Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Simone Zuccolotto

Uma das principais vozes quando o assunto é a divulgação do cinema brasileiro, a jornalista Simone Zuccolotto entrou para o célebre Canal Brasil no ano de 2003. Ao longo desses 15 anos de atuação na emissora comandada por Paulo Mendonça, já esteve à frente e atrás das câmeras de séries jornalísticas como A Mulher no Cinema, Nas Sombas do Medo, Rir é o Melhor Remédio e De Semelhanças e Coincidências. Hoje, ela também comanda o Cinejornal, que faz um balanço semanal dos principais eventos de Cinema no Brasil, além, claro, de mostrar os bastidores de inúmeras produções realizadas em território nacional com entrevistas exclusivas. Nessa caminhada, não poderia faltar, claro, a cobertura de festivais Brasil afora, incluindo o Festival de Cinema de Gramado, onde já a encontrei diversas vezes, seja no Tapete Vermelho, nos bastidores ou na própria sala de cinema. Por isso mesmo,  dada toda essa experiência e conhecimento, é uma imensa satisfação recebê-la aqui na coluna, especialmente quando ela comenta atuações de três atrizes de talento gigante e inquestionável. E uma curiosidade: com a menção da Simone, o desempenho de Gena Rowlands em Uma Mulher Sob Influência empata com o de Kate Winslet em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança como o mais lembrado entre as atrizes, com três citações cada.

Gena Rowlands (Uma Mulher Sob Influência)
Aos 88 anos, a atriz americana tem uma carreira profícua no cinema e em séries de TV, mas foi a parceria com o marido John Cassavetes que lhe rendeu as melhores atuações. Filmes como Noite de Estreia e Gloria, mas especialmente Uma Mulher Sob Influência deixaram marcado o turbilhão de emoções que cabe nessa atriz. Por esse filme, inclusive, ela recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz de drama e foi indicada ao Oscar. Inicialmente escrito como uma peça de teatro, o texto, a pedido de Gena, acabou virando cinema, no melhor estilo Cassavetes, conhecido como o “autor do improviso” ou o expoente do “cinéma vérité” (atribuído a Jean Rouch). A levada experimental (mais radical do que as convenções tanto dramáticas quanto narrativas), a câmera na mão, a utilização de luz natural e, sobretudo a coautoria oferecida/exigida dos atores… E é aí que surfa Gena, na história da “problemática” dona de casa de classe média baixa americana, mãe de três filhos e casada com um funcionário de estaleiro. O tom intenso, os nervos à flor da pele e a sensação de um mundo prestes a ruir são radiografados pela atriz que, na pele de Mabel, passa por um transe, com inúmeras camadas sutis que retratam a loucura de uma forma assustadora (destaque para a cena do almoço com os parceiros de trabalho do marido).

Charlotte Gainsbourg (Ninfomaníaca)
A parceria de Charlotte com Lars Von Trier começou em Anticristo (2009) e seguiu com Melancolia (2011). No caso de Ninfomaníaca, a atriz disse que aceitou o convite sem nem ler o roteiro, o que atesta uma cumplicidade nos assuntos e na maneira como o diretor dinamarquês faz seus filmes. Joe é uma mulher viciada em sexo e, por conta da obsessão, vai às ultimas consequências no assunto. Como é comum no cinema de Trier, não há limites e, quando há, eles os testa o tempo inteiro. É disso que Gainsbourg gosta: de personagens intensos e desequilibrados, à beira da insanidade – e, de fato, ela mergulha nessas performances, não necessariamente para se perder em neuroses, mas parece que para sair da zona de conforto e testar a si mesma. A atriz, filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, se joga, e sem rede. Em Ninfomaníaca usou prótese de vagina, fez cenas de sadomasoquismo humilhantes e constrangedoras, e o que resulta dessa parceria é uma interpretação que imprime na tela uma disponibilidade de alguém que nasceu pra ser testada e, em minha opinião, aprovada. E, além de tudo, a danada canta que é uma beleza!

Romy Schneider (L’Enfer / O Inferno de Henri-Georges Clouzot)
A atriz austríaca ficou conhecida pela personagem Sissi na trilogia Sissi / Sissi, a Imperatriz / Sissi e Seu Destino, dirigida por Ernst Marischka, entre 1955 e 1957; foi indicada ao Globo de Ouro por O Cardeal, de Otto Preminger; ganhou dois César por O Importante é Amar, de Andrzej Zulawski, e Uma História Simples, de Claude Sautet; trabalhou com nomes como Luchino Visconti, Orson Welles, Costa-Grava e teve uma vida pessoal trágica (a morte precoce do filho, o suicídio do ex-marido, traições). Tudo isso a transformou num mito que morreu aos 43 anos, mas deixou interpretações inesquecíveis. Elegi sua atuação em L’Enfer, de Henri-Georges Clouzot (realizador dos excelentes O Salário do Medo e As Diabólicas), filme inacabado que virou assunto do documentário O Inferno de Henri-Georges Clouzot, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea. Do roteiro, uma delirante história de ciúme, pouco se vê, mas as imagens recuperadas – cenas e os flagrantes de testes de luz, figurino e maquiagem – embora avulsas e costuradas com depoimentos de colaboradores, não perdem a magnitude da interpretação de Schneider, sedutora, brincalhona, forte, leve e livre, e ao mesmo tempo amarrada na técnica e na obsessão de Clouzot. Mais do que isso, deixam uma sensação de quão avassaladora teria sido o desempenho de Romy. P.S. – Destaque para dois momentos: a cena que a atriz brinca com um brinquedo de mola que vai passeando pelo seu corpo e quando ela se diverte com uma taça de champagne.

Três atores, três filmes… com Suzana Uchôa Itiberê

Editora-chefe da revista Preview, a Suzana Uchôa Itiberê, que eu conheci pessoalmente nesses encontros cinéfilos proporcionados pelos festivais de cinema, separou mais do que três atores para a nossa coluna. A lista que vocês conferem abaixo traz, na verdade, três ícones do cinema mundial, em desempenhos indiscutivelmente emblemáticos. Da inesquecível Audrey Hepburn em Charada, passando por Jack Nicholson em Melhor é Impossível, até chegar aos dias de hoje com o arraso que é Daniel Day-Lewis em Trama Fantasma, a Suzana recapitula essas performances ao mesmo tempo em que ilumina as razões e os detalhes que fazem delas paradas obrigatórias na lista de qualquer cinéfilo.

Audrey Hepburn (Charada)
Sou apegada a sutilezas. Costumo não me impressionar com interpretações marcadas por arroubos emocionais, gritarias, gente se descabelando (talvez por isso me irrite tanto com novelas). São as pequenas coisas que tornam certos personagens únicos. A icônica sequência em que a estrela canta “Moon River” na escada de incêndio em Bonequinha de Luxo é a essência da delicadeza e da solidão, mas uma das cenas mais saborosas e espontâneas que tenho guardada na memória acontece em Charada, que Stanley Donen dirigiu em 1963. Na trama, o marido da protagonista (Audrey) é assassinado e começa um jogo de gato e rato para descobrir onde foi parar o dinheiro que estava com ele. O personagem de Cary Grant oferece ajuda, mas seus motivos são suspeitos. No auge da ação, ela o pega de surpresa e pergunta: “Sabe o que você tem de errado?”. Ele, afobado e na defensiva, responde: “Não, o quê?”. E ela solta um sedutor e malandro: “Nada!”. O tom de voz perfeito e um rosto suave irresistível. Essa era Audrey Hepburn, simples, elegante e naturalmente sensual.

Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Em 2013, o astro inglês se tornou o primeiro a receber três Oscar de melhor ator. No discurso, citou o diretor de Lincoln, Steven Spielberg, claro, mas agradeceu especialmente à mulher, Rebecca Miller, por ter suportado viver com tantos homens diferentes e estranhos desde que se casaram, em 1996. Um parêntesis: Rebecca é filha do dramaturgo Arthur Miller e conheceu Day-Lewis nos bastidores da adaptação para o cinema da peça As Bruxas de Salem. Talvez ela não tenha convivido com o viúvo John Proctor, mas passou vários meses com o ex-militante do IRA Danny Flynn, de O Lutador, o gângster William Cutting (Bill Açougueiro) de Gangues de Nova York, o cineasta italiano Guido Contini de Nine, e ninguém menos que o 16º presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln. Day-Lewis não interpreta, ele se torna, e ver esse mergulho profundo é inebriante. Todos esses personagens me arrancaram arrepios, mas nenhum me pegou pelo estômago como o Reynolds Woodcock de Trama Fantasma, nova parceria com Paul Thomas Anderson (de Sangue Negro). Na Londres dos anos 1950, Woodcock é um estilista confiante e focado que comanda a Maison ao lado da irmã, Cyrill (Lesley Manville). Solteiro convicto, ele encontra inspiração nas mulheres que entram e saem da sua vida. Até o dia em que conhece Alma (Vicky Krieps), a garçonete de modos desajeitados e personalidade forte que se torna a nova musa e abala as rígidas estruturas do mago da moda. Essa breve sinopse pode dar a ideia de um romance enfadonho, mas há algo macabro nessa relação. Nada é aleatório no idiossincrático Reynolds. A maneira de segurar uma xícara, a altura do olhar, o posicionar de pernas, o tom da voz e um impagável bufar impaciente. Fiquei hipnotizada pela meticulosidade na construção desse personagem. No final, ele manda um beijinho para Alma que diz mais que mil palavras. É coisa de mestre, obra-prima da atuação. O próprio ator admite que é um enorme sofrimento largar seus personagens, uma das explicações para ter anunciado a aposentadoria depois desse trabalho sem igual. Para mim, resta a esperança de que mude de ideia.

Jack Nicholson (Melhor é Impossível)
Há uma cena de bastidores de O Iluminado (disponível no YouTube) em que Jack Nicholson se movimenta freneticamente para entrar no clima do personagem, antes de rodar a antológica sequência da machadada. É um instinto animal que ele faz brotar ali e acredito que seu canal criativo venha do âmago – enquanto o de Daniel Day-Lewis, por exemplo, pareça ser fruto de meticulosidade. O que nos leva ao excêntrico escritor Melvin Udall de Melhor é Impossível, dirigido por James L. Brooks, e que em 1998 rendeu ao ator seu segundo Oscar na categoria principal. Em tempos de #TimesUp, o personagem de Nicholson ganha atualidade como um amálgama de tudo o que é considerado execrável em um ser humano: misógino, preconceituoso, xenófobo, cruel com animais, machista, grosseiro e por aí vai… Pois o popular romancista ainda sofre de transtorno obsessivo compulsivo (TOC), e almoçar todos os dias no restaurante onde Carol (Helent Hunt) é garçonete também é uma mania. Então como é possível um sujeito tão odioso ser ao mesmo tempo tão cativante? Simples. Porque Nicholson explora cada uma de suas camadas (e são muitas) com uma mescla única de humor e melancolia. É uma atuação instintiva e cheia de charme, que faz as qualidades de Melvin surgirem das formas mais inesperadas. “Você me faz ser um homem melhor”, ele responde à Carol quando ela lhe pede um elogio. E então arqueia as sobrancelhas. Melhor, impossível…

Três atores, três filmes… com Paulo Henrique Silva

Criada em 2011, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine é a primeira entidade nacional a reunir os críticos de cinema de todas as regiões do país. Promovendo as diversas formas de pensamento crítico, reflexão e debate sobre cinema, hoje a entidade é presidida pelo jornalista mineiro Paulo Henrique Silva, que também atua no jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte. Como de costume, o Paulo foi convidado a escrever para a coluna sobre três interpretações que considera marcantes no cinema. A partir desse convite, vieram três grandes atrizes em três grandes desempenhos. E vejam só: todas de intérpretes acima dos 60 anos, ativas profissionalmente e com a sorte de terem ao seu lado grandes diretores que reverenciam, na tela e fora dela, o imenso valor de suas respectivas carreiras e talentos. É, sem dúvida, uma seleção para ninguém colocar defeito. Confiram!

Meryl Streep (The Post: A Guerra Secreta)
A ferramenta principal do ator é o seu corpo, mas, no caso de Meryl Streep, o trabalho dela se dá principalmente por meio do olhar e dos lábios. Dependendo do gênero e do filme, eles nos conduzem de uma alegria contagiante a uma raiva incontrolável. Em As Pontes de Madison, Meryl não precisa dizer muito para mostrar uma mulher madura cheia de sentimentos guardados prontos para transbordar. Ela parece ser o retrato da mulher de seu tempo, ou das mulheres de seu tempo, multifacetada, uma amálgama entre a dona de casa submissa e àquela que está à frente das transformações sociais. Num filme recente como The Post, de Steven Spielberg, ela faz a síntese de uma carreira, reunindo numa mesma personagem os lados frágil e forte. Numa produção marcadamente dominada por homens, Meryl levanta a bandeira feminista, em que a atitude dela é determinante na trama. Em dois diálogos decisivos, com Tom Hanks e Bruce Greenwood, a fala num tom quase inalterado contrasta com um olhar e lábios que nos apontam muito do que acontecerá em seguida.

Isabelle Huppert (Elle)
Isabelle Huppert é um mistério. Seus personagens, num mesmo filme, apontam para vários caminhos. Talvez seja o que mais gosto nela: a imprevisibilidade. É uma risada característica que parece dizer mais da loucura interior do que qualquer outra coisa; um olhar que nos angustia ao revelar que ela irá até às últimas consequências; e uma voz que vai do angelical ao diabólico, com cada frase saindo dúbia. Seus personagens são sempre fortes. De Paul Verhoeven, ela ganhou em Elle um dos papéis mais emblemáticos de sua carreira, uma empresária que não sabe o que é, vivendo um processo assustador de autodescoberta, conectada ao pensamento de hoje – do homem? – sobre a mulher que emergirá de tantas transformações. Tanto o filme quanto ela parecem não querer dar uma resposta. A única coisa certa é que a sua ironia incômoda, outro traço marcante no trabalho de Isabelle. Vê-la em ação é sempre um prazer incômodo.

Sonia Braga (Aquarius)
Ver a brasileira Sonia Braga no filme Extraordinário, como uma avó que apoia a neta num momento familiar conturbado, é muito evocativo, como se fosse um prosseguimento de sua personagem em Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e fechando uma linha do tempo iniciada com Eu Te Amo e A Dama do Lotação, na década de 70. Ela sempre viveu uma mulher forte, em contraste com um universo masculino em decadência. Os homens dos filmes de Arnaldo Jabor e Neville D’Almeida parecem já não dar conta da emancipação feminina. Esse desconcerto é muito simbólico de uma época em que passávamos pelos últimos anos da ditadura militar no Brasil. O que nos leva a Aquarius, mais de 30 anos depois, agora em que o país sofre com o liberalismo econômico e a corrupção. Resistir à venda de sua casa, que conta a rica história de sua trajetória, é um ato político, em torno da preservação da individualidade e da liberdade contra o apagamento liderado por um suposto progresso. Sônia representa muita coisa, menos ordem e progresso.

Três atores, três filmes… com Pablo Villaça

O tempo voa. De repente, chegamos ao 40º convidado da coluna Três atores, três filmes! E quem protagoniza essa simbólica estatística é um nome de peso: o crítico de cinema Pablo Villaça, que, desde 1997, comanda o Cinema em Cena, um dos mais antigos sites de cinema do Brasil. Fui aluno do Pablo em 2012, quando cursei, aqui mesmo em Porto Alegre, o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica ministrado por ele, mas a influência vem de muito antes: ainda em 2006, quando comecei a rabiscar meus primeiros escritos sobre cinema, já tinha o trabalho do Pablo como uma referência entre os nomes que eu acompanhava nacionalmente. Por isso, não é apenas pela extensa e consistente trajetória profissional que tenho imensa alegria em recebê-lo aqui. É também pela ligação afetiva que tenho com o trabalho do Pablo e pela forma aberta e acessível com que ele topou participar da coluna. Quanto às performances escolhidas, elas revelam preferências já conhecidas do nosso convidado, mas o mais bacana é que, a cada nova análise assinada por ele, descobrimos outros tantos detalhes que passavam despercebidos. Não é diferente agora. Confiram abaixo!

Marlon Brando (O Poderoso Chefão)
Brando tinha 46 anos de idade quando rodou o filme, mas, observando seu envelhecimento progressivo ao longo da narrativa (que iniciou quando seu personagem já era bem mais velho do que ele), é notável constatar sua fragilidade física crescente que se torna patente não pela maquiagem, mas por sua postura, sua voz e seus maneirismos. Além disso, o momento em que Don Vito recebe a notícia da morte de Santino representa, para mim, o ponto máximo da carreira de um ator que já é o melhor dos melhores: ao ouvir Tom Hagen (Robert Duvall) informar que Sonny foi metralhado e está morto, Brando expulsa o ar do corpo de uma vez só, como se tivesse levado um soco. No entanto, ciente de que deve tomar decisões imediatas, ele reúne as forças para dizer que não quer nenhuma investigação – quando, então, solta um pequeno gemido que sugere a imensa dor que está enfrentando. Aos poucos, recobra um pouco das forças e ergue o queixo, mas, ao dizer a última fala (“This war stops now”), ele mal chega ao final e sua voz desaparece num suspiro. Este momento sempre me parte o coração.

Al Pacino (trilogia O Poderoso Chefão)
A transformação de Michael Corleone é o centro narrativo da trilogia: de jovem idealista que quer se manter longe dos negócios da Família, é obrigado a assumir sua liderança até perder completamente qualquer bússola moral, eliminando o próprio irmão mais por sentir-se traído do que por necessidade – algo que o atormenta pelo resto da vida até sua morte solitária no meio de cachorros vira-latas no chão poeirento de um lugar vazio. Pacino retrata todas estas etapas de Michael com sutileza: da alegria jovial do personagem ao dançar com a noiva ao ressentimento que demonstra para com o pai, ele deixa claro que aquele é um homem que valoriza muito mais a família do que a Família – e é sua preocupação com a segurança do pai que o leva a assumir uma ação que, ele sabe, irá eliminar qualquer possibilidade de uma vida longe da violência. Aos poucos, ele recupera um quê de alegria na Sicília, mas a morte de Apollonia acaba deixando-o amargo. A partir, sua frieza se torna chocante, revelando-se no planejamento do ataque contra as quatro outras famílias, na relação com a esposa e na forma como lida com o cunhado e com Sal, que considerava um tio. A partir da Parte II, esta implacabilidade do personagem se torna ainda maior, sendo a decisão de matar Fredo a que finalmente elimina qualquer traço de humanidade e o afasta de vez daqueles que ama. O curioso é que, na Parte III, Michael ressurge consideravelmente mais leve e feliz – o que é fruto óbvio de seu alívio por finalmente ter legitimado todos os negócios da Família e saído do mundo do crime (algo que sempre prometeu fazer). Esta alegria temporária, contudo, é destruída quando seu passado retorna para cobrar tudo que fez, o que finalmente o destrói definitivamente. E Al Pacino encarna toda esta jornada mesclando introspecção e explosão, carinho e frieza, amor e ódio.

Brooklynn Kimberly Prince (Projeto Flórida)
O que a pequena atriz faz no filme de Sean Baker é algo de único: com uma naturalidade surpreendente para uma estreante, a garota constrói todo o universo de sua personagem, Moone, a partir de ações displicentes como brincar de bater a cabeça na parede (até se machucar e agir com surpresa infantil diante do óbvio), lamber um sorvete com a empolgação de alguém que encara cada guloseima como uma alegria a ser explorada ao máximo e os saltos sapecas ao convidar os amigos para invadirem uma sala na qual não deveriam entrar. A performance de Prince é tão autêntica, aliás, que muitos parecem não acreditar que se trata de interpretação. “Ela está sendo ela mesma”. Ora, ninguém se atreveria a dizer algo assim sobre Meryl Streep ou Daniel Day-Lewis. Por que com Prince é diferente? Porque é criança. Até que você lê o roteiro, assiste a vídeos dos bastidores ou testemunha mais uma vez sua vulnerabilidade repleta de lágrimas nos minutos finais e constata que, sim, ela estava interpretando. Suas falas eram decoradas; suas emoções, “simuladas” (o que não quer dizer que ela não as experimentou de verdade). E isso, somado ao carisma da garota, cria uma performance que não apenas deveria ter sido indicada a todos os prêmios de Melhor Atriz relativos a 2017, mas também vencido todos.

Três atores, três filmes… com Bruno Polidoro

Atuando há mais de dez anos como diretor de fotografia em filmes, videoartes e programas de televisão, Bruno Polidoro é um dos profissionais mais atuantes do mercado audiovisual gaúcho, já ultrapassando a marca de 50 projetos realizados ao longo da carreira. Sócio da produtora Besouro Filmes, também é professor no Curso de Realização Audiovisual da Unisinos e na Fluxo – Escola de Fotografia Expandida. No Festival de Cinema de Gramado, conquistou, até a data de publicação desse post, cinco prêmios de melhor fotografia entre as mostras de curtas-metragens brasileiros e gaúchos. Do lado de cá, como espectador, tenho acompanhado a carreira do Bruno há alguns anos e por isso é uma grande alegria recebê-lo aqui com esse convite para comentar três interpretações que marcaram a sua relação com o cinema e que, de um jeito ou de outro, influenciam, até hoje, cada trabalho que ele assina como diretor de fotografia. Não deixem de conferir, pois se trata de uma baita seleção. Espero que vocês também curtam.

Giulietta Masina (Noites de Cabíria)
Os filmes do diretor italiano Federico Fellini foram minhas primeiras influências ao querer fazer cinema. Sua capacidade de unir o popular com o erudito, de criar mundos tão próprios e imprimir uma forte nostalgia na tela me seduziram desde a adolescência. Há muito lirismo em seus fotogramas: o mar é de celofane, as cores invadem os cenários, as músicas embalam nossas memórias e neva de repente, fazendo com que queiramos viver em seu universo. No seu livro de memórias “Fazer um filme”, o diretor conta que desenvolvia os personagens antes de imaginar a história em que eles estariam inseridos. Fellini cria uma metáfora para pensar o cinema: primeiro se constrói uma locomotiva (com atores e cenários), e com ela em funcionamento vai se colocando em frente um trilho de cada vez, determinando o rumo da história com a evolução das filmagens. Dentro desse universo de sonho e reminiscências, Giulietta Masina brota não apenas como a companheira de vida e arte de Fellini, mas encanta como a sonhadora Cabíria, em um olhar que me acompanha a cada close que filmo até hoje.

Marília Pêra (Pixote: A Lei do Mais Fraco)
Pixote, de Hector Babenco, foi um dos filmes que fez eu crer no cinema brasileiro e que poderíamos realizar grandes obras por aqui. E vai além: fez eu perceber que o cinema era um meio de fazer também política, de revelar situações e ambientes que a sociedade muitas vezes não quer ver. Ao dar voz a essas pessoas, Babenco ajuda a termos compaixão, sensibilizar-nos com algo que tentamos ignorar. Assim, Pixote tem força por sua crueza, mas, acima de tudo, por mostrar tamanho amor que há dentro do caos. Aí vem a memória de Marilia Pêra como Sueli, uma prostituta abandonada que emana afeto e ternura em quartos e corredores sujos de um Rio de Janeiro padecido. Ela pouco tem, mas oferece seu colo, seu seio para Pixote, em uma emulação da Pietá, nossa Maria terceiro mundista, nossa pietá de um Brasil escuro e barroco. Um Brasil sofrido, mas que mantém-se vivo em pequenos afetos.

Dirk Bogarde (Morte em Veneza)
Um dos meus filmes preferidos do grande cineasta Luchino Visconti, Morte em Veneza levou às telas o profundo romance homônimo de Thomas Mann. Nele, um importante artista em fim de carreira apaixona-se por um adolescente andrógino, o encantador Tadzio. O artista em questão é Aschenbach, interpretado magistralmente por Dirk Bogarde, que expressa em sua minimalista atuação as dores do amor, do desejo, do medo – enfim, a incredulidade diante do que sentimos em relação ao mundo (e se podemos agir por nossos instintos). A transformação do elegante compositor em um homem que perde os sentidos movido pela paixão é marcante, aproximando-nos da visualidade existencial da vida em todos os seus limiares. A sequência da maquiagem que derrete em seu rosto é para mim uma das mais belas cenas do cinema. A degradação dos costumes, das máscaras, de tudo que podemos fazer por amor.

%d blogueiros gostam disto: