Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Allan Souza Lima

allantresO nosso novo convidado da coluna marca presença dupla no Festival de Cinema de Gramado deste ano. Além de integrar o elenco de Aquarius, que será exibido fora de competição, Allan Souza Lima está na disputa pelo Kikito com o curta-metragem O Que Teria Acontecido ou Não Naquela Calma e Misteriosa Tarde de Domingo no Jardim Zoológico, dirigido (em parceria com Gugu Seppi), escrito e protagonizado por ele. Foi justamente com o interesse pela direção que Allan montou a produtora Ikebana Filmes para contar suas próprias historias, chegando agora a esse terceiro curta-metragem que concorre no festival serrano. Atualmente, ele, junto com a sua sócia, a produtora executiva Fernanda Etzberger, também vem se preparando para rodar, no próximo ano, seu primeiro longa-metragem como ator e diretor. Quanto às escolhas do nosso convidado, é possível encontrar desde desempenhos que ilustram filmes icônicos como Laranja Mecânica a outros criados por grandes atores como Daniel Day-Lewis. Além disso, Björk conquista seu bicampeonato aqui na coluna por sua atuação em Dançando no Escuro. Conheçam, abaixo, as escolhas do Allan:

Malcolm McDowell (Laranja Mecânica)
O primeiro da lista é o personagem Alex, interpretado pelo ator Malcolm McDowell, no filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Além de eu ser um eterno admirador da obra do Kubrick, esse filme mexeu comigo desde a primeira vez que eu vi. Para mim, é um dos mais característicos e um dos mais polêmicos filmes existentes. É aquele filme que você vê um slogan e lembra toda a sua historia. Um filme que trouxe uma grande polemica na época pelas suas cenas de sexo e de brigas ao som da 9º Sinfonia de Beethoven. Uma verdadeira genialidade o personagem usar seu “horrorshow” ao som da música clássica de Beethoven. O que vemos no filme é a pura realidade do retrato da nossa sociedade narcisista e fascista, com alguns toque exagerados ou não, que dão a conotação sarcástica ao longa. Sem falar do maravilhoso trabalho que o Kubrick conseguiu, junto ao ator, de chegar à perfeita interpretação do personagem Alex. Digamos que um pouco exagerado, mas completamente condizente com a linguagem e a proposta instaurada do inicio ao fim. Como ator, digo que é um dos mais incríveis e excêntricos personagens criados no cinema.

Daniel Day-Lewis (Meu Pé Esquerdo)
Sou um fã e admirador incondicional do ator Daniel Day-Lewis. Sem sombra de dúvidas, para mim, é o melhor de todos os atores. Claro que é muito difícil ficar comparando o trabalho de um com o de outro, mas,o que vejo de mais belo nesse ator é o processo de entrega que ele tem para com os seus personagens. A intensidade e a densidade que ele busca para criá-las são fantásticas e elas são tamanhas que o próprio ator, imerso em uma personagem,  quebrou, pelo esforço excessivo, duas costelas durante as filmagens por assumir a posição de corcunda em sua cadeira de rodas durante semanas de filmagens. Esse é Christy Brown, maravilhoso papel de Daniel Day-Lewis no filme Meu Pé Esquerdo. Acredito que seja o trabalho de ator junto a personagem mais incrível no cinema. O processo de criação realmente foi bem desgastante: o ator ficou quase um ano vivendo Christy intensamente. Reza a lenda que o próprio Day-Lewis propôs ao diretor que só começaria as filmagens quando ele, de fato, conseguisse fazer uma pintura com seu pé esquerdo. Estudando a trajetória dele, é um ator que, comparado a outros, fez pouquíssimos filmes. Em media, fez um a cada dois anos, além de escolher bem seus personagens. Além do grande personagem nesse filme, com certeza, é o melhor ator de todos os tempos.

Björk (Dançando no Escuro)
Para finalizar, também fazendo parte da minha lista de cabeceira, sem sombra de dúvida, esse filme não poderia deixar de ser comentado. Qual foi a atriz que, numa das brigas com um diretor, simplesmente rasgou todo seu figurino e foi embora sem deixar rastro, voltando dias depois para as filmagens? A personagem Selma Jezkova, interpretada pela atriz e cantora Björk. Um processo bastante intenso e conflituoso durante todo o processo de filmagem do filme Dançando no Escuro, dirigido pelo polêmico Lars Von Trier. Processo este que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes. Não lembro de outro filme que uma personagem feminina tão densa tenha me tocado tão profundamente como a de Björk nesse filme, que é um verdadeiro soco no estômago.

44º Festival de Cinema de Gramado #2: “Aquarius”, os filmes concorrentes e homenagens

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De Cannes para a Serra Gaúcha: Aquarius abre o Festival de Cinema de Gramado, enquanto Sônia Braga é a grande homenageada do troféu Oscarito. Foto: Jean-Paul Pelissier / Reuters.

Já é velho o papo de que o Festival de Cinema de Gramado, que chega a sua 44ª edição, não tem o mesmo prestígio de antes. A crise que o evento atravessou, especialmente nas edições realizadas entre os seus 30 e 40 anos, repercute até hoje, mas, parando nem que seja um pouquinho para pensar, é fácil perceber que muita coisa mudou – e para melhor – desde a edição comemorativa de 40 anos, que, em suas mudanças quase radicais, trocou também a curadoria de longas-metragens. Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho trouxeram ao Festival um cinema mais contemporâneo. Eles, ao mesmo tempo que procuravam recuperar o tempo perdido em anos altamente esquizofrênicos do evento, substituíram os filmes de nicho que tanto limitavam Gramado por uma linguagem mais contemporânea e pelo diálogo entre experientes cineastas e outros profissionais em início de carreira.

Ainda assim, o trio foi duramente cobrado pela imprensa por não exibir apenas filmes inéditos (crítica tola, diga-se de passagem, uma vez que ineditismo está longe de significar qualquer qualidade, a exemplo de A Bruta Flor do QuererIntrodução à Música do Sangue, dois filmes inéditos e bastante ruins selecionados para competição recentemente). Entretanto, esse ano não há motivos para reclamações nesse sentido, conforme foi revelado na coletiva de lançamento realizada hoje (20) em Porto Alegre: todos os seis filmes que buscam o cobiçado Kikito na mostra brasileira são inteiramente inéditos no circuito de festivais. Além da exibição dos aguardados Elis (cinebiografia da icônica cantora brasileira Elis Regina) e O Silêncio do Céu (novo filme de Marco Dutra), o Festival de Cinema de Gramado dá continuidade à pluralidade de sua mostra estrangeira: incluindo coproduções, nada menos que nove países estão representados na competição – e isso é fantástico, pois não é todo dia que entramos em contato com a cinematografia boliviana, paraguaia ou venezuelana, por exemplo.

Saindo da competição para a grande exibição hors concours desse ano, Gramado, que, na edição passada, fez a estreia de Que Horas Ela Volta? em território nacional, novamente foi o festival brasileiro escolhido para dar o pontapé inicial na trajetória do filme brasileiro mais aguardado do ano: Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, abrirá o evento no dia 06 de agosto. De quebra, quem recebe o troféu Oscarito, honraria do Festival dedicada a grande atores do cinema, é Sonia Braga, dando continuidade à linhagem de divas que receberam a distinção (ano passado, Marília Pêra se eternizou na Serra Gaúcha com uma linda passagem pelo Tapete Vermelho). No mais, apesar de achar Tony Ramos um ator mais de TV do que de cinema (essa confusão é muito comum no Brasil), não dá para negar o seu apelo popular com obras como Se Eu Fosse VocêGetúlio ou Chico Xavier, o que torna sua homenagem com o troféu Cidade de Gramado até coerente no sentido de que Gramado é uma festa para todos os gostos. Aprecio essa democracia porque não acho que festivais devam se segmentar. Quem dera todos pensassem assim.

Confira a lista completa de filmes em competição:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Barata Ribeiro, 716 (RJ), de Domingos Oliveira
El Mate (SP), de Bruno Kott
Elis (SP), de Hugo Prata
O Roubo da Taça (SP), de Caito Ortiz
O Silêncio do Céu (SP), de Marco Dutra
Tamo Junto (RJ), de Matheus Souza

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Campaña Antiargentina (Argentina), de Ale Parysow
Carga Sellada (Bolívia/México/Venezuela/França), de Julia Vargas
Espejuelos Oscuros (Cuba), de Jessica Rodriguez
Esteros (Argentina/Brasil), de Papu Curotto
Guaraní (Paraguai/Argentina), de Luis Zorraquín
Sin Norte (Chile), de Fernando Lavanderos
Las Toninas Van al Este (Uruguai/Argentina), de Gonzalo Delgado e Verónica Perrotta

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
A Página (SP), de Guilherme Andrade
Aqueles Anos em Dezembro (SP), de Felipe Arrojo Poroger
Aqueles Cinco Segundos (MG), de Felipe Saleme
Black Out (PE), de Adalmir da Silva, Felipe Peres Calheiros, Francisco Mendes, Jocicleide Valdeci de Oliveira, Jocilene Valdeci de Oliveira, Martinho Mendes, Paulo Sano e Sérgio Santos
Deusa (SP), de Bruno Callegari
Horas (RS), de Boca Migotto
Ingrid (MG), de Maick Hannder
Lembranças do Fim dos Tempos (SP), de Rafael Câmara
Lúcida (SP), de Fabio Rodrigo
Memória da Pedra (BA), de Luciana Lemos
O Ex-Mágico (PE), de Mauricio Nunes e Olimpio Costa
O Que Teria Acontecido ou Não Naquela Calma e Misteriosa Tarde de Domingo no Jardim Zoológico (RJ), de Gugu Seppi e Allan Souza Lima
Rosinha (DF), de Gui Campos
Super Oldboy (SP), de Eliane Coster

PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA – MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS
A Rua das Casas Surdas (Porto Alegre), de Flávia Costa e Gabriel da Fonseca Mayer
Another Empty Space (Porto Alegre), de Davi de Oliveira Pinheiro
Às Margens (Porto Alegre), de Boca Migotto
As Três (São Leopoldo), de Helena Sassi
Bandidos Desalmados (Porto Alegre), de Zaracla
Carol (Porto Alegre), de Mirela Kruel
Dia dos Namorados (Porto Alegre), de Roberto Burd
Escape (Porto Alegre), Jonatas Rubert
Escotofobia (Porto Alegre), de Rafael Saparelli
Horas (Porto Alegre), de Boca Migotto
Inatingível (Porto Alegre), de Rodolfo de Castilhos Franco
Interrogatório (São Leopoldo), de Raul Fontoura
Lipe, Vovô e o Monstro (Porto Alegre), de Raul Fontoura
Mundo de Wander (Porto Alegre), de Lisandro Santos
O Jardim dos Amores de Woody Allen (Porto Alegre), de Gustavo Spolidoro
Objetos (Porto Alegre), de Germano de Oliveira
Outono Celeste (Pelotas), de Yuri Minfroy
Pobre Preto Puto (Santa Cruz do Sul), de Diego Tafarel
Preliminares (Porto Alegre), de Douglas S. Kothe
Quando Pisei em Marte (Pelotas), de Analu Favretto e Taís Percone
Sesmaria (Pelotas), de Gabriela Richter Lamas
Venatio (Canoas), de Ulisses da Motta
Vento (Porto Alegre), de Betânia Furtado
Vida Como Rizoma (Porto Alegre), de Lisi Kieling

Florence: Quem é Essa Mulher?

But I fought. And I fought. And I fought… And I’m still here!

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Direção: Stephen Frears

Roteiro: Nicholas Martin

Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg,  Rebecca Ferguson, Nina Arianda,  John Kavanagh,  David Haig, Christian McKay, Josh O’Connor, Elliot Levey,  John Sessions, Mark Arnold, Jorge Leon Martinez

Florence Foster Jenkins, Reino Unido, 2016, Comédia/Drama, 100 minutos

Sinopse: Florence Foster Jenkins (Meryl Streep) é uma rica herdeira que persegue obsessivamente uma carreira de cantora de ópera. Aos seus ouvidos, sua voz é linda, mas para todos os outros é absurdamente horrível. O ator St. Clair Bayfield (Hugh Grant), seu companheiro, tenta protegê-la de todas as formas da dura verdade, mas um concerto público coloca toda a farsa em risco. (Adoro Cinema)

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Toda atriz que se preze deveria ter como meta conseguir cair nas graças do britânico Stephen Frears. As parcerias firmadas pelo diretor já corroboram por si só essa afirmação (Glenn Close foi superlativa em Ligações Perigosas, Helen Mirren encontrou o papel mais emblemático de sua carreira em A Rainha e Judi Dench fez mil maravilhas com os papeis-título de Senhora Henderson Apresenta Philomena), mas um rápida retrospectiva já evidencia a maior beleza de sua carreira como contador de histórias: a de procurar grandeza em relatos aparentemente pequenos, sempre com delicadeza, discrição e humanidade. Não é diferente com Florence: Quem é Essa Mulher?, onde Frears se inspira ao unir forças com Meryl Streep (novamente uma grande atriz, algo que parece motivá-lo) para encontrar tudo o que não é óbvio nas íntimas particularidades de uma personagem que tinha tudo para cair no ridículo.

Florence Foster Jenkins (Meryl Streep) era uma socialite de bolsos cheios: bancava o cenário musical de clubes em Nova York ao mesmo tempo que também sustentava todas as regalias de um devotado marido. Instantaneamente, isso já aponta para a fácil ideia de que esse tão importante dinheiro justifica o fato de meio mundo aguentar as notas operísticas, desafinadas e histéricas dessa mulher apaixonada por música, mas desprovida de bom senso para perceber que o que lhe faltava era justamente talento vocal. Entretanto, Frears, em parceria com o estreante roteirista de longas Nicholas Martin, não segue esse caminho e busca, na realidade, saídas muito tocantes para construir a história. O britânico trata Florence de forma digna na medida em que faz com que o espectador se preocupe tanto com ela quanto os personagens que não lhe dizem a verdade. Isso porque, no fundo, invejamos algo ali: seria a sua capacidade de propositalmente se esconder do cinismo e das dores da vida em sonhos? Ou, então, a sua autenticidade de fazer o que bem entende enquanto muitos de nós reprimimos tantas de nossas expressões com medo do ridículo? Você decide.

Meryl Streep, obviamente, é cirúrgica ao conduzir a personagem, lembrando, sem nunca se repetir, a bem humorada e divertida Julia Child, também uma desajustada apoiada por uma marido incondicional que compreende por completo as frustrações de sua esposa com o destino (enquanto em Julie & Julia fica implícito que a protagonista sofria por não poder ter filhos, em Florence: Quem é Essa Mulher? são verbalizados, não de forma menos eficiente, os fatos de Jenkins ter sido obrigada a abandonar a carreira de pianista por causa de um acidente e de ter contraído sífilis de seu primeiro e agora falecido marido). De roupas largas e com enchimentos para reproduzir o típico físico da mulher que retrata, Meryl alcança as notas certas procurando as erradas e ainda é beneficiada por um parceiro de cena que não lhe deve absolutamente nada: Hugh Grant, que vinha desacelerando a carreira rumo a uma assumida ideia de aposentadoria e repensou a situação após o convite para trabalhar com a atriz. E fez bem, pois tem aqui um de seus melhores momentos, saindo-se acertadamente engraçado nas estripulias de seu St. Clair e devidamente tocante como um sujeito que, independente das definições de estados civis, nutria imenso carinho e respeito por Florence.    

Ao encontrar um espirituoso equilíbrio entre o drama e a comédia (nas risadas, também merece nota o divertido trabalho de Simon Helberg como um alívio cômico à moda antiga, seguindo a própria proposta do filme), Florence: Quem é Essa Mulher? vai de sequências realmente completas no humor (o primeiro ensaio da protagonista junto ao piano) a outros até mesmo emocionantes (a cena em que Florence se imagina cantando perfeitamente é bela, especialmente porque a voz de Meryl, que começou sua carreira artística estudando ópera, contribui demais para o resultado). É com a elegância de uma boa reconstituição de época e com o respeito de um diretor que compreende que esse é um relato não sobre o quão especiais são os nossos talentos, mas sim sobre o quão alto sonhamos que Florence: Quem é Essa Mulher? se torna mais um filme minimamente grande da carreira de Stephen Frears. Como fã – tanto dele, de Meryl e do estilo -, só tenho a comemorar.

Os indicados ao Emmy 2016

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Por falta de tempo, tenho visto menos séries do que gostaria. Aliado a isso, a infinita quantidade de programas me angustia: na ânsia de encontrar algo que realmente me interesse, acabo vendo quase nada. Por isso, pela primeira vez em anos me senti um pouco perdido com a lista dos indicados ao Emmy divulgada hoje. Só que, claro, não deixo de dar os meus pitacos. Antes de listá-los, meu maior luto com a seleção: é um absurdo The Leftovers não ter recebido uma indicação sequer por sua magistral segunda temporada. Uma aula de direção, roteiro e atuação, o programa merecia ter replicado aqui o seu sucesso no Critics’ Choice Awards, onde teve todo o seu elenco indicado em categorias individuais de atuação. E isso acontecer em tempos que Downton Abbey – que, desde a terceira temporada, está no piloto automático – segue sendo lembrada na categoria principal é realmente para sentar e chorar. Vamos a outras observações sobre a lista do prêmio, cuja cerimônia está marcada para 18 de setembro:

– Quando o Emmy resolve se apaixonar por uma série, mesmo que tardiamente, é bom sair da frente. Não vejo Game of Thrones, mas até fãs de carteirinha da série reconhecem o exagero de indicações. Dizem por aí que Peter Dinklage mal tem influência nessa última temporada e que Kit Harrington, apesar da popularidade, não é alguém que seja sinônimo de excelência em atuação a ponto de ser lembrado. Entre as comédias, o (merecido) reinado absoluto de Veep só se expandiu (nada menos que três indicações na categoria de direção!). Já no círculo das minisséries, o amor infinito foi para The People v. O. J. Simpson: American Crime Story. Justo? Me contem, pois também não assisto.

– A rainha do Emmy tem nome e sobrenome: Laurie Metcalf, com indicação tripla (atriz em comédia por Getting On, atriz convidada em drama por Horace and Pete e atriz convidada em comédia por The Big Bang Theory). Fico particularmente feliz pela primeira nomeação, pois sou fã da recentemente encerrada Getting On e, no seriado que quase ninguém vê, Metcalf é maravilhosa ao encarnar uma personagem que pode sim ser detestável, mas que, na verdade, só representa o que existe de secretamente pior em todos nós.

– Regina King deve novamente (e dessa vez merecidamente) levar o prêmio de atriz coadjuvante em minissérie pela surpreendente segunda temporada de American Crime, mas fiquei feliz mesmo pela lembrança de Lili Taylor, que tem o papel de uma carreira nesse drama pesado, delicado e complexo.

– Christine Baranski passou seis anos consecutivos sendo indicada e perdendo como melhor atriz coadjuvante por The Good Wife, e seu fim na premiação foi amargo: pela última temporada do programa, a atriz sequer foi indicada. Não é mesmo o seu melhor momento na série, mas havia material para chegar entre as finalistas (o último episódio). Pelo menos lembraram, com justiça, de Maura Tierney pelo segundo ano de The Affair.

– Que mau gosto essa indicação de A Very Murray Christmas na categoria de melhor telefilme. Aquilo é um horror! Porém, no geral, a categoria é fraca e sem concorrência, até mesmo com All the Way na disputa: o telefilme estrelado por Bryan Cranston e dirigido por Jay Roach é menos interessante do que parece.

– O que foi essa total mudança de sentimento por Orange is the New Black? Para um programa em franca ascensão no prêmio, o esquecimento até da então vitoriosa Uzo Aduba em atriz coadjuvante foi o maior choque da lista. Por outro lado, no sentido positivo, foram muitas as vibrações para The Americans, que finalmente foi indicada em importantes categorias principais, incluindo melhor série.

– A segunda temporada de Transparent é impecável e deveria, entre as comédias, ter o mesmo reconhecimento de Veep. O fato do programa não ter sido indicado a direção e receber uma única indicação em roteiro só comprova o quanto histórias menores e mais íntimas não têm o mesmo poder de convencimento entre os votantes. E eu ainda indicaria mais atores do elenco, começando por Kathryn Hahn, ótima como a rabina em plena crise matrimonial.

– No mais, o Emmy não se desapega fácil e, ao invés de substituições, prefere ampliar número de indicados para não abandonar séries que hoje quase ninguém mais vê, como Homeland, ainda lembrada em melhor drama, ou outras que há muito já deixaram de trazer novidades, a exemplo da própria Downton Abbey. Palpitando sobre os futuros vencedores, não há quem pare o furacão Game of Thrones. O hype é grande demais, superando até mesmo o tardio reconhecimento estrondoso de Breaking Bad anos atrás. Para as comédias, o voto também é certo: Veep, que só passou a ser consagrada com maior amplitude no ano passado. Mais um ano sem muitas novidades à vista para a cerimônia.

A lista completa de indicados está no site oficial do Emmy.

Procurando Dory

You are lucky. No memories, no problems.

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Direção: Andrew Stanton e Angus MacLane

Roteiro: Andrew Stanton e Victoria Strouse, com colaboração de Angus MacLane e Bob Peterson, baseado em história de Andrew Stanton

Elenco (vozes originais): Ellen DeGeneres,  Albert Brooks, Ed O’Neill, Hayden Rolence,  Kaitlin Olson, Diane Keaton, Ty Burrell, Eugene Levy, Idris Elba, Dominic West, Sigourney Weaver,  Willem Dafoe,  Allison Janney

Sinopse: Um ano após ajudar Marlin (Albert Brooks) a reencontrar seu filho Nemo, Dory (Ellen DeGeneres) tem um insight e lembra de sua amada família. Com saudades, ela decide fazer de tudo para reencontrá-los e na desenfreada busca esbarra com amigos do passado e vai parar nas perigosas mãos de humanos. (Adoro Cinema)

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Desde que a Disney comprou a Pixar em janeiro de 2006 por uma cifra bilionária, é perceptível que a primeira tem tido prioridade não apenas nos projetos que envolvem os dois estúdios, mas também na criação das histórias que são ou um dia foram da segunda. Mercadologicamente, claro, é muito justo. Artisticamente, nem tanto. Enquanto são anunciadas cada vez mais continuações de obras emblemáticas da Pixar (e confesso que morro de medo de que, daqui a pouco, acrescentem à lista filmes como RatatouilleWALL-E), a dupla de selos parece ter parado para refletir: recentemente, Jim Morris, presidente da Pixar, anunciou que o estúdio lançará apenas obras originais a partir de 2019. É um excelente sinal, principalmente agora que Procurando Dory ganha as telas dos cinemas quebrando recordes e mais recordes de bilheteria. Excelente porque a continuação de Procurando Nemo, de 2001, pode até ser divertidíssima e um excelente passatempo recheado de mensagens importantes, mas, no todo, não se configura necessariamente como uma continuação: ao invés de expandir o universo dos carismáticos protagonistas, o filme apenas reproduz, com certa comodidade, toda a estrutura narrativa do longa anterior. Por outro lado, a história parece se cercar muito bem de elementos certeiros para não deixar transparecer tal fragilidade.

Racionalmente avaliado, Procurando Dory, assinado pela dupla Andrew Stanton e Angus MacLane (existe alguma explicação para animações serem cada vez mais assinadas por duplas ou até trios?), não apresenta quase nada inédito às águas de Nemo, Marlin e da esquecida Dory. Voltamos a acompanhar os personagens em uma longa cruzada pelo oceano e as infinitas engenhosidades que precisam ser pensadas quando alguns deles novamente são capturados para um aquário (dessa vez em proporções bem maiores do que no primeiro longa). A carta na manga de Procurando Dory que compensa essa certa preguiça do roteiro é a nostalgia para o público mais adulto de reencontrar um universo que marcou tantas infâncias no início dos anos 2000, enquanto a nova geração mergulha pela primeira vez na proposta da animação com o mesmo senso de humor do filme original. Não há dúvidas: a sequência conversa tanto com adultos quanto crianças porque sua diversão não está no humor pelo humor, mas sim em uma rica gama de personagens criativos, genuínos e inseridos em um espaço que instiga visualmente.  

O alto nível de dubladores da versão original (Ellen DeGeneres! Albert Brooks! Sigourney Weaver! Diane Keaton! Willem Dafoe!) comprova o quanto Nemo e sua turma continuam com prestígio depois de tanto tempo. É bom ver uma legião de astros emprestando seus nomes a uma trama de grande importância aos pequenos – e também aos adultos, por que não? Basta olhar um pouquinho além dos grandes mergulhos e das situações inegavelmente cômicas para perceber que Procurando Dory é um filme sobre minorias. O assunto se torna especialmente latente nessa continuação a partir do momento em que a condição da peixinha Dory, que sofre de perda da memória recente, vira alvo da impaciência e da irritabilidade até do amigo Merlin, que, no longa anterior, só encontrou o filho graças à ajuda dela. Ao longo da animação, a protagonista tem suas capacidades questionadas, o que imediatamente faz com que sua jornada em busca dos pais se revele uma bela homenagem à filosofia de que não devemos dar ouvidos a quem nos desmotiva. Só devemos continuar a nadar!

Maior estreia de uma animação no Brasil, Procurando Dory tem outro mérito importante: o de não tornar a condição de sua protagonista estritamente um empecilho. Seria fácil tornar o desenrolar da trama e até mesmo o humor repetitivos com a função de Dory, a cada cinco minutos, esquecer o que estava fazendo. Por sorte e talento dos roteiristas, não é isso o que acontece, uma vez que o esquecimento da peixinha, em certo ponto, é até mesmo invejado por um mal humorado polvo que ela encontra no caminho. “Você tem sorte. Sem memórias, sem problemas!”, diz o não tão temido animal aquático. Ao se atentar para essas delicadezas e fugir do lugar-comum para não cair na obviedade, Procurando Dory consegue disfarçar muito bem a total falta de inovação na estrutura de seu roteiro – e se não fosse por esse detalhe, estaríamos diante de um filme tão grande quanto o original.