Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Ale Ceratti

Queridíssima cinéfila que conheci nos bastidores do Festival de Cinema de Gramado, a Ale Ceratti, assim como eu, é uma das profissionais que atua no evento serrano com paixão extra porque desde sempre gostou de cinema. Recentemente, a Ale passou a registrar suas experiências com filmes e séries no Instagram, mas, muito antes disso, ela já merecia estar aqui na coluna. E sabe por que? A Ale tem uma característica que considero rara inclusive em muitos críticos atualmente: a de ver o cinema com prazer e emoção para somente depois analisá-lo ou coisa do gênero. É assim que eu sinto a paixão dela pelo cinema, e tenho certeza que é isso que vocês também vão perceber nas escolhas da Ale para a coluna. Curiosidade: com essa lista, Kate Winslet conquista o tricampeonato na coluna com Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, desempenho também lembrado nas participações dos meus amigos Wally Soares e José Luís

Lamberto Maggiorani & Enzo Staiola (Ladrões de Bicicleta)
Me deparei com Ladrões de Bicicleta pela primeira vez em 2003, em um curso de História do Cinema promovido pelo MARGS. Ao falar de Realismo Italiano, a professora exibiu a cena final de Ladrões de Bicicleta (foi neste dia que descobri o spoiler!). Fiquei encantada com o poder de expressão dos personagens principais, pai e filho e como, apenas com o olhar, conseguiam passar tantos sentimentos: angústia, medo, desespero, humilhação, compaixão. Só assistindo para entender a dimensão. Suas atuações ficam mais incríveis quando se sabe que ambos eram atores amadores e que aquele havia sido seu primeiro trabalho em frente às câmeras. No dia seguinte – graças à locadora do CV/UFRGS que contava com vários clássicos – consegui assistir ao filme na íntegra. Costumo dizer que este foi o filme que fez eu me apaixonar pelo Cinema e que me mostrou o poder que uma história bem contata tem de mexer com a gente. DU-VI-DO alguém assistir Ladrões de Bicicleta sem precisar de um lencinho!

Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas)
Simpatizei com Heath Ledger à primeira vista na comédia adolescente Dez Coisas que Eu Odeio em Você e pude acompanhar, filme a filme, seu crescimento como ator. É incrível ver como, em uma carreira tão curta, ele construiu uma obra tão diversa. Seu Coringa, de O Cavaleiro das Trevas, recebeu todos os prêmios possíveis, e arrisco dizer que o que lhe rendeu todo este reconhecimento não foi a morte prematura como muitos críticos/profissionais da área indicam, mas sim a cena em que o palhaço se pendura para fora de uma viatura de polícia, extasiado em ver a cidade ruindo, curtindo o vento na cara – dez segundos onde ele não fala nada, mas diz tudo! Uma das muitas cenas do filme onde podemos ver a força de sua interpretação e o compromisso na construção do personagem.

Kate Winslet (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças)
Sou apaixonada pelo trabalho da Kate Winslet, que é, para mim, a maior “coringa” do cinema atual. Ela consegue adaptar seu visual, tom de voz e sotaque como ninguém, o que lhe permite passear suavemente por todos os gêneros. De todos os seus filmes, o meu preferido é Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, onde ela interpreta uma mulher comum passando por fases de um relacionamento “complicado”, com suas alegrias e dúvidas, vivendo sem medo, tentando entender o que lhe faz bem (a metáfora das cores de cabelo é genial!). Kate interpreta Clementine de uma maneira que gera identificação imediata do espectador, e este é um dos maiores trunfos de um ator, quando o público empatizar com seu personagem, seja ele mocinho ou vilão. A facilidade com que ela muda sua expressão de derrota para um soluço de alegria ao pronunciar um simples OK para o personagem de Jim Carrey ao final do filme sempre coloca um sorriso no meu rosto.

Três atores, três filmes… com Brenno Bezerra

Uma interpretação delicada e econômica. Outra biográfica e de rara esperteza dramática para o gênero. E, por fim, aquela de viés clássico para ninguém colocar defeito. É diversa e muito bem pensada a trinca de interpretações selecionada pelo amigo blogueiro Brenno Bezerra. Fã incondicional de Nicole Kidman e  colega cinéfilo que, assim como eu, também acompanha há anos a temporada de premiações, Brenno, vale lembrar, me deu o privilégio, anos atrás, de participar das pesquisas para o seu livro Resenhistas na Web: O Novo Crítico de Cinema, lançado em 2015. É sempre estimulante trocar ideias com cinéfilos de gosto democrático e que reconhecem que a qualidade do cinema está nos olhos de quem vê. E, durante esses anos acompanhando o Brenno, tenho a certeza de que ele se encaixa nessa definição. Para conhecer um pouco mais o trabalho desse colega blogueiro, basta acessar o blog Rede Cinéfila.

Nicole Kidman (Reencontrando a Felicidade)
Quem conhece bem minha relação com o cinema sabe que minha atriz preferida é Nicole Kidman, que, por sinal, despertou em mim esse grande fanatismo justamente nos primeiros anos pós-divórcio de Tom Cruise, quando lançou Moulin Rouge! – Amor em Vermelho, Os Outros e As Horas, e acabou ganhando o Oscar por este último. Mesmo que posteriormente tenha feito boas atuações, era notável que ela já não estava mais em seu alto nível, e a qualidade dos filmes era decepcionante. Aí veio 2010 e o cinema foi brindado com o emocionante Reencontrando a Felicidade, onde os fãs puderam ver a Nicole que eles tanto veneram de volta, na mais forte carga dramática que ela tem total capacidade de executar em suas performances. Melhor atuação de sua carreira? Não, de forma alguma. Mas foi a atuação do recomeço, para mostrar que a estrela não estava apagada. Oito anos depois, posso constatar que ela ainda vive um belo auge e é uma rainha que não perde a majestade.

Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade)
Se alguém me perguntar se há uma atuação do século XXI que pode ser incluída entre as melhores de todos os tempos, eu diria, sem pensar duas vezes: Sean Penn, em Milk – A Voz da Igualdade. Não só por toda a sua postura pessoal e de seus personagens ao lado de sua carreira (muitos metidos a machões), ele ousa e impressiona ao não abrir e se deixar consumir por cada virtude, característica e/ou trejeito do Harvey Milk, se entregando de maneira voraz a cada cena e deixando o espectador de boca aberta minuto após minuto, fazendo de sua performance um autêntico show à parte num excelente filme, com outros excelentes atores. Uma atuação memorável e que recebeu seus merecidos reconhecimentos.

Elizabeth Taylor (Quem Tem Medo de Virginal Woolf?)
Ela é tida como a maior atriz de todos os tempos, diva dos olhos azuis e um forte exemplo de uma época em que a atriz mais bem paga era necessariamente a mais talentosa. A obra-prima de Mike Nichols, Quem Tem Medo de Virginal Woolf?, foi concebida para dar, em seu suspense, um grande destaque aos quatro personagens centrais, e de fato tal objetivo fora alcançado, mas ninguém pode negar que o chamou mesmo a atenção, cena após cena, foi aquela mulher embriagada, sem pudor, tão repugnantemente desprezível quanto admiravelmente forte e destemida, levando Elizabeth Taylor a encarnar alguém mais feia e velha do que ela. O surpreendente é que estas características sugaram o ápice do talento de Elizabeth Taylor, que já era consagrado, mas ali fez dela uma unanimidade inquestionável. A maneira como Liz interpretou a Martha, nenhuma atriz faria igual.

Três atores, três filmes… com Cleber Eldridge

Existem leitores e blogueiros que nos acompanham há tanto tempo que acabam, de certa forma, tornando-se parte da nossa história e do nosso imaginário. É o caso do Cleber Eldridge, com quem compartilho opiniões sobre cinema já há alguns anos. Cinéfilo que acompanha tudo que é tipo de lançamento, além de fã da temporada de premiações, ele hoje assina o blog 21th Century Cinema, dando atenção especial a um tipo de postagem que, confesso, está em falta aqui no blog: as listas, sejam elas de desempenhos, melhores do ano, TOP 10, etc. Para a coluna, o nosso último convidado do ano selecionou três desempenhos masculinos que dizem muito sobre o tipo de cinema e personagem que Cleber tanto se afeiçoa e se identifica. Boa leitura!

Philip Seymour Hoffman (Capote)
O sempre subestimado filme Capote, de Bennett Miller, não é só um dos melhores filmes da primeira década do século 21, como conta com uma das maiores interpretações de todos os tempos – na minha humilde opinião, é claro: a de Philip Seymour Hoffman, um dos grandes atores que infelizmente nos deixou muito cedo, por conta de problemas com drogas. Ele entregou uma atuação única ao interpretar uma figura única como Truman Capote. E não foi tarefa fácil: a voz e os trejeitos são o ponto alto de uma atuação que me marcou para sempre. O sombrio – e, para muitos, frio e distante demais do espetador – filme de Miller, não é uma biografia qualquer. É o relato brilhante de um momento na vida do escritor, momento esse que rendeu um dos melhores livro de não-ficção de todos os tempos. O conjunto da obra é particularmente marcante. Um filme que eu guardo no coração como uma obra-prima.

Garreth Hedlund (Na Estrada)
Os dias, as noites, as paixões e as frustrações de Jack Kerouack sempre me marcaram. Nas minhas muitas idas até a biblioteca, peguei todos os livros e contos escritos por esse outro marco da literatura americana. Quando soube que ele seria finalmente filmado, fiquei em transe, principalmente por um diretor que sempre soube filmar estradas como poucos: o nosso grande Walter Salles. Dean Moriarty sempre foi o meu personagem favorito, em todos os muitos livros que li. Garreth Hedlund, que não é lá o melhor ator do mundo, me agraciou com uma atuação marcante, dando vida a uma personagem exatamente como eu imaginava. Ele se joga de cabeça em tudo na vida, faz tudo o que quer, na hora que quer, quando quer e não se preocupa com o amanhã — justamente como um dia eu sonho ser. Acho que nunca um personagem foi melhor posto frente às telas.

Harris Dickinson (Ratos de Praia)
O até então desconhecido Harris Dickinson é uma das marcantes estreias no circuito independente com Ratos de Praia, que, infelizmente, não deve entrar em cartaz por aqui no Brasil. Foi uma das mais agradáveis, felizes e marcantes surpresa que tive com o cinema nos últimos anos. Tem muito da minha pessoa no protagonista Frankie. Tem muito do que um dia eu já fui e felizmente não sou mais. Seus olhares, sua timidez e até mesmo sua coragem são marcantes. É o retrato de um atormentado garoto que ainda não sabe do que realmente gosta, como ele mesmo diz em um diálogo. No filme e nele estava um pequeno pedaço da minha vida.

Três atores, três filmes… com Tanira Lebedeff

Credenciais não faltam para a minha colega jornalista Tanira Lebedeff, que tenho o prazer de ter como convidada aqui na coluna. Ela, que já ganhou o Candango de melhor roteiro no Festival de Brasília pelo curta-metragem A Vida do Outro, viveu oportunidades de ouro em sua carreira como jornalista, entre elas a de ser correspondente da Globo News em Los Angeles durante a época do Oscar! Aliás, fica a dica: Tanira conta um pouco de seus bastidores em reportagens e de seus diários de viagens de produção no livro A Velhinha Que Entrevistou George Clooney, lançado pela editora Catarse, em 2016. Hoje, ela compartilha toda a sua experiência como repórter com os futuros jornalistas do mercado ao integrar o corpo docente da ESPM Sul. Além de ser uma querida, Tanira traz ao blog escolhas indefectíveis, de intérpretes talentosíssimos, incluindo Vladimir Brichta, que vem se revelando há anos, mas que tem, em Bingo – O Rei das Manhãs, um momento realmente especial. O resto eu deixo para ela contar nos comentários abaixo!

Frances McDormand (Fargo – Uma Comédia de Erros)
Nessa comédia de erros – aliás, subtítulo que o filme ganhou no Brasil – Frances McDormand é uma policial gravidíssima investigando uma série de assassinatos desencadeados pelo plano muito infeliz do vendedor de automóveis vivido por William H. Macy. Com uma personalidade simples e um sotaque carregado, típicos de uma pequena cidade interiorana, não seria improvável duvidar de sua capacidade de desvendar um crime. Mas Marge Gunderson é astuta, determinada, não se intimida nem por bandidos brutamontes, nem pelo peso da barriga ou pela neve que em certas ocasiões é praticamente coadjuvante do filme. A policial Marge Gunderson rendeu a Frances McDormand o Oscar de Melhor Atriz em 1997. Ela foi ovacionada ao subir palco para receber estatueta imitando o caminhar desengonçado da personagem. Um clássico que merece ser revisto (inspirou série na TV americana), Fargo foi dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen. Frances é casada com Joel e trabalhou com a dupla em vários filmes, incluindo Queime Depois de Ler, em que tira uma lasquinha de George Clooney e inventa uma intriga internacional para financiar uma cirurgia plástica. Outra atuação primorosa numa obra tão imprevisível quanto Fargo.

Viggo Mortensen (em qualquer filme)
Sim, para mim seu nome nos créditos é atestado de qualidade da obra. O entrevistei numa coletiva quando era correspondente em Los Angeles. Viggo, um gentleman, nos presenteou com seus livros de fotografia e escreveu um agradecimento no idioma de cada um dos jornalistas. Naqueles tempos de protestos contra as guerras no Iraque e no Afeganistão era comum vê-lo nas ruas de Los Angeles entre os manifestantes. Tudo isso transcende a tela e deixa Viggo e seus personagens ainda mais instigantes e encantadores. Aragorn, por exemplo, é o motor da trilogia Senhor dos Anéis, a personificação da nobreza. Mais recentemente Viggo encarnou o teimoso Capitão Fantástico, que conduz sua filharada hippie num road movie rumo à realidade de uma vida convencional. Mas como tenho que indicar um filme… Escolho Senhores do Crime, de David Cronenberg. Nele Viggo Mortensen é Nikolai Luzhin (SPOILER!), um agente secreto resignado que entrega sua existência para investigar a máfia russa em Londres. A cena de luta na sauna é uma das melhores de ação que já vi.

Vladimir Brichta (Bingo – O Rei das Manhãs)
O reino do politicamente incorreto tem um soberano incontestável: o Bingo de Vladimir Brichta. Inspirado na vida surreal de Arlindo Barreto, um dos atores que viveram o palhaço Bozo na TV, o filme tem altas doses de humor, drama e escracho. Vamos do ápice do sucesso ao fundo da garrafa em que o Augusto de Brichta mergulha por não poder mostrar a cara – afinal quem tem que fazer sucesso é o palhaço, não o ator. Bingo é recheado de sexo, drogas e o bom rock n’roll dos anos 80, tem fotografia e uma produção cênica primorosas. Mas quem rouba o picadeiro é Vladimir Brichta, com uma atuação intensa e honesta, sem exageros. Brichta, que era uma das pérolas no elenco da série televisiva em que trocava tapas e beijos com Fernanda Torres, ganhou um baita presente com esse filme. E honra cada palavra do roteiro (SPOILER! a participação de Domingos Montagner, como o palhaço que foi, beira o sobrenatural.)  E o melhor da piada: num ano em que arte e cultura viraram saco de pancadas, Bingo, The King of Mornings foi a produção indicada para representar o Brasil no Oscar de 2018. Bravo!

Três atores, três filmes… com Celso Sabadin

Meus primeiros contatos com crítica de cinema – e com a descoberta de que é realmente possível trabalhar com isso – passam pelo trabalho do jornalista Celso Sabadin, que, em mais de 30 anos de carreira, acumula experiência em veículos como Folha de São Paulo, Estadão e Rede Bandeirantes. Além da trajetória como crítico, é autor  dos livros “Vocês Ainda Não Ouviram Nada – A Barulhenta História do Cinema Mudo”, “Éramos Apenas Paulistas”, e “O Cinema como Ofício” e já trabalhou como roteirista na TV e no cinema. Já há alguns anos convivo com Sabadin durante as edições do Festival de Cinema de Gramado, evento que ele orgulhosamente cobre há exatos 27 anos, e é realmente um privilégio tê-lo por aqui com indicações inéditas entre todas as atuações já selecionadas para a coluna. Confiram abaixo as escolhas!

Ed Harris (Os Eleitos)
Ed Harris é um achado no filme Os Eleitos. Além de ser fisicamente parecido com o astronauta pioneiro John Glenn, personagem que interpreta, Harris encarna como poucos aquele “bom mocismo” norte-americano do pós Segunda Guerra, aquele momento em que os EUA se firmam como a potência mais midiática do mundo, onde as aparências e o faz-de-conta valem mais do que a própria realidade. Um grande filme do ótimo diretor Phillip Kaufmann que, por estas injustas questões de mercado, está desde 2004 sem emplacar um filme para o cinema.

Vincent Lindon (O Preço de Um Homem)
Vincent Lindon no drama francês O Preço de um Homem também é um ponto fora da curva. Seu semblante duro e seu olhar que mistura frieza e indignação caem como uma luva no papel de um desempregado de meia-idade preso nas engrenagens da burocracia estatal e na desumanidade do capitalismo neoliberal. Uma interpretação que prova, mais uma vez, que menos é mais. Principalmente no cinema.

José Wilker (Bye Bye Brasil)
E fecho com José Wilker no marcante Bye Bye Brasil, filme icônico não só dos anos 80, como também da história do cinema brasileiro como um todo. No papel de Lord Cigano, Wilker é o próprio Brasil travestido de ator: sacana, matreiro, sedutor, alegre, mentiroso, divertido, irônico. Com um meio sorriso de canto de lábio, diz mais que horas de discurso sociológico sobre a alma de todo um país condenado a nunca dar certo. Filmaço.

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