Cinema e Argumento

Até o Fim

I’m sorry. I know that means little at this point, but I am.

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Direção: J.C. Chandor

Roteiro: J.C. Chandor

Elenco: Robert Redford

All is Lost, EUA, 2013, Drama, 106 minutos

Sinopse: Um navegador experiente (Robert Redford) está viajando pelo Oceano Pacífico, quando uma colisão com um container leva à destruição parcial do veleiro. Ele consegue remendar o casco, mas terá a difícil tarefa de resistir às tormentas e aos tubarões para sobreviver, além de contar apenas com mapas e com as correntes marítimas para chegar ao seu destino.

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O momento não poderia ser mais propício para Até o Fim chegar aos cinemas. Afinal, o tema sobrevivência tem pautado importantes filmes dos últimos meses, como o vencedor do Oscar 2014, 12 Anos de Escravidão, e o cultuado Gravidade. Não é diferente com Até o Fim, que é basicamente o filme estrelado por Sandra Bullock em alto-mar. Dadas as proporções, são produções igualmente excepcionais que narram a solitária jornada de personagens em situações de puro confronto com a finitude da vida e com a imensidão de um universo forte e impiedoso. Entretanto, Até o Fim está fadado ao fracasso. Com admiráveis aspectos técnicos e narrativos menos perceptíveis ao grande público, o filme de J.C. Chandor afasta plateias por um motivo específico: são quase duas horas com um único personagem em cena e que quase não fala. Um filme, enfim, que ninguém cria expectativa para ver. E a recepção reflete essa má vontade: custou oito milhões e, desde sua estreia em outubro nos Estados Unidos, só conseguiu arrecadar mundialmente pouco mais de seis. Nas premiações também foi solenemente ignorado, conseguindo no máximo uma vitória na categoria de trilha sonora do Globo de Ouro e uma indicação de som ao Oscar. Rejeição merecida? De forma alguma. Bastante injusta, na verdade. Pelas mais diversas razões.

Logo no início, J.C. Chandor já resume muito bem o seu filme. Abrindo Até o Fim com uma carta de despedida do protagonista vivido por Robert Redford, Chandor coloca, nessa carta, uma série de pedidos de desculpas que não serão esmiuçados ao longo da história. Nós sabemos que esse homem, agora sozinho em alto-mar, errou muito na vida e que somente há pouco conseguiu admitir tais erros, mas nunca nos é revelado o que de fato ele fez. E nem precisa: o longa passa uma solidão muito grande e o rosto lindamente envelhecido de Robert Redford se encarrega de trazer todo o pesar de uma vida complicada que agora ficou para trás. Não é necessário saber o que exatamente ele fez de errado. O que importa é o que ele fará – ou não – agora que se encontra em uma situação complicadíssima e praticamente de frente com o fim da vida. Em síntese, Até o Fim é sobre sobreviver, mas é bom ficar atento a vários detalhes que denotam uma complexidade que pode passar despercebida. Um exemplo é como Chandor usa a solidão imposta pela circunstância do personagem para fazer uma metáfora da solidão real dele. A força da natureza e os obstáculos enfrentados são uma espécie de penitência pelos erros passados – e o protagonista tem quase uma paz interior com tudo aquilo, como que se aceitasse o fato de que precisa passar por essa situação para limpar a alma.

Era difícil imaginar que Chandor, responsável pelo complexo Margin Call – O Dia Antes do Fim (que, ironicamente, era inteiramente apoiado em diálogos), fosse fazer algo tão surpreendente como Até o Fim. E é magnífica sua habilidade de segurar o filme com um só ator e sem diálogos, mantendo sempre uma constante agonia. Nós compartilhamos da angústia do protagonista sem nome: estamos temerosos no bote, no barco, no mar – e queremos ajudá-lo. Além da direção de Chandor, a inteligente fotografia (subaquática ou não), o estupendo trabalho de som e a certeira trilha sonora de Alexander Ebert ajudam o filme a alcançar toda esse sentimento com muita plausibilidade e com situações nada apelativas. Mesmo o final, que parece tão simples e fácil, pode não ser tão simples assim e apresentar uma outra simbologia, especialmente quando você descobre que a faixa da trilha que encerra o filme se chama “Amém”. Se, dois anos atrás, As Aventuras de Pi ficou longe de me comover, aqui Chandor conseguiu fazer muito mais com literalmente pouquíssimas palavras. Um filme difícil, mas real, belo e muito mais profundo do que parece. Uma aula de direção que não merecia esse fracasso que amarga.

12 Anos de Escravidão

I don’t want to survive. I want to live.

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Direção: Steve McQueen

Roteiro: John Ridley, baseado no livro “12 Years a Slave”, de Solomon Northup

Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Paul Dano, Lupita Nyong’o, Sarah Paulson, Brad Pitt, Paul Giamatti, Benedict Cumberbatch, Alfre Woodard, Quvenzhané Wallis, Taran Killam, Scoot McNairy, Tony Bentley

12 Years a Slave, EUA/Inglaterra, 2013, Drama, 134 minutos

Sinopse: 1841. Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é um escravo liberto, que vive em paz ao lado da esposa e filhos. Um dia, após aceitar um trabalho que o leva a outra cidade, ele é sequestrado e acorrentado. Vendido como se fosse um escravo, Solomon precisa superar humilhações físicas e emocionais para sobreviver. Ao longo de doze anos ele passa por dois senhores, Ford (Benedict Cumberbatch) e Edwin Epps (Michael Fassbender), que, cada um à sua maneira, exploram seus serviços. (Adoro Cinema)

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Pode até não parecer, mas a escravidão ainda é um assunto muito recente. Basta pensar em um amigo negro seu. Não é muito remota a possibilidade que o bisavô dele tenha sido um escravo, por exemplo. E por mais que este doloroso ciclo da história mundial tenha chegado ao fim, ainda vivemos tempos em que sua lógica perpetua em outros movimentos e ações. Tomem os gays como referência, que ainda lutam para ter direitos reconhecidos e que volta e meia são agredidos e mortos por serem… gays. Na Uganda, recentemente, atearam fogo publicamente em um gay, que não sobreviveu e morreu na frente de várias pessoas – incluindo crianças. Por isso, a crueza com que Steve McQueen retrata as chicotadas em Patsy (Lupita Nyong’o) e a perversidade do senhor de escravos vivido por Michael Fassbender não chega perto do apelativo em 12 Anos de Escravidão. Ainda existe sim, em nossa sociedade, todo um prazer sádico em inferiorizar, torturar e assassinar os “diferentes”. Prazer doentio esse que é muito bem representado pela figura de Fassbender e por este filme como um todo, que é sim necessário e dotado de um absurdo valor humano e social.

Contudo, nestes casos, fica a dúvida se a admiração vem pelo que ele representa em um contexto específico ou necessariamente por sua execução. E confesso que minha recepção a 12 Anos de Escravidão se confunde um pouco nesses meandros. Às vezes, cinema é simplesmente uma questão de envolvimento: o filme pode ter tudo no lugar, ser repleto de aspectos admiráveis e mesmo assim não arrebatar um determinado espectador como uma obra cinematográfica. Talvez tenha sido essa minha reação ao filme de McQueen. Lindo em sua abordagem e bem realizado em sua proposta, mas não necessariamente uma obra que tenha me fisgado por completo. Envolvimento, enfim. De todo jeito, é diferente a forma como o diretor mostra escravidão nesta produção vencedora do Oscar 2014 de melhor filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante (Nyong’o). Uma escolha particular resume bem o posicionamento de seu realizador: ao invés das tradicionais tomadas aéreas para mostrar grande planícies lotadas de escravos trabalhando incessantemente, 12 Anos de Escravidão prefere navegar com a câmera nas próprias plantações, onde as folhas constantemente batem na câmera como se ela fosse alguém desbravando de perto aquele mundo.

Se recentemente o racismo foi mostrado açucaradamente em Histórias Cruzadas ou com grandes caricaturas no péssimo O Mordomo da Casa Branca, McQueen dá a lição de como tratar o tema com dignidade em seu mais novo filme. Não existe necessariamente uma história de grandes detalhes em 12 Anos de Escravidão. Basta saber que Solomon era um negro nascido livre que foi capturado ilegalmente e escravizado durante 12 anos. É o dia-a-dia como escravo, com angústias, esperanças, humilhações e um duro trabalho nos campos de algodão. Simples assim. Nada de surpresas ou maiores acontecimentos. Por isso que as interpretações são tão essenciais, especialmente porque 12 Anos de Escravidão é um filme que se apoia bastante em figuras que passam – brevemente ou não – pela vida de Solomon deixando marcas, sejam elas boas ou ruins. Assim, ligeiras mas boas participações existem aqui para contextualizar uma época e seus hábitos, como a de Paul Dano, por exemplo, interpretando com excelência um desprezível jovem racista que vive inventando razões para maltratar os escravos. É o representante de uma geração ensinada a ser cruel já desde os primeiros anos de vida.

Entretanto, é mesmo Chiwetel Ejiofor quem lidera com grande discrição esse excelente elenco. Nunca extravasando por completo a revolta de um negro injustiçado mas tampouco interiorizando suas angústias de forma que o espectador não perceba o que se passa com ele, Ejiofor segura com firmeza o filme, provando que seu nome complicado não deveria ser um empecilho para uma trajetória de sucesso. Na última cena, é particularmente impressionante essa “força contida” do ator. Ainda chamando a atenção em cena está a estreante Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante. Ainda que ela pareça uma espécie de Anne Hathaway (Os Miseráveis) de 2014 com pouquíssimo tempo em cena (entra, arrebata, corta o coração e vai embora), a atriz surpreende e é uma das figuras que mais fica com o espectador após o término da história.

A direção de McQueen conduz muito bem os atores e a discreta trilha de Hans Zimmer dá atmosfera certa para essa tragédia diária do protagonista. Mas, mesmo que eficiente em seu lado técnico, 12 Anos de Escravidão não traz o horrível sendo fotografado lindamente. Quando chega perto de mostrar uma paisagem mais ampla, por exemplo, é com Edwin (Fassbender, a personificação do diabo) andando a cavalo ao fundo e chicoteando os negros durante o trabalho. Não há espaço para uma mera panfletagem de moralismos e piedades. São fatos que se bastam, simplesmente. Pode até ser que a escravidão tenha sido oficialmente superada, mas, de um jeito ou de outro, ela ainda reverbera. Só que 12 Anos de Escravidão não é sobre culpa. É sobre olhar para trás e pensar como não deixaremos o passado se repetir no presente e no futuro. Não saí tão envolvido com o resultado como cinema, mas tal mensagem é suficiente para que o valor humano do projeto seja incontestavelmente reconhecido – o que por si só já é uma rara vitória.

Nebraska

Have a drink with your old man. Be somebody!

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Direção: Alexander Payne

Roteiro: Bob Nelson

Elenco: Will Forte, Bruce Dern, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Mary Louise Wilson, Rance Howard, Tim Driscoll, Devin Ratray, Angela McEwan, Glendora Stitt, Elizabeth Moore, Kevin Kunkel, Dennis McCoig

EUA, 2013, Drama, 115 minutos

Sinopse: Woody Grant (Bruce Dern) é um homem idoso que acredita ter ganho US$ 1 milhão após receber pelo correio uma propaganda. Decidido a retirar o prêmio, ele resolve ir a pé até a distante cidade de Lincoln, em Nebraska. Percebendo que a teimosia do pai o fará viajar de qualquer jeito, seu filho David (Will Forte) resolve levá-lo de carro. Só que no caminho Woody sofre um acidente e bate com a cabeça, precisando descansar. David decide mudar um pouco os planos, passando o fim de semana na casa de um de seus tios antes de partir para Lincoln. Só que Woody conta a todos sobre a possibilidade de se tornar um milionário, despertando a cobiça não só da família como também de parte dos habitantes da cidade. (Adoro Cinema)

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Alexander Payne é um mestre em premissas que muitos definem como “convencionais”. Só que, na verdade, como bem apontou a jornalista Isabela Boscov, ele ainda é um dos poucos cineastas que contam histórias que ninguém mais quer contar. Na busca pelo novo e pelo extraordinário, o cinema tem se esquecido de valorizar as pequenas coisas da vida, como o próprio Payne já celebrou em vários trabalhos de sua filmografia. O cotidiano escolar e competitivo em Eleição e a confusa solidão de um senhor recentemente aposentado e viúvo em As Confissões de Schmidt, por exemplo, colocaram o diretor como uma referência em histórias sobre pessoas como eu e você. Histórias essas que Payne sempre contou com inteligência, melancolia e inúmeras reflexões.

De uns tempos para cá, contudo, o diretor vinha em uma acentuada escala de retrocesso. Desde As Confissões de Schmidt – sua obra mais interessante -, a banalização apontada pelos detratores de fato passou a tomar conta também das próprias escolhas narrativas e estéticas do diretor. E, curiosamente, foi justamente a partir de trabalhos convencionais inclusive em texto que ele passou a ser celebrado pelas premiações. Não sou fã de Sideways por motivos particulares, mas o ápice do adestramento de Payne foi mesmo com Os Descendentes, que funcionava única e exclusivamente em função de George Clooney e Shailene Woodley. Assim, nenhuma novidade ter preguiça com Nebraska, o mais recente trabalho de Payne. O que eu não esperava, no entanto, era ser completamente surpreendido pelo longa, que é simplesmente o melhor do diretor em anos.

Alexander Payne voltou a ser Alexander Payne nesse filme estrelado por Will Forte e Bruce Dern. Sua capacidade de explorar o que existe de mais sutil e fascinante em personagens da vida real está de volta aqui. O preto-e-branco faz todo o sentido para ilustrar essa história que deve ter o maior elenco idoso que o cinema já viu – o que é especialmente interessante, visto que o verdadeiro protagonista da história é um adulto de meia-idade inserido neste meio. É por meio do convívio com familiares e de uma viagem em especial que realiza com o pai que David (Forte) passa a construir não apenas a distante identidade de um pai que parece viver em uma outra órbita, mas a dele próprio, que vem de um relacionamento fracassado e de uma vida que parece não lhe inspirar muita felicidade em tempos que o irmão jornalista foi promovido com sucesso na TV.

A viagem de David com Woody (Dern) é, de certa forma, uma fuga para o primeiro, que alega pegar a estrada apenas para não destruir de imediato os sonhos loucos do pai, que acha que virou milionário e precisa viajar para buscar o prêmio. David diz que deseja apenas manter um pouco mais a fantasia do patriarca, que, já bastante idoso, sabe-se lá quanto tempo ainda tem de vida. Só que existem muitas outras pautas em Nebraska que estão sutilmente escondidas no roteiro original de Bob Nelson. São fascinantes as pinceladas que o texto dá para formar a figura do pai vivido por Dern. Enquanto uma mulher previamente apaixonada por Woody diz que ele era encantador na juventude, os amigos dizem que ele tinha irremediáveis problemas com bebida. Ao passo que a mãe reclamona alega que o grande erro da vida de Woody foi acreditar demais nas pessoas, na sequência ela já revela um passado conturbado dele: quando criança, viu o irmão morrer no quarto em que ambos dividiam.

É uma jogada muito esperta a de Payne e Nelson de colocar toda a figura de Woody na boca dos outros personagens. Não é um caminho fácil, mas a dupla foi muito bem sucedida, já que também acerta ao apresentá-lo como um pai que parece preferir a vida em uma outra dimensão para não ter que lidar com uma esposa praticamente insuportável, uma família distante e uma vida mediana e vazia. “Se ele realmente estiver milionário, vou usar o dinheiro para colocá-lo em um asilo!”, diz a matriarca. E é exatamente disso que Woody quer escapar ao viver em sua própria bolha: de uma árvore genealógica cuja dinâmica é cercada de críticas, acidez e impaciência – mesmo que ele próprio tenha absorvido e reproduzido muito desses comportamentos.

Nebraska é um road movie, um olhar crítico e rabugento da terceira idade, um relato sobre comunicação entre gerações e um belo estudo sobre como pais influenciam filhos e vice-versa. Tudo com a devida calma e sutileza, trazendo aquela sensação tão frequentemente errada de que nada está acontecendo. Existe muito de As Confissões de Schmidt aqui: a terceira idade, o mau humor, a humanidade dessa última fase da vida e o retorno às origens em uma viagem interior. Porém, por mais melancólico que o filme seja em diversas partes (e o excelente desempenho de Bruce Fern é a grande força desse triste sentimento que o filme passa), ele também é muito bem resolvido em seu humor. Da comédia mais genuína a questões familiares super delicadas, Nebraska cria, portanto, um núcleo familiar fantástico, onde até os extremos mais previsíveis funcionam (o filho bem sucedido mas distante, o filho próximo mas praticamente fracassado, etc).

Em suma, não espere uma produção de grandes momentos, reviravoltas reveladoras ou afins. Alexander Payne não é disso. Nunca foi.  E é admirável como mesmo narrando situações tão cotidianas ele consiga um excelente ritmo, tornando Nebraska um longa de humor vívido, de dramas discretíssimos, de memórias dolorosas e de projeções esperançosas. É o filme do Oscar 2014 que ninguém vai ver (totalizou seis indicações e não levou nenhuma), que poucos vão sequer saber da existência ou muito menos amar. Mas realmente é uma pena que seja assim, pois é um dos grandes momentos da carreira de Payne e certamente uma das melhores experiências desse início de ano.

Ela

The past is just a story we tell ourselves.

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Direção: Spike Jonze

Roteiro: Spike Jonze

Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson (voz), Amy Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Matt Letscher, Artt Butler (voz), May Lindstrom, Bill Hader (voz), Spike Jonze (voz), Brian Johnson, Luka Jones, Brian Cox (voz)

Her, EUA, 2013, Drama, 126 minutos

Sinopse: Theodore (Joaquin Phoenix) é um escritor solitário, que acaba de comprar um novo sistema operacional para seu computador. Para a sua surpresa, ele acaba se apaixonando pela voz deste programa informático, dando início a uma relação amorosa entre ambos. Esta história de amor incomum explora a relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia. (Adoro Cinema)

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Amar é realmente algo complicado. O quarteto britânico Keane diz, na canção Spiralling, que, quando nos apaixonamos, estamos, na realidade, nos apaixonando por nós mesmos. Isso tem um fundo de verdade: quando entramos em uma relação, queremos alguém capaz de suprir as nossas necessidades, as nossas angústias e a nossa vontade de escapar da solidão. Sim, de certa forma, realmente nos apaixonamos por nós mesmos. Por isso, não dá para julgar, de forma alguma, o fato de Theodore (Joaquin Phoenix), o protagonista de Ela, apaixonar-se por Samantha (voz de Scarlett Johansson), um sistema operacional de computador que tem inteligência e responde a exatamente tudo que o protagonista precisa. Se ele se sente só, lá está ela para confortá-la. Se ele precisa trocar juras de amor, ela também se mostra disponível a isso. Mas seria fácil definir Ela como uma história sobre a solidão em tempos virtuais. Seria fácil se esse não fosse um filme de Spike Jonze, diretor que está muito mais preocupado com as questões íntimas de seu protagonista do que com o contexto em que elas acontecem.

De certa forma, é surpreendente que um filme como Ela leve a assinatura de Spike Jonze. Conhecido por sua inegável inventividade, ele nunca foi um diretor intimista. Suas originalidades, inclusive, ganhavam contornos especificamente excêntricos em longas como Quero Ser John MalkovichAdaptação, que estavam bem longe de ser atraentes para um público maior. Se a princípio poderia ser estranha a ideia de Jonze contar uma história melancólica como a de Ela, não demora muito para o espectador perceber que ele tem sim tino para tal investida. Algumas de suas particularidades estão ali (percebam o curioso contraste entre o design de produção quase futurístico e os figurinos antiquados e formais do protagonista), mas é de fato algo novo para o diretor, agora mais focado nas questões do coração e da vida. Em tese, a proposta não deixa de ser atípica, mas nada em Ela puxa para esse lado. Tanto que o fato de Theodore estar apaixonado pela tal voz de computador é encarado de forma natural por todos, que também parecem partilhar da mesma solidão e necessidade de ter alguém (ou algo?) incondicionalmente presente.

Não se engane, entretanto, ao pensar que Ela negligencia a realidade. Ali está Catherine (Rooney Mara), ex-eposa de Theodore, para também mostrar o outro lado da moeda e dizer que é uma completa loucura essa paixão por algo virtual. E ela faz tal acusação não criticando o programa virtual, mas ressaltando a ideia de que a questão é o próprio protagonista, que se entrega à Samantha porque simplesmente não consegue lidar com os percalços de um relacionamento real. Para Catherine, ele quer a perfeição que não conseguiu encontrar em uma relação com ela – e que, obviamente, não encontrará em um relacionamento com qualquer pessoa de carne e osso. Por isso, Ela ganha o espectador como o retrato atemporal de uma busca que, conscientemente ou não, todos nós fazemos. Ainda é fácil se conectar com Theodore, seja pela sua incapacidade de seguir em frente após um doloroso divórcio ou por sua espera por alguma novidade na vida. E, quando ele diz que já sentiu todo o que tinha para sentir e que tudo a partir de agora será apenas uma variação inferior de antigos sentimentos, Ela também se torna ainda mais melancólico no (quase) monólogo que proporciona ao seu personagem.

Repleto de citações marcantes (“O passado é apenas uma história que contamos para nós mesmos”, “O amor é a única insanidade socialmente aceita”), o longa de Jonze acerta na reflexão das relações, seja com alguém ou com nós mesmos. Dando rosto ao melancólico Theodore está Joaquin Phoenix, um ator que mostra que, em tempos que parece cada vez mais frequente a perda de grandes gênios do cinema (Philip Seymour Hoffman, por exemplo, com quem o próprio Phoenix atuou brilhantemente no recente O Mestre), ainda temos novos atores que estão aí para marcar época. Sua transformação é novamente impressionante: nada nesse desempenho se repete e a sua imagem de sujeito difícil da vida real não tem qualquer influência aqui. O papel é praticamente solo, o que é um desafio e um presente que Phoenix abraça sem medo. Certamente um desempenho menor, mas tão minucioso quanto vários outros da carreira do ator.

Ampliando a abrangência da melancolia de Ela ainda temos a imersiva e espetacular trilha da banda canadense Arcade Fire, que realiza um trabalho inovador e até mesmo atípico para sua carreira. É uma nova prova de que bandas deveriam participar mais do mundo do cinema (lembram dos acertos de Daft Punk em Tron – O Legado e de M83 em Oblivion?). O ritmo do filme não é dos mais interessantes e talvez a guinada final da trama seja um tanto abrupta só para colocar um ponto final nos conflitos, só que Ela tem o golpe baixo de acabar justamente em um momento fantástico e tocante, o que minimiza qualquer depreciação que poderia se ter com o resultado. Saímos do cinema um tanto arrasados, mas também esperançosos com a vida e com a possibilidade de que, ao contrário do que aponta o protagonista, existem sim novos sentimentos e acontecimentos pela frente. Cabe a nós torná-los uma realidade.

Oscar 2014 – Filme

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Desde 1999, quando Shakespeare Apaixonado faturou o Oscar de melhor filme, um vencedor desta categoria não sai da festa com pelo menos um prêmio de roteiro, montagem ou direção. Por isso é no mínimo estranho toda a certeza para a vitória de 12 Anos de Escravidão, uma vez que ele só é franco favorito na categoria principal. Shakespeare Apaixonado, por exemplo, tinha a seu favor a badalação de Gwyneth Paltrow e Judi Dench. Mas nem isso o filme de Steve McQueen tem, uma vez que Lupita Nyong’o disputa até o último minuto a categoria de melhor atriz coadjuvante com Jennifer Lawrence.

Porém, se existe algo que aprendi com o Oscar é não brigar com a matemática. Até porque ano passado a cerimônia quebrou vários jejuns, inclusive o de consagrar Argo em melhor filme mesmo sem indicá-lo em direção (o que não acontecia desde os anos 1980, quando Conduzindo Miss Daisy passou pela mesma situação). No fundo, acho que deve dar Gravidade, que indiscutivelmente será o maior vencedor da noite em número de estatuetas (direção, trilha, fotografia, edição de som, mixagem de som, etc), mas vou pelo mais óbvio, já que essa foi a lógica que passou a reinar na cerimônia desde que todos rejeitaram largamente a surpresa de Crash – No Limite como melhor filme.

Por incrível que pareça, este é um ano quase impossível de apontar graves injustiças na categoria principal. Desde que a seleção passou de cinco para até dez filmes, o Oscar só amargou listas fraquíssimas e que davam títulos de “indicado ao Oscar de melhor filme” para longas que não chegavam nem perto de merecê-lo. Não em 2014. Claro que Trapaça, por exemplo, está erroneamente indicado em função do buzz descontrolado que David O. Rusell acumulou nos últimos anos, mas, no geral, todos os exemplares possuem suas singularidades. Assim como em outras categorias, se alguém ficou de fora, não foi por injustiça, mas sim sim por falta de espaço mesmo. Que continue assim nos próximos anos!

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12 ANOS DE ESCRAVIDÃO: Entendo perfeitamente a comoção e o envolvimento com esse drama de Steve McQueen, mas não fui um dos surpreendidos. O elenco faz um excelente trabalho (Chiwetel Ejiofor, especialmente), o diretor traz a escravidão por meio de um ponto de vista diferenciado e a narrativa do filme está longe de ser a que estamos acostumados a ver em filmes do gênero. Só que 12 Anos de Escravidão me conquistou muito mais pelo valor social e humano do que por seu resultado cinematográfico. Estranhamente, como já mencionado, ganhou todos os prêmios de melhor filme da temporada mesmo sem levar qualquer outra estatueta de roteiro, direção ou montagem. Vamos ver no que vai dar…

CAPITÃO PHILLIPS: Paul Greengrass é o diretor que não estoura nas bilheterias mas é o que todos copiam infinitamente. As razões de seu estilo reverberar em tantas outras cópias inferiores estão em Capitão Phillips, um filme que mostra sua habilidade de trazer tensão com puro realismo, sem apelar para artifícios duvidosos ou mirabolantes. A história vai amortecendo sua constante agonia depois da metade, mas os desempenhos de Tom Hanks (com pelo menos duas cenas marcantes) e Barkhad Abdi, bem como o trabalho de Greengrass com o sempre ótimo montador Christopher Rouse, nunca deixam o filme perder o fôlego por completo. No ano que David O. Ruell não deveria – novamente – estar concorrendo, Greengrass poderia ter ficado com a vaga.

CLUBE DE COMPRAS DALLAS: Está aqui pela força dos atores e pela relevância do tema mais do que por qualquer outro mérito. Gosto da forma como o filme de Jean-Marc Vallée lida com a questão da AIDS sem estereótipos ou melodramas, mas a história é um tanto mal resolvida em seu foco: percebam como até a metade é sobre a autoaceitação de Ron (Matthew McCounaghey) para depois se tornar quase que exclusivamente um estudo formal sobre as pesquisas da AIDS nos anos 1980. Junto com Trapaça, é um dos longas que menos merecia estar aqui. Só que repetindo: foram os atores que trouxeram Clube de Compras Dallas a esse patamar – o que torna sua presença aqui nada surpreendente.

ELA: É o filme que corre por fora – até mais que Clube de Compras Dallas -, e manteve esse mesmo título durante toda a temporada de premiações. Mesmo que favorito ao Oscar de roteiro original, não tem qualquer outra chance nas demais categorias. É a primeira grande celebração para um filme de Spike Jonze, que realizou, em Ela, o seu trabalho mais melancólico e intimista. Não seria o caso de ser um longa indicado caso existissem apenas cinco concorrentes como antigamente, mas certamente merecia figurar em outras categorias – como ator, por exemplo, onde Joaquin Phoenix deveria ser lembrado em função de mais um desempenho super especial.

GRAVIDADE: Mais do que um filme espetacular, Gravidade deixa um enorme legado. Não só em termos de histórias passadas no espaço (câmera sem eixo, atenção aos detalhes científicos, etc), mas no que se refere a como a tecnologia pode estar a favor de uma história e de uma escala de emoções – não servindo apenas como pretexto para explosões e suspense. Chega a ser emocionante ver a perfeição técnica, as inventividades da direção de Alfonso Cuarón e a própria performance de Sandra Bullock (cada vez mais decidida a mostrar o quão prematuro foi seu Oscar por Um Sonho Possível). É o filme de maior aceitação entre os indicados – e também o de maior bilheteria -, o que pode merecidamente pesar a seu favor.

O LOBO DE WALL STREET: Era esperado que  O Lobo de Wall Street fosse ignorado pelos votantes devido a uma forte campanha contra o filme, que foi acusado de ser uma celebração à imoralidade. Quanta bobagem! Sorte que o Oscar não comprou essa ideia maluca e abraçou o filme, que é o melhor Scorsese em anos. Todo o seu estilo está aqui, em uma história de corrompimento humano que também traz Leonardo DiCaprio em um grande momento. Pelo menos para mim, as três horas de duração não foram um problema significativo e o resultado ficou bem acima de qualquer preguiça que elas poderiam indicar. O Lobo de Wall Street é, no entanto,um filme dessa principal seleção que sairá da festa de mãos abanando.

NEBRASKA: É o menos badalado entre os nove indicados, tanto em termos de repercussão de público e crítica quanto em número de prêmios. Nebraska está destinado a sair do Oscar 2014 sem um Oscar sequer. E pior: também deve ser aquele longa que todos deixarão para ver por último – se assistirem, claro. O que é de se lamentar, já que é o melhor trabalho de Alexander Payne em anos. Minucioso e magnífico ao contar momentos da vida de pessoas como todos nós, Nebraska é uma aula de sutilezas. Um pequeno grande filme que merecia muito ter uma visibilidade mais ampla.

PHILOMENA: É o pequeno filme que conseguiu estar entre os grandes quando isso não era necessariamente esperado em função de seu perfil. Philomena sofre preconceitos em função de sua história singela, de sua discrição e da sua lógica de que histórias não precisam de grandes acontecimentos para conquistar. É o típico caso “não acontece nada nesse filme” ou “não é nada demais”. Que bom que os votantes não caíram nessa incompreensão e celebraram devidamente o longa de Stephen Frears. Uma história minuciosa e muito feliz ao construir a personalidade de sua protagonista, com muitas surpresas e também um refinado andamento a uma trama que tinha tudo para ser novelesca.

TRAPAÇA: São dez indicações ao Oscar 2014, mas isso não quer dizer muito, já que metade é bastante discutível. Ainda me incomodo com o fato de Trapaça plagiar tantos diretores e filmes, o que tira por completo qualquer boa vontade que eu poderia ter com David O. Rusell – que ainda não me convenceu depois de tantas celebrações. Nesse filme, particularmente, ele está pouco inspirado apesar das tentativas, e – mais uma vez – é o elenco que consegue ser o ponto alto do resultado, assim como os figurinos (que podem surpreender na premiação). De resto, nada de muito especial ou digno de aplausos. Certamente, o pior longa da ótima seleção.