Cinema e Argumento

Comentando os indicados e os favoritos ao Oscar 2016 – parte 1

inarrituoscar16Não existe diretor mais poderoso atualmente do que Alejandro González Iñárritu. Prestes a entrar também no mundo da TV (ele atua em todas as frentes de The One Percent, drama estrelado por Hilary Swank e Ed Harris), o mexicano desbancou o favoritíssimo Boyhood no Oscar 2015 levando as estatuetas de filme, direção e roteiro para casa com Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Agora, em 2016, ele tem tudo para fazer história como o primeiro diretor em 88 anos de Oscar a vencer consecutivamente as categorias de melhor filme e direção com O Regresso. Mas, afinal, de onde vem esse poder? Ora, em qualquer tempo ou espaço, um filme como O Regresso seria amplamente celebrado: a produção em grande escala é invejável, a ambição técnica dispensa comentários e toda a logística das filmagens é puro chamarisco que carrega a ideia de que excelência cinematográfica está diretamente associada a sofrimento nos bastidores. Não tenha dúvidas: filmes que rendem matérias como “rodado todo com luz natural” e “Leonardo DiCaprio comeu carne mesmo sendo vegetariano” são certeiros para fisgar mídia, público e votantes. Boyhood, de certa forma, bebeu dessa mesma fonte ano passado ao ganhar praticamente todas as premiações televisionadas com sua manchete de produção gravada ao longo de 12 anos. No entanto, o filme de Richard Linklater mas não foi páreo para os longos planos-sequências de Birdman no Oscar. Afinal, independente da fórmula, os votantes da Academia não são afeitos a dramas naturalistas.

Já que Boyhood papou quase todas as listas anteriores ao Oscar no ano passado e que Iñárritu está de volta em 2016 com um filme certeiro para consagrações, prêmios como Globo de Ouro e BAFTA resolveram não ficar atrás e compensaram a esnobada passada no mexicano. Vejam que poder: Iñárritu ganha o Oscar e ainda retorna para conquistar todas as estatuetas que não venceu por Birdman! Nessa “reparação” dos prêmios, obviamente se criou o buzz de que o diretor tem tudo para fazer dobradinha esse ano. E será mesmo que a previsão vinga? O que parece mais provável até aqui é o Oscar confirmar a lógica que se instalou em basicamente todos os anos na era pós-Crash: deixar as surpresas de lado para evitar polêmicas, baixar a cabeça, seguir a matemática e concordar com todo mundo. Mas não custa sonhar que a Academia seja milagrosamente autêntica e prove que não deve nada ao diretor, abrindo espaço para filmes como A Grande Aposta (vencedor do Producers Guild Awards) e, em um grau bem menor, Spotlight – Segredos Revelados (que tem na bagagem o Critics’ Choice Awards e o Screen Actors Guild Awards). Agora, por que não Mad Max: Estrada da Fúria, que vem com 10 indicações, carrega uma unanimidade incomparável e tem uma escala de produção tão digna quanto a de O Regresso? Muito simples: Mad Max é ficção, filme de “entretenimento”, e isso não é levado a sério na hora do voto. No entanto, se o Oscar quisesse fazer a sua melhor manobra em décadas, o longa de George Miller seria a escolha perfeita para trazer de volta ao prêmio um amor de público e crítica que há tempos lhe está muito, mas muito distante.

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MELHOR ATRIZ

O reinado absoluto de Charlotte Rampling

Vamos ser francos: Charlotte Rampling disse bobagem – e não foi só ela. Com a história de que os brancos estavam sofrendo “racismo inverso”, a veterana britânica afundou as poucas chances que já tinha na categoria de melhor atriz com seu desempenho em 45 Anos. Ela tentou ser esperta e corrigir o que disse, mas já era tarde demais. O que só realmente não vale é diminuir seu magnífico desempenho no filme de Andrew Haigh em função dessa declaração estapafúrdia (sempre gosto de acreditar que a humanidade sabe separar o que está dentro ou fora das telas). Sabe-se lá como apenas o Oscar, em um surto repentino de inteligência, lembrou de sua atuação, que é, disparada, a melhor entre as indicadas. Protagonista absoluta de 45 Anos, Rampling tem a difícil missão de externalizar apenas em olhares os sentimentos sufocados de uma mulher assombrada pelo passado e em pleno sofrimento interno.

A concorrência de Rampling é relativamente boa, já que Saoirse Ronan brilha do início ao fim em Brooklin e Cate Blanchett é novamente deslumbrante e cheia de nuances em Carol. As três são superiores à favorita Brie Larson, que, em O Quarto de Jack, tem seu show quase ofuscado pelo brilhante Jacob Tremblay, que sequer está indicado a qualquer coisa – e talvez seja por isso que considero o futuro Oscar de Brie questionável: todo o filme se sustenta, em emoção e narrativa, na figura do garotinho. A pisada na bola dessa seleção é mesmo a injustificável indicação de Jennifer Lawrence, uma vez que nem as premiações compraram direito o mediano Joy: O Nome do Sucesso. Volto a dizer que a garota é boa, mas, no novo filme de David O. Russell, não existe nada que ela já não tenha nos mostrado antes. É preciso parar com essa superexposição da moça, afinal, existia uma Charlize Theron emblemática na fila para conquistar uma lembrança por Mad Max: Estrada da Fúria.

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MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Os extremos das fraudes

Tudo bem que a temporada de premiações não passa de uma corrida movida a ego na indústria e que os estúdios praticamente se digladiam para conquistar qualquer estatueta no Oscar, mas esse ano abusaram do nosso bom senso. Pior ainda: chega a ser desestimulante ver que tanta gente embarca em qualquer fraude vendida por aí. Não há o que ser contestado: Rooney Mara (Carol) e Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa) simplesmente não são coadjuvantes em seus respectivos filmes – e talvez tenham até mais tempo em cena do que seus colegas indicados a protagonistas. Por isso, em uma análise qualitativa da categoria, a balança fica distorcida, pois é de uma injustiça absurda comparar verdadeiras coadjuvantes a protagonistas que têm muito mais tempo e chances em cena para brilhar. Não só Vikander e Mara foram indicadas como a primeira está na dianteira para levar o prêmio.

Se é para consideramos as fraudes, Rooney deveria ser a unanimidade. Vikander é excelente em A Garota Dinamarquesa, mas o trabalho de Mara é muito mais complicado e menos novelesco. Como Therese Belivet, uma jovem que abre os olhos para o mundo ao se apaixonar por uma mulher madura, ela capta com grande excelência a transição de uma menina apaixonada para uma mulher consciente de todos os seus atos e sentimentos. Já entre as verdadeiras coadjuvantes, Jennifer Jason Leigh tem o papel mais marcante com Os Oito Odiados, enquanto Kate Winslet, que vem coladinha em Vikander na disputa pelo prêmio, dá a volta por cima na sua carreira inexpressiva dos últimos anos com um ótimo desempenho em Steve Jobs. O que não dá para entender na seleção é o nome de Rachel McAdams entre as indicadas, afinal, nem se quisesse ela teria material para brilhar em Spotlight. Querer a lembrança de Kristen Stewart (Acima das Nuvens) seria ter fé demais no bom gosto dos votantes, mas não é difícil pensar em outras prováveis candidatas melhores do que a eterna Regina George de Meninas Malvadas

Melhores de 2015 – Elenco

Melhor Elenco - Birdman

É sempre admirável quando um filme consegue tirar o melhor proveito de seus atores, seja dos que protagonizam a história ou daqueles que aparecem brevemente em cena. Birdman se enquadra nesse grupo não simplesmente por ter atores talentosos por todos os cantos, mas por saber aproveitá-los. Se a ironia de ter Michael Keaton interpretando um sujeito de carreira decadente tentando dar a volta por cima é perfeitamente funcional, nomes como Zach Galifianakis e Amy Ryan se destacam em poucas cenas com versatilidade (é o caso dele) ou simplesmente por serem realmente ótimos com qualquer texto (Ryan prova mais uma vez que merecia chances melhores no cinema). E o que falar de Edward Norton totalmente ensandecido como o egocêntrico ator substituto que chega ao espetáculo encenado pelo filme? Ou de Naomi Watts, tão maravilhosa e subestimada como uma atriz insegura que está prestes a pisar pela primeira vez em um palco da Broadway? Mesmo Emma Stone, ovacionada em excesso com indicações para todos os prêmios por seu trabalho aqui, tem uma cena especial: aquela em que enfrenta o pai, acusando-o de estar alheio ao mundo a sua volta. Ainda disputavam a categoria: Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo, Mapas Para as Estrelas, Que Horas Ela Volta? e Sicario: Terra de Ninguém.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

O Regresso

As long as you can still grab a breath, you fight.

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Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu e Mark L. Smith, baseado no livro “The Revenant”, de Michael Punke

Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy,  Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Lukas Haas, Paul Anderson,  Kristoffer Joner, Joshua Burge, Duane Howard, Melaw Nakehk’o,  Fabrice Adde, Arthur RedCloud, Christopher Rosamond, McCaleb Burnett

The Revenant, EUA, 2015, Drama, 156 minutos

Sinopse: 1822. Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) parte para o oeste americano disposto a ganhar dinheiro caçando. Atacado por um urso, fica seriamente ferido e é abandonado à própria sorte pelo parceiro John Fitzgerald (Tom Hardy), que ainda rouba seus pertences. Entretanto, mesmo com toda adversidade, Glass consegue sobreviver e inicia uma árdua jornada em busca de vingança. (Adoro Cinema)

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Não deixa de ser um desafio conferir O Regresso e se focar naquilo que define o julgamento de qualquer filme: a sua unidade. Desde que passou a realizar um cinema de maior escala e estilo consideravelmente ambicioso em Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), o mexicano Alejandro González Iñárritu tem desviado a atenção do espectador para detalhes que não deveriam resumir as suas obras. É óbvio que a curiosidade despertada por uma infinidade de planos-sequência no próprio Birdman, por exemplo, é uma forte sedução para as premiações (não à toa, Iñárritu ganhou os Oscars de filme, direção e roteiro), mas a verdade é que existe muito mais a ser dito sobre seu cinema, pelo menos nesse filme. Já O Regresso segue basicamente a mesma lógica, com a diferença de que, ao contrário do excepcional Birdman, essa aventura aos confins do primitivo humano em paisagens aterradoras talvez não diga muito além do indiscutível primor de técnica e estilo.

Se não bastasse o filme por si só ser imponente e nos fazer questionar como os atores filmaram em condições tão adversas ou como Iñárritu posicionou a câmera aqui ou ali, a equipe fez questão de, em todas as suas entrevistas, falar sobre como foi difícil realizar uma obra de tal magnitude. Enquanto Leonardo DiCaprio versa sobre como deixou até seu vegetarianismo de lado para comer carne com o objetivo de entrar por completo no personagem, o diretor expõe os desafios logísticos de gravar em diversos pontos do Canadá e da Argentina somente com luz natural. Isso quer dizer que, de um jeito ou de outro, é praticamente impossível ir à sessão de O Regresso sem se ater a tantas curiosidades. O que muitas pessoas esquecem, por outro lado, é que sofrimento não é necessariamente sinônimo de excelência para um filme como um todo. Assim, a experiência pode mesmo ser impressionante do ponto de vista técnico, mas onde está o nosso envolvimento mais íntimo com ela?

Contemplativo a ponto de emular obras como Árvore da Vida, especialmente no uso de trilha e fotografia para colocar personagens em comunicação com a natureza, O Regresso vai realmente impressionar pelo seu empenho técnico, e isso não há como ser negado. Desde o início, podemos tirar o chapéu para um nervoso ataque indígena coreografado em longas tomadas ou para o talento do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki ao capturar, com um realismo assustador, a agressiva imponência de uma natureza que torna qualquer ser humano insignificante. E até o fim o filme estupefata por seu ambicioso atrevimento de jogar Leonardo DiCaprio em infinitas correntezas, em quase enterrá-lo vivo ou até mesmo em fazê-lo dormir dentro de um cavalo morto. Os defensores dirão que Iñárritu quer falar sobre os extremos da primitividade humana em circunstâncias impossíveis (e isso é muito claro para qualquer espectador), mas mexer com o espectador ao encenar os constantes sofrimentos de nosso herói é fácil. O que falta é conexão emocional com a sua jornada pessoal, principalmente se tratando de um filme de quase três horas de duração.

O que não deixa de frustrar em O Regresso é ausência de uma maior consistência no roteiro escrito pelo próprio Iñárritu em parceria com Mark L. Smith. Talvez por alongar demais a adaptação parcial do livro The Revenant, escrito por Michael Punke, fica a sensação de que pouco acontece no filme, que é apenas uma simples e silenciosa história de um homem sobrevivendo para arquitetar uma vingança. A certa limitação do texto desaponta porque Birdman era um espetáculo completo: além de inventivo na técnica, conseguia falar inteligentemente sobre a indústria do teatro e do cinema e ainda proporcionar papeis ricos a seus atores. Em O Regresso o cenário é outro, já que Leonardo DiCaprio só pode se entregar mais de corpo do que de alma a um personagem de arco dramático limitadíssimo e Tom Hardy apenas repete – com excelência, é verdade – o tipo voraz, intempestivo e amedrontador de filmes como Guerreiro. Sendo assim, por mais que a trilha de Ryûichi Sakamoto e Alva Noto seja outro aspecto de destaque nessa viagem técnica admirável, O Regresso, infelizmente, nunca chega a ser um espetáculo de emoções.

Rapidamente: Anomalisa, Boi Neon, Ex-Machina, Maze Runner: Prova de Fogo e Ponte dos Espiões

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Melancolia, sexo, nudez frontal e uma versão de cortar o coração de “Girls Just Wanna Have Fun”: Anomalisa é uma das animações mais diferentes e realistas que você vai ver em muito tempo.

ANOMALISA (idem, 2015, de Charlie Kaufman e Duke Johnson): Claro que são estilos extremamente distintos, mas Anomalisa não deve absolutamente nada a Divertida Mente, a animação mais unânime realizada em anos. Aqui o público é outro pois Anomalisa leva a assinatura de Charlie Kaufman, um diretor de ideias e formas atípicas. Em seu novo trabalho, ele aposta novamente em toda a rejeição à convencionalidade ao contar uma história melancólica. Para embarcar mesmo no clima, é preciso entender que a amargura com que Michael (voz de David Thewlis) enxerga cada aspecto do cotidiano não é gratuita ou uma mera atitude rabugenta, mas sim reflexo de uma vida já cansada, estagnada e ainda afetada por escolhas erradas do passado. É quando o nosso protagonista encontra Lisa (magnífica voz de Jennifer Jason Leigh) que o jogo muda: enquanto ele volta a desabrochar para a vida, ela, que não acredita que possa ser interessante para qualquer pessoa, começa a descobrir felicidades até então desconhecidas. Adulta, a animação encena sexo e nudez frontal com a maior naturalidade possível, alcançando momentos realmente tocantes em uma bela sequência dos personagens em um quarto de hotel (acredite: você nunca mais conseguirá ouvir Girls Just Wanna Have Fun, da Cindy Lauper, sem ter um nó na garganta). Pode até ser que Kaufman perca um pouco a mão no terço final, descambando demais para a loucura e deixando o coração de lado, mas, no geral, a impressão que Anomalisa deixa é uma das mais tocantes.

BOI NEON (idem, 2015, de Gabriel Mascaro): Boi Neon viajou de Toronto a Veneza e aqui no Brasil foi eleito o melhor filme pelo júri oficial do Festival do Rio em 2015. Ainda assim, não foi o suficiente para que ganhasse uma distribuição digna nos cinemas brasileiros, onde nem mesmo o circuito alternativo abraçou a obra com muita perseverança. A situação é compreensível, já que o filme de Gabriel Mascaro é mais sobre personagens do que sobre situações, e indo mais além: é uma história sobre um determinado grupo de pessoas em uma região muito específica. É uma pena, porém, que o público não tenha tido as devidas chances de conferir essa obra que desenha a questão da identidade de gênero com um pincel muito fino (é maravilhoso o personagem de Juliano Cazarré, que veste camisa rosa e é apaixonado por costura, mas que nunca balança a nossa certeza sobre a sua sexualidade), além de encenar o sexo de forma bastante transgressora (a longa transa com uma mulher grávida pode ser até mesmo angustiante para os espectadores mais sensíveis). Boi Neon funciona como cinema de autor, estudo de personagens e um fiel registro da geografia brasileira, especialmente a nordestina. Para seu público-alvo, é uma experiência bastante recompensadora.  

EX-MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL (Ex Machina, 2015, de Alex Garland): Chegou discretamente em home video aqui no Brasil, mas já tem uma carreira consolidada no circuito alternativo, o que deve lhe garantir o status de filme cult pelos próximos anos. O que existe de mais precioso neste primeiro longa dirigido por Alex Garland é a sua ambientação insegura. Apesar dos ambientes cheios de tecnologia e segurança, parece que sempre algo está prestes a acontecer na isolada casa em que estão os personagens. Muitas das figuras em cena corroboram essa sensação que também não deixa de assombrar Caleb (Domhnall Gleeson, um ator estranho e exótico à la Eddie Redmayne que certamente terá um grande papel no futuro), em especial a Ava de Alicia Vikander, uma vez que Oscar Isaac frequentemente escorrega nos exageros para construir um personagem que deveria ser cheio de dubiedades. As discussões já são antigas (os robôs podem ter humanidade? Um dia eles circularão entre nós sem que consigamos distingui-los?), mas o que quase derruba Ex Machina é mesmo o desfecho com furos indesculpáveis (ainda tento entender como se deu com tanta naturalidade a busca do helicóptero) e um joguinho super clichê de reviravoltas onde um personagem tenta mostrar ao outro quem é mais esperto.  

MAZE RUNNER: PROVA DE FOGO (Maze Runner: The Scorch Trials, 2015, de Wes Ball): Maze Runner é puro entretenimento e faz questão de assumir isso, o que quer dizer que a saga dirigida por Wes Ball não tem muita preocupação em se levar a sério com metáforas políticas e sociais. O importante é a diversão. O primeiro filme era mais introdutório, e Prova de Fogo, a continuação, realmente abraça por completo a ideia de adrenalina. Por um lado, Maze Runner tem muito a ganhar com essa escolha, já que é muito melhor ser descompromissado do que pretensioso – e, para quem compartilha tal ideia, é fácil embarcar nas correrias incessantes e em sequências indiscutivelmente nervosas, como aquela em que uma personagem fica à beira de um abismo sustentada apenas por um chão de vidro prestes a rachar. Por outro, o filme se resume a uma correria sem fim, tornando-se uma espécie de videogame cansativo onde os personagens precisam enfrentar um novo vilão ou desafio a cada fase. No fim, Prova de Fogo é a clássica diversão de momento, e é bem provável que a sessão acabe e você já nem lembre direito do (pouco) que aconteceu em termos práticos.

PONTE DOS ESPIÕES (Bridge of Spies, 2015, de Steven Spielberg): Um cineasta como Steven Spielberg não deveria estar trilhando uma carreira tão desinteressante como a dos últimos anos. A aposta do diretor em filmes mais históricos e políticos como Cavalo de Guerra, Lincoln e agora Ponte dos Espiões certamente atrai uma ala mais tradicional, mas deixa muito a desejar na questão de trazer o diretor fazendo o seu melhor. No caso deste último, em particular, surpreende como não apenas a direção de Spielberg se limita a aproveitar com proeza o excelente design de produção e a envolvente fotografia mas também como o roteiro escrito pelos irmãos Coen em parceria com Matt Charman engana o espectador ao nunca entregar uma reviravolta sequer em uma história que sugere a possibilidade de novos rumos o tempo inteiro. Com seis indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, o previsível Ponte dos Espiões é bem produzido, mas excessivamente morno e linear. Nem uma obra complicada chega a ser, o que só aumenta a sensação de que realmente a pior sensação que um filme pode deixar é a de indiferença.

Melhores de 2015 – Fotografia

Melhor Fotografia - Macbeth

Adam Arkapaw tem uma infinidade de trabalhos como diretor de fotografia em curtas-metragens, mas a sua credencial definitiva como o profissional ideal para esse segmento de Macbeth: Ambição e Guerra foi a trajetória em seriados e minisséries como Top of the Lake e True Detective, programas que, curiosamente, refletem, assim como o texto de Shakespeare no qual o filme é baseado, a ideia de que não existe nada mais sombrio na vida do que a própria mente humana. As escolhas de Arkapaw não são unânimes: há quem considere óbvio o uso das cores e a forma como as lentes exploram o design de produção. Particularmente, senti o oposto, e fui submerso (ou seria sufocado?) pela fotografia, seja quando Arkapaw enquadra lady Macbeth (Marion Cotillard) sorrateiramente atrás de seu marido, representando a figura aparentemente secundária mas manipuladora que ela é ou quando assombra o espectador ao fazer um personagem desaparecer em uma paisagem avermelhada que claramente remete ao inferno que destruiu todo um reino. Ainda disputavam a categoria: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), Mad Max: Estrada da Fúria, Sicario: Terra de Ninguém e Sr. Turner.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Ida | 2013 – Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira