Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Sheron Neves

sherontresDessa vez, a coluna deveria se chamar “Três atores, três séries”, mas vamos manter a tradição do título. Ela deveria ter nome diferente porque a convidada é uma grande pesquisadora de TV, segunda tela, storytelling e transmídia, e também porque a conheci justamente em um curso sobre séries (mais especificamente sobre as produções da HBO) anos atrás. Sheron Neves, mestre em Media Studies pela Birkbeck, University of London e professora na ESPM-Sul, PUCRS e Unisinos, vem hoje ao Cinema e Argumento para comentar, excepcionalmente, três grandes atuações da TV. As escolhas particularmente me fascinaram porque fogem do previsível, conforme ela mesma explica na introdução abaixo. E como não pular de alegria ao ver Six Feet Under, meu seriado favorito de todos os tempos, lembrado na seleção? Ah, e não deixem de conferir o trabalho da Sheron no Meditations in an Emergency!

Antes de listar minhas três atuações favoritas da TV, preciso fazer um parênteses: não incluí os britânicos, pois precisaria de uma lista bem maior do que a que me foi encomendada. Sejam eles jovens como Nicholas Hoult (Skins) ou tarimbados como Maggie Smith (Downton Abbey), são todos responsáveis por performances impecáveis. Falando em impecável, mais um parênteses: deixei de fora Bryan Cranston (Breaking Bad), um dos meus favoritos. Afinal, o que dizer que ainda não foi dito pela imprensa ou pelas inúmeras premiações que recebeu pelo papel? Optei, portanto, por três performances menos conhecidas, mas não menos extraordinárias.

Sofia Helin (The Bridge)
Para viver Saga Norén, a brilhante policial com síndrome de asperger de The Bridge, a atriz sueca optou por uma interpretação sem grandes afetações, mas extremamente convincente. Vários remakes do drama sobre um maquiavélico assassino em série já foram feitos, mas nenhuma atriz parece ser capaz de interpretar a personagem com tamanha naturalidade como Helin, cujo carisma conseguiu destronar a até então diva número um do nordic-noir, a atriz Sofie Gråbøl (da série sueca The Killing). Ao mesmo tempo em que ajuda a compor a dureza monocromática da série, a detetive criada por Helin faz também o perfeito contraponto. Como um Spock de saias, é seu distanciamento emocional e sua inabilidade social que a tornam uma boa observadora. É a sua honestidade brutal que a torna autêntica, e o seu caráter que a leva a construir a principal “ponte” do título: a amizade com seu parceiro, o passional detetive Rohde. Deliciosamente trágicos, os dois acrescentam um componente humano a um thriller gélido e cerebral.

Michael K. Williams (The Wire)
Natural do Brooklyn, o ator já possuía alguns pequenos papéis no currículo quando foi chamado para desempenhar Omar Little na premiada série The Wire (HBO, 2002-2008). Sua performance como o temido gangster/Robin Hood de Baltimore lhe rendeu inúmeros elogios da crítica, e até mesmo de Barack Obama, na época senador. O contraditório personagem parece ter sido feito sob medida para o ator que, com seu rosto carrancudo (marcado por uma enorme cicatriz obtida em uma briga no dia do seu 25º aniversário) pode parecer assustador à primeira vista. Entretanto, à medida que a trama se desenvolve, o ator consegue transmitir a complexidade deste que é um dos melhores personagens da série: apesar do rosto duro e dos atos inquestionavelmente cruéis, ele permanece a pessoa mais honesta e altruísta dentro de uma cidade repleta de políticos e policiais corruptos. Williams consegue transmitir esta dualidade com total sutileza e maestria.

Frances Conroy (Six Feet Under)
Formada pela prestigiada Juilliard School de Nova Iorque, a veterana atriz de teatro conquistou o grande público como a matriarca da família Fisher em Six Feet Under (HBO, 2001-2005). Mais conhecida até então no circuito independente, Conroy usou sua experiência nos palcos da Broadway para construir uma personagem absolutamente cativante e tragicômica. Uma das personagens mais imprevisíveis da série, Ruth Fisher surpreende desde uma das primeiras cenas do episódio piloto, quando atira longe uma travessa de comida ao receber um telefonema com más notícias. Inicialmente o retrato típico da esposa baby boomer, recatada, perfeccionista e submissa, na pele de Conroy a personagem ganha uma dimensão surpreendente. O fim abrupto de seu casamento de 35 anos é o estopim de uma transformação que irá confundir a seus filhos e a ela mesma. Acredito que poucas atrizes conseguiriam interpretar com tamanha sensibilidade a jornada de uma mulher que descobre, no auge de seus anos dourados, sua própria sexualidade e individualidade.

Os 33

Aim to miss.

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Direção: Patricia Riggen

Roteiro: Craig Borten, Michael Thomas e Mikko Alanne, baseado no livro “Deep Down Dark”, de Hector Tobar

Elenco: Antonio Banderas, Juliette Binoche, Rodrigo Santoro, Gabriel Byrne, Adriana Barraza, Bob Gunton, Paulina García, Lou Diamond Phillips, Juan Pablo Raba, Mario Casas, Naomi Scott, James Brolin, Kate del Castillo, Oscar Nuñez, Jacob Vargas

The 33, EUA/Chile, Drama, 120 minutos

Sinopse: Capiapó, Chile. Um desmoronamento faz com que a única entrada e saída de uma mina seja lacrada, prendendo 33 mineradores a mais de 700 metros abaixo do nível do mar. Eles ficam em um lugar chamado refúgio e, liderados por Mario Sepúlveda (Antonio Banderas), precisam racionar o alimento disponível. Paralelamente, o Ministro da Energia Laurence Golborne (Rodrigo Santoro) faz o possível para conseguir que os mineiros sejam resgatados, enfrentando dificuldades técnicas e o próprio tempo. (Adoro Cinema)

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Só pela composição do elenco se percebe que Os 33 não é um filme particularmente comprometido com suas raízes. Sejamos francos: escalar um espanhol (Antonio Banderas), uma francesa (Juliette Binoche), um irlandês (Gabriel Byrne) e um brasileiro agora praticamente estadunidense (Rodrigo Santoro) para protagonizar, falando inglês, uma história sobre o povo chileno é o primeiro indicador de que esta é uma produção motivacional de sobrevivência para norte-americano ver – e, quem sabe, arrecadar uma gorda bilheteria com as estrelas reunidas. Poderia ser pior: Binoche foi escalada de última hora para substituir Jennifer Lopez, que preferiu priorizar sua participação no reality show musical American Idol! Não entrando em maiores discussões sobre este mundo em que uma atriz do calibre de Binoche vem para compensar a ausência de Jennifer Lopez, concluímos, então, com tal panorama, que Os 33, apesar de não ser o que podemos chamar de um filme necessariamente oportunista, está mais preocupado com o possível espetáculo de sua extraordinária história do que com fazer um retrato marcante deste que foi o maior acidente envolvendo mineiros na história do Chile.  

Não dá para deixar de se impressionar com o que os 33 mineiros do título viveram. Preso a quase 700 metros de profundidade após um grande deslizamento dentro de uma mina na cidade de Capiapó, o grupo sobreviveu durante 17 dias sem ter contato algum com o exterior, dividindo uma caixa de comida pensada para satisfazer apenas 30 pessoas durante três dias. Como sabemos, todos saíram vivos de lá, o que é um feito simplesmente extraordinário. E quando se afirma que Os 33 não é necessariamente oportunista, isso é porque o filme dirigido por Patricia Riggen, mesmo com suas convencionalidades, não pesa a mão e muito menos parte para o implausível com a missão de tirar lágrimas do espectador. Neste sentido, o relato é respeitoso e entrega ao público menos exigente (ou em busca de um mero entretenimento baseado em fatos reais) a fórmula sempre certeira para fins comerciais que tanto caracteriza os novelões estadunidenses sobre superação do ser humano: o tradicional início, meio e fim, subtramas de descontração, redenções pessoais, reavaliações da vida e o final feliz inspirador.

Já para quem procura transgressão, Os 33 é bastante decepcionante. Ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira ou até mesmo do recente Expresso do Amanhã, o filme de Patricia Riggen não explora a construção de uma nova “sociedade” em um ambiente isolado e de condições impensáveis. Os 33 não é sobre o comportamento humano frente ao desespero – o que, diga-se de passagem, seria um caminho inteligentíssimo a ser seguido. Na realidade, o roteiro do trio Craig Borten, Michael Thomas e Mikko Alanne, que tem como base o livro “Deep Down Dark”, de Hector Tobar, é simplesmente sobre o racionamento de água e comida e a busca por possíveis saídas dentro da mina. Nada mais. Enquanto isso, do lado de fora, familiares reivindicam por mais buscas e as autoridades pouco a pouco começam a agir. É tudo muito inofensivo e linear, o que não dá à história a devida dimensão dramática que ela merecia, sem falar dos habituais cacoetes de filmes sobre tragédia, como o sujeito que, desde o início, avisa que a situação pode ser perigosa mas nunca é ouvido e o coadjuvante que entra na mina e, por alguma força desconhecida, já não se sente bem lá.

Nos tradicionais ingredientes do gênero que compõem a mistura de Os 33, coloque ainda alívios cômicos (muitos deles entregues a uma subaproveitada Adriana Barraza), soluções arquitetadas sem muita criatividade (óbvio que um importante passo para a solução do conflito principal surge de uma conversa motivacional e aparentemente passageira) e uma trilha sonora (a última do recém falecido James Horner!) que tenta reproduzir a latinidade ausente no restante da obra. Uma vez ou outra Patricia Riggen tenta dar o seu toque ao filme, como no momento em que encena um banquete entre os mineradores (não é a mais brilhante das ideias, mas pelo menos tira um pouco a história do didatismo), e consegue o mais difícil: não se perder nas dezenas de personagens que protagonizam o grande conflito da trama. Só que realmente não há como fazer diferente com um projeto que, na mais funda de suas raízes, já foi pensado como entretenimento para o cinemão dos Estados Unidos e não como uma verdadeira homenagem à brava história desses 33 homens chilenos.

Diário das minhas artes #2: sobre Schmidt e democracia cultural

artschmidtSempre digo que tenho dois filmes favoritos. O primeiro representa, digamos, a razão: As Horas, o trabalho mais coeso que já vi no cinema. O segundo fala pela emoção: As Confissões de Schmidt, que gosto de dizer que foi o filme que fez eu me apaixonar pela sétima arte. Ambas as produções são adaptações literárias e, por disponibilidade, li primeiro As Horas, de Michael Cunningham. Li o livro depois de ter visto o longa de Stephen Daldry, e só me apaixonei ainda mais pela versão cinematográfica, que é uma transposição perfeita e autoral de uma obra difícil e complexa. Não tenho dúvidas de que essa é a minha adaptação favorita de todos os tempos. Depois de muito procurar, sem sucesso, Sobre Schmidt, de Louis Begley, que inspirou As Confissões de Schmidt, o livro veio parar no meu colo por um feliz acaso do destino: um presente carinhoso e inesperado de aniversário. Confesso que, passado quatro meses, só agora o peguei para ler. A demora não foi só pela falta de tempo, mas também por receio, pois finalmente chegou a hora de eu conferir o material de origem do filme que injetou o cinema na minha veia.

Cinco páginas até agora e o susto já foi grande – a ponto de me fazer parar um pouco a leitura para organizar as ideias. Na versão de Begley, Warren Schmidt é advogado e não estatístico. Sua esposa, Mary, não morre em função de um derrame repentino, mas sim em pleno sofrimento enfrentando uma doença terminal. Já na primeira página o protagonista desata a chorar em frente à filha ao saber do casamento dela. No filme, as lágrimas de Schmidt chegam apenas ao final, em um momento emocionante justamente pela demonstração inesperada de uma humanidade escondida. É claro que sou irremediável defensor da ideia de que filmes e livros são independentes e que, mesmo que seja brilhante quando ambos são capazes de dialogar, não devem ser julgados um em função do outro. Só que dessa vez é mais delicado: não é fácil ver o meu filme favorito ser desconstruído dessa maneira. Na realidade, foi quase um desafio embarcar nestas cinco páginas e espero que, pelas próximas, consiga me desligar de comparações para poder aproveitar. Desejem-me forças.

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Saindo da temporada 2015 do espetáculo Ensina-me a Viver, já mergulhei profissionalmente em outro evento: a Oktoberfest de Igrejinha. Maior festa comunitária do Brasil (são cerca de 3 mil voluntários que fazem a função toda acontecer), a Oktoberfest transfere todo o lucro arrecadado para obras de melhorias na cidade. Uma iniciativa belíssima para uma comunidade apaixonada pelas raízes alemãs e por sua própria cidade. Neste terceiro ano fazendo a festa como parte da equipe de assessoria de imprensa, me peguei refletindo novamente sobre algo que todo ano me impressiona por lá: sempre existem culturas além dos nossos horizontes. Explico. No domingo da semana passada (18), o parque de eventos Almiro Grings, local onde acontece a Oktober, veio abaixo com o show da dupla sertaneja Marcos & Bellutti. Não os conhecia. Nem mesmo a tal Domingo de Manhã, que, descubro agora, foi a música mais tocada nas rádios brasileiras em 2014.

A moral da história é que, além de não conhecer a dupla, não curto sertanejo, mas faço justiça: nunca condeno ou julgo qualquer gosto de qualquer pessoa. Podemos criticar, desgostar ou odiar o que quisermos, mas nunca diminuir alguém por apreciar determinado artista ou obra. Afinal, o que significa a minha voz frente a outras 35 mil (o público esperado na Oktober naquele domingo) que grita, chora e canta junto a esta dupla? Para mim, ver Marcos & Belutti ao vivo pode ter sido uma experiência esquecível musicalmente, já que não me interesso pelo estilo musical deles. Já para boa parte dos igrejinhenses e dos moradores da região, é bem provável que tenha sido um dos shows de suas vidas. E que lindo testemunhar esse momento tão especial para eles. Com um choppe na mão, fiquei encantado pela plateia, e reconheci o apelo dos caras, que levaram o público ao delírio. Curti o momento porque, afinal, em algum outro recorte de tempo e espaço, eu sou eles assistindo com imensa comoção ao show do Keane em São Paulo ou do Philip Glass em Porto Alegre. E tenho certeza que nenhum deles julgaria as minhas lágrimas também. Vida eterna à democracia cultural!

Beira-Mar

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Direção: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Elenco: Mateus Almada, Maurício Barcellos, Irene Brietzke, Elisa Brittes, Maitê Felistoffa, Francisco Gick, Fernando Hart, Danuta Zaguetto, Ariel Artur

Brasil, 2015, Drama, 83 minutos

Sinopse: Martin e Tomaz passam um fim de semana imersos em um universo próprio. Alternando entre distrações corriqueiras e reflexões sobre suas vidas e sua amizade, os garotos se abrigam em uma casa de vidro, à beira de um mar frio e revolto.

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Os anos 2000 têm sido riquíssimos para o mundo jovem no cinema. Desde a virada do milênio, a temática foi contemplada com longas mais descontraídos (Antes Que o Mundo Acabe, As Melhores Coisas do Mundo), experiências complexas (Os Famosos e os Duendes da Morte), quase-fábulas irresistíveis (Hoje Eu Quero Voltar Sozinho) e até mesmo documentários assinados por grandes mestres (Eduardo Coutinho e seu Últimas Conversas). Por outro lado, mais recentemente, a safra direcionou um carinho especial aos jovens repletos de questionamentos, de famílias desestruturadas e de transições complicadas para a vida adulta.  O apelo colou, e os festivais de cinema passaram a celebrar filmes assim: o delicado Ausência começou sua trajetória no Festival do Rio e chegou à Toulouse, enquanto o arrebatador Ponto Zero fez sua estreia em Gramado em 2015 sendo considerado o grande injustiçado da premiação. Arrisco a dizer, por outro lado, que nenhum outro filme com estilo mais contemplativo sobre a adolescência tenha sido tão aguardado quanto o gaúcho Beira-Mar, exibido no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Com estreia programada para 5 de novembro, o filme da dupla Felipe Matzembacher e Marcio Reolon é, entretanto, a experiência menos interessante entre as destacadas aqui.

Matzembacher e Reolon, que entrevistei algumas vezes e que já participaram de matérias e colunas aqui do blog, vão ter de me desculpar, mas, mesmo sendo admirador de vários projetos deles dentro e fora das telas (em 2012, por exemplo, Um Diálogo de Ballet era o meu curta favorito em competição no Festival de Cinema de Gramado), não cheguei a me envolver emocionalmente ou até tecnicamente com Beira-Mar. Nele está representada uma gama de reflexos da vida de seus realizadores, conforme eles próprios assumem: o filme é um resgate do que a dupla viveu, de uma forma ou outra, na adolescência, e também mais um exercício audiovisual dos diretores sobre o tema juventude e identidade sexual. Neste sentido, ponto para Beira-Mar, que é uma produção legitimamente Matzembacher-Reolon (sempre acho admirável quando diretores conseguem ter uma assinatura facilmente reconhecível desde que não caiam em repetições, como é o caso deles). Já quanto à execução, encontrei pouco do que considero como os maiores diferenciais da dupla. O estilo da narrativa é bom: nada é mastigado ou expositivo demais, inclusive porque os diretores preferem trilhar o caminho das entrelinhas. Entretanto, mesmo após alguns dias da minha sessão, o peso dos aspectos que considero ruins continua a me incomodar infinitamente mais.

Já começo tendo problemas com a escalação da dupla principal. Fora o óbvio fato de Maurício Barcellos, por exemplo, não ter nenhuma experiência prévia em atuação (e isso está evidente ao longo de todas as suas cenas no filme), falta uma energia de amizade entre ele e Mateus Almada – e isso é um grande problema, pois a conexão estabelecida pelos dois personagens seria o mote de Beira-Mar. Não é necessariamente culpa deles, vale dizer. O que acontece é que nem bem o filme completa meia hora, e Martin (Almada), que convenceu o introspectivo Tomaz (Barcellos) a deixar a família “puta” por deixar de ir a um casamento para acompanhá-lo em uma viagem à praia, não hesita ao entrar sozinho em um bar mesmo sabendo que o amigo, que viajou justamente para lhe fazer companhia, está impossibilitado – e claramente sem vontade – de entrar no local. É, no mínimo, um abandono um tanto inusitado para dois jovens que seriam supostamente tão amigos. Mais à frente, Beira-Mar já flerta com a homoerotização da relação em uma cena explícita nesse sentido: a dupla de diretores, ao colocar os dois personagens jogando videogame, os enquadra de forma com que pareça que os dois estão se masturbando lado a lado compulsivamente. A homoerotização não é o problema, mas sim a prematuridade dela, já que, pelo menos para mim, ainda não estava consolidada a ideia de forte amizade entre os personagens. Neste ponto, é mais fácil ver Martin e Tomáz como inevitáveis e futuros amantes do que como amigos incondicionais.

Não parece existir grande intimidade entre os dois protagonistas, e vários momentos do filme corroboram isso, como quando descobrimos que um esconde do outro seus desenhos em um caderno ou quando as relações estabelecidas verdadeiramente por eles no plano amoroso só são verbalizadas após algum conflito envolvendo o assunto aos 45 do segundo tempo. Falta em Beira-Mar o que Alfonso Cuarón conseguiu desenvolver com maestria em E Sua Mãe Também: no filme estrelado por Diego Luna e Gael García Bernal (também sobre dois amigos passando uma temporada longe de casa e coincidentemente no litoral), não demorava muito para que sentíssemos naturalmente a longa amizade cultivada com calor e intimidade pelos personagens – e, detalhe, ela também envolvia uma masturbação (literal!) entre eles. Assim, se já é difícil embarcar no sentimento de amizade de Martin e Tomaz, o que dizer, então, dos dramas familiares sem maiores aprofundamentos e das aventuras sexuais e etílicas vivenciadas pelos dois neste tempo que passam juntos? O principal, pelo menos para mim, não funciona, o que termina minando consequentemente todo o resto.

Um dos aspectos mais instigantes na proposta de Beira-Mar é a ambientação invernal em uma casa no litoral. A cidade está vazia (quase não vemos outras pessoas habitando este local não especificado) e o cenário parece perfeito para reproduzir o que se passa no interior dos protagonistas. Só que o mar frio e revolto indicado pela sinopse só é visto no desfecho do longa e a geografia não é fator tão influente no que se desenvolve emocionalmente, o que faz com que se torne indiferente a ideia de Beira-Mar se passar na praia (se fosse feito em uma cidade do interior da Alemanha não faria diferença alguma). É impossível não lembrar de como Woody Allen, nos anos 1970, fez justamente o oposto ao encenar um intenso drama familiar à beira da praia com Interiores. Lá sim o contexto do mar se desenhava como fator decisivo nas lembranças e no próprio destino dos personagens confinados no litoral. Em Beira-Mar, a ambientação funciona esteticamente, mas desaponta como ferramenta narrativa deste longa já necessitado de diálogos mais inspirados.

Por falar em narrativa, este é um filme que pode ser interpretado de diversas maneiras: uma viagem transformadora, um confronto com nossas raízes familiares ou um retrato das angústias adolescentes, por exemplo. Nenhuma é particularmente imperativa ou marcante, principalmente a familiar, que sempre deixa questões muito no ar e que simplifica dramas que mereciam mais atenção (é indesculpável que a figura do pai, lembrado apenas como o sujeito responsável por deixar más lembranças ao filho e que só quer passar perna na família, seja tão mal explicada). Ainda é um tanto confusa a virada que Beira-Mar dá em seus últimos momentos, quando finalmente coloca na tela algo esperado e até mesmo insinuado ao longo de toda a história. O novo sentido que o roteiro dá à relação de Martin e Tomaz surge abrupto e questionável, pois o filme acaba justamente quando deveria esmiuçar o que um momento tão decisivo como aquele de fato significa para os personagens – e isso não tem nada a ver com o que ambos farão com aquilo dali em diante, mas sim com as verdadeiras razões que os levaram até este ponto. Nós não sabemos muito bem o porquê dessa mudança na relação deles. Queria muito ter gostado do filme tanto quanto gosto de outros projetos dos diretores, mas, assim como uma tarde fria e chuvosa na praia, Beira-Mar decepciona por entregar justamente o oposto do esperado.

Na coleção… Amor Sem Escalas

UP IN THE AIR

Amor Sem Escalas tem uma premissa das mais trágicas, mas prefere seguir um caminho que demonstra a total maturidade de seu diretor: o da leveza. E está errado quem pensa que essa escolha amortece ou anula a força emocional do filme. Pelo contrário. Assim como Transamérica, por exemplo, Amor Sem Escalas se torna ainda mais agridoce em função de olhar para a tragédia a partir de pequenas felicidades e de momentos corriqueiros. A missão não é fácil: afinal, como não pesar a mão na história de Ryan Bingham (George Clooney), sujeito cujo emprego é demitir pessoas em todos os cantos dos Estados Unidos? Mais do que isso: como resistir à tentação de tornar depressivo este homem que viaja o ano inteiro, não tem qualquer raiz com família, amigos ou romances e ainda dá palestras que dizem que as relações são os componentes mais sufocantes da vida? Pois o diretor Jason Reitman, em parceria com Sheldon Turner no roteiro, realmente escolhe outras direções e entrega um trabalho que, ainda hoje, é o mais maduro de sua carreira.

Quando realizou Amor Sem Escalas, Jason Reitman recém havia saído de uma repentina (e superestimada) consagração por Juno, uma comédia adolescente sobre uma garota que enfrentava uma inesperada gravidez em circunstâncias atípicas (o filho era do menino mais “loser” da escola, e os pais não entraram em pânico com a notícia), o que poderia nos deixar em dúvida quanto às chances do diretor saltar com êxito para um projeto completamente oposto, sobre pessoas de meia-idade, casadas com a carreira e independentes. Seria Reitman um diretor apenas das angústias jovens? Ou também das reflexões maduras? Felizmente de ambas. E uma cena específica de Amor Sem Escalas sintetiza com perfeição não apenas o talento eclético do diretor como também todos os temas abordados no filme: aquela em que a jovem Natalie (Anna Kendrick), devastada por uma recente separação, tenta encontrar algum conforto nos conselhos de Ryan e Alex (Vera Farmiga). No impecável diálogo, estão as expectativas de diferentes gerações quanto aos relacionamentos e ao sucesso profissional – e o filme, apesar de ter como pano de fundo as demissões em massa que assolaram os Estados Unidos anos atrás (o que foi seu maior atrativo quando lançado), é exatamente sobre o que procuramos ou evitamos nessa transição entre a casa (onde quer que ela seja) e o trabalho.

Delicado e carinhoso, Amor Sem Escalas consegue desenhar o desabrochar de um homem distante de todos com uma precisão cirúrgica mas nada acadêmica. Não existe nada mais clichê do que um filme derrubar todas as verdades de um personagem quando ele encontra um relacionamento marcante, e o que Amor Sem Escalas faz é basicamente isso, com a diferença de ter um conjunto de acertos simples e discretos que pouco percebemos conscientemente a mudança deste homem, até porque Reitman prefere arquitetar a história de Ryan não com grandes acontecimentos, mas sim com uma conversa de bar ou com um breve encontro em um aeroporto. Clooney, em um de seus melhores momentos como ator, acha o ponto ideal entre seu charme marcante (é difícil vê-lo como um personagem e não como George Clooney) e a criação dramática do protagonista, melhorando em grande escala quando contracena com a igualmente ótima Vera Farmiga. Ambos foram indicados ao Oscar e formam um dos casais mais críveis e marcantes dos últimos anos. Dá gosto vê-los junto porque acreditamos que Ryan e Alex são de fato a versão do outro – só que de sexo oposto. Maturidade, sucesso profissional e independência estão estampados no comportamento dos dois, mas, quando estão juntos, surge também a discreta carência, o carinho nunca mostrado – e é aí que Amor Sem Escalas alcança seus momentos mais especiais.

Ao contrário do que o título brasileiro indica e até mesmo estes comentários avaliam, Amor Sem Escalas não é, porém, uma mera descoberta do amor em tempos de desconexão ou a escalada romântica de um homem solitário e convicto disso. Apesar de viverem belos momentos juntos e o filme pontuá-los com emoção (as conversas são inteligentes, a trilha é nostálgica), Ryan e Alex agem como se estivessem alheios tudo isso, como que seus êxitos profissionais – esses sim – fossem o bem mais precioso. O que conta mais para eles é quem tem o maior número de cartões ou qual o próximo destino de suas agendas profissionais. Eles se aproximam, mas parecem negar tal aproximação porque, novamente, a profissão e a independência estão acima de tudo – como se o fato de se acomodar com alguém fosse sinônimo de fracasso. E isso não é verdade, conforme eles próprios passam a perceber silenciosamente mesmo sem admitir. É no nascimento deste sentimento tão renegado por pessoas orgulhosas de não o terem que Amor Sem Escalas se torna tão agridoce, e a escolha de cercar a história com bom humor (muito dele centrado na personagem de Anna Kendrick) torna tudo um tantinho mais triste. Atual, já que estamos cada vez mais centrados em profissões do que relações, Amor Sem Escalas tem, assim, um coração muito grande, mas é o contraste com os pés bem firmes no chão que torna o resultado tão especial.