Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Raquel Piegas

raqueltresMesmo em um curto espaço de tempo até aqui, o Jornalismo já me trouxe muitas experiências e trabalhos bacanas. Nada, no entanto, se compara às amizades tão especiais que vieram com o pacote. Na lista de encontros mais marcantes, o que tive com a Raquel Piegas está indiscutivelmente entre os mais importantes. Devido ao destino e à geografia, já não nos vemos pessoalmente há alguns anos, mas isso não é motivo para que nossas risadas, trocas e conversas fiquem menos relevantes do que quando convivíamos diariamente. Agora, trago a Raquel para um pouquinho mais perto de mim com a participação dela na coluna Três atores, três filmes. A seleção tem a cara da convidada, em especial a primeira escolha, que valoriza um desempenho luminoso e revelador e que eu já deduzia que pudesse estar entre seus desempenhos favoritos por dizer muito sobre quem a própria Raquel é. Fiquem abaixo, portanto, com a participação dessa amiga que admiro desde sempre.

Penélope Cruz (Volver)
Sou uma grande fã de Penélope. Foi um pouco difícil escolher qual atuação dela me é mais emblemática. Em todas suas personagens, Penélope leva um quê de si. Da mulher latina que não se entrega, que é intensa, que não se renega. Raimunda é uma matriarca, uma representação da força feminina, em uma lição de resistência diante de uma situação forte e impetuosa como o abuso sexual de sua filha e o assassinato em legítima defesa de seu marido, cometido pela filha abusada. Volta e meia me pego revendo a cena em que Raimunda interpreta a canção Volver, de Carlos Gardel. Essa parte do filme me traz a intensidade de quem está vivendo longe de sua terra, como eu. As lágrimas reais de Penélope nessa atuação me representam. É uma atuação a qual recorro em diversos momentos.

Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Escolhi uma atuação atual dessa atriz, por recentemente ter assistido a esse filme. Um drama sem choros fantasiosos, sem atuações escrachadas, sem melodrama. Um drama real, uma família real, uma situação com a qual podemos nos deparar constantemente: a ilusão de que somos intocáveis por doenças ou males que nos parecem distantes e que surgem de maneira inesperada para nos ensinar a reviver. Julianne consegue transmitir mesmo com sua expressão serena, em uma atuação que comove somente pelo olhar.

John Cusack (Alta Fidelidade)
Alta Fidelidade é cultura pop até os ossos. Desde o livro, escrito por Nick Hornby, até sua trilha sonora, o filme é um ícone de uma geração que está perdida e sabe que está perdida. E faz disso um estilo de vida, claro. Rob Gordon é viciado em listas. Top 5. Cada aspecto de sua vida é avaliado com base em cinco itens que ele escolhe como sendo os mais emblemáticos. Alta Fidelidade é uma tentativa de Rob se reencontrar reparando seus cinco maiores erros e decepções amorosas, com mulheres claramente mais fortes e emblemáticas que ele. É um personagem que me apaixona pelos seus lugares comuns e com a forte identificação que promove ao nos despertar a certeza de que é necessário reconhecer e revisitar cada fracasso vivido como uma maneira de evolução.

Três atores, três filmes… com José Pedro Goulart

zepedrotresQuem acompanha o blog sabe que, no Festival de Cinema de Gramado do ano passado, fiquei completamente impressionado com Ponto Zero, filme dirigido pelo meu conterrâneo e colega jornalista José Pedro Goulart. Não vou esconder minha gafe: foi só depois de conferir o longa que investiguei os trabalhos prévios de Goulart, incluindo o célebre curta-metragem O Dia Em Que Dourival Encarou a Guarda, que ele assinou em parceria com Jorge Furtado em 1986 (não cometam o mesmo erro que eu e confiram já esse filme aqui). Ao longo de sua trajetória, o diretor fundou a Casa de Cinema de Porto Alegre, a Zeppelin Filmes e, em 2008, a Mínima. Sua carreira ainda passa por publicidade, crônicas e produção de obras que considero particularmente marcantes na cinematografia gaúcha como Ilha das FloresO Cárcere e a Rua. Sem falar, claro, de Ponto Zero, que tem previsão de estreia para o primeiro semestre deste ano e que espero que, para vocês, seja uma experiência tão impactante quanto foi para mim. Ou seja, currículo é o que não falta ao nosso primeiro convidado de 2016 da coluna, o que só aumenta a minha honra de tê-lo por aqui. Fiquem abaixo com as escolhas do diretor, todas com justificativas que são verdadeiras aulas sobre a importância do ator para o fazer cinematográfico.

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Sidney Poitier (No Calor da Noite)

No Oscar deste ano não há nenhum ator negro indicado a qualquer premiação. Imaginemos o inverso, todos os atores nominados sendo negros e nenhum branco.

De modo que esta pequena grande lista começa com um filme de 1967, de Norman Jewison,  No Calor da Noite, cujo ator principal é um negro tão escuro que obrigou que fosse feita uma iluminação especial – rebaixada, para que não lhe refletisse a pele demais -, Sidney Poitier.

O filme conta a história de um investigador policial (Poitier) que, de passagem por uma pequena cidade do sulista dos EUE, é detido, por preconceito, como suspeito de um crime recentemente cometido. Desfeita a engrisilha, ele acaba ironicamente retido na cidade para trabalhar na investigação do crime pelo qual foi acusado. Trata-se de um detetive arguto, mas tem que enfrentar a desconfiança de todos, primeiro por ser forasteiro, e principalmente por ser preto.

Durante toda  a carreira, Sidney Poitier, interpretou homens de cor que tinham que lidar com isto. De alguma forma, frontalmente ou ladinamente, o fato de ser negro estava contido na temática (o cinema demorou a considerar a cor um não assunto). Ou seja, parte da interpretação é extensão de sentimento. Maltratar um personagem por ser negro, interpretado por um negro, equivale a um ator judeu sofrendo  as circunstâncias em um campo de extermínio nazista.

A extensão favorece, claro, porém todo grande ator trabalha com cartas secretas –  e cada carta contém a capacidade de estabelecer verdade nas nuances, naquilo que não é tão aparente, mas faz a diferença. Poitier tem uma baralho completo no bolso. Ele não grita, é matreiro, elegante feito um gato, milimétrico nas expressões. Talvez porque soubesse que era isso que fazia a diferença: ele se sentia bem de gravata.

No filme de Jewinson, No Calor da Noite, há uma cena antológica que, reza a lenda, teria sido exigência do ator. Nela, o personagem de Poitier é esbofeteado por um sujeito rico e poderoso, quando este se vê acusado por ele de ser um criminoso. Poitier imediatamente revida, devolvendo o bofete no sujeito. A maneira inesperada com que tudo acontece, ação e reação, põe a questão do racismo no seu devido lugar.

Mas o filme vai além, trata de um assassinato e das conspirações para que ele não fosse resolvido, uma rasura no sistema, um esboço daquilo que viria a ser tratado na explosiva série recentemente lançada, Making a Murderer. Por fim, há a relação entre Tibbs (Poitier) e Gillespie (Rod Steiger – Oscar de melhor ator pelo filme).  Gillespie, um delegado durão, mas repleto de angústia naquele fim de mundo, onde se sente perdido e solitário, descobre-se de alguma forma em sintonia com Tibbs: começa o filme prendendo aquele negro suspeito, mas evolui numa intrigante relação. O diálogo de ambos na cena derradeira na estação de trem é antológica.

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Klaus Kinski (Aguirre, a Cólera dos Deuses)

Aguirre, a Cólera dos Deuses é um desafio do grande cineasta alemão Werner Herzog, ao se embretar na selva amazônica – isso no começo dos anos 70 – sem pai nem mãe, para contar a história de uma expedição espanhola em busca do reino perdido de Eldorado, fato histórico acontecido em 1560.  O filme é narrado como se fosse um documentário, as condições realistas vertendo na tela, e eis aqui o meu ponto para a escolha dele: a distância do cinema e o teatro na dramatização. Num outro filme de Herzog, Fitzcarraldo, muito parecido, o cineasta volta à selva, mostrando que obsessão não tem limites quando se trata de enfrentar… limites.

E se Poitier é um felino, um gentleman na frente e por trás das telas, esta lista faz um corte seco para um cão – condenado, desgraçado, desmiolado – Klaus Kinski, genial, mas cujos adjetivos de insanidade são insuficientes para catalogá-lo. Personagem e ator se confundem. Difícil imaginar onde a atuação começa e termina quando um louco interpreta um louco, ou talvez tenhamos que lidar com o fato sobrenatural de que a alma de Lope de Aguirre tenha se instalado em Klaus Kinski. A cena do barco, assaltado por centenas de macacos enquanto Kinski perambula alucinado entre eles, apanhando um ou outro a esmo, faz parte da coleção daquilo que o cinema fez de mais impressionante desde que foi inventado.

Werner Herzog, por sua vez não fica atrás: as filmagens de Aguirre e Fitzcarraldo, ambos com locações na selva, teriam custado centenas de árvores nativas, animais e até mesmo ceivado vidas de índios a serviço do projeto. As histórias que são contadas a respeito da saga conjunta Herzog/Kinski são incríveis – há um documentário, inclusive, assinado por Herzog, Meu Melhor Inimigo, cujo título explica muito da turbulenta relação profissional e pessoal dos dois (que durou anos).

E é tudo verdade: os ataques de megalomania de Kinski durante as filmagens, as falas desconexas, as agressões a outros atores. Em especial se destaca a história de que, quando Klaus Kinski ameaçou abandonar as filmagens de Aguirre, o próprio Herzog apontou um revólver carregado para ele: se ele fizesse isso o mataria e depois a si próprio. Ou de uma outra, de quando os índios se ofereceram a Herzog para matarem Kinski. Werner Herzog declinou da oferta e convenceu os índios dizendo que precisava de um ator para concluir o filme.

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Paulo José (Macunaíma)

Por fim, para completar a tríade proposta pelo blog, o oposto de Kinski: de Lavras do Sul para o mundo, Paulo José, um cara legal. Mais do que isso, trata-se de um artista maravilhoso, que protagonizou filmes notáveis como Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira, mas minha escolha aqui é Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.

A partir de um texto original de Mário de Andrade, o filme tece um pano feito da linhagem que envolvia a nação. Por trás das peripécias de Macunaíma, um herói sem caráter que nasce negro (Grande Otelo) e vira branco (Paulo José), um tanto de Brasil raso e profundo. O país caloroso, tropical, cuja malemolência se autoexplica por um ritual permanente de autofagia.

Macunaíma é o encontro do Modernismo com Cinema Novo –, o manifesto da arte nativa, “tupy or not tupy”, bradava outro Andrade , o Oswald, por uma câmara na mão, uma ideia na cabeça, ainda outro Andrade, o Glauber (de Andrade Rocha) – em tudo a ideia era resistir. E reagir. Aquilo que vinha de fora não era lei, era preciso desconstruir na forma – linguagem é resistência.

Macunaíma nasce preto retinto e filho do medo da noite, passa seis anos sem falar, só de preguiça. Com a morte da mãe, aquela que lhe previu o destino (nome que começa por má, tem má sina), vira branco, sai do campo em direção à cidade, ao progresso, numa saga/paródia onde encontra a marginália: vadios, prostitutas, mendigos. E encontra o amor, Ci, uma guerrilheira urbana com quem tem um filho preto. Por fim, Macunaíma volta ao campo mais pobre do que saiu, carregando eletrodomésticos, badulaques da modernidade, algo imprestável naquele lugar. É o fim do herói.

A performance de Paulo José  é vivaz, tenho-a na memória, e vi o filme há mais de 30 anos. Havia uma questão que era a troca de atores para um mesmo personagem. E o filme começava com um Grande Otelo engraçadíssimo; moleque, brejeiro, safado. Era de se imaginar que o espectador fosse se ressentir da falta dele quando troca para o Paulo. Isso de fato acontece, mas não por muito tempo, em seguida o encantamento com o Macunaíma branco se refaz.

Acredito que a lente da câmara capture algo mais do que só a técnica do ator. Alguma coisa que não se explica, mas que é nítida, tanto na compreensão que o ator tem sobre a trama, mas também sobre a vida, sobre a arte, sobre as coisas. Lembro da primeira vez que ouvi a narração que o Paulo fez para o Ilha das Flores do Jorge Furtado – que coisa emocionante. Boa parte do sucesso do filme se deve a ele.

Abaixo um link de uma pequena mostra do talento, da compreensão do ofício do Paulo, recitando Drummond:

Três atores, três filmes… com Bruno Costa

brunotresConversar com o Bruno sobre cinema sempre rende discussões das mais interessantes. Resultado de outro ótimo encontro proporcionado pela internet e pelas redes sociais, nosso contato cinematográfico já ultrapassa a mera relação de blogueiro e leitor. É sempre um prazer trocar ideias com ele sobre cinema porque, além de termos muitas afinidades (principalmente no que se refere ao nosso afeto por atrizes), acredito que sempre provocamos um no outro novas reflexões sobre determinadas obras. A lista selecionada pelo Bruno tem a cara dele (claro que não poderia faltar Kate Winslet) e até reserva algumas afirmações bastante atípicas (será que existe uma interpretação melhor de Chalize Theron do que a de Monster – Desejo Assassino?).

Charlize Theron (Jovens Adultos)
Charlize Theron pode até ter ganhado o Oscar por Monster – Desejo Assassino (2003), mas é na pele da problemática Mavis Gary de Jovens Adultos (2011) que a atriz obteve o melhor desempenho da sua carreira. Amarga, bitch queen, sarcástica, infantil e presunçosa, sua personagem aqui é uma soma de vários defeitos que faz alguém ser detestável. Mesmo com uma personagem tão intragável e complexa, Theron consegue brilhar intensamente. Aliás, ela está impagável em suas caras e bocas, personificando com maestria o desprezo de Mavis pelas pessoas da sua cidadezinha natal, as quais ela reencontra graças a brilhante ideia de tentar reconquistar o namorado da adolescência, hoje um homem casado. Mas a grandiosidade da construção de Charlize vai além dos aspectos externos – algo que considero primário numa construção de personagem. Seu brilhantismo reside em conseguir transmitir a essência de um filme que trata sobre pessoas altamente capazes de obter êxito pessoal, mas que, por algum motivo, sabotam sua existência com atitudes infantis. São ressentimentos e descontentamentos para consigo mesmo que definem Mavis Gray. E Charlize Theron foi ótima em transmitir isso.

Gregory Peck (O Sol é Para Todos)
Um herói! Eis o melhor adjetivo para definir Atticus Finch, o mitológico personagem de O Sol é Para Todos. Adaptado do premiado romance de Harper Lee, a premissa do filme é simples: Atticus Finch, íntegro e renomado advogado da fictícia Maycomb, aceita defender um negro acusado de estuprar uma moça branca. O problema? Tudo se passa na década de 30, numa sociedade segregadora e preconceituosa, onde a palavra de um homem negro não devia ser levada em conta. Apesar da trama simples, o desenrolar dos acontecimentos é impactante em O Sol é Para Todos. E o valor social da história está longe de perder a relevância. Entretanto, tudo ficaria comprometido caso não tivessem encontrado o intérprete adequado para dar vida a Atticus Finch. Felizmente, o filme encontra nas qualidades do ator norte-americano Gregory Peck uma escolha mais do que acertada. Considerado um dos grandes atores da era dourada do cinema, Peck era conhecido por simbolizar a referência moral de Hollywood, dado seu ávido ativismo. De estilo sóbrio, voz serena, olhar que diz pouco e muito ao mesmo tempo, Peck empresta a Atticus Finch aspectos de sua persona pública, proporcionando ainda mais credibilidade e empatia do público em relação a um personagem que já nasceu mitológico em suas origens literárias. Longe de significar um demérito, essa fusão entre as características do interprete e as da figura ficcional resulta num desempenho cujo poder afetivo é inigualável. O Atticus Finch de Peck é mágico, soberbo, cativante e inesquecível!

Kate Winslet (O Leitor)
Dos grandes desempenhos da inglesa Kate Winslet, poucos costumam citar sua atuação em O Leitor (2008). Seja por causa da polêmica nas premiações ou pela controversa personagem, a grande verdade é que a composição da atriz para Hanna Schmitz merecia maior consenso. A primeira vez que conferi o desempenho de Kate neste filme, identifiquei de imediato as suas principais características como atriz: a profundidade técnica e emocional, o uso do erotismo como ferramenta de dramatização e a tão habitual sensação de poder e vulnerabilidade que ela traz a suas personagens. Despida de qualquer vaidade, Winslet apresenta ao público novidades no seu repertório, visíveis seja na rudeza da Hanna ou no interessante trabalho físico realizado. Certamente um dos seus maiores desafios de sua carreira, Hanna é, nas mãos de Kate, complexa, misteriosa, arisca, rude e de moral no mínimo duvidosa. O impressionante é que a atriz consegue ir além do proposto, conferindo uma pitada de humanidade a uma figura cujo passado odioso assombrou a si e aos seus durante toda vida.

Três atores, três filmes… com Sheron Neves

sherontresDessa vez, a coluna deveria se chamar “Três atores, três séries”, mas vamos manter a tradição do título. Ela deveria ter nome diferente porque a convidada é uma grande pesquisadora de TV, segunda tela, storytelling e transmídia, e também porque a conheci justamente em um curso sobre séries (mais especificamente sobre as produções da HBO) anos atrás. Sheron Neves, mestre em Media Studies pela Birkbeck, University of London e professora na ESPM-Sul, PUCRS e Unisinos, vem hoje ao Cinema e Argumento para comentar, excepcionalmente, três grandes atuações da TV. As escolhas particularmente me fascinaram porque fogem do previsível, conforme ela mesma explica na introdução abaixo. E como não pular de alegria ao ver Six Feet Under, meu seriado favorito de todos os tempos, lembrado na seleção? Ah, e não deixem de conferir o trabalho da Sheron no Meditations in an Emergency!

Antes de listar minhas três atuações favoritas da TV, preciso fazer um parênteses: não incluí os britânicos, pois precisaria de uma lista bem maior do que a que me foi encomendada. Sejam eles jovens como Nicholas Hoult (Skins) ou tarimbados como Maggie Smith (Downton Abbey), são todos responsáveis por performances impecáveis. Falando em impecável, mais um parênteses: deixei de fora Bryan Cranston (Breaking Bad), um dos meus favoritos. Afinal, o que dizer que ainda não foi dito pela imprensa ou pelas inúmeras premiações que recebeu pelo papel? Optei, portanto, por três performances menos conhecidas, mas não menos extraordinárias.

Sofia Helin (The Bridge)
Para viver Saga Norén, a brilhante policial com síndrome de asperger de The Bridge, a atriz sueca optou por uma interpretação sem grandes afetações, mas extremamente convincente. Vários remakes do drama sobre um maquiavélico assassino em série já foram feitos, mas nenhuma atriz parece ser capaz de interpretar a personagem com tamanha naturalidade como Helin, cujo carisma conseguiu destronar a até então diva número um do nordic-noir, a atriz Sofie Gråbøl (da série sueca The Killing). Ao mesmo tempo em que ajuda a compor a dureza monocromática da série, a detetive criada por Helin faz também o perfeito contraponto. Como um Spock de saias, é seu distanciamento emocional e sua inabilidade social que a tornam uma boa observadora. É a sua honestidade brutal que a torna autêntica, e o seu caráter que a leva a construir a principal “ponte” do título: a amizade com seu parceiro, o passional detetive Rohde. Deliciosamente trágicos, os dois acrescentam um componente humano a um thriller gélido e cerebral.

Michael K. Williams (The Wire)
Natural do Brooklyn, o ator já possuía alguns pequenos papéis no currículo quando foi chamado para desempenhar Omar Little na premiada série The Wire (HBO, 2002-2008). Sua performance como o temido gangster/Robin Hood de Baltimore lhe rendeu inúmeros elogios da crítica, e até mesmo de Barack Obama, na época senador. O contraditório personagem parece ter sido feito sob medida para o ator que, com seu rosto carrancudo (marcado por uma enorme cicatriz obtida em uma briga no dia do seu 25º aniversário) pode parecer assustador à primeira vista. Entretanto, à medida que a trama se desenvolve, o ator consegue transmitir a complexidade deste que é um dos melhores personagens da série: apesar do rosto duro e dos atos inquestionavelmente cruéis, ele permanece a pessoa mais honesta e altruísta dentro de uma cidade repleta de políticos e policiais corruptos. Williams consegue transmitir esta dualidade com total sutileza e maestria.

Frances Conroy (Six Feet Under)
Formada pela prestigiada Juilliard School de Nova Iorque, a veterana atriz de teatro conquistou o grande público como a matriarca da família Fisher em Six Feet Under (HBO, 2001-2005). Mais conhecida até então no circuito independente, Conroy usou sua experiência nos palcos da Broadway para construir uma personagem absolutamente cativante e tragicômica. Uma das personagens mais imprevisíveis da série, Ruth Fisher surpreende desde uma das primeiras cenas do episódio piloto, quando atira longe uma travessa de comida ao receber um telefonema com más notícias. Inicialmente o retrato típico da esposa baby boomer, recatada, perfeccionista e submissa, na pele de Conroy a personagem ganha uma dimensão surpreendente. O fim abrupto de seu casamento de 35 anos é o estopim de uma transformação que irá confundir a seus filhos e a ela mesma. Acredito que poucas atrizes conseguiriam interpretar com tamanha sensibilidade a jornada de uma mulher que descobre, no auge de seus anos dourados, sua própria sexualidade e individualidade.

Três atores, três filmes… com Roberta Pinto

rtarobertatresPor aqui no Rio Grande do Sul, a cinéfila Roberta Pinto já teve passagens por importantes veículos de comunicação. Como gosta de dizer, é fã de cinema desde que se “conhece por gente” e encontrou no Jornalismo uma maneira de expressar o seu amor pela sétima arte. Já são mais de dez anos na profissão, passando por experiências em rádio, TV e online – entre os projetos dela, inclusive, esteve o blog Janela Indiscreta/Em Cartaz. Já quando o assunto é assistir a filmes, um “santíssima trindade” norteia a vida da nossa convidada. Suas escolhas para a coluna são, por isso, baseadas em longas dos três diretores que vocês vão descobrir logo abaixo. E que diretores! Todos os desempenhos escolhidos pela Roberta são inéditos aqui na coluna – e são ainda um excelente guia para quem está querendo começar a procurar interpretações no cinema de diretores clássicos.

Sou uma cinéfila inveterada desde que me conheço por gente. Aprendi a gostar de filmes antes de mesmo de aprender a ler ou escrever. O cinema acabou me levando de forma indireta ao jornalismo onde tive a oportunidade de comentar e escrever sobre….Adivinhou? Ci-ne-ma. E eis que tenho uma “santíssima trindade” quando se trata da sétima arte. São três cineastas que devoto: Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick e Woody Allen. Acho que além do talento para contar histórias de uma forma muito particular (Hitchcock e Kubrick fazem amor com a câmera e Woody Allen com as palavras), os três cineastas também conseguiram extrair desempenhos memoráveis de seus atores.

James Stewart (Um Corpo Que Cai)
O ator encarna com perfeição o perturbado policial obrigado a se aposentar após um trauma e acaba prestando favores como detetive particular para um conhecido. Só que o personagem tem mais profundidade do que isso, e Stewart vai trazendo aos poucos com olhares, sutilezas, expressões, uma camada mais densa. A camada de uma homem obcecado e perturbado, que decide manipular e transformar uma mulher na outra que pensou ter perdido. Sempre gostei de pensar que o personagem tem muito de como o próprio Hitchcock via o feminino: como algo a ser manipulado para o seu prazer. Afinal, era assim que Hitchcock operava com suas estrelas: decidia seus penteados, a maneira de falar, sua postura, suas roupas e até se era ou não o momento de terem filhos (o papel de Kim Novak em Um Corpo que Cai era para ser de Vera Miles que OUSOU engravidar e perdeu para sempre o status de estrela de primeiro escalão no coração do mestre do suspense). James Stewart em Um Corpo que Cai é um perfeito Hitchcock.

Malcolm McDowell (Laranja Mecânica)
Partimos então para outro diretor exigente: Kubrick. Ele tinha mania de perfeição e costumava levar seus atores à exaustão até conseguir uma tomada perfeita. Se ele conseguiu o desempenho perfeito de Jack Nicholson em O Iluminado (já comentado aqui no blog), também extraiu o máximo de um ator que estava em início de carreira quando cruzou seu caminho: Malcom McDowell em Laranja Mecânica. A entrega de McDowell ao personagem foi tão intensa que durante a cena em que Alex é submetido ao tratamento Ludovico o ator teve a sua córnea arranhada pelos pequenos ganchos e ficou temporariamente cego. Num outro exemplo de sintonia entre o ator e seu ator, a cena clássica do estupro, onde Alex canta Singin´ in the rain foi filmada sem ser planejada. Stanley perguntou se McDowell sabia cantar e dançar e o ator improvisou a canção de Gene Kelly. Não precisa dizer que essa cena entrou para história do cinema. Pena que o projeto de Napoleão com direção de Kubrick e McDowell no papel título não saiu do papel. Teria sido interessante de assistir.

Gena Rowlands (A Outra)
Sei que ela já apareceu aqui no blog também, mas não posso deixar e registrar o desempenho de Gena Rowlands em A Outra, de Woody Allen. Woody escreve os melhores papeis que um ator pode desejar, e valoriza muito as atrizes com as quais trabalha. Em A Outra, filme que mostrava uma imersão mais bergminana do diretor nova-iorquino, Gena interpreta uma intelectual prestes a completar 50 anos que parece se concentrar na confecção de um livro aluga um apartamento vizinho a um consultório de psiquiatra. Pela ventilação, Gena escuta as consultas dos pacientes (uma mulher em particular chama a sua atenção) e passa a questionar as próprias escolhas que fez na vida. Uma atriz completa, Gena Rowlands descasca todas as camadas da personagem e termina o filme de uma maneira totalmente diferente de como iniciou, buscando uma sensibilidade que sempre esteve nela, porém adormeceu com o tempo. Sem dúvida um grande desempenho na carreira de uma das melhores atrizes de sua geração. 

Três atores, três filmes… com Filipe Matzembacher

filipetresSócio-diretor da Avante Filmes em Porto Alegre, Filipe Matzembacher já viajou o mundo com filmes que dirigiu e escreveu. Entre diversos curtas e longas, ele agora vive um dos grandes momentos de sua carreira: Beira-Mar, filme que realizou ao lado de seu sócio Márcio Reolon, já foi apresentado no Festival de Berlim e segue fazendo uma bela carreira em festivais internacionais. O filme é norteado por uma temática recorrente na carreira do diretor: as complexidades da juventude e da sexualidade. A primeira vez que entrei em contato com o trabalho do Filipe foi com Cinco Maneiras de Fechar os Olhos e, a partir daí, também fiquei atento a outros projetos relacionados a cinema que ele desensolve aqui no sul, como o CLOSE – Festival Nacional de Diversidade Sexual. As escolhas do Filipe trazem um bicampeonato: novamente Gena Rowlands é lembrada na coluna por seu desempenho em Uma Mulher Sob Influência. Além da lista, ele também nos enviou uma breve introdução. Você confere tudo abaixo!

A lida com os atores, na busca da construção de personagens complexos e de obras sensíveis foi um dos principais motivos que me fez ingressar no cinema. Por isso já começo informando o quão difícil foi fazer essa lista – principalmente para um geminiano! Para ser completamente honesto, precisaria de uma lista das 100 atuações que mexeram comigo. Mas aqui vão três atuações em tons diferentes, de obras também muito distintas, mas que buscam essa verdade – conceito tão abstrato – de maneira bem interessante.

Joe Dallesandro (Flesh)
Um garoto de programa passa o dia na rua, entre conversas amigáveis, programas e casos extraconjugais, enquanto tenta conseguir uma quantia de dinheiro para sua namorada. No longa-metragem dirigido por Paul Morrisey e produzido por Andy Warhol, o registro do corpo e da interação de Joe Dalessandro com os outros atores é tão cru e natural que te cativa a cada segundo.

Margit Carstensen (As Lágrimas Amargas de Petra von Kant)
Nesse clássico do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder, a dramaturgia é o centro da pulsão criativa. A protagonista desse drama sobre amor e dominação sustenta (junto da direção, é claro), os 124 minutos de filme com maestria. Com um elenco muito pequeno e uma só locação, a história de amor entre a estilista Petra e a modelo Karin é revelada em grandes atos, divididos por elipses que demonstram as mudanças nas relações dos personagens e de seus estados psicológicos.

Gena Rowlands (Uma Mulher Sob Influência)
Amor, cotidiano e loucura. Uma câmera próxima dos personagens, um roteiro crescente, que ora te sufoca, ora te faz sorrir e uma atuação brutal de Gena Rowlands como a amável e instável Mabel. A violência e a paixão, a esquizofrenia e o casamento, tudo está relacionado. A cada olhar de Gena seu coração vai se rasgar um pouquinho.

Três atores, três filmes… com Marcelo Galvão

galvaotresFoi quando trabalhei pela primeira vez no Festival de Cinema de Gramado em 2012 que entrei em contato com a filmografia do carioca Marcelo Galvão. Vencedor do Festival naquele ano com o espirituoso Colegas, Galvão retornou ao evento em 2015 para exibir o sensível e belo A Despedida, que lhe rendeu um novo Kikito – dessa vez o de melhor direção. Gentilmente, Galvão topou participar da nossa coluna e, abaixo, sintetiza em um depoimento algumas das interpretações que marcaram sua vida de cinéfilo. De Jack Nicholson em O Iluminado a Leonardo DiCaprio em O Aviador, passando por Björk e Gary Oldman, ele é mais um convidado para quem abrimos uma exceção no número de desempenhos selecionados. E todos os lembrados por Galvão são inéditos aqui! Confiram abaixo todas as escolhas do diretor!

A interpretação do Jack Nicholson em O Iluminado é bárbara, incluindo tudo o que ele criou para o personagem atrás das câmeras: um clima ruim entre ele e a Shelley Duvall, onde ele era bem frio com ela, se portando como um astro em relação a colega propositalmente. Tudo para que se criasse na tela um casal que você via que não estava dando certo. Acho que era essa um pouco a ideia e ele conseguiu imprimir bastante essa sensação no filme. Também tem todo o processo de loucura, uma proposta de criar uma figura diabólica para um pai de família… Acho muito boa a interpretação do Jack Nicholson nesse filme.

Já em O Aviador foi primeira vez que eu senti o Leonardo DiCaprio fora daquele estereótipo de garoto bonitinho que o físico dele acaba propagando. Nesse filme eu vi o quão bom ator ele é. Toda a construção do processo de loucura do Howard Hughes foi muito bom. Também tem Björk em Dançando no Escuro, entregando uma interpretação genial para uma iniciante no cinema; Gary Oldman roubando a cena e dando um show de interpretação em O Profissional, mesmo com Jean Reno sendo o herói do filme; e Christoph Waltz, que parece servir apenas para um tipo de personagem, mas que consegue sim fazer coisas diferentes, como em Django Livre, onde surpreende. Ele é o cara, sendo que a cara dele não dá a entender que ele é o cara!

Três atores, três filmes… com José Luís

tresjoseO último convidado do Três atores, três filmes de 2014 tem minha total identificação quando o assunto é listar filmes e interpretações que marcam preferências cinematográficas. Sempre acreditei que os filmes mais presentes em nossas lembranças são aqueles que dialogam de forma muito íntima e profunda com o que sentimos ou vivenciamos e não necessariamente em função da perfeição técnica ou da assinatura de um diretor. Tenho a total impressão de que, assim como é comigo, a situação é exatamente a mesma com o José, cuja lista que vocês podem conferir abaixo reflete, como ele mesmo aponta, uma série de identificações pessoais com os personagens escolhidos ou até mesmo com as histórias vividas por eles. E as justificativas certamente estão entre as mais interessantes que já passaram por aqui. Uma curiosidade sobre as escolhas: esta é a segunda vez que o desempenho de Kate Winslet em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças  é selecionado (e a terceira do filme, que também já foi lembrado pelo desempenho de Jim Carrey). Fiquem abaixo com as escolhas do nosso último convidado do ano, que encerra o ano da seção em alto estilo!

Angelina Jolie (Garota, Interrompida)
Garota, Interrompida é um filme baseado em eventos reais, onde encontramos uma Angelina Jolie jovem e destemida atuando com uma força selvagem, viva e decadentemente deslumbrante. Apesar de não ocupar o posto principal da história, a personagem de Jolie – Lisa Rowe – rouba a cena de todo e qualquer desavisado. Uma atuação digna do Oscar prematuro com o qual ela foi agraciada. Uma atuação corajosa de uma atriz que viria a ser uma das maiores celebridades do mundo. Particularmente, a personagem, em um primeiro momento, me desconcertou, me quebrou e me partiu em mil pedaços com diálogos provocadores e uma postura visceral. O espectador acaba seduzido pela fratura exposta que é Lisa. O filme em si é um aviso, um retrato do cotidiano assintomático da família do comercial de margarina, e traz uma reviravolta quando as personagens – assim como na vida real – passam a questionar suas existências. Talvez Angelina tenha atingido a perfeição em sua atuação devido às semelhanças que a personagem apresentava com uma Jolie adolescente, no inicio da carreira. Na minha opinião, é seu papel mais corajoso em um filme que eu sempre recomendo.

Kate Winslet (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças)
Kate Winslet obteve notoriedade mundial após sua excelente atuação em Titanic, porém, do meu ponto de vista, essa fase foi apenas uma passagem para o que a grande Kate poderia realizar ao longo de sua carreira. Assim como Natalie Portman, Kate, além de ter suas personagens habitando minha lista de atuações preferidas, também tem seus diversos filmes perambulando pela minha coleção de favoritos. Obviamente, uma personagem em especifico me marcou, profundamente. Clementine Kruczynski tinge seus cabelos de acordo com as fases de sua vida e apaga suas memórias como quem clama pelo novo. Winslet, em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, além de contar com um roteiro único é presenteada com uma fotografia e direção de arte incríveis, o que torna o pacote uma obra-prima cinematográfica. Brilho Eterno, em sua essência, trata de um cotidiano improvável entre dois desconhecidos que se conhecem muito bem, e Kate é feliz em transpor os sentimentos que presenciamos diariamente em nossas vidas com uma verdade comovente. A beleza das cenas é cotidiana: cabelos bagunçados, não penteados, corpos pouco esculturais… Assim como na vida real, o brilho está na única sedução a qual nos é inerente: a vida. A atuação é linda, pois passa ao espectador um aspecto genuína e sem enfeites sobre como, muitas vezes, agimos em nossas relações. Clementine diz “I feel like I’m disappearing” – pois é assim que nos sentimos ao tentar apagar o que não pode ser apagado.

Natalie Portman (Closer – Perto Demais)
Natalie Portman, em suas diversas interpretações, habita minha coleção de filmes preferidos e também um lugar entre minhas atrizes favoritas, posição que foi conquistada anos atrás ainda na minha adolescência. Closer é um filme de 2004 que, 10 anos depois, continua encantando espectadores com sua beleza e ousadia. N ano do seu lançamento, eu tinha apenas 13 anos, então, algum tempo depois, com alguma maturidade adquirida e na faixa etária para assistir o filme, o fiz. Closer, para uma geração criada assistindo aos filmes da Disney, em um primeiro momento não faz sentido algum, afinal, se trata de um retrato maduro, lúcido e cru sobre uma realidade amorosa do século XXI. Porém, aos poucos, o balé das idas e vindas, os segredos e a imensidão oculta que o ser humano possui em seu interior… Tudo ganha sentido. Talvez uma visão pessimista dos relacionamentos na vida adulta que, mais cedo ou mais tarde, visitamos por aí. A personagem de Portman, Jane Jones, Alice Ayres – ou como preferir chamar – tem um espírito livre, ousado e direto. As falas são dotadas de franqueza e eloquência e muitas delas nunca deixaram minha cabeça, uma atuação impecável, uma personagem que nasce, se desenvolve e morre – “I don’t love you anymore, goodbye” – em frente ao espectador.

Três atores, três filmes… com Louisiane Cardoso

loutresUma das coisas mais preciosas que escrever em um blog traz é a possibilidade de conhecer novas pessoas. Fora os amigos blogueiros que passei a ter ao longo dos anos, também devo boa parte do meu trabalho aqui aos meus leitores. Já foram muitas as mensagens especiais e carinhosas que recebi desde que comecei a escrever e até hoje continuo agregando novas pessoas neste sentido. Recentemente, a Louisiane é uma das leitoras com quem mais tive o prazer de conversar pessoalmente e ter contato além do blog. Ela, que recentemente criou o I Like Movies More Than People, ainda me deu a alegria inusitada de ser abordado em uma festa por causa do Cinema e Argumento! Fiquem abaixo com as escolhas da Louisiane, que optou por um desempenho clássico e outros dois contemporâneos (sendo a terceira escolha – com um spoiler – um dos meus desempenhos favoritos do ano passado!).

Christian Bale (Batman Begins)
Escolhi esse filme em princípio porque foi quando conheci Christian Bale e desde então nunca mais nos separamos. Quando estreou Batman Begins, nem fazia ideia de quem era o ator que iria protagonizar o filme, só sei que nunca mais parei de acompanhar o trabalho dele. Inicialmente virei uma tiete, mas depois que fui atrás de outros filmes ele me fez ver que tinha conteúdo pra mostrar. Cada papel tinha a assinatura de Christian, mas cada um era diferente. E foi a mesma coisa em Batman Begins. Bruce Wayne não virou um jovem caricato e nem o playboy engraçadinho como nas outras versões. Bale deixou o personagem decente e que cresce não só nessa primeira parte, mas nas outras sequências. O trabalho em conjunto com Christopher Nolan fez com que Bale não só desse humanização ao personagem como também finalmente tornasse Batman um herói de verdade.

Elizabeth Taylor (Gata em Teto de Zinco Quente)
Eu sei que Liz Taylor tem muitos trabalhos significativos, mas Gata em Teto de Zinco Quente sempre será o meu preferido dela. Faz um tempo desde que assisti a este filme pela última vez, mas nunca me sairá da memória tudo que ela faz em tela. Ela é sensual, romântica, brigona, amiga, reconciliadora, sincera e desesperada para tentar consertar o seu casamento com Paul Newman em cena (outro maravilhoso ator em ato). Mas neste filme ela é a única verdadeira naquela casa cheia de drama. E o melhor de tudo é que ela, mesmo chamando bastante atenção, em nenhum momento ofusca o trabalho dos outros atores na tela. Liz deixa a sua marca, a sua elegância de ser tudo o que uma mulher pode ser, mas sem perder a pose. No meu imaginário, a personagem de Maggie, a gata, é a própria atriz personificada em cena.

Julia Roberts (Álbum de Família)
Nunca duvidei do talento de Julia Roberts. Sempre a considerei uma ótima atriz, desde a primeira vez que a vi sendo uma linda mulher andando pela rua. Mas em Álbum de Família ela ressurgiu no cinema. Me fez voltar a ser sua fã. Pelo que vinha acompanhando dos trabalhos de Julia, era um trabalho sem graça atrás do outro. De vê-la sempre sendo a mulherzinha rabugenta reclamando da vida e do nada simplesmente ter um final feliz. Neste filme ela está no seu limite e explode, mas explode de um jeito tão libertador que até o seu rosto reproduz todas as expressões faciais que um dia tinha esquecido que eram possíveis ter. E ao contrário dos outros longas, neste ela não tem um final feliz, mas finalmente um alívio que tanto precisava.

Três atores, três filmes… com Raquel Cirne

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Exatamente 10 anos atrás, na oitava série do ensino fundamental, eu conhecia a Raquel, que, pela primeira vez, seria minha professora de História. O convívio acadêmico durou apenas um ano letivo, mas acho que posso dizer que a conexão que estabelecemos lá atrás como aluno e mestra continua até os dias de hoje. Tradutora, professora e escritora do blog El Tesoro de Palabras, dedicado aos idiomas, a Raquel também dança, faz artesanato e, como ela mesma define, é uma sonhadora profissional. A participação dela aqui nesta seção é muito especial não só pelo fato de que a Raquel foi uma das professoras mais especiais que encontrei ao longo da minha vida acadêmica mas também porque ela, com sua habitual criatividade, resolveu quebrar os protocolos do blog (o que muito me animou!). Além de fazer uma introdução sobre o ofício do ator, ela resolveu escolher três interpretações de uma única atriz. E logo abaixo vocês vão descobrir o porquê de eu ter gostado tanto das escolhas da Raquel. Ah, e para quem quiser conferir o blog dela, aí vai o link: http://www.eltesorodepalabras.blogspot.com.es. Boa leitura a todos!

O que é uma atriz? É uma profissional que, através da expressão corporal, da técnica vocal e da interpretação, dá vida a outras vidas. O que é uma boa atriz? É uma profissional que realmente trabalha esses pilares da arte dramática, deixando de lado a si mesma. O que é uma excelente atriz? Meryl Streep. Assim, ao pensar nas minhas escolhas para esta seção, recordava imediatamente as atuações dela, que é uma atriz diferente em cada filme. Rica ou pobre, vilã ou mocinha, conservadora ou moderna, sempre convence, nunca se repete, e não se limita à fama como fator suficiente para manter uma história. Por isso ela é uma verdadeira atriz profissional, e não somente uma “estrela”.

Meryl Streep (Mamma Mia!)
Haja fôlego! Corre, dança, grita, sobe no telhado e cai da janela, pula no mar, ri, chora… E canta – com a própria voz… E em muitos momentos, faz tudo isso ao mesmo tempo, e com uma idade que até poderia ser “considerável”… É um trabalho muito completo, no qual se vê realmente uma grande expressão corporal, uma grande expressão vocal e uma interpretação sensível, passando por emoções diferentes, até mesmo opostas, e em todo o momento verdadeiras. Para ter valor, nem sempre um filme precisa ser questionador, ou enigmático, ou difícil de entender. Também ter que ter música luminosa, leveza, beleza, como aquela linda celebração do casamento com velas penduradas nas árvores… Cinema é magia, e deve ter a função de inspirar, de estimular os sonhos, de colorir a vida – vide o final escandalosamente colorido e alegre. Esta obra é uma fábula, e as fábulas têm finais felizes, mesmo que demorem para chegar. E é justamente a falta de cor na vida, e o costume a isto, que me leva à escolha do segundo filme. Sonhos são necessários, mesmo que nem sempre se possa realizá-los. Mas sem eles, não se vive.

Meryl Streep (As Pontes de Madison)
Nenhum efeito especial, poucos atores e poucos ambientes constroem um filme bastante complexo, que nos mostra o outro lado da moeda: nem sempre a felicidade é possível. A dona de casa invisível aos olhos da família que vê seus sonhos morrerem pouco a pouco até transformar-se em uma sombra que quase não sente nada, vive uma relação passageira, porém eterna, com um fotógrafo viajante. Nesse curto período, o coração dela bateu, ela sentiu paixão, ciúme, medo… sentiu emoções, esteve presente na própria vida. Porém, tanto se escolhesse ficar com ou sem ele, seria infeliz, devido a um grande controle social que afetaria toda a sua família. Podemos pensar que a história se passava nos anos 60, em uma cidade do interior, nas quais qualquer comportamento diferente era condenado e expulso… Mas sabemos que continua sendo atual. As revistas de fofocas não só sobrevivem como se expandem no infinito mundo virtual, pois a vida alheia ainda parece interessar mais do que a própria. Penso que o desafio de Meryl foi dar vida a uma personagem sem vida que, por um curto momento, passa a estar cheia de vida. Não conseguiu realizar seus sonhos, mas foi um breve encontro com um deles que possibilitou que continuasse. Simples assim, que continuasse.

Meryl Streep (A Escolha de Sofia)
Não poderia e nem tenho a pretensão de comentar sobre a densidade deste filme, que certamente está na lista dos melhores de toda a História, em tão poucas linhas. Acredito que muito já foi analisado tanto sobre o roteiro adaptado quanto sobre a extraordinária e profunda interpretação de Meryl, de modo que eu gostaria de destacar o trabalho dela ao ter que falar em três idiomas: alemão, polonês e inglês. O que para nós pode ser visto como um ponto forte, que mereceria um grande elogio, para ela, foi simplesmente sua obrigação, pois certa vez comentou que reproduzir sotaques faz parte do trabalho de qualquer atriz. E é esse tipo de postura que a faz única, irrepetível. Mas na linha dos dois outros filmes, também reflito sobre a “possibilidade” das escolhas. Ela foi obrigada a escolher qual filho deveria morrer, e poderíamos dizer que somente no nazismo se encontrariam tais atrocidades… Mas não. A pobreza e a fome, vergonhosamente presentes em uma época privilegiada de recursos, informação, circulação de ideias e pessoas, ainda obriga a muitas mães à mesma “escolha”. Como disse Nietzsche, “a arte existe para que a realidade não nos destrua”. Por isso precisamos das fábulas, dos sonhos, das cores e de Meryl Streep.

Três atores, três filmes… com Daniela Cardarello

danielactresUma das alegrias de poder estar em eventos de cinema é, sem dúvida, ampliar a troca de conhecimentos e opiniões sobre filmes. E também conhecer pessoas com quem você tem afinidade. Este ano, não foi diferente no Festival de Cinema de Gramado, onde conheci a jornalista Daniela Cardarello, com quem tive a oportunidade de trabalhar na assessoria de imprensa do evento. Muito além das opiniões semelhantes concorrentes latinos e brasileiros do evento, os filmes em geral – sejam os blockbusters ou os de “arte” – nos conectaram em praticamente todas as trocas de opinião. É sempre muito bom quando isso acontece. Para a minha alegria, a Daniela aceitou participar do Três atores, três filmes, com uma seleção que, segundo ela, foi feita tentando escapar das escolhas mais “óbvias” (mas nem por isso menos extraordinárias), como algum desempenho de Meryl Streep ou de Julianne Moore, atrizes que nós dois admiramos profundamente. O resultado desta lista que preza por escolhas autênticas e bastante pessoais vocês conferem abaixo!

John Travolta (Pulp Fiction – Tempo de Violência)
Impossível esquecer do capanga Vincent Vega neste segundo filme de Quentin Tarantino que já é um icone do cinema. As frases da dupla de assassinos interpretada por Travolta e Samuel L. Jackson (Jules Winnfield) são inesquecíveis, tanto pelo conteúdo bizarro no contexto das cenas quanto pela interpretação de ambos, com destaque ao protagonista Vincent. De fato, acredito que ninguém poderia prever que este papel pudesse ser tão bem resolvido por este ator que, até o momento, era mais reconhecido por rebolar – claro, de um jeito muito “macho” -, e brincar de papai em comédias românticas bobas. Descobrimos que ele também podia atuar – e muito bem, no melhor resgate da indústria da perdição do star system de Hollywood. Não posso deixar de lembrar: ele ainda dançou neste filme, em uma cena magnífica com Uma Thurman (Mia), a mulher de seu chefe, a quem ele tem que cuidar e, claro, não chegar muito perto. Mas lá estão eles, dançando maravilhosamente um twist, sem rebolar, e mostrando que, sim, ele sempre é bom de pista.

Tom Cruise (Magnólia)
Ok, por favor, esperem, sei que para muitos é difícil entender como posso destacar uma atuação do Tom Cruise. Mas, aqui, ele realmente surprendeu – e muito! Não fui a única a achar isso: com sua interpretação como o guru Frank T.J. Mackey, ele conseguiu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro. Cruise é um ator secundário neste filme de diversas pessoas que conduzem a história. E todos são espetaculares, seja Julianne Moore, William H. Macy ou o recentemente falecido Philip Seymour Hoffman. A força que Cruise transmite como o “supermacho norteamericano” em suas palestras a homens frustrados – sob o lema “Seduza e destrua” -, é, para mim, um dos momentos inesquecíveis do filme, que pessoalmente adorei. Sua atuação é refrescante e comovente. Esse carismático homem interpretado por ele é, na verdade, um desgraçado incapaz de superar o abandono do pai. Todo esse esquema de durão hermético em plena negação chega, em um determinado ponto, a uma ruptura, mostrando a sua necessidade de amor e perdão. É, vale a pena ver de novo!

Natalie Portman (V de Vingança)
É claro que esta atriz já começou bombando na sua carreira como a pequena Mathilda, protegida pelo assassino profissional interpretado por Jean Reno em O Profissional, mas ela foi crescendo em cada papel que interpretou até chegar ao merecido Oscar de melhor atriz por Cisne Negro. Acredito que, interpretando Evey, em “V de Vingança”, ela realmente mostrou do que era capaz, que não existia um limite que ela não alcançasse para se transformar em um personagem. Portman é uma jovem em quem V – personagem principal da HQ no qual o filme foi baseado -, reaviva um ativismo. Sua mudança radical ao longo da obra destaca a inteligência desta atriz, que tem que se vincular emocionalmente a um ator que sempre usa uma máscara. É uma interpretação que, por momentos, chega a comover profundamente. Portman alcança extremos reais no filme, como raspar completamente a cabeça (de verdade!) e aprender a falar com sotaque britânico. Apesar de estar entre as estrelas de Hollywood cujo nome já é garantia de sucesso, o filme não teve uma boa bilheteria. Mas, claro, qual reação esperavam de um público acostumado aos super heróis que destroem monstros imaginários sozinhos frente a um homem sem rosto que luta contra um sistema político ditatorial e que precisa da conjunção do povo para conseguir o seu objetivo?

Três atores, três filmes… com Stella Daudt

stellatresSou muito fã da Stella Daudt, a autora do By Star Filmes. Admiro essa sensibilidade dela ao assistir a filmes e ao escrever sobre eles. Tenho para mim que a Stella é uma cinéfila que mede a grandeza de um filme por seus significados e pela forma como ele toca o espectador, muito antes de sua técnica ou do nome do diretor, por exemplo. Penso e assisto a filmes da mesma maneira, e talvez venha daí o meu apreço cinematográfico por ela. Conversando com a Stella, descobri que escolher três interpretações para esta seção não foi uma tarefa nada fácil para essa convidada. E o resultado foge de qualquer escolha óbvia ou previsível, trazendo escolhas que, sem dúvida, podem servir de guia para que cinéfilos descubram outras pequenas grandes interpretações que não foram necessariamente tão celebradas. Mais do que tudo, é uma lista que é a cara da Stella. Confiram:

Maggie Smith (Assassinato em Gosford Park)
A irônica Constance Trentham é uma precursora de Lady Violet Crawley, a condessa viúva em “Downton Abbey”.  Ambas destilam ironia e comentários sarcásticos em abundância, não respeitando criatura alguma. No papel de Violet, embora evite criancinhas, Maggie ainda mostra empatia e humanidade por seus semelhantes. Já como Constance Trentham, ela não perde a chance de fazer uma piada maldosa e só se importa com ela mesma. Que diferença de Charlotte Bartlett, a aborrecida prima pobre que Maggie interpretou em “Uma Janela para o Amor”! Maggie Smith é uma das mais brilhantes e completas atrizes inglesas vivas, uma versão feminina do talentoso Sir John Gielgud. Deus lhe dê saúde e memória para seguir atuando até o fim de seus dias!

Leila Diniz (Todas as Mulheres do Mundo)
No filme de Domingos de Oliveira, a Maria Alice criada pela Leila consegue ser modesta, responsável, uma companheira afetuosa e, ao mesmo tempo, sensual e divertida. Em alguns momentos ilumina a tela com um sorriso contagiante, para depois nos entristecer com um semblante reflexivo ou melancólico. Seu desempenho torna fácil perceber o que o mulherengo Paulo sente: para estar só com ela, valeria a pena deixar todas as outras. Maria Alice era “todas as mulheres do mundo”. A história é uma belíssima declaração de amor de Domingos de Oliveira a Leila Diniz. Para quem ainda não viu o filme, vale a pena assistir e conhecer o desempenho primoroso de uma atriz natural, sensível e inteligente.

Jacques Tati (Mon Oncle)
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1958. A criação de Tati como Monsieur Hulot, o tio distraído do menino Gérard Arpel, e um senhor socialmente desajeitado e totalmente adorável – toca o coração e fica na memoria.  Os Arpel, os pais de Gérard, são gente moderna, muito ocupada e um tanto impessoal; tudo o que Hulot não é. Sua simplicidade conquista o sobrinho e a nós. Graças à terna interpretação de Jacques Tati, Hulot foi um dos personagens que permaneceu comigo desde a infância.

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