Cinema e Argumento

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

Sometimes illusions are better than medicine.

Direção: Woody Allen

Elenco: Naomi Watts, Anthony Hopkins, Josh Brolin, Gemma Jones, Antonio Banderas, Freida Pinto, Lucy Punch, Christian McKay

You Will Meet a Tall Dark Stranger, EUA, 2010, Comédia, 98 minutos

Sinopse: Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones) estão casados há 40 anos, até que um dia ele resolve que precisa recuperar a juventude perdida e decide pedir o divórcio. Helena fica destroçada com a notícia e, com o apoio da filha, Sally (Naomi Watts), passa a consultar periodicamente Crystal (Pauline Collins), uma vidente. Paralelamente Sally precisa lidar com o desejo crescente por seu novo chefe, Greg (Antonio Banderas), e com a crise em seu casamento com Roy (Josh Brolin), um escritor que apenas fez sucesso em seu livro de estreia e enfrenta dificuldades em concluir seu novo trabalho. Enquanto aguarda a resposta da editora sobre seu novo livro, Roy passa a flertar com sua nova vizinha, Dia (Freida Pinto), que sempre se veste de vermelho.

Todos conhecem aquela velha afirmação de que quantidade não é sinônimo de qualidade. Ultimamente, diretores como Clint Eastwood e Woody Allen parecem ter esquecido disso. Longe de mim dizer que eles entregam trabalhos ruins ou que o talento deles está ficando questionável. O que incomoda é ver profissionais tão talentosos diluindo os seus talentos em uma vontade desnecessária de lançar pelo menos um longa-metragem por ano. Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, por exemplo, foi o segundo filme de Woody Allen que chegou nos cinemas brasileiros em 2010 (o anterior foi Tudo Pode Dar Certo). O resultado? Mais um filme corriqueiro do diretor, ainda que muito injustiçado.

Agora, onde está a injustiça sofrida por Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos? Ora, muito simples: já não é de hoje que Allen está apresentando filmes que ficam abaixo das expectativas. O problema é que o público e a crítica resolveram implicar logo com essa produção que é bem agradável e tem um ótimo elenco. Teria sido mais coerente se tivessem falado mal do monótono O Sonho de Cassandra ou até mesmo de Scoop – O Grande Furo, que é um dos momentos mais fracos de toda a carreira do diretor. Essa necessidade de mostrar que é um sujeito sempre na ativa tem tirado a concentração de talento de Allen. Muito filme para pouco efeito. Mas, como sempre, existem aspectos muito legais a serem considerados em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos.

Como é rotina na filmografia de Allen, essa é mais uma produção cheia de diálogos bem pensados e que possuem uma dinâmica muito agradável. Se formos prestar atenção, podemos notar que os conflitos trabalhados são batidos, mas o texto consegue ultrapassar essa barreira e entregar um produto com momentos interessantes. O roteiro, claro, é ajudado por um elenco totalmente à vontade. É sempre um prazer ver Naomi Watts e Anthony Hopkins atuando e aqui eles correspondem às expectativas. Os outros atores, como Gemma Jones (com um papel repetitivo, mas de destaque) e Josh Brolin também conseguem um ou outro momento para chamar a atenção. Quem ainda não me convence é Freida Pinto, a insossa Latika de Quem Quer Ser Um Milionário?, uma atriz que não tem carisma e muito menos presença em cena.

É um filme que não tem os melhores diálogos de Allen e também não vai ficar na safra dos resultados mais destacáveis do diretor nos últimos anos (Vicky Cristina Barcelone e Match Point foram os últimos trabalhos mais interessantes). Contudo,Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos tem características facilmente reconhecíveis do cinema de Woody Allen e é uma produção que tem saldo positivo, além de ter vários aspectos que tornam  válida uma conferida. O longa não vai mudar a vida de ninguém, assim como tampouco está entre os melhores do ano. Só não merecia ter sido recebido com tanto descaso. Afinal, como já mencionado, Woody Allen já apresentou vários outros filmes irregulares que não foram criticados. Não sei o porquê de terem implicado logo com esse, que é bem realizado e agradável.

FILME: 8.0


So long, farewell, 2010!

Pois é, mais um ano se passou e o Cinema e Argumento, novamente, começa a montar a lista de melhores do ano. Em breve, serão publicadas as habituais regras da premiação e a lista de filmes elegíveis. Nenhuma categoria está plenamente fechada até ser publicada. Então, se quiserem enviar seus recados de For Your Consideration, não pensem duas vezes! Só espero que, esse ano, eu não tenha nenhum momento de insanidade mental ao colocar, por exemplo, Avatar entre os melhores roteiros do ano. Vou tomar os meus remédios certinhos antes de fazer a seleção, ok? Brincadeiras à parte, espero que vocês gostem da quarta edição do prêmio Cinema e Argumento de melhores do ano.

Também gostaria de deixar registrado aqui o meu agradecimento a todos os leitores e a todas as pessoas que foram importantes na minha jornada com o blog. Sem vocês, o Cinema e Argumento não teria completado três anos de existência no último dia sete! Aproveito a ocasião, claro, para desejar a todos um feliz ano novo, com um 2011 cheio de realizações e, claro, bons filmes. Para finalizar bem o ano, vou preparando a lista de melhores de 2010. Eu adoro essa função e desejo muito que vocês gostem também! Começando o aquecimento, coloco abaixo os vencedores do ano passado.

Melhor Filme: Dúvida

“Dúvida é, acima de tudo, cinema obrigatório. Denso, reflexivo e anormalmente bem escrito. Todo o efeito irá pairar como uma nuvem sob sua cabeça por um bom tempo. E não há certeza tão forte quanto a dúvida que o texto te deixa.”

– Wally Soares (Cine Vita)

“É um filme que é caracterizado por um casamento perfeito entre atores e roteiro. O interessante, porém, é que, assim como Ian McEwan, e, ao contrário de Machado de Assis, ele tem plena consciência de que não existe um lado vencedor. A culpa sempre irá existir. A grande pergunta é: quem sabe conviver com ela? Aí, sim, teremos alguém levando vantagem – se é que isso é possível.”

– Kamila Azevedo (Cinéfila Por Natureza)

“A direção discreta é eficiente justamente por depositar no seu elenco os melhores momentos do longa. É tão intenso, que até a minúscula aparição de Viola Davis se torna inesquecível!”

– Gustavo Bezerra (Fina Ironia)

Red – Aposentados e Perigosos

I remember the Secret Service being tougher.

Direção: Robert Schwentke

Elenco: Bruce Willis, Mary-Louise Parker, John Malkovich, Helen Mirren, Morgan Freeman, Karl Urban, Julian McMahon, Rebecca Pidgeon, Chris Owens

Red, EUA, 2010, Ação, 111 minutos

Sinopse: Frank Moses (Bruce Willis) é um ex-agente da CIA, hoje aposentado, que tenta levar uma vida normal. Ele está interessado por Sarah (Mary-Louise Parker), com quem volta e meia conversa ao telefone, apesar de ainda não conhecer pessoalmente. Um dia, a casa de Frank é atacada por agentes da CIA. Sem saber o que está acontecendo, ele deduz que logo perceberão sua ligação com Sarah e parte para protegê-la. Para entender o porquê de ter sido atacado, Frank precisará da ajuda de seus antigos companheiros Joe (Morgan Freeman), Marvin (John Malkovich) e Victoria (Helen Mirren), todos também aposentados.

Logo quando fiquei sabendo de Red – Aposentados e Perigosos, fiquei me perguntando o porquê dele ter reunido tantos atores bons. Conferi as fotos e as minhas dúvidas cresceram ainda mais. Afinal, o que levaria Helen Mirren a aceitar um papel onde ela precisa segurar uma metralhadora e atirar em várias pessoas? Bom, os créditos finais de Red – Aposentados e Perigosos apareceram na tela e eu permaneço sem saber responder  todas essas perguntas. O máximo que consigo deduzir é que os atores resolveram se divertir nas férias com esse longa-metragem.

Sejamos sinceros: Red – Aposentados e Perigosos tem uma história fraca e que, inclusive, brinca superficialmente com a sua própria proposta de mostrar personagens aposentados se aventurando em missões perigosas. O diretor Robert Schwentke (do bom, mas falho Plano de Vôo) não realizou nada além de um convencional filme de ação onde o protagonista (Bruce Willis, o que menos entrou no clima de brincadeira) precisa escapar de alguém que quer vê-lo morto. No caminho, reencontra algumas pessoas de seu passado e ainda precisa cuidar da mocinha por quem se apaixonou.

Uma premissa dessas, nas mãos de um diretor original, poderia render um delicioso guilty pleasure. Não foi o que aconteceu aqui. Red – Aposentados e Perigosos tem sim os seus momentos de descontração e diversão, mas, na maioria do tempo, fica dividido entre esse sentimento de guilty pleasure e o desnecessário. Alguns momentos de humor beiram o óbvio e a ação se desenvolve de forma corriqueira com algumas pitadas de exagero. As resoluções são totalmente normais e sem impacto, assim como toda a estrutura do filme (notem também como a trilha sonora utiliza, durante dois longos momentos e de forma descarada, a composição War que James Newton Howard fez para Duplicidade).

Apesar de todas as previsibilidades e falhas que já poderiam ser esperadas de um filme desse tipo, Red – Aposentados e Perigosos funciona naquele esquema onde o espectador não deve assistir com exigência. Os atores estão ali se divertindo, a história não apela para o ridículo e a direção até que consegue sustentar a ação que é apresentada. Ou seja, é uma produção mediana que não deve ser levada a sério. Uma pequena bobagem para se assistir caso não exista outra opção melhor – e, levando em consideração o desastre que o filme poderia ter sido, isso é até um elogio.

FILME: 6.5

Livro – Minha Vida na França

Paul e eu gostávamos de viajar no mesmo ritmo lento. Ele sempre sabia muito sobre tudo, descobria maravilhas ocultas, notava muros antigos ou aromas nativos, e eu sentia falta da sua presença calorosa. Antigamente era uma solteira feliz, mas agora não suportava mais a solidão.

Livros de memórias são complicados. Alguns podem dizer que, para se realizar uma obra nesse estilo, é necessário que a protagonista tenha tido uma vida extraordinária. Mas a verdade é que, assim como em qualquer literatura, não basta tem um rico material em mãos se ele não for bem executado. É o caso de Minha Vida na França, que procura desenvolver os acontecimentos mais marcantes da vida de Julia Child, desde quando colocou os pés na França pela primeira vez até quando se tornou um expoente da culinária no país.

Como assistimos em Julie & Julia, filme de Nora Ephron baseado não só em Minha Vida na França mas também no livro da norte-americana Julie Powell, Julia Child não tinha nenhuma noção de culinária e, após sofrer muito em aulas de níveis avançados no Cordon Bleu, começou a levar jeito para o negócio. Ela passou a dar aulas, lançou um livro de culinária para americanas que moravam na França e, mais tarde, foi apresentar um programa gastronômico na TV. Ou seja, aquela desengonçada norte-americana que as escolas de culinária desprezavam no início se tornou um dos nomes mais importantes no ramo.

Julia Child pode ter sido uma ótima mestre-cuca, mas fica claro em Minha Vida na França que a literatura não era o seu forte. Ela escreveu o livro em parceria com Alex Prud’homme, um jornalista e também autor de outros livros de não-ficção. Contudo, os dois não conseguiram trazer a vida de Julia Child da forma mais atraente para os leitores. Parece que Minha Vida na França é um capricho de Child: um livro escrito para que ela sempre pudesse relembrar as pessoas que conheceu, os lugares que visitou ou as situações que enfrentou. Interessante para ela, não tanto para os outros.

O livro já começa sofrendo de um sério problema: a adaptação. São inúmeras as expressões francesas ou os vocabulários que simplesmente não foram traduzidos. O francês, em alguns momentos, se mistura com o português, como se o leitor tivesse obrigação de saber o que algumas frases significam. O máximo que dá para conseguir é deduzir, através do contexto, o que aquilo pode significar. Algumas passagens possuem a explicação do que a citação francesa significa, mas é incômodo encontrar tantas passagens com referências ao idioma e que nós não entendemos.

Quanto ao livro, Minha Vida na França deixa a forte sensação que não tem uma linha narrativa definida. A ordem cronológica dos fatos existe, mas tudo é muito solto e sem conexão. Se já não bastasse os milhões de nomes  de pessoas e de lugares visitados, Julia Child narra toda e qualquer situação corriqueira de sua vida de forma superficial. Não existe intensidade nem muitos detalhes nas situações apresentadas, o que confere ao livro aquela velha estrutura de mil histórias contadas e que, no final, quase nenhuma será lembrada pelo leitor.

Com toda a certeza posso dizer que, além de ser um livro altamente decepcionante, Minha Vida na França me deixou muito cansado. Demorei meses para terminar uma obra que nem é extensa, mas que parece ter o triplo de seu tamanho em função do ritmo irregular e da narrativa perdida. Sei que sou um estranho no ninho (os atendentes da livraria em que comprei o livro, por exemplo, disseram que o livro é ótimo) e sei que alguns podem gostar do resultado. Contudo, fiquei triste ao constatar que eu terminei de ler a obra com muita má vontade, contando as páginas para que tudo logo chegasse ao fim. Logo eu, um fã de carteirinha da França e da storyline de Julia Child no filme de Nora Ephron. Nesse sentido, o filme fez milagres com as memórias da mestre-cuca.

As melhores cenas de 2010

O emocionante final de Toy Story 3.

Existe alguém que não se emocionou com o desfecho de Toy Story 3? Encerrando com precisão a história dos brinquedos de Andy, a cena toca o espectador, lembrando sobre como abandonar uma fase de nossas vidas pode ser doloroso. A sentimental composição So Long, de Randy Newman, só ajuda a melhorar ainda mais toda a emoção presente nessa sequência.


O incrível plano-sequência de O Segredo dos Seus Olhos.

É até estranho ver uma cena tão ambiciosa como essas em um filme que não tem pretensões grandiosas no setor técnico como O Segredo dos Seus Olhos. No entanto, é uma enorme satisfação ver uma sequência impecável como essa, que foi elaborada de forma genial. O diretor Juan José Campanella mostra que evoluiu muito como diretor.

A impressionante luta sem gravidade de A Origem.

Quando pensei que Christopher Nolan não pudesse me surpreender mais em A Origem, eis que ele vem com essa cena de luta sensacional. Extremamente original e beirando a perfeição, a sequência é de um brilhantismo único porque une ação e inovação. A trilha de Hans Zimmer, junto com a impressionante direção de Nolan, formam um dos momentos mais incríveis desse filme.

A narração inicial de Direito de Amar.

O que falar de um filme que já me deixou impressionado logo nos primeiros minutos? Pois é, o vídeo acima ilustra muito bem o exato momento em que Direito de Amar conseguiu me conquistar por completo. A narração inicial, “becoming George” é melancólica e dolorosa. A fusão perfeita da trilha de Abel Korzeniowski, roteiro e atuação. Espetacular!

Comunicando-se com a família na Terra em Lunar.

Lunar já tinha alcançado a minha admiração como ficção, mas não esperava que o filme também fosse me atingir como drama. A sequência em que o protagonista consegue se comunicar, pela primeira vez, com a sua filha na Terra é de cortar o coração. Não é só Sam Rockwell que torna essa cena arrepiante, mas também a arrebatadora trilha de Clint Mansell.

O desfecho de Mary & Max – Uma Amizade Diferente.

Esse desfecho já seria melancólico para um filme comum, mas ficou ainda mais especial por se tratar de um desfecho muito coerente para essa adulta animação chamada Mary & Max – Uma Amizade Diferente. É aquele tipo de final bittersweet, que deixa o espectador ainda mais satisfeito por ter visto essa produção cheia de significados especiais.

Cantando Joni Mitchell no jantar em Minhas Mães e Meu Pai.

Não é novidade a minha relutância com a possibilidade de Annette Bening ser premiada por Minhas Mães e Meu Pai. Ela está ótima no filme, mas, volto a repetir, só merece reconhecimento se Julianne Moore estiver ao seu lado. De qualquer forma, é com muita sutileza e encanto que ela tem, na cena ilustrada acima, o seu melhor momento no longa. Um momento inspirado de um filme óbvio.

O surpreendente final de Lembranças.

Podem falar mal de Lembranças (um dos filmes mais decentes da carreira de Robert Pattinson), mas aposto que todo mundo se surpreendeu com esse final, né? Tá certo que tudo acontece de forma meio gratuita, como se o roteirista tivesse inventado tudo só para chocar. Mas funcionou? Ah, funcionou! Desfecho impecável para esse bom filme.

Marion Cotillard canta My Husband Makes Movies em Nine.

O vídeo acima tem mais de uma cena, mas só a primeira deve ser considerada: aquela em que Marion Cotillard canta My Husband Makes Movies. Esnobada pelas premiações, a francesa é o coração do decepcionante Nine e ilumina o filme toda vez que aparece. Mas, nesse número em particular, ela consegue todas as atenções ao cantar com pura melancolia.

A cena final de A Enseada.

A composição Dolphins & Ric, de J. Ralph, já poderia ser o suficiente para tornar a última cena de A Enseada em algo digno de atenção. Mas o documentário foi além e reservou um de seus melhores momentos para os últimos minutos. Denúncia e qualidade cinematográfica não faltam nesse ótimo desfecho – e no filme inteiro.