Cinema e Argumento

Caminhos da Floresta

Children can only grow from something you love to something you lose…

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Direção: Rob Marshall

Roteiro: James Lepine, baseado em musical de autoria própria e de Stephen Sondheim

Elenco: Emily Blunt, James Corden, Meryl Streep, Anna Kendrick, Chris Pine, Johnny Depp, Christine Baranski, Tracey Ullman, Lilla Crawford, Daniel Huttlestone, Tammy Blanchard, Lucy Punch, Mackenzie Mauzy, Billy Magnussen, Joanna Riding

Into the Woods, EUA/Reino Unido/Canadá, 2014, Musical, 125 minutos

Sinopse: Um padeiro e sua mulher (James Corden e Emily Blunt) vivem em um vilarejo, onde lidam com vários personagens famosos dos contos de fadas, como Chapeuzinho Vermelho (Lila Crawford). Um dia, eles recebem a visita da bruxa (Meryl Streep), que é sua vizinha. Ela avisa que lançou um feitiço sobre o casal para que não tenha filhos, como castigo por algo feito pelo pai do padeiro, décadas atrás. Ao mesmo tempo, a bruxa avisa que o feitiço pode ser desfeito caso eles lhe tragam quatro objetos: um capuz vermelho como sangue, cabelo amarelo como espiga de milho, um sapato dourado como ouro e um cavalo branco como o leite. Eles têm apenas três dias para encontrar tudo, caso contrário o feitiço será eterno. Decididos a cumprir o objetivo, o padeiro e sua esposa adentram na floresta. (Adoro Cinema)

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Rob Marshall sempre dá um jeito de voltar aos musicais. Entre filmes como Memórias de Uma Gueixa e Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas, sempre existiu uma nova investida do diretor no gênero. Nenhuma de suas realizações, entretanto, conseguiu sequer chegar perto do prestígio e do suposto brilhantismo de Chicago, longa-metragem de estreia de Marshall nos cinemas que, inclusive, chegou a lhe render uma indicação ao Oscar de melhor diretor. Já não compartilho qualquer entusiasmo pelo musical estrelado por Renée Zellweger e Catherine Zeta-Jones (lá já era possível ver os defeitos que afundariam outros trabalhos do diretor como a excessiva teatralidade e os números ambientados praticamente todos em um mesmo ambiente), mas é consenso geral que sua filmografia nunca mais decolou depois desse projeto. Infelizmente Caminhos da Floresta, outra investida em musicais de Marshall, é mais uma prova – e talvez a mais contundente delas – de que Chicago realmente foi um golpe de sorte. Ou de que o diretor foi, desde sempre, uma farsa que sabe-se lá como o mundo comprou entusiasmadamente.

Adaptado do tradicional espetáculo homônimo tão popular nos Estados Unidos, Caminhos da Floresta se tornou a maior estreia de uma versão cinematográfica da Broadway no país, faturando 46 milhões de dólares somente no primeiro final de semana. Claro que o sucesso está aliado ao fato de que o filme também é da Disney, tem apelo infantil e ainda brinca com várias figuras dos contos de fada, mas as grandes referências vêm mesmo da origem teatral, já que Caminhos da Floresta já foi encenado por muitas gerações nas escolas estadunidenses. Não se engane, no entanto, ao pensar que este é um filme meramente de fantasia que reúne várias figuras clássicas como Rapunzel e Cinderela. Não. Caminhos da Floresta é obviamente um musical nato, de diálogos cantados e canções que estão longe de serem melódicas ou grudentas (Sweeney Todd e Os Miseráveis são os exemplares mais próximos conceitualmente deste filme no cinema recente). Ou seja, sente na poltrona com bastante paciência (caso você não curta o gênero) porque lá vem muita cantoria! Todas as referências de respeito, as possibilidades musicais e as ideias potencialmente criativas são, contudo, perdidas pela má direção de Marshall e pelo roteiro empoeirado de James Lepine (autor do espetáculo original ao lado de Stephen Sondheim).

Caminhos da Floresta é repleto de conceitos errados, indo totalmente contra a onda de subversão de ideias e valores que a Disney vinha trabalhando em produções como Frozen – Uma Aventura Congelante e Malévola. Enquanto no primeiro a mocinha da história descobria que o amor verdadeiro não precisa vir necessariamente de um homem, no segundo a vilã de A Bela Adormecida se humanizava e tinha seu outro lado da moeda revelado. Já em Caminhos da Floresta, se um personagem trai alguém, morre logo na cena seguinte (só se for uma mulher, claro). Na composição da família, o clã feminino serve só para cuidar dos filhos e faxinar. Quando começa uma batalha, os homens tomam as rédeas e as mulheres só ficam encolhidas embaixo da árvore sem qualquer utilidade. Se existe qualquer abordagem além desse sexismo, o filme vai a extremos: a ambição é algo descabido e caricatural como na personagem de Christine Baranski e a interessante superproteção de uma mãe em relação a filha vem apenas de uma bruxa velha e horrorosa. Tudo é um retrocesso gigantesco que em nada parece ter sido pensado para as plateias de hoje e, principalmente, para os padrões de conceitos que a Disney vinha quebrando.

O musical de Rob Marshall traz a sempre bem-vinda lógica de que é a música que deve guiar a história e não o inverso, mas nem isso ajuda Caminhos da Floresta a impressionar narrativamente. Tudo é muito antiquado (e não em um sentido de homenagem clássica, como poderia ser), com uma miscelânea de contos que curiosamente não instiga e muito menos se mostra prolífera em ideias. Encontrar Chapeuzinho Vermelho, João e seu pé de feijão, Rapunzel, a Bruxa, o Lobo Mau e tantas outras figuras icônicas não empolga em momento algum. Inclusive, agrupar todos em um mesmo filme deixa vários como coadjuvantes ou então figurantes (a pobre Rapunzel nada pode fazer além de dizer uma ou duas frases quando é trancafiada em casa pela mãe ou tentar chorar enquanto Meryl Streep arrasa com Stay With Me, uma das mais belas canções do repertório). O visual tampouco impressiona, dos figurinos à direção de arte – o que é um grande problema.

Em Caminhos da Floresta ainda existem dois filmes dentro de um: a partir do momento em que a trama se movimenta com o surgimento de uma gigante, a sensação é de que outro longa muito menos interessante se inicia, com conflitos bastante pobres, acontecimentos tratados com descaso (a morte de uma personagem sequer tem um pingo de dramaticidade) e obviamente o auge dos já comentados sexismos e moralismos. O elenco até que se esforça para segurar a barra e quem mais se garante entre os protagonistas é certamente a adorável dupla James Corden e Emily Blunt. Mas é fácil ver que Marshall também parece ter perdido o tino para dirigir atores (em Nine ele já desperdiçava Judi Dench e deixava Penélope Cruz fazer mais do mesmo, por exemplo) e aqui parece não ter estabelecido nenhum diálogo de criação com diversos atores, sendo o pior caso o de Chris Pine, que, além de ter o número musical mais vergonhoso da história (aquele em que canta Agony! na cachoeira), consegue ser incrivelmente canastrão em cada segundo de suas aparições.

Com esse acúmulo enorme de erros, só a presença de Meryl Streep já seria o suficiente para oxigenar Caminhos da Floresta em certas passagens.  Só que, independente do resto do filme, a atriz realmente ficou com as melhores músicas e os melhores momentos. Ela é o grande destaque do musical não só por ser uma cantora nata (desde criança já estava no mundo das artes fazendo aulas de canto), mas porque sua personagem é realmente a que tem o contexto mais marcante. Torcer por vilões já é fácil por si só e o que dizer, então, quando a antagonista da história é a personagem que tem o melhor arco? Não à toa, quando a Bruxa não está em cena, é bem provável que você se pegue ansioso por sua próxima aparição. Talvez seja Meryl a única responsável por nos dar força para continuar acompanhando Caminhos da Floresta até o final. Sem ela, este seria um dos musicais mais desastrosos em sabe-se lá quanto tempo. Novamente, Meryl veio para (quase) salvar o dia.

Os vencedores do BAFTA 2015

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Julianne Moore e o seu BAFTA de melhor atriz por Para Sempre Alice: tal consagração, assim como várias outras concedidas pelos britânicos, atesta que, talvez, a disputa como um todo não esteja tão imprevisível assim.

Se a vitória do mexicano Alejandro González Iñárritu no DGA parece ter embolado de vez a disputa pelo o Oscar, o BAFTA veio para mostrar que talvez essa concorrência acirradíssima venha apenas do nosso eterno desejo de que os votantes da Academia surpreendam. Não sei até que ponto Birdman pode ser um favorito quando é muito complicado vê-lo vencendo em categorias como direção (será mesmo que um mexicano venceria pelo segundo ano consecutivo e só tendo o DGA na bagagem?), roteiro (este é o prêmio máximo que Wes Anderson pode ganhar na vida considerando o Oscar) ou montagem (lembrando que…ops, Birdman nem concorre aqui!). Alie tudo isso ao fato de que Michael Keaton já está morto na corrida de melhor ator com mais esta vitória de Eddie Redmayne no BAFTA. 

É muito mais fácil o Oscar se entregar a Boyhood mesmo: o filme de Linklater venceu o Globo de Ouro e agora foi comprado até pelos tradicionais britânicos! E isso que estamos falando de um filme bastante estadunidense. Perdeu o SAG, é verdade, mas esse era um prêmio de elenco – e, caso tivesse vencido, seria uma vitória bastante errada. Cada um interpreta de forma diferente, mas não vejo tanto mistério assim em 2015, e a lista do BAFTA corrobora tal opinião. Ela ainda serviu para nos dar um bom panorama das categorias técnicas: O Grande Hotel Budapeste deve mesmo reinar em várias delas (merecidamente, diga-se de passagem) e existe até mesmo a possibilidade de Whiplash ganhar com louvor um ou dois prêmios de som e montagem. Com um quarteto de atores fechado para o Oscar e Richard Linklater e seu Boyhood repetindo novamente vitórias, a moral da história talvez seja mesmo que estamos superestimando a ideia de que a Academia ainda pode fazer algo de novo. Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Boyhood: Da Infância à Juventude
MELHOR FILME BRITÂNICO: A Teoria de Tudo
MELHOR DIREÇÃO: Richard Linklater (Boyhood: Da Infância à Juventude)
MELHOR ATRIZ: Julianne Moore (Para Sempre Alice)
MELHOR ATOR: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: J.K. Simmons (Whiplash: Em Busca da Perfeição)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: A Teoria de Tudo
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Citizenfour
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Ida (Polônia)
MELHOR FIGURINO: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR FOTOGRAFIA: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
MELHOR ANIMAÇÃO: Uma Aventura Lego
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Interestelar
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR MONTAGEM: Whiplash: Em Busca da Perfeição
MELHOR SOM: Whiplash: Em Busca da Perfeição
MELHOR TRILHA SONORA: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR CURTA BRITÂNICO: Boogaloo and Graham
MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO: The Bigger Picture
RISING STAR: Jack O’Connell

BAFTA 2015: apostas

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A temporada de premiações já se encaminha para a reta final e amanhã (08) é dia de conhecer os vencedores do último prêmio que reúne atores, diretores, produtores e outros profissionais em um grande evento antes do Oscar. A cerimônia do BAFTA, sempre rápida, dinâmica e objetiva, ajudará também a nos dar um panorama das categorias técnicas, que inexistem em outros prêmios como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards. Por se tratar de um corpo de votantes formado por britânicos, é um tanto complicado que Boyhood, um filme legitimamente estadunidense, se consagre com total favoritismo.

Nas nossas apostas, O Grande Hotel Budapeste será o grande vencedor. Além de conquistar várias e óbvias categorias técnicas, o filme deve surpreender como no Globo de Ouro e conquistar a categoria principal. A história do longa pode até ser dirigida por um americano, mas vale lembrar que ela é construída a partir de universos do escritor Stefan Zweig, nascido na Áustria e cujo senso europeu também está presente no filme como um todo. Entre os outros títulos, A Teoria de Tudo tem tudo para levar importantes prêmios como melhor ator (mais um passo de Eddie Redmayne rumo ao Oscar) e roteiro adaptado, além dos esperados troféus de melhor filme britânico e trilha sonora.

Ainda na nossa lista de apostas, Boyhood leva apenas os prêmios de direção e atriz coadjuvante enquanto Birdman sai da festa de mãos abanando. O homenageado deste ano é o diretor Mike Leigh, que já se consagrou três vezes no BAFTA com estatuetas por O Segredo de Vera Drake e Segredos e Mentiras. No Brasil, nenhuma emissora transmite a cerimônia do BAFTA, que começa a ser transmitida no Reino Unido às 19h (horário de Brasília). Mas, na realidade, o evento começa às 17h (também horário de Brasília). Ou seja, para quem curte conferir os resultados em tempo real, a melhor opção é ficar conectado para se atualizar. 

MELHOR FILME
O Grande Hotel Budapeste
alt: Boyhood: Da Infância à Juventude

MELHOR FILME BRITÂNICO
A Teoria de Tudo
alt: O Jogo da Imitação

MELHOR DIREÇÃO
Richard Linklater (Boyhood: Da Infância à Juventude)
alt: Alejandro González-Iñárritu (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))

MELHOR ATOR
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
alt: Ralph Fiennes (O Grande Hotel Budapeste)

MELHOR ATRIZ
Julianne Moore (Para Sempre Alice)
alt: Rosamund Pike (Garota Exemplar)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
J.K. Simmons (Whiplash: Em Busca da Perfeição)
alt: Steve Carell (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)
alt: Keira Knightley (O Jogo da Imitação)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
O Grande Hotel Budapeste
alt: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
A Teoria de Tudo
alt: O Jogo da Imitação

MELHOR FOTOGRAFIA
O Grande Hotel Budapeste
alt: Ida

MELHOR FIGURINO
O Grande Hotel Budapeste
alt: Sr. Turner

MELHOR SOM
Whiplash: Em Busca da Perfeição
alt: Sniper Americano

MELHOR MONTAGEM
Whiplash: Em Busca da Perfeição
alt: O Grande Hotel Budapeste

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Ida
alt: Leviatã

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Planeta dos Macacos: O Confronto
alt: Interestelar

MELHOR TRILHA SONORA
A Teoria de Tudo
alt: O Grande Hotel Budapeste

MELHOR DOCUMENTÁRIO
A Fotografia Oculta de Vivian Maier
alt: Virunga

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
O Grande Hotel Budapeste
alt: Caminhos da Floresta

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
O Grande Hotel Budapeste
alt: O Jogo da Imitação

MELHOR ANIMAÇÃO
Uma Aventura Lego
alt: Operação Big Hero

O Oscar é de Eddie Redmayne

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Estrela em ascensão, prêmio de moda na GQ, ensaio na Vanity Fair e na Elle, entrevistado de vários programas de audiência e – o principal, claro – um papel infalível para conquistar prêmios. É possível alguém bater a campanha e todos os fatores a favor de Eddie Redmayne na corrida ao Oscar?

Lá no início de dezembro de 2014, escrevi um post sobre como Julianne Moore já podia, antes mesmo do início da temporada de premiações, ser considerada a franca favorita ao Oscar de melhor atriz. A teoria deve mesmo se concretizar, já que Moore conquistou todos os grandes prêmios até agora como o Cricits’ Choice, o Globo de Ouro e o Screen Actos Guild Awards. Ninguém está em seu caminho. E, ao que tudo indica, o mesmo está acontecendo com o jovem Eddie Redmayne. Sua interpretação em A Teoria de Tudo, assim como a de Moore em Para Sempre Alice, também já era comentada antes dos prêmios começarem, mas de forma muito mais tímida em função de Redmayne ser um ator relativamente desconhecido. Com uma significativa vitória no SAG recentemente, derrotando o até então franco favorito à estatueta Michael Keaton, o jovem britânico agora já é quase uma aposta certa para o Oscar – e por razões que vão muito além da mera matemática.

Não escondo meu apreço pelo desempenho de Redmayne em A Teoria de Tudo e por ele próprio, mas, de qualquer forma, excetuando minha simpatia pelo ator, os fatos estão a favor dele. Tudo começa já com o papel infalível: o de um garoto brilhante que descobre ter uma doença degenerativa incurável responsável por atrofiar todo o seu corpo enquanto a mente permanece intacta. De bônus, a trama é baseada em uma famosa figura mundial (o físico Stephen Hawking). Junte a deficiência, a biografia e uma boa interpretação e o resultado é muito claro: você tem a fórmula perfeita para qualquer ator vencer o Oscar. O que poderia trabalhar contra Redmayne é o fato de ele ser “novato”, mas basta olhar a carreira do ator e sua idade para ver que não é de hoje que ele passa pelos nossos olhos. Sem falar que já tem outros projetos de ouro para o futuro (The Danish Girl, conforme mencionei no meu texto de A Teoria de Tudo). Ou seja, estrela em ascensão. E isso é irresistível. Jennifer Lawrence deve concordar.

O mais importante de tudo, no entanto, e talvez o que menos é levado em consideração pela maioria na hora de analisar o cenário de possibilidades, é a chamada “campanha”. Pode parecer tolo, mas o fato de Redmayne estampar a capa da Elle britânica, ser eleito o homem mais bem vestido do ano pela GQ (e estar na capa de várias versões internacionais da revista), ter um ensaio na tradicional Hollywood Issue da Vanity Fair (ao lado de Benedict Cumberbatch, onde ambos são saudados como as estrelas das maiores biografias da temporada) e comparecer a vários programas de entrevista como o popular talkshow de Ellen DeGeneres para divulgar o filme é simplesmente fundamental para que ele dispare na corrida. Quem não é visto não é lembrado. E, dos atores indicados ao Oscar este ano, ele é o que mais está aproveitando o momento. Mesmo não sendo o tipo galã ou muito menos que aparentemente pode interpretar todos os tipos de papeis devido a idade (tem 33 anos, mas parece um adolescente), é bem provável que um nome promissor esteja nascendo. Um nome para se acompanhar de perto.

O ator mais jovem a ganhar o Oscar de protagonista foi Adrien Brody, aos 29 anos, em 2002 com O Pianista. Se Brody, na época, foi uma alternativa lógica para a batalha de gigantes entre Daniel Day-Lewis por Gangues de Nova York e Jack Nicholson por As Confissões de Schmidt, não parece existir uma situação parecida este ano. Após a vitória no SAG, fica claro o prestígio do protagonista de A Teoria de Tudo com os seus colegas de profissão (nos últimos 10 anos, os vencedores deste prêmio de melhor ator se repetiram no Oscar e é complicado esse colegiado, que vota em peso no prêmio da Academia, mudar de ideia). Em termos de concorrência, Michael Keaton parece repetir bastante da situação de Mickey Rourke com O Lutador. Mesmo não tendo uma carreira decadente como Rourke, a Academia não deve nada a Keaton: ele nunca foi grande ator e, mesmo que esteja fantástico em Birdman, um desempenho não fala por si só, como já apontou Meryl Streep em várias ocasiões (ela foi outra que só foi ganhar um novo Oscar fazendo forte campanha). A celebração de Keaton parou no Globo de Ouro (antes ele tinha vencido vários prêmios em associações de críticos – o que nada significa, já que os votantes dos grandes prêmios são outros), e não dá sinais de se reavivar: é óbvio que o BAFTA também celebrará Redmayne no próximo domingo (08). 

Recentemente, passou a se falar muito em uma possível vitória-surpresa de Bradley Cooper, mas como um ator venceria o Oscar sendo que a sua única indicação a qualquer prêmio na temporada foi… ao Oscar?! Isso já aconteceu com Marcia Gay Harden, em 2001, com Pollock, mas a situação era um tanto diferente pois aquela era uma fraude de categoria – e uma interpretação protagonista colocada em coadjuvante é sempre uma jogada esperta (Jennifer Connelly manda lembranças). E uma pergunta final: qual foi a última grande surpresa que vimos nas categorias de interpretação nos últimos anos? O Oscar não contraria mais a matemática (escrevi um pouco sobre isso tempos atrás para o blog Uma Dose de Cinema). Levando em consideração todos estes fatores, bem como os elencados para Julianne Moore, o Cinema e Argumento não tem maiores dúvidas: o Oscar já é de Eddie Redmayne.

Rapidamente

Com uma carreira cada vez melhor e mais prolífera, Jake Gyllenhaal tem um de seus melhores desempenhos em O Abutre

Jake Gyllenhaal pode até não ter conseguido uma indicação ao Oscar 2015 de melhor ator por O Abutre, mas, com esse filme, ele novamente reafirma a excelente fase que vive em uma carreira agora repleta de boas escolhas.

O ABUTRE (Nightcrawler, 2014, de Dan Gilroy): Jake Gyllenhaal não conseguiu uma indicação ao Oscar 2015 por sua interpretação em O Abutre, mas quem perde mesmo é a Academia por não ter reconhecido este que é, provavelmente, o melhor momento da carreira do ator. Cada vez mais envolvido com projetos diferentes e autorais, Gyllenhaal tem se aperfeiçoado e, neste filme de Dan Gilroy (sim, o irmão do já conhecido Tony, diretor de Conduta de Risco), dá até para dizer que ele é o responsável por trazer à trama um mistério e uma força que o conjunto todo não tem. Se O Abutre é um longa bem conduzido em termos técnicos e de direção – em especial nas cenas em que o protagonista filma acidentes ou assassinatos para vender a um programa televisivo – o mesmo entusiasmo não é compartilhado pelo roteiro, que justamente perde tempo demais na caçada de Lou Bloom (Gylenhaal) a fatos extraordinários para ganhar dinheiro do que em seus visíveis e por vezes amedrontadores problemas mentais. Por isso, quando O Abutre se concentra na dinâmica de Bloom com os personagens coadjuvantes que percebem seus distúrbios (destaque para o jantar com Rene Russo), o filme ganha uma complexidade que, caso fosse o foco da história, tornaria O Abutre uma experiência mais intrigante.

O AMOR É ESTRANHO (Love is Strange, 2014, de Ira Sachs): É bem diferente do que pode parecer este filme que traz Alfred Molina e John Lithgow como dois homens que mantém um relacionamento de décadas e finalmente podem/decidem oficializar a relação legalmente. Diferente porque O Amor é Estranho não é sobre dois homens já beirando os 70 anos que compartilham uma vida juntos, mas sim sobre as dificuldades financeiras deles e como ela faz com que ambos percam o apartamento e tenham que ficar separados durante algum tempo morando de favor na casa de amigos e parentes. Ou seja, decepciona como o filme de Ira Sachs não se dá conta de que os melhores momentos da história que escreveu em parceria com Mauricio Zacharias são justamente aqueles em que Molina e Lithgow – ambos levando os papeis com bastante dignidade e humanidade – estão juntos em cena. Só que O Amor é Estranho insiste em narrar suas vidas separadamente e em nada a trama parece preocupada em abordar a distância como fator dramático para o recém firmado casamento. Do jeito que ficou, o filme é apenas sobre dois homens interferindo o dia a dia dos outros, observando o cotidiano corriqueiro dessas pessoas e eventualmente se tornando empecilhos para elas. Uma chance desperdiçada.

O JUIZ (The Judge, 2014, de David Dobkin): Considerando os filmes lançados em circuito comercial no Brasil em 2014, O Juiz é a experiência mais aborrecida do ano ao lado de A 100 Passos de Um Sonho. A construção dos personagens já seria suficiente para justificar toda a previsibilidade do filme, mas o diretor David Dobkin dá razões de sobra para que o resultado transborde obviedades em todos os setores. Robert Downey Jr. interpretando o seu papel habitual de homem ácido e sarcástico é o menor dos problemas em uma história repleta de escolhas fáceis. Não existe nada de novo no retorno do filho que há anos não fala com o pai mas se vê obrigado a conviver com ele após uma tragédia pessoal. Também não instiga o velho arco dramático do senhor rabugento e irredutível que, óbvio, em algum momento vai se humanizar com uma doença terminal. Além do desperdício de bons nomes no elenco de suporte (Billy Bob Thornton, Vera Farmiga), O Juiz tem uma duração exagerada para uma história que se sustenta no julgamento de um crime perfeitamente corriqueiro e nada aberto a complexidades. São 140 minutos arrastados que fazem questão de sempre adicionar pitadas de clichês – e até mesmo de cafonices – em uma trama que por si só já pede desesperadamente por novidades.