Cinema e Argumento

44º Festival de Cinema de Gramado #6: “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho

aquariusgramadofilme

O febril momento político que o Brasil atravessa influencia Aquarius para o bem e para o mal. No sentido positivo, o novo longa-metragem do pernambucano Kleber Mendonça Filho se engrandece em diálogos como aquele em que Clara (Sonia Braga), jornalista aposentada que resiste às tentativas de uma grande empreiteira que deseja comprar seu apartamento, enfrenta Diego (Humberto Carrão) dizendo que as pessoas costumam relacionar o problema da falta de educação aos pobres, quando, na verdade, o problema do Brasil é a má educação dos ricos, pessoas que acreditam que dinheiro define caráter. Em contrapartida, os cartazes empunhados pelo elenco do filme em Cannes denunciando o indiscutível golpe que o Brasil sofre podem ofuscar a tese de que Aquarius é um filme grande por si só – e sobre muitas coisas além da provocação de contar uma história sobre uma experiência de vida que entra em rota de colisão com um poder supostamente maior.

Dividido em três partes (O Cabelo de ClaraO Amor de ClaraO Câncer de Clara), Aquarius é, antes de mais nada, o retrato de uma mulher de meia-idade com suas alegrias, anseios e frustrações, contemplando desde a sua reivindicação pela atenção dos filhos não tão presentes a uma divertidíssima noite de bebida e música com o seu grupo de melhores amigas. No meio disso tudo, vem a empreiteira Bonfim, que, após comprar todos os apartamentos do edifício da protagonista, tenta, a todo custo, convencê-la a se desfazer da moradia. Em tese, é uma trama aparentemente simples, mas Kleber Mendonça Filho, cineasta e cinéfilo experiente que é, sabe dar as devidas simbologias à jornada de uma verdadeira heroína. Sim, Clara, interpretada magistralmente por Sonia Braga em um papel que o cinema brasileiro lhe devia há décadas, é uma grande heroína – e não simplesmente por ser uma mulher que, apesar de doce, contida e aparentemente frágil, resistiu à vida inteira, inclusive a um câncer que até hoje, eventualmente, volta a assombrar sua vida. Na representação de Aquarius, a grandeza de Clara surge também a partir da personificação do mal, presente na figura do jovem empreiteiro que a cerca cada vez mais.

Interpretado com certeira ironia por Humberto Carrão, Diego representa essa geração que já nasce com o futuro nas mãos e alça voos altos e rápidos na vida. É o jovem que, mesmo tão novo, se apresenta de forma estranhamente conservadora, acreditando que nome e dinheiro são indiscutivelmente superiores a qualquer história de vida que a protagonista queira conservar no edifício onde mora. Entendemos o carinho que Clara nutre pelo prédio porque, no primeiro ato, ao encenar uma memória da protagonista, o filme desenha saudosamente um aniversário que diz tudo sobre sua família, seus amores e suas dores (e, talvez, um aparador nunca tenha tido um significado tão simbólico no cinema brasileiro). Ao passo em que Aquarius demora a apontar os caminhos que realmente vai seguir, Kleber vai, aos poucos, discretamente fazendo essa costura entre a íntima história de uma mulher de idade avançada e os significados muito maiores de cada situação. Pode ser um filme sobre resistência, maturidade, família e, principalmente, direitos – o que fica claramente exposto na grande cena em que a protagonista, em mais um embate com o jovem empreiteiro, diz que só sairá morta do edifício-título. O apartamento é de Clara. Ela quer ficar. Ela não não vai vender. E ela tem esse direito. Simples assim.

Sonia Braga, que, em inúmeras ocasiões, faz questão de afirmar que Aquarius lhe devolveu o cinema brasileiro, é impecável em todas as frentes de personalidade de sua personagem. É o típico momento em que uma grande atriz lembra o espectador, a cada minuto, do porquê ter se tornado um ícone. Todo o elenco, na realidade, é muito coeso porque fora ela e o próprio Carrão, ainda há outros atores extremamente críveis em cena, entre eles, Maeve Jinkings que, trabalhando com uma personagem difícil, tem um momento particularmente marcante em uma reunião familiar com a mãe. Com estreia comercial prevista para o dia 1º de setembro, Aquarius consolida Kleber Mendonça Filho como um de nossos maiores realizadores. É impressionante como o melhor de toda a sua carreira como jornalista e cinéfilo está novamente e plenamente convergida na tela. Assim como O Som ao Redor, é provável que nem todos comprem o conceito do estilo, mas, aos que souberem e conseguirem apreciar, Aquarius é mesmo tudo o que foi dito até agora. Mais uma vez, Gramado abre uma de suas edições em grande estilo.

44º Festival de Cinema de Gramado #5: a festa vai começar

gramado44Não são poucas as expectativas para a edição deste ano do Festival de Cinema de Gramado. O evento serrano só comemora a sua simbólica 45ª edição em 2017, mas, julgando pelo line-up de 2016, a festa bem que já poderia ser agora. Particularmente, muito me encanta o alto nível do quarteto de homenageados: Sonia Braga, uma de nossas maiores divas; José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão, mestre do terror brasileiro; Cecilia Roth, chica de Almodóvar e estrela do cinema ibero-americano; e Tony Ramos, sinônimo de grandes bilheterias. Acho que esse time chega a superar o de 2012 (Betty Faria, Eva Wilma, Juan José Campanella e Arnaldo Jabor), o meu favorito até então. Gramado 2016 tem tributo a ícones de todos os estilos de cinema, e essa característica é importantíssima por desmistificar a ideia de festivais como festas segmentadas.

Continuo discordando da insistência de crítica e imprensa de que um festival como Gramado deve ter apenas títulos inéditos para fazer jus ao seu prestígio. Isso é balela. Ainda assim, a “falha” foi corrigida e o evento deste ano, pelo menos na mostra brasileira, terá apenas títulos que farão suas estreias nacionais na Serra Gaúcha. A aposta em comédias é arriscada, mas conceitualmente relevante: mesmo que determinados filmes não inspirem tanta confiança, o curador Rubens Ewald Filho foi certeiramente enfático ao defender a tese de que a crítica ainda precisa fazer o exercício de não ter preconceito com o gênero (e isso é global: até o Oscar tem sérias dificuldades em reconhecer o humor em categorias que não sejam as de roteiro). Vamos ver se a quebra de paradigma será bem sucedida ou se tudo indica mesmo que O Silêncio do Céu, aguardado drama assinado pelo cult Marco Dutra, é o favorito pela matemática da exclusão.

A falta de pluralidade e representatividade da mostra brasileira (filmes assinados somente por homens e todos do eixo Rio-São Paulo) é significativamente compensada na latina, onde dez países estão representados em diversas coproduções e três mulheres colocam sua assinatura nas direções das obras. Internacionalmente falando, ainda há outro aspecto que carimba as expectativas em torno da edição: em parceria inédita, Gramado recebe representantes do prestigiado Festival de Sundance para a exibição de dois filmes, intercâmbios culturais e discussões acerca da consolidação desse novo relacionamento. Por falar nos filmes que Sundance exibe na Serra Gaúcha, um deles conta com uma sessão comentada por sua protagonista: Mammal traz ninguém menos que Rachel Griffiths para o Festival. E, como fã incondicional de Six Feet Under e grande adorador da era de ouro de Brothers & Sisters e do filme O Casamento de Muriel, vocês podem imaginar meu entusiasmo.

Novamente, pelo sexto ano consecutivo, estaremos no evento contando tudo para vocês com matérias especiais e críticas dos filmes concorrentes. A festa já vai começar: o 44º Festival de Cinema de Gramado acontece de 26 de agosto a 03 de agosto, antecedido por uma noite especial para a comunidade gramadense no dia 25. Até lá!

A Intrometida

Who doesn’t love love?

meddlerposter

Direção: Lorene Scafaria

Roteiro: Lorene Scafaria

Elenco: Susan Sarandon, Rose Byrne, J.K. Simmons, Jerrod Carmichael, Cecily Strong, Lucy Punch, Michael McKean, Jason Ritter, Sarah Baker, Amy Landecker, Casey Wilson, Billy Magnussen

The Meddler, EUA, 2016, Comédia/Drama, 100 minutos

Sinopse: Para Marnie Minervini (Susan Sarandon) a maternidade não é um dever, mas sim uma vocação. Mesmo após a recente morte do marido, ela não deixa de ser alegre, sempre mandando mensagens, ligando e aparecendo sem avisar na casa da filha, Lori (Rose Byrne). Almejando algum controle sobre sua vida, principalmente após o término de um relacionamento, Lori tenta sair das asas da mãe, mas Marnie segue a filha até Los Angeles e acaba desenvolvendo uma conexão com um policial (J.K. Simmons). (Adoro Cinema)

meddlermovie

As situações são facilmente identificáveis e comicamente aplicáveis aos dois lados da moeda: enquanto os filhos enxergam, com muito humor, o superprotecionismo expansivo e natural de todas as mães, as progenitoras compreendem perfeitamente as necessidades de presença e carinho que tanto movem alguém como Marnie (Susan Sarandon), a protagonista de A Intrometida, que, ainda lidando com a morte do marido, encontra, na filha, uma forma de não ter seus dias tão vazios. Surpreendentemente, o filme escrito e dirigido com muita simplicidade por Lorene Scafaria se desapega da diversão envolvendo as barreiras (ou falta delas) que se estabelecem a partir de laços familiares e opta por narrar as cotidianidades de uma mulher que, após a mudança da filha para outra cidade, precisa aprender a recomeçar, na meia-idade, uma vida que já lhe parecia tão certa.

Não há comparações depreciativas que possam diminuir o valor simbólico que tem um filme como A Intrometida. Cada vez mais discutimos a representatividade no cinema, e é bom ver que roteiros que contemplem esse nicho tão frequentemente esquecido pelo cinema que é o público de meia-idade. Sempre reforço que os europeus sabem tratá-lo como ninguém, o que deveria ser uma aula para os norte-americanos, que costumam colocar personagens de idade mais avançada apenas como os pais coadjuvantes sem vida pessoal que só servem para ouvir histórias e dar conselhos aos filhos, especialmente em comédias de gosto altamente duvidoso. Por isso é de se celebrar um projeto com a proposta de A Intrometida: aqui, esse público é o centro das atenções em uma história que não chega a ser necessariamente sofisticada, mas que compensa amplamente essa limitação com uma boa dose de afeto.

É a partir de pequenos momentos da vida de sua protagonista – a amizade com o vendedor de uma loja, a dificuldade em se relacionar com as novas tecnologias, o sentimento de solidão que surge entre uma risada ou outra com uma conhecida qualquer – que o roteiro estrutura a construção de uma personagem simplesmente adorável. Claro que sempre achamos as mães dos outros um máximo, mas a Marnie de Susan Sarandon é realmente especial em sua generosidade eventualmente excessiva que não deixa de ser questionada por sua psicóloga vivida por Amy Landecker. Afinal, tanta dedicação ao próximo não deixa de ser uma desculpa para não ter que olhar para a própria vida? Como na maioria dos filmes sobre mulheres de meia-idade em pleno recomeço, A Intrometida tem uma intérprete das mais impecáveis. Se Diane Keaton tem um dos melhores momentos de sua carreira em Alguém Tem Que Ceder e Meryl Streep se diverte à beça no fragilíssimo Simplesmente Complicado, Susan Sarandon (que, sabe-se lá como, não envelhece e fica mais bela a cada dia) tem sua melhor chance em anos, transmitindo uma humanidade que é muito característica do seu arsenal de talentos.

Não deixa de ser frustrante, contudo, que relatos sobre o público de meia-idade simplifiquem tanto as coisas para suas protagonistas. Ou não é um tantinho mais fácil sofrer quando a Erica Barry de Alguém Tem Que Ceder viaja a Paris com o dinheiro de sua carreira vitoriosa na dramaturgia, a Jane Adler de Simplesmente Complicado se vê dividida entre dois amores enquanto reforma sua confeitaria de grande sucesso e, agora, a Marnie Minervini de A Intrometida procura uma nova vida enquanto se diverte ao bancar casamentos alheios com a fortuna deixada pelo falecido marido? Isso não deixa de reduzir todos esses filmes ao velho drama de que ricos também sofrem, e é assim que falta complexidade ao carinhoso mundo da personagem vivida por Susan Sarandon porque tudo acaba se resumindo a circunstâncias que desviam a atenção do que realmente merece ser contado. Quando A Intrometida permite que Marnie finalmente considere um novo amor ou que ela dê sinceras gargalhadas com a filha após um incidente que constrói um novo momento de aproximação entre as duas, o resultado ganha o sentido de que agora sim estamos realmente vendo a representatividade ideal de seu público-alvo.

44º Festival de Cinema de Gramado #4: “Minha relação é de puro amor com as câmeras”, conta Sonia Braga, a homenageada do Troféu Oscarito

Sonia Braga_credito Andre Arruda_alta

Foto: André Arruda

Um dia antes de conceder sua entrevista oficial para o Festival de Cinema de Gramado, Sonia Braga havia feito, em Nova York, um teste de câmera. Ao chegar ao estúdio, foi apresentada à marca onde deveria se posicionar para a gravação. A atriz, no entanto, resolveu quebrar a cerimônia: circulou pelo set, observou bem o ambiente e foi até o diretor de fotografia para cumprimentá-lo. “Ele, surpreso, quase caiu da cadeira quando ultrapassei essa linha que costumam colocar entre quem está à frente e atrás das câmeras. Nós nos abraçamos e eu agradeci a toda equipe por aquele encontro. Não podemos desperdiçar essa troca, esse dia de vida que vamos ter juntos”, relata. Esses são métodos adotados desde sempre por Sonia, que dispensa com veemência o título de “atriz profissional” e as formalidades em uma equipe de cinema. Para ela, não faz sentido colocar barreiras no processo criativo realizado por um coletivo. Afinal, “em um set, todos estão trabalhando com um mesmo objetivo: fazer o melhor filme possível”.

O mesmo senso de troca e colaboração existe na Sonia Braga fora do set. Depois de brilhar no Tapete Vermelho com lenços esvoaçantes e arrebatar a crítica do prestigiado Festival de Cannes com sua performance em Aquarius, novo longa-metragem do pernambucano Kleber Mendonça Filho, a atriz de clássicos do cinema brasileiro como Dona Flor e Seus Dois Maridos e O Beijo da Mulher-Aranha agora se prepara para trocar os holofotes da Riviera Francesa pelo charme da Serra Gaúcha. E não é apenas para apresentar Aquarius, hors-concours, junto à equipe, mas também para receber a mais tradicional homenagem do Festival de Cinema de Gramado: o Troféu Oscarito, distinção dedicada a grandes atores do cinema brasileiro. Mesmo adorando a relação que estabelece com fotógrafos e jornalistas, Sonia Braga ainda não se acostumou com celebrações. “É incrível e muito bonito, sem dúvida, mas ainda acho estranha essa ideia de receber uma homenagem, pois acho que o maior prêmio que um ator pode receber é o trabalho. O que vem depois disso é apenas a consequência do amor pelo cinema”, avalia.

É a primeira vez que Sonia Braga vem a Gramado, mesmo já tendo em casa dois Kikitos por suas performances em Eu Te Amo (1981) e Memórias Póstumas (2001). Ela mora há 25 anos em Nova York, onde consolidou uma carreira que lhe proporcionou participações que vão desde seriados populares como Sex and the City a filmes dirigidos por Clint Eastwood e Robert Redford, mas faz questão de reforçar a ideia de que nunca se desconectou do Brasil. “Existe essa sensação de que, se estou longe, não faço mais parte da cultura brasileira. A verdade é que levei o Brasil por todos os lugares onde viajei ao redor do mundo. Sempre fui uma representante do meu país”, conta.

Operação resgate

A homenageada do troféu Oscarito não trabalha tanto quanto gostaria no Brasil também em função de simplesmente não receber convites, o que, segundo ela, é resultado de uma certa cerimônia dos realizadores com determinados ídolos. E foi justamente a quebra desse paradigma que chamou a atenção da atriz para Aquarius. “Essa relação já começou diferente porque todos trabalham com a ideia de que não existem limites. Para eles, se é para pensar, que seja bem alto. Pedro Sotero sugeriu meu nome, a equipe entrou em contato comigo e o resultado foi que, poucos dias depois de receber o roteiro, eu já estava embarcando no projeto. Foi uma operação resgate”, brinca Sonia.

Sobre o filme que lhe rendeu críticas entusiasmadas no Festival de Cannes deste ano, diz ter realizado o antigo sonho de estar em um set de cinema plenamente democrático e que, caso pudesse reviver as gravações de apenas um filme entre todos de sua carreira, esse seria o escolhido. “Sempre fiquei muito constrangida de fazer ensaios porque não sou boa neles, mas com Kleber [Mendonça Filho, o diretor], perdi essa vergonha. Ele mexeu em botões que me transformaram. Talvez por me olhar como um ser humano e não apenas como atriz. Estar no set de Aquarius foi um verdadeiro sonho”, lembra.

O vulcão e a serenidade de uma manteiga no pão

Sonia Braga não gosta de elencar os filmes que mais marcaram sua carreira, e sim os momentos especiais que compartilhou com amigos e colegas ao fazer cinema. Com Eu Te Amo, filme que trouxe a sua primeira consagração na Serra Gaúcha, ela destaca uma intimidade profissional que julga ter se esvaído com o passar dos tempos. “Eu e Paulo César Pereio andávamos nus o tempo inteiro durante as filmagens, seja na cena em si ou até mesmo no set. Qual o problema nisso? Nós todos estávamos vivendo uma mesma vida, que era intensa e impressionante. Foi tudo muito especial: o filme e as relações que estabelecemos a partir dele”, recorda. Ainda sobre o longa dirigido por Arnaldo Jabor, a homenageada diz que, nele, está uma das cenas mais inesquecíveis de toda a sua carreira: “Eu estava na cozinha, passando manteiga em uma pão. Era só isso, mas o momento era tão palpável… Eu sentia tudo – o movimento, a personagem – e lembro de ter pensado: ‘é isso o que eu quero como atriz’. Para mim, a cena foi um completo vulcão, mas o que está na tela é de uma serenidade absoluta”.

Fazer graça, algo diferente

A homenagem de Sonia Braga está marcada para 26 de agosto, mesmo dia em que Aquarius abre a programação do 44º Festival de Cinema de Gramado. Para a noite de sua homenagem, a atriz promete não poupar fotógrafos e jornalistas para celebrar o momento. “Amo o Tapete Vermelho e os fotógrafos, que são profissionais que me dão muito alegria. Minha relação é de puro amor com as câmeras. É minha obrigação parar, fotografar e estabelecer uma relação de respeito com eles. Se eu puder fazer graça ou algo diferente, melhor ainda! Para Gramado, deixo, pelo menos, a garantia de boas fotos e entrevistas!”, antecipa. Já quando as luzes se apagarem para a sessão de Aquarius no Palácio dos Festivais, Sonia fala em entrega: “É nesse momento que minha vida pertence a todos que respiram o mesmo ar. Juntos, naquele escuro, dividimos o mesmo cinema, a mesma sala, as mesmas surpresas. Por isso o cinema é tão bonito”.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 44º Festival de Cinema de Gramado

Rapidamente: “O Clube”, “Marguerite” e “Trumbo – Lista Negra”

margueritemovie

Catherine Frot em Marguerite: tanto ela quanto Meryl Streep em Florence: Quem é Essa Mulher? compreendem a trágica inocência de uma mesma personagem.

O CLUBE (El Club, 2015, de Pablo Larraín): Vencedor do grande prêmio do júri no Festival de Berlim em 2015 e indicado ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro este ano, O Clube é o sexto longa-metragem assinado pelo chileno Pablo Larraín. Para quem ainda não acompanhava o nome dele de perto (em 2012, fez o excelente No, estrelado por Gael García Bernal e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro), é bom reparar o erro a partir de agora com O Clube, um filme profundamente desconfortável (no bom sentido) e munido de muita coragem ao narrar os dias de padres isolados pela igreja católica em uma casa litorânea sob a suspeita de crimes de pedofilia. O clima invernal, o tom taciturno, a fotografia nebulosa e uma morte na porta do retiro dos padres são os pontos altos da ambientação desse filme que não economiza, seja abordagem ou vocabulário, para falar sobre os crimes nunca encenados que os sacerdotes teriam cometido. Com um desfecho particularmente surpreendente e até mesmo perturbador, O Clube reafirma o talento de Larraín como contador de histórias – e, ainda que No seja mais marcante, sua nova investida atrás das câmeras não deixa de ser uma experiência de alto valor cinematográfico e narrativo.

MARGUERITE (idem, 2015, de Xavier Giannoli): Realizado quase paralelamente ao ótimo Florence: Quem é Essa Mulher?, o belga Marguerite prefere carregar menos no tom anedótico para contar a história da personagem-título, transpondo a história verídica de Florence Foster Jenkins para o imaginário de língua francesa. Por isso acho tão complicado – e até injusto – colocar na balança o trabalho de Xavier Giannoli com o longa estrelado por Meryl Streep e Hugh Grant, já que o segundo, mesmo dando conta da dimensão dramática da personagem, prefere ser um (satisfatório) produto cômico. Enquanto isso, Marguerite opta por fazer um estudo mais minucioso de sua personagem, explorando muito mais os detalhes da trágica inocência de uma mulher que, apesar do marido compreensivo e do mordomo fiel, enfrenta uma crise no casamento e constantemente se depara com pessoas que querem secretamente abusar de sua ingenuidade. Elegante, o longa de Giannoli, assim como o de Stephen Frears, respeita e compreende o que existe de mais fascinante em sua protagonista, principalmente porque também acerta na escolha da intérprete: aqui, Catherine Frot é excelente como protagonista que sempre conquista a nossa compaixão.

TRUMBO – LISTA NEGRA (Trumbo, 2015, de Jay Roach): Quem escreveu que Trumbo – Lista Negra é o filme que coloca um diretor de comédia no mundo dos dramas e da biografia certamente desconhece a carreira de Jay Roach. É lógico que seus maiores sucessos são filmes cômicos como Austin PowersEntrando Numa Fria, mas a comparação lógica para falar sobre Trumbo seria com Recontagem Virada no Jogo, duas grandes histórias verídicas sobre importantes momentos da política norte-americana que ele adaptou para a HBO. Isso porque Trumbo, que já decepciona por si só, acaba se tornando ainda menos interessante quando lembramos do que Jay Roach já foi capaz com esses dois filmes específicos. Fica claro, no longa estrelado Bryan Cranston, que o diretor tem sérios problemas em narrar biografias que compreendem um longo espaço de tempo. Enquanto em Recontagem Virada no Jogo ele era cirúrgico ao distribuir a construção de seus personagens a partir de momentos cotidianos de um pequeno recorte, em Trumbo a situação é dispersiva pela amplitude cronológica, resultando no recorrente problema de filme biográficos que, desejando narrar tudo o que é possível sobre a vida de um personagem, acabam comunicando muito pouco. Bryan Cranston faz o que está ao seu alcance em um elenco mal aproveitado e até caricato (Helen Mirren não passa da caracterização, por exemplo), mas isso não é o suficiente para tirar o filme do status de mero relato esquemático e sem refinamento.