuação. A atriz tem a árdua missão de fazer o retrato de uma mulher rígida e fria – cuja dificuldade temperamental é resultado de uma vida emocional perturbada, problemática e frustrada. A encenação da personagem não é menos que instigante – tanto pelo desempenho de Huppert quanto pelo roteiro de Haneke. Ainda assim, não é um filme recomendável, já que não são todos que vão entrar na complicada história psicológica.

FILME: 8.5

papillon

Papillon, de Franklin J. Schaffner

Com Steve McQueen, Dustin Hoffman e William Smithers

35

Não dava muita coisa por esse filme e o resultado foi melhor do que eu esperava. É uma interessante história sobre coragem e sobrevivência. Steve McQueen e Dustin Hoffman estão excelentes como dois condenados que fazem uma aliança para tentarem fugir da ilha em que estão confinados. Às vezes, a história enrola demais (principalmente nos seus momentos finais), mas o diretor Franklin J. Schaffner soube tirar bom proveito do que existe de melhor em Papillon e realizou uma obra satisfatória e que tem momentos interessantes.

FILME: 8.0

lordmade

Quase Deuses, de Joseph Sargent

Com Alan Rickman, Mos Def e Kyra Sedgwick

3

Parece mais um filme dirigido para quem estuda medicina do que para os cinéfilos. Quase Deuses, uma produção da HBO, tem pouquíssimos traços dramáticos e realiza uma história puramente clínica, onde acompanhamos durante quase toda a projeção os bastidores dos trabalhos de duas mentes dedicadas à medicina. Portanto, é um resultado não tão interessante como longa-metragem, já que é carente de maiores conflitos nos seus personagens. Mas, podemos extrair boas coisas da parte “técnica”, já que Quase Deuses é um retrato de superação e pesquisa dedicada no mundo dos médicos.

FILME: 6.5

princessbride

A Princesa Prometida, de Rob Reiner

Com Robin Wright Penn, Chris Sarandon e Cary Elwes

25

Sabe aqueles filmes de amores proibidos, principes malvados, bichos perigosos e muita aventura para que tudo tenha um final feliz? A Princesa Prometida é isso. E, às vezes, até demais. É a definição pura de filme da Sessão da Tarde. Se entrar nesse clima, o longa funciona – até porque é bem bobinho e passa a sensação de que foi produzido justamente por ter esse efeito. Eu não consegui gostar tanto do restulado, que me soou ultrapassado e desgastado – até porque o filme não tem nenhum atrativo mais diferenciado. Entretanto, como já dito, se entrar no clima, até dá pra se divertir.

FILME: 6.0

likeminds

Mentes Diabólicas, de Gregory J. Read

Com Toni Collette, Eddie Redmayne e Richard Roxburgh

2

Toni Collette está bem perdida nesse péssimo filme que tem sugestivas insinuações homossexuais mas que nunca chegam a lugar algum. É aquele velho conhecido tipo de filme que começa de certa forma satisfatória mas que aos poucos vai perdendo a força até ser finalizado em uma qualidade bem ruim. O jovem Eddie Redmayne (o filho de Julianne Moore em Pecados Inocentes) está bem esforçado, mas a história simplesmente não é trabalhada da maneira correta. Caso Mentes Diabólicas encenasse uma maior interação emocional entre os dois garotos protagonistas, talvez o resultado não tivesse sido tão insatisfatório como esse.

FILME: 5.0

Opinião – A culpa de Briony

Atenção! Se você ainda não assistiu o filme “Desejo e Reparação”, não continue a ler o texto, pois ele possui spoilers.

Quantos anos de idade são precisos ter para saber a diferença entre o certo e o errado? Em 1935, no dia mais quente do verão inglês, a jovem Briony Tallis (Saoirse Ronan, ótima) presenciou uma cena nebulosa – onde nem mesmo o ser humano mais atento poderia dizer o que aconteceu de fato. Ao contrário das garotas de sua idade, Briony interpretou tudo de forma maliciosa, sexual. Isso, enventualmente, fez Robbie Turner (James McAvoy) ir preso, depois para a guerra e, enventualmente, morrer nos campos de combate. Mais do que isso, destruiu o amor entre ele e Cecilia (Keira Knightley), irmã de Briony.

Nutrindo um amor passageiro de adolescência por Robbie, Briony via todas as situações de forma diferente por causa desse sentimento. Sentia ciúmes dele, ficava mal-humorada quando ele a preteria e invejava o relacionamento dele com Cecilia. O que fica evidente, logo nos primeiros minutos de Desejo e Reparação, é que Briony não é uma garota qualquer. Ela é diferente das meninas de sua idade. É inteligente e crítica, com traços adultos em sua personalidade. Mas daí fica a questão: por que ela mentiu descaradamente sobre uma coia tão séria, que ela não tinha certeza alguma? A resposta mais adequada é a que tinha certa raiva pro Robbie não ser a pessoa que ela esperava que ele fosse. A pessoa que lhe desse atenção, que a tivesse com prioridade.

Briony não notou a consequência de sua mentira logo de cara. Tanto, que assiste, na janela da casa, com uma expressão gélida, a prisão de Robbie. Ela era inteligente sim. Mas não quando os sentimentos entravam em cena. Era, ao mesmo tempo, dotada de uma inteligência diferente e de uma inconsequência assustadora. Foi com o passar dos anos que começou a perceber o estrago que fez. Ainda assim, quando já era maior e enfermeira (nessa fase, interpretada come excelência por Romola Garai), nunca teve coragem de expressar o seu arrependimento e também nunca procurou formas de se reconectar com a família – que havia sido destruída depois daquele verão tumultuoso. Ela se escondeu, viveu uma vida solitária. Queria, de certa forma, fugir dela mesma e da terrível decisão que fez quando garota.

Briony era covarde. Só conseguiu expressar toda sua dor e arrependimento através da arte, quando, já idosa e doente, escreveu um livro contando a história de Robbie e Cecilia. Contando, inclusive, sua mentira e sua culpa. Agora, tal “pedido de desculpas” é válido quando as pessoas em questão já morreram? Não seria “mais fácil” para ela assumir a culpa depois que não existe mais ninguém a quem recorrer para pedir perdão? A mesma Briony covarde vivida por Romola Garai continua aqui nessa senhora vivida por Vanessa Redgrave. Contanto, ao mesmo tempo em que temos repulsa por uma personagem tomada pela inconsequência, também enxergamos um ser humano arrependindo – e que era fraco demais para fazer o fundamental: pedir desculpas.

Portanto, fica no espectador aquela mesma sensação despertada por Hanna Schmitz em O Leitor: estamos tendo pena de uma personagem que fez um absurdo, que “matou” pessoas e que destruiu a vida sentimental de alguém. Agora, Briony é diferente de Hanna Schmitz só por ser uma criança? Talvez não. Como já dito aqui, ela era bem consciente de seus atos e, por mais que fosse uma criança, sabia muito bem que tudo poderia ter sido diferente caso não tivesse dito: “I saw him. I saw him with my own eyes“. Pra mim, ela tem sim a sua culpa. Mas, isso não quer dizer que eu também não entenda as dores e o sofrimento da personagem causados pelo arrependimento.

E você, o que acha da Briony? Ela tem culpa ou não?

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Anteriormente:

A culpa do Padre Flynn, em Dúvida

A escolha de Francesca, em As Pontes de Madison

O segredo da vila, em A Vila

A verdade sobre Hanna Schmitz, em O Leitor

A felicidade de Poppy, em Simplesmente Feliz

A obsessão de Barbara, em Notas Sobre Um Escândalo

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