Cinema e Argumento

Pânico 4

One generation’s tragedy is the next one’s joke.

Direção: Wes Craven

Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Emma Roberts, Hayden Panettiere, Nico Tortorella, Adam Brody, Kristen Bell, Anna Paquin

Scream 4, EUA, 2011, Terror, 111 minutos

Sinopse: Sidney Prescott (Neve Campbell) está de volta a sua cidade natal, Woodsboro, onde sobreviveu a uma série de terríveis assassinatos. Uma vez lá, ela reencontra o xerife Dewey (David Arquette) e a jornalista Gale (Courteney Cox), agora casados, e também a prima Jill (Emma Roberts). Mas enquanto a cidade comemorava o aniversário dos crimes, novos assassinatos começam a acontecer e o retorno de Ghostface, o assassino da máscara, parece ser uma nova realidade para a cidade que novamente entra em pânico.

Gostaria que alguém me corrigisse se eu estiver errado, mas quando criticamos ou fazemos piada (no mau sentido) de alguma coisa, não é sinal de que faríamos tudo diferente? Vamos levar como exemplo Pânico 4. Durante vários momentos, o filme de Wes Craven tira sarro do próprio gênero e, inclusive, faz referências a outras franquias para mostrar como o terror anda desgastado. Uma personagem, por exemplo, chega a mencionar Jogos Mortais 4 como nojento e desprovido de evolução de personagens. Ora, se Pânico 4 faz tanta questão de mostrar o cansaço do gênero terror e de fazer piada das previsibilidades desses filmes, era de se esperar que o quarto volume da série não fosse, pelo menos, repetir esses aspectos que tanto critica.

Grande engano. Chega a ser até irônico acompanhar uma história que se contradiz em diversos momentos. Pânico 4, ao mesmo tempo que tira sarro dos formatos dos filmes de terror, constrói sua história justamente em torno desses moldes. Resumo da história: ri e “critica”, mas vai lá e segue justamente o que lhe serve como alvo de deboche. Por um outro lado, a boa notícia é que a franquia continua com a mesma eficiência de antes. Não vejo muita diferença entre os três primeiros filmes e, em termos de suspense, esse quarto não se difere muito dos anteriores. O mesmo tipo de desenvolvimento, repetição de resoluções, sequências de tensão já conhecidas e por aí vai… Para quem aprecia, um prato cheio, claro.

Inclusive, existem algumas melhorias. Não lembro de sequências tão tensas como as do quarto volume. Claro que elas são bem parecidas com as dos longas anteriores, mas parecem providas de um maior realismo ou, até mesmo, de maior competência em jogar sangue para todos os lados mesmo. Junto a isso, permanecem os personagens com as mesmas características: o policial pamonha que não resolve nada vivido por David Arquette, a inescrupulosa jornalista de Courteney Cox e a sofrida Sidney Prescott interpretada por Neve Campbell. No sentido de reviver a série e de matar a saudade, Pânico 4 cumpre sua missão com louvor – até porque o resultado consegue ser bem divertido, mesmo com piadas que nada acrescentam, como aquela que diz que gays não morrem em filmes de terror (?!).

No entanto, volta-se para aquela questão citada anteriomente. Aliás, devo dizer que, em determinado momento, pensei que Pânico 4 fosse, de fato, escapar das obviedades e se diferenciar dos filmes que tanto satiriza. Nos momentos finais, estava pronto para aplaudir uma decisão madura da equipe. Mas eis que eles não conseguiram ir adiante com a escolha. Faltou a coragem e a inovação que eles próprios exigem dos filmes de terror atuais. No final das contas, aqueles dois personagens cinéfilos que “racionalizam” os assassinatos através de filmes sintetizam bem o que é Pânico 4: um filme esquematizado e que não escapa da cartilha trabalhada por eles antes. Emma Roberts e sua personagem que deixa forte impressão mereciam resoluções que, de fato, viessem justificar o pôster do longa que diz existir novas regras para uma nova década. O que se viu, afinal, foi um bom remember dos filmes anteriores. Nada de novo…

FILME: 7.5

Na coleção… Coisas Belas e Sujas

Aprecio demais a carreira do diretor Stephen Frears. Não só os seus trabalhos com a realeza (Ligações Perigosas e A Rainha são ótimos), mas também aqueles pequenos filmes como Coisas Belas e Sujas. Essa produção estrelada por Chiwetel Ejiofor e Audrey Tautou recebeu, inclusive, uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. Nomeação merecida, uma vez que Coisas Belas e Sujas é um filme bem amarrado e que nunca perde o ritmo.

O enredo é o seguinte: o nigeriano Okwe (Chiwetel Ejiofor) está vivendo ilegalmente na Inglaterra, assim como a turca Senay (Audrey Tautou) também tem seus problemas com a legalização de sua permanência no país. Os dois estão tendo um romance e trabalhando no hotel Baltic. Uma noite, Okwe descobre o mercado de tráfico de órgãos, onde os “doadores” cedem, por exemplo, um rim para conseguir passaporte para outro país. Okwe e Senay, então, começam a se envolver cada vez mais nesse perigoso mundo clandestino para conseguir suas respectivas legalizações.

Com uma premissa dessas, diretores mais inexperientes poderiam cair no lugar-comum ou, então, criar uma história completamente irregular. Sorte que Stephen Frears foi certeiro no tom de denúncia e ainda conseguiu criar um filme que tem vários momentos de tensão e suspense. O ponto forte de Coisas Belas e Sujas é o roteiro, que tem a notável habilidade de ser eficiente sem nunca perder as rédeas. Esse é um trabalho pequeno e sem grandiosidades, mas que deve conquistar muita gente com o ótimo resultado. Só resta saber se todos vão querer embarcar nessa história que, de certa forma, é desconfortável e traz uma visão mais “negativa” de Londres.

FILME: 8.0


Uma Manhã Gloriosa

Direção: Roger Michell

Elenco: Rachel McAdams, Harrison Ford, Diane Keaton, Patrick Wilson, Jeff Goldblum, Jeff Hiller, Linda Powell, Joseph J. Vargas, Mike Hydeck

Morning Glory, EUA, 2010, Comédia, 107 minutos

Sinopse: Becky Fuller (Rachel McAdams) é uma produtora de televisão que foi demitida de seu programa de notícias, mas consegue uma vaga para tentar levantar a moral de outro uma nova emissora. O único problema é que para conseguir isso terá que fazer muitas mudanças, entre elas, convencer o premiado Mike Pomeroy (Harrison Ford) a apresentar matérias de moda, amenidades, de conteúdo fraco e, para piorar, ao lado de uma ex miss Arizona (Diane Keaton), seu desafeto. Com pouco tempo para reverter a queda de audiência, Beck vai ter que ser virar para driblar o humor de seu elenco, ser reconhecida profissionalmente e ainda viver um novo amor. Será que vai dar certo?

Na série 30 Rock, Tina Fey interpreta Liz Lemon, a roteirista do programa de humor The Girlie Show. Muito mais do que criar as situações que os personagens terão que encenar, ela também tem que lidar com a confusão dos bastidores e o confronto de estrelismos dos principais protagonistas do The Girlie Show, Tracy (Tracy Morgan) e Jenna (Jane Krakowski). A situação não é muito diferente em Uma Manhã Gloriosa, onde Rachel McAdams assume um papel muito parecido com o de Tina Fey. O problema é que o filme está longe de ter aquela originalidade tão presente em 30 Rock.

Com roteiro de Aline Brosh McKenna (do deliciosamente pop O Diabo Veste Prada), Uma Manhã Gloriosa dá mais uma oportunidade para Rachel McAdams protagonizar uma comédia. Ela, que foi destaque em Meninas Malvadas e no previsível mas agradável Tudo em Família, parece estar sempre condenada à posição de coadjuvante. A verdade é que, por mais que a moça tente, não consegue a ter o calibre necessário para sustentar sozinha um longa-metragem. O grande público não reconhece o seu nome e ela muito menos tem alguma característica marcante. Eficiente, mas apenas isso – e com algumas ressalvas.

O filme, entretanto, é feliz em várias escolhas. Vamos elogiar primeiro, por exemplo, a escolha do diretor Roger Michell de não apostar tanto em romance (afinal, isso seria justificável, já que ele é o diretor de Um Lugar Chamado Notting Hill) e de não incluir grandes clichês da comédia. Uma Manhã Gloriosa não resulta em uma comédia original, mas sim contida naqueles exageros que estamos acostumados a ver atualmente. O filme é beneficiado, também, pela própria temática que, de certa forma, ameniza a possibilidade do mau gosto aparecer.

Tudo está muito bem encaminhado (leia-se descompromissado e assistível) durante boa parte do filme. Mas eis que, na última meia hora, a história começa a tomar rumos desnecessários. A comédia começa a se tornar quase que apelativa (não foi muito confortável ver Diane Keaton beijando um sapo ou sendo vítima do xixi de um gambá) e os dramas começam a trazer lições de morais mais do que previsíveis. Não precisávamos ver o casal entre tapas e beijos se acertando ou, então, o personagem rabugento dando o braço a torner e falando de seus draminhas pessoais para a protagonista…

Uma Manhã Gloriosa quase coloca tudo a perder no seu ato final cheio de escolhas que poderiam ter sido evitadas. O alívio para nós espectadores é que só precisamos nos lembrar do que estávamos assistindo até então: um filme leve, sem grosserias e que serve perfeitamente para satisfazer aquela vontade de ver algo que não exige raciocíonio e que nos divirta. É assim que Uma Manhã Gloriosa funciona. Começa melhor do que acaba, mas nada preocupante para uma comédia que não tem qualquer intuito de ser marcante.

FILME: 6.5


Mildred Pierce na HBO!

Cansado dessa fase sem inspiração do cinema pós-Oscar? Pois, então, não perde tempo e vai logo para a frente da TV assistir a Mildred Pierce. A nova minissérie da HBO já começou a ser exibida aqui no Brasil. Cada domingo, um novo episódio. Dividida em cinco partes, a minissérie é dirigida por Todd Haynes (do ótimo Longe do Paraíso) e tem como protagonista a sempre maravilhosa Kate Winslet. Ainda no elenco, Melissa Leo, Evan Rachel Wood, Guy Pearce, Hope Davis, entre outros! No meu blog de séries, você pode conferir, toda semana, uma resenha sobre cada capítulo exibido. Não vai perder, né? Afinal, não é sempre que temos a oportunidade de ver uma estrela do calibre de Kate Winslet a cada domingo na TV. Emmy à vista para ela?

Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família

Yeah, well I have eyes too, so I’ll be watching you… watching me.

Direção: Paul Weitz

Elenco: Ben Stiller, Robert De Niro, Blythe Danner, Jessica Alba, Teri Polo, Owen Wilson, Barbra Streisand, Dustin Hoffman, Laura Dern, Daisy Tahan

Little Fockers, EUA, 2010, Comédia, 98 minutos

Sinopse: Pam (Teri Polo) e Greg (Ben Stiller) vivem felizes e são pais dos gêmeos Henry e Ashley Focker, de cinco anos. Quando todo o clã de Greg e Pam – incluindo o ex-apaixonado de Pam, Kevin (Owen Wilson) – se reúne para a festa de aniversário dos gêmeos, Greg tem que provar para o cético Jack (Robert De Niro) que ele é inteiramente capaz de ser o homem da casa. E o desafio põe Greg numa enrascada: ou ele prova para todos que vai assumir o lugar de Jack e conduzir a família ou quebra o “círculo de confiança” para sempre.

Não existe qualquer justificativa plausível que explique essa segunda continuação de Entrando Numa Fria. O primeiro foi bem divertido, mas o segundo já não trazia o mesmo vigor (ainda que trouxesse novos personagens e certa “razão” para existir). O terceiro filme, por outro lado, traz um enredo completamente comum e que, em nenhum momento, demonstra qualquer motivo para que essa história tenha sido contada.

O problema já começa pelo tom das piadas. Agora a equipe inventou que vômito, arroto e ereções são os ingredientes para uma  boa comédia. Não sei qual a quantidade de amor próprio de Robert De Niro, mas, a julgar por Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família, podemos dizer que é quase zero. Ok, nos outros filmes ele se divertia e tudo mais… Mas será mesmo que o ator de marcantes atuações como O Franco Atirador e Touro Indomável precisava se rebaixar em, por exemplo, cenas de socos e pontapés com Ben Stiller numa piscina de bolinhas?

Em suma, o vigor já não é mais o mesmo – e não só no que se refere a Robert De Niro ou a todo o elenco (nem Ben Stiller parece mais se divertir com a brincadeira), mas também ao enredo. A rivalidade entre os personagens principais já saturou e todas as piadas possíveis já foram exploradas. Constata-se, então, que Entrando Numa Fria virou uma típica comédia pastelão norte-americana: comercial, com piadas bobas e conflitos ainda mais bobocas.

Para não me acusarem de rabugento, digo que até existem momentos de descontração (vindos, claro, do elenco – afinal, não podemos nos esquecer que os atores são bons). No entanto, fica complicado ter boa vontade com uma franquia que já esgotou suas ideias e que faz uma segunda continuação sem uma história que, de fato, sustente um filme. Os acontecimentos de Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família são fracos, assim como o produto final. Espero que parem por aqui, sinceramente.

FILME: 5.5