Cinema e Argumento

Electroma

Existe uma certa música do Daft Punk que se chama Human After All. Esse filme deles, Electroma, trabalha em grande potencial esse assunto: a humanidade. A produção mostra a jornada de dois robôs em busca de uma alma, querendo uma inserção no mundo dos sentimentos e das emoções. Essa jornada deles é totalmente sem diálogos (nenhuma palavra é dita durante toda a projeção) e toda a emoção da história é transmitida através de tomadas silenciosas e cenas embaladas por emocionantes canções que em diversos momentos alcançam níveis extraordinários (fiquei com três momentos na cabeça durante um bom tempo). De início, Electroma é um filme meio perturbador e estranho: o silêncio grita aos ouvidos e os personagens são muito bizarros. Leva-se um tempo para se acostumar a esse estilo, que em diversas partes lembra outros filmes, mas, aos poucos, a produção vai envolvendo e conseguindo ficar cada vez mais interessante em suas intenções e em sua sincera dramaticidade. Com ligeiros 70 minutos de duração, é bem restrito e para um público mais seleto: um público de “arte”, que entende as entrelinhas e tudo o que se esconde em um silêncio subjetivo. Não digo que fui completamente envolvido e nem que me apaixonei pelo filme, mas o fato é que Electroma foi uma experiência única para mim, conseguindo ser mais emocionante do que muitos dramas enfadonhos e manipuladores que andam por aí.

FILME: 8.0

35

Filmes em DVD

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Seven – Os Sete Crimes Capitais, de David Fincher

Com Morgan Freeman, Brad Pitt e Gwyneth Paltrow

Aqui está um ótimo exemplar de filme de serial killer que nunca desanda nem parte para situações absurdas ou para maiores bobagens. Ainda que a trama seja linear e pouco surpreendente (com exceção do inteligente e memorável desfecho) deixa o espectador intrigado porque utiliza uma boa idéia para desenvolver a história. Brad Pitt está um pouco irregular e Gwyneth Paltrow mal aparece, mas as presenças de Morgan Freeman e Kevin Spacey compensam tudo. A excelente montagem foi indicada ao Oscar, mas não levou. Seven – Os Sete Crimes Capitais não é nem de longe o melhor filme do David Fincher, mas mesmo assim não deixa de ser um excelente entretenimento.

FILME: 8.0

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Cassino, de Martin Scorsese

Com Robert De Niro, Sharon Stone e Joe Pesci

Scorsese tem um grande público e eu sempre tentei me encaixar no seu grupo de fãs, mas em vão. O estilo do diretor realmente não consegue me conquistar. Foi assim com Os Infiltrados e agora com esse Cassino. O estilo de direção e a longa duração foram decisivos para que eu não adorasse esse filme, que vale mais pelas ótimas interpretações. Robert De Niro está perfeito no papel e Sharon Stone brilha completamente (em especial nos momentos iniciais, ondeconsegue hipnotizar com sua beleza), que concorreu ao Oscar de Atriz, e que só não levou justamente por ela ser uma coadjuvante na história. A direção de arte também é muito competente, mas o modo de contar histórias do diretor não ajudou muito. Cassino é um filme satisfatório, bem produzido e que, com certeza, deve agradar os fãs do diretor.

FILME: 7.5

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A Casa-Monstro, de Gil Kenan

Com as vozes de Steve Buscemi, Maggie Gyllenhaal e Jon Heder

Foi o desenho preterido das premiações ano passado. Os outros dois indicados (Carros e Happy Feet) faturaram ao mênos algum prêmio cada, mas A Casa Monstro não. Uma injustiça, já que o filme tem o mesmo nível de originalidade que os outros dois, do qual não gosto muito (Carros é longo demais e Happy Feet um pouco estranho). Partindo de uma premissa bem nostálgica, A Casa Monstro consegue ter personagens bem simpáticos e divertidos. Apesar de escorregar nos momentos finais, onde se perde e exagera um pouco na resolução da trama, a animação consegue ser bem agradável. Não tanto para crianças, pois é cheio de explosões, sustos e outras coisas que devem assustá-las. É uma animação que vale mais pela originalidade, mas nem tanto pelo visual.

FILME: 7.5

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Traffic, de Steven Soderbergh

Com Michael Douglas, Catherine Zeta-Jones e Benicio Del Toro

O tema já é batido e a estrutura é convencional. Porém, esses defeitos não são o que tornam Traffic um filme meramente banal, e sim a sua excessiva duração e a falta de ritmo. A trama é simples e não eram necessárias mais de duas horas e meia para desenvolvê-la. Não consegui ficar muito interessado pelo enredo, pois ele parece ser uma variação de tantos outros filmes sobre o tráfico de drogas. No entanto, dois aspectos salvam o filme. O primeiro é a excelente direção do Steven Soderbergh, que, merecidamente, ganhou o Oscar de diretor por seu trabalho. O segundo é o elenco, todos ótimos. Traffic pode ser longo e nada original, mas não deixa de ser um satisfatório entretenimento com conteúdo e bem produzido. Ah, e será que só eu achei o Oscar de coadjuvante pro Benicio Del Toro injusto? Não vi nada demais na interpretação dele…

FILME: 7.5

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Rent – Os Boêmios, de Chris Columbus

Com Anthony Rapp, Adam Pascal e Rosario Dawson

O gênero musical é um dos mais dificeis do cinema contemporâneo e são poucos os que realmente conseguem criar um querido público. Infelizmente, Rent – Os Boêmios está na safra dos musicais que não conquista praticamente ninguém e que peca por não ser inventivo e muito menos empolgante. O mais engraçado de tudo é que as músicas são ótimas, as coreografias estão em plena sintonia e o filme tem momentos muito agradáveis. Porém, o erro parece ser que faltou alma nesse projeto que fica sempre “prometendo” mais e nunca chega a lugar algum. Não achou seu público aqui no Brasil e, provavelmente, nem deva encontrar.

FILME: 7.0

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Túmulo Com Vista, de Nick Hurran

Com Brenda Blethyn, Alfred Molina e Christopher Walken


Enquanto assistia Túmulo Com Vista, lembrei bastante de outra comédia chamada A Morte Lhe Cai Bem. Ambos os filmes satiririzam a morte e possuem os mesmos tipos de defeitos e qualidades. Deixe de lado o criticismo com aburdos e exageros. Assim, você conseguirá obter o melhor dessa produção satisfatória e que prima pelo ótimo elenco que possui, em especial a ótima Brenda Blethyn. Divertido, Túmulo Com Vista é uma comédia para poucos, principalmente por causa de seu humor negro – que, como na maioria das vezes, dificulta a aceitação.

FILME: 6.5

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Meu Amor de Verão, Pawel Pawlikowski

Com Emily Blunt, Nathalie Press e Paddy Consindine

Histórias de amor homossexual são um problema. Até hoje não achei nenhum filme que realmente me conquistasse sobre esse assunto. E olha que já vi coisas bizarras do gênero, como o italiano Um Amor Quase Perfeito. Então, assisti Meu Amor de Verão com um pé atrás, mas com fé na interpretação da boa Emily Blunt. Não conferi nenhum repeteco nem nenhuma bobagem e sim uma história completamente rasa e esquecível. Nathalie Press e Emily Blunt estão excelentes, mas, novamente, vi uma história de carência afetiva e não de amor. Tem alguns momentos inventivos e bons diálogos, mas é tudo muito frio e vazio (culpa também da falta de trilha sonora).

FILME: 6.0

O Caçador de Pipas

Direção: Marc Forster

Elenco: Khalid Abdalla, Atossa Leoni, Homayoun Ershadi, Zekeria Ebrahimi, Shaun Toub, Nabi Tanha

The Kite Runner, EUA, 2007, Drama, 124 minutos, 14 anos.

Sinopse: Depois de passar anos na California, Amir (Khalid Abdalla) retorna para a sua cidade natal, no Afeganistão, para tentar corrigir erros do passado. Ele também terá de ajudar o filho de seu amigo de infância, que está com sérios problemas.

Estranho. Achei o filme e o livro de O Caçador de Pipas totalmente diferentes. Eu não deveria ter essa sensação, uma vez que o filme de Marc Forster é plenamente fiel ao best-seller de Khaled Hosseini. Falando em Marc Forster, ele prova aqui que a palavra ”versatilidade” lhe cai muito bem, pois realiza um de seus melhores trabalhos como diretor. A produção é meticulosamente cuidadosa em todos os seus setores e especialmente na primeira hora do filme, que retrata a infância do protagonista. É nessa parte também que o filme funciona melhor, onde é mais sentimental, emocionante e verossímil. A adaptação teve pleno êxito nos primeiros momentos, que realmente ficaram muito interessantes.

Já a segunda hora e os momentos finais não conseguem conquistar, já que tudo é muito vazio e sem sentimento. De uma certa forma, a adaptação do best-seller é digna e consegue traduzir muito bem todo o espírito que o escritor Khaled Hosseini transmitia em sua obra, mas não consegui me sentir confortável com a história e muito menos me emocionar.Não é um produto comercial e gostei bastante disso. Em momento algum notamos que o filme quer apenas “ganhar dinheiro”, muito pelo contrário, tudo parece ter sido feito com amor ao livro. O fato é que eu li a história faz bastante tempo, então a versão cinematográfica não teve tanta graça porque eu já sabia tudo o que estava por acontecer.

A trilha sonora de Alberto Iglesias, que foi indicada ao Oscar, é ótima, mas de maneira nenhuma oferece riscos para a melhor trilha desse ano: a de Dario Marianelli, em Desejo e Reparação. O desconhecido elenco de O Caçador de Pipas realiza um trabalho surpreendente, todos excelentes, principlamente o elenco mirim e o protagonista Khalid Abdalla. Um filme nada mais que satisfatório, sem ousadias ou novidades. Em termos de adaptação está ótimo. Só faltava ser um pouco mais contundente como cinema…

FILME: 7.0

3

Oscar 2008 – Atriz Coadjuvante

  • Cate Blanchett, por Não Estou Lá
  • Ruby Dee, por O Gângster
  • Saoirse Ronan, por Desejo e Reparação
  • Amy Ryan, por Medo da Verdade
  • Tilda Swinton, por Conduta de Risco

Ruby Dee foi a grande surpresa da lista. Por mais que ela já estivesse baixamente cotada, eu esperava alguma surpresinha nessa categoria, torcendo até mesmo pela Vanessa Redgrave em Desejo e Reparação. Mas a vaga do filme ficou merecidamente com a jovem Saoirse Ronan, que é um dos maiores destaques do filme de Joe Wright e certamente tem futuro no cinema. Amy Ryan trouxe a única indicação para Medo da Verdade e era uma favorita anteriormente, mas com a derrota no Globo de Ouro ficou completamente em baixa. Acho bem suspeita a indicação da Tilda Swinton. Não no sentido negativo, mas sinto que a presença dela pode ser a maior ameaça para a favorita da categoria: Cate Blanchett. O papel de Swinton em Conduta de Risco se encaixa bem na categoria de coadjuvante e sua atuação é ótima (destaque para seu último momento no longa). Uma estatueta para sua premiação seria bem merecido. No entanto, é bem difícil que o prêmio não vá para Blanchett por seu desempenho em Não Estou Lá. Desconfio se a Academia vai mesmo dar o Oscar para uma atriz já consagrada com a estatueta e tão festejada. Mas ao que tudo indica, vai sim.

Juno

Direção: Jason Reitman

Elenco: Ellen Page, Jennifer Garner, J.K. Simmons, Allison Janney, Michael Cera, Jason Bateman

EUA, 2008, Comédia, 105 minutos, 10 anos.

Sinopse: Quando a adolescente Juno (Ellen Page) aos 16 anos de idade descobre-se grávida do namorado (Michael Cera), ela decide procurar pais adotivos para o filho que não deseja ter. Contando com o apoio de seu pai (J.K. Simmons) e de sua madrasta (Allison Janey), Juno entrará em uma jornada sobre qual a importância de crescer e superar os tombos da vida.

Logo quando Juno começou a fazer sucesso nas premiações, o público considerou essa produção independente como o Pequena Miss Sunshine de 2008. Qualquer comparação com o bem-sucedido filme de Jonathan Dayton e Valerie Farris é inútil, uma vez que Juno se difere totalmente, com exceção na aura de comédia indepentente com rumo à carreira de produção cult no futuro. A segunda incursão do diretor Jason Reitman no cinema (o primeiro foi o bom Obrigado Por Fumar) trouxe grandes frutos para a equipe envolvida. O filme recebeu quatro indicações ao Oscar e é favorito para levar o importante prêmio de roteiro original.

Sem dúvida alguma, Juno veio dar continuidade ao efeito que Pequena Miss Sunshine criou ano passado: o de que filmes baratos e independentes podem sim ser melhores do que produções caras e grandiosas. Durante todo o filme fica claro essa intenção, porque o roteiro tem um charme único, um humor muito sincero e um caráter inofensivo. Se eu tivesse que dizer a razão de toda a badalação em torno dessa comédia seria a sua simplicidade. Nada é grosseiro, clichê e muito menos forçado. A roteirista Diablo Cody (em sua estréia no cinema como roteirista) transportou um tema pesado – a gravidez na adolescência – para um tratamento agradável, abrangendo todos os públicos, que certamente irão se envolver com a jornada rumo à maturidade da protagonista.

Óbvio que para um filme como esse, uma protagonista carismática e competente é necessária. A escolhida da vez é Ellen Page, que anteriormente havia mostrado competência no péssimo Menina Má.Com e que aqui tem a verdadeira chance de alçar vôo em sua carreira. A jovem atriz de 20 anos se mostra confortável e muito segura no papel, conseguindo segurar tranqüilamente as rédeas da ótima personagem e merecendo sua indicação ao prêmio da Academia. Mas, não estaria ela interpretando a si mesma? O elenco de suporte não possui maiores destaques, tendo como coadjuvantes Allison Janney (a namorada de Meryl Streep em As Horas) e J.K. Simmons. Quem mais chama a atenção é Jennifer Garner, muito simpática e em bom desempenho.

Um outro aspecto que me deixou bastante satisfeito foram as canções, agradáveis e encantadoras. Por mais que sejam utilizadas em excesso, combinam perfeitamente com cada momento e com cada cena. Apesar de todos esses meus elogios, não achei Juno tão original assim. O sucesso e o encantamento em volta do filme devem-se apenas ao grande poder de conquistar com sua simplicidade. Até achei bastante estranho a Academia ter dado tanta ênfase para esse filme em um ano tão concorrido (absurdo Joe Wright ter sido eliminado da lista de direção por Desejo e Reparação e ter “cedido” o lugar para Jason Reitman, por exemplo). Juno, com certeza, vai achar seu público…

FILME: 8.0

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