Cinema e Argumento

Invocação do Mal 2

Does it feel like it’s coming from inside of you?

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Direção: James Wan

Roteiro: Carey Hayes, Chad Hayes, David Johnson e James Wan, baseado em história de Carey Hayes, Chad Hayes e James Wan

Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Madison Wolfe, Frances O’Connor, Franka Potente, Lauren Esposito, Benjamin Haigh, Patrick McAuley, Simon McBurney, Maria Doyle Kennedy, Simon Delaney

The Conjuring 2, EUA, 2016, Terror, 134 minutos

Sinopse: Sete anos após os eventos de Invocação do Mal (2013), Lorraine (Vera Farmiga) e Ed Warren (Patrick Wilson) desembarcam na Inglaterra para ajudar uma família atormentada por uma manifestação poltergeist na filha. A trama é baseada no caso Enfield Poltergeist, registrado no final da década de 1970. (Adoro Cinema)

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Quando estreou em 2013, Invocação do Mal fez merecido barulho entre os fãs (e leigos) de terror. Simples, mas extremamente eficaz ao utilizar competentemente as ferramentas básicas do gênero para causar medo (a porta que bate, o pássaro que derruba um copo, a janela que quebra), o longa, que faturou nove vezes mais do que o seu orçamento de 20 milhões de dólares ao redor do mundo, alcançava tal excelência pelo gabarito de seu diretor, o malaio James Wan, responsável por outro marco recente do terror: o primeiro Jogos Mortais. Entre o Invocação do Mal original e este segundo que chega agora aos cinemas cercado de expectativas e boas críticas, Wan engordou a poupança com o sucesso financeiro estrondoso de Velozes & Furiosos 7. Ele chegou a ser convocado para o oitavo, mas recusou a fortuna que, segundo ele, “mudaria uma vida” para voltar às origens e realizar Invocação do Mal 2. É bom ter James Wan de volta, por mais que, nessa sequência, ele mostre muito mais do que deveria.

O terror é sempre uma viagem muito pessoal porque cada um se amedronta com aquilo que mexe com imaginários particulares. Do lado de cá, sou adepto a tudo aquilo que está escondido e que nossa mente está disposta a criar. Dessa forma, ainda que o primeiro Invocação do Mal trate de um tema, digamos, expositivo (as famosas possessões por espíritos), Wan conseguia deixar boa parte do serviço para a nossa própria paranoia, camuflando aquilo que de fato está atormentando os personagens. Era isso que engrandecia a produção original e que, curiosamente, não é retomado à risca nessa continuação. Em Invocação do Mal 2, o diretor segue se esmerando em cenas perfeitamente climáticas e envolventes, enquanto, por outro lado, perde pontos ao tornar sua história muitos mais verbal, barulhenta e visual se comparada ao que realizou em 2013 e a tantos exemplares do gênero que acreditam que a elevação do tom é garantia de pavor da plateia. Um erro no mínimo amador para um profissional tão esperto.

O contexto de Invocação do Mal 2 é basicamente o mesmo do filme anterior (e, nessa comparação, podemos dizer que essa é uma obra de poucas inovações), trocando apenas o cenário: dessa vez, vamos para a Inglaterra dos anos 1970, onde somos apresentados ao famoso (e verídico) caso de possessão de Enfield Poltergeist. O clima britânico ajuda bastante, uma vez que, das locações ao sotaque dos novos atores, tudo parece mais real ao nos distanciarmos do cinema estadunidense que tanto explora o terror. Claro que Patrick Wilson e Vera Farmiga continuam em cena (aliás, ela, que se especializou em conviver com o suspense e o bizarro na série Bates Motel, é particularmente eficiente), mas a sequência se torna mais realista ao fazer essa troca de ares. Invocação do Mal 2 ainda potencializa seu tino para o suspense ao colocar na tela um design de produção minucioso que as moradias europeias com uma leitura profundamente soturna e as cores sempre gélidas e nada aconchegantes da fotografia assinada pelo experiente Don Burgess (Forrest Gump – O Contador de HistóriasNáufrago, o primeiro Homem-Aranha de Sam Raimi) que casam perfeitamente com todas as outras ferramentas devidamente alinhadas por James Wan.

A ruptura que acontece rumo à excelência total está em um detalhe aparentemente corriqueiro, mas decisivo para Invocação do Mal 2 – e ele é, como já citado nesse texto, o tom mais elevado empregado aqui. Logo na ótima sequência de abertura já é possível constatar que James Wan decidiu ser mais expositivo, e a sensação só é reforçada dali em diante: ao longo de suas extensas duas horas de duração, o filme não hesita ao materializar na tela medos que deveriam ser desenhados pela nossa imaginação, como a construção de figuras digitais para nos assombrar (algo que destruiu o péssimo Mama, por exemplo). Isso acaba se refletindo na própria estrutura, que, já um tanto repetitiva ao mostrar constantemente uma noite repleta de acontecimentos estranhos na casa da família, se dilui ao mostrar, por exemplo, um boneco gigante feito em computador arrastando uma criança com um guarda-chuva. Na raiz desse gênero tão pessoal, Invocação do Mal 2 faz uma escolha comercial assumidamente óbvia (afinal, o grande público prefere a grandiloquência à discrição) e que pode ser bastante decisiva para espectadores como eu, que se distanciam do terror justamente pela previsibilidade e falta de identificação. James Wan continua grande como artista do medo em muitos aspectos. No entanto, é de se pensar que, criativamente, continuações possam amortecer sua visão artística.

20 fatos sobre o meu cinema

Tem muita gente entrando na brincadeira e postando uma lista de fatos/curiosidades sobre sua vida no Facebook. Resolvi entrar na brincadeira, mas puxando para o lado do cinema. Vamos nessa?

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1. Virei um apaixonado por cinema com um filme que quase ninguém gosta: As Confissões de Schmidt, de Alexander Payne. E não há explicação melhor do que essa para o amor à primeira vista: foi o filme que me fez perceber que o cinema era um caminho sem volta na minha vida.

2. Se existe um filme que eu usaria como aula sobre como fazer cinema, seria As Horas. É, possivelmente, a única obra que considero irretocável: da adaptação genial de um livro dificílimo à sinfonia técnica mais extraordinária que já vi na vida (aqueles créditos iniciais me arrepiam até hoje). Enquanto Schmidt é o meu filme favorito de coração, As Horas é o da razão.

3. Não demorou muito tempo para eu descobrir que meus filmes favoritos não eram os clássicos tão venerados por cinéfilos ou aqueles de simetria perfeita. O que me comove mesmo são histórias de pessoas comuns, com sentimentos que me despertam identificação e protagonistas de situações que podem acontecer também comigo quando eu virar a esquina ou acordar no outro dia.

4. Tenho um fraco tremendo por atrizes e me apaixono fácil por elas. Confesso que me emocionaria muito mais encontrando uma Julianne Moore em um metrô qualquer do que sentar em uma mesa de bar para conversar com Jack Nicholson e Daniel Day-Lewis juntos.

5. Meryl Streep não é a minha atriz favorita desde sempre. Comecei com um amor inabalável por Susan Sarandon, mas o tempo passou e não deu mais para defendê-la. Hoje, considero Meryl um colosso: sem exageros, nunca houve, na história do cinema, uma atriz tão talentosa e completa como ela. E ser a melhor atriz não passa apenas por habilidades, mas também por escolher projetos múltiplos, papeis desafiadores e histórias que ninguém imaginaria que ela pudesse protagonizar. Ninguém tem um currículo tão plural quanto o dela.

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6. Se eu tivesse que fazer alguém devolver somente um Oscar, seria Elliot Goldenthal (melhor trilha sonora, em 2003, por Frida). Philip Glass não ter vencido aquele ano por As Horas só mostra o quanto a Academia não entende nem nunca vai entender a verdadeira função de uma trilha em um longa-metragem.

7. Por falar em Glass, foi ele que proporcionou o momento musical mais lindo da minha vida: quando eu o assisti tocar, ao vivo em Porto Alegre, Metamorphosis Two, a composição que inspirou Morning Passages, de As Horas.

7. Ainda em Oscar, mesmo não achando Crash – No Limite um filme extraordinário, tampouco considero a derrota de O Segredo de Brokeback Mountain o horror que todos pintam. Já vi o filme de Ang Lee três vezes, e sabe-se lá o porquê de eu não embarcar tanto naquela história de amor. De qualquer forma, aquele ano foi uma bagunça para o meu gosto pessoal que nem eu entendo: meu favorito na disputa era Munique.

8. Quer confiar em mim para prever alguma categoria de premiação? Vem comigo nas atrizes: nos últimos anos, acertei em cheio quem seriam as esnobadas que todo mundo dava como garantidas (Helen Mirren por Hitchcock, Emma Thompson por Walt nos Bastidores de Mary Poppins, Jennifer Aniston por Cake). E uma vez ou outra também levo fé até o fim e acerto em belas surpresas, como Charlotte Rampling, indicada esse ano por 45 Anos.

9. Agora, se vai torcer comigo, pode contar que tem tudo pra dar ruim. As minhas torcidas mais entusiasmadas raramente ganham. Talvez a única exceção mesmo tenha sido Marion Cotillard como melhor atriz por Piaf – Um Hino ao Amor. De resto, sou pé frio mesmo.

10. Quase nunca coloco a companhia como fator decisivo para uma ida ao cinema. Vou sempre primeiro pelo filme.

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11. Não compro pipoca quando vou ao cinema. No máximo dos máximos, divido com a companhia, se ela realmente achar imprescindível.

12. Acho um crime escrever sobre um filme imediatamente após assisti-lo. Pago o preço por isso com o meu blog, que jamais tem a crítica de uma estreia da semana.

13. O Festival de Cinema de Gramado é um marco definitivo na minha vida pessoal e profissional, e hoje sinto um baita orgulho de estar trabalhando nele como assessor de imprensa pelo quarto ano consecutivo.

14. Posso até falar mal de determinados filmes e estilos, mas nunca, jamais, julgo quem os assiste. Cada um aprende com o cinema a sua maneira, a partir de suas experiências de vida, de suas oportunidades e de sua bagagem.

15. Não vejo tanto filmes quanto gostaria, mas muito menos veria três ou quatro longas por dia, sete dias por semana. O cinema também precisa do consumo de outras artes para coexistir.

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16. Sou apaixonado por trilhas instrumentais e tenho muitos gigabytes de álbuns no meu computador. É o que mais tenho medo de perder caso o aparelho aqui um dia estrague.

17. Sou adepto da frase de Tarantino: “Nunca fui à escola de cinema, eu fui ao cinema” (ou coisa do gênero). Conto nos dedos os livros de cinema que li na vida ou as vezes que “estudei” a arte.

18. Não tenho a pretensão de escrever uma crítica para dissecar um filme e ficar refletindo sobre ele durante páginas e páginas. O que importa, para mim, é o que (e como) ele me passou ou não alguma coisa, além das sensações que tive a partir da experiência. É uma questão de estilo, simples assim.

19. Realmente sou um cinéfilo eclético, por mais clichê que a definição tenha se tornado. Posso ir da descontração de um musical assumidamente mal feito como Mamma Mia! a clássicos indies como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, passando pelas loucuras de Bette Davis em O Que Terá Acontecido a Baby Jane? às lágrimas com filmes super manjados como Lado a Lado. Não me sinto refém de um diretor ou da posição de clássico ou filme bem recepcionado pela crítica para definir meus gostos.

20. E, apesar de gostar tanto de cinema, nada nessa vida me impressionou tanto no audiovisual quanto o seriado Six Feet Under. Aquilo é uma aula infinita sobre como se faz dramaturgia com um elenco impecável e o roteiro mais sem concessões possível. Amo tanto que, um dia, ainda farei uma tatuagem com uma frase da série.

Rapidamente: “Mommy”, “Tirando o Atraso” e “Wood & Stock”

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Anne Dorval brilha como a protagonista de Mommy, um dos filmes mais expressivos da carreira do canadense Xavier Dolan

MOMMY (idem, 2014, de Xavier Dolan): Tive um longo hiato com o cinema de Xavier Dolan até chegar a esse Mommy, drama de 2014 estrelado por uma magnífica Anne Dorval. O distanciamento foi proposital porque considero Eu Matei Minha Mãe, de 2009, um filme superestimadíssimo e frequentemente afetado, o que me levou a fugir da superexposição alcançada pelo cineasta posteriormente com obras com Laurence AnywaysAmores Imaginários. Não sei se o tempo fez realmente bem ao jovem canadense, mas Mommy é mesmo um filme mais comedido e regulado em seus exageros de tom e narrativa. É importante Dolan ter deixado o narcisismo de lado ao eventualmente abrir mão de protagonizar os próprios filmes porque, com isso, ele dá espaço para pensar mais como diretor e menos como um ator imaturo (e nada extraordinário) que procura apenas se fetichizar frente às câmeras como um símbolo jovem e gay do cinema “alternativo” falado em francês. Ao evoluir nesse sentido, ele dá chances para Anne Dorval, por exemplo, criar uma figura completa: envolvente como uma mãe linda, jovem e desbocada que nunca cai na caricatura, ela também de certa forma nos testa com suas irresponsabilidades maternas e sua negação frente aos problemas do filho. O elenco todo é muito bom (a vizinha vivida por Suzanne Clément é digna de nota), a trilha sonora se revela esperta e agridoce (o encerramento com Born to Die, da Lana Del Rey, é bastante simbólico) e o filme nunca chega a ser frágil ou superficial em suas análises dramáticas. Dolan ainda precisa regular o excesso de gritaria em discussões e outros maneirismos quando coloca seus personagens em colisão (algo que acontece com bastante frequência), mas, se continuar no ritmo de Mommy, talvez eu venha mesmo a fazer as pazes com ele.

TIRANDO O ATRASO (Dirty Grandpa, 2016, de Dan Mazer): Humor é algo sempre muito particular, e por isso é tão difícil fazer comédias, mas há um limite para tudo, como esse Tirando o Atraso, que chega a encenar uma piada sobre pedofilia ao sugerir que um Zac Efron praticamente nu estaria forçando uma criança a lhe fazer sexo oral no meio de uma praia. É realmente de um mau gosto tremendo e um caso específico de fundo do poço para seus dois protagonistas. Primeiro para Efron, que já chegou a ter desenvoltura e aptidão em comédias e musicais como 17 Outra VezHairspray – Em Busca da Fama, além de chances importantes como trabalhar com Richard Linklater (Eu e Orson Welles) e ter até filme exibido na competição de Cannes (o desfocado Obsessão, de Lee Daniels). Só que a sede por holofotes falou mais alto do que a ambição cinematográfica, e hoje Efron só parece preocupado em tirar a camisa em filmes desastrosos como esse Tirando o Atraso. Segundo para Robert De Niro, um grande ator que tem se submetido a situações constrangedoras para… pagar as contas? Não se engane: ao passo que nem a nudez constante de Efron surge verdadeira (basta navegar um pouco no Google para descobrir que ele usou dublês e CGI ao supostamente tirar a roupa), a experiência de De Niro como ator parece inexistente aqui, já que ele repete, cena após cena, as suas caretas tão imitadas por humoristas. Às vezes, a história de Tirando o Atraso até tem certo fôlego ao discutir de forma civilizada as incoerências de um jovem que já parece ter encerrado seus sonhos em comparação a um senhor cheio de vontade de fazer as loucuras que bem entende por aí, mas é questão de tempo até o roteiro desgraçar tudo ao lançar mais uma piada física repleta de vômito, nudez, drogas, sexo ou palavrões no pior estilo imaginável.

WOOD & STOCK: SEXO, ORÉGANO E ROCK’N’ROLL (idem, 2006, de Otto Guerra): O gaúcho Otto Guerra desfrutava um dos grandes momentos de sua carreira quando colocou Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll nas telas do cinema em 2006. Recém vindo de um grande sucesso na TV com a campanha O Amor é a Melhor Herança, para a RBS TV, ele adaptou a ácida obra do chargista paulista Angeli para esse longa que chegou a contar com a dublagem de ninguém menos do que a cantora Rita Lee. Por costurar charges isoladas, obviamente ficam lacunas de ritmo e interesse na história, que, apesar de condensada em apenas 81 minutos, chega a se desgastar um pouco em sua reta final. Porém, Otto Guerra tem um olho muito clínico para a escolha de tramas e personagens diferenciados. Foi assim no universo particular de Até Que a Sbórnia nos Separe, seu longa posterior baseado no universo do espetáculo gaúcho Tangos e Tragédias, e também com o próprio Wood & Stock, que encontra, no carisma de seus protagonistas, uma simetria que talvez falte ao filme em si em termos de narrativa. Todos curiosos e divertidos em seus extremos, os personagens carregam críticas bastante atuais, como as de Rê Bordosa, que, recém saída de uma clínica de reabilitação, frequentemente questiona o que é esperado de uma mulher na sociedade. Pode até ser que Wood & Stock não seja uma grande animação, mas personalidade ela tem de sobra, o que já deve ser mais do que recompensador para um formato pouco explorado pelos brasileiros.

Jogo do Dinheiro

Without risk, there is no reward.

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Direção: Jodie Foster

Roteiro: Alan DiFiore, Jamie Linden e Jim Kouf, baseado em história de Alan DiFiore e Jim Kouf

Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell,  Dominic West, Giancarlo Esposito, Caitriona Balfe,  Christopher Denham, Lenny Venito, Chris Bauer, Condola Rashad, Aaron Yoo

Money Monster, EUA, 2016, Drama/Suspense, 98 minutos

Sinopse: Lee Gates (George Clooney) é o apresentador do programa de TV “Money Monster”, onde dá dicas sobre o mercado financeiro mesclando com performances típicas de um popstar. Um dia, um desconhecido (Jack O’Connell) invade o programa exatamente quando ele está sendo gravado e, com um revólver, obriga Lee a vestir um colete repleto de explosivos. Patty Fenn (Julia Roberts), a produtora do programa, imediatamente ordena que o mesmo saia do ar, mas o invasor exige que ele permaneça ao vivo, caso contrário matará Lee. Assim acontece e, a partir de então, tem início uma investigação incessante para descobrir quem é o sequestrador e algum meio de salvar todos os que permanecem no estúdio. Paralelamente, a audiência do programa sobe sem parar e todos passam a acompanhar o que acontecerá com o apresentador. (Adoro Cinema)

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Ao receber, em 2013, o troféu Cecil B. DeMille, a grande homenagem do Globo de Ouro para a contribuição de um artista ao cinema, Jodie Foster entregou o melhor discurso visto em anos durante qualquer cerimônia de premiação. O pronunciamento da atriz, entre outros tópicos, apontava discretamente para uma mudança em sua carreira: para bom entendedor, foi fácil perceber que Jodie, vencedora de dois Oscars, já estava desacelerando sua carreira de atriz nos últimos tempos e que, a partir dali, abandonaria maiores holofotes para se dedicar a outros projetos, muito possivelmente atrás das câmeras. Nosso instinto estava certo, pois desde Elysium, sua última investida como intérprete, ela procurou se esmerar como diretora ao comandar episódios de séries como Orange is the New BlackHouse of Cards. No cinema, àquela altura, já eram três os títulos que levavam sua assinatura, e o quarto chega agora com Jogo do Dinheiro, reforçando o desejo de Jodie Foster de agora ser exclusivamente uma contadora de histórias.

Levando em consideração mais o seu novo trabalho do que o anterior (o curioso Um Novo Despertar, protagonizado por Mel Gibson em 2011), não é muito difícil chegar a conclusão de que, caso Jodie Foster queira mesmo se tornar persona mais marcante no cinema como diretora do que atriz, precisa encontrar roteiros melhor lapidados daqui para frente. A experiência adquirida ao atuar em filmes cercados de tensão, sejam elas dramáticas ou policialescas, como AcusadosO Plano Perfeito, tem claro reflexo no que ela entrega aqui. Com bom domínio do ritmo de seu filme e especialmente do tom de suspense e até mesmo de bom humor que atribui a ele, a atriz-agora-diretora se mostra segura atrás das câmeras, o que faz um notável contraponto ao frágil roteiro escrito pelo trio Alan DiFiore, Jamie Linden e Jim Kouf. Se Foster consegue criar a tensão arquitetada em basicamente dois ambientes, o texto falha ao trazer abordagens mais consistentes ao cenário como um todo. Além das revelações dramáticas do sequestrador apenas seguirem a cartilha básica de humanização de personagens do tipo, decepciona como Jogo do Dinheiro prefere canalizar todas as suas críticas e resoluções a um personagem unidimensional que só aparece de fato no terço final da obra.

Contrabalançando a falta de discussões mais aprofundadas acerca do circo midiático e popular que se forma a partir de um programa que transmite um sequestro em tempo real, a reunião de dois atros do calibre de George Clooney e Julia Roberts reforça o prestígio de Jodie Foster como diretora e consequentemente do próprio filme. São os dois atores, em especial Clooney, que também conferem ao filme boa parte de seu envolvimento. Ele, por sinal, está impagável e dramático na medida certa como um apresentador que, ao se ver em uma situação complicadíssima de sequestro em rede nacional, acerta ao enrolar o sequestrador com todo o carisma que lhe tornou uma estrela e, em contramão, comete erros ao deixar visíveis as suas falhas como um sujeito rico, soberbo e excessivamente consciente do seu estrelato.

Clooney comanda o show porque, óbvio, está ótimo, mas porque Roberts fica apenas sentada atrás das câmeras tentando salvá-lo (e dizem as fofocas de bastidores que ela teria atuado boa parte do filme sem estar de fato no mesmo estúdio do ator em função de sua agenda complicadíssima) e porque Jack O’Connell (aquele ator que sofreu horrores no aborrecido Invencível), mesmo se esforçando, não tem, por natureza, uma presença intensa ou marcante. No balaio, coloque ainda um Dominic West que apenas repete – culpa do roteiro novamente! – o tipo difícil e cafajeste que vem desenvolvendo com grande competência no seriado The Affair. Ademais, bastante nervoso e divertido para os padrões de filmes dessa esfera sem maiores genialidades, Jogo do Dinheiro funciona, mas talvez marque mais caso seja encarado como uma breve diversão para um longo domingo chuvoso. 

Na TV… passando “American Crime” a limpo

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Felicity Huffman é a diretora que se vê diante de uma crise iminente: ela, como grande atriz que é,  mais uma vez se sai muito bem ao lidar com um dos papeis mais difíceis de American Crime.

John Ridley já tinha uma vasta mas despercebida carreira como roteirista quando ganhou o Oscar por sua adaptação de 12 Anos de Escravidão em 2014. Engana-se, no entanto, quem pensa que esse profissional nascido em Milwaukee, nos Estados Unidos, e afeito à literatura (até agora, já são sete romances publicados), sumiu do mapa e, principalmente, deixou de se dedicar às causas do racismo e do preconceito. Afinal, basta sair um pouco da cerca criada pelo Netflix ou do universo badalado de megaproduções como Game of Thrones para encontrar American Crime, programa criado e eventualmente roteirizado e dirigido por ele que tem a proposta de discutir tais questões a partir de crimes muito recorrentes não apenas no cotidiano norte-americano, mas também, por que não, em qualquer lugar do mundo. Para desenhar esse mapa de violência e preconceitos, Ridley optou pelo formato que Ryan Murphy popularizou recentemente com American Horror Story: a cada temporada, uma nova história protagonizada pelo mesmo elenco. 

A ABC tem levado muito a sério a inclusão em toda a sua programação, e American Crime vem reforçar esse conceito cada vez mais enraizado na emissora. É importante a lembrança porque estamos falando de um canal aberto que vem fazendo história com seriados populares como ScandalHow to Get Away With Murder, que desconstroem a ideia do que está reservado para atrizes negras na TV, por exemplo. Já com American Crime, a emissora escancarou de vez as discussões. Prefiro, no entanto, não me ater ao primeiro ano da série, que era óbvio em sua totalidade e não passava de um caldeirão temático frágil, desfocado e quase panfletário, mas sim me concentrar na segunda temporada, excepcional ao reunir sua equipe para repensar escolhas, descartar o que deu errado, maximizar potenciais e apostar em discussões mais delicadas e refinadas. American Crime foi passada a limpo – e as correções foram nada menos do que perfeitas. 

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Lili Taylor tem o desempenho de sua carreira como a problemática mãe que entra em uma jornada para defender o filho violentado.

É em uma escola de ensino médio que American Crime encena a violência de sua segunda temporada. No caso, na nebulosa noite em que Taylor Blaine (Connor Jessup, ótimo) participa de uma festa do time de basquete, bebe demais e acaba sendo fotografado em estado deplorável após o grande porre. Só que as imagens acabam vazando na internet e, conservadora por ser frequentada por jovens de classe alta, a escola acaba suspendendo Blaine. Anne, a mãe do garoto que tanto trabalha para lhe garantir um bom ensino, não se conforma e, após pressionar o filho sobre o que de fato aconteceu na fatídica noite, ouve algo mais perturbador: ele, entre as amnésias causadas pela bebida, acredita ter sido estuprado por um de seus colegas. Procurando imediatamente a escola, Anne não encontra apoio, uma vez que a diretora Leslie (Felicity Huffman) acredita que estupros só acontecem com meninas. Na realidade, Leslie só quer conter a crise para que ela não chegue aos ouvidos de uma comunidade rica e, como descobrimos posteriormente, repleta de preconceitos.

Propositalmente ou não, John Ridley parece ter se inspirado em exemplos muito dignos do cinema para construir a nova história de American Crime. É facilmente perceptível e bem-vinda a pegada dramática de Dúvida, filme estrelado por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman: assim como no longa de 2008, a temporada nunca encena o crime em questão e, a partir dos confrontos das relações de poder, deixa o espectador à deriva apenas com a palavra de cada um dos personagens. Ou seja, cabe a você escolher em quem acreditar. E se o programa é corajoso ao trazer uma importante ruptura em sua narrativa já revelando no quarto episódio o que de fato aconteceu, logo o segundo ano de American Crime pega o melhor de Gus Van Sant no controverso Elefante para falar sobre bullying no ambiente escolar e levar o cotidiano na Leyland Knights High School para caminhos cada vez mais tortuosos. Tudo sem parecer cópia, com personalidade própria e devidas doses de sutileza e intensidade.

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“Deus odeia bichas”. O preconceito, em maior ou menor grau, está literalmente estampado em todos os núcleos de American Crime.

O amadurecimento de Ridley ao pensar a série é notável aqui porque suas criações para discutir preconceitos são muito mais sofisticadas. Enquanto no primeiro ano tudo era muito óbvio (famílias ricas e brancas com filhos supostamente violentados por suspeitos latinos ou negros desprovidos de dinheiro), aqui o criador prefere inteligentemente inverter todos os clichês possíveis: o menino negro envolvido nas suspeitas, além de eventualmente preconceituoso, é criado por pais de boa posição financeira; o capitão do time que também levanta questionamentos da polícia não é o tradicional gostosão bem de vida que arranca suspiros das meninas; a escola é comandada por uma mulher, o que faz com que suas decisões mais firmes a coloquem como vilã diante de vários colegas; e o próprio menino supostamente violentado esconde outras questões íntimas que o tiram da mera vitimização. Ou seja, a segunda temporada de American Crime não tem construções fáceis, tocando em feridas não somente em fatos e acontecimentos, mas também no próprio contexto de cada um dos personagens.

Dando corpo e alma a essas figuras, o elenco do segundo ano é um acerto por estar na lista de tópicos repaginados pelo programa. É fundamental American Crime ter se livrado ou colocado para escanteio atores ruins que eram destacados em demasia na temporada passada porque obviamente isso tira o peso de estarmos vendo intérpretes problemáticos na tela e não personagens, ainda dando oportunidade para outros bons profissionais se engrandecerem aqui. É definitivamente o caso de Lili Taylor, atriz que nunca conseguiu se livrar da antipatia de sua Lisa Kimmel em Six Feet Under, mas que aqui entrega o melhor desempenho de sua carreira. Fazendo excelente dupla com o jovem Connor Jessup, ela é destemida e frágil como a mãe recém recuperada de um surto de depressão que busca, entre ímpetos, erros e acertos, estar presente para o filho depois de tantos anos. As mulheres, por sinal, são o melhor do elenco, passando ainda por uma Felicity Huffman que tira de letra um papel dificílimo (na primeira temporada ela já era um dos destaques com a polêmica Barb) e por Regina King, agora sim finalmente merecedora do Emmy de atriz coadjuvante que levou equivocadamente pela série em 2015.

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Assim como em The Leftovers, Regina King, premiada no Emmy pelo primeiro ano de American Crime, integra novamente um elenco repleto de ótimas interpretações femininas.

Inclusivo também atrás das câmeras com sua equipe, Ridley traz várias diretoras mulheres para assinar boa parte dos episódios, e é necessário dar destaque para o que Kimberly Peirce (a capitã do intenso drama Meninos Não Choram, que rendeu a Hilary Swank seu primeiro Oscar de melhor atriz) faz no oitavo episódio ao mesclar depoimentos de pessoas da vida real envolvidas em tragédias e preconceitos particulares com os intensos acontecimentos do capítulo anterior assinado por Ridley. É por ter essa reta final com dramas acentuados que o desfecho pode incomodar muitos espectadores, principalmente porque, na TV aberta, o público não aceita bem qualquer tom mais inconclusivo ou pessimista (The Good Wife só amargurou críticas ao optar por esse caminho recentemente), mas gosto de dizer que escolhas como essa representam a ideia de que os roteiristas nos tratam como adultos e que eles acreditam que dramas nem sempre precisam de finais felizes ou círculos perfeitos para alcançar a excelência – e American Crime, ao discutir com uma dignidade surpreendente questões delicadas como “sou gay, mas não sou bicha”, realmente aposta na nossa maturidade ao longo de todos os seus dez episódios.