Cinema e Argumento

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2015

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Preparados para mais uma temporada de premiações sem grandes surpresas? Pois é isso o que indica a lista divulgada hoje pelo Screen Actors Guild Awards, a primeira grande premiação a revelar seus indicados. Se na categoria principal a grande disputa está claramente entre os elencos de Birdman Boyhood (com uma leve vantagem do primeiro), também nada é muito misterioso entre os outros indicados. A lista serviu mais para algumas confirmações, como Steve Carell (Foxcatcher) e Meryl Streep (Caminhos da Floresta) superando papeis que normalmente não são indicados (no caso de Meryl uma bruxa horrorosa que canta em um conto de fadas!) e currículos normalmente esnobados oros prêmios (Carell, vindo da comédia e principalmente da TV).

As surpresas ficam por conta de A Teoria de Tudo em melhor elenco (nunca subestime o poder de uma biografia! – até porque essa parece ótima), Robert Duvall em ator coadjuvante por O Juiz (SAG sempre indica um veterano que ninguém esperava), Naomi Watts como atriz coadjuvante por Um Santo Vizinho (pesquisei um pouco sobre o filme e sinceramente não sei bem como ela veio parar aqui) e Jennifer Aniston finalista em melhor atriz por Cake (mais uma que superou o preconceito por sua carreira cômica televisiva). Particularmente, fiquei bastante contente com a lembrança de Rosamund Pike (Garota Exemplar), que poderia não entrar pelo papel difícil e atípico para prêmios. Por outro lado, bate a decepção pelo esquecimento de Laura Dern, ótima em Livre.

Já na TV, há pouco o que dizer, já que as premiações não parecem acompanhar a genialidade de novos programas que invadem as grades das emissoras. Não sei quem ainda aguenta Modern Family e The Big Bang Theory em tempos que séries cômicas excepcionais como Getting On dão um banho de qualidade. Ou, então, que indicassem Transparent, onde Jeffrey Tambor interpreta com notável sutileza um pai de família que, depois de velho, resolve assumir para a família seu lado travesti. Também é triste ver que ainda não superaram Homeland quando The Good Wife tem o melhor elenco atualmente de um drama na TV aberta. Pouco inventiva essa lista do SAG. Mas cá estamos mais uma vez para outra divertida maratona de apostas e bolões. A cerimônia de premiação do SAG acontece no dia 25 de janeiro.

MELHOR ELENCO
Birdman
Boyhood: Da Infância à Juventude
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
A Teoria de Tudo

MELHOR ATOR
Benedict Cumberbatch (O Jogo da Imitação)
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
Jake Gyllenhaal (O Abutre)
Michael Keaton (Birdman)
Steve Carell (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)

MELHOR ATRIZ
Felicity Jones (A Teoria de Tudo)
Jennifer Aniston (Cake)
Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Reese Witherspoon (Livre)
Rosamund Pike (Garota Exemplar)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Edward Norton (Birdman)
Ethan Hawke (Boyhood: Da Infância à Juventude)
J.K. Simmons (Whiplash: Em Busca da Perfeição)
Mark Ruffalo (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)
Robert Duvall (O Juiz)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Emma Stone (Birdman)
Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
Meryl Streep (Caminhos da Floresta)
Naomi Watts (Um Santo Vizinho)
Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)

MELHOR ELENCO DE SÉRIE DRAMA
Boardwalk Empire
Downton Abbey
Game of Thrones
Homeland
House of Cards

MELHOR ATOR EM SÉRIE DRAMA
Kevin Spacey (House of Cards)
Matthew McCounaghey (True Detective)
Peter Dinklage (Game of Thrones)
Steve Buscemi (Boardwalk Empire)
Woody Harrelson (True Detective)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DRAMA
Claire Danes (Homeland)
Juliana Margulies (The Good Wife)
Maggie Smith (Downton Abbey)
Robin Wright (House of Cards)
Tatiana Maslany (Black Orphan)
Viola Davis (How to Get Away With Murder)

MELHOR ELENCO DE SÉRIE COMÉDIA
The Big Bang Theory
Brooklyn Nine-Nine

Modern Family
Orange is the New Black
Veep

MELHOR ATOR EM SÉRIE COMÉDIA
Eric Stonestreet (Modern Family)
Jim Parsons (The Big Bang Theory)
Louis C.K. (Louie)
Ty Burell (Modern Family)
William H. Macy (Shameless)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE COMÉDIA
Amy Poehler (Parks and Recreation)
Edie Falco (Nurse Jackie)
Julia Louis-Dreyfus (Veep)
Julie Bowen (Modern Family)
Uzo Aduba (Orange is the New Black)

MELHOR ATOR EM TELEFILME/MINISSÉRIE
Adrien Brody (Houdini)
Billy Bob Thornton (Fargo)
Benedict Cumberbatch (Sherlock: His Last Vow)
Mark Ruffalo (The Normal Heart)
Richard Jenkins (Olive Kitteridge)

MELHOR ATRIZ EM TELEFILME/MINISSÉRIE
Cicely Tyson (The Trip to Bountiful)
Ellen Burstyn (O Jardim dos Esquecidos)
Frances McDormand (Olive Kitteridge)
Julia Roberts (The Normal Heart)
Maggie Gyllenhaal (The Honorable Woman)

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1

It’s the things we love most that destroy us.

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Direção: Francis Lawrence

Roteiro: Danny Strong e Peter Craig, com adaptação de Suzanne Collins, baseado no livro “Mockingjay”, de Suzanne Collins

Elenco: Jennifer Lawrence, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Liam Hemsworth, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Josh Hutcherson, Jeffrey Wright, Stanley Tucci, Woody Harrelson, Willow Shields

The Hunger Games: Mockingjay – Part 1, EUA, 2014, Aventura, 123 minutos

Sinopse: Após ser resgatada do Massacre Quaternário pela resistência ao governo tirânico do presidente Snow (Donald Sutherland), Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) está abalada. Temerosa e sem confiança, ela agora vive no Distrito 13 ao lado da mãe (Paula Malcomson) e da irmã, Prim (Willow Shields). A presidente Alma Coin (Julianne Moore) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) querem que Katniss assuma o papel do tordo, o símbolo que a resistência precisa para mobilizar a população. Após uma certa relutância, Katniss aceita a proposta desde que a resistência se comprometa a resgatar Peeta Mellark (Josh Hutcherson) e os demais Vitoriosos, mantidos prisioneiros pela Capital. (Adoro Cinema)

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O salto de qualidade que Jogos Vorazes: Em Chamas deu em relação ao primeiro filme foi fundamental para que eu finalmente conseguisse embarcar na história de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence). Se do primeiro filme para o segundo as minhas expectativas eram baixíssimas, o oposto aconteceu entre Em ChamasA Esperança – Parte 1, mesmo sabendo que este novo filme dirigido por Francis Lawrence poderia ser prejudicado pela nova moda de dividir últimos capítulos de franquias. Quem, assim como eu, se entusiasmou com o longa anterior, é bom conferir a primeira parte de A Esperança com as expectativas moderadas, já que o tom da saga muda completamente aqui e o resultado passa a trazer um novo tipo de abordagem para o universo da jovem Katniss.

Para começo de conversa, já fica dado o aviso: Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 sequer se passa dentro das arenas que tanto traziam tensão nos filmes anteriores (no meu caso, só no segundo capítulo). Todos os conflitos agora estão do lado de fora, onde a protagonista passa a ser a líder da revolução de seu distrito contra a repressora capital comandada pelo presidente Snow (Donald Sutherland). Mesmo com a mudança, a série continua mantendo a boa média impulsionada por Em Chamas, mas aqui  de forma bastante diferente, com um tom mais sóbrio em termos de ação e mais intenso em conflitos políticos e sociais. Desta forma, A Esperança – Parte 1 reduz a marcha para contextualizar uma guerra, um confronto de ideais. Ao mesmo tempo que ganha muitos pontos dramaticamente com tal escolha, também pode frustrar quem espera uma história tão movimentada quanto a dos outros filmes.

A divisão do capítulo final ajuda a trazer a sensação de um tom mais pausado, até porque o longa, às vezes, parece se repetir, reforçando os tradicionais problemas de uma obra de transição como essa. Ainda assim, impressiona como Jogos Vorazes mantem sua reputação e qualidade mesmo com uma passagem menos movimentada e que se encontra em uma verdadeira enxurrada de adaptações de best sellers infanto-juvenis. A febre começou com Vorazes e muitos filmes foram produzidos desde então, mas, com A Esperança – Parte 1, fica a certeza de que nenhum chegou ao nível de seriedade e respeito que essa franquia em questão conquistou. Inclusive porque não é qualquer saga que traz Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman e Julianne Moore em papeis coadjuvantes bem aproveitados e com funções importantes na história.

O clima que se instala no segundo filme de Jogos Vorazes dirigido por Francis Lawrence é muito parecido com o que tomou conta dos últimos capítulos de Harry Potter no sentido de trazer um mundo cada vez mais confuso, perigoso e difícil para seus protagonistas. É certo que a guerra travada entre os distritos contra a capital aqui está mais na teoria do que na guerra propriamente dita (o que deve ficar para o próximo longa). Só que é fácil perceber grandes méritos como a  bem sucedida questão da construção de uma líder, a reinvenção de algumas figuras (Elizabeth Banks, agora controlada e abandonando o papel de boba da corte) e o sólido desenvolvimento dos personagens diante da nova situação quase desesperançosa.

A protagonista Jennifer Lawrence segue conduzindo muito bem a trama, especialmente aqui, quando a história lhe exige mais em termos dramáticos do que físicos. Ela tem total segurança frente a monstros da atuação como Moore e Hoffman – este segundo um pouco menos aproveitado agora, mas uma figura sempre envolvente (e a quem o filme é dedicado logo quando a tela escurece para os créditos finais). O problema no elenco ainda se concentra em Josh Hutcherson, que, no capítulo anterior, já era reduzido ao coadjuvante indefeso que só se machucava e atrasava a jornada dos outros. Seu personagem neste capítulo é a chave para desencadear diversas situações – especialmente no final -, mas ator e personagem continuam subutilizados proporcionalmente falando (são duas horas de duração onde Hutcherson deve aparecer apenas três ou quatro vezes).

Ademais, toda e qualquer falha que possa existir no filme de Francis Lawrence (que, lembremos, demonstra exímia segurança ao transitar da aventura para o drama sem cambalear nos tons empregados) deve ser perdoada, pois vem unica e exclusivamente da decisão comercial de dividir a parte final em dois capítulos. Se tudo der certo, o segundo capítulo deve concluir com chave de ouro o pensamento deste que, sim, funciona isoladamente, mas de forma menos eficiente. Resta saber, no entanto, o quanto de A Esperança – Parte 1 vai ficar na memória até a estreia da conclusão, que está programada para chegar aos cinemas apenas em novembro de 2015.

A vez de Julianne Moore (finalmente?)

Por Still Alice, Julianne Moore deve finalmente receber o reconhecimento que há anos merece nas premiações

Por Still Alice, Julianne Moore deve finalmente receber o reconhecimento que há anos merece nas premiações de cinema

Fora Glenn Close, não deve existir atriz mais injustiçada pelas premiações de cinema do que Julianne Moore. Muito se fala em Amy Adams atualmente (o que é errado, já que, apesar das várias indicações, ela nunca teve um grande papel ou momento em que merecia levar todas as estatuetas possíveis), mas não existe intérprete mais respeitada, querida, trabalhadora e talentosa que ainda não tem um Oscar em casa como Julianne Moore. Se Kate Winslet já fez as pazes com o Oscar anos atrás e Glenn Close parece ter saído do circuito dos bons filmes há anos para ter maiores chances, resta apenas Moore para a Academia finalmente quitar uma grave dívida. E, ao que tudo indica, a coroação já parece garantida para 2015 com Still Alice.

Não gosto de fazer afirmações categóricas com muita antecipação, mas, assim como Cate Blanchett ano passado, tudo indica que, sim, Julianne Moore é disparada a favorita para a próxima temporada de premiações na categoria de melhor atriz. Não era até pouco tempo atrás, mas bastou Still Alice estrear no Festival de Toronto para a atriz ser ovacionada e despontar como a grande aposta para uma categoria que até então só tinha como favoritas nomes já consagrados como Hilary Swank (The Homesman) e Reese Witherspoon (Livre). De lá para cá, as críticas positivas para o desempenho de Moore se tornaram constantes e recentemente a atriz já foi indicada ao Independent Spirit Awards (que ano passado também premiou Blanchett), faturou o National Board of Review e teve anunciada uma homenagem no festival de Palm Springs para janeiro.

Vale lembrar que Still Alice por si só já carimba Julianne Moore como pelo menos uma candidata de respeito aos prêmios. A razão é muito simples: o filme da dupla Wash Westmoreland e Richard Glatzer é sobre uma professora de letras precocemente diagnosticada com Alzheimer na faixa de seus 50 anos. Sim, Alzheimer. Todos nós sabemos como os votantes de qualquer prêmio adoram uma enfermidade, não? Mas muito mais do que o filme em si, a circunstância está toda a favor da atriz: não é apenas o ano fraco para as intérpretes femininas que está ao seu lado, mas também o notável renascimento de sua carreira nos últimos anos.

Celebrada em Cannes com Mapa Para as Estrelas (ela agora tem a trinca dos festivais de cinema mais importantes do mundo: Berlim por As Horas, Veneza por Longe do Paraíso e agora Cannes por Mapa), Julianne Moore parece estar em todos os cantos. No início de 2014 participou do razoável suspense Sem Escalas ao lado de Liam Neeson, recentemente chegou aos cinemas com o furacão comercial Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 e futuramente ainda vai para as salas de cinema com a fantasia O Sétimo Filho. Natalie Portman sabe bem como estar em tantos filmes ajuda em uma campanha (na época de Cisne Negro ela também estrelava Entre Irmãos Sexo Sem Compromisso). Uma lógica que também deve ajudar Moore na campanha ao Oscar.

Impossível não mencionar ainda que, na bagagem da atriz, está uma recente e bem sucedida passagem pela TV. Como a republicana Sarah Palin no excelente telefilme Virada no Jogo, da HBO, Moore ganhou todos os prêmios da temporada, reforçando seu prestígio entre os colegas de profissão. E curiosamente é justamente nas premiações de cinema (ou mais especificamente na falta delas) que a atriz carrega sua maior força para possível consagração com Still Alice. Afinal, são quatro derrotas no Oscar onde duas delas poderiam ter sido facilmente evitáveis. Em termos de merecimento, seria extremamente justo premiá-la duplamente por As HorasLonge do Paraíso em 2003. Ou, então, logo em sua primeira indicação por Boogie Nights em 1998. O caso mais grave, obviamente, é o de As Horas, onde perdeu para Catherine Zeta-Jones em Chicago.

As injustiças em prêmios, porém, vão muito além das indicações sem vitória. Foram diversas as vezes que Julianne Moore merecia ter concorrido ao Oscar e sequer chegou entre as finalistas. No início dos anos 1990, a lembrança já deveria ter vindo por Short Cuts – Cenas da Vida. Depois por Magnólia em 1999. Em 2008, talvez, por Ensaio Sobre a Cegueira? E com certeza absoluta em 2010 pelo lindo momento que compartilhou com Colin Firth em Direito de Amar e também em 2011 por Minhas Mães e Meu Pai (onde está, inclusive, melhor que a sua companheira indicada Annette Bening). Engana-se, porém, quem pensa que a dívida é apenas do Oscar: Julianne Moore sequer tem um Globo de Ouro, um SAG ou um BAFTA por desempenho em cinema. Simplesmente inacreditável.

Obviamente sua carreira teve um grande momento de baixa nos anos 2000. Foram inúmeros os abacaxis como Totalmente ApaixonadosA Cor de Um Crime O Vidente. Ou, então, a participação em filmes que prometiam e terminavam decepcionando, a exemplo de Pecados Inocentes, onde ela era a mãe de Eddie Redmayne, também um dos favoritos ao próximo Oscar por A Teoria de Tudo. Mas o talento falou mais alto, Julianne Moore aos poucos se reergueu e, apesar dos desvios de percurso, voltou aos trilhos. Este ano mais do que nunca. Com Still Alice, parece estar com o filme certo na hora certa. E eu não vejo a hora de aplaudir o reconhecimento a esta atriz tão singular e especial. Um momento muito aguardado que só não deve acontecer caso alguém resolva fazer uma macumba poderosa. Mas quem faria isso para uma atriz tão maravilhosa como ela?

Grace: A Princesa de Mônaco

The idea of my life as a fairytale is itself a fairytale.

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Direção: Olivier Dahan

Roteiro: Arash Amel

Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Paz Vega, Parker Posey, Milo Ventimiglia, Derek Jacobi, Geraldine Somerville, Nicholas Farrell, Robert Lindsay, Olivier Rabourdin, Roger Ashton-Griffiths, Jeanne Balibar

Grace of Monaco, EUA/França/Bélgica/Itália/Suíça, 2014, Drama, 97 minutos

Sinopse: O casamento de Grace Kelly (Nicole Kidman) e o príncipe Rainier III (Tim Roth) foi considerado um conto de fadas na vida real quando aconteceu, em 1956. Entretanto, cinco anos mais tarde e com dois filhos, a verdade é que Grace está insatisfeita com a vida no palácio e o distanciamento do marido. A chance de novamente sentir-se útil surge quando seu velho amigo, o diretor Alfred Hitchcock (Roger Ashton-Griffiths), a convida para retornar ao cinema como protagonista de seu próximo filme: “Marnie – Confissões de uma Ladra”. O problema é que Rainier é terminantemente contra e, ainda por cima, está envolvido com uma ameaça vinda do presidente francês Charles de Gaule (André Penvern): caso Mônaco não pague impostos à França e acabe com o paraíso fiscal existente, o principado será invadido em seis meses. Em meio às inevitáveis tensões, Grace e Rainier buscam resolver seus problemas tentando evitar que eles causem o divórcio. (Adoro Cinema)

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A própria Nicole Kidman declarou que Grace: A Princesa de Mônaco não é uma cinebiografia ou um documentário, mas sim uma busca da vulnerabilidade e humanidade da icônica atriz Grace Kelly. Só que, ao ver o primeiro corte do diretor Olivier Dahan, Harvey Weistein não gostou do que viu. Para que deixasse o filme ser distribuído, adiou o lançamento a fim de realizar mudanças, solicitou cortes e alterou vários pontos da estrutura proposta pelo diretor francês. A polêmica ganhou a mídia e o desgosto de Dahan pelo total controle do distribuidor em cima de seu filme foi escancarado para o mundo inteiro. Dahan deve ter suas razões porque, conferindo este resultado final que abriu o último Festival de Cannes ao som de vaias, fica a impressão de que se, para Weinstein, esta é a versão que merece chegar aos cinemas, é bem provável seus conceitos sobre o que é um bom filme sejam bem questionáveis. Essa sensação vem à tona porque Grace: A Princesa de Mônaco é tão decepcionante, sem personalidade e vazio quanto outra recente cinebiografia: Diana, que, ao invés de ser o tão esperado Oscar de Naomi Watts, revelou-se um filme conceitualmente errado em todos os sentidos.

A verdade é que não tem dado muito certo essa história de “humanizar” figuras históricas. Ao mesmo tempo em que realizadores tentam se esquivar das já fatigadas e quadradas fórmulas de biografias, os resultados apostam em um caminho nobre mas que até agora não foi executado de maneira envolvente. Grace até consegue reconstruir o ícone Grace Kelly, só que é insosso nos dramas pessoais da atriz, além de desinteressante na forma como apresenta seus questionamentos. O recorte escolhido já não é um dos mais interessantes: o início dos anos 1960, quando Grace havia abdicado da carreira de intérprete para se dedicar ao marido, príncipe de Mônaco. Usando como pano de fundo os conflitos com o estadista francês Charles de Gaulle, o longa de Dahan (ou de Weinstein?) opta erroneamente por dedicar boa parte de sua atenção à política, desviando-se da proposta de ser um retrato de uma mulher que, apesar da vida cheia de glamour, tinha problemas iguais aos nossos.

Se a disputa política fosse de certa forma uma influência dramática interessante na vida de Grace Kelly, a produção ganharia contornos realmente complexos. Porém, tanta atenção ao assunto resulta como tempo perdido e a política sempre fica longe de atrair o espectador. Paralelo a isso, o roteiro de Arash Amel traz uma leitura quase machista da vida de uma mulher que anseia voltar ao cinema mas que desiste de uma proposta de ouro (trabalhar novamente com Hitchcock!) para colocar os interesses do marido frente aos dela. Talvez fosse assim na vida mesmo, mas Grace – que logo em sua abertura diz ser um relato ficcional de uma história real -, mostra as desistências da protagonista de forma tão rasa e entediante que a relação dela com o marido resulta apenas inverossímil. Todas estas situações ainda são sublinhadas por uma trilha extremamente invasiva de Christophe Gunning – que é, de longe, um dos piores aspectos do filme.

Nicole Kidman há tempos não recebia uma responsabilidade como essa: protagonizar a cinebiografia de uma figura icônica e ser dirigida por um profissional que anos atrás revelou uma grande atriz ao mundo (a francesa Marion Cotillard). E o curioso aqui é que Nicole se esforça e tem bom resultado, mas contra a sua interpretação está o fator beleza. Grace Kelly tinha uma aparência singular. Só que Nicole também tem. Ou seja, ao mesmo tempo em que os closes de Olivier Dahan e o endeusamento da protagonista evidenciam uma mulher belíssima, em momento algum ela chega perto de ser… Grace Kelly! Nós vemos uma Nicole Kidman esbanjando beleza, não Grace Kelly. Escolher uma beleza forte para emular outra beleza forte não foi uma escolha acertada. Resumindo, nada é plenamente bem sucedido neste filme. Afinal, o que aconteceu com Dahan, que anos atrás realizou Piaf – Um Hino ao Amor, uma das biografias mais completas e relevantes dos últimos anos? Se ele quer se especializar em contar histórias de pessoas da vida real, é bom rever várias escolhas, já que Grace: A Princesa de Mônaco é fraco e decepcionante. Aqui no Brasil, pelo menos, não verá a luz do dia antes de 2015, mesmo já tendo rodado dezenas de países .

Na TV… o peso da amargura em “Olive Kitteridge”

Em Olive Kitteridge, Frances McDormand e Richard Jenkins são complementos perfeitos para personagens extremamente distintos

Em Olive Kitteridge, Frances McDormand e Richard Jenkins são complementos perfeitos para personagens extremamente distintos

Deve ser pesado estar na pele de Olive Kitteridge (Frances McDormand). Rígida professora de matemática e pessoa muito distante da imagem que temos de uma mãe, a personagem-título desta nova minissérie da HBO dirigida por Lisa Cholodenko (Minhas Mães e Meu Pai) não parece sentir felicidade em qualquer momento da vida. Nem o sensível marido ou um simples desconhecido que a abraça despertam em Kitteridge alguma sensibilidade. Quase antipática, ela pesa o ambiente com ácidas observações e uma visão pessimista do mundo. Tal abordagem seria um tremendo obstáculo para uma minissérie envolver o espectador. Só que, com uma protagonista muito bem justificada e uma Frances McDormand inspiradíssima, Olive Kitteridge acaba, de fato, fazendo jus a seu slogan de que nenhuma vida é simples.

Baseada no romance homônimo escrito por Elizabeth Strout em 2008 (vencedor do Pulitzer no ano seguinte), a minissérie dirigida por Cholodenko começa de forma interessante, mostrando a protagonista já envelhecida, com uma arma em punho e prestes a se matar. Eis que, na sequência, retrocedemos e vemos uma Olive muito mais jovem, casada com um farmacêutico e mãe de um garoto que estuda na mesma escola onde leciona. A partir daí, são mostrados os 25 anos seguintes, a partir de um olhar bastante cotidiano da vida de uma mulher que, por diversas razões, não dá qualquer indício de ver prazer na vida. Só que PharmacyIncoming Tide, os dois primeiros episódios, são bastante estranhos porque cometem o erro de deixar Olive quase de escanteio para se focar em outros personagens que, sim, são interessantes, mas não a ponto de se igualarem à protagonista em termos de envolvimento e complexidade.

Neste tempo que Olive está quase como uma coadjuvante na trama, quem ganha pontos, obviamente, é o maravilhoso Richard Jenkins, um ator perfeito para papeis de homens comuns como o retratado aqui. Compreendendo por completo a linha tênue entre a bondade e a ingenuidade que existe em seu Henry, Jenkins segura, com sua habitual competência, os dois primeiros episódios, mesmo que sempre fique um tanto nebuloso (e não no bom sentido) o verdadeiro rumo da história. Já a partir da terceira parte, A Different Road, Olive Kitteridge entrega por completo o protagonismo a quem de fato pertence a minissérie e  se transforma por completo, dando as devidas chances para Frances McDormand e analisando minuciosamente como uma vida inteira de amargura pode, no final, se sobrepor impiedosamente nos ombros de alguém que preferiu viver com tal pessimismo.

Como a protagonista Olive Kitteridge, Frances McDormand tem a melhor chance de sua carreira em anos

Como a protagonista Olive Kitteridge, Frances McDormand tem a melhor chance de sua carreira em anos

Escrito por Jane Anderson, o roteiro de Olive Kitteridge, em suas duas partes finais, é certeiro ao explorar as consequências de uma vida vista e vivida com infelicidade. É certo que a protagonista nem sempre agia conscientemente (e o belo momento em que ela diz que não batia no filho deliberadamente só prova como a sua quase falta de emoções tem um longo histórico que desconhecemos e que a minissérie não precisa explicar), mas muitas das escolhas feitas com ciência por Kitteridge foram decisivas para o dia a dia solitário e sufocante que a protagonista passa a viver – e perceber – quando a história se encaminha para os seus momentos finais. No fundo, Olive é uma mulher de pensamentos desprovidos de maiores julgamentos (quando testada sobre a hipotética situação de seu filho ser gay, ela é categórica ao dizer que o amaria independente de qualquer coisa), mas criou uma carcaça tão dura e oposta ao marido gentil que nunca mais conseguiu se despir dela.

Os anos passam e Olive começa a pagar o preço por ter encarado a vida desta maneira. E é a partir desta fase, quando acompanha a protagonista já com cabelos brancos e tendo que se confrontar com ela própria, que Olive Kitteridge entrega momentos realmente preciosos. Não é só porque o roteiro de Anderson prefere não julgar o gênio difícil da personagem-título que o resultado impressiona, mas também porque não faz questão de facilitá-la para o espectador. A grande jogada, na realidade, é descobrir as sutis camadas que justificam todo e qualquer comportamento dessa figura que, se estivesse em nossas vidas, certamente nos empurraria para a total aversão. Nesta mesma sintonia está a fantástica performance de Frances McDormand, que há anos não tinha uma chance dramática como esta. Assim como a Jasmine de Cate Blanchett em Blue Jasmine ou a Violet de Meryl Streep em Álbum de Família, a difícil protagonista não é obstáculo para a atriz, que, assim como suas colegas mencionadas, é perfeita ao superar a antipatia de Olive e realmente impressionar o espectador.

Exibida no início de novembro em duas noites na HBO estadunidense, Olive Kitteridge ainda traz Bill Murray em uma participação que, apesar de ter um peso muito simbólico para os rumos da protagonista, é responsável por amortecer a visão frequentemente pessimista adotada por Anderson e Cholodenko. Não costumo ser muito fã desta escolha narrativa que, nos 45 do segundo tempo, resolve dar uma guinada na personagem – nem que seja de forma mais contida, como é o caso aqui – para de certa forma mostrar uma luz no fim do túnel antes dos créditos finais. Ainda assim, esta não é uma escolha que abala Olive Kitteridge, uma minissérie que começa estranha mas aos poucos se encontra – em especial no fascinante estudo de personagem e na atuação de McDormand, que já pode reservar um belo espaço em sua estante para os inúmeros prêmios que vai ganhar merecidamente na próxima temporada de premiações.