Trapaça
You are nothing to me until you’re everything.

Direção: David O. Rusell
Roteiro: Eric Warren Singer e David O. Russell
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Jeremy Renner, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña, Shea Whigham, Alessandro Nivola, Elisabeth Röhm, Paul Herman, Saïd Taghmaoui
American Hustle, EUA, 2013, Comédia, 138 minutos
Sinopse: Irving Rosenfeld (Christian Bale) é um grande trapaceiro, que trabalha junto da sócia e amante Sydney Prosser (Amy Adams). Os dois são forçados a colaborar com um agente do FBI (Bradley Cooper), infiltrando o perigoso e sedutor mundo da máfia. Ao mesmo tempo, o trio se envolve na política do país, através do candidato Carmine Polito (Jeremy Renner). Os planos parecem dar certo, até a esposa de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence), aparecer e mudar as regras do jogo. (Adoro Cinema)

Se existe uma qualidade inegável na filmografia de David O. Rusell, essa é a sua notável habilidade em dirigir atores. Desde quando debutou na direção de longas-metragens em 1996 com Procurando Encrenca, já conseguiu reunir nomes como Lily Tomlin e Alan Alda para liderar seus elencos. A partir daí, aos poucos, foi agregando novos nomes conceituados ao seu currículo de amigos até se tornar sinônimo de celebração garantida. Por O Vencedor, deu Oscar para Melissa Leo e Christian Bale. Com O Lado Bom da Vida, emplacou indicações em todas as categorias de atuação – o que não acontecia há décadas -, sem falar da celebração de Jennifer Lawrence, claro. O feito de trazer holofotes para todos os intérpretes de um filme seu se repete esse ano com Trapaça. O porém é que, agora, fica mais evidente do que nunca a verdade de que David O. Rusell é um mito criado involuntariamente pelos atores que participam de seus filmes.
Mesmo com aprovação de crítica e público, seus trabalhos nunca são plenamente convincentes. E o que antes poderia ser definido como uma mera implicância de minha parte, agora é plenamente justificado por esse Trapaça, que surpreende pela total falta de personalidade. É sempre perigoso tentar emular estilos de outros diretores porque é fácil confundir homenagem com cópia ou pretensão. O. Rusell não escapou dessa armadilha, e o que vemos em seu novo longa é uma infinita sucessão de momentos que tentam replicar os acertos de narrativa e estética que fizeram de Martin Scorsese, por exemplo, uma grande referência. Mas citar apenas o realizador do recente O Lobo de Wall Street como uma das “inspirações” do filme é ser bastante generoso. Pelo menos outros dois momentos são descaradamente copiados: aquele que Jennifer Lawrence canta Live & Let Die na cozinha (Cate Blanchett já havia feito o mesmo – e melhor – há mais de dez anos em Vida Bandida, também um longa sobre trapaceiros) e outro em que Robert De Niro surpreende ao falar árabe (impossível não lembrar da fluência italiana igualmente inesperada de Christoph Waltz em Bastardos Inglórios).
Por isso, é até meio chocante essa falta de personalidade do diretor, pois ele, mesmo tendo realizado filmes completamente superestimados, nunca tinha demonstrado ser tão descuidado nesse sentido. Pode até ser que Trapaça consiga enganar muito bem um público menos desprovido de referências, mas certamente é desanimador para quem está atento a tais detalhes. Assim, muitos aspectos interessantes do filme acabam sendo ofuscados por essa história capenga, como a boa direção de arte, os excelentes figurinos e, principalmente, o bom senso de O. Rusell para a comédia aqui. Quem tenta contornar a situação, mais uma vez, é o elenco. E, como não é novidade para ninguém, os atores são o que existe de melhor, da versatilidade cada vez mais acentuada de Christian Bale a um momento bastante diferenciado de Amy Adams (finalmente abandoando o estereótipo de meiga e ingênua), passando pela boa presença de Jennifer Lawrence. Admirável como o diretor reutiliza atores de filmes passados, reposiciona-os e acrescenta novos sem que eles pareçam deslocados ou repetitivos. Esse é um mérito que não podemos tirar de O. Rusell.
Entretanto, não dá para confundir excelente direção de atores com direção como um todo. Trapaça pode até ser light e divertido, mas não tem voz própria e é constantemente sabotado por uma montagem problemática e responsável por tirar boa parte do ritmo da trama. A forma pop com que muitas vezes Trapaça se desenvolve, apoiada naquele visual de décadas passadas e em cenas cadenciadas por uma trilha de célebres canções, ajuda bastante. Só que, de novo, temos o problema da cópia: Paul Thomas Anderson já fez muito melhor em Boogie Nights – Prazer Sem Limites. É verdade que Trapaça não cai em clichês (nada de voos internacionais, traidores dentro da equipe ou revelações bombásticas de última hora), mas seria interessante assistir a esse filme com referências cinematográficas zeradas. Será que daria para ser mais benevolente com o resultado? Para um diretor com uma marca tão registrada de reunir bons atores em filmes mais descontraídos, não era de se esperar alguém querendo copiar tanto e querendo agradar sabe-se lá quem. A investida tem dado certo (prêmios no Globo de Ouro, líder de indicações ao Oscar e mais uma vez uma boa média de aprovação do público). Entretanto, se antes dava para compreender a festa excessiva para O. Rusell, agora é realmente estranho ver que tantos estejam, com o perdão do trocadilho, caindo nessa trapaça.
FILME: 6.0
Fruitvale Station – A Última Parada
I’m gonna be good.

Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler
Elenco: Michael B. Jordan, Melonie Diaz, Octavia Spencer, Kevin Durand, Chad Michael Murray, Ahna O’Reilly, Marjorie Crump-Shears, Ariana Neal, Keenan Coogler, Trestin George, Joey Oglesby, Michael James, Destiny Ekwueme
Fruitvale Station, EUA, 2013, Drama, 85 minutos
Sinopse: Estados Unidos, 2007. Oscar Grant (Michael B. Jordan) tem 22 anos e acaba de ser demitido do emprego por chegar constantemente atrasado. Ele esconde esta notícia de Sophina (Melonie Diaz), a mãe de sua filha, por achar que pode recuperar o emprego após conversar com seu chefe. Bastante ligado à mãe (Octavia Spencer), Oscar enfrenta problemas quando resolve ir com Sophina ver as festividades de ano novo em San Francisco. (Adoro Cinema)

Sophina (Melonie Diaz) estava assistindo a um programa de Oprah Winfrey e descobriu que, para algo se tornar um hábito, a disciplina deve ser mantida durante 30 dias. A personagem está entrando em uma dieta e decidiu que evitaria carboidratos em sua alimentação. 30 dias, define Sophina, e assim ela estaria livre dessa necessidade excessiva de consumir carboidratos. Mas quem precisa mudar alguma coisa em Fruitvale Station – A Última Parada está longe de ser ela. O sujeito que batalha para se adaptar a novos hábitos é Oscar (Michael B. Jordan), que, devido a irresponsabilidades anteriores, já foi preso por tráfico de drogas, traiu a esposa, perdeu o emprego e agora tenta finalmente se ajustar em uma vida nos eixos para retomar sua credibilidade com a família e poder ser um pai presente para a pequena filha. É muito mais essa jornada do que a tragédia que terminou com a vida de Oscar – e não estou entregando qualquer spoiler aqui, já que esta é uma produção baseada em fatos reais – que importa para Fruitvale Station – A Última Parada. Na verdade, ele é um filme sobre pessoas como todos nós, suscetíveis a erros e recomeços – e, por isso mesmo, tão eficiente.
O dia é 31 de dezembro e não é apenas o réveillon que será comemorado por Oscar e sua família, mas também o aniversário da matriarca Wanda (Octavia Spencer). Ao longo deste dia, o filme dirigido e roteirizado por Ryan Coogler (em seu trabalho de estreia em longas-metragens) percorre os mais diversos núcleos e trabalha aquele velho e sempre interessante formato de mostrar, em pequenas situações, a vida inteira de um personagem em apenas um único dia. Fruitvale Station acerta nessa escolha e, melhor ainda, consegue falar sobre temas muito batidos sem cair no lugar comum: o vício de Oscar é apenas verbalizado, as traições do passado são apresentadas discretamente em uma única cena (e nem precisamos saber detalhes delas) e suas irresponsabilidades como pai e profissional de um supermercado não chegam a extremos. Outros diretores não hesitariam em reunir todas essas histórias em um grande melodrama ineficiente e formulaico (alô, Lee Daniels!), mas Ryan Coogler faz o oposto, preocupando-se mais em focar em quem Oscar está tentando ser do que em quem um dia ele já foi.
Em breves 85 minutos, a produção consegue falar disso tudo de forma muito concisa, alcançando o feito de nunca deixar a história carente de respostas. É perceptível essa qualidade de Coogler em dar uma roupagem muito realista à história, que em momento algum chega a ser apelativa. Essa conquista está bem representada, por exemplo, na coadjuvante de Octavia Spencer. Sua Wanda não é a mãe chorona, frágil e indefesa frente os erros do filho. Pelo contrário: ela é forte e racional, o que nos faz entender por completo o porquê de todos a respeitarem tanto. A construção que Spencer faz junto ao roteiro é coerente com toda a proposta de Fruitvale Station, mas falar só dela (que merecia mais tempo em cena, pois também prova ter talento além das caricaturas que inexplicavelmente a consagraram com um Oscar por Histórias Cruzadas) é ser injusto com a dupla Michael B. Jordan e Melonie Diaz. Ele, especialmente, aproveita todas as chances que o filme lhe dá, e nos entrega um personagem discreto e que conquista nossa torcida. É também por causa dele que as injustiças sofridas pelo personagem nos momentos finais se tornam ainda mais pungentes.
Os momentos derradeiros de Fruitvale Station são, por sinal, bem encaixados na trama. Essa simetria impede que a desgraça final soe gratuita ou avulsa, como uma espécie de golpe final para conquistar o espectador pelo coração. É impactante na medida certa e leva o tempo que precisa levar para também não se tornar um grande finale choroso. Eis aí a palavra-chave do longa de Coogler: discrição. Menos é mais, até mesmo naquele que é o ponto alto da história. Por isso, fuja do trailer, que é um tanto exagerado (o que o filme está longe de ser) e que entrega mais do que precisa ser dito sobre a vida de Oscar. Simples e contido, Fruitvale Station termina ainda com uma decisão pra lá de acertada. O corte seco e abrupto dá o tom certo para a conclusão da trama, mostrando que, mais uma vez, vários personagens terão que se adaptar a uma nova vida, a novos hábitos. Só que, dessa vez, 30 dias simplesmente não chegarão nem perto de ser suficientes para mudar esse cenário.
FILME: 8.5
Ninfomaníaca – Volume 1
Perhaps the only difference between me and other people is that I’ve always demanded more from the sunset.

Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Connie Nielsen, Hugo Speer
Nymphomaniac – Volume 1, Dinamarca/Alemanha/França/Bélgica/Reino Unido, 2013, Drama, 122 minutos
Sinopse: Bastante machucada e largada em um beco, Joe (Charlotte Gainsbourg) é encontrada por um homem mais velho, Seligman (Stellan Skarsgård), que lhe oferece ajuda. Ele a leva para sua casa, onde possa descansar e se recuperar. Ao despertar, Joe começa a contar detalhes de sua vida para Seligman. Assumindo ser uma ninfomaníaca e que não é, de forma alguma, uma pessoa boa, ela narra algumas das aventuras sexuais que vivenciou para justificar o porquê de sua auto avaliação. (Adoro Cinema)

Dias antes de conferir Ninfomaníaca – Volume 1, uma conhecida me perguntou se a crítica estava recomendando ou não o filme de Lars Von Trier. Antes que eu pudesse responder, uma outra conhecida se adiantou e deu uma resposta muito melhor da que eu estava prestes a dar. Disse ela: “Pouco importa. Esse é um filme que está sendo discutido”. Resposta certeira para uma produção que sim, está longe dos meros rótulos de “boa” ou “ruim”. Ninfomaníaca – Volume 1 ultrapassa os limites de apenas uma estreia nos cinemas para se tornar um verdadeiro evento. Gostando ou não, o novo trabalho de Lars é tema de muitos debates e não causa indiferença. Mesmo quem bombardeia contribui para a repercussão. Afinal, como diz Clécio (Irandhir Santos) no recente Tatuagem, crítica negativa é publicidade gratuita.
Mais do que nunca, Lars Von Trier precisa dessa repercussão do público. Ele nunca foi um diretor popular: suas produções viviam basicamente de Cannes e o diretor, depois de falar bobagens no evento e ser considerado persona non grata por lá (título que meses depois o próprio Festival voltou atrás e retirou), teve que arranjar alguma forma de causar barulho sem o selo de qualidade de Cannes. A solução que ele achou foi um pesado trabalho publicitário. Nunca vimos o dinamarquês investir em tanta polêmica antes de lançar um filme. Já não bastasse a premissa (a saga de uma mulher viciada em sexo dividida em dois longas), ele sempre fez questão de dizer que tudo seria explícito e de vazar o maior número possível de trechos do filme para causar curiosidade. Por fim, elaborou cartazes com todo o elenco simulando orgasmos. E Lars, considerado um sujeito extremamente egocêntrico e pretensioso, começava a dar sinais de que estava novamente se descontrolando com tanta apelação depois de ter se estabilizado daquele absurdo chamado Anticristo com o belo Melancolia.
Só que a sessão acaba e Ninfomaníaca – Volume 1 se revela quase uma propaganda enganosa. Menos chocante do que prometia, o filme pode até ser mais pesado para o grande público que não tem referências da filmografia do diretor ou de títulos alternativos mais intensos, mas está bem claro que a história não tem como objetivo impactar o público com sexo gratuito. Porém, aí entra o grande problema dessa primeira parte de Ninfomaníaca: nós não sabemos qual o objetivo dela. Infelizmente, o volume 1 da história de Joe (Charlotte Gainsbourg) não se sustenta sozinho. Ok, estamos assistindo aos problemas de um vício descontrolado dessa mulher que desde pequena já tinha impulsos sexuais mais intensos do que o normal. Mas o que Lars Von Trier quer dizer com tudo isso? Sozinho, Ninfomaníaca – Volume 1 é um retrato racional e simplista de um vício sexual, distribuído em pequenas histórias contadas em capítulos.
É um problema que a primeira parte ainda não chegue na figura de Charlotte Gainsbourg. Ela está ali narrando tudo, mas a trajetória em si, desde quando a protagonista era uma criança, ainda não chegou até sua fase de mulher adulta que foi encontrada machucada e desmaiada em um beco. Ou seja, precisamos do segundo volume para compreender – ou não – o que todas as situações adolescentes de Joe realmente significaram para a mulher que ela é hoje. Normalmente, muito se discute a decisão de se dividir um filme em duas partes. Só que se é fácil deduzir a razão de exemplares como Harry Potter e Jogos Vorazes ganharem dois longas para um mesmo ciclo (dinheiro, claro, apesar dos estúdios dizerem o contrário), o oposto acontece com Ninfomaníaca. Será que foi realmente necessária essa separação? A julgar pelo que está em cartaz, a trama poderia ter sido muito bem condensada em um único ciclo, nem que ela fosse mais longa do que estamos acostumados a ver.
Por isso, é impossível julgar Ninfomaníaca – Volume 1 de forma independente. Falta explicação para muitos pontos, e essa sensação impede uma análise mais profunda das propostas de Lars. O que vemos nesse filme se parece mais com uma coletânea de curtas intercalados por narrações e comentários. Menos complexo do que merecia ser, é, do jeito que ficou, uma história bastante genérica dessa garota que chega a transar com sete homens em uma noite. E é ao tentar dar alguma profundidade para a história de Joe que o diretor acaba caindo no didatismo. Como? Criando Seligman (Stellan Skarsgård), o sujeito que ajuda a protagonista e ouve sua história. Possivelmente um alter-ego do diretor, é nele que está centrada toda a “complexidade” do filme, pois Seligman analisa cada momento narrado por Joe. Ele faz inúmeros paralelos do que ouve, passando por metáforas que envolvem conceitos de Fibonacci e polifonia, por exemplo. Só que, ao invés de realmente trazer a necessária complexidade, é como como se sussurrasse constantemente para o espectador: “vejam como tudo tem mais conteúdo do que aparenta!”.
Curiosamente, de alguma forma Ninfomaníaca – Volume 1 envolve e escapa das pretensões exacerbadas e apresentadas anteriormente por Lars em longas quase insuportáveis de tão pedantes como o já mencionado Anticristo. Inclusive, seu mais novo trabalho tem pelo menos um segmento realmente admirável: aquele envolvendo a sra. S. de Uma Thurman. Ali sim está presente uma maior originalidade e também discussões que o filme falha em propor nessa primeira parte como um todo. É até curioso que o capítulo gere tantas risadas na sessão, uma vez que, assim como no recente Blue Jasmine, o “humor” só explicita a desgraça humana. Nesse caso, apresenta os limites que as pessoas chegam quando se confrontam com frustrações sexuais e amorosas. E Uma Thurman consegue tirar tudo de letra em uma interpretação que é a melhor de sua carreira desde que trabalhou com Quentin Tarantino em Kill Bill. A sequência de Thurman sintetiza bem outra proposta de Ninfomaníaca: a de que o sexo aqui não é motivo de excitação e sim de muita tristeza. Serve para saciar obsessões, afogar mágoas, esquecer o mundo e aliviar angústias. O que menos conta é realmente o prazer.
Ainda que incompleto, Ninfomaníaca – Volume 1 tem seus momentos, traz opções estéticas interessantes (letreiros na tela, a sequência da polifonia) e, em dados momentos, nem parece um filme de Lars (de seus exemplares recentes, talvez seja o que menos use a câmera na mão, por exemplo). Mais do que isso, chega a ser imersivo e até envolvente, sendo só prejudicado mesmo pela falta de respostas. Exemplares mais implícitos já chocaram muito mais e é de se esperar que, em março (quando o segundo capítulo entra em cartaz), seja possível descobrir que tudo o que foi mostrado aqui seja uma preparação para explicações realmente interessantes e de acordo com o talento que o diretor já demonstrou em vários filmes. Separado, o primeiro filme de Ninfomaníaca é deficiente artisticamente, com vários pensamentos incompletos. Ele simplesmente não responde por si só. Em função disso, a tradicional avaliação com nota que apresentamos aqui no blog não existe dessa vez. Não tem como julgar algo pela metade. Em março saberemos o quanto a saga de Joe realmente vale a pena.
Frozen – Uma Aventura Congelante
Oh, Anna… If only there was someone out there who loved you…

Direção: Chris Buck e Jennifer Lee
Roteiro: Jennifer Lee, baseado no conto “The Snow Queen”, de Hans Christian Andersen, e em história de Chris Buck, Jennifer Lee e Shane Morris
Com as vozes de: Kristen Bell, Idina Menzel, Jonathan Groff, Josh Gad, Santino Fontana, Alan Tudyk, Ciarán Hinds, Chris Williams, Stephen J. Anderson, Maia Wilson, Edie McClurg, Robert Pine, Maurice LaMarche, Eva Bella
Frozen, EUA, 2013, Animação, 102 minutos
Sinopse: A caçula Anna (Kristen Bell/Gabi Porto) adora sua irmã Elsa (Idina Menzel/Taryn Szpilman), mas um acidente envolvendo os poderes especiais da mais velha, durante a infância, fez com que os pais as mantivessem afastadas. Após a morte deles, as duas cresceram isoladas no castelo da família, até o dia em que Elsa deveria assumir o reinado de Arendell. Com o reencontro das duas, um novo acidente acontece e ela decide partir para sempre e se isolar do mundo, deixando todos para trás e provocando o congelamento do reino. É quando Anna decide se aventurar pelas montanhas de gelo para encontrar a irmã e acabar com o frio.

O mundo das animações está em crise. Até mesmo a Pixar está cansada e sem personalidade. A última animação de grande estúdio que alcançou quase unanimidade de público e crítica foi Up – Altas Aventuras, de 2009. Fora as continuações que já dão preguiça só com o anúncio da sua existência (Carros 2, por exemplo), as tramas inéditas desapontaram profundamente. Que surpresa, então, se deparar com esse Frozen – Uma Aventura Congelante, que não só deve ser o melhor longa do gênero desde WALL-E como também uma das melhores histórias já executadas pela Disney!
Não é exagero dizer que Frozen, favorito a vencer todos os prêmios da temporada, já está destinado a ser clássico. E por uma razão bem simples: aqui, temos os elementos marcantes que tornaram a Disney um estúdio repleto de obras inesquecíveis e outros bastante inovadores. A mistura do clássico com o contemporâneo é o que existe de mais deslumbrante nesse filme da dupla Chris Buck e Jennifer Lee, até porque é perceptível um cuidado mais especial do estúdio com Frozen, da história ao apuro técnico, como se todos estivessem realmente decididos a emplacar o resultado.
No filme, temos uma brilhante trilha sonora (inclusive instrumental, composta por Christophe Beck), responsável por momentos musicais empolgantes e emociantes, dignos de deixar alguns exemplares do gênero realizados em live action comendo poeira. Existe toda uma sinceridade nas músicas, seja na mais marcante delas (Let it Go, viciante, indicada ao Oscar) ou nas que servem mais como elemento narrativo (é o caso de Do You Want to Build a Snowman?, a mais carinhosa de todas). Elas nos remetem aos tempos de ouro em que a Disney encantava os olhos e os ouvidos do público – e não existe elogio maior que esse. Não à toa, a trilha alcançou o primeiro lugar no ranking da Billboard na época de seu lançamento.
Se, em Frozen, estão elementos clássicos do estúdio (ou “previsíveis” e “bobos” na concepção de muitos, o que é uma verdadeira bobagem), também encontramos essa inspirada história da princesa Elsa, que abdicou de toda sua vida para proteger a pequena irmã e todos à volta de seu poder quase que incontrolável de transformar tudo o que toca em gelo. E a boa notícia é que a animação não procura soluções fáceis. Por isso, não espere mocinhas indefesas ou previsíveis. Aqui, Elsa é melancólica e quase irredutível na sua decisão de ser solitária para não causar mal aos outros. Sua irmã, Anna, é à frente de seu tempo e determinada, enfrentando uma eterna jornada para compreender esse afastamento nunca explicado de sua irmã mais velha.
Una a tudo isso resoluções bastante atípicas para o gênero, personagens coadjuvantes encantadores (o boneco de neve Olaf é um dos melhores acertos) e uma linda mensagem sobre qual o verdadeiro amor que precisamos valorizar acima de todos os outros nessa vida. Transitar por esse mundo de visual estonteante é gratificante, pois o roteiro se desenvolve sem qualquer repetição ou desorientação – ao contrário do recente e superestimado Valente, que tinha uma certa crise de personalidade com dois filmes dentro de um. Emotivo e funcional, Frozen tem um excelente ritmo, agrada crianças e adultos e é um verdadeiro sopro de originalidade, força, carinho e cinema em tempos que as animações reforçam a falta de inspiração. Belíssimo início de – quero acreditar – uma necessária retomada do gênero.
FILME: 9.0
A Vida Secreta de Walter Mitty
Life is about courage and going into the unknown.

Direção: Ben Stiller
Roteiro: Steve Conrad, baseado no conto “The Secret Life of Walter Mitty”, de James Thurber
Elenco: Ben Stiller, Kristen Wiig, Shirley MacLaine, Sean Penn, Jon Daly, Kathryn Hahn, Terence Bernie Hines, Adam Scott, Paul Fitzgerald, Grace Rex, Adrian Martinez, Marcus Antturi, Gary Wilmes, Joey Slotnick, Stuart Cornfeld
The Secret Life of Walter Mitty, EUA, 2013, Comédia Dramática, 114 minutos
Sinopse: Walter Mitty (Ben Stiller) é o responsável pelo departamento de arquivo e revelação de fotografias da tradicional revista Life. Ele é um homem tímido, levando uma vida simples, perdido em seus sonhos. Ao receber um pacote com negativos do importante fotógrafo Sean O’Connell (Sean Penn), ele percebe que está faltando uma foto. O problema é que trata-se justamente da foto escolhida para ser a capa da última edição da revista. É quando, Walter, com o apoio de Cheryl (Kristen Wiig) é obrigado a embarcar em uma verdadeira aventura. (Adoro Cinema)

“Ano novo, vida nova” é o que todos costumam dizer em época de revéillon. Mas, afinal, quem ultrapassa essa frase de efeito clichê e realmente transforma sua vida quando um determinado ano chega ao fim? Walter Mitty (Ben Stiller) não resolveu se aventurar em novas situações durante a época de ano novo, mas a sua fuga de rotina em direção ao novo veio bem a calhar com as datas festivas de final de ano do Brasil, já que A Vida Secreta de Walter Mitty entrou em cartaz por aqui justamente nessa época. Se o filme dirigido pelo próprio Ben Stiller tem algumas incoerências e carece de maior força narrativa, pelo menos tem uma mensagem motivacional que deve pegar de jeito os que tanto se comovem com o tal “ano novo, vida nova”. Isso porque a história é, em suma, um pouquinho daquilo que todos nós gostaríamos de fazer mas raramente temos coragem de colocar em prática: deixar de sonhar e começar a viver.
“Ver o mundo. Encontrar o outro. Sentir. Esse é o propósito da vida”, diz o lema da Life, revista em que Walter Mitty trabalha. A “vida” da mensagem – que está exposta na entrada do prédio da redação – se refere ao nome da revista, mas o protagonista certamente se pega lendo os dizeres com outro sentido: o da vida mesmo. E aí está a confusão de A Vida Secreta de Walter Mitty. O personagem por Ben Stiller não viaja o mundo em função de uma epifania libertária. Não. Ele o faz por causa de… Trabalho. Mais especificamente em função do negativo de uma foto que sumiu e que ele precisa urgentemente recuperar para usar na capa da última edição da Life, que está prestes a ser extinta para existir apenas na versão online. Ou seja, ele viaja até a Islândia, por exemplo, não porque decidiu mudar de vida, mas porque precisa imediatamente recuperar o tal negativo antes que seu chefe fique sabendo do desaparecimento.
Assim, é um tanto frustrante ver A Vida Secreta de Walter Mitty com uma proposta de mensagem inspiradora de autodescoberta que não é passada da maneira ideal. Ou seja, o protagonista volta e meia nos lembra que, apesar de estar curtindo o mundo e suas possibilidades, também está constantemente preocupado em manter seu trabalho com as viagens. Não faz sentido com o que o longa vende em sua essência. De qualquer forma, esse novo trabalho de Ben Stiller como diretor é leve e descontraído, funcionando bem quando consegue fazer o espectador esquecer dessa incoerência e até se inspirar com as aventuras de Walter. Só que, para isso, também é bom relevar outras bobeiras e tropeços, entre elas a insatisfação do personagem, repetidamente mostrada por meio das batidas situações “imaginadas”, a vida de Walter cada vez mais miserável em função de seu novo chefe ser incompreensivelmente desrespeitoso e detestável e o roteiro levando tempo demais para desenvolver a rotina e a paixonite do protagonista.
É quando Walter Mitty finalmente embarca em uma viagem que o filme começa a engrenar em simpatia e envolvimento – principalmente a partir do momento em que o cenário é a Islândia. A fórmula para agradar olhos e ouvidos está toda ali, com belíssimas paisagens, uma boa trilha sonora alternativa e aquelas velhas frases de efeito manjadas mas eficientes. Claro que, para alcançar o espectador, A Vida Secreta de Walter Mitty se utiliza de algumas liberdades que não colam (celular pegando no topo de uma montanha? só se auto-descobre quem é rico para viajar?), mas, por incrível que pareça, o resultado sobrevive. Nada é irritante ou sequer próximo de testar a paciência, até porque Ben Stiller está mais contido do que o grande público costuma ver. Ele, aliás, parece estar naquela fase da vida de descobrir outros talentos e abandonar as fórmulas comerciais que um dia lhe trouxeram fama. Seu longa não chega a ser original como prometia, mas consegue o título de feel good movie com as boas intenções. Inofensivo e até mesmo emocionante – se você permitir, claro.
FILME: 7.0



