Cinema e Argumento

Oscar 2014 – Ator Coadjuvante

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Não é um grande ano para os atores coadjuvantes e muito menos misterioso em relação ao futuro vencedor. A lógica é bastante clara: Jared Leto será o vitorioso por Clube de Compras Dallas. Quem diria que Leto, que não atuava desde 2009 (quando fez o magnífico Sr. Ninguém), seria o grande nome de uma temporada de premiações? A resposta é simples: transformação. Se Felicity Huffman não teve chances com o estereótipo de moça-de-comédias-populares-que-aprendeu-a-atuar de Reese Witherspoon, Leto levou a melhor este ano, onde a concorrência é praticamente inexistente. Se fosse para citar um azarão, esse seria Barkhad Abdi, por Capitão Phillips. Mas é certo, coloque no bolão: Leto é a aposta certa.

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BARKHAD ABDI (Capitão Phillips): Mais uma discussão pertinente sobre o papel de um dos candidatos cabe aqui (como Julia Roberts, em Álbum de Família). Seria Barkhad Abdi protagonista ou coadjuvante em Capitão Phillips? Difícil dizer. Mas não acho sua classificação como coadjuvante um total absurdo. No seu trabalho de estreia no cinema, Abdi se saiu maravilhosamente bem como o pirata somali que lidera o sequestro do navio de Phillips (Tom Hanks). Sem nunca vilanizar por completo uma figura que poderia cair nessa armadilha, o estreante é o azarão que pode surpreender (levou o BAFTA com Jared Leto fora da disputa).

BRADLEY COOPER (Trapaça): Das quatro indicações que Trapaça recebeu para seus atores, essa é, sem dúvida, a mais questionável. Se ano passado Bradley Cooper de fato mereceu concorrer em um ano incrível para os atores, agora ele já não deveria estar nem nessa categoria relativamente mediana. Sua interpretação é a mais sem variações do filme de David O. Rusell. Enquanto os outros atores exploram talentos ou diversões de diferentes maneiras, Cooper surge acomodado e repetitivo em seu papel. Dos cinco concorrentes, o menos interessante.

JARED LETO (Clube de Compras Dallas): É válida a dúvida sobre a verdadeira razão de Jared Leto roubar todos os holofotes quando entra em cena em Clube de Compras Dallas. É uma mera transformação impressionante ou realmente um desempenho repleto de criações? De fato ele está nessa linha tênue, mas certamente venceu todos os prêmios da temporada (menos o BAFTA, onde não concorria) por essa sua capacidade de se destacar em cada minuto do filme. É fácil simpatizar e torcer para que logo venha mais um momento do travesti Rayon graças ao que Leto realiza – independente do peso da ajuda de seu maquiador e hairstylist.

JONAH HILL (O Lobo de Wall Street): É a segunda indicação ao Oscar de Jonah Hill que não é necessariamente merecedora de estar entre as finalistas. Só que nesse ano tão fraco para os coadjuvantes nem dá para reclamar muito de sua presença aqui. Por mais que ele não traga qualquer novidade em O Lobo de Wall Street, é um bom suporte para a história e alcança um resultado digno ao lado de Leonardo DiCaprio. Ainda espero, no entanto, o dia em que ele seja lembrado por algo surpreendente, e não por sobra de espaço ou situações inexplicáveis (por que concorreu por O Homem Que Mudou o Jogo mesmo?).

MICHAEL FASSBENDER (12 Anos de Escravidão): Muitos já reivindicavam uma indicação para Michael Fassbender por Shame, mas só agora ele conseguiu chegar entre os finalistas. Lembrança bastante justa a um desempenho forte e que se beneficia de um papel impressivo.  Fassbender assumiu publicamente que não faria campanha e, mesmo que fizesse, seria difícil ele bater Jared Leto – em papel muito mais atraente para os votantes – na competição deste ano. De qualquer forma, é uma justa menção ao nome deste ator em ascensão que, um dia, certamente terá a estatueta em casa.

O ESQUECIDO

oscarfosactorDaniel Brühl por Rush? Por mais que o desempenho dele seja ótimo no filme de Ron Howard, considerá-lo coadjuvante é o mesmo que dizer que Ethan Hawke também é coadjuvante em Antes da Meia-Noite. Por isso, fico mesmo com Jake Gyllenhaal, em Os Suspeitos, o melhor filme mais subestimado nessa temporada de premiações. Nesse suspense exemplar, Gyllenhaal é certeiro como um policial cheio de tiques que precisa desvendar um desaparecimento.

Clube de Compras Dallas

Welcome to the Dallas Buyers Club!

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Direção: Jean-Marc Vallée

Roteiro: Craig Borten e Melisa Wallack

Elenco: Matthew McCounaghey, Jared Leto, Jennifer Garner, Denis O’Hare, Steve Zahn, Michael O’Neill, Dallas Roberts, Griffin Dunne, Kevin Rankin, Donna Duplantier, Deneen Tyler, Ian Casselberry, Noelle Wilcox

Dallas Buyers Club, EUA, 2013, Drama, 117 minutos

Sinopse: Em 1986, o eletricista texano Ron Woodroof (Matthew McConaughey) é diagnosticado com AIDS e logo começa uma batalha contra a indústria farmacêutica. Procurando tratamentos alternativos, ele passa a contrabandear drogas ilegais do México. (Adoro Cinema)

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Clube de Compras Dallas é um filme dominado por dois atores. E isso significa muito, para o bem e para o mal. Dirigido pelo canadense Jean-Marc Vallée (do celebrado C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor e de A Jovem Ranha Vitória), a produção encabeçada por Matthew McCounaghey e Jared Leto dá total espaço para os dois brilharem, mas também volta e meia se esquece de ter cuidados maiores no roteiro para que Clube de Compras Dallas seja tão significativo quanto os seus intérpretes e a essência de suas mensagens.

É especialmente interessante a premissa principal do longa, que já começa se diferenciando por fazer um retrato da AIDS não com um protagonista gay, mas sim com um eletricista machão e preconceituoso que acha que a doença é exclusiva aos homossexuais. Quando é diagnosticado, não acredita no veredito: pragueja os médicos, questiona o resultado e diz que não precisa se tratar, mesmo com uma saúde visivelmente debilitada. Mas o tempo mostra para Ron Woodroof (McCounaghey) a sua verdadeira condição – o que faz com que ele reavalie a situação.

Depois de perder os amigos e se ver completamente desesperado em uma época que testes de remédios para a doença traziam mais efeitos colaterais do que melhorias, ele resolve seguir um caminho próprio, contrabandeando drogas mais efetivas do México e trabalhando conjuntamente com o travesti Rayon (Jared Leto). É essa jornada que fará com que Ron se torne um homem inteiramente novo, desprovido de preconceitos e, se possível, mais apegado às pequenas coisas da vida. A novidade é que Clube de Compras Dallas foge de qualquer maniqueísmo, com um arco dramático bem resolvido nesse sentido.

O que acontece com esse filme desprovido de clichês é a forma com que ele direciona seu foco. Se a primeira metade é basicamente sobre a compreensão de Ron sobre a sua condição e a evolução dele como ser humano, a segunda é basicamente sobre os seus negócios na fronteira e seu entrave com as forças médicas daquela época, que faziam de tudo para que seu clube de compras de drogas mexicanas não funcionasse. A partir daí, o filme de Vallée perde força dramática e vai amortecendo o estudo do personagem – o que é bastante decepcionante, visto que Ron, como mencionado, está longe de ser uma figura convencional.

Claro que o valor de utilidade pública é grande nestas negociações e batalhas do protagonista para uma melhor qualidade de vida – independente de onde ela venha -, mas, em termos dramáticos, deixa de valorizar como deveria a complexidade dos personagens. Sorte que Matthew McCounaghey, simplesmente irreconhecível, desaparece no papel e está sempre forte e impactante; e que Jared Leto (um pouco na linha tênue entre a caracterização meramente impressiva e o ótimo desempenho), rouba os holofotes toda vez que entra em cena.

Apesar dessa irregularidade de foco, Jean-Marc Vallée tem controle sob a história que está contando e, junto com os atores, segura as pontas de um filme que poderia cair facilmente em desnecessários melodramas. Financiado pelo próprio McCounaghey depois de ter passado pelas mãos de diretores como Craig Gillespie e Marc Foster, Clube de Compras Dallas – também inicialmente planejado para ser protagonizado por Ryan Gosling e, posteriormente, Brad Pitt – fica menos complexo e ousado com o passar dos minutos, mas, com a força de seus intérpretes, tem atributos suficientes para ser considerado um filme bem sucedido em suas premissas mais essenciais.

Rapidamente

Em Burton e Taylor, Helena Bonham Carter e Dominic Weston interpretam o célebre casal Elizabeth Taylor e Richard Burton

Em Burton e Taylor, Helena Bonham Carter e Dominic West interpretam o célebre casal Elizabeth Taylor e Richard Burton

BURTON E TAYLOR (Burton and Taylor, 2013, de Richard Laxton): Produção da BBC, Burton e Taylor narra o conturbado relacionamento entre o célebre casal Richard Burton (Dominic West) e Elizabeth Taylor (Helena Bonham Carter), focando-se no espaço de tempo em que os dois dividiram pela última vez a cena de uma ficção: no caso, a peça de teatro Private Lives. Era de se esperar que o filme de Richard Laxton fosse menos… TV aberta. Extremamente objetivo, Burton e Taylor é bastante simplista no uso da trilha – que sempre acentua comicamente a excentricidade de um momento ou a baixa de um momento dramático – e na forma quase extrema como desenvolve seus personagens: enquanto Burton é o ator íntegro e sério que resolveu muito bem sua separação com a ex-companheira, Taylor é mimada, vive se atrasando para as apresentações e cai no estereótipo de mulher magoada que não aceita estar longe do homem que ama. Pode ser que tudo isso seja realmente verdade, mas, como o filme aponta no começo, o roteiro é baseado ajusta fatos para efeitos dramáticos. Nesse sentido, então bem que poderiam ter tornado esse retrato mais complexo. Bonham Carter (figura forte e quase indissociável demais para o papel, mas bastante digna) e Dominic Weston dão a simpatia necessária para o filme, que, no final das contas, só tem essa decepção de ser menos marcante e revelador do que poderia ser. Aqui no Brasil, a HBO exibe Burton e Taylor no dia 1º de março, às 22h.

COMO NÃO PERDER ESSA MULHER (Don Jon, 2013, de Joseph Gordon-Levitt): Joseph Gordon-Levitt deve ter feito esse filme para dar uns amassos em Scarlett Johansson e Julianne Moore. Só isso para explicar o tempo investido nesse Como Não Perder Essa Mulher, comédia sobre um jovem viciado em pornografia. E uma comédia careta, quase chata. Não existe qualquer nudez aqui e o as insinuação mais fortes do tema logo já são colocadas de escanteio por Levitt. Algo meio incoerente com o assunto que vende. Nada tem muita graça aqui, especialmente porque o principal conflito do filme é batido: o solteiro convicto que transa com todas as garotas e que tenta mudar seus hábitos quando encontra a mulher ideal (leia-se Scarlett usando todas as maquiagens e roupas necessárias para representar tal figura). A figura de Joseph Gordon-Levitt também já começa como um certo empecilho: ele sempre foi o jovem querido e simpático (algo muito bem explorado em (500) Dias Com Ela) e não esse musculoso pegador que vemos aqui. Ainda com diretor e roteirista do longa, ele não corresponde, apresentando uma história fraquíssima e um roteiro praticamente sem propósito. E o pior: Como Não Perder Essa Mulher também fica devendo como diversão. Falta sexo, originalidade e uma boa risada.

UM DIA NA VIDA (idem, 2010, de Eduardo Coutinho): Poucos dias depois da trágica morte de Eduardo Coutinho, começou a circular pela internet a oportunidade inédita de assistir a esse Um Dia na Vida – que, até então, só havia sido exibido uma única vez em 2010, sem ganhar chance no circuito comercial devido a questões de direitos autorais. O motivo é simples para essa ausência: Um Dia na Vida é a compilação de imagens da TV aberta que Coutinho capturou durante um dia. Programas e comerciais da Globo, SBT e Band, entre outras emissoras, ilustram esse filme, que chega a ser uma espécie de Koyaanisqatsi sobre a televisão brasileira. Ou seja, nada de entrevistas, narrações ou recursos tão presentes nos documentários. É, basicamente, uma sequência de imagens que falam por si só. E, assim como no filme de Godfrey Reggio, o resultado – por incrível que pareça – é hipnotizante. Quando larguei minha relação com a TV (hoje sequer consigo ficar poucos minutos assistindo a programas de canais abertos), não havia necessariamente racionalizado o porquê desse distanciamento. Até conferir Um Dia na Vida. Lá em 2009, quando registrou as imagens, Coutinho já indicava como a programação aberta do Brasil não é nada instrutiva e como ela só gira em torno de futilidades, valores errados, exploração da desgraça alheia e formas de arrancar o dinheiro do espectador. Um experimento que infelizmente ainda é atual.

O PASSADO (Le Passé, 2013, de Asghar Farhadi): Aqui no Brasil, integrou a programação do Festival Varilux de Cinema Francês 2013 e, comercialmente, tem previsão de estreia para 16 de maio. Mas, sinceramente, é bom não criar muitas expectativas, especialmente se você é grande fã de A Separação. Falta em O Passado justamente aquele dinamismo que Asghar Farhadi imprimiu em seu filme anterior. Tudo nesse seu novo longa faz justamente o oposto: o ritmo é maçante, a história tem problemas de foco e o resultado final está bem longe de sequer empolgar. Fica muito claro que o roteiro é um problema, já que, a partir da metade, O Passado inverte completamente a abordagem da sua trama e se transforma em um filme completamente diferente. Com isso, o resultado só tem a perder, já que tudo fica meio sem compasso e a mudança brusca da trama nunca tem efeitos dramáticos que justificam a escolha. Foi particularmente decepcionante e cansativo acompanhar esse longa (poucas vezes nos últimos anos uma história me pareceu tão sem ritmo), já que, além de tudo, Bérénice Bejo não sustenta o papel (sabe-se lá o porquê de ela ter vencido Cannes por essa interpretação repetitiva e sem criações). Faltou aquela visceralidade narrativa que fez de A Separação uma das melhores experiências de seu respectivo ano.

Philomena

I forgive you because I don’t want to remain angry.

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Direção: Stephen Frears

Roteiro: Steve Coogan e Jeff Pope, baseado no livro “The Lost Child of Philomena Lee”, de Martin Sixsmith

Elenco: Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy Clark, Mare Winningham, Barbara Jefford, Harrison D’Ampney, Peter Hermann, Sean Mahon, Anna Maxwell Martin, Michelle Fairley, Cathy Belton, Charlie Murphy

Reino Unido/EUA/França, Drama, 2013, 98 minutos

Sinopse: Irlanda, 1952. Philomena Lee (Judi Dench) é uma jovem que tem um filho recém-nascido quando é mandada para um convento. Sem poder levar a criança, ela o dá para adoção. A criança é adotada por um casal americano e some no mundo. Após sair do convento, Philomena começa uma busca pelo seu filho, junto com a ajuda de Martin Sixsmith (Steve Coogan), um jornalista de temperamento forte. Ao viajar para os Estados Unidos, eles descobrem informações incríveis sobre a vida do filho de Philomena e criam um intenso laço de afetividade entre os dois. (Adoro Cinema)

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Algumas histórias são tão boas que só mesmo um diretor tremendamente ruim para destruí-las. Já outras são tão suscetíveis a erros que precisam do diretor certo para funcionar. Philomena se encaixa nessa segunda categoria. É de se agradecer que o britânico Stephen Frears esteja capitaneando esse enredo protagonizado por Judi Dench. A razão é muito simples: a saga de Philomena (Dench) para encontrar o filho que lhe foi tirado em um convento há mais de 50 anos poderia cair no lugar-comum ou no excesso de melodramas caso comandada por um diretor qualquer. Não com Frears, realizador que sempre traz o que existe de mais especial entre os britânicos: discrição e sobriedade. Ao acompanhar a jornada da protagonista pelo filho perdido, portanto, não espere choros compulsivos ou diálogos de auto-ajuda. Philomena ganha o espectador com a simplicidade.

Sem realizar algo relevante desde 2006, quando entregou o elegantíssimo A Rainha, Frears agora vem com essa adaptação que ainda nos dá o privilégio de ter a veterana Judi Dench em um papel super especial. Não dá para falar Philomena sem começar por ela. Dench é a prova real de que, por mais que jovens como Jennifer Lawrence ganhem prêmios mundo afora e tenham amor e bilheteria de sobra do público, não existe nada como a experiência. Com um único olhar, um único gesto, Dench, em Philomena, deixa toda uma nova geração comendo poeira. Simplesmente adorável, ela reafirma sua capacidade de transitar entre os mais variados papeis. É surpreendente vê-la tão doce como a avó que todos nós gostaríamos de abraçar quando, nos últimos tempos, esteve tão firme como a solitária ensandecida de Notas Sobre Um Escândalo ou como a sagaz M da franquia 007. Um desempenho que tem tudo a ver com a proposta de Frears e que entende plenamente a figura que dá título à produção.

Falando em Philomena Lee, chegamos a esse que é um dos grandes trunfos do roteiro de Jeff Pope e Steve Coogan (que, ótimo, também divide a cena com Dench). Ao invés de mulher amargurada por ter o filho tirado de suas mãos por freiras em um convento onde foi colocada à força, ela é estranhamente leve, positiva e quase ingênua. Mais do que isso, é fascinante buscar os porquês de ela não ser uma detratora da religião, e sim uma cristã que segue à risca o cristianismo. E tudo se torna ainda mais interessante quando ela é colocada ao lado de Martin (Coogan), sujeito que se indigna com esses posicionamentos adotados por Philomena após uma traumática vida religiosa. Racional e prático, ele é o contraponto da protagonista. Ambos em uma jornada onde um ensina o outro. Mas nada piegas, e com um texto que não aposta no estereótipo da dupla de opostos que cai na estrada e se implica o tempo inteiro.

Em termos de desenvolvimento da trama, é importante ficar atento ao fato de que a resolução principal acontece lá pela metade, com o passado de Philomena também mostrado em menos de meia hora de filme (em flashbacks, o que funciona muito bem). Porém, se isso tinha tudo para ser um problema, não se engane: o filme não termina seu ciclo nesse momento e muito ainda tem a ser dito sobre a busca do filho perdido, só que por meio de outro ponto de vista – o que se revela ainda mais interessante do que poderia se esperar originalmente. A previsibilidade está uma vez ou outra instalada – claro que a protagonista não desistirá facilmente como o filme quer induzir e que a jornada não terminará com o primeiro obstáculo que surge no caminho – mas é impossível rivalizar com um resultado tão singelo e cuidadoso.

Philomena é realmente um filme feito de coração, protagonizado por uma atriz que não parece fazer um esforço sequer para ser adorável, crível e encantadora.  É do DNA dos britânicos a sobriedade, e Stephen Frears, como um dos expoentes deles, consegue concentrar essa característica em todas as escolhas do seu mais novo longa. Há quem diga que essa é uma história convencional, sem ousadias e até mesmo esquemática, mas se limitar a ver apenas isso e não a beleza humana do resultado é estar a um passo de ser como o próprio personagem Martin Sixsmith vivido por Coogan, que classifica histórias “humanas” como meros produtos rasos para pessoas ignorantes e tolas. Tomara que, após a sessão, esse público, assim como Sixsmith, seja capaz de se reinventar e passe a valorizar devidamente os relatos que possuem esse mesmo valor afetivo de Philomena

FILME: 8.0

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O Lobo de Wall Street

Let me tell you something. There’s no nobility in poverty. I’ve been a poor man, and I’ve been a rich man. And I choose rich every fucking time.

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Direção: Martin Scorsese

Roteiro: Terence Winter, baseado no livro “The Wolf of Wall Street”, de Jordan Belfort

Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Rob Reiner, Matthew McCounaghey, Jon Fraveau, Jean Dujardin, Jon Bernthal, Joanna Lumley, Cristin Milioti, Christine Ebersole, Katarina Cas

The Woolf of Wall Street, EUA, 2013, Comédia/Drama, 180 minutos

Sinopse: Durante seis meses, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) trabalhou duro em uma corretora de Wall Street, seguindo os ensinamentos de seu mentor Mark Hanna (Matthew McConaughey). Quando finalmente consegue ser contratado como corretor da firma, acontece o Black Monday, que faz com que as bolsas de vários países caiam repentinamente. Sem emprego e bastante ambicioso, ele acaba trabalhando para uma empresa de fundo de quintal que lida com papéis de baixo valor, que não estão na bolsa de valores. É lá que Belfort tem a ideia de montar uma empresa focada neste tipo de negócio, cujas vendas são de valores mais baixos mas, em compensação, o retorno para o corretor é bem mais vantajoso. Ao lado de Donnie (Jonah Hill) e outros amigos dos velhos tempos, ele cria a Stratton Oakmont, uma empresa que faz com que todos enriqueçam rapidamente e, também, levem uma vida dedicada ao prazer. (Adoro Cinema)

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Fazia muito tempo que o diretor Martin Scorsese não realizava um legítimo… Scorsese! Sete anos, para ser mais específico, quando ele entregou Os Infiltrados, filme que finalmente lhe rendeu o Oscar de melhor direção depois de tantas derrotas e injustiças. Não que ele não tenha se esmerado em outros projetos que explorassem suas habilidades, mas, por mais que Ilha do MedoA Invenção de Hugo Cabret dessem uma diferente liberdade de criação para Scorsese, os resultados finais sempre ficavam muito longe do que o diretor alcançou nas célebres histórias de homens corrompidos por dinheiro, poder e ganância que tanto lhe estabeleceram como referência. Por isso, O Lobo de Wall Street pode até não ser um dos filmes mais excepcionais de sua carreira, mas certamente traz uma sensação bastante especial em função desse retorno do diretor às suas raízes.

É bom constatar que Scorsese não perdeu o tino para relatos como o de O Lobo de Wall Street. A trajetória verídica de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) tem seus excessos na duração de três horas, no humor e nas atuações, mas tudo perfeitamente compreensível e aceitável para o universo do diretor. Com uma premissa super contemporânea – a questão de dinheiro e poder nunca morre – o longa se desenvolve com algo muito forte a seu favor: a “comédia” presente nele (entre aspas mesmo, já que ela pode ser questionada de espectador para espectador) é muito bem resolvida e completamente ciente do que deve significar dentro de um filme de Scorsese. Assim como em vários outras produções da temporada, as risadas, na realidade, exploram a derrocada e a degradação humana. Os personagens de O Lobo de Wall Street gritam, exageram e até mesmo se arrastam depois de uma overdose de remédios, mas não com o intuito de divertir, e sim de apenas fazer uma representação extrema de vidas desorientadas.

Talvez por ter esse efeito involuntariamente “cômico” O Lobo de Wall Street tenha mais sorte com o grande público que certamente se cansaria com outros filmes do diretor como Taxi DriverOs Bons Companheiros. Existe uma maior abrangência nesse novo filme de Scorsese – o que, felizmente, não castra sua veia autoral em momento algum. Se algo é entendido de forma errada (a tal “comédia”), é reação exclusivamente do público e não do realizador, que entende plenamente os tons da história que narra em parceria com o roteiro de Terence Winter, baseado em livro homônimo do próprio Jordan Belfort. O elenco também capturou firmemente a lógica de excesso como sinônimo de decadência humana na história contada, em especial Leonardo DiCaprio, em um de seus melhores momentos dos últimos anos. Incrivelmente natural e seguro, ele nunca se perde em cenas realmente desafiadoras para um intérprete.

Para acompanhar a vida frenética e descontrolada de Belfort, O Lobo de Wall Street adota um ritmo igualmente frenético – o que traz inúmeros prós e contras. Se a escolha casa totalmente com o que está sendo contado na tela, o filme perde pontos quando resolve diminuir a marcha. Claro que é uma mudança necessária (afinal, seria enlouquecedor acompanhar tudo naquele ritmo), mas, em momentos mais pausados e explicativos, a produção parece ter pouco a dizer, caindo constantemente em repetições. Sem essas quebras, O Lobo de Wall Street seria certamente um dos melhores e mais inspirados de Scorsese. Ainda assim, é bobagem deixar de curtir o filme por causa disso, especialmente quando o veterano volta a contar um tipo de história que só tem a devida personalidade em suas mãos. Nesse sentido, missão cumprida.

FILME: 8.0

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