Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Ricardo Lubisco

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Dois anos atrás eu já havia conversado com o Ricardo Lubisco especificamente sobre atuações marcantes do cinema. Foi quando ele participou de uma edição especial do extinto Sala de Cinema, programa de rádio que  apresentei e produzi durante mais de dois anos na Rádio IPA. Agora, voltamos ao tema e o Ricardo me deu a satisfação de poder contar com ele novamente para mais esta empreitada. Cinéfilo exemplar e também blogueiro (visitem o ótimo Uma Dose de Cinema, um blog que vai bastante de acordo com a proposta do Cinema e Argumento!), ele fez uma das listas mais interessantes para o Três atores, três filmes até agora. Uma lista que, por sinal, reflete muito bem o conhecimento do Ricardo sobre cinema de todas as épocas e estilos. Fiquem abaixo, então, com as escolhas e os comentários dele!

Beatrice Dalle (Betty Blue)

Beatrice Dalle sempre será lembrada pelos amores e loucuras de Betty Blue. Uma personagem única na história do cinema, capaz de atrair e afastar as pessoas com a mesma profundidade. É a estréia da atriz no cinema, e continua até hoje sendo o seu melhor papel. O filme de Jean-Jacques Beineix pode ter uma linda fotografia, uma trilha sonora magnífica, mas é pela inesquecível atuação de Beatrice que será sempre lembrado. Uma poesia filmada e interpretada.

Bill Murray (Flores Partidas)

Bill Murray conseguiu realizar neste filme do grande Jim Jarmusch o que poucos conseguiriam. Interpretar um personagem sem expressão. Não poderia fazer uma lista de atores sem citá-lo, pois é um dos atores mais caricatos e irreverentes do cinema (assim como Roberto Benigni), capaz de realizar diferentes tipos, sem nunca perder o nível de atuação. Neste filme em particular, ele se sobressai atravessando o país para conversar com ex-namoradas, e mesmo inexpressivo, sabe como tirar as melhores emoções de quem assiste o filme.

Anthony Quinn (Zorba – O Grego)

É um dos meus atores favoritos em um papel que não cairia tão bem em mais ninguém. Anthony Quinn dá vida ao atrapalhado, mas de enorme coração, Zorba. São em cenas como a do começo do filme na estação, a do convento, ou a da sensacional e imortal dança, que temos a noção da grandeza desse personagem, e desse filme. Uma obra-prima protagonizada por um dos melhores atores da história do cinema.

O Grande Gatsby

You can’t repeat the past.

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Direção: Baz Luhrmann

Roteiro: Baz Luhrmann e Craig Pearce, baseado no romance homônimo de F. Scott Fitzgerald

Elenco: Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan, Joel Edgerton, Isla Fisher, Emily Foreman, Steve BIsley, Richard Carter, Jason Clarke, Charlize Skinner, Stephen James King, Barrie Laws, Tiger Leacey Wyvill

The Great Gatsby, EUA/Austrália, Drama, 142 minutos

Sinopse: Nick Carraway (Tobey Maguire) tinha um grande fascínio por seu vizinho, o misterioso Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio). Após ser convidado pelo milionário para uma festa incrível, o relacionamento de ambos torna-se uma forte amizade. Quando Nick descobre que seu amigo tem uma antiga paixão por sua prima Daisy Buchanan (Carey Mulligan), ele resolve reaproximar os dois, esquecendo o fato dela ser casada com seu velho amigo dos tempos de faculdade, o também endinheirado Tom Buchanan (Joel Edgerton). Agora, o conflito está armado e as consequências serão trágicas. (Adoro Cinema)

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Baz Luhrmann é um diretor de estilo bem definido e conferir O Grande Gatsby querendo outra coisa é completa insanidade. Por isso, antes de esperar um produto fiel à clássica obra de F. Scott Fitzgerald, o melhor conselho para qualquer espectador é se desarmar e acabar com qualquer vínculo com a literatura: o filme estrelado por Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Carey Mulligan é, antes de mais nada, um projeto de Baz Luhrmann. Cercado de expectativas ruins – afinal, o diretor vem de uma forte decepção chamada Austrália – O Grande Gatsby está, em termos de criação, muito mais para Moulin Rouge! – Amor em Vermelho do que para seu longa anterior. E essa comparação é no mínimo polêmica, pois mesmo o musical de 2001, responsável pelo maior índice de aprovação da carreira do diretor, é amado e odiado na mesma proporção. Porém, O Grande Gatsby, se serve de consolo, é um exercício mais “controlado” de Luhrmann, ainda que não livre, claro, de seus maneirismos habituais.

Como já era evidente no próprio trailer, O Grande Gatsby é um filme de cores e extravagâncias estéticas. Talvez não precisasse ser assim, mas o diretor, querendo trazer seu estilo para a obra e – mais importante ainda – os elementos que fizeram de Moulin Rouge! o seu auge como realizador, quer a todo custo encher os olhos do espectador com festas grandiosas e espetaculares para ressaltar a boemia e a farra da juventude estadunidense dos anos 1920. Por isso, prepare-se: ele não poupa inventividades no figurino (repetindo a parceria com a vencedora do Oscar Catherine Martin) e na direção de arte. O resultado transborda perigo, já que O Grande Gatsby está sempre a um passo de se tornar cafona. Uma cena que exemplifica essa sensação é aquela que introduz Daisy Buchanan, a musa da vez vivida por Carey Mulligan. Exagerando no branco e nas cortinas esvoaçantes, a sequência é de encher os olhos (e Mulligan poucas vezes esteve tão bem fotografada), mas parece muito mais um comercial de shampoo ou perfume do que qualquer outra coisa.

Por sorte, fica só no quase mesmo e O Grande Gatsby, no final das contas, tem o visual a seu favor. Tal impressão de que o filme está beirando a cafonice está mais presente no início, quando o resultado como um todo também adota um tom mais frenético para mostrar as grandiosas festas realizadas na casa do misterioso Gatsby (Leonardo DiCaprio). Mas logo Baz Luhrmann troca a marcha e desacelera, mostrando que esta é a sua obra que mais se apoia em uma história do que em outros artifícios. E é exatamente por depender mais do roteiro que O Grande Gatsby não se torna uma experiência mais marcante. Não em função da adaptação ser necessariamente problemática, mas porque o resultado leva tempo demais para desenvolver o arco completo de uma história sem grandes mistérios. O tempo que o roteiro leva esmiuçando questões que não são novidades em termos de dramaturgia traz excessos ao filme. O suspense em torno do personagem de DiCaprio, por exemplo, poderia ser facilmente sintetizado: além de economizar cerca de meia hora, só eliminaria outras formalidades desnecessárias. São, portanto, excessos que banalizam o filme e que tentam de certa forma mascarar a falta de engenhosidade do enredo.

Não fosse por esse detalhe – que também deixa o ritmo um tanto arrastado – O Grande Gatsby poderia ser um ótimo espetáculo com o que Baz Luhrmann pode oferecer de melhor. Embalado por uma trilha bastante contemporânea (repleta de nomes musicais de sucesso), por outra instrumental igualmente eficiente (do ótimo Craig Armstrong) e por uma estética que, como já mencionado, cumpre sua missão de deslumbrar, o filme tem, inclusive, passagens que fazem um casamento certeiro entre a história e o estilo do diretor. A visita de Daisy à casa de Gatsby – ao som de Young and Beautiful, da Lana del Rey – é um dos pontos altos do longa. Aqui, além de tudo, temos mais um ótimo momento de DiCaprio, que, mesmo esbanjando beleza (a loirice e os olhos azuis do ator nunca chamaram tanto a atenção desde Titanic), consegue fazer uma composição que nunca se ofusca em função de seus atributos físicos. Carey Mulligan também funciona como musa e tem aqui um dos seus momentos mais interessantes, conseguindo-se libertar mais uma vez da enjoada chorona que vimos em tantos outros filmes.

É certo que O Grande Gatsby tem seus problemas. As motivações de alguns personagens não são devidamente pontuadas e uma vez ou outra Luhrmann escorrega em seus maneirismos. Também talvez lhe falte profundidade ao construir relacionamentos e motivações (a personagem de Carey fica particularmente bagunçada no final com transições bruscas demais), mas nada que afete o filme no geral, que é uma experiência válida e até um pouco surpreendente se formos considerar toda a falta de otimismo em torno dessa obra que parecia fadada ao fracasso. Qualquer exagero em relação à obra, ao meu ver, parece certa implicância. Ainda em tempo, para quem for conferir o filme em 3D, o resultado se torna ligeiramente mais interessante: aqui, novamente, a tecnologia como ferramenta de profundidade acerta aos nos levar para dentro daquele universo colorido, musical, extravagante e… quase desenfreado. E esse quase é o que importa.

FILME: 7.5

3*

Na TV… a primeira temporada de Bates Motel

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A ideia de fazer uma série como Bates Motel era no mínimo perigosa. Prelúdios e continuações raramente dão certo, especialmente quando são extensões de produções consagradas. O que dizer, então, desse programa do canal A&E criado por Anthony Cipriano que resolve contar a adolescência de Norman Bates, o protagonista do clássico Psicose? A boa notícia, no entanto, é que Bates Motel, pelo menos em seu primeiro ano – cujo último episódio foi exibido no último dia 20 – consegue se desvincular das lembranças do filme de Alfred Hitchcock para criar um novo universo. E o resultado foi satisfatório o suficiente para que a série já se firme desde agora entre as boas surpresas da TV em 2013.

Focando na relação entre o jovem Norman (Freddie Highmore) e sua mãe, Norma (Vera Farmiga), Bates Motel tem, na interação entre os dois personagens, o seu grande forte. O suspense está ali para atrair o grande público, mas o programa, na realidade, alcança seus melhores momentos quando os dois estão juntos em cena. A afetuosa mas também conturbada relação de mãe e filho move Bates Motel, que apresenta sutilmente alguns conflitos familiares que exigem o máximo cuidado, seja para não cair no lugar-comum ou para não descambar para o inverossímil, como a perigosa dependência emocional dos dois e a maneira como Norma está longe de ser a mais elogiável das mães.

Ao longo dos dez episódios da primeira temporada, essa proposta, claro, é frequentemente diluída para que o suspense entre em cena – afinal, Bates Motel não poderia ser um estudo exclusivamente psicológico dos protagonistas, visto que precisa segurar a audiência para se manter vivo em uma canal relativamente desconhecido como o A&E. Mas, apesar de alguns episódios bem mornos e repetitivos, a tensão da história consegue ser trabalhada satisfatoriamente pelos roteiristas, que sempre procuram colocar as consequências do suspense como mais uma problemática para o relacionamento dos protagonistas. Por isso, dilemas que parecem diferenciados mas que logo são resolvidos rapidamente não chegam a afetar o conjunto da série.

Contribuindo diretamente para esse ótimo retrato familiar, Freddie Highmore e Vera Famiga não estão menos que inspirados nos papeis de Norman e Norma, respectivamente. Muito mais do que construir uma excelente química, a dupla também alcança notáveis resultados individualmente. Highmore, que emocionou plateias mundo afora com Em Busca da Terra do Nunca, hoje já tem 21 anos e está impecável no papel de menino desajustado que parece preso entre as ingenuidades de um jovem e a dificuldades da vida adulta. Já Farmiga, cotada para figurar nas próximas premiações, tem uma bela chance para colocar seu talento à mostra. E sempre aproveita.

Com uma segunda temporada confirmada para 2014, Bates Motel alcançou relativo sucesso de público e aqui no Brasil já tem exibição garantida pelo canal Universal, a partir de 4 de julho. O resultado final tem suas fragilidades (alguns episódios nada acrescentam, os conflitos volta e meia se repetem e outras subtramas estão ali apenas para cumprir tabela), mas, dadas as expectativas – sejam elas positivas ou negativas -, a série consegue terminar a primeira temporada com saldo positivo. Se não for pela história, que pelo menos a espiada seja seja por Freddie Highmore e Vera Farmiga.

PRIMEIRA TEMPORADA: [7.5] 1.01 – First You Dream, then You Die [8.0] 1.02 – Nice Town You Picked, Norma… [8.0] 1.03 – What’s Wrong With Norman [8.0] 1.04 – Trust Me [7.5] 1.05 – Ocean View [8.0] 1.06 – The Truth [8.0] 1.07 – The Man in Number 9 [7.5] 1.08 – A Boy and His Dog [7.5] 1.09 – Underwater [8.0] 1.10 – Midnight

Na coleção… A Família Savage

colsavages

Dos filmes mais recentes sobre filhos que precisam cuidar de um pai doente, A Família Savage é o que mais trata o tema com veracidade. Ainda que vendido um tanto como comédia, a obra de Tamara Jenkins é essencialmente dramática, onde até mesmo as doses de humor servem como reflexão para toda a situação vivida por Wendy (Laura Linney) e Jon (Philip Seymour Hoffman), que se vêem obrigados a conviver juntos para decidir o destino do pai – agora viúvo e lidando com problemas mentais decorrentes da idade. E por mais que A Família Savage não consiga escapar de algumas situações corriqueiras de histórias do tipo, o resultado é tão próximo da realidade que tais detalhes nunca se tornam um empecilho.

O roteiro – escrito pela própria diretora – não é exclusivamente centrado na figura do pai. Ao frequentemente se distanciar do tema, o texto aposta em outro aspecto que, inclusive, chega a ser muito mais interessante: a dinâmica entre os dois irmãos. Mas nada relacionado a eles é uma história à parte ao que está sendo contado: conseguimos aceitar que a (re) aproximação dos dois é uma consequência natural da situação do pai. Quando Wendy e Jon estão juntos em cena, sempre nos lembramos que as trocas entre os dois talvez só aconteçam em função dessa nova rotina que se viram obrigados a enfrentar. Sem o pai, eles são distantes – e não uma família em sua habitual rotina.

O convívio de Wendy e Jon é o ponto alto de A Família Savage, muito em função dos excelentes desempenhos de Laura Linney e Philip Seymour Hoffman. Obviamente, essa dupla não tinha como dar errado e é perceptível o total entrosamento dos dois – que, além de serem profissionais irrepreensíveis, têm um excelente texto em mãos para desenvolver seus inegáveis talentos. Ela, inclusive, chegou a receber uma merecida indicação ao Oscar (e, caso não estivesse concorrendo com Marion Cotillard, por Piaf – Um Hino ao Amor, seria merecedora da estatueta). Mais importante ainda: o filme de Tamara Jenkins também faz um sutil retrato dos sentimentos que um personagem tem em relação ao outro. O maior exemplo disso é cena em que Jon, um dedicado professor de drama, recebe a notícia que Wendy ganhou um prêmio almejado por ele mostra tudo o que não é dito na dinâmica entre os dois.

A Família Savage ainda consegue se sustentar muito bem ao estudar individualmente cada um dos irmãos. E o clima mais denso e sério do filme está presente também nesse aspecto – distanciando-se de longas que mostram apenas as dificuldades enfrentadas na hora de cuidar do pai enfermo. De um lado, acompanhamos a total insatisfação de Wendy, que fracassou na profissão (nunca deslanchou como autora de peças de teatro) e cultiva um relacionamento no mínimo atípico com um homem muito mais velho e casado. De outro, Jon, que, aparentemente, é bem sucedido como professor e pesquisador mas que, na realidade, sofre com uma certa solidão que é ampliada pela partida de uma namorada estrangeira. Ou seja, já não bastasse a situação envolvendo as dores de envelhecer, o roteiro também tem dramas existencialistas em todas as suas subtramas – o que é reforçado pela paisagem gélida de um inverno estadunidense.

Em um primeiro momento, portanto, o filme pode não ser unanimidade ou entusiasmar. Mas a verdade é que A Família Savage é um filme para ser assistido com atenção e que merece revisões, já que é formado por várias camadas e sutilezas que podem passar despercebidas logo de cara. Isso, na realidade, é uma das principais qualidades do longa: ele é melhor do que alguns pensam e sempre trará algo de novo para o espectador em uma outra análise. Como parte do grupo de filmes independentes que tiveram relativa repercussão em temporadas de premiações (além de Linney, o roteiro também recebeu uma indicação ao Oscar), A Família Savage se firma como um dos mais interessantes. Utilizando um tema específico como pretexto para falar sobre vários outros dilemas, o resultado final é completo e muito próximo da realidade.

FILME: 8.5

4

Rapidamente

elena

ELENA (idem, 2012, de Petra Costa): Depois de O Som ao RedorO Que se Move, eis que surge Elena, mais um filme que incrementa a excelente fase do cinema nacional em 2013. Esse documentário dirigido por Petra Costa (em seu primeiro longa-metragem) vem fazendo relativo sucesso – e dá para entender o porquê do público se emocionar com o que é contado pela diretora. Poucas vezes vimos no cinema brasileiro uma experiência tão pessoal: aqui, Petra Costa não tem qualquer receio de abrir o mundo de sua família para fazer uma homenagem à irmã, figura que muito lhe influenciou. A Elena do título já não vive mais e a proposta do documentário é levar a diretora para Nova York a fim de relembrar tudo o que for possível da personagem-título, que viveu por lá durante anos tentando a carreira de atriz. O formato de homenagem em carta aberta lembra Uma Longa Viagem, de Lúcia Murat, mas Elena tem personalidade própria e consegue se desvincular de comparações que possam tirar seus méritos. Talvez a experiência toque o público de maneiras bem distintas e o tom contemplativo possa cansar alguns (a duração é de 80 minutos, mas parece ter bem mais). Sem falar que a preocupação com a estética às vezes parece se sobrepôr à história. Só que é difícil rivalizar com tudo isso quando alguém abre sua vida de forma tão sincera. Elena ficaria orgulhosa dessa homenagem.

GIOVANNI IMPROTTA (idem, 2013, de José Wilker): Não é qualquer um que tem a coragem (ou seria topete?) de José Wilker. Duramente criticado por seus comentários nas transmissões do Oscar na rede Globo, ele resolveu trocar de posição e se aventurar atrás das câmeras. É uma questão bastante delicada: afinal, até que ponto deve se julgar Giovanni Improtta baseando-se na imagem de “crítico de cinema” que temos de Wilker? De qualquer forma, não há muito a ser dito: o debut do ator-crítico é praticamente um desastre. Ainda que não seja ofensivo, Giovanni Improtta é extremamente irrelevante e mal contado. A ideia de ressuscitar o personagem da novela Senhora do Destino parece ser apenas o pontapé inicial de uma modinha (outras duas novelas vão ganhar spinoff no cinema: Fina EstampaCheias de Charme), mas, julgando pelo filme de Wilker, já temos muito a lamentar. No filme estrelado pelo irreverente personagem (que tem sua simpatia nas mãos do ator), nada prende a atenção e a tentativa de construir uma história é um fracasso. Pensando que o filme se sustentaria apenas nos bordões de Giovanni que viraram clássicos em sua respectiva novela, o roteiro se perde em situações avulsas que só existem para explorar as gracinhas do protagonista. No final, chega ainda a ficar monótono ao tentar se levar a sério demais. Wilker poderia ter passado sem essa.

PARA MAIORES (Movie 43, 2013, de Bon Odenkirk, Steven Brill, Steven Carr, Rusty Condieff, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Rattner e Jonathan Van Tulleken): Tenho certeza que, um dia, a vida conseguirá me curar desse trauma chamado Para Maiores. O curioso é que o mais triste não é ver um filme sem qualquer aspecto elogiável, mas saber que tantos atores talentosos estão envolvidos nessa desgraça descomunal. Comédia já não é o gênero mais fácil, mas esse consegue se superar em piadas que sabe-se lá porque conseguiram financiamento. Kate Winslet, Naomi Watts, Hugh Jackman e Emma Stone, por exemplo, deviam estar endividados até o pescoço quando aceitaram fazer parte de Para Maiores. Afinal, não dá para acreditar que eles de fato se interessaram por esse conjunto de sitcoms lastimáveis. O filme é exatamente assim: uma produção de mau gosto, repleta de momentos constrangedores e que não arranca um sorriso amarelo do espectador. A história? Vários curtas duvidosos envolvendo piadas sobre sexo. E nenhum deles tem o mínimo de graça. Um verdadeiro festival vergonha alheia que sequer se dá ao trabalho de tentar aproveitar o mínimo que seja dos bons atores que tem no elenco. Para se evitar sem qualquer hesitação.

TERAPIA DE RISCO (Side Effects, 2013, de Steven Soderbergh): Não dá para ir muito atrás de Steven Soderbergh dizendo que Terapia de Risco é o seu último filme para o cinema. Esse papo já existe desde Confissões de Uma Garota de Programa, de 2009. E, desde lá, ele já realizou nada menos que oito filmes. De qualquer forma, se essa for mesmo a despedida de Sodebergh, ele dá adeus ao cinema com um filme que fica no meio termo. O diretor sempre realizou produções dos mais variados gêneros e Terapia de Risco, de certa forma, transita entre vários deles. Começa como um drama sobre uma mulher que precisa lidar com a volta do marido que estava preso, depois se torna uma espécie de estudo sobre psiquiatria e a indústria de antidepresisvos e, quando se encaminha para o final, aposta no velho jogo de quem fala a verdade em uma história que tem fatos supostamente muito claros. Soderbergh consegue equilibrar bem essa diversidade até mais ou menos a metade. Quando dá uma reviravolta para mostrar Jon (Jude Law) tentando provar inocência frente a um processo que o coloca como culpado de um caso em que uma garota comete um assassinato em função dos remédios que ele prescreveu, o filme começa a perder o fôlego. Esse conflito é apresentado cedo demais e as resoluções tentam, sem efeitos positivos, surpreender a todo custo. Infelizmente, a vontade de Soderbergh em querer se mostrar esperto não combinou com o resto do filme.