Cinema e Argumento

Oscar 2011: Atriz Coadjuvante

Se dois anos atrás tivessem me dito que Melissa Leo era favorita para o Oscar, eu estaria vibrando de alegria. Pra falar bem a verdade, até certo tempo atrás eu estava. Bastou conferir O Vencedor para que meu entusiasmo acabasse. De fato, Leo é a melhor entre as concorrentes. Mas isso não quer dizer muita coisa. Ela apenas encabeça, sem muitos méritos, uma seleção extremamente fraca – possivelmente, a pior dos últimos anos – onde as candidatas estão todas praticamente no mesmo nível.

Melissa Leo venceu o Globo de Ouro e o SAG, dois prêmios importantíssimos na corrida para o Oscar. Contudo, eis que Leo começa a perder as estribeiras apelando para jogadas sujas e de péssimo tom. Por alguma razão misteriosa, a atriz pagou do próprio bolso para fazer anúncios de sua interpretação com o intuito de arrecadar votos. Ora, se ela já era a total favorita, a troco de quê resolveu pagar esse mico?

E o pior de tudo: recentemente, começou a falar mal de suas colegas de categoria. De acordo com Leo, Hailee Steinfeld estaria “cafetinando” uma indicação, Amy Adams teria uma certa “inveja” por não ter vencido prêmio algum e Helena Bonham Carter teria lhe dado empurrões no almoço do Oscar. Ou seja, a favorita ao prêmio da Academia está sujando a própria imagem. Será que isso lhe custaria a estatueta?

Dizem por aí que a garota Steinfeld seria a outra favorita, mas, na minha opinião, quem deve se dar bem com a insanidade mental de Melissa Leo é Helena Bonham Carter ou Amy Adams (seria ótimo para dar uma lição em Leo, não?). A primeira por já estar em sua segunda indicação e por ter faturado o BAFTA por um longa que foi altamente adorado pelos votantes do Oscar. A segunda por ser uma jovem recém descoberta e que dá constantes provas de talento e boas escolhas.

Resumindo, a categoria que até pouco tempo atrás estava definida hoje já não é mais certa. Culpa da própria favorita, que está, pouco a pouco, afundando sua reputação e ficando cada vez mais longe da estatueta com essas atitudes desnecessárias. O Oscar não gosta de gente assim. Eddie Murphy e Mickey Rourke sabem disso muito bem. E agora: os votantes perdoarão Melissa Leo ou será que pretendem nos preparar uma surpresa?

Abaixo, minha ordem de preferência das indicadas:

1. MELISSA LEO (O Vencedor): Como a mãe desnaturada que tem um claro favoritismo entre os filhos, Leo é um dos destaques desse filme todo baseado em atuações. Talvez chame mais a atenção pelo personagem chamativo do que pela interpretação em si (o show dela de verdade estava em Rio Congelado). No entanto, das indicadas, é a que melhor destaca sua presença no seu respectivo filme.

2. AMY ADAMS (O Vencedor): Com sua habitual beleza delicada e angelical, Amy Adams abandonou seus papéis ingênuos para viver uma moça que fala palavrões, sai no tapa com outras mulheres e que é extremamente decidida em suas escolhas. Alguns dizem ser mais do mesmo (deve ser a indicação ao Oscar mais fraca dela), mas Adams é sempre eficiente e também contribui para o excelente trabalho de elenco de O Vencedor.

3. HELENA BONHAM CARTER (O Discurso do Rei): Está merecidamente recebendo reconhecimento com indicações em função de sua interpretação contida e de mulher comum – algo que não é tão presente na carreira da atriz. Por mais que esteja longe de alcançar a notável excelência de Colin Firth e Geoffrey Rush, Helena funciona sempre que aparece, nunca estando desnecessária – algo que beneficia muito sua indicação.

4. JACKI WEAVER (Reino Animal): Pena que Jacki Weaver faça parte de um filme tão estranho e pouco eficiente como esse. Ela é aquele tipo de atriz que atrai o espectador de imediato com sua representação, mas que sofre por ser pouco utilizada pelo filme. Se Weaver recebesse seu devido destaque, talvez fosse além de ser apenas uma figura interessante e de fraca relevância para o andamento do longa.

5. HAILEE STEINFELD (Bravura Indômita): Acho que nunca vi fraude maior do que essa. É inadmissível que Steinfeld seja classificada como coadjiuvante se ela aparece em todas as cenas de Bravura Indômita e ainda é o foco central da história. Apesar disso, a garotinha faz apenas o correto e está longe de apresentar, por exemplo, a força de Saoirse Ronan ou a simpatia irresistível de Abigail Breslin.

 

A ESQUECIDA

MARION COTILLARD (A Origem): O Oscar quebrou barreiras linguísticas e premiou Marion Cotillard como melhor atriz por Piaf – Um Hino ao Amor. No entanto, depois dessa coroação, escolheu não mais reconhecê-la. Em A Origem, encontramos o terceiro trabalho consecutivo da atriz que é esnobado pela Academia (os outros foram Inimigos Públicos e Nine). Uma pena. No filme de Nolan, ela brilha em cada cena que aparece e ainda carrega a principal carga emotiva da história. Sem falar que a francesa é dona da personagem mais magnética de A Origem. Liga não, Marion, nós te adoramos!

Bravura Indômita

You must pay for everything in this world, one way or another.

Direção: Joel e Ethan Coen

Elenco: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Paul Rae, Dakin Matthews, Roy Lee Jones, Bruce Green

True Grit, EUA, 2010, Western, 110 minutos

Sinopse: O pai de Mattie Ross (Hailee Steinfeld), de apenas 14 anos, foi assassinado a sangue frio por Tom Shaney (Josh Brolin). Em busca de vingança, ela resolve contratar um xerife beberrão, Reuben J. Cogburn (Jeff Bridges), para ir atrás dele. Inicialmente ele recusa a oferta, mas como precisa de dinheiro acaba aceitando. Mattie exige ir junto com Reuben, o que não lhe agrada. Para capturar Shaney eles precisam entrar em território indígena e encontrá-lo antes de La Boeuf (Matt Damon), um policial do Texas que está à sua procura devido ao assassinato de outro homem.

Os irmãos Coen nunca foram sujeitos fáceis. Controversos, sempre realizaram obras que dividem o público. Nem mesmo Fargo – Uma Comédia de Erros ou Onde os Fracos Não Têm Vez (filme que rendeu os prêmios de melhor filme e direção para os Coen no Oscar) conseguem ser unânimes. Reconhecidos há pouco tempo pelas premiações (sempre foram, de certa forma, esnobados), agora trabalham a pleno vapor e constantemente figuram entre as listas de melhores do ano. Se o monótono Um Homem Sério foi o exemplar dos Coen ano passado, agora é a vez de Bravura Indômita.

Livrando-se de metáforas, firulas e finais abruptos, os diretores criaram um longa-metragem plano e sem muitas variações. Simplicidade é a palavra-chave de Bravura Indômita, que narra uma história da forma mais correta possível, com o tradicional início, meio e fim bem definidos. Assim, Joel e Ethan Coen realizaram um filme não menos que acessível, onde o gênero Western está bem representado para aqueles que aprovam esse estilo. Não chega bem a ser uma homenagem, mas sim uma tentativa de retomar esse cinema que foi o mais esquecido com o passar dos anos.

Só é uma pena que Bravura Indômita não consiga atualizar o faroeste. O filme tem um clima muito antiquado, deixando a sensação de que foi produzido décadas atrás. Em certos casos, isso pode ser considerado nostalgia, mas não é o caso aqui. Aliado a isso, a jornada de Mattie (Hailee Steinfeld) raramente apresenta algum momento de emoção. Tensão ou dramas são quase inexistentes em Bravura Indômita, que só se preocupa com formalidades para construir o roteiro. É tudo muito seco, onde os personagens apenas dizem aquilo que estava no script.

O elenco tem pouco a fazer, especialmente Jeff Bridges, mais acomodado do que nunca. Vencedor recente do Oscar por Coração Louco, Bridges cai em uma ultrapassada caricatura do velho pinguço mal humorado. Cheio de sotaques e caretas, o ator não entrega uma interpretação genuína. A garota Steinfeld, mesmo não sendo uma grande revelação, entendeu o papel, construindo uma protagonista que desperta a nossa simpatia. Já Josh Brolin (com pouquíssimo tempo em cena) e Matt Damon ficam no básico.

Em suma, Bravura Indômita se beneficiaria muito mais caso tivesse uma direção menos seca e que se preocupasse em esmiuçar os sentimentos e as motivações da protagonista. Se o clima passado pelo longa já é ultrapassado, a falta de emoção só diminui as chances de Bravura Indômita ser uma experiência mais marcante. Do jeito que ficou, é um filme que assistimos sem muita empolgação e que, minutos após o seu final, nem permanece em nossa memória. Ou seja, é passageiro e sem qualquer aspecto realmente admirável.

FILME: 6.5


Melhores de 2010 – Atriz

Se justiça existisse nesse mundo, Meryl Streep teria levado o seu terceiro Oscar quando concorreu, esse ano, por Julie & Julia. Entretanto, a justiça teria sido ainda maior caso a jovem Carey Mulligan tivesse vencido o prêmio da Academia. Encantadora como Jenny, uma jovem que deixa de lado sua vida estudantil para aproveitar sua idade ao lado de um homem mais velho, Mulligan é uma das grandes revelações do ano. Em Educação, a britânica trabalha com sutilezas: a sua Jenny não é aquele tipo de jovem que chora, grita e esperneia. No entanto,  faz tudo diferente dos padrões comportamentais da época retrada no filme. Incorporando de forma categórica o amadurecimento da personagem, Mulligan estava lindamente radiante em cada minuto da projeção e nunca nos deixava esquecer que um talento promissor estava aparecendo ali. Uma revelação para ficar de olho.

ANNETTE BENING (Minhas Mães e Meu Pai)

Annette Bening demonstra pura versatilidade em Minhas Mães e Meu Pai. Ao contrário do que apontam por aí, a verdadeira protagonista do filme é Julianne Moore, mas Bening tem quase a mesma importância em cena. Representando a mãe responsável e que financia a casa, Bening, ao contrário de Moore, possui uma representação mais contida. A sua Nic fala com os olhos (e a cena do jantar, onde ela canta Joni Mitchell comprova isso), sempre tentando manter a ordem emocional na casa. Trabalho certeiro de uma atriz que entendeu por completo os propósitos de sua personagem

GABOUREY SIDIBE (Preciosa – Uma História de Esperança)

Gabourey Sidibe poderia chorar incansavelmente em Preciosa – Uma História de Esperança. Ora, a sua personagem é, possivelmente, a mais sofrida dos últimos tempos. Contudo, a novata Sidibe fez justamente o oposto: preferiu adquirir a simpatia do espectador como uma jovem que, apesar das dificuldades da vida, ainda quer encontrar esperança em tudo. A explosão de emoções está presente em uma cena ou outra, mas Sidibe, acertadamente, preferiu não vitimizar sua Claireece Precious Jones. Para uma novata, a atriz teve muita competência ao fazer uma ótima abordagem de uma figura que poderia cair no exagero nas mãos de outras profissionais.

JULIANNE MOORE (Minhas Mães e Meu Pai)

Se Annette Bening é a “razão” de Minhas Mães e Meu Pai, Julianne Moore é a emoção. Ao contrário da Nic de Bening, a Jules de Moore tem mais desenvoltura ao falar de sentimentos, expressar o que pensa e fazer aquilo que suas vontades pedem. Ela não está presa em regras. O melhor de tudo isso é que Julianne Moore não deixa que sua personagem pareça superficial ou até mesmo vilã só porque não é rígida nem mais esquemática como a figura de Bening. A atriz conquista o espectador e trabalha, com seu talento habitual, uma caracterização verdadeira e sincera. Deveria receber  também todas as honrarias que sua companheira de tela vem recebendo nas premiações.

ABBIE CORNISH (Brilho de Uma Paixão)

Passando despercebida em filmes como Um Bom Ano e Elizabeth – A Era de Ouro, Abbie Cornish tem em Brilho de Uma Paixão o seu primeiro grande papel. O filme de Jane Campion dividiu opiniões, mas o talento de Cornish nunca foi questionado. Também não é para menos: assemelhando-se muito com o estilo de Carey Mulligan em Educação, a atriz representou com sutilezas a sua personagem jovem e apaixonada. Num ano em que as revelações foram destaques no mundo das atrizes, Cornish conseguiu ficar entre as melhores. Só a cena final de Brilho de Uma Paixão já é capaz de explicar o porquê.

_

Escolha do público:

1. Carey Mulligan (13 votos, 40.63%)

2. Gabourey Sidibe (6 votos, 18.75%)

3. Julianne Moore (6 votos, 18.75%)

4. Abbie Cornish (4 votos, 12.05%)

5. Annette Bening (3 votos, 9.38%)

127 Horas

I’ve been moving towards it my entire life. The minute I was born, every breath that I’ve taken, every action has been leading me to this crack on the out surface.

Direção: Danny Boyle

Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Sean Bott, John Lawrence, Rebecca C. Olson, Treat Williams, Clémence Poésy

127 Hours, EUA/Inglaterra, 2010, Drama, 94 minutos

Sinopse: Em maio de 2003, o alpinista Aron Ralston (James Franco) fazia mais uma escalada nas montanhas de Utah, Estados Unidos, quando acabou ficando com seu braço preso em uma fenda. Sua luta pela sobrevivência durante mais de cinco dias (durou 127 horas) foi marcada por memórias e momentos de muita tensão, relatados em um livro. Baseado em fatos reais.

Qualquer curiosidade que eu tinha em relação ao resultado de 127 Horas era em torno de James Franco. Mas não no sentido positivo. Fiquei curioso em saber o porquê do recentemente oscarizado Danny Boyle ter apostado em Franco para ser o protagonista de seu mais novo filme. Vou ser bem sincero: nunca gostei do ator. Seu humor meio idiota não me agrada, ele já mostrou diversas vezes ser meio tapado e, acima de tudo, nunca me convenceu como ator. Ou seja, estava muito querendo saber se Franco seria capaz de sustentar um filme inteiro e corresponder às indicações que recebeu a prêmios e se Danny Boyle conseguiria, finalmente, extrair algo de bom desse ator que, pelo menos para mim, nunca foi um sujeito digno de receber tamanha confiança.

O apresentador do Oscar 2011 (até agora estou tentando o porquê de terem escolhido logo ele e Anne Hathaway para comandar a cerimônia) tem aqui, possivelmente, o momento mais importante de sua carreira. Mas não se enganem: qualquer ator faria o que James Franco faz em 127 Horas. Os maiores méritos do filme não são dele. Ainda assim, é um ponto muito positivo para a carreira dele, que prova ser um sujeito que consegue sustentar sozinho um longa com tranquiliade.  O importante é reconhecer que Franco parece estar se envolvendo com as pessoas certas (já tinha recebido elogios exagerados no seu trabalho com Gus Van Sant em Milk – A Voz da Igualdade) e que 127 Horas é uma prova de como ele pode ser satisfatório o suficiente para estrelar uma produção sozinho – desde que comandado pelos diretores certos.

Quanto ao filme, Danny Boyle deixa visível que ainda existem fortes ecos do estilo que ele havia trabalhado na direção de Quem Quer Ser Um Milionário?. Também não é para menos, já que a equipe reunida em 127 Horas é praticamente a mesma, incluindo o roteirista Simon Beaufoy e o compositor indiano A.R. Rahman, por exemplo. Com isso, os cinéfilos mais assíduos vão perceber muitos dos maneirismos técnicos e narrativos utilizados por Boyle no seu trabalho anterior. Ou seja, isso é sinônimo de uma montagem super ágil, trilha sonora dinâmica, fotografia bem aproveitada e direção que sabe orquestrar todos os aspectos com precisão. O problema é que a história diz muito pouco, caindo no velho resultado de filme de um apenas um cenário com só um ator em cena. Digo pouco para não ter que dizer nada. É apenas uma história de sobrevivência, uma diversão. Tudo muito lógico e objetivo.

Portanto, 127 Horas é realizado com competência e consegue prender o espectador. Por mais que não tenha o poder de agonia apresentado no recente Enterrado Vivo (que segue o mesmo formato) e que cenas desnecessárias sejam perceptíveis até para os espectadores mais desatentos, o filme de Danny Boyle sabe disrçar muito bem o previsível roteiro com um ótimo uso da técnica. Esse mesmo espectador desatento que consegue perceber algumas enrolações também poderá partilhar da situação do protagonista e acompanhar com curiosidade cada momento de 127 Horas. Se o longa de Danny Boyle peca por escolhas óbvias na história, ao menos tem o poder de dinamizar tudo de uma forma que o público releve toda e qualquer previsibilidade. Aliás, foi essa mesma habilidade preciosa que consagrou o diretor com tantos Oscars dois anos atrás…

FILME: 8.0

NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO:


O Vencedor

I’m the one who’s fighting. Not you, not you, and not you.

Direção: David O. Russell

Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Melissa Leo, Amy Adams, Jack McGee, Melissa McMeekin, Bianca Hunter, Erica McDormett

The Fighter, EUA, Drama, 115 minutos

Sinopse: Dicky Ecklund (Christian Bale) foi uma lenda do boxe, mas ficou conhecido por desperdiçar seu talento e sua grande chance. Agora, o seu meio-irmão Micky Ward (Mark Wahlberg) tentará se tornar uma nova esperança de campeão e superar as conquistas de Dicky. Treinado pela família e sem obter sucesso em suas lutas, Micky terá que escolher entre seus familiares e a vontade de ser um verdadeiro campeão.

Micky (Mark Wahlberg) é o filho preterido. Ele é lutador de boxe, mas vive à sombra do sucesso promissor que seu irmão, Dicky (Christian Bale), um dia teve no mesmo esporte. Só que hoje Dicky é viciado em drogas, além de ser um irresponsável que só traz problemas para a família. Ainda assim, é o queridinho da matriarca Alice (Melissa Leo), que tem a tendência de acobertar e perdoar todos os erros do filho. A situação financeira da família não é das melhores e Micky resolve investir em novas lutas para ganhar dinheiro. Nesse meio tempo, conhece Charlene (Amy Adams), uma garota que vai incentivá-lo nessa jornada. Micky, no entanto, vê que sua carreira profissional não consegue ir adiante, uma vez que sua família só lhe traz problemas.

Sinceramente, não pensei que O Vencedor fosse um filme tão novelesco. Como dá para perceber pelo enredo narrado acima, o longa de David O. Russell não prima pela originalidade. Pelo contrário. Não sei se foi intencional (e, se foi, o diretor não deixa isso claro), mas toda a estrutura – tanto da narrativa quanto da técnica – é quase que ultrapassada. Sem aspectos técnicos interessantes, O Vencedor é todo calcado nas interpretações dos atores e no roteiro originalmente escrito pelo trio Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson. Nada além disso. É, também, um filme de boxe que está longe de explorar de forma interessante a montagem, a fotografia e a direção nas cenas de luta. Portanto, é tudo simples demais, longe de tantos outros filmes que já encenaram esse esporte com maestria.

Não tem como negar: O Vencedor não tem méritos na técnica, realizando apenas o óbvio. Mas já que a história não pretende se focar no boxe e sim no relacionamento do protagonista com as pessoas em sua volta, a responsabilidade de trazer qualidade para o resultado fica com o roteiro e o elenco. Como já dito, a história é novelesca, quando não estereotipada – principalmente no que se refere aos personagens quase que caricatos, como a mãe interesseira e cafona vivida por Melissa Leo ou o irmão problemático encarnado por Christian Bale. Algumas cenas são extremamente previsíveis, assim como quase todos os acontecimentos. Nada que acompanhamos em O Vencedor é original. Nós já vimos tudo isso em algum outro filme.

Mas o que acontece com esse filme tão simples e óbvio para que ele tenha recebido tanta atenção? Ora, a resposta é muito simples: os atores. Ah, os atores! Se não fosse por eles, O Vencedor não passaria de uma produção com cara de telefilme batido. Os protagonistas, na maioria das histórias clichês, sofrem porque são ofuscados pelos coadjuvantes. Com Mark Wahlberg não é diferente. Christian Bale é o destaque toda vez que entra em cena, Melissa Leo faz uma ótima composição de uma personagem adoravelmente detestável e Amy Adams demonstra cada vez mais ser uma atriz muito eficiente ao unir sua expressão frágil com uma personagem decidida. Wahlberg fica de escanteio, fazendo apenas o que é necessário.

Merecidamente reconhecido pelas premiações, o elenco de O Vencedor impede que o clima novelesco e a técnica decepcionante tomem conta do filme. Eles são a razão para que o longa de David O. Russell seja conferido. As falhas estão ali presentes e, no final, fica aquela sensação de que O Vencedor poderia ter sido muito mais do que realmente é. Mas aí fica a dúvida: a culpa é da história batida ou da direção que não tentou apostar em um diferencial? A verdade é que os ótimos atores mereciam mais do que esse filme apenas satisfatório. O Vencedor, no final das contas, fica na memória como um produto cinematográfico que tem suas falhas perdoadas pelos excelentes desempenhos. Tire eles e você não terá razão alguma para destacar com entusiasmo qualquer outro aspecto.

FILME: 7.5

NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO: