Cinema e Argumento

Filmes em DVD

Direito de Amar, de Tom Ford (revisto)

Com Colin Firth, Julianne Moore e Nicholas Hoult

Difícil encontrar, em 2010, outro filme que me encante tanto quanto Direito de Amar. Lembro que fui assisti-lo no cinema cheio de expectativas, e fiquei absolutamente maravilhado por elas terem sido superadas em todos os aspectos. Mais do que isso, Direito de Amar me transmitiu brilhantismo em cada momento. Se Colin Firth tem um desempenho arrasador (Jeff Bridges ganhou aquele Oscar só por causa da carreira e não por verdadeiro merecimento) e o roteiro entrega momentos sublimes, o setor técnico é igualmente encantador: a trilha do polonês Abel Korzeniowski é uma das mais belas que já escutei, a fotografia é genial e a direção de arte e figurinos são impecáveis. Em um momento ou outro, a direção de Tom Ford escorrega ao querer embelezar demais algumas tomadas. No entanto, isso é mero detalhe de um filme que já está entre os meus favoritos.

FILME: 9.5

Orações Para Bobby, de Russell Mulcahy (revisto)

Com Sigourney Weaver, Ryan Kelley e Austin Nichols

O dvd desse filme ainda não foi lançado no Brasil (e nem tem previsão), mas já pode ser adquirido em lojas do exterior – recomendo demais o dvd da Alemanha, que pode até só ter o áudio em inglês sem legendas, mas tem uma capa lindíssima e roda em qualquer aparelho de dvd. Pena que esse filme não tenha feito sucesso e é lamentável que não tenha sido produzido para o cinema. Digo isso porque Orações Para Bobby é o filme que melhor defende os direitos homossexuais. Sem falar que consegue fazer isso com muita humanidade, tornando-se o filme mais emocionante com relação a essa temática. Como é um filme feito para tv, a produção é bem compacta e vai direto ao ponto, sem muitas enrolações. O desempenho de Sigourney Weaver também é outro destaque (e ela merecia ter sido lembrada nas temporadas de premiações, onde não conquistou nenhuma estatueta), assim como a genuína representação de Ryan Kelley. Orações Para Bobby é um filme escondido e que quase ninguém sabe da existência. Uma pena, já que é uma história obrigatória para qualquer ser humano.

FILME: 9.0

Shrek Para Sempre, de Mike Mitchell

Com as vozes de Mike Myers, Cameron Diaz e Eddie Murphy

Sou fã apenas do segundo volume (por alguma razão que não consigo explicar, acho o primeiro superestimado), mas é fato que a franquia perdeu o fôlego no terceiro filme. Com a tentativa de recuperar o que foi perdido em uma suposta despedida, Shrek Para Sempre tenta trazer de volta tudo o que deu certo na história do ogro. Entretanto, mais uma vez, o resultado fica abaixo do esperado. Para uma despedida, Shrek se encerrou de forma passageira e esquecível, em uma história que não tem inspiração e que não faz nada além do óbvio. Aliás, não sei nem se crianças conseguirão ter paciência com esse enredo que tem lições de moral e uma estrutura longe de ser fácil para o público infantil. Alguns momentos divertem, mas nada que seja digno de maior nota. Uma pena que a série tenha acabado com um filme mediano desses… Agora, cadê o clima de despedida? Nem isso eu senti aqui.

FILME: 6.5

O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, de Terry Gilliam

Com Christopher Plummer, Andrew Garfield e Heath Ledger

Existe uma certa cota de loucuras para mim nos filmes. O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus ultrapassa esse meu limite. Até certo ponto, consegui entrar nas bizarrices e nas inventividades da história. Mas, em determinado momento, não consegui mais ver saldos positivos nas loucuras do roteiro. Além da história começar a complicar um enredo que não precisava ser complicado, o filme começa a perder ritmo e termina no nível do decepcionante. O elenco é interessante, trazendo o último desempenho de Heath Ledger e outras estrelas como Jude Law, Johnny Depp e Colin Farrell. Pena que os atores e a ótima direção de arte não sejam o suficiente para salvar esse filme de suas próprias loucuras narrativas.

FILME: 6.0

Marie & Bruce, de Tom Cairns

Com Julianne Moore, Matthew Broderick e Bob Balaban

Nada pior do que um filme que tem a proposta de ser estranho e não consegue alcançar bom resultado por causa disso. Marie & Bruce tem uma história simples, mas resolve dificultar a narrativa com escolhas bem estranhas, o que confere ao filme aquele velho tom insatisfatório de irregularidade. É outro trabalho ruim na carreira de Julianne Moore, que tenta fazer de tudo para dar ao filme alguma qualidade. Contudo, ela não consegue rivalizar com esse roteiro que é vazio e sem emoções – algo muito errado, uma vez que o conflito principal é a separação de um casal que não se suporta mais. Frio e perdido, Marie & Bruce só tem momentos mais interessantes quando chega perto do desfecho.

FILME: 5.0

As melhores composições de 2010

2009 foi um grande ano para as trilhas e 2010 também conseguiu ter esse rótulo. Amo trilhas sonoras e escolher as melhores composições do ano sempre é um prazer para mim. Nesse ano, a missão foi bem mais fácil que a do ano passado – até porque consegui enxergar de forma mais clara quais foram as trilhas que mais me conquistaram, enquanto em 2009 o resultado era mais racional do que afetivo. Antes de qualquer coisa, quero deixar bem explicado que a lista abaixo, em momento algum, influencia na minha futura seleção de melhores trilhas sonoras do ano ou define uma escala de preferência quanto aos meus álbuns favoritos de 2010. Então, tá querendo ouvir algumas demonstrações do que eu achei de melhor nas trilhas desse ano? Basta procurar pelas composições abaixo…

Abel Korzeniowski – Becoming George, from “A Single Man”

Abel Korzeniowski – And Just Like That, from “A Single Man”

Abel Korzeniowski – Clock Tick, from “A Single Man”

Abel Korzeniowski – Snow, from “A Single Man”

Alexandre Desplat – The Oblivation, from “Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 1”

Alexandre Desplat – The Ghost Writer, from “The Ghost Writer”

Alexandre Desplat – The Truth About Ruth, from “The Ghost Writer”

Clint Mansell – Memories (Someone We’ll Never Know), from “Moon”

Clint Mansell – The Nursery, from “Moon”

Daft Punk – Disc Wars, from “Tron: Legacy”

Hans Zimmer – Dream is Collapsing, from “Inception”

Hans Zimmer – Time, from “Inception”

J. Ralph – Dolphins & Ric, from “The Cove”

Marcelo Zavros – I Know You Can Hear Me, from “Remember Me”

Nick Cave & Warren Ellis – The Road, from “The Road”

Nick Cave & Warren Ellis – The Far Road, from “The Road”

Randy Newman – So Long, from “Toy Story 3”

Profecias para as premiações #2

Não sei bem se chega a ser uma “profecia” minha ou mais um desejo mesmo. Adoro Annette Bening e, inclusive, acho que ela tem uma cena muito especial em Minhas Mães e Meu Pai (aquela em que ela canta uma música de Joni Mitchell na hora do jantar). Mas, sinceramente, não sei o porquê de tanta badalação em torno da atriz. Pode parecer implicância minha, mas ela nem é a protagonista da história, aparece tanto quanto os outros (e, em certos momentos, chega, inclusive, a aparecer apenas de forma superficial) e está tão bem quanto a sua subestimada colega Julianne Moore. Também não ajuda o fato de que considero o filme bem fraco.

As últimas atrizes que venceram o Oscar de melhor atriz por um filme de comédia foram Cher, por Feitiço da Lua, na década de 80 e Helen Hunt, por Melhor é Impossível, em 1997. Portanto, lá se vão vários anos desde que uma profissional ganhou na categoria por um filme desse gênero. Era esperado que Meryl Streep tivesse quebrado esse jejum ano passado com Julie & Julia, mas, inexplicavelmente, foi derrotada por uma insossa Sandra Bullock. Se Meryl não conseguiu quebrar essa “regra”, fico meio desapontado de pensar que Annette pode conseguir esse feito com um filme tão sem inspiração e com uma interpretação que nem chega a ser tão especial assim. Contudo, já começo a me preparar psicologicamente para uma possível vitória de Bening.

Ela sempre foi uma candidata em potencial e, de uns tempos pra cá, sua força aumentou. Mas algo ainda me diz que ela não será a vitoriosa da categoria. As possibilidades existem (até porque a Academia tem débito com ela), mas, por tudo que já citei nesse texto, acredito que ela não vencerá – apesar da grande maioria pensar diferente de mim e adorar a performance da atriz. Se fosse para ela ter algum tipo de reconhecimento, então, que fosse como Susan Sarandon e Geena Davis por Thelma & Louise. Em Minhas Mães e Meu Pai é Annette Bening e Julianne Moore que merecem ser mencionadas, não apenas Bening. É injusto apenas uma ser reconhecida.

Scott Pilgrim Contra o Mundo

We are Sex Bob-Omb and we are here to make you think about death and get sad and stuff. One, two, three, four!

Direção: Edgar Wright

Elenco: Michael Cera, Mary Elizabeth Winstead, Ellen Wong, Alison Pill, Kieran Culkin, Anna Kendrick, Brie Larson, Jason Schwartzman

Scott Pilgrim vs. the World, EUA, 2010, Comédia, 112 minutos

Sinopse: Scott Pilgrim (Michael Cera) tem 23 anos, integra uma banda de colégio, vive trocando de emprego e tem um namoro firme. Sua vida está maravilhosa, até conhecer Ramona V. Flowers (Mary Elizabeth Winestead). Ele logo se apaixona perdidamente por ela, só que não será fácil conquistar seu amor. Para tanto, ele precisa enfrentar os sete ex-namorados dela, que estão dispostos a tudo para impedir sua felicidade com outra pessoa.

Existe uma linha muito tênue entre filmes que são verdadeiramente nerds/alternativos e aqueles que recebem esse título porque forçam a barra e “obrigam” o espectador a defini-lo assim por causa das inúmeras referências espertinhas no roteiro. Scott Pilgrim Contra o Mundo, fracasso nas bilheterias norte-americanas mas sucesso entre os espectadores que dão uma chance a ele, enquadra-se no segundo caso. Mas se o recente Kick-Ass: Quebrando Tudo surpreendeu com seu frescor, Scott Pilgrim falha em suas próprias ambições.

De início, é super fácil ficar encantando com toda a dinâmica e as deliciosas referências desse filme de Edgar Wright. Um extraordinário uso de efeitos e de sacadas virtuais conferem a Scott Pilgrim um tom muito divertido. E assim vai até a metade. Entretanto, tanta pirotecnia começa a cansar. Além disso afetar o ritmo, traz um lado muito frenético para o enredo. Ou melhor, para a falta dele. Sei que não é possível esperar muito de uma história toda arquitetada em torno de videogames e quadrinhos, mas o mínimo que se pode esperar é algum tipo de história e não algo quase sem acontecimentos como é aqui. Tem conflitos, é verdade, mas faltam acontecimentos consistentes.

O maior problema é que Scott Pilgrim parece mais um monte de cenas engraçadinhas costuradas em um irregular ritmo de 112 minutos. Junte a tudo isso um protagonista igualmente “sou nerd”, mas que não tem um pingo de expressão. Não sei de onde tiraram a ideia que Michael Cera tem carisma ou de que ele consegue ser um desses jovens atores que merece encabeçar vários filmes. No máximo, funciona como um coadjuvante. Sorte que existem outras figuras nesse filme, como Alison Pill e o estranho Kieran Culkin, para conferir simpatia ao elenco.

De resto, o filme é tudo isso que citei por aqui: um frescor de ideias em sua primeira parte e uma frenética repetição de efeitos e tiradas espertinhas no resto. Scott Pilgrim, sem dúvida alguma, vai ser a obra-prima nerd para aquele público viciado em jogos de videogames e histórias em quadrinhos. Mas, para falar a verdade, é mediano como cinema. Ninguém pode me acusar de má vontade. Só tenho muita resistência a esses tipos de filmes que querem, a todo custo, convencer que são super legais, inteligentes, cults e alternativos. Um filme passa a ter essas características de forma natural e genuína e não de forma milimetricamente planejada como nesse filme. Longe de ser ruim, Scott Pilgrim só precisava ser menos pretensioso e passar naturalidade – algo que simplesmente não ocorre, pelo menos pra mim.

FILME: 6.5


A trilha sonora de… Tron: O Legado

Quando vi o nome de Daft Punk envolvindo em uma produção da Disney, fiquei meio desconfiado. Digo isso porque outras incursões no cinema dessa dupla parisiense de house music foram, no mínimo, ousadas, como no perturbador Irreversível e no diferente Electroma. Então, pensei que Daft Punk tinha se vendido para o cinema comercial. Engano meu. Basta ver algumas imagens de Tron: O Legado para entender o porquê do Daft Punk ter entrado nesse projeto. O visual psicodélico do longa combina demais com eles e todo o visual anunciado nos trailers já disponíveis na internet mostram que o filme caiu como uma luva para eles.

Adoro Daft Punk, mas não tenho nenhum cd deles e nem costumo ouvi-los com frequência. Portanto, fui conferir a trilha de Tron: O Legado sem grandes expectativas. E adorei constatar que o resultado é espetacular. Adotando, de certa forma, todo o estilo já apresentado pela dupla antes nas suas mais famosas canções como One More Time e Harder, Better, Faster, Stronger ou até mesmo naquelas que nem são tão conhecidas mas que tem o meu apreço (Something About Us é um exemplo), a trilha de Tron: O Legado já é, sem pensar duas vezes, uma das melhores de 2010.

Minha surpresa foi grande não apenas em função da sonoridade dinâmica ou da diversidade de composições, mas também porque o álbum consegue se sustentar com notável qualidade ao longo de 22 composições. Sem falar, claro, da média extraordinária alcançada por cada uma das faixas. Algumas faixas, como Overture e Armory, não chegam a ser tão excelentes como o resto, mas pelo menos não fogem muito do padrão de qualidade do álbum. Se essa trilha não for considerada uma das melhores do ano pelo público, pelo menos que sirva de motivação para que procurem mais sobre Daft Punk. Eles são ótimos!

1. Overture
2. The Grid
3. The Son of Flynn
4. Recognizer
5. Armory
6. Arena
7. Rinzler
8. The Game Has Changed
9. Outlands
10. Adagio for Tron
11. Nocturne
12. End of Line
13. Derezzed
14. Fall
15. Solar Sailer
16. Rectifier
17. Disc Wars
18. C.L.U.
19. Arrival
20. Flynn Lives
21. Tron Legacy (End Titles)
22. Finale