Cinema e Argumento

Oscar 2015: melhor ator coadjuvante

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Ao contrário das mulheres, é boa a disputa entre os atores coadjuvantes de 2015. Disputa não é bem a palavra certa porque o jogo já está definido para que J.K. Simmons ganhe merecidamente a estatueta por Whiplash: Em Busca da Perfeição, mas devemos reconhecer o bom nível e a diversidade dos estilos de interpretação reconhecidos aqui. Na seleção você pode encontrar, por exemplo, um J.K. Simmons perfeitamente intenso em Whiplash, mas também um Ethan Hawke sutil e eficiente como um pai que, após o divórcio, tenta manter uma boa relação com os filhos. Ainda há espaço para atores bastante trabalhadores e ativos em suas gerações como Mark Ruffalo e Edward Norton. De questionável mesmo só fica a lembrança ao veterano Robert Duvall, mas a previsibilidade do papel (o senhor rabugento quase senil e vítima de um câncer) “justifica” sua presença entre os indicados.

A concorrência estaria ainda mais refinada e respeitável caso Duvall ficasse de fora para a inclusão de um desempenho que está classificado em uma categoria bastante errada: o de Steve Carell como ator protagonista em Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo. Ora, se J.K. Simmons aparece em 43% da projeção de Whiplash e Steve Carell em 42% de Foxcatcher, sendo que os dois possuem a mesma importância narrativa em seus respectivos filmes, nada mais justo do que considerá-los na mesma categoria (bem como fez o BAFTA, a única premiação a se atentar para tal fato). Com essa configuração, talvez Simmons tivesse realmente alguém em seu caminho na disputa (e também um candidato a sua altura).

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EDWARD NORTON (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)): Seria um ótimo ano para Edward Norton vencer o Oscar caso J.K. Simmons não estivesse concorrendo. Antigo conhecido do prêmio (sua primeira indicação veio em 1997 com As Duas Faces de Um Crime), Norton tem a sua melhor aparição em anos neste novo filme do mexicano Alejandro González Iñárritu. Transitando com total naturalidade entre o ego inflado e a imprevisibilidade de seu personagem, o ator entrega um dos melhores desempenhos de Birdman ao lado de Michael Keaton. Não só pelo trabalho em si, Norton seria facilmente reconhecido por seu histórico em um ano não tão decidido em relação ao vencedor.

ETHAN HAWKE (Boyhood: Da Infância à Juventude): Se for para escolher um dos pais de Boyhood, Ethan Hawke é, sem dúvida, o melhor em cena. Não é por ter mais espaço de projeção que o ator se torna muito mais envolvente do que Patricia Arquette, mas sim porque tem um texto superior ao dela. Como o pai que não ficou com a guarda dos filhos e tenta sempre estar presente a vida deles, Hawke absorve todas as evoluções de seus personagens com uma grande sensibilidade. O que fica perceptível é que não foi apenas seu personagem que cresceu e amadureceu com o tempo, mas também ele próprio, que só ficou cada vez mais talentoso e relevante com o tempo.

J.K. SIMMONS (Whiplash: Em Busca da Perfeição): Gosto muito da celebração de alguém como J.K. Simmons. A exemplo de outros nomes como Margo Martindale e Richard Jenkins, ele sempre foi um talentoso ator que infelizmente era eternamente reduzido a papeis coadjuvantes. Fácil reconhecer o rosto, o nome nem tanto. Simmons teve sua chance agora em Whiplash e brilhou em cada segundo. Visceral, ele cria um personagem ao mesmo tempo amedrontador e respeitável, já que, apesar da rigidez quase desumana com todos os seus alunos, é uma figura que o filme não trata como unidimensional. Uma interpretação marcante para um filme igualmente brilhante.

MARK RUFFALO (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo): Mark Ruffalo é peça fundamental de um filme que tem em seu elenco masculino uma de suas maiores forças. Entre a surpresa que é Channing Tatum e a admirável transformação de Steve Carell, Ruffalo encontrou espaço para novamente chamar a atenção com um desempenho bastante contido. Mais fundamental para a história do que pode parecer, seu David Schultz é um bom complemento aos personagens de Tatum e Carell, especialmente quando Rufallo, merecidamente indicado ao Oscar pela segunda vez, passa a ficar ainda mais presente na trama com o passar dos minutos.

ROBERT DUVALL (O Juiz): É a indicação mais preguiçosa do ano. Óbvio que os votantes não deixariam de indicar um veterano que interpreta um senhor quase senil lutando contra o câncer e que, rabugento e contrariado, precisa lidar com a volta do filho rejeitado. É um papel óbvio em um filme ainda mais previsível. Como uma vaga estava sobrando, a indicação não é surpresa justamente por apostar na velha fórmula que tanto encanta as premiações. Certamente, entretanto, se os votantes fossem mais esforçados, dava facilmente para incluir outros nomes mais merecedores aqui.

Cinquenta Tons de Cinza

My tastes are very singular. You wouldn’t understand.

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Direção: Sam Taylor-Johnson

Roteiro: Kelly Marcel, baseado no livro “Fifty Shades of Grey”, de E.L. James

Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Jennifer Ehle, Eloise Mumford, Marcia Gay Harden, Rita Ora, Luke Grimes, Max Martini, Callum Keith Rennie, Andrew Airlie, Dylan Neal, Rachel Skarsten, Emily Fonda, Anthony Konechny, Bruce Dawson, Tom Butler

Fifty Shades of Grey, EUA, 2015, Drama, 125 minutos

Sinopse: Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma estudante de literatura de 21 anos, recatada e virgem. Uma dia ela deve entrevistar para o jornal da faculdade o poderoso magnata Christian Grey (Jamie Dornan). Nasce uma complexa relação entre ambos: com a descoberta amorosa e sexual, Anastasia conhece os prazeres do sadomasoquismo, tornando-se o objeto de submissão do sádico Grey. (Adoro Cinema)

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Cinquenta Tons de Cinza repete o efeito da saga Crepúsculo: é um filme-evento. Ou seja, todo mundo vê e comenta. Mesmo que o consenso seja de que o resultado é uma catástrofe, se você não o assistir, estará desatualizado nas rodas de conversa. Só que o caso dessa aguardada adaptação do romance homônimo escrito por E.L. James (que não li e nem preciso, pois cinema independe da literatura) é ainda mais grave do que Crepúsculo no sentido de disseminar ideias erradas. Isso porque Cinquenta Tons de Cinza é dirigido ao público adulto, que já deveria ter idade e vivência suficientes para perceber que basicamente tudo o que é pregado nessa história sintetiza o que existe de pior no machismo cada vez mais combatido e – por incrível que pareça – presente nos dias de hoje. Indo mais além, o filme de Sam Taylor-Johnson (do ótimo Os Garotos de Liverpool) não é só uma exposição de valores absurdos, mas também um produto cinematográfico realmente ruim e pobre em criações.

A inexistência de criatividade já fica mais do que evidente nos primeiros minutos de projeção. Não é preciso puxar muito a memória para perceber que o começo de Cinquenta Tons de Cinza apresenta exatamente a mesma construção de O Diabo Veste Prada: uma menina desglamourizada se veste (mal) para uma entrevista com uma figura poderosíssima, misteriosa e intimidante. Enquanto Anastasia (Dakota Johnson), a tal moça, parte para o destino em um singelo fusca azul, Christian Grey, o tal misterioso, chega ao trabalho em uma imponente limousine. A menina admira o prédio gigantesco quando acha o destino. Na sequência, a câmera acompanha a porta do elevador se abrindo quando ela adentra o local e, durante todo esse seu deslocamento, o filme intercala rápidos momentos de Grey se vestindo e se preparando para o momento, sem que seu rosto seja revelado com o objetivo de criar certo suspense. Anastasia chega, tropeça, gagueja, fala coisas erradas e o empresário, agora revelado como um homem lindo e deslumbrante, já trata de resumir o encontro ao ver a inexperiência da garota. Mas ela faz alguma coisa especial (que não é perceptível, ao contrário do ótimo momento em que a personagem de Anne Hathaway confronta Meryl Streep em Prada quando discursa sobre como seu talento deve falar mais alto do que suas roupas), fisgando a atenção do desejado Christian Grey. E os dois, em questão de poucos minutos, já estão secretamente apaixonados.

Como se não bastasse uma certa incoerência que se revelará mais tarde (por que mesmo ela foi tão mal vestida para uma importante primeira entrevista se, cenas depois, faz uma nova reunião com Grey usando salto alto, maquiagem e um vestido que realça sua beleza?) ou o fato de que nenhum jornalista – mesmo em formação – enviaria a amiga para substituí-lo em uma entrevista se hoje existe telefone e e-mail para que perguntas sejam respondidas, a sucessão de cópias desse primeiro momento ainda é precedida por outra metáfora absurdamente preguiçosa: óbvio que a menina, após a reunião supostamente cercada de tensão sexual, opta por tomar tranquilamente um banho de chuva ao invés de sair correndo para o carro afim de não se molhar. Que original, uma chuva para abrandar o fogo interno da protagonista! E o que dizer, então, de quando a câmera, minutos depois, detalha o “Grey” desenhado no lápis que Anastasia ganhou e que coloca em sua boca durante toda uma aula de literatura? Resumo da ópera: já nas cenas iniciais, Cinquenta Tons de Cinza anuncia que não é um filme inteligente e que muito menos compensará em ideias cinematográficas a premissa que por si só já é cercada de cheia de valores errados.

Se, na casa de Christian, o quarto sexual é decorado apenas com vermelho e o de Dakota estoura os olhos de tão branco, exaltando o pecado e pureza respectivamente (sério mesmo que até na direção de arte não resolveram criar um pouquinho além?), tal preguiça de pensamento se estende ainda à construção da relação dos personagens – que, aos poucos, sai da mera obviedade para o total desleixo. Ambos são figuras completamente desinteressantes. É implausível como ele, um homem tão lindo, desejado e poderoso, foi se interessar por ela – e isso não tem nada a ver com beleza ou conteúdo, mas com o fato de Christian repentinamente ter se encantado com a personalidade da menina sendo que ela não demonstrou nada minimamente aceitável para que sequer tivéssemos simpatia por sua figura. Já ela, uma garota virgem e que nunca teve um namorado, parece mais uma mercenária: percebam como Anastasia sempre é alegremente comprada por Christian, seja com um carro caríssimo para que ela finalmente tome uma importante decisão na relação dos dois ou com uma voltinha em um avião particular para que ela finalmente esqueça uma discussão.

São muitos os aspectos questionáveis da personalidade de cada um (e que serão discutidos mais adiante), mas o pior é o que se desenrola “sentimentalmente” a partir de quando Christian finalmente revela para Anastasia as suas “preferências singulares”. Pior porque todo e qualquer conflito originado a partir daí não tem qualquer consistência. Os personagens brigam por bobagens (como a protagonista quer insistentemente exigir de seu amado algum tipo de sentimento sendo que ele, desde o início, já deixou bem claro que não se envolve a ponto de sequer namorar?), outras vezes por questões simplesmente absurdas (como quando Christian, indignado, questiona Anastasia por ela simplesmente ter decidido ir visitar a mãe em outra cidade sem ter pedido sua permissão), e no fim fica difícil ter simpatia por personagens repetitivos, irritantes e com defeitos sem qualquer justificativa convincente (“eu sou assim!”, simplificam a figura de Christian no roteiro). 

Romantizar uma relação abusiva é um dos tantos problemas conceituais de Cinquenta Tons de Cinza. “Abusiva? Mas eles assinaram um acordo!”, justificam alguns fãs. Sejamos sinceros: uma garota de 21 anos, virgem e que nunca teve um namorado realmente tem a mesma dimensão do que é certo ou errado em uma relação com um homem já beirando seus 30, rico e que trancafiou até aquele momento mais de 15 mulheres em seu apartamento como suas escravas sexuais? O caos é que não existe uma discussão sobre a situação e sim uma romantização mesmo. São gritantes as bobagens românticas trabalhadas, como Christian dizer a todo momento que nunca dormiu com alguém depois de uma transa para, claro, com sua nova “vítima” (é mais adequado chamá-la assim), dormir ao seu lado em um sono profundo. Ou então afirmar veemente que não faz programas de casais como jantar ou ir ao cinema para, cenas depois, lá estar ele já se voluntariando para marcar um encontro desse tipo. Oh, o homem que fazia sexo só por consumismo agora teve o seu coração flechado a ponto de abandonar seus velhos hábitos!

Com o acúmulo de gigantes fragilidades em sua construção (a mãe inútil vivida inexplicavelmente por Marcia Gay Harden nada acrescenta), implausibilidade de situações e conflitos vindo de fiapos ao longo de pouco mais de duas horas de duração, Cinquenta Tons de Cinza é arrastado e interminável. O próprio sexo, que deveria ser o afrodisíaco ou o ponto alto da crítica e da mexida na ferida (dependendo do bom senso de quem vê), tampouco consegue ser excitante ou incômodo. O machismo do filme ainda se reflete na própria nudez vista no filme: enquanto Dakota Johnson surge com os seios à mostra a todo momento e eventualmente com quase nu frontal, Jamie Dornan contracena com a atriz apenas descamisado de calça jeans em praticamente todas as cenas, ressaltando o forte problema que o cinema estadunidense ainda tem com a nudez masculina. Mulher é um objeto que pode estar nu sem qualquer pudor. Já o homem se excita com suas práticas masoquistas vestindo calça jeans, tirando-a apenas para formalizar a cena do ato da penetração em si.

Os atores não têm muito o que fazer com o roteiro mal escrito. Enquanto Dakota Johnson é esforçada mas ineficiente (suas tentativas de ser sexy mordendo o lábio são puro humor involuntário), Jamie Dornan não tem nada o que fazer além de ostentar sua inegável beleza, pois seu Christian Grey tem sempre o mesmo tom de voz e é um personagem que não cansa de surpreender negativamente com atitudes capazes de indignar qualquer pessoa sã. Como, em pleno século XXI, um público adulto pode se comover e vibrar com uma relação onde o homem decide como a mulher deve transar, o que ela come, com quem ela fala, com que frequência ela bebe ou com quem ela pode transar além dele… Isso me parece um grande mistério. Antes Cinquenta Tons de Cinza levantasse questionamentos ou discussões a partir dessas situações, mas é tudo muito claro: a mulher é uma submissa, como o filme literalmente profere e romantiza. Se, em uma produção de duas horas, isso já assusta e entedia, é ainda mais preocupante saber que existem outros dois filmes mais adiante. Sucesso e comoção mundial para uma história como essa? Parem tudo porque quero descer. Tenho medo do futuro da humanidade.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

A thing is a thing, not what is said of that thing.

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Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo e Nicolás Giacobone

Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts, Amy Ryan, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Merritt Wever, Jeremy Shamos, Clark Middleton, Lindsay Duncan, Catherine Peppers, Bill Camp, Joel Marsh Garland

Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), EUA/Canadá, Drama, 119 minutos

Sinopse: No passado, Riggan Thomson (Michael Keaton) fez muito sucesso interpretando o Birdman, um super-herói que se tornou um ícone cultural. Entretanto, desde que se recusou a estrelar o quarto filme com o personagem sua carreira começou a decair. Em busca da fama perdida e também do reconhecimento como ator, ele decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Entretanto, em meio aos ensaios com o elenco formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis) e ainda uma estranha voz que insiste em permanecer em sua mente. (Adoro Cinema)

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Folheava as últimas crônicas de Sete Anos escritas por Fernanda Torres durante minha ida ao trabalho no dia em que conferiria Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Falando sobre o falecimento de Dercy Gonçalves, Fernandinha disse que veio dela o maior elogio que já recebeu na vida. “Tive a honra de tê-la na plateia de A Casa dos Budas Ditosos. Na saída, ela me disse que eu havia entendido que um ator não pode representar. ‘Ele deve ser’, afirmou ela. Ser ou não ser. Foi o maior elogio que eu já recebi”, conta. Voltando algumas páginas, porém, encontramos, em No Dorso Instável de Um Tigre, uma longa e prazerosa reflexão da autora sobre qual o verdadeiro ofício do ator. Ela afirma que um intérprete não teme o palco ou a plateia e sim perder o sentido da profissão. Que razão há em fingir ser ou outro? Ou melhor, como bem pergunta o primeiro ato de Hamlet, quem está aí? Que feliz coincidência do destino ter lido as reflexões de Fernanda Torres horas antes de Birdman. Afinal, tudo o que ela escreveu também está, com uma com grande escalada de genialidade e inovação, neste novo filme do mexicano Alejandro González Iñárritu. São duas obras que se complementam com perfeição.

Quem está aí, afinal? Birdman, o icônico super-herói de uma trilogia bilionária de décadas atrás ainda lembrada por público e crítica, ou simplesmente Riggan Thomson, ator que nunca conseguiu provar ser um verdadeiro ator depois desse personagem marcante e que hoje tenta reerguer a carreira com uma peça de teatro que ele próprio dirige, produz e protagoniza? Independente da resposta, o mais brilhante de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é a busca interior do protagonista por essa resposta. Ao longo de quase duas horas, o personagem vivido por Michael Keaton, contando os dias para a estreia de seu espetáculo, encontrará em cada situação e em cada conversa alguma reflexão que o induzirá a tal pergunta. Quem está aí? Mais do que isso, seria sua peça de teatro uma vaidade para mostrar à crítica de que ele realmente tem alguma relevância? Seria uma jornada pessoal para ele próprio se livrar da sombra de Birdman? Ou um auto-convencimento de que ele, talvez, apesar de várias tentativas, será sempre apenas aquele super-herói de cifras estratosféricas?

Se logo no início Alejandro González Inárritu nos faz crer que Birdman será um filme excessivamente teatral, seja em termos de texto ou da forma como realmente estrutura seu filme, logo a teoria vai por água abaixo com uma obra que só evolui cinematograficamente e que dá conta por completo de todo o mosaico de personagens e dilemas que desenvolve ao longo da trama. Não é só o Birdman/Riggan Thomson de Keaton que terá seus dramas esmiuçados, mas também a atriz interpretada por Naomi Watts que estará na Broadway pela primeira vez, o instável ator de Edward Norton que acaba se tornando o grande atrativo da peça em questão e a filha de Thomson que ainda está se acostumando com sua vida após uma temporada em uma clínica de reabilitação. Mesmo Amy Ryan, como a ex-esposa do protagonista, está repleta de nuances em suas breves duas cenas. Por isso, Birdman pode até ser sobre os bastidores de uma peça de teatro, uma crítica à indústria do cinema e um relato sobre arte e o fazer dela, mas também é um filme bem sucedido quando passa a falar sobre jornadas pessoais. E é no mínimo surpreendente saber que a precisão do roteiro vem de nada menos do que quatro cabeças (dando uma aula ao também recente Invencível, que reunia o mesmo número de roteiristas em um resultado quase desastroso).

Construído todo a partir de admiráveis planos-sequência (que, dizem, às vezes desviam a atenção da história), o longa de Iñárritu só ganha pontos com essa escolha. Além de trazerem um realismo único para o conjunto, explorando toda uma fluidez e intimidade com os personagens, os planos também são obviamente uma chance extra para os atores brilharem. O diretor mexicano nunca esteve tão inventivo e ambicioso, com ideias muitíssimo bem planejadas e executadas, além de seguro para orquestrar cada detalhe sem que Birdman se torne uma experiência pretensiosa. Iñárritu sempre foi ótimo diretor de atores (aqui não é diferente), mas nunca entregou uma obra tão completa em temática e técnica como essa. É o auge de sua carreira. Dos meros bastidores de um teatro às calçadas da Times Square, sua câmera, aliada a uma ótima fotografia de Emmanuel Lubezki e a uma trilha difícil mas inovadora de Antonio Sanchez, está sempre surpreendendo, do primeiro a ao último plano (o final com Emma Stone na janela é excepcional).

Mais do que toda a metalinguagem envolvendo o protagonista e o próprio Michael Keaton, Birdman tem momentos realmente emocionantes que são resultado de toda essa beleza vinda da precisão de Inárritu atrás das câmeras. A cena em que Riggan Thomson sai voando por Nova York é um deles. Fora isso, o elenco, em plena harmonia, dá o tom certo para cada personagem. Aliás, são todos personagens que procuram não a razão que existe em fingir ser o outro, mas a razão que existe em ser eles mesmos, em especial quando estão fora do palco. Quando não estão em cena, os personagens de Birdman se perdem. Mas talvez o filme de Iñárritu seja mesmo sobre libertação. Dos palcos, da vida, desse medo de procurar tanto ser alguém e esquecer de ser fiel a sua própria identidade. Quem está aí, afinal? Tomara que Fernanda Torres tenha gostado dessa obra-prima.

Oscar 2015: melhor atriz coadjuvante

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Entre as categorias de atuação, esta é certamente a mais fraca de 2015. Nenhum desempenho memorável está listado aqui e é muito claro o porquê de Patricia Arquette ser a favorita por seu desempenho em Boyhood: Da Infância à Juventude. Excetuando merecimentos (que serão comentados abaixo), seria muito improvável qualquer uma das outras concorrentes vencer, seja pelo número de estatuetas em casa (Meryl Streep nunca ganharia um quarto prêmio tão cedo, independente do papel) ou pelo timing (Emma Stone, uma atriz de comédias, ainda tem muito o que provar para ser consagrada a esse nível). Já Arquette vem de uma carreira tímida, finalmente se revelando com um papel agradável em um dos filmes mais badalados do ano. É fácil simpatizar com ela e sua personagem repleta de transformações ao longo da história.

Entretanto, assim como a própria situação de Boyhood, é estranho ver a Academia celebrando tão decididamente um estilo de interpretação que normalmente não é festejado. Foram inúmeras as atrizes preteridas e subestimadas pelo prêmio em função de seus papeis sutis e contidos. Se em 2013 os votantes preferiram a única cena avassaladora de Anne Hathaway em Os Miseráveis ao desempenho minucioso de Helen Hunt em As Sessões, por exemplo, fica complicado entender o porquê de agora terem mudado de ideia, especialmente em um ano em que todas as outras interpretações favoritas ao Oscar nas demais categorias refletem exatamente o que as premiações gostam de celebrar: deficiências, biografias e papeis viscerais.

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EMMA STONE (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)): É bom ver que Emma Stone conseguiu distinguir sua carreira cômica da dramática, não repetindo qualquer tique das comédias que lhe lançaram ao sucesso. A atriz deve ter apenas um momento mais notável em todo o longa (aquele em que discute com o pai), mas sua presença é sempre um ponto positivo em Birdman, mesmo nas passagens mas corriqueiras. Ainda assim, é estranho vê-la indicada aqui enquanto Naomi Watts, sua companheira de elenco, tem basicamente as mesmas proporções de chance e destaque. Seria muito mais justo ter as duas concorrendo na categoria.

LAURA DERN (Livre): Tem apenas oito minutos em cena durante um filme de quase duas horas e suas cenas são distribuídas de modo que nenhuma delas dura mais do que 90 segundos. E mesmo assim é a indicada que mais me encantou. Todo mundo sabe que Laura Dern é grande atriz e capaz de iluminar qualquer filme. Por isso, sua escolha é tão perfeita para o que o papel representa: as lembranças como ela de fato são na vida. Dern surge aos poucos, em momentos breves, em pequenas memórias. Ninguém guarda cenas completas como recordações, e sim pequenos carinhos, saudades isoladas, sensações de pura emoção e afeto. É pela compreensão de tudo isso que Laura Dern em Livre me comove tanto.

KEIRA KNIGHTLEY (O Jogo da Imitação): Tenho grandes problemas com Keira Knightley, uma atriz que sempre me pareceu muito careteira e repetitiva (particularmente não consigo perceber qualquer criação da atriz que diferencie as suas personagens de época, por exemplo), mas aqui ela ela está notavelmente controlada. Muita de toda simpatia que Keira conquista no espectador vem de sua personagem, uma jovem prodígia e muito a frente de seu tempo, mas ela também tem seus méritos nessa construção. Discreta e eficiente, é um dos aspectos mais positivos dessa biografia que, assim como A Teoria de Tudo, não passa do nível convencional agradável. 

MERYL STREEP (Caminhos da Floresta): Dificilmente qualquer outra atriz que fizesse exatamente o mesmo papel seria indicada, mas esse é um dos benefícios de ser Meryl Streep. A Bruxa de Caminhos da Floresta está longe de figurar entre os papeis mais marcantes da atriz, mas o ano permite a lembrança em função do nível mediano de indicadas. Meryl tem pelo menos dois momentos bastante especiais: o de pura emoção em Stay With Me e o de fazer todo um elenco ficar parado observando seu talento em Last Midnight. Com humor e a devida malícia, a primeira bruxa da carreira de Meryl Streep é o ponto alto de um filme profundamente decepcionante.

PATRICIA ARQUETTE (Boyhood: Da Infância à Juventude): Sou grande fã do estilo de interpretação que Patricia Arquette representa em Boyhood. Menos é sempre mais e essa é certamente a lógica que Richard Linklater adotou em seu mais novo projeto. O problema é que Boyhood não dá um material lá muito interessante para Arquette desenvolver algo marcante. É quase primário, por exemplo, o seu drama de mãe que foge do marido abusivo (a pior parte do filme). Para realmente merecer alguma coisa, deveria ter mais passagens sinceras e tocantes como a em que fez um retrospecto de sua vida ao se despedir do filho. Do jeito que ficou, o menos de Arquette aqui é quase nada.

Na TV… “Transparent” e a verdadeira família moderna

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“Este sou eu”. Em Transparent, primeira série da Amazon, Jeffrey Tambor vive um pai de família que assume para a família a sua vida transgênera.

Ao vencer o Globo de Ouro 2015 de melhor série cômica (uma classificação de gênero um tanto questionável, diga-se de passagem), Transparent foi saudada como mais um marco nas revoluções envolvendo a produção de seriados. O programa criado por Jill Solloway está para a Amazon assim como House of Cards está para a Netflix. Ou seja, não é exibido originalmente na TV e nos mostra como é amplo o número de plataformas onde pode existir a realização de audiovisual atualmente. Não podemos negar a mudança desse panorama e muito menos o fato de Transparent ter novamente suscitado nossa atenção para este mercado, mas, na realidade, o principal parece ter ficado em segundo plano: a história estrelada por Jeffrey Tambor (também vencedor do Globo de Ouro por seu desempenho) coloca valiosíssimas questões envolvendo sexualidade e transgeneridade em pauta, mostrando como são realmente constituídas as verdadeiras famílias modernas dos dias de hoje.

Discussões como o fato de um homem mais velho ser casado com uma mulher décadas mais jovem, um estadunidense pedir uma latina em casamento ou um casal gay entrar com os papeis de um pedido de adoção já são ultrapassadas. Precisamos avançar no que é mostrado na dramaturgia. E Transparent o faz com uma sutileza rara. A premissa é bastante simples: o pai de família (Tambor) que, após anos vivendo uma vida que claramente não era a sua, resolve assumir para a família que há anos se veste secretamente como mulher. Não, ele não quer trocar de sexo. Também não passou a gostar de homens. Morton, agora Maura, simplesmente se sente melhor circulando com apliques no cabelo, vestidos, aneis, brincos, maquiagens e unhas pintadas. Simples assim. A partir de sua revelação, a série acompanha todos os efeitos que a mudança surte no clã dos Pfeffermans. Para não estragar as gratas surpresas, não citarei nomes, mas é lindo ver a filha assumindo sua longa paixão com uma mulher após ser de certa forma inspirada pela coragem do pai ou simplesmente a que, totalmente desprovida de julgamentos, acha o máximo ir a um shopping comprar roupas e perfumes com a sua mais nova “mãe”.

Em programas mais convencionais, a mudança de Maura resultaria em infinitos episódios onde uma família seria plenamente desestabilizada pela revelação e personagens passariam por crises existenciais intermináveis. Transparent não se exime de mostrar a confusão de algumas figuras, mas usa este turbilhão de questões com outros propósitos: certo personagem, por exemplo, chega inclusive a ter despertada uma grande curiosidade pelo universo transgênero, procurando, até mesmo em relações sexuais, uma resposta para as suas próprias indagações físicas e sentimentais. Não é apenas um choro aqui e outro lá. Ver um pai de família abandonando os hábitos masculinos não é necessariamente o fim do mundo para os personagens de Transparent. É, na realidade, uma chance para que eles se tornem mais generosos e humanos em relação ao próximo – e também mais suscetíveis a se darem o benefício da dúvida. Quando Maura pergunta a um familiar em determinado momento como ele se sente em relação a sua nova vida, recebe a seguinte resposta: “Estou feliz por você ter se tornado quem realmente você sempre quis ser. Deveria ser assim com todo mundo”. E, nesta frase, está sintetizada toda a beleza singular do seriado.

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Transparent impulsionou a trajetória dos estúdios Amazon ao vencer o Globo de Ouro 2015 nas categorias de melhor série e ator de comédia/musical.

A trama de Transparent só poderia vir de alguém como Jill Solloway. Não só a criadora tem uma vasta experiência com dramas sobre pessoas comuns (esteve envolvida como produtora ou roteirista em mais de 30 episódios da excepcional Six Feet Under) como também se inspirou em sua própria viada para narrar a vida da família Pfefferman: dois anos atrás, na vida real, o pai de Solloway se assumiu para a família exatamente como o protagonista de Transparent, fazendo com que ela passasse a encarar o mundo de uma outra forma. Uma história biográfica, então. E talvez somente ela, tão próxima de uma situação como essa, pudesse narrar com tanta sutileza a jornada de aceitação dos personagens e também as próprias evoluções do protagonista. Em um misto de comédia e drama, Solloway, porém, não cambaleia no balanço entre os dois gêneros: ela sabe muito bem a hora certa de extrair humor de uma situação ou até que ponto deve explorar os dramas de determinados personagens. Não existem excessos em Transparent.

Por mais que seja um seriado sobre a universalização de importantes temas, Transparent, contudo, não é uma série necessariamente popular. Mas, por trás da leveza dos episódios e da extrema discrição do texto, existem situações muito belas, daquelas em que a lógica de que pequenos momentos podem também ser grandes prevalece. O auge desta primeira temporada de dez episódios encomendada pela Amazon é, sem dúvida, o episódio Best New Girl, dirigido pela própria Jill Solloway. Nele, acompanhamos o momento em que, pela primeira vez, Morton foi Maura em um local onde isso não era problema algum. Ainda que o capítulo acompanhe também um recorte da vida dos filhos e apresente diversas situações que os ajudaram a moldar suas respectivas personalidades, é no olhar encantado de Maura em uma festa ou a sua naturalidade em finalmente poder transitar livremente de salto alto sem julgamentos que Best New Girl alcança uma beleza singular.

Com um elenco altamente entrosado, Transparent consegue dar ainda mais verossimilhança ao seu enredo por meio dos atores. Da naturalidade de Amy Landencker interpretando a filha mais interessante e melhor explorada ao bom humor de Judith Light como a mãe de família que foge totalmente dos padrões vistos em seriados, não existe, no entanto, quem supere o show de Jeffrey Tambor. Conseguindo se libertar de qualquer efeito colateral de sua carreira cômica (foram cerca de 60 episódios de Arrested Development ao longo de dez anos), Tambor encontra o tom ideal para a sua Maura Pfefferman. Intenso na hora de um confronto (a briga com a filha Ali no último episódio é o seu ponto alto nesse sentido), mas econômico e eficiente quando precisa comunicar tudo com uma simples expressão ou olhar (impossível não se comover com a sua apresentação em The Symbolic Exemplar), o ator compreendeu sua personagem em corpo, mente e espírito. Mesmo que algumas construções de personagens se mostrem tortuosas, como a da filha Ali – que, com o passar dos episódios, se torna facilmente a figura menos interessante do clã -, e que certas dinâmicas não rendam resultados muito instigantes (Josh com a tal rabina), nada, porém, remete ao clichê, ao forçado ou muito menos ao desnecessário. Transparent, em sua simplicidade, realmente é uma preciosidade. Estávamos precisando de uma série sobre todos nós. Confira o trailer da primeira temporada: