The Normal Heart
Once upon a time, there was a little boy who always wanted to love another little boy. One day, he finally found that love. And it was wonderful.

Direção: Ryan Murphy
Roteiro: Larry Kramer
Elenco: Mark Ruffalo, Matt Bomer, Julia Roberts, Jim Parsons, Taylor Kitsch, Jonathan Groff, Joe Mantello, William DeMeritt, Sean Meehan, Stephen Spinella, John Mainieri, Adam B. Shapiro, BD Wong
EUA, 2014, Drama, 132 minutos
Sinopse: Ned Weeks (Mark Ruffalo) é um escritor. Seu namorado Felix (Matt Boomer) contrai o vírus da AIDS, o que faz com que Ned se torne um grande ativista. A principal bandeira é mostrar para o mundo que a doença não deve ser vista como um “câncer gay”, ideia comprada pela médica cadeirante Emma Brokner (Julia Roberts), que passa a agitar a causa dentro da comunidade científica. (Adoro Cinema)

Em uma festa, Ned (Mark Ruffalo) dança abraçado com o seu namorado Felix (Matt Bomer). Durante a dança, ele revela que, nos tempos de colégio, sempre teve o sonho de poder dançar assim com outro garoto, enquanto seus colegas demonstravam livremente o afeto que nutriam por meninas. “Imagina se isso fosse possível naquela época?”, comenta Ned, já um homem de cabelos grisalhos dos anos 1980 que, pela primeira vez na vida, encontrou um grande amor. Ou seja, The Normal Heart, que estreou dia 25 de maio na grade de programação da HBO estadunidense, se propõe a fazer um retrato dos anos em que a AIDS começou a se disseminar na América, mas também fala sobre uma geração que viveu (ou não) pequenos prazeres da vida que lhes eram negados. Por isso, seria simplista demais reduzir o filme de Ryan Murphy apenas a um necessário registro dessa doença que já vitimizou milhões de pessoas ao redor do mundo. Mesmo que muitas vezes The Normal Heart vire quase uma panfletagem da causa gay – bem como o superestimado Milk, de Gus Van Sant -, existem, em contrapartida, estes momentos de pura sutileza que colocam os personagens muito acima da mera explanação da AIDS como uma das doenças mais tristes de todos os tempos.
Tem sido relativamente forte a repercussão desta mais nova produção da HBO, talvez por outros motivos que não os do filme especificamente. Mais uma vez, retomamos uma importante questão levantada pelo recentemente celebrado 12 Anos de Escravidão. Afinal, estamos aplaudido o filme em si ou a relevância de sua temática político-social? A circunstância da disseminação da AIDS nos anos 1980 já havia sido magistralmente trabalhada pela emissora anos atrás, quando Mike Nichols marcou época com um elenco fenomenal ao dirigir a minissérie Angels in America, um dos grandes marcos na trajetória da emissora. Lá, estavam presentes de forma muito mais artística e ficcional os relacionamentos homossexuais, a não aceitação de familiares e amigos (ou a própria não-aceitação), a degradação do corpo em função da AIDS e os pensamentos de uma geração gay que precisava lidar com problemas que hoje já são perfeitamente conhecidos – mas nem por isso devidamente cuidados, como a doença em questão. Nenhuma novidade temática em The Normal Heart, portanto. Mas, mesmo que nada inédito e quase didático em sua abordagem, o telefilme, bem como 12 Anos de Escravidão, impacta e fica com o espectador.
As credenciais do diretor Ryan Murphy não inspiravam confiança: na TV, ele inaugurou séries de sucesso como Nip/Tuck, Glee e American Horror Story, mas estranhamente nunca conseguiu manter o padrão delas (quando não as arruinava); no cinema, fez um filme bastante interessante chamado Correndo Com Tesouras mas logo decepcionou profundamente com o tedioso Comer Rezar Amar. Já agora com The Normal Heart, ele faz o seu trabalho mais relevante até aqui – tanto em termos de TV quanto de cinema – provando que, fora alguns excessos (a duração é bastante sentida), ele consegue lidar com um tema difícil com grande dignidade. Não era o que prevíamos nos minutos iniciais, completamente regados a clichês e estereótipos do mundo gay (mais adiante Murphy ainda coloca os personagens dançando, claro, ao som de I Will Survive em uma festa!), só que aos poucos The Normal Heart começa a se encontrar, especialmente quando introduz o personagem de Matt Bomer na trama – figura esta que, posteriormente, se tornará o coração do filme. É quando mostra todos os questionamentos e medos da geração em questão por meio da história de Ned (Ruffalo) e Felix (Bomer) que Murphy, em parceria com o roteiro de Larry Kramer, alcança seus melhores momentos. Quando fala sobre todos mostrando todos, The Normal Heart quase cai no quadrado. Quando fala sobre todos resumindo-os em dois personagens, o resultado chega a ser emocionante.
Se Ryan Murphy não faz cerimônias para mostrar um homem até então absurdamente lindo caindo nu em um chuveiro com seu corpo magérrimo e cheio de feridas, o diretor o faz sem qualquer sinal de apelação. Aliás, é essa franqueza que torna o filme tão tocante, mostrando todos os detalhes de um relacionamento que sobrevive mesmo diante da finitude da vida. E não seria esta a maior prova possível de amor? Por isso, Mark Ruffalo – naquele que é possivelmente o momento mais relevante de sua carreira – e Matt Bomer cumprem com louvor a representação deste grupo muito maior que enfrentou (e ainda enfrenta) situações repletas de medos e anseios, alegrias e carinhos – e, no caso de The Normal Heart, vitalidade e enfermidade. Bomer, especialmente, vence as barreiras de sua impecável beleza grega e entrega cenas de partir o coração, em uma interpretação que certamente será celebrada pelas premiações. É quase decepcionante, portanto, que esta força emocional de The Normal Heart não se traduza para os momentos mais formais da história que são destinados a literalmente discursar sobre a causa gay. Sou muito mais fã deste filme que coloca na pele de dois personagens as discussões íntimas e sociais de um grupo que se apresenta de forma muito convencional quando trabalhado em conjunto. Fosse inteiro assim, seria realmente mais do que um filme necessário apenas por sua temática. Seria também obrigatório cinematograficamente.
O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro
Time is luck. Don’t waste it living someone else’s life. Make yours count for something.

Direção: Marc Webb
Roteiro: Alex Kurtzman, Jeff Pinkner e Roberto Orci, baseado em história de Alex Kurtzman, James Vanderbilt, Jeff Pinkner e Roberto Orci, e nos quadrinhos de Stan Lee e Steve Ditko
Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx, Dane DeHaan, Sally Field, Paul Giamatti, Chris Cooper, Felicity Jones, Colm Feore, Campbell Scott, B.J. Novak, Max Charles, Marton Csokas, Sarah Gadon
The Amazing Spider-Man 2, EUA, 2014, Aventura, 142 minutos
Sinopse: Peter Parker (Andrew Garfield) adora ser o Homem-Aranha, por mais que ser o herói aracnídeo o coloque em situações bem complicadas, especialmente com sua namorada Gwen Stacy (Emma Stone) e sua tia May (Sally Field). Apesar disto, ele equilibra suas várias facetas da forma que pode. No momento, Peter está mais preocupado é com o fantasma da promessa feita ao pai de Gwen, de que se afastaria dela para protegê-la. Ao mesmo tempo ele precisa lidar com o retorno de um velho amigo, Harry Osborn (Dane DeHaan), e o surgimento de um vilão poderoso: Electro (Jamie Foxx). (Adoro Cinema)

Quando chegou aos cinemas em 2012, O Espetacular Homem-Aranha decepcionou por ser um desnecessário reboot da bem sucedida trilogia de Sam Raimi. Decepcionante no sentido de que apenas cinco anos tinham passado desde que a saga estrelada por Tobey Maguire havia se aposentado. O tempo era pouco para que o público desassociasse o herói do rosto de Maguire ou para que a história fosse recontada praticamente da mesma forma. O primeiro filme comandado por Marc Webb – recém saído do ótimo (500) Dias Com Ela -, parecia, então, uma apenas uma cópia inferior do excelente trabalho de Raimi. Mais do que inferior, uma cópia até mesmo tediosa, cujo único grande mérito era trazer um casal infinitamente mais carismático. Por isso, as expectativas eram nulas para essa continuação produzida em apenas dois anos. E se esse reboot continua se mostrando injustificável, pelo menos agora o diretor já está se desgrudando do que vimos antes para explorar outras facetas do personagem. Com as devidas proporções, O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro consegue ser um avanço desde o debut de Webb no mundo do aracnídeo.
É fato que os filmes de Raimi continuam trazendo saudades em praticamente todos os sentidos, mas agora terminaram as introduções dos personagens e suas motivações começam a ficar mais claras. Essa qualidade surtiria mais efeito caso o filme não tivesse tantos problemas de estrutura e excessos – o que fica evidente logo nos primeiros minutos, quando o roteiro escrito pelo trio Alex Kurtzman, Jeff Pinkner e Roberto Orci dedica sua longa sequência a um fato envolvendo o passado de Peter Parker (Andrew Garfield) para depois só tocar no assunto brevemente ao longo do filme. Por que abrir o longa com tanto destaque a esse fato, então? Só que o problema mais sério de todos é justamente aquele que atingiu Homem-Aranha 3, o pior longa comandado por Raimi na antiga franquia: o grande número de vilões. Qualquer espectador mais desatento consegue sentir que não havia necessidade de introduzir três inimigos neste filme. O Electro de Jamie Foxx já cumpre a missão de antagonista da vez e, por isso, apresentar Harry Osborn na metade para somente na meia hora final transformá-lo em Duende Verde é pura perda de tempo. O jovem Dane DeHaan continua ótimo para o tipo conturbado, mas sua história soa como algo paralelo e avulso. Pior ainda é a situação de Rino, vivido por um descontrolado Paul Giamatti que, em duas cenas, já surge como uma figura completamente desinteressante.
Tal excesso traz uma grande dispersão para a trama e tantas alegorias de vilões nos remetem aos tempos de Batman Eternamente, filme que era um festival colorido e fantasioso de uma cidade ameaçada pelos mais diversos tipos de antagonistas. Sem falar da grande falta de ritmo, especialmente porque O Espetacular Homem-Aranha 2 leva duas horas e meia para contar sua história, tornando-se, desnecessariamente, o filme mais longo já feito sobre o personagem. O que faz a diferença – para o bem ou para o mal, dependendo do espectador – é que o longa de Webb retoma um tipo de super-heroi em extinção: aquele caricatural, bem de quadrinhos mesmo, com romance idealizado, piadinhas e vilões eloquentes. Em tempos que o realismo é cada vez mais comum em histórias de HQ’s, tal escolha soa como antiquada ou saudosista? Cabe ao espectador decidir. Detalhes à parte, o conjunto geral funciona, com o devido aprofundamento de personagens e com o acerto de ser até bastante sentimental. Todo romance de Peter e Gwen Stacy (Emma Stone) é funcional não só pelo carisma dos atores, adoráveis juntos, mas porque a história sabe aproveitar bem o sentimento de culpa de Peter, seu afastamento para não colocar a amada em perigo e também seu impulso de estar sempre próxima dela de um jeito ou de outro. A trama chega a ser emocionante nesse sentido, com um desfecho até corajoso para o gênero.
Outro aspecto que se resolve em O Espeacular Homem-Aranha 2 é a ação, agora melhor pontuada, com efeitos infinitamente melhores que o primeiro (que tinha um lagarto horroroso quase vindo de um videogame) e que só melhoram as sequências que exigem adrenalina, com admiráveis voos do Homem-Aranha. Pequenas cenas também são preciosas: a conversa da tia May (Sally Field) com Peter sobre o passado de seus pais é sincera e traz o que existe de melhor em uma interpretação de Sally: a fragilidade, não as caras e bocas que tanto lhe caracterizam com o passar do tempo. A relação do Aranha com seu publico ainda rende mais um pequeno grande momento: aquele em que ele salva um garoto do bullying, conserta sua maquete destruída e o acompanha a pé até a escola para que chegue a salvo. Em suma, o reboot continua sem necessariamente empolgar, enquanto os de Raimi já despertavam emoção logo nos créditos de abertura com o inesquecível tema de Danny Elfman (o que também é relativamente corrigido aqui, com uma trilha melhor de Hans Zimmer em parceria como grupo The Maginificent Six), mas é bom ver que dessa vez o tédio não impera e que de certa forma a sensação de repetição e mera cópia deixa de existir. Pena que um pouco tarde, já que a nova franquia termina no próximo filme.
Refém da Paixão
I don’t think losing my father broke my mother’s heart but rather losing love itself.

Direção: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman, baseado no romance “Labor Day”, de Joyce Maynard
Elenco: Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tom Lipinski, James Van Der Beek, J.K. Simmons, Maika Monroe, Tobey Maguire, Brooke Smith, Brighid Fleming, Alexie Gilmore, Lucas Hedges, Micah Fowler, Chandra Thomas
Labor Day, EUA, 2013, Drama, 111 minutos
Sinopse: É o final do verão, às vésperas do Dia do Trabalho na cidade de Holton Mills, New Hampshire. Henry (Gattlin Griffith), um garoto de 13 anos, tem poucos amigos, e passa o dia lendo, vendo televisão ou sonhando acordado com os belos corpos de suas colegas de escola. A única companhia de Henry é sua mãe, Adele (Kate Winslet), uma ex-dançarina divorciada há muito tempo. O garoto tenta integrar a nova família de sua mãe e agradar o padrasto, mas Adele tem um grave segredo que não lhe permite ser feliz. Mas tudo muda no Dia do Trabalho, quando Frank (Josh Brolin), um homem misterioso e ferido, aproxima-se de Henry e pede sua ajuda. (Adoro Cinema)

Desde que teve seu momento mais célebre com o ótimo Amor Sem Escalas, o diretor Jason Reitman tem visto sua carreira perder o grande prestígio conquistado com esta obra que sucedeu o também celebrado Juno. Recentemente, Jovens Adultos conseguiu a muito custo alguma repercussão devido ao desempenho de Charlize Theron, e agora esse Refém da Paixão passou praticamente despercebido pelas salas de cinema. As razões são bem claras: enquanto o filme estrelado por Theron tinha uma protagonista extremamente difícil, Refém da Paixão é cercado de estranhezas. Em sua mais nova investida, Jason Reitman faz uma mistura de gêneros que pode facilmente confundir o gosto do espectador. Entrando na lista de filmes que, por maiores os méritos, são quase impossíveis de ser recomendados por não ter um público definido, Refém da Paixão não é, mais do que nunca, uma experiência “certa” ou “errada”, mas sim um filme que varia imensamente de percepção de acordo com a plateia.
“Ela não perdeu um marido, ela perdeu o amor”, fala Henry (Gattlin Griffith) sobre sua mão logo nos primeiros minutos de projeção. Ele resume a condição de Adele (Kate Winslet), sua mãe, que vive isolada e quase sem sair de casa após uma dolorosa separação que posteriormente é melhor aprofundada com outros dramas. Ou seja, a princípio, Refém da Paixão parece um drama bem conduzido sobre como um filho assume as responsabilidades operacionais e emocionais da casa para cuidar de uma mãe completamente fragilizada. Mas logo o roteiro, escrito pelo próprio Reitman, baseado no romance Labor Day, de Joyce Maynard, introduz um suspense envolvendo um sequestrador. A tensão da situação se mistura com as fraquezas emocionais da protagonista apresentadas minutos antes e, aos poucos, o filme também começa a ganhar toques quase românticos quando passa a colocar Adele nas teias do irresistível charme e bom mocismo de Frank (Josh Brolin), que se revela um sujeito longe de ser necessariamente perigoso.
Misturando drama, suspense e romance, Refém da Paixão tem um foco que basicamente se estrutura a partir do ponto de vista do jovem Henry, que, assim como nós, tenta, de longe, compreender o que está sendo cultivado entre sua mãe e o bondoso sequestrador. E, assim como ele, ficamos confusos em diversos momentos. Primeiro, como aceitar a paixão de uma mulher sequestrada por seu sequestrador? Segundo, como torcer pelo casal, já que o homem, apesar de aparente bom pai e marido, foi preso por homicídio e fugiu da cadeia? Mas, bem como o garoto, aos poucos percebemos que é possível digerir toda a situação. E talvez seja justamente essa mistura de propostas e abordagens que tenha me fisgado, já que o filme de Reitman está longe de trilhar caminhos com respostas fáceis. Você pode dizer que Refém da Paixão é qualquer coisa, menos convencional em sua proposta.
Ainda em tempo, é errado definir a história exclusivamente como drama, suspense ou romance. Até porque, se fosse realmente dedicado a um desses gêneros, aí sim o resultado cairia no lugar comum. Particularmente, vejo essa multiplicidade de focos como um ganho para o filme, que traz uma sutil e eficiente tensão sexual no suspense, uma sensibilidade ao tratar o estado catatônico da protagonista que ainda sofre pela separação e vários acertos ao tratar da complicada relação de dependência entre mãe e filho – sendo este segundo obrigado a crescer mais rápido do que outros garotos de sua idade para tentar amenizar a infelicidade da mãe. Os flashbacks – outro artifício que mistura ainda mais a trama -, não são lá tão eficientes, em especial os que constroem o passado de Frank. No entanto, um deles se destaca de forma contundente e até emocionante: aquele que mostra o doloroso passado de Adele e a verdadeira razão que fez ela dar as costas para a vida.
Se a trilha de Rolfe Kent cria o ambiente certo e o elenco é mais do que acertado, com Kate Winslet voltando a fazer algo de relevante desde Mildred Pierce, Josh Brolin surpreendendo com um dos momentos mais completos de sua carreira (ele está sensual, perigoso e sensível ao mesmo tempo) e o jovem Gattlin Griffith despontando como um nome para se ficar de olho, o filme também não está isento de algumas bobeiras fáceis de serem percebidas. Dois casos saltam aos olhos: a menina que sabe praticamente tudo da vida amorosa e sexual dos adultos (uma personagem que verbaliza e explica mais do que deveria) e a óbvia investida do roteiro de complicar a vida dos personagens em momentos-chaves (óbvio que a polícia aparece na situação mais inconveniente e que o gerente do banco desconfia de uma determinada situação na hora mais inesperada, por exemplo). Entretanto, como um todo, o longa me pareceu muito bem resolvido em suas estranhezas e múltiplas abordagens. É provável que a história vá mais além do que deveria em seus momentos derradeiros, mas o saldo geral é positivo – ainda que seu fracasso com público, crítica e premiações seja perfeitamente compreensível.
Alabama Monroe

Direção: Felix Van Groeningen
Roteiro: Felix Van Groeningen e Carl Joos, com a colaboração de Charlotte Vandermeersch, baseado na peça “The Broken Circle Breakdown Featuring the Cover-Ups of Alabama”, de Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels
Elenco: Johan Heldenbergh, Veerle Baetens, Nell Cattrysse, Nils De Caster, Robbie Cleiren, Bert Huysentruyt, Jan Bijvoet, Sofie Sente, Ruth Beeckmans, Jan Hammenecker, Blanka Heirman, Kirsten Pieters, Yves Degryse
The Broken Circle Breakdown, Bélgica, 2012, Drama, 111 minutos
Sinopse: Elise (Veerle Baetens) e Didier (Johan Heldenbergh) se apaixonam à primeira vista. Ele é um músico romântico e ela a realista dona de um estúdio de tatuagem. Apesar das diferenças, o relacionamento dá certo e eles têm uma filha, Maybelle (Nell Cattrysse). Aos seis anos, a menina fica gravemente doente e a família se desestabiliza. (Adoro Cinema)

Certos filmes, por mais cheio de méritos e bem realizados que sejam, são tão tristes que exigem um intenso preparo emocional do espectador. No cinema recente, o exemplar mais contundente neste sentido foi Namorados Para Sempre, uma viagem dolorosíssima – mas extremamente franca -, às estâncias mais turbulentas de um relacionamento amoroso. E se parecia quase impossível que um filme de estrutura semelhante fosse tão avassalador quanto ele pelo menos nos próximos anos, eis que surge esse Alabama Monroe, que segue basicamente a mesma linha de mostrar, com idas e vindas no tempo, a total desestruturação de uma paixão. Só que com uma diferença crucial: aqui, o casal vivido por Johan Heldenbergh e Veerle Baetens tem sua paixão abalada não apenas pelo tempo ou por diferenças que se afloram conforme vão se conhecendo melhor, mas também por uma infelicidade do destino que faz com que sua filha de seis anos passe por inúmeras rodadas de quimioterapia para tratar um câncer recém descoberto.
Indicado ao Oscar 2014 de melhor filme estrangeiro – representando a Bélgica -, Alabama Monroe já anula qualquer possibilidade de bons sentimentos envolvendo a história logo em seus primeiros minutos. Ao anunciar que a filha do casal terá que passar por vários tratamentos médicos agressivos que destruirão sua imunidade, o filme, quando começa a ir e voltar no tempo para mostrar os primeiros momentos do casal e suas alegrias juntos, instantaneamente se torna ainda mais triste. Não adianta: pouco importa se a conexão entre aquelas duas pessoas é natural e comovente, pois já sabemos que o futuro lhes reserva uma dor imensurável. Cada alegria de Alabama Monroe é, portanto, profundamente triste, o que demanda do espectador uma grande força para acompanhar essa viagem constantemente dolorosa. Na equação, adicione ainda um melancólico repertório folk (o casal dedica a vida à música), que é certeiro ao mexer gradativamente com os sentimentos da plateia.
As semelhanças estruturais com Namorados Para Sempre, entretanto, não são qualquer problema para este quarto longa-metragem do diretor Felix van Groeningen. Existe uma grande naturalidade em cada segundo de projeção, especialmente porque a história não se utiliza do câncer da garota para apelações (mesmo com várias sequências da pequena no hospital e sem cabelos). Mas é igualmente interessante o fato de Alabama Monroe ser menos sobre a doença da filha e mais sobre o arco dramático do casal, desde quando se conheceram em função da música até quando passaram a não aguentar mais os obstáculos impostos pela vida – a dois ou não. E tanto Johan Heldenbergh quanto Veerle Baetens são os rostos ideais para protagonizar essa história: ambos “gente como a gente” e nada idealizados. Mais importante ainda, são excelentes atores que transmitem cada dor e tristeza em um mergulho irrepreensível no universo de seus personagens.
Reservando algumas surpresas na forma como organiza os fatos, como a apresentação de acontecimentos mais cedo do que o esperado e outras reviravoltas que são reveladas aos poucos, Alabama Monroe é baseado na peça-musical The Broken Circle Breakdown Featuring the Cover-Ups of Alabama, o que explica o seu tom quase de bastidores e mais intimista nas várias sequências folk. Por sinal, as canções pouco a pouco se tornam cada vez mais melancólicas para a história deles – e quando, em uma apresentação, Didier (Heldenbergh) estende a mão para Elise (Baetens) sem receber a dela de volta, o filme mostra plena compreensão do quanto a música é peça fundamental para suas simbologias – muito mais do que deixa a entender em seus primeiros momentos. Sem falar, claro, do bônus de todas serem inseridas nos momentos mais adequados da trama. Porém, é válido repetir: mesmo que repleto de detalhes admiráveis, Alabama Monroe é um filme impiedoso em sua veracidade – e, acima de tudo, feito para ser assistido com grande preparo, pois seu efeito pode até ser emocionante, mas em um sentido devastador.
Noé
This is the end of everything!

Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Ari Handel e Darren Aronofsky
Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Emma Watson, Nick Nolte, Anthony Hopkins, Ray Winstone, Douglas Booth, Logan Lerman, Mark Margolis, Kevin Durand, Leo McHugh Carroll, Marton Csokas, Finn Wittrock
Noah, EUA, 2014, Drama, 138 minutos
Sinopse: Noé (Russell Crowe) vive com a esposa Naameh (Jennifer Connelly) e os filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll) em uma terra desolada, onde os homens perseguem e matam uns aos outros. Um dia, Noé recebe uma mensagem do Criador de que deve encontrar Matusalém (Anthony Hopkins). Durante o percurso ele acaba salvando a vida da jovem Ila (Emma Watson), que tem um ferimento grave na barriga. Ao encontrar Matusalém, Noé descobre que ele tem a tarefa de construir uma imensa arca, que abrigará os animais durante um dilúvio que acabará com a vida na Terra, de forma a que a visão do Criador possa ser, enfim, resgatada. (Adoro Cinema)

Despertava imensa curiosidade a assinatura do confiável Darren Aronofsky nesse projeto chamado Noé. Com uma carreira simplesmente impecável, o diretor finalmente se renderia ao cinema comercial em sua nova investida? Ou deixaria sua marca nessa história clássica da Bíblia trazendo discussões inteligentes e inovadoras? Digamos que Aronofsky investe um pouco em cada uma das duas opções. E, infelizmente, falha em todas as suas tentativas. Por ficar no meio do caminho entre um filme meramente de grande escala e uma produção mais reflexiva, o diretor não consegue dialogar com nenhum dos públicos. Os fãs de blockbusters não vão encontrar absolutamente nada de novo nessa vertente e quem é fã de outros trabalhos de Aronofsky como Réquiem Para Um Sonho e Cisne Negro sentirá que este é um projeto que está longe de explorar os inegáveis talentos do diretor.
Por que, então, ele quis contar essa história? Bom, particularmente, este me parece um grande mistério. Até porque Noé é contado de forma muito linear e previsível, sem qualquer inventividade digna de Aronofsky. Ok, você pode dizer que talvez o filme esteja sendo injustiçado por ser vítima do alto nível de seu realizador – que aqui não apresenta nada de singular-, mas a verdade é que mesmo que fosse comandado por um nome qualquer, Noé seria igualmente esquecível. Em suma, o principal problema do filme é não concentrar seus conflitos naquela que é a melhor parte da história: quando Noé (Russell Crowe) é tomado por uma fé cega e torna a vida dentro da arca já flutuante um verdadeiro pesadelo. Muitos assuntos interessantíssimos – e por que não ainda bastante atuais? -, são discutidos ali, sendo o mais importante deles, claro, o fanatismo e a crença exacerbada. Só que quando essa pauta surge em cena, o filme já deve estar em seu último terço e as tantas situações que se instalam deixam o ritmo corrido; e a profundidade, claro, quase inexistente.
Se antes disso Noé tivesse feito algo de relevante que justificasse tanta atenção para depois ter que finalizar tudo às pressas, a situação seria bem diferente. Porém, mais da metade do filme é desnecessariamente focada na construção da arca. Com essa preparação que mais serve para apenas introduzir personagens e conceitos do que de fato construir uma trama, Aronofsky – que escreve o roteiro em parceria com seu fiel colaborador Ari Handel -, deu margem para muitas bobagens, como os gigantes de pedra (inclusive com suas batalhas supostamente épicas), que dão um quê de Michael Bay ao filme, e às visões de Noé, nunca devidamente envolventes ou convincentes por conta do excesso de efeitos visuais. Por isso, quando o longa começa a ficar perto de construir verdadeiras complexidades ao colocar os personagens na arca em pleno mar, tudo se dissolve em uma parcela do filme que é abarrotada demais.
São poucos os aspectos de Noé que realmente impactam – e o maior deles é, sem dúvida, a trilha do sempre mestre Clint Mansell. Aronofsky quer de tudo um pouco e termina tendo quase nada de expressivo, com direito a algumas caricaturas (Anthony Hopkins parece o Mestre dos Magos da Caverna do Dragão e Nick Nolte não poupa no overacting como o vilão), discursos prontos (a cena final de Emma Watson com Russell Crowe) e mensagens atuais e válidas, mas que não precisavam ser verbalizadas pois já estavam perfeitamente compreensíveis nas simbologias do roteiro. São várias chances perdidas, e o cartaz, que remete muito ao horror que Rolland Emmerich passou a realizar nos últimos anos com filmes como 2012 também falha ao resumir o próprio filme: Noé, além de fraquíssimo em aprofundamentos dramáticos, também está longe de ser um blockbuster bobo mas divertido. O verdadeiro Aronofsky precisa logo voltar.