Cinema e Argumento

O Avião de Papel

Quem for ao cinema conferir Detona Ralph terá uma bela surpresa antes da mais nova animação da Disney: o curta O Avião de Papel, dirigido por John Kahrs. Com uma vasta experiência no cargo de animador em filmes como Monstros S.A., Os IncríveisRatatouille, Kahrs tem uma bela estreia como diretor ao comandar com muita sutileza esse curta sobre um solitário jovem que, através de aviões de papel, tenta chamar a atenção de um amor à primeira vista.

O Avião de Papel é um dos poucas curtas estadunidenses dos últimos anos que faz a louvável escolha de fisgar o espectador pela simplicidade. Ora, a nostalgia desse novo trabalho da Disney não está apenas na estética nostálgica trabalhada por Kahrs, mas também na história idealizada pela dupla Clio Chiang e Kendelle Hoyer, que se utiliza de várias liberdades românticas para fazer com que o espectador torça e se encante com a missão do protagonista George em chamar a atenção da amada.

O Avião de Papel, em seus pequenos detalhes, também faz um certeiro retrato do mundo solitário de George: Nova York aqui não é glamourosa e sim abarrotada de tarefas e trabalhos, especialmente no escritório, onde os silenciosos funcionários, em mesas milimetricamente dispostas, fazem sempre o mesmo movimento como se fossem máquinas. O protagonista, no entanto, é o único que parece aborrecido e humanizado na situação. E basta uma atitude diferente sua para que todos os seus colegas o olhem com estranheza.

Fotografado com um eficiente preto-e-branco – que amplia a sensação de simplicidade tão recorrente em animações francesas como As Bicicletas de Belleville e O Mágico – o curta de John Kars tem um resultado admirável ao colocar todos os elementos técnicos a favor de uma história que não seria tão “fabulesca” e romântica sem essa mistura (outro destaque é a ótima trilha de Christophe Beck). Por apostar na força de um sentimento universal – o amor – e no mais singelo dos visuais, O Avião de Papel se torna ao mesmo tempo mágico e realista.

Um pouco sobre curtas…

24 HORAS COM CAROLINA, de Eduardo Wannmacher: Histórias de amores mal resolvidos e pessoas separadas pelo tempo sempre me fascinam. E 24 Horas Com Carolina sabe dosar muito bem esses elementos e ainda ter um quê de nostalgia. A sutil direção de Eduardo Wannmacher e o excelente trabalhos dos atores dão o tom certo a esse curta que, ao ser dramático e também espirituoso, sempre tem algo de muito agridoce. Até mesmo os momentos mais felizes entre os personagens nos deixam a sensação de que não são tão felizes assim. Afinal, são muito breves… Simples, humano e eficiente.

ELEFANTE NA SALA, de Guilherme Petry: Foi o vencedor da categoria principal da mostra gaúcha de cinema do 40º Festival de Cinema de Gramado. Não era o melhor em competição, mas certamente tem os seus méritos. E o melhor deles é guardar uma certa revelação para o final, que finalmente dá sentido a um curta que até então parecia ser apenas sobre as atividades corriqueiras de um jovem (Samuel Reginatto, de Os Famosos e os Duendes da Morte). Elefante na Sala, portanto, vale por seu desfecho, cuja mensagem é contemporânea e, por que não, bastante introspectiva.

GARRY, de Richard Tavares e Bruno Carboni: Belo exemplo de como misturar documentário e ficção de forma interessante e  bastante dinâmica. Garry, além de se beneficiar de uma instigante entrevista (Garry Kasparov, considerado o maior jogador de xadrez de todos os tempos), consegue usar o jogo em questão para fazer paralelos com a vida. Inteligente sem ser pretensioso mas ao mesmo tempo acessível sem cair no lugar-comum, Garry tem muitos de seus acertos na disciplinada direção de Richard Tavares e Bruno Carboni. Uma grata surpresa.

LINEAR, de Amir Admoni: É um daqueles curtas cuja técnica é tão impressionante que a história em si nem precisa ser muito mirabolante. A sinospe (“a linha é um ponto que saiu andando”) fala definitivamente tudo sobre Linear, que mostra com efeitos visuais minuciosos a vida de um ponto desenhando as linhas que separam as duas mãos de uma estrada. O diretor Amir Admoni, que tem vasta experiência em animações, faz jus ao que aprendeu em trabalhos na Disney e na MTV. Além de ser um trabalho detalhista em sua técnica, Linear também é muito curioso e divertido.

A TRISTE HISTÓRIA DE KID PUNHETINHA, de Andradina Azevedo e Dida Andrade: Julgando pelo título, seria uma comédia. Só que A Triste História de Kid Punhetinha é um drama sobre uma gravidez precoce que está prestes a ser interrompida em uma clínica de aborto. Por outro lado, se é uma surpresa constatar essa subversão do filme em relação ao título, o mesmo já não se pode dizer do resultado final, pois o curta é extremamente convencional em seus dilemas e também em suas resoluções. Sem falar que o preto-e-branco é desnecessário e metade das tomadas silenciosas (introspectivas?) poderiam ser mais enxutas. Cria expectativas mas não as cumpre.

CLOSE 2012: Panorama – Curtas Internacionais

ALLE WERDEN, de Pierre Baumbgartner: Curta suíço que mostra o relacionamento de dois homens que se conhecem em um encontro de amigos. A partir da primeira noite juntos, passam a se encontrar, combinar idas a shows e praticar esportes. O problema é que as diferentes percepções deles sobre esses encontros pode atrapalhar a vida de um… Alle Werden não tem melodramas, aposta na sobriedade (o que pode ser confundido com frieza por quem não conhece o cinema europeu) e se propõe apenas a observar a relação entre os personagens, sem fazer com que o espectador tome partido por um deles.

OUT OF BOUNDS, de Nicholas Paul Ybarra: Mostra um momento complicado na vida de qualquer homossexual: aquele em que chega a hora de se assumir para a família. Mas Out of Bounds também mostra o antes e o depois, desde quando é preciso mentir para sustentar as aparências até quando chega a hora de enfrentar a falta de aceitação. E tudo isso a partir da história de amor entre duas garotas. O curta consegue ser diferente por apresentar uma outra abordagem, da situação (normalmente, filmes só retratam esse processo na vida de meninos), mas o diretor Nicholas Paul Ybarra romantiza e vitimiza a situação mais do que deveria, quase flertando com uma mera panfletagem do tema.

WHAT DO YOU KNOW?, de Ellen Brodsky: A ideia não poderia ser mais curiosa: colocar crianças para falar sobre gays e lésbicas. Em um ambiente escolar, elas falam sobre a primeira vez que ouviram tais palavras, o que lhes foi ensinado, o que consideram ser “gay” e tantos outros assuntos que ganham a habitual sinceridade que está presente na infância. Ver crianças falando sobre o tema é, no mínimo, instigante, e a estrutura extremamente televisiva (o curta parece mais um especial para um programa de variedades) não chega a atrapalhar essa iniciativa que levanta uma importante questão: em que momento da vida o ser humano começa a se tornar preconceituoso e intolerante?

TEENS LIKE PHIL, de Dominic Rosler e David Rosler: Abordando as dificuldades de um jovem gay no ambiente escolar, Teens Like Phil, ao encenar sua história na era Facebook, derrapa em alguns estereótipos, principalmente no que se refere ao bullying e à solidão do protagonista. Porém, os diretores Dominic e David Rosler não se deixam levar por maiores dramalhões, criando uma história que também passeia pela sutileza de uma primeira experiência homossexual (mostrada através de uma redação que o protagonista precisa fazer sobre um fato que mudou sua vida) e pela sensação de não pertencimento dentro do ambiente familiar. Destaque para as narrações que falam muito sobre a aceitação de qualquer sexualidade.

IT’S CONSUMING ME, de Kai Stãnicke: Quem lembra do curta estrelado por Natalie Portman em Paris, Te Amo, certamente vai relacioná-lo com essa produção alemã chamada It’s Consuming Me, que segue a mesma proposta: mostrar os altos e baixos de um relacionamento (e, aqui, um entre dois homens, claro, seguindo a proposta do CLOSE) com uma narrativa ágil, também, guiada por uma narração em off de mesmo ritmo. E, por mais que o recurso não seja tão original, é impressionante como continua extremamente eficiente. São três minutos fascinantes e que, como toda boa história objetiva, consegue dizer em pouco tempo tudo aquilo que muitos longas não conseguem dizer em quase duas horas.

* Curtas conferidos na cobertura do CLOSE 2012

Um pouco sobre curtas…

CASA AFOGADA, de Gilson Vargas: Logo no primeiro plano, Casa Afogada já causa impacto: em um cenário solitário, ainda mais impressionante com a bela fotografia de Bruno Polidoro, enxergamos uma pequena casa de madeira situada em um rio. Logo, pouco a pouco, descobrimos que aquela casa é uma metáfora do protagonista que vive isolado, aparentemente sem contato com o mundo. O que existe de mais admirável não só no curta, mas na direção do gaúcho Gilson Vargas, é como cada detalhe de Casa Afogada ajuda a construir esse universo. Palavras não são necessárias (e, de fato, elas não existem no curta): o resto já diz tudo.

MENINO DO CINCO, de Marcelo Matos de Oliveira e Wallace Nogueira: O final de alto impacto fica mais na memória do que o curta em si, que poderia ser mais enxuto no desenvolvimento de sua história. De qualquer forma, isso não diminui a experiência diferente que é Menino do Cinco, o grande vencedor do 40° Festival de Cinema de Gramado, onde levou praticamente todas as categorias. Ao escolherem uma figura que mexe fácil com o espectador (um filhote de cachorro), a dupla Marcelo Matos de Oliveira e Wallace Nogueira falaram, através do animal, sobre amizade, maldade, solidão e egoísmo. Eficiente, mas um pouco superestimado.

FUNERAL À CIGANA,  Fernando Honesko: Com ciganos de verdade no elenco (inclusive entre os protagonistas), o curta de Fernando Honesko traduz toda a pesquisa realizada por ele sobre a cultura desse povo. Como retrato, Funeral à Cigana até que desperta curiosidade. O problema é que Honesko, ao mostrar um grupo de ciganos viajando para fazer o funeral de um importante integrante, aposta demais na comédia e, em muitos casos, deixa-se levar pelo caricatural. No fim, tantos personagens ficam perdidos na história convencional e que deveria ser contada com mais sobriedade.

#, de André Farkas e Arthur Gutilla: Não vai muito além de um interessante experimento visual. A combinação de preto e neon, clara referência ao mundo de Tron – O Legado, também salta aos olhos. Para quem acredita que um curta não precisa ter necessariamente uma história quando aposta mais no visual, # (jogo-da-velha, sustenido, ou como você quiser, conforme os diretores) chama a atenção. Mas se você não faz parte do grupo, é bem provável que ache o resultado bem dispensável.

UM DIÁLOGO DE BALLET, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon: Era o melhor em competição entre os curtas nacionais do 40° Festival de Cinema de Gramado e fiquei surpreso da crítica não ter se entusiasmado com ele. Apresentando um admirável rigor narrativo e estético, Um Diálogo de Ballet integra o documentário Other Than, exibido no último festival de Cannes. No curta de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, a incomunicabilidade e as diferenças entre dois homossexuais de idades bem distintas. Com certeiras narrações em off e uma bela escolha de trilha, Um Diálogo de Ballet é uma grata surpresa.

Alguma Coisa Assim

Logo quando fez sucesso com o excelente Os Famosos e os Duendes da Morte, Esmir Filho já era elogiado por ter se destacado anteriormente com o curta-metragem Tapa na Pantera. Contudo, limitar a carreira dele como diretor de curtas exemplificando sempre seu talento com apenas este trabalho é um verdadeiro erro. Esmir é mais do que Tapa na Pantera. Basta assistir a Alguma Coisa Assim para saber. Este trabalho do diretor recebeu vários prêmios, incluindo melhor roteiro para curta-metragem na Semana Internacional da Crítica no Festival de Cannes e melhor curta-metragem, direção e atriz no Festival de Cinema de Gramado.

Nada mais justo. Todo e qualquer reconhecimento para Alguma Coisa Assim é mais do que válido. Antes mesmo de Os Famosos e os Duendes da Morte, Esmir Filho já demonstrava muita sensibilidade ao trabalhar as angústias e as descobertas adolescentes. No curta de 2006, ele, em 15 minutos, conta a história de Caio (André Antunes) e Mari (Caroline Abras), dois jovens que, nas ruas de São Paulo, descobrem um pouco mais sobre eles mesmos. Ele, que está indo para a sua primeira festa gay, começa a experimentar este mundo que, até então, lhe era desconhecido. Já ela faz o papel de fiel amiga que o acompanha na nova descoberta. No entanto, a situação não é simples: talvez Caio represente muito mais do que um mero amigo para Mari.

Para público que conseguir se identificar com a temática, a experiência será muito marcante. E este é um grande mérito de Alguma Coisa Assim: a identificação com a história, que não é inteiramente dedicada a um personagem. O foco é dividido, aumentando ainda mais a possibilidade desta identificação. O longa funciona como uma verdadeira nostalgia para quem já viveu momentos parecidos e não apenas no sentido da descoberta do mundo homossexual ou, então, da paixão não correspondida, mas também do fiel retrato reflexivo de como uma noite pode despertar as mais variadas sensações – desde o momento de empolgação ao se entrar numa festa até o momento cheio de pensamentos quando se coloca a cabeça no travesseiro para dormir.

Os dois atores se saem muito bem nessa missão, comprovando o talento de Esmir para selecionar jovens talentos. André Antunes (sem fazer qualquer caricatura ou exagero no que se refere ao tom gay de seu personagem) e Caroline Abras formam uma dupla extremamente eficiente, ajudando a verossimilhança da história. Por fim, Alguma Coisa Assim é mais um curta-metragem que comprova como os curtas de temática gay são infinitamente melhores do que os longas. A exemplo do igualmente excepcional Eu Não Quero Voltar Sozinho, o curta de Esmir Filho é uma aula de como falar sobre homossexualidade e, mais especificamente, sobre as descobertas do mundo jovem. Maravilhoso! Para assistir ao curta, clique aqui.

%d blogueiros gostam disto: