Melhores de 2016 – Fotografia

Foi um encontro no Festival de Cinema de Gramado em 2012 que revelou ao diretor gaúcho José Pedro Goulart quem seria o diretor de fotografia de Ponto Zero, o seu primeiro longa depois de célebres curtas-metragens como O Dia Em Que Dourival Encarou a Guarda e O Pulso. E o encontro foi com ninguém menos que Affonso Beato, responsável pela fotografia de filmes como Tudo Sobre Minha Mãe, Carne Trêmula e A Rainha, que sugeriu a Goulart o nome de Rodrigo Graciosa, com quem Beato havia convivido em uma temporada na Oficina de Direção de Fotografia que ministra na TV Globo. A sugestão foi aceita, e o resultado correspondeu ao voto de confiança: em Ponto Zero, Graciosa realiza um trabalho excepcional ao registrar, no poder das imagens, a claustrofóbica vida de um garoto preso a um ambiente familiar problemático e que, em uma noite de libertação, enfrenta uma cidade chuvosa e mergulhada na imensa escuridão da noite. No desenho de luz, conforme o próprio Graciosa explica, o conceito para a casa de Ênio (Sandro Aliprandini) foi a luz vir de fora, convidando o garoto a sair. Já nas noturnas, foi construir uma atmosfera opressora. Trabalhando com dois balizadores – a iluminação pública de Porto Alegre para as externas noturnas com a livre movimentação dos atores e a câmera nos interiores – a fotografia transita por propostas muito diferentes (a vida de Ênio à luz do dia e seu delírio fantástico à noite), mas todas em perfeita sintonia na unidade do filme. Ainda disputavam a categoria: A Bruxa, A Chegada, Fogo no Mar e O Regresso.
EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – Ida | 2013 – Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira
Melhores de 2016 – Atriz

Enquanto os norte-americanos têm Meryl Streep, os europeus têm Isabelle Huppert. E uma não deve nada a outra. Ambas profissionais de extensa carreira e que seguem trabalhando incansavelmente depois dos 60 anos, Streep e Huppert se destacam pelos papeis desafiadores que não hesitam em abraçar – e, em 2016, a francesa viveu um momento particularmente especial de sua carreira nesse sentido. Além de marcar presença nos cinemas brasileiros com O Que Está Por Vir, Mais Forte Que Bombas, O Vale do Amor e Fique Comigo, ela deixou sua marca por aqui com Elle, que, entre esses cinco filmes estrelados por ela no ano passado, foi o que lhe trouxe um reconhecimento grandioso fora do território europeu, provavelmente o maior de sua carreira. Huppert, que é um ícone desprovido de qualquer vaidade ou estrelismo ao escolher papeis, ganhou o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar por dar vida Michèle LeBlanc, a controversa protagonista do filme dirigido pelo holandês Paul Verhoeven. Complexa, a personagem é uma verdadeira síntese do poder interpretativo de Huppert e, principalmente, do cinema que tanto marcou seu invejável currículo até aqui. Talvez somente ela pudesse estrelar Elle sem bagunçar a protagonista ou transformá-la em uma caricatura meramente desprezível. Pelo contrário: é embasbacante como a atriz a transforma em uma personagem fascinante em todas as suas perigosas complexidades. Ainda disputavam a categoria: Cate Blanchett (Carol), Denise Fraga (De Onde Eu Te Vejo), Rooney Mara (Carol) e Sonia Braga (Aquarius).
EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Camila Márdila e Regina Casé (Que Horas Ela Volta?) | 2014 – Rosamund Pike (Garota Exemplar) | 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente) | 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin) | 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia) | 2010 – Carey Mulligan (Educação) | 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho) | 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!) | 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)
Melhores de 2016 – Montagem

Colaborador do diretor Terrence Malick em filmes como O Novo Mundo e A Árvore da Vida, o montador Hank Corwin só veio a receber reconhecimento com A Grande Aposta, que lhe rendeu indicações ao BAFTA e ao Oscar em sua respectiva categoria. A lembrança pelo filme de Adam McKay é merecidíssima, já que a montagem de Corwin é fundamental para uma das principais missões do projeto: reconhecer a dificuldade do tema trabalhado (a especulação imobiliária em Wall Street) e fazer de tudo para torná-lo instigante e ao mesmo tempo mais dirigível. Claro que, apesar das tentativas bem sucedidas, A Grande Aposta continua sendo um filme muito particular sobre um universo cheio de especificidades, mas é fácil reconhecer o quanto ele procura ser diferente na forma. Transitando com admirável organicidade entre os detalhes técnicos apresentados pela história e tudo o que é criado para explicá-la de forma mais pop (lembram das divertidas aparições de Selena Gomez e Margot Robbie para literalmente explicar termos didaticamente para o espectador?), a montagem de A Grande Aposta só contribui para a pegada diferenciada do longa, além de ter outra qualidade surpreendente: ser incrivelmente dinâmica e, ainda assim, nunca se tornar um elemento extra para confundir o espectador. Na matemática da história, é um elemento inteligentemente simplificador. Ainda disputavam a categoria: O Contador, Ponto Zero, Spotlight – Segredos Revelados e Steve Jobs.
EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Whiplash: Em Busca da Perfeição | 2014 – O Lobo Atrás da Porta | 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel
Melhores de 2016 – Canção Original

Em todos os sentidos, “Simple Song #3” é uma canção impecável. Por si só, já seria uma ópera de arrepiar, mas, contextualizada em A Juventude, ganha um valor extremamente simbólico. É importante valorizar músicas narrativas porque essa é a melhor função que elas podem ter no cinema: complementar, sintetizar ou simplesmente traduzir histórias. E o diretor Paolo Sorrentino, que costuma prezar por esse diálogo em seus trabalhos, faz uma perfeita representação de tal ideia com a canção escrita por David Lang. Encerrando A Juventude, “Simple Song #3”, com beleza e elegância, dá o tom a um momento muito aguardado do filme. Sam Smith que me perdoe, mas todos os prêmios que ele recebeu com a tediosa “Writing’s on the Wall” para 007 Contra Spectre se tornam uma ofensa quando o perfeito tino cinematográfico de “Simples Song #3” entra na jogada. Ainda disputavam a categoria: “Canção da Metrópole” (Sinfonia da Necrópole), “None of Them Are You” (Anomalisa), “Still Falling for You” (O Bebê de Bridget Jones) e “Try Everything” (Zootopia – Essa Cidade é o Bicho).
EM ANOS ANTERIORES: 2015 – “Glory” (Selma: Uma Luta Pela Igualdade) | 2014 – “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante) | 2013 – “Last Mile Home” (Álbum de Família) | 2012 – “Skyfall” (007 – Operação Skyfall) | 2011 – “Life’s a Happy Song” (Os Muppets) | 2010 – “Better Days” (Comer Rezar Amar) | 2009 – “By the Boab Tree” (Austrália) | 2008 – “Falling Slowly” (Apenas Uma Vez)
Melhores de 2016 – Roteiro Original

O Som ao Redor, longa de estreia do pernambucano Kleber Mendonça Filho, pode até ser mais afiado em determinadas leituras da contemporaneidade brasileira, mas isso não diminui o valor do grande roteiro de Aquarius. É, inclusive, mera questão de estilo. No filme estrelado por Sonia Braga, Kleber reforça sua total influência como uma das grandes vozes do cinema brasileiro. E isso não se deve apenas ao que o filme representou em um conturbado momento político do nosso país. O roteiro escrito por ele, na verdade, encontra sua real excelência em outros aspectos que ficaram em segundo plano na época do lançamento do flonga. Analisado mais isoladamente, Aquarius é, antes de qualquer coisa, um hino à força feminina, construindo, com intensidade e delicadeza, a bela história de uma mulher de meia-idade independente, forte, muito bem posicionada e ativa sexualmente. A partir da riquíssima personalidade de Clara (Sonia Braga), Kleber entrega um roteiro rico em interpretações e reforça, assim como o recente Elle, a ideia que, às vezes, basta uma grande personagem ser plenamente compreendida e lida de forma inteligente em suas mais diversas facetas para que o roteiro de uma obra seja suficientemente fascinante. Ainda disputavam a categoria: De Onde Eu Te Vejo, A Juventude, Spotlight – Segredos Revelados e Sinfonia da Necrópole.
EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Que Horas Ela Volta? | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille