Cinema e Argumento

Ator certo, Oscar errado – parte 2

Esta é a segunda parte do nosso especial sobre atores certos que ganharam Oscar pelo papel errado. Cabe reforçar e esclarecer aqui a proposta do post. Não estamos falando da probabilidade de outra pessoa ter vencido em determinado ano, questionando a qualidade do desempenho vencedor ou muito menos nos atendo apenas aos desempenhos indicados ao Oscar de determinado ator para julgar um prêmio equivocado. A lógica é simples: tudo parte do nosso gosto pessoal, da nossa escala de preferência em uma categoria e do quanto achamos que o Oscar em questão realmente simboliza algo para a carreira de um ator. Portanto, nessa seleção em particular, você pode dizer que o Oscar de George Clooney era inevitável (era mesmo, sem dúvida) ou que Morgan Freeman é ótimo ator e está bem em Menina de Ouro (as duas afirmações estão corretas), mas isso não quer dizer que, na nossa avaliação, ambos eram realmente merecedores de festa por esses papeis, seja qual for a “desculpa”. O que conta única e exclusivamente para o Cinema e Argumento nessa série de posts é a excelência dos desempenhos no ano em questão.

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clooneyoscarGeorge Clooney (Syriana – A Indústria do Petróleo, 2006): Como não premiar um astro que começava a dar rumos completamente diferentes para sua carreira? O problema é que, em 2006, George Clooney merecia um Oscar não por sua atuação no complicadíssimo Syriana – A Indústria do Petróleo, e sim pelo auge de sua sofisticação como diretor em Boa Noite, e Boa Sorte. No entanto, ele não tinha chances contra Ang Lee por O Segredo de Brokeback Mountain, e acabou levando a estatueta, como compensação, pelo filme de Stephen Gaghan. A pressa, como sempre, foi inimiga da perfeição: além do tempo ter mostrado que, de fato, Syriana não é nem de longe um dos momentos mais memoráveis do ator, Clooney teve chances muito mais dignas ao longo dos próximos anos. Mesmo que tenha vencido o prêmio como produtor por Argo, o galã poderia ter facilmente levado para casa uma estatueta de melhor ator por seu trabalho em Os Descendentes (Jean DuJardin só ganhou por O Artista justamente em função de Clooney já ter sido consagrado como intérprete) ou até mesmo como roteirista pelo inteligente Tudo Pelo Poder. Roubou o Oscar de: Paul Giamatti (A Luta Pela Esperança), considerando que Jake Gyllenhaal não é coadjuvante em O Segredo de Brokeback Mountain.

judidenchoscarJudi Dench (Shakespeare Apaixonado, 1999): Sou defensor de praticamente todo e qualquer prêmio para Judi Dench, mas não dos que recebeu por Shakespeare Apaixonado. Embalada pelo sucesso do filme, a veterana recebeu a estatueta em mais um daqueles momentos em que o Oscar resolve consagrar, com atraso, uma grande atriz, custe o que custar. Não é exatamente um problema ela ser coroada por um desempenho de oito minutos em um filme de 123 (Viola Davis tem mais ou menos isso em Dúvida e me assombra até hoje), só que sua aparição em Shakespeare Apaixonado parece mais uma curiosidade do que algo fundamental para a construção da história. A própria atriz brincou, ao receber o Oscar, que merecia apenas um pedacinho da estatueta – e com toda razão. Entre tantos papeis diferenciados e dignos do prêmio, merecia ter na estante uma estatueta por um momento mais marcante, seja como a complexa professora de história Barbara Covett de Notas Sobre Um Escândalo (era minha favorita em um ano fortíssimo para as atrizes) ou pela transgressora Laura Henderson, a protagonista de Senhora Henderson Apresenta, que, nos anos 1930, choca toda Londres ao abrir um teatro com espetáculos de nudez (se fosse para perder, que pelo menos Felicity Huffman tivesse a honra de ser derrotada por um ícone como Judi Dench e não por Reese Witherspoon). Roubou o Oscar de: Rachel Griffiths (Hilary & Jackie), a única candidata que conferi e que, mesmo assim, já merecia mais a lembrança.

freemanoscarMorgan Freeman (Menina de Ouro, 2005): Talvez não seja o caso de colocá-lo em uma lista de grandes injustiças do Oscar, mas aí quando você pensa em papeis marcantes de Morgan Freeman, certamente não é Menina de Ouro que a memória puxa. Muito antes, tem Conduzindo Miss Daisy, Um Sonho de Liberdade e Seven: Os Sete Crimes Capitais, só para começo de conversa. Nem no próprio Menina de Ouro o ator é um dos aspectos que reverberam até hoje: o que fica mesmo com o espectador é a direção minuciosa de Clint Eastwood, a força emocional do trágico drama da protagonista e o desempenho excepcional de Hilary Swank. Novamente, lá atrás, vem a lembrança de Morgan Freeman. Por mais que a matemática apontasse uma vitória de Clive Owen por Closer – Perto Demais (ele levou o Globo de Ouro e o BAFTA por sua performance), a aposta em Freeman era uma das mais fáceis daquele ano, já que era uma nova oportunidade dos votantes finalmente darem atenção a um veterano há muito tempo querido pelo público e também pelo próprio Oscar (ele estava na quinta indicação). O ator faz muito bem o feijão com arroz em Menina de Ouro e não é possível dizer que sua performance é sem inspiração (especialmente em um ano não tão forte para a categoria), mas, verdade seja dita, em um filme de emoções complicadíssimas para qualquer um dos intérpretes, seu personagem basicamente não demanda maiores complexidades. Roubou o Oscar de: Clive Owen, que tem a árdua missão de encarnar o personagem mais antipático de Closer.

bridgesoscarJeff Bridges (Coração Louco, 2010): Pouco conheço a carreira de Jeff Bridges (tanto que não conferi nenhuma de suas outras indicações ao Oscar), mas reservo esse espaço para falar de um crime inafiançável que me bate de forma muito particular. Não é difícil constatar que Jeff Bridges ganhou o Oscar por ser um veterano que veio com o papel certo no momento certo para agradar os votantes, mas tanto o papel quanto o momento são altamente discutíveis. Primeiro porque não há novidade alguma no cantor decadente e alcoolista que resolve retomar as rédeas de sua vida, e segundo porque, independente do que a Academia supostamente devia a Jeff Bridges, não existia atuação mais indefectível naquele ano do que a de Colin Firth em Direito de Amar. Dilacerante, o filme representa até hoje o auge da maturidade de Firth como ator, que mergulha com perfeição na generosidade e na camuflada dor de um homem que raramente se mostra de verdade, seja pela sua própria sexualidade em uma época preconceituosa ou pela dor que julga ter que superar em silêncio. Não há correção de injustiça com qualquer ator que justifique a derrota do britânico, simples assim – e, por isso, nem preciso dizer de quem Jeff Bridges roubou o Oscar, certo?

Os vencedores do BAFTA 2016

Nunca escondi que sou um fiel escudeiro do BAFTA, dicaprioinarritumas vou confessar que o prêmio tem me decepcionado bastante nos últimos tempos. Foi-se o tempo em que os britânicos demonstravam autenticidade (ou justa fidelidade ao seu próprio cinema) ao ignorar o circuito indicando um filme como O Segredo de Vera Drake em 11 categorias ou celebrando obras como Desejo e Reparação e A Rainha. Hoje em dia, o BAFTA vai conforme a maré e celebra o que está em voga na temporada. A premiação deste domingo (14) foi mais uma clara prova disso, já que ela se tornou mais uma das tantas que resolveram “reparar” a derrota de Birdman para Boyhood no ano passado. Ao que tudo indica, Alejandro González Iñárritu deve mesmo se tornar o maior diretor da história com O Regresso (afinal, quem conseguiu faturar as estatuetas de filme e direção em dois anos consecutivos ou cinco Oscars em apenas dois anos?), enquanto Brie Larson e Leonardo DiCaprio têm tudo para também levar o prêmio mais cobiçado do cinema para casa.

O que desaponta especificamente no BAFTA é o fato dos votantes terem esnobado por completo o delicado drama Carol, o recordista de indicações da edição deste ano. Primeiro porque o filme está longe de merecer essa esnobação toda do circuito (fraude por fraude, Rooney Mara merece infinitamente mais o favoritismo de coadjuvante do que Alicia Vikander) e segundo porque os britânicos estão acostumados a festejar obras mais “clássicas” e calcadas no emocional (o próprio Boyhood ganhava tinha um afeto indiscutível). O que ainda se conclui com a lista de vencedores é que Mad Max: Estrada da Fúria pode levar menos Oscars do que o esperado: Emmanuel Lubezki também já conquistou o sindicato de fotografia por O Regresso, a categoria de efeitos visuais deve ser o prêmio de consolação para Star Wars: O Despertar da Força e o a lembrança do filme de Iñárritu em melhor som pode muito bem se repetir entre os votantes. Sobre os coadjuvantes escolhidos pelo BAFYA, a consagração de Kate Winslet por Steve Jobs não significa muita coisa, pois Alicia Vikander concorria certeiramente como protagonista por A Garota Dinamarquesa, ao passo que Mark Rylance deve se contentar apenas com a distinção dos britânicos, já que Sylvester Stallone não concorria por Creed: Nascido Para Lutar. Confira abaixo os vencedores:

MELHOR FILME: O Regresso
MELHOR DIREÇÃO: Alejandro González Iñárritu (O Regresso)

MELHOR ATOR: Leonardo Dicaprio (O Regresso)
MELHOR ATRIZ: Brie Larson (O Quarto de Jack)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Kate Winslet (Steve Jobs)
MELHOR FILME BRITÂNICO: Brooklyn
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Relatos Selvagens
MELHOR ANIMAÇÃO: Divertida Mente
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Amy
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Spotlight – Segredos Revelados
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: A Grande Aposta
MELHOR TRILHA SONORA: Os Oito Odiados
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Star Wars: O Despertar da Força
MELHOR SOM: O Regresso
MELHOR MAQUIAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR EDIÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR FOTOGRAFIA: O Regresso
MELHOR FIGURINO: Mad Max: Estrada da Fúria

A Garota Dinamarquesa

You are the only person who made sense of me.

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Direção: Tom Hooper

Roteiro: Lucinda Coxon, baseado no romance “The Danish Girl”, de David Ebershoff

Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts, Adrian Schiller, Amber Heard,  Emerald Fennell, Henry Pettigrew, Jake Graf,  Nicola Sloane,  Pip Torrens

The Danish Girl, Reino Unido/EUA/Alemanha, 2015, Drama, 119 minutos

Sinopse: Cinebiografia de Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. Em foco, o relacionamento amoroso do pintor dinamarquês com Gerda (Alicia Vikander) e sua descoberta como mulher. (Adoro Cinema)

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Na equação de A Garota Dinamarquesa, vários fatores contribuem para que metade do mundo já torça o nariz para o filme antes de vê-lo. O primeiro é Tom Hooper, que passou a ser odiado em função da paixão excessiva do Oscar por seu O Discurso do Rei e que, sim, investe em uma série de maneirismos infundados na tentativa de construir algum estilo. O segundo é Eddie Redmayne, ator que ninguém leva muito a sério por causa da idade e que até hoje é lembrado por ter roubado todos os supostos prêmios de Michael Keaton por Birdman com seu Stephen Hawking em A Teoria de Tudo. Já o terceiro e último é o fato de A Garota Dinamarquesa não ser inclusivo por preferir um jovem ator de Hollywood ao invés de um transexual para o papel principal.

O tema demanda grande delicadeza, e A Garota Dinamarquesa pode respirar aliviado: não é ofensivo ou sequer caricatural o roteiro escrito por Lucinda Coxon. Mesmo que não traga ao set pessoas que possam responder pela verossimilhança da história (ao contrário do seriado Transparent, por exemplo, que coloca transexuais em sua equipe para escrever roteiros e prestar consultoria), é respeitoso o retrato que o filme faz da transição do pintor Einar Wegener (Redmayne) para Lili Elbe, passando com dignidade por etapas importantes, como a primeira vez em que Einar desperta para o seu lado feminino e já mais tarde quando ele, agora Lili, finalmente começa a entrar na sociedade como mulher.

É cuidadosa, especialmente no princípio, a construção de A Garota Dinamarquesa em relação à personalidade de seus personagens e o que isso significa para o futuro deles: em questão de minutos, percebemos o quão frágil e inseguro é Einar, enquanto sua esposa Gerda (Alicia Vikander) é quem coordena as ordens da casa e até mesmo as decisões que o marido deve tomar na vida. Sutilmente, é aí que já percebemos toda a delicadeza de Einar, o que nos tira, em um sentido positivo, maiores surpresas quando a esposa, Gerda, forçando-o a posar para uma pintura de meia-calça e vestido, desabrocha no marido uma certa identidade que sempre esteve viva, mas até então adormecida.

A partir daí, é um caminho sem volta, e A Garota Dinamarquesa nos coloca nessa conturbada angústia do casal quanto à identidade do marido que agora quer assumir a identidade de uma mulher. O que era inicialmente brincadeira, logo se torna um dilema não apenas de identidade para Einar, mas para a própria Gerda, que, ao pintar a versão feminina de seu companheiro, estranhamente começa a ganhar inspiração e finalmente a ascender profissionalmente. Ou seja, o seu tão sonhado sucesso está diretamente ligado ao fato de seu marido ser agora uma mulher, o que torna impossível que a personagem tenha as duas coisas na vida. É um bom dilema para uma mulher que transborda humanidade ao sofrer por estar perdendo alguém, mas também por se dar conta de que não existe maneira de lutar contra aquilo, afinal, a libertação de Einar é o maior bem que ela pode fazer tanto por ela quanto por ele.

O trabalho da dupla protagonista se torna essencial para causar ainda mais empatia no espectador. Vikander começa A Garota Dinamarquesa com mais ênfase do que Redmayne, conquistando conflitos próprios e enfrentando questionamentos que são uma verdadeira saia justa. Ela é ótima ao transmitir a confusão de uma Gerda que parece não saber muito bem até que ponto vai a brincadeira do marido em se vestir de mulher ou muito menos quando ela deve parar de incentivá-la, principalmente quando sua arte ganha até exposições em Paris a partir dos belos quadros realizados com Einar inteiramente travestido de Lili. Vikander é consistente na hora de demonstrar fragilidade (a cena em que ela implora para Lili lhe devolver seu marido é um dos melhores momentos) e sensível ao externalizar a generosidade de uma mulher que coloca o outro em primeiro lugar.

O feito de Vikander conseguir chamar a atenção em cena é grande porque Eddie Redmayne é nada menos do que extraordinário como Einar Wegener/Lili Elbe. Em A Teoria de Tudo já era possível ver o quão impressionante Redmayne é no assunto trabalho corporal, mas aqui a sua transforação física é muito mais ampla dramaticamente porque, ao contrário da personificação de Stephen Hawking, ela dá mais possibilidades ao ator na construção dramática. Com um olhar, Redmayne, já um tipo um tanto andrógeno que facilita a confusão de gênero do personagem, transmite todo o universo de um homem quase-mulher que, de repente, se vê fascinado ao experimentar um vestido, ou a felicidade de uma agora-mulher que é finalmente aceita ao conquistar um emprego. A longa (e criticada) repetição dos mesmos gestos também surge claramente proposital, pois estamos acompanhando a jornada de uma pessoa que precisa reconstruir por inteiro a sua identidade emocional e física.

Tanto Vikander quanto Redmayne engrandecem o filme, procurando amortecer a série de problemas que se instalam a partir do momento em que Einar finalmente assume sua nova condição a partir da metade do filme. É nesse ponto que A Garota Dinamarquesa fica superficial, preocupando-se mais em trocar os vestidos do guarda-roupa desenhado por Paco Delgado a cada cena do que necessariamente discutir o que se passa na mente de Einar agora Lili. Desta forma, o roteiro de Coxon apenas reproduz questões já debatidas e retoma quase de forma displicente personagens esquecidos, como o Henrik de Ben Whishaw. Isso faz com que o filme patine, tornando pouco impactante até mesmo o tão esperado momento em que o protagonista, depois de diagnosticado esquizofrênico e até mesmo espancado nas ruas, finalmente encontra uma alma compreensiva que concorda em fazer a sua cirurgia de troca de sexo.

Tom Hooper, aqui mais comedido em relação a seus enquadramentos estranhos, é quem menos imprime alguma identidade ao resultado, o que é estranhamente positivo no caso dele, visto que o diretor constantemente tende a chamar mais atenção do que deveria quando tenta colocar na tela alguma identidade na tela. Com isso, o que fica na lembrança mesmo é que, apesar boa dignidade e respeito por seus personagens, A Garota Dinamarquesa vale mais como o show de dois jovens atores em papeis complicados, mas tratados por eles com o devido talento e sutileza. Isso por si só já deveria ser um incentivo para que os implicantes deixassem de lado suas eventuais birras e percebessem as pequenas mas significativas vitórias de A Garota Dinamarquesa.

Melhores de 2015 – Edição/Mixagem de Som

Melhor Edicao-Mixagem de Som - Mad Max

O trabalho de som tem papel fundamental em Mad Max: Estrada da Fúria pelas mais variadas razões. A mais óbvia, claro, é ser uma das ferramentas que ajudam o filme de George Miller a explorar os sentidos do espectador – e, nesse sentido, o quinteto formado por Ben Osmo, Chris Jenkins, David White, Gregg Rudloff, e Mark A. Mangini é superlativo ao nos mergulhar em toda a adrenalina da jornada da icônica Imperatriz Furiosa (Charlize Theron). Por outro lado, também é válido reconhecer o fato de que o som de Mad Max é inteligentemente dosado, afinal, são muitos os filmes de ação frenética que chegam a dar dor de cabeça tamanha a agressão aos ouvidos do espectador. Transformers está aí como prova. Felizmente, tudo relacionado a esse segmento em Mad Max é de tirar o chapéu. Ainda disputavam a categoria: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), Sniper Americano, Star Wars: O Despertar da Força e Whiplash: Em Busca da Perfeição.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Até o Fim | 2013 – Gravidade | 2012 – 007 – Operação Skyfall | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Ator certo, Oscar errado – parte 1

Este não é um post sobre tradicionais injustiças do Oscar envolvendo atores, afinal, todo mundo sabe que Gwyneth Paltrow não mereceu levar o prêmio por Shakespeare Apaixonado ou que Reese Witherspoon roubou o Oscar que deveria ser de Felicity Huffman. Motivado pela minha sessão de ontem do filme O Regresso, resolvi fazer essa pequena seleção de atores que ganharam o Oscar pelo papel errado. Sim, DiCaprio está prestes a ganhar o prêmio por razões preguiçosas, e minha lista explicará melhor isso ao longo dos próximos posts, mas ele não está sozinho: são vários os ótimos atores que, com uma infinita lista de bons papeis no currículo, foram coroados por momentos bastante desinteressantes. Às vezes, acontece para corrigir justamente as injustiças do passado, enquanto em outros casos é a pressa em celebrar um profissional reconhecidamente talentoso e em ascensão que precisa dos holofotes. Com isso, muitos atores queridos finalmente levam o prêmio, mas pelo papel errado. Eis, nessa primeira parte do post, alguns deles.

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Actress Julianne Moore poses with her Oscar for best actress for her role in "Still Alice" the 87th Academy Awards in Hollywood, California February 22, 2015. REUTERS/Lucy Nicholson (UNITED STATES TAGS:ENTERTAINMENT) (OSCARS-BACKSTAGE) - RTR4QPH7Julianne Moore (Para Sempre Alice, 2015): Poucas atrizes têm um currículo com personagens tão transgressoras e atuações minimalistas à altura, mas Julianne Moore foi ganhar logo por um dos papeis mais óbvios de toda a sua carreira. Ela é sempre ótima e faz o tema de casa em Para Sempre Alice, só que, nele, não existe desafio algum para atriz, que já interpretou uma atriz pornô em Boogie Nights e uma dona de casa dos anos 1950 que precisa lidar com a homossexualidade do marido em Longe do Paraíso, para citar somente dois trabalhos mais complexos. E o mais triste desse Oscar é que, neste mesmo ano, ela tinha um trabalho infinitamente melhor que trazia na bagagem o prêmio de melhor atriz em Cannes: o ácido Mapas Para as Estrelas, que sintetiza perfeitamente o que Julianne Moore é no cinema. Na TV, pelo menos, ganhou todos os prêmios da vida pelo papel certo: o da política republicana Sarah Palin em Virada no Jogo. Já na tela grande, merecia ter vencido por Boogie Nights, As Horas e Longe do Paraíso (isso mesmo, na minha lista ela já teria três estatuetas!). Roubou o Oscar de: Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite) e Rosamund Pike (Garota Exemplar).

Rreneeoscarenée Zellweger (Cold Mountain, 2004): Reza a lenda que Renée Zellweger rasgou seu vestido depois de ter perdido o Oscar de melhor atriz em 2003 por Chicago. Na realidade, ela deveria ter rasgado quando venceu o prêmio por Cold Mountain, já que a tragédia foi grande: a) o filme está longe de representar algo expressivo na carreira da atriz, b) Renée está mais do que caricata nele, c) o prêmio foi pura consolação, tanto para ela após inúmeras indicações quanto para o filme que não levou nenhuma outra estatueta, e d) a maldição do Oscar se concretizou e ela nunca mais conseguiu segurar sua carreira. Para uma intérprete que transitou com tanta excelência entre o drama e a comédia e entre o popular e o autoral, esse foi mais um prêmio entregue no automático por um papel perfeitamente esquecível mas que caiu no formato que o Oscar adora premiar erroneamente (e isso que nem entramos nos méritos de Cold Mountain ser uma obra tediosa). Roubou o Oscar de: qualquer uma das outras indicadas, mas tenho um carinho especial por Shoreh Aghdashloo (Casa de Areia e Névoa) e Patricia Clarkson (Do Jeito Que Ela É).

blanchettoscaraCate Blanchett (O Aviador, 2005): Cate Blanchett é rainha, e isso é indiscutível. Por isso que sua primeira grande consagração (levanto as mãos para os céus e agradeço que houve uma segunda por Blue Jasmine!) até hoje soa tão frustrante. Ela empresta, claro, a sua incomparável elegância à Katharine Hepburn em O Aviador, o que infelizmente não chega a representar o melhor do que a atriz realmente é capaz de fazer. Tenho infinitos problemas com o sonolento filme de Martin Scorsese, mas o trabalho de Blanchett aqui realmente fica longe de outras interpretações suas como a de Elizabeth e Não Estou Lá. Sou defensor ferrenho até mesmo de sua subestimada performance como a frustrada e confusa professora de artes Sheba Hart de Notas Sobre Um Escândalo. Foi outra coroação errada que aconteceu pelos motivos errados: primeiro para consagrar a injustiça de ter perdido por Elizabeth e segundo por ser uma atriz em franca ascensão. Se estivessem esperado um pouquinho mais, poderiam ter ficado sem essa, pois o que não faltou posteriormente foi uma carreira digna de Blanchett para se consagrar. Roubou o Oscar de: Natalie Portman (Closer – Perto Demais) e Sophie Okonedo (Hotel Ruanda).

jlawoscarsJennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida, 2013): Hoje a nova queridinha da América já é um caso à parte porque sua superexposição e supervalorização em todo e qualquer prêmio já dificultam qualquer avaliação menos passional. Por outro lado, é uma verdade absoluta para mim que seu Oscar de melhor atriz por O Lado Bom da Vida foi equivocado e prematuro. Sempre defendo o reconhecimento para papeis cômicos, mas não existe nada de tão especial no que ela faz no filme de David O. Russell para uma grande honraria como essa. Certamente venceu porque era uma estrela que começava a nascer e porque precisava ter recompensado o Oscar que mereceria vencer por Inverno da Alma caso não tivesse a imbatível Natalie Portman no seu caminho com Cisne Negro. E é bom lembrar que um hit como Jogos Vorazes sempre ajuda (e seria até mais digno Lawrence ter sido premiada pela saga, algo muito mais simbólico em sua carreira). Pena que não esperaram mais um pouco, pois é certo que a jovem estrela ainda terá muitas oportunidades pela frente… E mais interessantes. Roubou o Oscar de: não era um ano excepcional, mas tinha Emmanuelle Riva por Amor e até mesmo a garotinha Quvenzhané Wallis por Indomável Sonhadora (sei que estou sozinho nessa).