Cinema e Argumento

Grandes Olhos

Eyes are the windows to the soul.

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Direção: Tim Burton

Roteiro: Larry Karaszewski e Scott Alexander

Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Jason Schwartzman, Danny Houston, Terence Stamp, Jon Polito, Elisabetta Fantone, James Saito, Guido Furlani, Delaney Raye, Madeleine Arthur

Big Eyes, EUA/Canadá, 2014, Drama, 106 minutos

Sinopse: O drama apresenta a história real da pintora Margaret Keane (Amy Adams), uma das artistas mais comercialmente rentáveis dos anos 1950 graças aos seus retratos de crianças com olhos grandes e assustadores. Defensora das causas feministas, ela teve que lutar contra o próprio marido no tribunal, já que o também pintor Walter Keane (Christoph Waltz) afirmava ser o verdadeiro autor de suas obras. (Adoro Cinema)

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Tim Burton precisava de um filme como Grandes Olhos. Após fracassar em qualidade com dois filmes consecutivos em live action (Alice no País das Maravilhas e Sombras da Noite), seria saudável ele abandonar um pouco as fantasias que tanto lhe marcaram e fincar os pés no chão. Às vezes tomar certa distância traz uma nova perspectiva, e Grandes Olhos pode até não ser um filme que vá repaginar a carreira de Burton ou muito menos que tenha um estilo que o diretor queira reproduzir futuramente, mas funciona como um bom exercício para alguém que necessitava urgentemente pensar fora de suas já conhecidas fronteiras. Tim Burton aceitou o desafio, dispensou Johnny Depp e Helena Bonham Carter (este é o seu primeiro filme desde Marte Ataca! em 1996 que não conta com nenhum dos dois atores no elenco) e resolveu fazer uma produção mais comedida em conceitos e tamanho, mostrando que, ao contrário do que anunciaram seus últimos filmes, ele ainda sabe contar histórias de forma satisfatória.

É curioso, contudo, como Grandes Olhos é de certa forma um diferencial para a carreira de Tim Burton mas não para os seus protagonistas Amy Adams e Christoph Waltz. Enquanto o diretor explora outros terrenos ao conduzir com agradável convencionalidade a história da pintora Magaret Keane e o seu casamento com o impostor Walter, Adams e Waltz fazem o mesmo de sempre, expondo os dois maiores problemas do filme: a errada escalação de elenco e a indiferente direção de atores. Livres em cena e sem maiores orientações, a dupla não traz nada de novo para seus respectivos repertórios, o que impede o espectador de realmente ver os personagens. Quem está em cena é a repetição de Amy Adams e Christoph Waltz. Enquanto ela segue com sua expressão chorona de voz mansa e seu papel de mulher ingênua facilmente enganável, ele, frequentemente descontrolado, prova que realmente não funciona com ninguém além de Quentin Tarantino. O tipo sarcástico com um eterno sorriso debochado no rosto criado pelo ator é o que existe de mais incômodo em Grandes Olhos.

Com uma boa fotografia de Bruno Delbonell e uma nova e interessante parceria com Danny Elfman na trilha sonora, Grandes Olhos é um filme linear conduzido sem maiores ousadias. O que torna a experiência agradável, por outro lado, é que essa previsibilidade do roteiro escrito pela dupla Larry Karaszewski e Scott Alexander não subestima a paciência do espectador. É um filme simples e ponto. E tem consciência disso. O que não permite que o filme de Tim Burton seja mais interessante, além da dupla protagonista em eterna repetição, é o fato da história se ater mais ao carisma (?) do marido pilantra que seduz a esposa a abandonar a autoria de seus quadros do que justamente às razões que fizeram Margaret comprar a proposta enganadora do marido. Ela era simplesmente tola? Para uma mulher divorciada nos anos 1950, não parecia ser. Mas infelizmente Grandes Olhos prefere ficar mais com a teatralidade cômica da interpretação de Christoph Waltz.

Em meio à convencionalidade, Tim Burton encontra espaço para aplicar controladamente algumas de suas referências sem que pareçam avulsas. O ponto alto é a ótima cena em que a protagonista vai ao supermercado e imagina todas as pessoas com os famosos grandes olhos que tanto pinta secretamente em suas telas. Assim, é correto dizer que este filme marca mais como uma oxigenação para a carreira até então em franca derrocada de Tim Burton do que propriamente como uma biografia linear e agradável. Em ambos os casos, entretanto, a interessante história de Margaret Keane é minada por seus atores. Bem como Adams e Waltz, volto a me repetir ao afirmar que Grandes Olhos, uma produção com basicamente tudo no lugar no que se refere a biografias convencionais mas satisfatórias, já ganharia uma roupagem completamente diferente com atores mais versáteis. Adams, que chegou a absurdamente vencer o Globo de Ouro 2015 de melhor atriz em comédia/musical quando concorria com uma impressionante Julianne Moore em Mapa Para as Estrelas, já provou em outros filmes que consegue se reinventar. O oposto acontece com Waltz, que, após ganhar dois Oscars (ambos justamente por filmes de Tarantino), tem se revelado, assim como o seu exagerado Walter Keane, uma verdadeira enganação.

Na coleção… Harry Potter e o Enigma do Príncipe

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O Enigma do Príncipe marcou a primeira repetição de um diretor na série Harry Potter desde que Chris Columbus deixou o cargo com A Câmara Secreta. Se em A Ordem da Fênix o britânico David Yates teve, logo em sua estreia, muitos méritos ao transpor para as telas o livro frágil e quase desinteressante de J.K. Rowling, particularmente já não consigo dizer que O Enigma do Príncipe goza das mesmas qualidades – o que é bastante decepcionante, pois o material original é um dos mais empolgantes escritos por Rowling. Da forma como foi adaptado novamente por Steve Cloves e dirigido por Yates, Harry Potter e o Enigma do Príncipe resultou desestimulante, um tanto cansativo e até mesmo frequentemente bobo.

O que mais incomoda nesse sexto filme em que o jovem bruxo Harry (Daniel Radcliffe) precisa lidar com as ameaças do consumado retorno de lorde Voldemort (Ralph Fiennes) é o tom insistentemente piadista da trama. Se em O Cálice de Fogo as descobertas adolescentes dos personagens eram tratadas de forma natural e genuinamente bem humoradas, aqui já soam forçadas, como se precisassem existir apenas para fazer dar um alívio à dramaticidade cada vez mais adulta e perigosa da saga. Com isso, sai perdendo Rupert Grint, por exemplo, que interpreta um Rony Weasley sem qualquer profundidade, já que este parece eternamente reduzido ao papel de bobo da corte. O novo coadjuvante Jim Broadbent também não tem muito o que fazer como o professor maluquinho e descabelado de poções que, apesar de ter uma função importante no filme, é outra extensão da tal insistência cômica.

A atenção excessiva ao humor parece incongruente porque os acontecimentos de Harry Potter e o Enigma do Príncipe estão em outra batida. Tudo é muito urgente e quase desesperançoso. O reflexo disso está no próprio visual da série, cada vez mais desprovido de cores – e a bela fotografia de Bruno Delbonnel indicada ao Oscar é peça fundamental para que possamos compreender, já em um primeiro contato, que o universo do jovem Harry é bem diferente daquele apresentado por Columbus em 2001. A trilha de Nicholas Hooper ainda completa essa sensação, com melodias que raramente evocam a magia de John Williams e que constroem uma nova identidade para esse universo em constante redefinição.

Narrativamente, ainda existem muitos aspectos que não engatam em O Enigma do Príncipe. Os flashbacks, concebidos com impecável apuro visual, começam interessantes, mas aos poucos se banalizam e não têm o devido impacto – até porque, sem querer, surgem meio avulsos em um cotidiano humorístico e de paixonites adolescentes. Infelizmente, não surtem o efeito que tinham na obra original, que ainda revelava com grande emoção a identidade do tal príncipe do título, enquanto, no filme, o momento é encenado sem qualquer invenção, com direito ao personagem tendo que bradar, em uma luta, “eu sou o príncipe mestiço!” como se estivesse tirando revelando a identidade de um fora da lei após arrancar sua máscara para uma multidão como nos velhos tempos do desenho Scooby Doo. Isso acontece logo após a morte de um importante personagem, que, aí sim, reforça com boa intensidade o novo tom urgente de Harry Potter que não deveria ser distraído por firulas de romances colegiais.

Confira também:

– Harry Potter e a Pedra Filosofal

– Harry Potter e a Câmara Secreta

– Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

– Harry Potter e o Cálice de Fogo

– Harry Potter e a Ordem da Fênix

O desabafo de Dianne Wiest (e o meu também)

Meryl Streep e Dianne Wiest em "Amor à Primeira Vista": envelhecer em Hollywood não é fácil. Por que uma já chega à 19ª indicação ao Oscar como um caso isolado e a segunda, a exemplo de tantas outras atrizes, não recebe nem papeis interessantes que possam pagar o aluguel?

Meryl Streep e Dianne Wiest em Amor à Primeira Vista: envelhecer em Hollywood não é nada fácil. Enquanto uma já comemora 19 indicações ao Oscar como um caso isolado, a outra, a exemplo de tantas atrizes, não recebe sequer papeis interessantes para pagar o aluguel.

Ontem circulou uma notícia envolvendo uma suposta crise financeira na vida da veterana Dianne Wiest. Vencedora de dois Oscars de atriz coadjuvante (um por Hannah e Suas Irmãs em 1987 e outro por Tiros na Broadway em 1994), Wiest revelou que tem problemas em pagar o aluguel de seu apartamento em Nova York e que em breve terá que se mudar dele. Como ela chegou até aqui ainda tendo que pagar aluguel e sem um apartamento em seu nome depois de uma carreira prolífera em década passadas  é um mistério, mas, brincadeiras à parte, a declaração da atriz evidencia algo muito sério. Algo que, inclusive, já foi constantemente evidenciado por Meryl Streep em várias entrevistas ao longo de sua carreira: envelhecer em Hollywood não é nada fácil para as mulheres. Na realidade, envelhecer não é fácil para qualquer pessoa nessa indústria.

Durante a cerimônia do Screen Actors Guild Awards no último domingo, debatia esse mesmo o assunto com um amigo, particularmente quando Debbie Reynolds recebia uma homenagem por sua carreira. Existe todo um respeito e carinho por atores em momentos como esse, mas, parando para pensar, é de certa forma triste ver tributo a determinados intérpretes. A homenagem por si só já significa algo próximo do fim de uma carreira (o que apenas o Globo de Ouro desmistificou lindamente anos atrás com o Cecil B. Demille para Jodie Foster), mas aí surgem os vídeos de retrospectiva e um lastimável fato se evidencia: aquelas são pessoas que vivem apenas de passado. A glória delas está lá. Não agora. Inexistem chances dignas para atrizes como Debbie Reynolds em Hollywood. E isso é revoltante. Não consigo imaginar experiência mais gratificante do que poder ver grandes e veteranas atrizes com papeis à altura. O que é o show de Judi Dench no recente Philomena, por exemplo? Ou a aula de sutilezas de Julie Christie em Longe Dela? Mas atrizes como elas, Maggie Smith, Helen Mirren ou Meryl Streep parecem casos raros e isolados nos dias de hoje. E mais: muitas delas são britânicas, significando que a Europa valoriza muito mais atrizes que envelheceram do que os Estados Unidos.

Voltando à situação de Wiest, ela afirmou, em entrevista ao The New York Times, que quase não recebe mais oportunidades no cinema e que é chamada para apenas um tipo de papel: o da mãe agradável. “E é isso, é tudo o que vem”, diz a atriz. Difícil saber o que é pior: a falta de papeis ou os personagens estereotipados e quase ofensivos oferecidas a grandes talentos (que, por diversas razões, compram as oportunidades). É infinita a lista de atrizes que mereciam muito mais do que recebem. Susan Sarandon virou a mãe dos protagonistas de comédias bobocas, Diane Keaton se firmou como a engraçadinha descolada de meia-idade também em filmes de gosto duvidoso, Vanessa Redgrave ruma em direção aos papeis figurantes que poderiam ser interpretados por qualquer outra pessoa de menor calibre (Foxcatcher, O Mordomo da Casa Branca), e por aí vai… Quando, claro, algumas simplesmente somem do mapa, aparecendo apenas eventualmente com pequenas participações em seriados ou filmes independentes lançados diretamente em home video. Nessa lista, podemos incluir Michelle Pfeiffer e Meg Ryan, por exemplo.

Esse assunto, no entanto, é apenas detalhe de uma crise muito maior enraizada em Hollywood. Observemos a temporada de premiações desse ano, onde a tensão está evidente e escancarada: das 20 interpretações indicadas ao Oscar, nenhuma vem de um ator negro. Dos 10 roteiros também indicados ao prêmio, nenhum é escrito por uma mulher. Quando resolvem compensar a situação, indicam Selma a melhor filme sendo que o longa só tem uma outra indicação de canção. Faz algum sentido além do cumprimento formal da culpa social? Não. O que dizer, então, das mulheres negras que já ganharam Oscar? Todas por papeis de escravas, empregadas, mães abusivas ou caricaturas. E o primeiro Oscar de direção entregue a uma mulher? Foi para Kathryn Bigelow, que realizou um filme de guerra essencialmente político e masculino. Uma Jane Campion ou uma Sofia Coppola da vida nunca ganhariam essa honraria.

Claro que as premiações são apenas reflexos de uma indústria que, muito mais do que estar despreocupada com o protagonismo de negros e mulheres, não se empenha em dar atenção para atores que envelhecem e que contribuíram tanto para o cinema. São problemas já de décadas em Hollywood e não é à toa que todos estão debandando para o mundo dos seriados, que hoje estuda a família moderna (não aquele clichê de Modern Family, mas  sim a moderna mesmo, composta por um pai travesti e uma filha lésbica, como vemos em Transparent), que dá uma luz no fim do túnel para atores esquecidos pelo cinema (mais anteriormente vimos Glenn Close em Damages e Sally Field em Brothers & Sisters) e que traz negras como protagonistas em papeis atípicos (a advogada sexualizada, forte e misteriosa de Viola Davis em How to Get Away With Murder). Se na TV sobra espaço para gays, mulheres e negros, comprovando a total superioridade deste formato em relação ao cinema, na tela grande falta vergonhosamente. Mas, para além de igualdade, está faltando respeito em Hollywood. Intérpretes de pura excelência como Dianne Wiest não devem ficar sem dinheiro para o aluguel. E muito menos sem trabalhos dignos.

A Teoria de Tudo

I did my best.

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Direção: James Marsh

Roteiro: Anthony McCarten, baseado no livro “Travelling to Infinity: My Life with Stephen”, de Jane Hawking

Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, David Thewlis, Emily Watson, Maxine Peake, Simon McBurney, Thomas Morrison, Michael Marcus, Eileen Davies, Christian McKay, Guy Oliver-Watts, Charlotte Hope, Alice Orr-Ewing

The Theory of Everything, Reino Unido, 2014, Drama, 123 minutos

Sinopse: Baseado na biografia de Stephen Hawking, o filme mostra como o jovem astrofísico (Eddie Redmayne) fez descobertas importantes sobre o tempo, além de retratar o seu romance com a aluna de Cambridge Jane Wide (Felicity Jones) e a descoberta de uma doença motora degenerativa quando ele tinha apenas 21 anos. (Adoro Cinema)

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Logo quando terminaram as filmagens de A Teoria de Tudo, Eddie Redmayne, ao consultar seu osteopata (o profissional de medicina alternativa que cuida de problemas da coluna vertebral), recebeu a notícia de que o alinhamento de sua espinha dorsal havia sofrido significativas alterações. O motivo? A dedicação de Redmayne em tentar reproduzir toda a condição física de Stephen Hawking, astrofísico cuja vida é encenada neste A Teoria de Tudo. Tal empenho lhe rendeu esta sequela que, segundo o ator, vem de um perfeccionismo profissional que ele mesmo não considera saudável. Prova disso é a decisão de Redmayne em, pelo menos nos últimos dias de filmagens, permanecer com a mesma posição contorcida e atrofiada em cima de uma cadeira de rodas durante todos os takes. Assim, para toda a equipe de A Teoria de Tudo, ele era de fato Stephen Hawking. E o ator pode ficar tranquilo: sua obsessão não tão saudável em busca da perfeição está plenamente reproduzida na tela com um desempenho que eleva o filme de James Marsh a uma emoção genuína que muitas vezes falta à história em si.

Não tão jovem como pode parecer (recentemente completou 32 anos), Eddie Redmayne já cultiva uma boa carreira como intérprete independente. No teatro, conquistou um Tony como ator convidado pelo espetáculo Red. No cinema, já foi o filho de Julianne Moore no polêmico Pecados Inocentes, apaixonou-se por Marilyn Monroe ao mesmo tempo que narrava seus breves dias de verão com ela em Sete Dias Com Marilyn e teve pequenos papeis coadjuvantes em longas de época como A Outra e Elizabeth – A Era de Ouro. Porém, foi recentemente que o britânico começou a alçar voos mais altos, especialmente em Os Miseráveis, onde, como o revolucionário Marius Pontmercy, conseguia se destacar com uma bela voz, uma presença repleta de carisma e até mesmo um momento emocionante ao fim do filme (aquele em que canta Empty Chais at Empty Tables). Mas a chance de sua carreira veio mesmo agora com A Teoria de Tudo, onde Redmayne, fora a impecável reprodução da esclerose lateral amiotrófica de Hawking, constrói com delicadeza um personagem que, mesmo enfrentando tantos infortúnios, nunca deixou de ver o lado bom da vida.

Ao mesmo tempo em que o ator impressiona com ao emular a doença de Hawking, A Teoria de Tudo também se beneficia com isso, já que é fácil simpatizar e torcer por este protagonista que tanto amou a sua companheira Jane (Felicity Jones, a primeira escolha para o papel) e sempre quis ganhar o mundo com uma diferenciada carreira profissional. Entretanto, a deficiência, para a dramaturgia (em especial o cinema), é um campo minado: se, por um lado, o filme já ganha pontos, adeptos e eventuais lágrimas por contar uma história de degradação física repleta de superação, por outro pode se perder conceitualmente ao sucumbir à irresistível tentação de abusar da doença para emocionar, esquecendo, em prol disso, outros assuntos infinitamente mais interessantes do que a enfermidade. É o que basicamente acontece com A Teoria de Tudo, que, ao invés de, por exemplo, mergulhar mais fundo na jornada também heroica de Jane ao ter permanecido com Stephen em uma juventude que poderia ter tomado rumos bem diferentes (e menos sofridos), prefere mostrar frequentemente o protagonista percebendo sua perda motora ao não conseguir mais realizar simples movimentos cotidianos, como pegar um garfo ou subir as escadas.

Ao contrário do que sugeria, é na inevitável derrocada física de Stephen Hawking que A Teoria de Tudo concentra a maior parte de sua atenção. Com isso, aspectos dramáticos importantes são mostrados corriqueiramente – ou, então, de forma exageradamente acelerada. O casamento, os filhos (incluindo aqueles que Jane e Stephen tiveram quando ele movia praticamente só a cabeça!) e a escalada profissional do protagonista são alguns dos tópicos que o filme infelizmente não chega a esmiuçar. Por isso, quando dizem que Stephen já é conhecido mundialmente, acreditamos porque determinado personagem diz e não porque acompanhamos suas vitórias. Outro fato extraordinário em possibilidades dramáticas é tratado com certo descaso: o do astrofísico ter recebido um diagnóstico desesperançoso de apenas dois anos de vida. Como sabemos, Stephen vive até os dias de hoje (ele já passa da casa dos 70 anos!), e sua a vitória ao ter superado qualquer expectativa negativa da doença parece não ser algo que tenha interessado o roteirista Anthony McCarten, que escreveu o longa com base no livro Travelling to Infinity: My Life with Stephen, de autoria da própria Jane Hawking.

À parte tais frustrações, A Teoria de Tudo é o típico filme inglês com história redonda e produção sofisticada. Para o bem e o para o mal, não existem maiores reviravoltas ou inventividades neste longa tradicional feito para agradar a todos e que deverá ser relativo sucesso de público aqui no Brasil. A razão é muito simples: com uma linda trilha sonora do islandês Jóhann Jóhannsson, é uma produção feita para emocionar (mas sem maiores apelações e com uma certa dose de elegância) em função da trajetória de superação de seu protagonista e, claro, do relacionamento entre ele e a esposa. Hawking, inclusive, aprovou o resultado e, após assistir ao filme, escreveu um e-mail para o diretor James Marsh dizendo que a fidelidade da obra foi tanta que, em determinados momentos, tinha a sensação de que estava vendo a si mesmo na tela.

Ainda que por vezes esticado demais, A Teoria de Tudo tem consciência de que é na figura de Redmayne que se concentra a sua maior força – talvez até demais, o que, em dados momentos, não deixa de limitar a criação do ator, que parece ter apenas a deficiência de Hawking para poder desenvolver em cena (e, nesse sentido, volta a questão de que seria mais interessante ter acompanhado outros momentos de sua vida, em especial a juventude, retratada de forma tão encantadora mas breve). Mas Redmayne sai plenamente inabalado, deixando uma forte impressão no espectador e a certeza de que, mais do que nunca, é um nome para ser acompanhado. Portanto, se dramaticamente A Teoria de Tudo não consegue criar lições mais consistentes e desenvolver emoções com grande criatividade (talvez fruto da veia bastante documental do diretor James Marsh, vencedor do Oscar 2009 de melhor documentário com O Equilibrista), pelo menos acertou ao se entregar ao talento de seu intérprete. Na agenda do ator, mais um projeto promissor já está em andamento: The Danish Girl biografia dirigida por Tom Hooper que mostra a vida do pintor dinamarquês Einar Wegener, o primeiro homem que, ao que tudo indica, foi o primeiro a fazer uma cirurgia de troca de sexo no século XX. Ao que tudo indica, Redmayne veio realmente para ficar.

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2015

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O fim de semana foi de festa para Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). O motivo? O filme do mexicano Alejandro González Iñárritu faturou o Producers Guild Awards e o Screen Actors Guild Awards de melhor elenco. O destaque deste segundo, cujos vencedores conhecemos ontem à noite, não foi, no entanto, o filme em questão e sim a vitória de Eddie Redmayne como melhor ator por A Teoria de Tudo. Destaque por duas razões bem claras: primeiro porque o jovem carimba de vez a sua vitória no Oscar (era esperado que uma possível vitória de Michael Keaton no SAG embolasse a disputa, o que não aconteceu) e segundo porque o prêmio abala fortemente as chances de Birdman vencer como melhor filme no Oscar – afinal, o longa de Iñárritu não tem qualquer perspectiva de se consagrar nas categorias principais e agora nem mais em melhor ator, uma categoria dada como certa. Pelo histórico, é quase impossível um filme ganhar o Oscar sem ter pelo menos um prêmio de direção, roteiro ou montagem. E Birdman, sendo muito otimista, pode levar apenas a estatueta de roteiro… As maiores chances ainda estão com Boyhood.

Voltando a Redmayne, o recado de sua vitória é muito simples: nunca subestime o poder da combinação biografia + deficiência. Redmayne é um excelente ator e sua vitória quebraria até mesmo um jejum: a última vez que um intérprete com menos de 35 anos levou o Oscar de melhor ator foi em 2003 com Adrien Brody por O Pianista. De resto, não tivemos qualquer novidade envolvendo as categorias de cinema. É praticamente certo que o quarteto de atores vencedores deste prêmio deve se repetir no Oscar (especialmente porque todos eles, incluindo Redmayne, ainda têm tudo para ganhar o BAFTA também). Na TV tivemos boas surpresas: mesmo com uma lista de comédias defasadas e repleta de ausências (sendo Transparent a mais gritante), optaram pelo novo e premiaram Orange is the New Black como melhor elenco e interpretação feminina. Também arranjaram espaço para finalmente premiar Kevin Spacey e Mark Ruffalo por alguma coisa, mesmo que o desempenho do segundo em The Normal Heart seja quase histriônico, ao contrário do que normalmente realiza.

Não houve, contudo, nenhum discurso tão inspirador quanto o de Viola Davis, vencedora do prêmio de melhor interpretação feminina em série dramática por How to Get Away With Murder. Em um ano que as premiações refletem uma grande dívida da indústria com negros e mulheres, Viola não hesitou em expor o problema, mencionando e celebrando o fato de que ela, uma mulher negra de 49 anos, estava sendo celebrada por interpretar uma personagem, sexualizada, confusa e misteriosa. A afirmação foi certeira para um histórico vergonhoso das premiações que, em suas respectivas listas, só entregam estatuetas a mulheres negras por papeis de escravas, empregadas, mães abusivas ou caricaturas. Chegou a hora de mudar isso. E que bom que alguém finalmente deu voz ao assunto com extrema dignidade e em uma bela circunstância. Confira abaixo a lista completa de vencedores do Screen Actors Guild Awards 2015:

MELHOR ELENCO: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
MELHOR ATRIZ: Julianne Moore (Para Sempre Alice)

MELHOR ATOR: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: J.K. Simmons (Whiplash: Em Busca da Perfeição)
MELHOR ELENCO DE SÉRIE DRAMA: Downton Abbey
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DRAMA: Viola Davis (How to Get Away With Murder)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DRAMA: Kevin Spacey (House of Cards)
MELHOR ELENCO DE SÉRIE COMÉDIA: Orange is the New Black
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE COMÉDIA: Uzo Aduba (Orange is the New Black)

MELHOR ATOR EM SÉRIE COMÉDIA: William H. Macy (Shameless)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Frances McDormand (Olive Kitteridge)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (The Normal Heart)