Cinema e Argumento

Os vencedores do Emmy 2015

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“A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar o Emmy por papeis que simplesmente não existem”. Viola Davis é a primeira mulher negra na história do Emmy a vencer na categoria de melhor atriz em série dramática.

Parece inacreditável, mas em 67 anos de história o Emmy nunca havia premiado uma atriz negra como protagonista no segmento dramático. Isso é reflexo, claro, de uma indústria ainda racista, o que foi dito com todas as letras por Viola Davis em seu vitorioso discurso por How to Get Away With Murder. “A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar o Emmy por papeis que simplesmente não existem”, disse a atriz. É fácil encontrar quem torça o nariz para a série (que, apesar do delicioso guilty pleasure que é, tem sim grandes fragilidades, especialmente no elenco), mas é emblemático o que ela faz. How to Get Away With Murder, como bem apontou sua protagonista, redefine o que é beleza, sensualidade e, principalmente, o que é ser uma mulher negra e protagonista na TV estadunidense. Viola é superlativa na série – e ainda mais fora dela. É um grande ser humano que mereceu quebrar uma barreira até então silenciosa da premiação.

Começo falando sobre a vitória de Viola Davis porque este foi o grande momento do Emmy 2015. Frequentemente surpreendente, a premiação ontem decepcionou por ser a mais previsível em muitos anos. Vale lembrar que não dá para confundir previsibilidade com falta de merecimento, mas o resultado foi cercado de questionamentos, especialmente no que se refere à consagração de Game of Thrones. Indiscutível sucesso de público e crítica, o programa simplesmente não vive um momento unânime, já que sua quinta temporada foi basicamente “ame ou odeie”. Foi curioso ver tantas estatuetas entregues ao seriado quando ele divide tantas opiniões e quando, principalmente, outros programas entregaram uma estabilidade muito maior, como Mad Men e House of Cards. Optaram por Game of Thrones em um acerto de contas aparentemente tardio e excessivo (ninguém entendeu muito bem o prêmio para Peter Dinklage como coadjuvante, por exemplo). Para Mad Men, sobrou apenas o prêmio de melhor ator para Jon Hamm, que felizmente não se juntou a Amy Poehler (Parks and Recreation), Frances Conroy (Six Feet Under), Hugh Laurie (House) e Steve Carell (The Office) como mais um ator indicado merecidamente centenas de vezes e nunca premiado.

Já entre as comédias a situação foi bem mais coerente com o que o binômio público/crítica vem celebrando nesta temporada. Assim como Game of Thrones, a ótima Veep só veio a ser consagrada agora, mas este está longe de ser um mero momento de compensação: o programa estrelado por Julia Louis-Dreyfus realmente está em uma fase brilhante, e o melhor: totalmente em sintonia com as inflamadas eleições que começam a tomar conta dos Estados Unidos. Tem quem reclame de um quarto prêmio consecutivo para Dreyfus como atriz ou de uma segunda vitória de Tony Hale como coadjuvante pela série, só que não há muito o que se discutir: ambos são atores sempre excelentes e que também submeteram episódios certeiros para avaliação. 

Veep, a primeira série de canal fechado a vencer a categoria principal de comédia desde Sex and the City, dividiu a atenção da noite com a igualmente ótima Transparent, que levou o prêmio de melhor ator para Jeffrey Tambor (possivelmente a consagração mais justa da noite) e de melhor direção para Jill Soloway. A noite para as comédias serviu ainda para fazer uma varredura completa em antigos vícios intermináveis do Emmy como Modern Family e The Big Bang Theory, séries que finalmente desapareceram da lista de vencedores. Enquanto isso, no segmento das minisséries, tivemos mais (justas) previsibilidades com o total domínio de Olive Kitteridge. Tenho problemas com as lembranças para Richard Jenkins e Bill Murray, dois grandes atores que só venceram por nome ou falta de opção, mas a verdade é que não havia muito a ser feito em suas listas. Confira abaixo os vencedores nas categorias de drama, comédia e minissérie/telefilme:

MELHOR SÉRIE DRAMA: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Veep
MELHOR MINISSÉRIE: Olive Kitteridge
MELHOR TELEFILME: Bessie
MELHOR DIREÇÃO DRAMA: David Nutter (Game of Thrones)
MELHOR DIREÇÃO COMÉDIA: Jill Solloway (Transparent)

MELHOR DIREÇÃO MINISSÉRIE/TELEFILME: Lisa Cholodenko (Olive Kitteridge)
MELHOR ROTEIRO DRAMA: David Benioff e D.B. Weiss (Game of Thrones)

MELHOR ROTEIRO COMÉDIA: Armando Iannucci, Simon Blackwell e Tony Roche (Veep)
MELHOR ROTEIRO MINISSÉRIE/TELEFILME: Jane Anderson (Olive Kitteridge)
MELHOR ATOR DRAMA: Jon Hamm (Mad Men)
MELHOR ATOR COMÉDIA: Jeffrey Tambor (Transparent)
MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Richard Jenkins (Olive Kitteridge)
MELHOR ATRIZ DRAMA: Viola Davis (How to Get Away With Murder)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep)
MELHOR ATRIZ MINISSÉRIE/TELEFILME: Frances McDormand (Olive Kitteridge)
MELHOR ATOR COADJUVANTE DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE COMÉDIA: Tony Hale (Veep)
MELHOR ATOR COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Bill Murray (Olive Kitteridge)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE DRAMA: Uzo Aduba (Orange is the New Black)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Regina King (American Crime)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE COMÉDIA: Allison Janney (Mom)

Quem serão os vencedores do Emmy 2015?

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Na sua quarta indicação consecutiva, Veep finalmente faturou o prêmio de melhor elenco cômico no Emmy. A vitória eleva as chances da série para a grande premiação do próximo domingo (20).

Sempre longe de ser previsível, o Emmy já trouxe algumas surpresas neste fim de semana, quando anunciou os vencedores do chamado Creative Arts, que lista os melhores entre categorias técnicas, atores convidados e elencos. Se Transparent parecia uma barbada entre as comédias (definição de gênero questionável, diga-se de passagem), sua soberania agora já pode ser contestada: pela primeira vez em quatro anos Veep faturou o prêmio de melhor elenco, reforçando a ideia de que a série é sim muito mais do que apenas a maravilhosa Julia Louis-Dreyfus – e não será surpresa alguma se Tony Hale e Anna Chlumsky se consagrarem como coadjuvantes na próxima semana também, quando os demais vencedores serão revelados, já que ambos submeteram episódios onde protagonizam cenas de absoluto brilho individual.

De qualquer forma, tanto Veep quanto Transparent são séries de alto nível. Pela definição de comédia e pela qualidade acentuada a cada temporada, seria mais justo Veep vencer, só que, pela relevância temática e por apontar para o caminho das novas plataformas de streaming, Transparent, que abriu os trabalhos da Amazon como produtora de conteúdo audiovisual, salta na frente. Ainda entre as comédias, Transparent levou um merecido prêmio de ator convidado para a sensível participação de Bradley Whitford no episódio Best New Girl (o melhor da temporada), trazendo mais uma derrota para Jon Hamm, que concorria por seu ótimo momento em Unbreakable Kimmy Schmidt. Já Joan Cusack foi a melhor atriz convidada por Shameless, derrotando candidatas de peso que estão com indicações duplas este ano, como Christine Baranski e Gaby Hoffman.

Nas categorias de drama, outras surpresas: Game of Thrones pela primeira vez faturou o prêmio de melhor elenco – e é no mínimo inusitada a vitória em um ano que o seriado dividiu opiniões e entregou aquela que é unanimemente a sua temporada menos interessante. A lembrança não é brincadeira: no ano em que Mad Men se despediu da TV e supostamente viria com força total para reinar novamente no Emmy, a derrota surge como um forte sinal para a grande premiação da semana que vem, especialmente quando Orange is the New Black vive um grande momento e outras séries veteranas e mais focadas em trabalhos de interpretação seguem sendo lembradas, como House of Cards, que faturou a categoria de melhor ator convidado para Reg E. Cathey. A sempre maravilhosa Margo Martindale foi a melhor interpretação feminina mo mesmo segmento por The Americans, desbancando a veterana Cicely Tyson (ótima como a mãe de Viola Davis em How to Get Away With Murder), que já havia perdido um Emmy no ano passado pelo telefilme O Regresso Para Bountiful.

Para o próximo domingo, apenas duas apostas parecem realmente fáceis: Jeffrey Tambor como melhor ator de comédia por seu sensível desempenho em Transparent e Viola Davis fazendo história como a primeira atriz negra a vencer na categoria por How to Get Away With Murder. Muitos querem crer que Jon Hamm (Mad Men) e Amy Poehler (Parks and Recreation) finalmente serão corados na premiação, mas vale lembrar que o Emmy não se comove com despedidas: Steve Carell (The Office), Hugh Laurie (House) e Frances Conroy (Six Feet Under) foram alguns dos atores indicados várias vezes – e reconhecidamente merecedores da estatueta – que nunca subiram ao palco para receber honrarias individuais.

Entre as surpresas possíveis, não subestimar a sexta indicação consecutiva de Christine Baranski como atriz coadjuvante em drama por The Good Wife (a série sempre teve uma de suas atrizes premiadas a cada temporada e ela é a única que não passou um ano sem ser lembrada), Niecy Nash entre as atrizes coadjuvantes de comédia por Getting On (seria uma daquelas pequenas surpresas da categoria ao estilo Kristin Chenoweth por Pushing Daisies e Merritt Wever por Nurse Jackie) e Ben Mendelsohn, ótimo em Bloodline e favorecido por uma fraude de categoria (ele é obviamente protagonista ao lado de Kyle Chandler e não coadjuvante como o programa vendeu e o Emmy comprou). E o que mais vai acontecer na grande noite de premiação do Emmy? Abaixo as nossas apostas:

MELHOR SÉRIE DRAMA: Mad Men / alt: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Transparent / alt: Veep
MELHOR MINISSÉRIE: Olive Kitteridge / alt: American Horror Story: Freak Show

MELHOR ATOR DRAMA: Kevin Spacey (House of Cards) / alt: Jon Hamm (Mad Men)
MELHOR ATOR COMÉDIA: Jeffrey Tambor (Transparent) / alt: William H. Macy (Shameless)
MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME: David Oyelowo (Nightingale) / alt: Adrien Brody (Houdini)
MELHOR ATRIZ DRAMA: Viola Davis (How to Get Away With Murder) / alt: Taraji P. Henson (Empire)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep) / alt: Amy Poehler (Parks and Recreation)
MELHOR ATRIZ MINISSÉRIE/TELEFILME: Frances McDormand (Olive Kitteridge) / alt: Queen Latifah (Bessie)
MELHOR ATOR COADJUVANTE DRAMA: Ben Mendelsohn (Bloodline) / alt: Jonathan Banks (Better Call Saul)
MELHOR ATOR COADJUVANTE COMÉDIA: Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt) / alt: Tony Hale (Veep)
MELHOR ATOR COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Bill Murray (Olive Kitteridge) / alt: Michael Kenneth Williams (Bessie)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE DRAMA: Christine Baranski (The Good Wife) / alt: Uzo Aduba (Orange is the New Black)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Sarah Paulson (American Horror Story: Freak Show) / alt: Mo’Nique (Bessie)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE COMÉDIA: Niecy Nash (Getting On) / alt: Anna Chlumsky (Veep)

Love

Show me how tender you can be.

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Direção: Gaspar Noé

Roteiro: Gaspar Noé

Elenco: Karl Glusman, Aomi Muyock, Klara Kristin, Juan Saavedra, Vincent Maraval, Benoît Debie, Isabelle Nicou, Stella Rocha, Déborah Révy, Gaspar Noé, Xamira Zuloaga

França/Bélgica, 2015, Drama, 134 minutos

Sinopse: Murphy (Karl Glusman) está frustrado com a vida que leva, ao lado da mulher (Klara Kristin) e do filho. Um dia, ele recebe um telefonema da mãe de sua ex-namorada, Electra (Aomi Muyock), perguntando se ele sabe onde ela está, já que está desaparecida há meses. Mesmo sem a encontrar há anos, a ligação desencadeia uma forte onda saudosista em Murphy, que começa a relembrar fatos marcantes do relacionamento que tiveram. (Adoro Cinema)

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Nascido nos Estados Unidos, Murphy (Karl Glusman) está em Paris estudando cinema. Sua vontade como cineasta é fazer filmes sobre três coisas que, para ele, são as mais essenciais da vida: lágrimas, sangue e esperma. Esse não deixa de ser um resumo do cinema de Gaspar Noé, um diretor sempre cru e provocador, mas também da ideia de como somos guiados – para ou bem ou para o mal – pelos nossos instintos mais primitivos. Violência impactante já tivemos de sobra em Irreversível (obra que até hoje não tive estômago para rever), e agora, com Love, Noé se dedica a levar o sexo ao seu estado mais explícito – ainda que, na realidade, este seja um filme muito mais sobre lágrimas.

Não há dúvidas: Love foi feito para causar discussões – e isso não é nenhuma novidade se você já passeou por outros universos criados por Gaspar Noé. Há, entretanto, um mérito inegável já na proposta inicial do longa: o sexo explícito. É um mérito (e não uma “polêmica”, como a imprensa insiste em vender erroneamente) porque estamos carentes, tanto no plano artístico quanto no popular, de obras transgressoras nesta temática. Nunca tivemos tanta liberdade de expressão, mas também nunca fomos tão caretas – o que cada vez mais é refletido no cinema.

A maioria das obras supostamente sobre sexo é, na verdade, mero pretexto para causar rebuliço na mídia ou engordar bilheterias do que de fato para discutir algo de interessante em relação ao tema. Neste gaveta, entram filmes como o pavoroso Cinquenta Tons de Cinza, que dispensa credenciais sobre suas escolhas erradas, e até mesmo o irregular Ninfomaníaca, de Lars Von Trier, que chegou a prometer sexo de verdade para depois colocar digitalmente corpos de atores pornôs no lugar dos personagens principais. Em termos conceituais, Love vem para derrubar todos estes filmes, colocando na tela um sexo sem disfarces e que serve como narrativa para endossar a turbulenta vida emocional dos protagonistas.

O título não é uma brincadeira, já que Love é mesmo um triste relato focado na devastada vida amorosa de um jovem assombrado por escolhas erradas. Noé quer discutir, mais especificamente, “o amor perdido e nunca reencontrado”, como já definiu perfeitamente o crítico Luiz Carlos Merten, do Estadão. Em linhas gerais, eis a tragédia não tão atípica na vida: o protagonista Murphy, loucamente apaixonado por Electra (Aomi Muyock), trai a namorada e, neste desvio de percurso, engravida uma menina de 17 anos. Ele não é perdoado pela namorada, que o abandona sem pensar duas vezes, não deixando para Murphy outra saída a não ser assumir as responsabilidades ao lado da jovem grávida. Só que Electra, agora literalmente inalcançável em sua vida, é quem ficou na memória, e, anos depois, um telefonema despertará essas doloridas memórias e as feridas nunca cicatrizadas.

Faz todo sentido Love ter tanto sexo porque a própria história já nasce a partir dele. Lembrando: Murphy arruinou sua vida por um mero ímpeto sexual. Mais do que isso, Gaspar Noé, também autor do roteiro, faz questão reforçar a cada minuto a ideia de que o sexo é um importante fator do nosso comportamento – e não apenas diversão ou perversidade como o cinema costuma retratar. Em Love, sexo é prazer, mas também descoberta, intimidade, pedido de desculpas, extravasamento da raiva, afogamento das mágoas e, principalmente, o mais próximo que podemos chegar da geografia física e sentimental de outro ser humano. Ele é um importante pretexto para que o filme fale sobre tudo o que cerca a intensidade de um verdadeiro relacionamento e sobre como certas pessoas, independente do que a vida impõe, ficam conosco para a vida inteira.

Eventualmente Gaspar Noé deixa escapar suas pretensões e até mesmo seus narcisismos (precisava mesmo o filme ter personagens com os nomes de Gaspar e Noé?), fazendo com que Love se estenda mais do que deveria, especialmente em seus momentos finais, quando relata os dias em que o casal protagonista tenta achar, em aventuras sexuais cada vez mais transgressoras, uma solução para seus problemas sentimentais. Não demora muito para entendermos que, a partir de certo ponto, Murphy e Electra só se entendem na cama, mas o filme insiste em bater neste tecla, mesmo que não tenha mais nada de novo para comunicar. Mas Love joga com os sentidos (Noé é mestre no uso das cores em meio à escuridão e na escolha de suas imersivas trilhas sonoras) e isso, junto aos interessantes conflitos emocionais, é suficiente para compensar eventuais fragilidades ou limitações que o filme possa ter.

Inicialmente concebido para ser realizado antes mesmo de Irreversível, mas deixado de lado porque Monica Bellucci e Vincent Cassel não compraram a proposta do sexo explícito, Love obviamente não é um filme fácil ou muito menos para se recomendar sem cautela por aí. Só que o cinema de Noé é exatamente assim: feito para ser cheio de restrições e discussões. Concordando ou não com as escolhas do diretor ou com a entrega dos atores, é preciso concordar: você nunca viu um filme como Love. E considerando que, nos dias de hoje, é tão complicado encontrar obras autorais e desafiadoras, a experiência se torna ainda mais intrigante. Fico no time dos defensores.

Rapidamente

boasorte

Deborah Secco e João Pedro Zappa em Boa Sorte: em seu primeiro longa-metragem, a diretora Carolina Jabor cumpre a difícil missão de encontrar beleza em uma circunstância essencialmente trágica.

BOA SORTE (idem, 2014, de Carolina Jabor): Não é fácil encontrar delicadeza em um universo essencialmente denso ou, então, beleza onde só existe tragédia. Mas Carolina Jabor encontrou e filmou o roteiro de Jorge e Pedro Furtado com uma segurança que está longe de indicar que a carioca está apenas em seu primeiro longa-metragem. Comove como Jabor dá luz a uma história de amor que, para o “bem” do próprio espectador, não deveria ser envolvente. Afinal, Judite (Deborah Secco) está internada pelo uso excessivo de drogas que lhe trouxe o HIV ao passo que João (João Pedro Zappa), ainda virgem e sem ter realmente vivido a sua vida, está enclausurado para se curar do vício por remédios. Como torcer sem medo para que duas pessoas criem laços em circunstâncias tão trágicas? Mesmo sabendo que existe a chance não vermos um final feliz vindo dessa situação, torcemos pelos personagens e mergulhamos nas distintas percepções que cada um tem do amor, do olhar inocentemente compulsivo de João frente ao primeiro amor à aproximação necessária mas cautelosa da calejada Judite. Com pequenas participações de luxo (Fernanda Montenegro e Cásia Kis Magro!), Boa Sorte encanta mesmo, apesar de eventuais escolhas fáceis para construir seu drama, pela dupla principal, em especial Deborah Secco, cada vez melhor atriz e totalmente entregue a sua difícil personagem.

CASA GRANDE (idem, 2014, de Fellipe Barbosa): Da “trilogia” sobre o cenário social brasileiro da era pós-Lula, Casa Grande deve ser o exemplar mais explicativo. Integrando o trio composto por O Som ao Redor e o recente Que Horas Ela Volta?, o longa de Fellipe Barbosa literalmente discute questões que o filme de Anna Muylaert, por exemplo, prefere ilustrar nas entrelinhas. Obviamente é uma questão de gosto, mas, para quem considera esta uma questão decisiva, Casa Grande pode não ser uma experiência necessariamente surpreendente. Ainda assim, o primeiro longa de ficção de Barbosa é contundente ao mostrar um Brasil individualista e que não consegue olhar para classes menos favorecidas com benevolência, respeito ou pelo menos consciência de que elas merecem ter tantas oportunidades quanto qualquer outra. É certo que o roteiro, escrito pelo próprio Barbosa em parceria com Karen Sztajnberg, opta por caminhos fáceis para suscitar tais questionamentos (óbvio que o protagonista branco de classe alta tem que se interessar sentimentalmente pela garota mulata e cotista). No entanto, a história é movimentada com fluidez, e o elenco é repleto de acertos e responsável pelos melhores momentos do filme. Se não é propriamente por sua execução, Casa Grande se torna obrigatório, claro, por sua alta relevância temática.

O PEQUENO PRÍNCIPE (The Little Prince, 2015, de Mark Osborne): Tem tido boa repercussão esta animação francesa que chegou a ser exibida em Cannes e que retoma o universo de um dos clássicos mais queridos da literatura. Lá se vão mais de 70 anos desde que Antoine de Saint-Exupéry lançou O Pequeno Príncipe, mas o livro segue conquistando gerações. Entretanto, quem pensa que a animação comandada por Mark Osborne aborda exclusivamente o personagem-título pode se decepcionar. Isso porque o filme prefere contar a história dele sob a perspectiva de uma garotinha que está estudando para um importante teste acadêmico ao mesmo tempo que precisa viver dentro das regras de uma mãe extremamente controladora. Só que toda a parte de O Pequeno Príncipe envolvendo a menina é infinitamente menos interessante do que as passagens envolvendo o célebre personagem, e o problema não se estende apenas ao ritmo da história, mas também ao próprio visual: a delicadeza de uma animação de papel no universo do Príncipe é mais encantadora do que a construção digital da outra protagonista. Outro tropeço é que O Pequeno Príncipe inventa demais e chega a mostrar o adorável personagem já adolescente, o que pode abalar o imaginário de gerações que se encantaram com a consagrada história. 

Magic Mike XXL

You down for a little fun tonight?

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Direção: Gregory Jacobs

Roteiro: Reid Carolin

Elenco: Channing Tatum, Matt Bomer, Joe Manganiello, Kevin Nash, Jada Pinkett Smith, Gabriel Iglesias, Adam Rodriguez, Andie MacDowell, Elizabeth Banks, Rhoda Griffis, Juan Piedrahita

EUA, 2015, Comédia, 115 minutos

Sinopse: Após um tempo fora de cena, Mike (Channing Tatum), se reúne novamente com antigos colegas, como Richie (Joe Manganiello) e Ken (Matt Bomer), em uma “road trip”. O destino é Myrtle Beach, em Miami, onde o grupo pretende fazer uma última grande turnê de despedida. (Adoro Cinema)

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É frequente a identificação de um ator com um projeto estragar boas ideias. Sarah Jessica Parker sabe bem o que é isso (a insistência dela em fazer de Sex and the City uma franquia de cinema estacionou em uma desastrosa continuação em 2010), e Channing Tatum também deve estar provando um pouco do mesmo com Magic Mike XXL, sequência do filme estrelado por ele três anos atrás. Claro que os dois atores, ambos produtores de seus respectivos longas, encheram o bolso de dinheiro, mas nenhum conseguiu desfrutar da sensação de engordar a poupança com um reconhecimento além do financeiro. Sim, Magic Mike XXL é mais uma desculpa para Tatum reencontrar os amigos, viajar pelos Estados Unidos e reviver os seus dias de dançarino… Mas, assim como em Sex and the City 2, a diversão está apenas do outro lado da tela. Nós, espectadores, não somos convidados para a festa.

Na contramão do que o título indica, tudo é menor em Magic Mike XXL. O diretor Steven Soderbergh, que supostamente se aposentou da condição de dirigir filmes, não retornou ao cargo, deixando o comando para Gregory Jacobs (do esquecível 171). O agora oscarizado Matthew McCounaghey também não embarcou na continuação, já que os produtores não entraram em um acordo quanto ao seu salário. Por fim, há boatos que Alex Pettyfer não se entendeu com Tatum nos bastidores do longa anterior e preferiu ficar de fora da sequência. Ou seja, Magic Mike XXL já começa com uma equipe desfalcada para contar uma história que… Bom, que história mesmo? Aqui basta saber que o Mike do título cansou da sua acomodada vida de homem trabalhador e comprometido, e a solução nada mais é do que reencontrar seus amigos strippers para uma última viagem do grupo.

Se o primeiro filme já era cheio de problemas em relação ao fato da história não ter consistência alguma, a continuação segue tropeçando com suas desculpas esfarrapadas para movimentar a trama. Não há qualquer complemento ao que já vimos antes, o que torna Magic Mike XXL uma continuação desnecessária como tantas outras. Antes fosse, contudo, um projeto que se utilizasse de desculpas bobas para construir algo divertido, mas o que o filme entrega é muito pouco para tantas publicidades e promessas que cercaram a estreia. O roteiro de Reid Carolin, que fez o movimento certo de se desviar do excessivo drama do filme anterior, não acerta nos princípios básicos para um filme dessa premissa funcionar, o que significa que falta sentirmos de verdade a tal amizade do grupo (todos parecem viver vidas independentes, juntando-se apenas para farrear e eventualmente discutir dilemas sexuais, como o fato de um deles não conseguir transar por ter um pênis muito grande!) e, principalmente, um envolvimento maior com as personalidades dessas figuras indiscutivelmente rasas.

Por se tratar de um longa em que os personagens caem na estrada, Magic Mike XXL deveria se atentar às clássicas necessidades de um road movie. E novamente a missão não é cumprida: a trupe de Mike estaciona em diferentes lugares a partir – adivinhem! – de motivos frequentemente forçados e encontram pessoas de conflitos desinteressantes ou para lá de óbvios, como as mulheres de classe alta entediadas com os maridos e que passam uma noite inesquecível confraternizando com os strippers. Ninguém aparentemente muda ou evolui ao longo da jornada, a geografia não influencia o espírito dos personagens e, ao fim da estrada, o trajeto não dá indícios de ter pontuado algo marcante na vida deles. Entre uma parada e outra, Tatum, que recentemente esteve ótimo em Foxcatcher, dança bastante e nós entendemos o quanto ele é bom nisso (tanto que os outros só vão de fato ter alguma oportunidade de maior destaque no final, mas, de novo, faltou mais música, diversão e, principalmente ousadia, já que, aos interessados, nem a nudez de Magic Mike XXL despertará grandes emoções). Estranhamente, a timidez aumentou – e a nossa diversão seguiu um caminho inversamente proporcional.