Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Bruno Costa

brunotresConversar com o Bruno sobre cinema sempre rende discussões das mais interessantes. Resultado de outro ótimo encontro proporcionado pela internet e pelas redes sociais, nosso contato cinematográfico já ultrapassa a mera relação de blogueiro e leitor. É sempre um prazer trocar ideias com ele sobre cinema porque, além de termos muitas afinidades (principalmente no que se refere ao nosso afeto por atrizes), acredito que sempre provocamos um no outro novas reflexões sobre determinadas obras. A lista selecionada pelo Bruno tem a cara dele (claro que não poderia faltar Kate Winslet) e até reserva algumas afirmações bastante atípicas (será que existe uma interpretação melhor de Chalize Theron do que a de Monster – Desejo Assassino?).

Charlize Theron (Jovens Adultos)
Charlize Theron pode até ter ganhado o Oscar por Monster – Desejo Assassino (2003), mas é na pele da problemática Mavis Gary de Jovens Adultos (2011) que a atriz obteve o melhor desempenho da sua carreira. Amarga, bitch queen, sarcástica, infantil e presunçosa, sua personagem aqui é uma soma de vários defeitos que faz alguém ser detestável. Mesmo com uma personagem tão intragável e complexa, Theron consegue brilhar intensamente. Aliás, ela está impagável em suas caras e bocas, personificando com maestria o desprezo de Mavis pelas pessoas da sua cidadezinha natal, as quais ela reencontra graças a brilhante ideia de tentar reconquistar o namorado da adolescência, hoje um homem casado. Mas a grandiosidade da construção de Charlize vai além dos aspectos externos – algo que considero primário numa construção de personagem. Seu brilhantismo reside em conseguir transmitir a essência de um filme que trata sobre pessoas altamente capazes de obter êxito pessoal, mas que, por algum motivo, sabotam sua existência com atitudes infantis. São ressentimentos e descontentamentos para consigo mesmo que definem Mavis Gray. E Charlize Theron foi ótima em transmitir isso.

Gregory Peck (O Sol é Para Todos)
Um herói! Eis o melhor adjetivo para definir Atticus Finch, o mitológico personagem de O Sol é Para Todos. Adaptado do premiado romance de Harper Lee, a premissa do filme é simples: Atticus Finch, íntegro e renomado advogado da fictícia Maycomb, aceita defender um negro acusado de estuprar uma moça branca. O problema? Tudo se passa na década de 30, numa sociedade segregadora e preconceituosa, onde a palavra de um homem negro não devia ser levada em conta. Apesar da trama simples, o desenrolar dos acontecimentos é impactante em O Sol é Para Todos. E o valor social da história está longe de perder a relevância. Entretanto, tudo ficaria comprometido caso não tivessem encontrado o intérprete adequado para dar vida a Atticus Finch. Felizmente, o filme encontra nas qualidades do ator norte-americano Gregory Peck uma escolha mais do que acertada. Considerado um dos grandes atores da era dourada do cinema, Peck era conhecido por simbolizar a referência moral de Hollywood, dado seu ávido ativismo. De estilo sóbrio, voz serena, olhar que diz pouco e muito ao mesmo tempo, Peck empresta a Atticus Finch aspectos de sua persona pública, proporcionando ainda mais credibilidade e empatia do público em relação a um personagem que já nasceu mitológico em suas origens literárias. Longe de significar um demérito, essa fusão entre as características do interprete e as da figura ficcional resulta num desempenho cujo poder afetivo é inigualável. O Atticus Finch de Peck é mágico, soberbo, cativante e inesquecível!

Kate Winslet (O Leitor)
Dos grandes desempenhos da inglesa Kate Winslet, poucos costumam citar sua atuação em O Leitor (2008). Seja por causa da polêmica nas premiações ou pela controversa personagem, a grande verdade é que a composição da atriz para Hanna Schmitz merecia maior consenso. A primeira vez que conferi o desempenho de Kate neste filme, identifiquei de imediato as suas principais características como atriz: a profundidade técnica e emocional, o uso do erotismo como ferramenta de dramatização e a tão habitual sensação de poder e vulnerabilidade que ela traz a suas personagens. Despida de qualquer vaidade, Winslet apresenta ao público novidades no seu repertório, visíveis seja na rudeza da Hanna ou no interessante trabalho físico realizado. Certamente um dos seus maiores desafios de sua carreira, Hanna é, nas mãos de Kate, complexa, misteriosa, arisca, rude e de moral no mínimo duvidosa. O impressionante é que a atriz consegue ir além do proposto, conferindo uma pitada de humanidade a uma figura cujo passado odioso assombrou a si e aos seus durante toda vida.

Na coleção… Hairspray – Em Busca da Fama

colhairspray

Não são todos os musicais contemporâneos que conseguem ser tão bem resolvidos com sua própria identidade quanto Hairspray – Em Busca da Fama. Refilmagem do longa-metragem homônimo de 1988 (aqui no Brasil apenas o subtítulo E Éramos Todos Jovens foi modificado), esta nova versão dirigida por Adam Shankman encena uma história que, mesmo ambientada nos anos 1960, infelizmente ainda se mostra incrivelmente atual. Afinal, não é só a jornada de Tracy Turnblad (Nikki Blonsky), garota gordinha que ouve de todos (inclusive da própria mãe!) que nunca será uma estrela de TV ou conquistará o garoto mais desejado do colégio em função de seu peso, que se revela inspiradora na busca da quebra por preconceitos, mas também o retrato feito de uma época em que os negros não podiam frequentar a mesma piscina ou até mesmo a mesma pista de dança com os brancos. Tracy, que sabe muito bem o que é fazer parte das minorias, abraço como missão mudar tudo isso, especialmente o fato do Corny Collins’ Show, programa musical febre entre os jovens, aceitar negros em sua programação em apenas um dia do mês. Repleta de música, inocência e nostalgia, essa jornada da adorável protagonista terá suas previsibilidades, mas também será uma das mais autênticas que você verá nos musicais recentes.

Até surpreende o repentino talento do diretor Adam Shankman ao comandar Hairspray, visto que seus projetos anteriores a esse são de qualidade muito duvidosa (Operação Babá, A Casa Caiu) ou de uma infinidade de clichês (Um Amor Para Recordar). Na refilmagem do musical, ele traz personalidade ao universo de Tracy Turnblad, colocando nele muita graça e doçura sem que o resultado pareça infantilizado ou até mesmo restrito a um público jovem (caso de muitos musicais como High School Musical e Glee). Claro que o elenco de veteranos dá certo respeito ao filme (Allison Janney, Christopher Walken, John Travolta, Michelle Pfeifer!), mas é notável como Hairspray acerta musicalmente em dois aspectos fundamentais: na escolha do ótimo repertório transposto para esta nova leitura (bônus: praticamente todas as canções são ferramentas narrativas!) e na seleção de um elenco talentoso em voz e carisma. Se John Travolta não é uma grande presença quando resolve cantar, dá gosto de ver Nikki Blonsky demonstrando plena segurança já na cena de abertura, por exemplo. A sequência final ao som de You Can’t Stop the Beat ainda justifica o porquê das premiações terem levado a sério esse grupo de atores, uma vez que Hairspray chegou a ser indicado ao Screen Actos Guild Awards de melhor elenco (algo raro para um filme menor, musical e cômico como esse).

O singelo mas crível design de produção nos ambienta perfeitamente neste filme de muitos sonhos que de repente se tornam realidade. Isso mesmo: não são necessários muitos minutos para você perceber que, apesar de um obstáculo ou outro, tudo dará certo em Haispray. Esse é o espírito que o filme assume sem qualquer medo, e basta entrar nele para curtir de verdade a história,  que tem uma simplicidade da mais sinceras – e por isso mesmo conquista tantos corações facilmente. Talvez tenha sido proposital o fato do diretor ter encenado as sequência musicais de forma tão tradicional (são muitos os momentos que usam planos bastante abertos para mostrar dezenas de pessoas alinhando uma coreografia perfeita), mas isso pode eventualmente frustrar quem busca um exemplar do gênero mais criativo e até ambicioso tecnicamente falando. Sinceramente, não vejo isso como um problema quando Hairspray surge tão autêntico quanto sua protagonista. Colorida, feliz e otimista. Assim é esta refilmagem que, além de tudo, é uma pequena mas valiosa homenagem à força das minorias. Musicais carinhosos como esse sempre fazem falta.

Rapidamente

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No trabalho mais ácido e autoral de Alexander Payne, Laura Dern brilha como a problemática Ruth, em um desempenho injustamente ignorado pelas premiações.

CIDADES DE PAPEL (Paper Towns, 2015, de Jake Schreier): Mesmo sendo mais uma adaptação de um sucesso literário de John Green, Cidades de Papel não chegou a fazer nem um terço da bilheteria de A Culpa é das Estrelas. A arrecadação inferior é compreensível, pois a história não tem o mesmo apelo emocional e o próprio elenco é infinitamente menos interessante (como Shailene Woodley faz falta!). De qualquer forma, excetuando comparações, Cidades de Papel é um filme perfeitamente convencional: uma aventura adolescente sobre Quentin (Nat Wolff) um garoto que, apaixonado pela vizinha repentinamente desaparecida (Cara Delevingne), resolve procurá-la com a ideia de que ela deixou pistas justamente para ser encontrada. Neste sentido, Cidades de Papel é um tanto confuso na questão do gênero que segue, começando como um romance adolescente para logo em seguida ganhar tons de mistério, flertar com as comédias colegiais e terminar no drama. A mistura não é das mais harmônicas, deixando o filme fique quase sem personalidade. O que faz mesmo a diferença em Cidades de Papel é o fato de seu desfecho ser dos mais atípicos para produções do estilo. Há grandes chances do grande público desaprovar ou pelo menos considerar estranho o final mais reflexivo e longe de ser romantizado, mas a conclusão mostra uma maturidade rara em histórias populares como essa. Quem dera o cinema acostumasse mais o público com esses encerramentos.

RUTH EM QUESTÃO (Citizen Ruth, 1996, de Alexander Payne): Celebrei Nebraska, de 2013, como o retorno do verdadeiro Alexander Payne. Caso esse filme não existisse, poderia continuar considerando o diretor como um dos mais “domesticados” dos últimos anos. Famoso por sua acidez, por seus personagens atípicos e por tramas com belas doses de comédia e drama, ele vinha cada vez mais caindo na normalidade, e é até estranho lembrar que um longa tão convencional quanto Os Descendentes leve a sua assinatura, por exemplo. Minha teoria se confirmou conferindo Ruth em Questão, o primeiro filme de Payne e também o mais ácido e desafiador de toda a sua carreira. Se você acha Eleição ou até mesmo As Confissões de Schmidt sarcásticos, espere para ver o longa de estreia dele, que, além do afiado drama de Ruth (Laura Dern), jovem inconsequente e presa diversas vezes cheirando cola e até mesmo grafite, coloca no centro de seus conflitos a questão do aborto em dimensões raras no cinema. Ruth em Questão mostra a vida de sua protagonista de forma tragicômica (é o que Payne sempre faz de melhor) e traz um maravilhoso desempenho de Laura Dern solenemente ignorado pelas premiações, conferindo a este longa difícil – e por isso mesmo único – o estilo que Alexander Payne, pouco a pouco, diluiria em seus próximos filmes mas recuperaria de forma admirável em Nebraska.  

SICARIO: TERRA DE NINGUÉM (Sicario, 2015, de Denis Villeneuve): Se existe qualquer semelhança entre Sicario e Traffic, celebrado filme de Steven Soderbergh de 2000, ela para na questão temática. Isso porque o diretor canadense Denis Villeneuve não é inexperiente ao ponto de fazer um filme sem identidade própria. Muito pelo contrário: um dos melhores realizadores de sua época, Villeneuve novamente traz força e disciplina a uma história complexa e que não segue os caminhos esperados dentro do gênero. Até a metade dá para discordar disso, já que é quando Sicario parece apenas um filme sobre estadunidenses investigando um império de drogas na fronteira com o México. Nada de muito novo até aí, com exceção da bela escolha de personagens: os dois agentes escalados para a missão são um homem negro e uma mulher, sendo que ela, vivida por uma Emily Blunt cada vez mais merecedora de papeis fortes e dramáticos como esse, é a mais respeitada de seu segmento e quem dá ordens ao parceiro de trabalho. Por outro lado, aos poucos Sicario vai envolvendo e, no silêncio quase imperativo de sua trama (tudo se revela sutilmente, fazendo com que o espectador tenha que ficar atento aos detalhes), chega até mesmo a sufocar nos momentos derradeiros, mostrando até que ponto vão nossos princípios na busca pela justiça e na nossa avaliação do que é certo ou errado. A direção de Villeneuve é mais consistente que o roteiro do estreante Taylor Sheridan, e as parcerias que ele volta a estabelecer são fundamentais (a perturbadora trilha de Jóhann Johannsson e a fotografia de Roger Deakins são um show a parte), o que amortece eventuais fragilidades da trama, ilustrada ainda por um marcante desempenho de Benicio Del Toro.

Os grandes desempenhos femininos de 2015

O ano de 2015 ainda não chegou ao fim (falta pouco!), mas, parando para analisar, já dá para perceber que a missão de escolher o melhor desempenho feminino desta temporada será um verdadeiro desafio! Temos mulheres protagonistas arrebentando em ação, comédia ácida, drama brasileiro, filme naturalista francês, adaptações e até mesmo em western (esse gênero tão esquecido nos dias de hoje)! Perdeu de conferir alguma delas? Pois resolvemos fazer um apanhado do que vimos de melhor até agora em 2015 envolvendo essas mulheres incríveis, todas em desempenhos que você não pode deixar passar. E também deixamos a pergunta: tem como escolher qual delas é a melhor? A ordem da lista é aleatória.

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Depois de anos e muitas injustiças, Julianne Moore finalmente ganhou um Oscar por Para Sempre Alice, mas seu grande desempenho de 2015 está em Mapas Para as Estrelas. O filme é difícil (e não foi muito bem recebido por aqui), mas sintetiza perfeitamente o tipo de cinema e interpretação que colocou a atriz entre as mais importantes de sua geração. Como a  perturbada atriz Havana Segrand, que vê a possibilidade de voltar a brilhar no cinema depois de anos amargando uma carreira decadente, Julianne Moore se despe de vaidades em um desempenho bastante corajoso. Se o Globo de Ouro inexplicavelmente deu o prêmio de melhor atriz em comédia para Amy Adams por Grandes Olhos, pelo menos temos como consolo (e que consolo!) o fato de Cannes ter premiado Moore por sua atuação no filme de David Cronenberg. Ela não era a melhor na disputa, mas, se tratando dela, isso não vem muito ao caso, especialmente em um filme como esse…

Voltando ao assunto de Cannes, quem realmente merecia o prêmio de melhor atriz no festival francês era Marion Cotillard, que tem mais uma atuação marcante em Dois Dias, Uma Noite. Merecia não só porque seu histórico em Cannes já é longo, mas porque a francesa tem a carreira mais exemplar da atualidade (qual atriz estrangeira equilibra com tanta qualidade trabalhos no seu país de origem e nos Estados Unidos?) e porque ela está realmente fantástica no mais recente filme dos irmãos Dardenne. Como Sandra, mulher que perde o emprego após uma votação que lhe exclui do ambiente para que seus colegas possam receber um bônus de final de ano, Cotillard eventualmente emociona quando não contem o choro, mas impressiona de verdade quando aposta na discrição de uma personagem extremamente crível. Se não fosse por Piaf – Um Hino ao Amor, que é coisa de outro mundo, este certamente seria seu momento mais marcante.

Ainda entre as francesas, Juliette Binoche esteve novamente superlativa em Acima das Nuvens, repetindo um nível de excelência cujo último marco deve ter sido Cópia Fiel. E não está sozinha: acompanhada de uma surpreendente Kristen Stewart, La Binoche forma com a jovem atriz uma das parcerias mais interessantes deste ano. Enquanto a francesa tem obviamente um papel muito mais complicado (a atriz que é chamada para fazer o remake de um filme de sucesso que protagonizou anos atrás, mas agora com um papel diferente), Stewart não se intimida frente à veterana e responde à altura, especialmente nas cenas de ensaio onde realidade e ficção constantemente se confundem. É um trabalho complementar e de pura sinergia que extrai o melhor de cada uma delas.

O cinema ganhou uma nova heroína nos filmes de ação e, de repente, o mundo se tornou um lugar melhor. A saudade dos tempos em que Sigourney Weaver marcou gerações como a forte protagonista da quadrilogia Alien já era grande, mas George Miller veio colocar ordem na indústria machista. Charlize Theron, que funciona muitíssimo bem quando comandada pelos diretores certos, é um verdadeiro ícone em Mad Max: Estrada da Fúria. Tom Hardy fica praticamente de escanteio quando Theron entra em cena e passa a movimentar toda a frenética trama deste filme que também é um marco do cinema contemporâneo. A atriz dá conta do trabalho físico e do drama, com uma interpretação cheia de personalidade e que mostra que a vida na sétima arte seria muito melhor se mais figuras femininas liderassem histórias como essa. Bravo!

A torcida para Regina Casé chegar ao Oscar é grande, e Que Horas Ela Volta? tem tudo para chegar entre os escolhidos da Academia pelo menos na categoria de filme estrangeiro. Só que, na boa, Casé pode até dar um show, mas é impossível lembrar de sua Val sem dar o devido reconhecimento à Camila Márdila como a jovem Jéssica. É mais um trabalho fantástico de duas atrizes na mesma cena em 2015, onde o roteiro de Anna Muylaert dá todas as chances para as duas brilharem: mãe e filha se conhecem e reconhecem em uma história muito brasileira mas ao mesmo tempo bastante universal. A química entre as duas é perfeita, o que proporciona ao filme – já inteligente por si só – momentos realmente belos, tocantes e até mesmo provocadores. No elenco de suporte, Karine Teles também faz bonito como a patroa Bárbara. Que Horas Ela Volta? é o show das mulheres!

Mais uma européia para a lista: a britânica Charlotte Rampling, que está marcante em 45 Anos. Ela foi a única concorrente ao Urso de Prata do Festival de Berlim deste ano que conferi, mas acho difícil contestar a honraria para Rampling, cujo papel é dos mais interessantes: a da agora atormentada esposa que precisa rivalizar com um fato inalcançável do passado de seu marido (Tom Courtenay, também premiado em Berlim como melhor ator). Como boa britânica, Rampling interioriza os sentimentos de sua Kate a cada cena, tornando a angústia da personagem – e consequentemente a nossa – ainda maior diante do novo comportamento do marido. É brilhantismo que talvez só veteranas como ela possam trazer, principalmente em sequências como a de encerramento, bonita por si só mas que ganha uma força inesperada nas mãos de Rampling.

MENÇÕES HONROSAS: Em Dívida de Honra, surpreendente western dirigido por Tommy Lee Jones, Hilary Swank sai da zona de sua zona de conforto para entregar um desempenho firme e ao mesmo tempo delicado | Quase não visto aqui no Brasil, Dois Lados do Amor traz uma Jessica Chastain inspirada na trágica história de um romance despedaçado | Com Ricki and the Flash, Meryl Streep afirma (pela milésima vez) que não existe atriz mais camaleônica do que ela em atividade – e talvez na história! | Emily Blunt é excelente comediante, mas também manda muito bem no drama, e Sicario: Terra de Ninguém lhe dá um dos papeis mais importantes da sua carreira.

45 Anos

So full of history, you see?

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Direção: Andrew Haigh

Roteiro: Andrew Haigh, baseado no conto “In Another Country”, de David Constantine

Elenco: Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Dolly Wells, Geraldine James, Richard Cunningham, Sam Alexander, David Sibley, Max Rudd, Michelle Finch, Kevin Matadeen, Camille Ucan

45 Years, Reino Unido, 2015, Drama, 95 minutos

Sinopse: Kate Mercer (Charlotte Rampling) está planejando a festa de comemoração dos 45 anos de casada. Porém, cinco dias antes do evento, o marido recebe uma carta: o corpo de seu primeiro amor foi encontrado congelado no meio dos Alpes Suíços. A estrutura emocional dele é seriamente abalada e Kate já não sabe se vai ter o que comemorar durante a festa. (Adoro Cinema)

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Nunca defina o britânico Andrew Haigh como um diretor para o público gay. Não é assim que ele quer ser reconhecido. Na realidade, essa nunca foi a sua intenção. É claro que o currículo aponta para um outro caminho: seus dois primeiros longas-metragens, Greek Pete e o ótimo Weekend, falam sobre relações homossexuais e, logo após a realização deles, Haigh foi para a HBO fazer Looking, seriado com a mesma temática. Pura coincidência, segundo ele. Haigh quer ser lembrado, na realidade, como um autor dedicado à complexidade das relações humanas, independente de qualquer definição ou sexualidade. Quem disse isso foi ele próprio, quando exibiu 45 Anos, seu mais recente trabalho, no Festival de Berlim deste ano. No evento, o filme saiu consagrado com os prêmios de melhor atriz e ator para os protagonistas Charlotte Rampling e Tom Courtenay, mas, embarcando na história, logo se percebe que, mesmo que o maravilhoso desempenho da dupla seja um marco, a franqueza dela só seria possível nas mãos de um diretor como Haigh, que compreende que uma simples viagem ao mais íntimo do ser humano pode ser a fonte inesgotável de dramas e reflexões que tantos procuram em circunstâncias mirabolantes. 

Assim como em Weekend, o novo filme de Haigh, baseado no conto “In Another Country”, de David Constantine, se utiliza de uma estrutura das mais inteligentes: a de ambientar todos os acontecimentos em um único recorte de tempo – no caso, os quatro dias que antecedem a festa de 45 anos de casamento de Kate (Rampling) e Geoff (Courtenay). É inteligente porque o diretor sabe que não precisamos acompanhar a vida inteira dos personagens na tela para realmente conhecê-los. O que basta é uma conversa onde Kate diz se arrepender não ter tirado mais fotos com o marido ao longo dos anos ou a forma carinhosa com que lembra da infinidade de animais de estimação que tiveram, fazendo uma clara referência ao fato do matrimônio não ter gerado filhos. 45 Anos se constrói e se explica por meio desses pequenos momentos, e a fórmula funciona ainda mais a partir do momento em que Geoff recebe uma carta que reativa lembranças de uma tragédia de anos atrás. Passando do inesperado romance jovem de Weekend para o relato maduro de um casamento de mais de quatro décadas que entra em uma intensa reflexão, Andrew Haigh não tropeça na significativa transição temática e entrega, em 45 Anos, uma sólida história onde o presente é reinterpretado a partir do passado rumo a um futuro agora incerto.

Sabendo o mínimo possível sobre os detalhes da trama, a experiência de mergulhar nesta repentina reavaliação matrimonial se torna ainda mais envolvente, principalmente porque o roteiro aborda o ponto de vista de Kate e não o de Geoff, que seria o escolhido por praticamente todos os diretores. Se, assim como a protagonista, descobrirmos aos poucos o que envolve a tal mensagem recebida e os efeitos que surgem a partir dela, é bem provável nos sentirmos parte desse mesma viagem incômoda e até mesmo dolorosa. O que basta saber sobre 45 Anos é que inicialmente este parece um filme apenas sobre um dilema envolvendo um anúncio entregue por correio, mas a verdade é que tudo toma proporções bem maiores e delicadas que nos levam a pensar que a vida pode ser simplesmente uma série de jogadas certas ou erradas em um universo de aleatoriedades. Entre coisas não ditas e memórias impossíveis de serem ignoradas, o roteiro também nos lembra da dura verdade que às vezes não há proximidade ou casamento que nos garanta conhecer o outro por completo. 45 Anos parte dessas desconstruções, arquitetando cada momento de forma sempre sutil e silenciosa, especialmente do lado de Kate, que é quem o roteiro e a câmera do diretor escolhem seguir em todas as cenas, sem exceção.

Ao mesmo tempo em que é crível ao mostrar como se configuram relações de longa data, o filme sabe lidar muito bem com cada um dos personagens isoladamente. Enquanto a obsessão de Geoff é perfeitamente compreensível (afinal, quem conseguiria deixar de lado as lembranças de um passado como o dele?), a angústia de Kate passa a tomar conta de nós porque a personagem vive praticamente em silêncio, tentando não demonstrar pensamentos e sentimentos que estão claramente lhe consumindo. E é aí que a experiência e o talento de atores como Courtenay e Rampling fazem toda a diferença. Ela, em especial, é quem domina a cena por ter obviamente mais destaque e o papel melhor explorado, mas vale lembrar que são poucas as intérpretes que conseguiriam interiorizar tantas coisas e ao mesmo tempo transparecer isso ao espectador através de somente um olhar ou um gesto. A condução que a britânica adota para o papel vai de acordo com o próprio filme, que sempre tem um certo nervosismo no ar. Isso é resultado da rotina minuciosa da pacata vida dos personagens, da ambientação em uma casa isolada no interior e do naturalismo com que Haigh imprime à história sem o uso de qualquer intervenção, nem mesmo de trilha instrumental.

45 Anos é destas experiências que ficam com o espectador após o desfecho e que só crescem com o passar do tempo. Ficam as lembranças também porque o filme reserva seu melhor para o último dia que acompanhamos da vida de Kate e Geoff. Faz todo sentido, por exemplo, que, nos momentos finais, eles dancem ao som de Smoke Gets in Your Eyes, do The Platters, uma canção que, inicialmente romântica, pode ganhar uma nova leitura sob à luz desse filme. Trechos dela como “Eles me perguntaram como eu sei que o meu amor verdadeiro é verdadeiro” e “Eles disseram que um dia você vai descobrir que todo o amor é cego” são a narração perfeita para este momento que, graças aos dois atores, torna-se repleto de significados – e o que Rampling faz nos exatos 10 segundos finais é de um verdadeiro assombro. Assim, apesar da decepção que é Looking, Andrew Haigh, pelo menos no cinema, continua como um nome para ficarmos sempre atentos – e, para quem vos escreve, fã de carteirinha de dramas sobre relacionamentos e suas complexidades, um cineasta que desde já cria imensas expectativas por seu próximo trabalho.